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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Só sei que nada sei

Esse texto traz notas sobre o diálogo Teeteto[i]

Podemos perceber, no diálogo do Teeteto, a aplicação do método maiêutico de Sócrates que visa a parturição de um conhecimento novo por Teeteto, jovem, mas promissor aprendiz. A questão principal de Sócrates é exatamente tentar delinear o que é o conhecimento e ele luta contra a concepção estabelecida por Protágoras de que conhecimento é percepção, conforme 1.) “Penso, portanto, que aquele que conhece qualquer coisa, percebe o que conhece; e, como aparece no momento, o conhecimento não passa de percepção” (Teeteto falando, p. 70) e 2.) “... a que Protágoras costumava apresentar ... o ser humano é a medida de todas as coisas” (Sócrates falando, p. 70).

Em boa parte do diálogo de Platão, Sócrates vai lidar com essa concepção vigente e chegará mesmo a fazer Teeteto parir essa opinião, de que percepção é conhecimento, mas logo irá subtrair esse primogênito por se mostrar equivocado(p. 86). Há alguns pontos, que podemos destacar, contrários a essa tese e começamos por verificar que ela se baseia na percepção que é diferente em cada pessoa e, também, sobre coisas individuais, e cada indivíduo irá ter uma a sua visão. Ocorre que, o que aparece está em constante mudança tornando difícil o conhecimento, isso estaria no campo do fenômeno e não do ser. Sócrates localiza esse debate na tradição, com Protágoras, Heráclito e Empédocles defendendo que as coisas estão em fluxo constante contra Parmênides, para quem a realidade é uma e imóvel, com a célebre citação de que o ser é e o não-ser não é[ii].

A argumentação é longa e passa por pontos como a análise do movimento e se ele é a causa do ser pois tudo o que existe está em movimento, que pode ser um movimento local ou dos astros, mas também, nesse sentido, nada aparece como ele, pois muda. Sócrates também considera o ponto de vista do nosso interior, isto é, há a percepção do eu e o objeto percebido no mundo, mas volta a reforçar que as coisas que aparecem não são, por conta do fluxo do vir a ser, reforçando a diferenciação entre percepção e conhecimento.

Um ponto interessante na argumentação é que, para Sócrates, ao basear o conhecimento na percepção individual, Protágoras faz com que cada um seja dono de sua verdade e com isso agrada a sua plateia. Mas a verdade para um pode ser falsa para outro, o que deixaria a questão aberta para disputas. Ao questionar a percepção, Sócrates também traz o problema do conhecimento pelos sentidos e argumenta que por eles não se chega na apreensão do ser e da verdade, mas pelo raciocínio, que seria uma atividade da alma que pode atingir as coisas que são.

Há, então, a hipótese de o conhecimento ser um tipo de opinião verdadeira, investiga-se como se forma uma opinião e suas possibilidades de erro bem como a divisão entre conhecer (epistemologia) e ser (ontologia) e se distinguirá entre uma opinião falsa e uma opinião do que não é. Aqui podemos lembrar que muitas vezes a causa do erro é uma opinião sobre algo que não conhecemos, ou imaginamos que conhecemos ou de algo a que associamos um pensamento errático a uma percepção.

A argumentação é longa e complexa e não teríamos condições de fazer um aprofundamento, trata-se de uma primeira aproximação dos principais pontos que nos chamaram a atenção. Mas, parece que a indicação de Sócrates de conhecimento passa pela capacidade de definir algo por uma característica que o torne distinto dos demais, conforme p. 166:

“conclusivamente, aquele que possui a opinião correta sobre qualquer coisa e acrescenta a isso uma compreensão da diferença que a distingue das outras coisas terá adquirido conhecimento dessa coisa, da qual detinha anteriormente somente opinião.”

Embora, ao final, Sócrates afirme que “A conclusão é que nem a percepção, Teeteto, nem a opinião verdadeira, nem a explicação racional associada à opinião verdadeira poderiam ser conhecimento” (p. 169). Porém, Teeteto continua grávido e pode seguir estimulado a continuar tal tipo de diálogo, mas “munido da sabedoria de não pensar que sabes aquilo que não sabes” (p. 169).



[i] Notas sobre o diálogo Teeteto (ou do Conhecimento). PLATÃO. Diálogos I – Teeteto, Sofista, Protágoras. Tradução de Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2007.

[ii] Sobre Parmênides, nota de rodapé 77 e https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2025/02/o-problema-de-parmenides.html. 

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

O problema de Parmênides

Esse texto aborda de maneira geral o problema de Parmênides e uma possível solução lógica

A definição do ser parmenidiano[i]. Foi no seu poema sobre a natureza que Parmênides classificou a arché, isto é, o princípio da realidade, como sendo o ser, algo uno e imutável, algo que é, ao passo que o não ser representava a mudança, não passando de ilusão. Basicamente significa que uma coisa, um ser, não pode vir do não ser, porque o não ser nada é. Então o ser, que é, só poderia vir do próprio ser, que é. Assim, o ser não é gerado e não perece e pode ser considerado finito e redondo, simbolizando a esfera, como elemento da perfeição grega. E é um ser físico, não transcendente.

Conforme explica Costa, há em Parmênides uma separação entre o conhecimento que vem do ser e o erro causado pelo não ser. Conhece-se o imutável e coloca-se em xeque o mundo da mudança heraclitiano, embora para Heráclito o fundamento último por trás dessa realidade é a razão (logos).

Ocorre que o discurso parmenidiano é incoerente e gerou debates intermináveis, pois permite inúmeras interpretações. Haveria para os lógicos, por exemplo, princípios de identidade (o ser é) e da não contradição (o que é não pode não ser). Epistemologicamente falando, deveríamos então buscar a verdade, pelo caminho do ser. Por fim ele acena para um deus imutável e pela busca de leis únicas da natureza. De todo o modo, Parmênides introduz a substantivação do ser, que também será bastante utilizada na história filosófica. Mas Costa considera que o termo “ser” é usado de forma hipostasiada[ii], como esclarecido pela filosofia de Wittgenstein, por usa terapia de uso da linguagem.

Parmênides e a linguagem[iii]. De acordo com Desidério, é Parmênides que realiza as primeiras reflexões instrumentais sobre a linguagem, na história da filosofia. Façamos a distinção: podemos refletir sobre a linguagem, sua natureza, uso, e podemos usar a linguagem para fazer considerações filosóficas. Nesse sentido, Parmênides realiza uma virada na filosofia até então, quando os filósofos se aproximavam dos cientistas, e passa a tecer considerações linguística acerca da natureza última do mundo, ele realiza uma análise conceitual. Ocorre que, salienta Desidério, quando nos valemos de um exame conceitual para compreendermos o mundo podemos cair em meros jogos de palavras.

Não seria mera tautologia dizer que “o que é, é”? Ou que “coisas que não são, não são”? É ilusão dizer que algo não é e há confusão entre o verbo ser e a realidade. Se utilizando de recursos linguísticos apenas, a expressão o que é revela incoerências, mas esse tipo de método não reflete sobre a linguagem. Lembremos dos paradoxos que partem de situações banais e nos fazem cair em contradições. Então, faz-se necessário escrutinar a linguagem, como é o caso de dizer que, não que “uma coisa não é”, mas que “uma coisa não é outra coisa”, sem cair em incoerências[iv].

Tentativas de resolver o problema[v]. Como problematizado por Parmênides há contradição na mudança do ser ao não ser e tal realidade seria absurda. Porém, as soluções gregas não negam esse ser, mas passam por abordagem dualistas, seja a platônica ou a aristotélica. Para o primeiro, tal contradição é aparente: o mundo que conhecemos é o mundo sensível, das aparências, mas há um mundo inteligível, de essências, que é imutável. É pela transcendência, em um mundo habitado por ideias elevadas que podemos compreender a instabilidade.

Se Aristóteles herda essa visão dualista, sua solução não será transcendente porque ao pleitear um mundo das ideias teríamos o problema de o correlacionarmos com o mundo sensível. O estagirita entende que a duplicação não é solução, mas uma fuga da realidade sensível. Ora, se para cada coisa há um arquétipo no mundo ideal, a criação de um novo objeto significaria que apareceria, para ele, um novo modelo? Isso é contraditório, já que os modelos são eternos e imutáveis.

Não é o caso de explorarmos outras dificuldades na abordagem platônica, mas o fato é que o problema se coloca porque não há ciência sobre o que muda, o que é efêmero. É pela estabilidade que identificamos as coisas e as conhecemos. De posse disso, Aristóteles postula um dualismo não transcendente que se divide entre o sensível e o inteligível. Desse modo, não duplicamos a realidade, mas a encaramos em sua forma múltipla e a ordenamos para que o conhecimento seja possível.

Para Aristóteles, é pelo uso de instrumentos intelectuais que vamos além da sensibilidade e tornamos a realidade inteligível. Segundo o professor Franklin, essa é a forma de pensar contemporânea, que trata de coisas diferentes (sensível e inteligível) mas juntas, em uma relação imanente. Assim, podemos contrapor a realidade pelo pensar lógico que não salta para a transcendência. Por fim, ressalta Franklin, o mundo das ideias é uma concepção platônica, já que Sócrates procurava por definições, ele visava identificar as coisas sensíveis não individualmente, mas genericamente, onde é a morada do conhecimento[vi].



[i] Esses três primeiros parágrafos foram extraídos do dicionário de filosofia de Cláudio Costa. Ver https://www.youtube.com/watch?v=mHYcPxw84n8.

[ii] “Segundo a reflexão moderna e contemporânea a hipóstase é um equívoco cognitivo que se caracteriza pela atribuição de existência concreta e objetiva (existência substancial) a uma realidade fictícia, abstrata ou meramente restrita à incorporalidade do pensamento humano. A correção monetária brasileira é uma hipóstase da ideia de valor.” - https://letacio.com/2015/03/19/do-ponto-de-vista-filosofico-a-correcao-monetaria-e-uma-hipostase/.

[iii] Nessa seção argumentamos conforme curso remoto de Filosofia da Linguagem, ministrado pelo professor Desidério Murcho entre 15 de janeiro e 6 de fevereiro de 2024.

[iv] De acordo com Desidério, Platão teria feito essa análise nos diálogos Sofista e Parmênides.

[v] Essa última sessão baseia em uma aula de Franklin Leopoldo e Silva: https://youtu.be/glXXqTXol8Y.

[vi] Vimos isso no Teeteto que acabamos de ler e vamos anotar algo nesse espaço. 

sábado, 18 de novembro de 2023

A semântica da pós-verdade no discurso ordinário

Esse texto busca refletir sobre linguagem, ciência, tecnologia e mundo na atualidade, pelo menos em um ou outro aspecto

Não dá para saber até que ponto uma suposta linguagem pura ou ideal foi ou é a base para a linguagem do dia a dia, embora a filosofia em alguns momentos tenha tido essa pretensão, sob forte influência da ciência. Há maneiras e maneiras de proceder na análise do discurso por um viés filosófico, fato reforçado com a virada linguística do início do século passado e que coloca em dúvida a posição da consciência como detentora primordial do conhecimento, em prol da linguagem. Essa suposta linguagem pura ou ideal é fortemente baseada na análise lógica e na objetividade, buscando uma comunicação límpida e cristalina. Porém, basta dez minutos do Programa do Ratinho para perceber o quanto isto é inalcançável.

Claro que, sem dúvida, uma outra abordagem é aquela que busca explicitar a própria linguagem em seus usos. Ela usa da linguagem para explicar a linguagem, ela analisa as sentenças da linguagem e seus termos e variações buscando desvelar em qual sentido um determinado termo é usado em um contexto ou outro[i]. Se esse projeto de escrutínio linguístico mediante a filosofia é menos pretensioso ainda assim ele talvez possa estar preso a contextos específicos, embora pudesse até ser aplicado na própria ciência. Ora, mas por que a ciência novamente?

Bem, desde o renascimento que nós, human@s, noss@s maiores expoentes se apropriaram da natureza por meio da atitude científica que descreve e prescreve a realidade e que tornou possível todo esse suposto progresso que culmina agora com as mais avançadas formas de IA (inteligência artificial, seja lá o que isso queira dizer). Com o predomínio científico que nos domina há mais de 500 anos, a ciência se estabelece como campo inabalável de conhecimento e como fundamento de nossas conquistas mais expressivas, tanto boas quanto ruins[ii]. E não nos esqueçamos que a ciência é um navio em alto mar sempre em reconstrução, mas com bases sólidas e que atrai todos os demais tipos de conhecimento para que sigam o seu método, seja a medicina, psicologia, biologia e filosofia.

A ciência abocanha, então, natureza e humanidade em seu proceder, entretanto há efeitos colaterais. Uma tendência científica que atualmente estampa qualquer linha editorial ou publicação periódica, das mais liberais até as mais revolucionárias é a discussão sobre o ChatGPT, uma variação de inteligência artificial capaz de gerar novas informações a partir do “aprendizado”[iii] de toda a sua base histórica que dificilmente pode ser computada por um reles mortal. Isso ao mesmo tempo em que já tínhamos acompanhado manipulações do discurso e da verdade por grupos de pessoas e de empresas ao redor do globo, influenciando em eleições, prisões e demais sandices. Quanto temos nos deparado ultimamente com discursos mentirosos, mas convincentes, com negacionismos e falsa moral? Suas origens são as mais variadas, sejam elas políticas, religiosas e, quiçá, cientificas[iv].

Além do mais, junta-se a esse panorama o grande potencial de divulgação por meio das jamais reguladas big techs e a ilimitada internet e temos tipos de discursos nada passíveis de análise linguística com base científica ou em seu método. E as capacidades de criação que o ChatGPT agrega para os propagadores de inverdades torna o círculo vicioso: mais se produz de desinformação e mentira, mais a IA reproduz desinformação e mentira.

Isso tudo posto, chegamos à semântica da pós-verdade: uma que não permite uma análise lógica do discurso, pois o discurso se tornou contrafactual. Análise de proposições, verificacionismo, verdade e justificação racional são conceitos que não tomam lugar no discurso majoritário. A realidade foi colocada em dúvida e enunciados científicos não tem mais poder de persuasão[v]. Diante desse cenário só nos resta tomar o pragmatismo como método de menor dano. O tema já não é novo[vi], mas o que nos chama bastante a atenção é o quanto devemos fazer esforços em dois sentidos, pelo menos: primeiro tentando trazer o discurso teórico para mais perto da prática regular, para que ele não se torne um discurso estéril e, depois, tentando exercer o convencimento, tarefa tão difícil nesse momento de enorme polarização[vii].

Já o escrutínio do discurso pode levar em consideração aspectos semânticos dos textos que delatem sua origem com foco, quando se atendo à formação de opinião, tanto na produção artificial pelo ChatGPT ou pelas fake news. O primeiro passo é identificar a origem do discurso para que as ações possam ser direcionadas: discursos mentirosos produzidos por pessoas são motivo de crime e o discurso gerado por IA pode ser aceito, mas deve ser informado. Por 50 mil anos, a linguagem tem sido a essência de nosso pensamento e base da comunicação humana e não podemos deixar que um tempo miserável coloque em xeque toda essa evolução biológica.



[i] Não cabe aqui filiar uma teoria de análise da linguagem a um projeto filosófico qualquer.

[ii] Esse espaço blogueiro abriga, nesse contexto, algumas abordagens em filosofia da tecnologia.

[iii] Isto é, cálculo estatístico e probabilístico, no mais das vezes enviesado.

[iv] Pelo menos filosóficas podemos ver aos montes por aí.

[vi] Alyne Costa já falava disso no Conversações há 3 anos atrás: https://youtu.be/HlM5d699fYw.

[vii] A direita e a esquerda, os conflitos na Ucrânia e Gaza mostram o quanto os argumentos estão a mercê da empatia, isso já falava Quine. Ilustração: https://youtu.be/cmizWUX_gt0.

sábado, 8 de maio de 2021

Primeiro se crê, depois se prova que há razão em crer

Dos percalços que ocorrem quando se tenta unir conhecimento e fé, mas que abrem caminho para a ciência moderna[i]

Grécia. Antes de procurar verdade e teoria nos mil anos de Idade Média, Vargas inicia com citação de Aristóteles postulando que o “fim de toda a teoria é a verdade”, aqui entendendo-se a lógica como instrumento da episteme que tem na physis[ii] uma natureza perene e certa.

Influência platônica. Com o advento do cristianismo, a realidade certa passa a depender de um Deus que a pode destruir e a teoria a Teologia com a lógica sendo a arte de revelar raciocínios corretos. Com a tradução da Bíblia ao latim por São Jerônimo em ~400, a lógica deve então demonstrar a Verdade da Revelação[iii]. Agostinho, nessa mesma época, iguala a busca da verdade à procura de Deus, um platônico: realidade inteligível, necessária, imóvel e eterna. Deus é um ser supremo e o mal vem do livre-arbítrio humano.

Alguns séculos depois, Santo Anselmo demonstra a existência de Deus como a maior coisa que se pode pensar e, do que decorre, existir. Em seu tratado sobre a verdade, ele a localiza no enunciado, isto é: “para ser verdadeiro o enunciado deve significar existir o que existe”. Se os sentidos enunciam o que podem, a verdade está no juízo da alma e, daí, oriundo da mente divina. Nesse sentido, tanto Santo Agostinho quanto Santo Anselmo seguem Platão, mas há um primado da fé na Verdade Revelada que subordina a razão.

Influência aristotélica. Porém, no século XII, sob a influência da lógica e da física aristotélica, passa-se a tentar demonstrar racionalmente os enunciados da fé. Para São Tomás, fundamentado na episteme theoretike, a Verdade Revelada está em acordo com a razão que demonstra proposições e refuta argumentos não válidos. Como mostrou, primeiro se crê, depois se prova que há razão em crer. Se, em Aristóteles, os primeiros princípios são evidentes em si, em São Tomás são artigos de fé revelados por Deus e a correlação entre teoria e verdade. Ele demonstra a verdade usando a lógica, mas no intelecto divino ela é eterna e resulta em muitas para o homem, que não é eterno.

Vargas cita ainda, no século XII, disputas envolvendo franciscanos e dominicanos como a querela dos universais (homem, cavalo, triângulo) que, sendo abstratos, só existiriam na mente de Deus ou seriam invenções humanas. Já o nominalismo defende a ideia que os universais são meras palavras e que a teoria é feita de enunciados universais, por isso não se pode fazer uma teoria do divino, além de qualquer conhecimento.

A ciência, então, não seria feita através de verdades oriundas da mente divina, mas de um experimentalismo e a apreensão de como a coisa ocorre na natureza. O franciscano Bacon (1214) tratava essa experiência como uma vivência do fenômeno quase mística até aceitando a alquimia. Já para o tomismo, os universais existem como reais na mente de Deus. Isso se dá na teologia como ciência teórica quando o intelecto se conforma com a coisa conhecida à semelhança como estão na mente divina.

Impossibilidade teológica. No século XIV, Occam (sic) fortalece o nominalismo como uma realidade de entes particulares, mas que são abrangidos pela experiência, tornando a Teologia impossível: o conhecimento de Deus só se daria por fé ou mística. A ciência se organiza pela lógica que verifica o que há de comum na realidade e dá rumo à ciência moderna, que prevalece a partir de Galileu. Citando Vargas:

“De então para cá as teorias são elaboradas a partir de conjecturas; depois desenvolvidas preferivelmente por deduções matemáticas e, finalmente, verificadas comparando-se uma conclusão particular da teoria, com experiência organizada e interpretada de acordo com a própria teoria; algo totalmente estranho às noções medievais de verdade”.



[i] Conforme Teoria e Verdade na Idade Média, Capítulo 5 de Vargas, M. (1994). Para uma filosofia da tecnologia. São Paulo: Alfa Omega.

[ii] Não custa lembrar, physis é a natureza, mas uma natureza animada e autônoma e episteme é a teoria, o conhecimento. Portanto, mais uma vez, um conhecimento em que não cabe dúvida.

[iii] Todas as iniciais em maiúscula são do autor.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

A queda: quando o sujeito se torna interlocutor.

Trata-se de um sobrevoo sobre os impactos da virada linguístico-pragmática no modelo de conhecimento que vinha do século XVII.

Abordaremos os aspectos iniciais do artigo de Inês[i], referente à virada linguística e pragmática do início do XIX.

Primeiro degrau: a virada linguística. A virada linguística derruba a filosofia da consciência, que começa no XVII, principalmente com Descartes e o cogito, Locke e as ideias oriundas da experiência e Kant e sua razão pura. Inês chama o período de modelo fundacionalista, em que há uma busca da verdade e certeza baseada na relação do sujeito cognoscente com o mundo dado como objeto conhecido, relação mente-mundo, no qual linguagem e comunicação tinham papel secundário.

Com Frege e o primeiro Wittgenstein, conforme já expusemos em “Wittgenstein e a teoria da figuração”[ii], a relação do pensamento com a proposição supera a representação do objeto que estava restrita à mente. Nesse sentido, a proposição materializa (termo meu) o pensamento e permite ser compartilhada, ultrapassando os limites da consciência individual. A estrutura simbólica do pensamento passa da consciência para a linguagem.

A virada linguística, então, conforme Inês, dá novo sentido ao problema epistemológico, no qual a razão imperial cede lugar às proposições dizendo o mundo. O velho dualismo, que opunha inteligência e sensibilidade, res cogitans e res extensa, razão pura e razão prática é superado, na virada, pelo pensamento expresso em proposições do tipo “algo é o caso”, que tem valor de verdade. O significado é a verdade.

Segundo degrau: a virada pragmática. Já a virada pragmática vem com a influência de Peirce e do segundo Wittgenstein[iii] e a revisão da semântica veritativa da virada linguística. Se o esquema fregeano é o da referência sentido-significado, Peirce traz o esquema triádico composto do signo, objeto e interpretante, onde há contexto de fala e fatores pragmáticos de comunicação. É aqui que nem mesmo a proposição tem sua garantia, mas ela precisa ser manifestada e avaliada pela comunidade. A linguagem não se constitui de proposições assertóricas, mas do “entender-se entre si sobre algo no mundo”.

Da semântica para a pragmática, desloca-se o valor de verdade do real (proposições veritativas) para a validade epistêmica. A virada linguístico-pragmática traz a justificação baseada na aceitabilidade racional, em discussões e aprendizado. A pragmática adiciona ação e a idealidade da validade do juízo deve ser avaliada, ou seja, a referência não mais detém o monopólio veritativo.

Se o primeiro Wittgenstein via a pureza da lógica da linguagem, o salto de 29/30 para o segundo Wittgenstein e os jogos de linguagem trazem a multiplicidade, a proposição lógica passa a ser só mais uma. Conforme Inês: “A proposição bipolar, que figura estados de coisa no mundo, cede lugar à multiplicidade dos usos linguísticos, com suas múltiplas gramáticas.”[iv]

Com o segundo Wittgenstein, conforme Inês, não há mais um significado que paira na cabeça dos indivíduos e nos jogos de linguagem a representação do objeto deixa de ser o centro, pois importa a apresentação das coisas. A referência, a proposição e o correlato pensamento-linguagem perdem espaço para o modo de apresentação em cada jogo e aos empregos de termos, no uso comum.

O modelo do Tractatus trazia consigo um fundamento [transcendente] que já não cabe mais na práxis do aprendizado para que seja feito um uso correto da linguagem, que permita compreensão. Então, nesse paradigma pós-metafísico, não cabe perguntar como captamos a realidade, pois a consciência passa a ser uma “disposição” (termo meu) ou comportamento compreendido em um contexto. Para o segundo Wittgenstein até mesmo a certeza é um comportamento e não um estado mental ou consciência psicológica pessoal. A certeza vem de razões fundamentadas e é de onde vem a dúvida também e ambas duelam no terreno da compreensão e da interpretação não sendo possível um único critério que teria sido vislumbrado na virada linguística.

* * * * *

Concluímos dizendo que pretendemos, nessa breve análise apoiada no artigo de Inês, situar o papel que a linguagem passa a ter na filosofia e na teoria do conhecimento no início do século XIX e de como isso significa uma tentativa de afastamento da metafísica, porém trazendo também as contradições dentro da filosofia analítica.

De todo o modo, nos parece importante ressalta que o polo do sujeito perde força, na primeira virada significando que já não é mais a consciência por si só que tem a primazia no conhecimento, mas a linguagem que mostra o mundo. No segundo momento, até mesmo as proposições ou os enunciados devem ser justificados perante uma segunda pessoa para terem validade, e aí o sujeito passa a ser um mero interlocutor que deve se esmerar na comunicação correndo o risco de simplesmente não fazer parte da conversa.



[i] Acesso no link https://periodicos.pucpr.br/index.php/aurora/article/view/1483/1414, em 14/01/2021. A NATUREZA DO CONHECIMENTO APÓS A VIRADA LINGÜÍSTICO-PRAGMÁTICA, Inês Lacerda Araújo. Não abordaremos o principal: Habermas e sua teoria de ação comunicativa e a ênfase na intersubjetividade presente nos atos de fala.

[iii] Ibidem.

[iv] Inês. Op cit., p. 111.

domingo, 16 de agosto de 2020

O mistério das coisas

Nós estamos inseridos em uma realidade que funciona para nós e isso é evidente. Eu não duvido [e nem questiono] que o copo de vidro com a água que estou bebendo possa dissolver de repente ou que a água subitamente irá evaporar, dentro das condições que me encontro agora. Embora eu não saiba exatamente de que minério é feito o copo ou mesmo as condições exatas para a água evaporar.

Tudo isso, essa realidade, não é tão misteriosa. Eu posso saber, algum homem sabe, o Homem sabe. Porém, eu também não duvido que amanhã o sol vai nascer em seu horário corriqueiro e que novas árvores florescerão. Essas outras coisas são muito certas, mas são mais misteriosas. E o universo que está além da terra? É exponencialmente misterioso, assim como a quantidade de sinapses em meu cérebro. E eu também imagino que quem lê esse texto vai interpretá-lo mais ou menos da forma como desejo, ou seja, que há uma estrutura racional compartilhada que neurocientistas, filósofos e outros especialistas estudam, mas que estão longe de obter todas as respostas e nem que as obtidas até agora perdurarão ou cairão por terra.

Então, de tudo que experienciamos e para que possamos viver, há coisas que a humanidade como um todo sabe e muitas outras que não. E estamos evoluindo, a cada dia conhecemos mais sobre os mais variados assuntos e aumentamos o edifício do saber. Mas conheceremos tudo, saberemos tudo ou poderemos explicar tudo? Definitivamente não.

Há um vácuo explicativo que podemos chamar de o mistério das coisas (o mistério da vida, da justiça, do Big Bang, do ar transparente que respiro e me faz viver). Há muito mais coisas misteriosas e a serem explicadas do que coisas que conhecemos e sabemos. O mistério das coisas é, para alguns, o que se chama Deus, Ala, orixá, espírito, etc. Todos esses nomes, essas entidades potentes, só existem por causa do mistério das coisas. Para o importante problema invisível do mistério das coisas uma solução não menos importante e invisível. Essa é uma maneira de viver dentro daquela realidade que funciona. Funciona admitir que eu conheço uma pequena gama de coisas, a humanidade uma vasta gama de coisas e todo o resto, tudo, deixamos nas mãos dos deuses.

Isso não importa tanto, são nomes diferentes para o mistério das coisas. O que mais importa é que o conhecimento evolua dentro de regras éticas e de maneira colaborativa. E que evolua para todos os lados, respeitando a todos, respeitando a auto determinação dos povos e o direito dos povos originários sobre a terra. Nesse ponto, a disputa é entre o nosso conhecimento e o mistério das coisas. Assim viveremos, até o fim, nessa tarefa de superar o mistério das coisas e essa talvez seja nossa mais importante missão enquanto conformados em um corpo que pensa e vive.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Sobre mesa[i]

Nesse primeiro capítulo Russell aborda um objeto simples, uma mesa, para enfatizar o problema do conhecimento, por um lado e, por outro, o papel da Filosofia. Desde este início já podemos notar o uso do método cartesiano e a refutação ao idealismo.
Ao se perguntar se há algum conhecimento no mundo do qual não se pode duvidar, Russell entra no campo da teoria do conhecimento argumentando que só uma filosofia crítica e não dogmática pode responder, depois de muita investigação. Retomando Descartes, mas sem [ainda] o citar, Russell analisa a mesa para mostrar que o conhecimento oriundo da experiência é duvidoso e controverso já que nossos sentidos não são sempre precisos e que há diferentes pontos de vista que variam em cada um de nós, com relação à mesa.
O questionamento do conhecimento pelos sentidos levanta a questão central da aparência versus realidade. Tomamos por real uma mesa a partir de suas características aparentes, ou seja, do que inferimos do que vemos. E existe muito de nós no que vemos: a forma da mesa criada por nós não vem somente da mesa, mas do que nossa sensação obtém. A isso Russell nomeia “dados-dos-sentidos”, contrapondo-os ao objeto físico.
A mesa que vemos e temos, então, são dados-dos-sentidos, mas há de fato uma mesa real? Há um objeto físico despido de dados-dos-sentidos e livre de nossa sensação? Essas questões podem ser extrapoladas para uma questão mais ampla: há, de todo, matéria? Tal questão do problema do conhecimento foi respondida, como Russell retoma, pelos idealistas. Para eles só há mesa para uma mente, ou seja, há uma mesa lá porque estamos cientes dela. Porém, ao fecharmos os olhos, a mesa desaparece? Com certeza não, porque Deus está ciente, de acordo com o bispo Berkeley.
Desse modo adentramos no terreno da dicotomia mente e matéria. Há uma mesa dura, marrom, que eu posso tocá-la e o faço pela garantia da mente de Deus. A filosofia de Berkeley supõe que a mesa real é feita de mente e põe em dúvida a existência da matéria. E, não podemos considerar essa ideia absurda, pois foi acompanhada por muitos filósofos.
Russell considera tal argumento falacioso e retoma a dúvida: há objeto físico, matéria? De que natureza? Para Russell há razões para supor que há uma mesa real e a investigação continuará, mas, por agora, já mostrou o papel da filosofia: tornar uma simples mesa um problema cheio de possibilidades.



[i] Há uma primeira resenha desse primeiro capítulo de Russell disponível no link que se segue: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2019/04/o-mundo-nao-existei.html. Já a atual é feita com base na tradução de Desidério Murcho, Edições 70. Abril de 2008. RUSSELL, B. “Os Problemas da Filosofia”.

domingo, 15 de setembro de 2019

Criticismo Filosófico [i]

A Ideia Absoluta de Hegel. Russell diz que é prática comum na filosofia o uso de um raciocínio metafísico a priori para tratar de dogmas da religião, universo, matéria, etc., que, porém, não sobreviveria a um escrutínio crítico. Para ele, o representante desse pensamento é Hegel, que estabelece que o todo é composto por partes fragmentárias incapazes de existirem sem o resto do mundo.  Nesse sentido, o filósofo, a partir de qualquer amostra de realidade pode ver o todo, como se cada pedaço fosse enganchado com o próximo e assim por diante. Russell diz que, de acordo com Hegel, essa incompletude aparece tanto no mundo das coisas quanto no dos pensamentos, composto por ideias enganchadas que, através da contradição, uma ideia se transforma em antítese para daí virar síntese que, ainda incompleta, inicia um novo ciclo e, sucessivamente, avança até a "Ideia Absoluta".[ii] Essa ideia absoluta descreve a realidade absoluta que seria o que Deus vê: uma unidade espiritual imutável, perfeita e eterna.
Os problemas com a Ideia Absoluta. Russell argumenta que, apesar de parecerem sublimes, ao serem investigados os argumentos são confusos. Hegel diz que o que é incompleto não subsiste por si só e depende de relações com outras coisas que fazem parte de sua natureza. Por natureza de uma coisa, Russell entende que seja “all the truths about the thing”. Se parece claro que a verdade que liga uma coisa à outra não subsiste se a outra coisa não subsiste, essa verdade não é parte da coisa, mas, segundo Hegel, é parte da natureza da coisa. Russell, então, enfatiza a confusão da natureza entre conhecimento de coisas e conhecimento de verdades. Se assumirmos que a natureza da coisa consiste nas verdades da coisa, deveríamos conhecer todas as relações da coisa com todo o universo, porém isso não é possível e ainda assim conhecemos a coisa, mesmo quando sua natureza não é completa. Conhecemos uma coisa por familiaridade até mesmo sem conhecer nenhuma proposição da coisa. Ou seja, conhecer uma coisa não requer conhecimento da natureza da coisa, conforme acima, embora esse conhecimento esteja envolvido no conhecimento de qualquer proposição da coisa[iii]. Russell diz que o fato de uma coisa ter relações não quer dizer que elas sejam logicamente necessárias já que não podemos deduzir suas relações, somente o faríamos depois de conhecê-las. Ou seja, não podemos provar que o universo forma um todo como queria Hegel, e o que se seguiria disso: a irrealidade do espaço, tempo, matéria, etc. O resultado é a inviabilidade de uma análise sistêmica e a filosofia segue a análise indutiva e científica.
Argumentação Metafísica. Segundo Russell, o trabalho metafísico se assentou em provar que as características do mundo eram autocontraditórias e por isso não reais. Porém, os modernos vão no sentido de mostrar que essas contradições eram ilusórias e que muito pouco pode ser provado a priori de considerações do que deve ser. Por exemplo, espaço e tempo parecem ser infinitos em extensão, por mais que tentemos não achamos um fim. Por menor que seja um espaço ou tempo sempre podemos dividi-los novamente e assim sucessivamente até o infinito. Porém, contra esses fatos aparentes, filósofos argumentaram que não haveriam coleções infinitas de coisas. Daí surge uma contradição entre a aparente natureza do espaço e do tempo e a suposta impossibilidade de coleções infinitas. Quando Kant enfatizou essa contradição deduzida da impossibilidade do tempo e do espaço declarados por ele subjetivos, os filósofos trataram tempo espaço como sendo aparentes e não fazendo parte do mundo real, como ele é.
Contribuição da Lógica. Porém o trabalho de matemáticos, principalmente Cantor, mostrou que a impossibilidade de coleções infinitas era um erro, invalidando uma das grandes construções metafísicas. Conforme Russell: "They are not in fact self-contradictory, but only contradictory of certain rather obstinate mental prejudices". Os matemáticos não só mostraram que o espaço como se supõe ser é possível, como também que outras formas de espaço são possíveis como a lógica pode mostrar. Por exemplo, alguns axiomas de Euclides que influenciaram filósofos retiraram sua aparente necessidade de nossa familiaridade com o espaço atual conhecido e não com alguma fundação lógica a priori. Imaginando mundos em que esses axiomas fossem falsos, os matemáticos criaram espaços diferentes do nosso e mesmo colocando em dúvida se nosso espaço é estritamente euclidiano. Até então a experiência descrevia uma possibilidade de espaço que a lógica mostrou impossível, agora a lógica mostra muitos espaços possíveis que a experiência apenas parcialmente decide entre eles. Russell abre o mundo para enormes possibilidades onde pouco é conhecido: "Thus, while our knowledge of what is has become less than it was formerly supposed to be, our knowledge of what may be is enormously increased". A lógica, então, torna-se a grande libertadora da imaginação apresentando inúmeras alternativas para a experiência decidir, quando possível, entre os mundos oferecidos.
Criticismo Filosófico. O conhecimento, não fica limitado à experiência atual, mas ao que podemos aprender da experiência, conforme o conhecimento por descrição, que não se prende a uma experiência direta. Nesse tipo de conhecimento, porém, precisamos de uma "conexão de universais" que nos permite inferir um objeto de um dado. É a conexão de universais que nos permite extrair dados-dos-sentidos de objetos físicos, ou seja, dá munição para a experiência, assim como da lei da causalidade para lei da gravitação. A lei de gravitação, segundo Russell, é uma combinação da experiência com um princípio a priori como o princípio de indução.[iv] O conhecimento filosófico é um tipo de conhecimento científico, a diferença é o criticismo que procura inconsistências nos conhecimentos científicos e da vida diária. Embora a investigação de Russell tenha refutado, criticamente, um sistema metafísico como não estando a altura da ciência, ao contrário, a crítica filosófica corrobora em muito o conhecimento empreendido pela humanidade. Porém, Russell impõe um certo limite na crítica já que um ceticismo absoluto (blank doubt) impede qualquer tipo de conhecimento tornando-se destrutivo. A essência da crítica, para Russell, é a dúvida metodológica cartesiana, analisando cada aspecto do conhecimento, como feito nessa investigação com os dados-dos-sentidos que pareciam indubitáveis e levaram a rejeitar uma semelhança direta com o objeto físico. A filosofia não rejeitaria um conhecimento impassível de objeção. O criticismo filosófico analisa cada parte aparente de conhecimento em seu mérito e retém o que se mostra ser de fato um conhecimento, admitido o erro proveniente da falibilidade humana. Ocorre que a filosofia reduz a chance desse erro tornando-o às vezes irrisório, mais do que isso não é prudente esperar.




[i] Bertrand Russell, Problems of Philosophy. THE LIMITS OF PHILOSOPHICAL KNOWLEDGE. Acessado em 18/7/2019: http://www.ditext.com/russell/rus14.html. Ver o seguinte fichamento e os anteriores: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2019/08/conhecimento-erro-e-opiniao-provavel.html.
[ii] Ideia absoluta que “has no incompleteness, no opposite, and no need of further development”.
[iii] Hence, (1) acquaintance with a thing does not logically involve a knowledge of its relations, and (2) a knowledge of some of its relations does not involve a knowledge of all of its relations nor a knowledge of its 'nature' in the above sense.
[iv] Thus our intuitive knowledge, which is the source of all our other knowledge of truths, is of two sorts: pure empirical knowledge, which tells us of the existence and some of the properties of particular things with which we are acquainted, and pure a priori knowledge, which gives us connexions between universals, and enables us to draw inferences from the particular facts given in empirical knowledge. Our derivative knowledge always depends upon some pure a priori knowledge and usually also depends upon some pure empirical knowledge.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Do conhecimento à opinião há erro*

Russell tratará de verificar se conseguimos distinguir entre crenças verdadeiras e falsas, iniciando com o que significa conhecer. Se parece que o conhecimento é o resultado de uma crença verdadeira, pode às vezes acontecer de uma crença verdadeira ser deduzida de uma crença falsa e isso não resulta em conhecimento. Ou de um processo falacioso de raciocínio,  até mesmo com premissas e conclusão verdadeiras.
Segundo Russell, o conhecimento é algo deduzido de premissas conhecidas, ou seja, um conhecimento derivativo de premissas conhecidas intuitivamente, desde que assumida uma conexão lógica válida. Há, até mesmo, conhecimento que pode ser uma inferência de uma notícia de jornal obtido pelos dados-dos-sentidos da leitura da notícia que não é, de fato, uma inferência lógica, mas inferência psicológica. Russell diz que não há uma definição precisa de conhecimento pois este pode ser estender até a provável opinião. Se o conhecimento derivativo depende do indutivo, o último não tem um critério certo de conhecimento ou erro[i].
Russell, então, compara o conhecimento de verdades, que corresponde ao complexo dito no capítulo anterior, com o conhecimento por familiaridade e situa o último como dependente da percepção e não suscetível ao julgamento que pode acarretar em erro. Então ele distingue os dois tipos de autoevidência que se seguem.
Conhecimento autoevidente de um fato particular fica privado a uma pessoa: dados-dos-sentidos, um sentimento, já fatos relacionados a universais não têm essa privacidade e podem ser conhecidos por muitas mentes por familiaridade. Assim, uma garantia absolutamente de autoevidência é quando conhecemos por familiaridade os termos e a relação envolvidos em um complexo, neste caso o julgamento de que os termos estão relacionados deve ser verdadeiro.
Entretanto, passar da percepção de um fato complexo ao seu julgamento não é um processo infalível porque pode terminar em não correspondência devido a algum erro. Já o segundo caso de autoevidência apresenta graus, não por conta dos dados-dos-sentidos, mas pelos julgamentos duvidosos sobre eles[ii]. Já nos conhecimentos derivados, as últimas premissas devem ter alto grau de autoevidência, como quando em matemática partimos de axiomas e devemos demonstrar os resultados.
Encerrando, Russell argumenta que se no que acreditamos é verdade, tem-se conhecimento, seja intuitivo ou inferido, caso contrário se falso é erro e, não sendo ambos, é uma opinião provável. Na base, há o conhecimento intuitivo em proporção aos graus de autoevidência. A opinião provável pode se valer do critério da coerência que é usado nas ciências e filosofia, mas que por si só não se transforma em conhecimento indubitável.



* Bertrand Russell, Problems of Philosophy. KNOWLEDGE, ERROR, AND PROBABLE OPINION. Acessado em 12/7/2019: http://www.ditext.com/russell/rus13.html. Ver o seguinte fichamento e os anteriores: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2019/07/a-unidade-complexa-de-russell.html.
[i] Conforme Russell: “all our knowledge of truths is infected with some degree of doubt, and a theory which ignored this fact would be plainly wrong”.
[ii] Graus como ocorrem na afinação de um instrumento, ele cita.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Graus de autoevidência*

Russell inicia dizendo que geralmente todas nossas crenças são capazes de prova por alguma razão ou mesmo outra crença, embora isso não ocorra conscientemente. Porém, ao subir na escala das razões, questionando-as, chegaremos a princípios gerais evidentes e não dedutíveis, ao nível da indução, e princípios lógicos não demonstráveis. Russell ressalta que até proposições aritméticas simples, mesmo que deduzidas, têm tanta evidência quanto princípios lógicos e os princípios éticos como: "we ought to pursue what is good”, embora esses últimos mais questionáveis.
Russell diz que, ao comparar princípios gerais com casos particulares, os últimos são mais evidentes, como no caso de uma rosa que estamos vendo, não podemos dizer que é e não é vermelha[i], excetuando-se aí os casos que usam abstração. Somam-se aos princípios gerais as verdades autoevidentes diretamente derivadas da sensação, chamadas por Russell de verdades da percepção e sobre as quais recaem julgamentos da percepção, embora não verdadeiros ou falsos. São verdades obtidas dos dados-dos-sentidos, porém não se pode dizer de uma amostra de cor que é verdadeira ou falsa, ele simplesmente existe.
Há, então, um julgamento da existência dos dados-dos-sentidos e outro que o analisa, ambos considerados por Russell verdades autoevidentes. No segundo caso, dados-dos-sentidos têm constituintes como um pedaço de vermelho que é redondo e nossos julgamentos revelam essas relações. Outro julgamento intuitivo abordado por Russell é a memória, a qual coloca na frente de nossa mente um objeto que remete ao passado trazendo todo o conhecimento do que vivenciamos. Russell comenta que os julgamentos da memória dependem do quão recente foram nossas experiências: as mais recentes mais vívidas, porém as mais antigas não nos trazem uma certeza evidente. Ou seja, há graus de evidência e fidedignidade do que apreendemos pela memória.
Ele enfatiza essa característica da autoevidência, que são os graus, desde os mais altos como verdades da percepção e princípios lógicos, passando pelo princípio da indução até chegar à variação da memória e julgamentos éticos e estéticos. Assim, Russell ressalta a importância dos graus de autoevidência na teoria do conhecimento, pois, se proposições podem ter graus de evidência sem serem verdadeiras, onde houver um conflito entre verdade e evidência, as proposições mais autoevidentes devem ser mantidas. Por fim, Russell diz que a noção de autoevidência varia entre a verdade (alto grau) e a presunção (baixo grau) e desenvolverá tal conceito associado ao conhecimento e o erro, porém antes investigará a natureza da verdade.




* Bertrand Russell, Problems of Philosophy. ON INTUITIVE KNOWLEDGE. Acessado em 3/7/2019: http://www.ditext.com/russell/rus11.html. Ver o seguinte fichamento e os anteriores: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2019/07/o-conhecimento-priori-lida-com-relacoes.html.
[i] O caminho natural é de particular ao geral, ou seja, é indutivo!

sábado, 6 de julho de 2019

O conhecimento a priori lida com relações universais[i]

Russell divide o conhecimento de universais entre por familiaridade / experiência e por descrição[ii]. Temos familiaridade com o branco, doce, etc., qualidades dos dados-dos-sentidos, chamadas por ele de "qualidades sensíveis", que são abstraídas da observação de diversas coisas vermelhas, doces, etc. Também estamos familiarizados com relações em um único dado, por exemplo, uma folha onde pela abstração vemos partes brancas, coisas à esquerda de coisas à direita e das quais extraímos relações universais, assim como da sequencia de sons de um sino, no tempo, abstraímos relações universais de antes e depois.
Outro tipo de relação que conhecemos por familiaridade, ressaltada por Russell, é a semelhança (ou similaridade) entre duas cores, p.ex., quando temos uma consciência imediata de que o verde é mais próximo de outro verde do que do vermelho, ou seja, conhecemos relações entre relações (verde-verde, verde-vermelho) que competem a universais assim como as qualidades sensíveis. Com esse resultado, Russell pode então retomar a sentença "2+2=4" conhecida a priori, mas de solução deixada em aberto, para mostrar que ela trata da relação entre dois universais: dois e quatro. Isso vai permitir a ele estabelecer a proposição: "All a priori knowledge deals exclusively with the relations of universals" para solucionar o problema do conhecimento a priori.
Segundo Russell, conhecemos uma proposição conhecendo as palavras por familiaridade e por aí percebemos que muitos casos que tratariam de particulares na verdade tratam de universais. Assim, como acabamos de mencionar, “dois mais dois igual a quatro” pode ser entendido por quem conhece os universais dois e quatro e a relação entre eles. Contudo, salienta Russell, isso não quer dizer que podemos antecipar e controlar a experiência, como explorado em capítulo anterior[iii]. Podemos, sim, saber a priori que “2+2=4”, mas isso não é válido para coisas particulares, pois elas dependem de elementos empíricos.
Ele então compara o conhecimento por generalização empírica com o conhecimento a priori dizendo que, por mais casos particulares que conheçamos, ainda assim há um grau de certeza não comparada a evidência do conhecimento a priori de universais, pois ainda dependerá de um conhecimento indutivo.[iv] Ainda sobre o conhecimento por familiaridade, pode haver casos em que se chega à evidência pela via da experiência ou em que conhecemos uma proposição geral sem tratar casos particulares. Russell elenca entre eles o caso dos objetos físicos dos quais nunca temos sequer uma evidência dada na experiência e ainda assim podem ser inferidos dos dados-dos-sentidos ou o conhecimento de outras mentes.
Nesse ponto, ele descreve uma hierarquia das fontes do conhecimento que ilustramos abaixo e que resume muito do que foi tratado nos outros capítulos até agora.
Russell conclui que o conhecimento de verdades depende da intuição e verificará, assim como fez com familiaridade, seu escopo e natureza, porém tratando de um fator novo, o erro. O conhecimento de verdades, então, é mais difícil, pois teremos que distinguir casos que sejam conhecimento ou erro por conta de crenças que podem ser erradas.



[i] Bertrand Russell, Problems of Philosophy. ON OUR KNOWLEDGE OF UNIVERSALS. Acessado em 26/6/2019: http://www.ditext.com/russell/rus10.html. Ver o seguinte fichamento e os anteriores: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2019/06/russell-platonicoi.html.
[ii] Retomando distinção do capítulo V que não resenhamos.
[iii] Conforme "HOW A PRIORI KNOWLEDGE IS POSSIBLE" (http://www.ditext.com/russell/rus8.html): "It seems strange that we should apparently be able to know some truths in advance about particular things of which we have as yet no experience; (...). This apparent power of anticipating facts about things of which we have no experience is certainly surprising." Não problematizamos esse assunto em nosso fichamento por não parecer ser tema ligado ao foco central de discussão, embora muito pertinente no que se refere à ciência.
[iv] Two opposite points are to be observed concerning a priori general propositions.