Trata dos desafios de uma vida moderna acelerada[i]
Modernização.
Rosa começa dizendo que a modernização se resuma a acelerar a vida, por
exemplo, no transporte sempre há mais pessoas se movimentando simultaneamente, e
não só, também bens e matéria-prima, desde o transporte sobre trilhos até os
aviões. E, agora, dados e informação.
Aceleração.
Por outro lado, tendemos a temer que as coisas possam ficar rápidas demais e
que não tenhamos condições de acompanhar[ii]. Então ele define o que é
viver em uma nova sociedade, quer dizer, a partir de uma mudança sistemática de
como estruturamos nossas vidas: precisamos acelerar para atingir estabilidade
institucional, o que leva à aceleração social. Temos como meta um futuro no
qual precisamos acelerar e inovar para permanecer onde estamos.
Dessincronização.
O diagnóstico do autor é que isso leva a sérios problemas, já que não podemos
acelerar o mundo todo porque há grupos sociais que não podem ou não querem
acelerar gerando dessincronização entre grupos. Ele cita que a crise ecológica
é uma crise de dessincronização e a política, já que é um processo lento demais
para o mundo atual. Nossa psique teria dificuldades de acompanhar tal
velocidade. Isso posto, que futuro nos espera?
Estabilização dinâmica.
Entrando no detalhe, o sociólogo nos provoca se a modernidade ainda é um
conceito útil[iii]
haja vista sua multiplicidade, preferindo o termo moderno cujo modelo de
estabilização e reprodução estrutural é dinâmico, qual seja, acelerar para
manter, conforme sublinhado acima. Desde o século XVIII, a fórmula capitalista
é que dinheiro só investido para ganhar mais dinheiro – o que ele classifica
como algo que não é imoral ou injusto. Isso é verdade para empresas e economias
nacionais; é necessário crescer para manter a estrutura institucional
(empregos, impostos etc.). Ele cita o caso grego, cuja economia não cresceu em
dez anos quebrando a previdência e uma grande crise orçamentária e até política
(ele lembra o caso da vizinha Argentina, também). Se não há crescimento constante,
há desestabilização institucional.
Tempo é dinheiro.
Ocorre que o crescimento depende de aceleração e inovação para criar produtos e
processos produtivos, afinal, “time is money”. Segundo ele, investimos
tempo da mesma forma que investimos dinheiro. Ele lembra de Pierre Bourdieu e
acrescenta que dinheiro também é um capital cultural, mas também precisamos
ler, escrever e cuidar de nossa vida pessoal, do que se segue que tempo é
capital social, por outro lado. Então, o que fazer nesta noite? Nessa reflexão,
podemos lembrar que tempo é capital corporal e precisamos ir para a academia ou
ao menos meditar para reduzir o estresse mental. De novo, é a lógica do aumento,
no caso de nosso capital para termos recursos suficientes para mantermos nossas
posições.
Promessa de crescimento.
O poder político, continua Rosa, também se estabiliza dinamicamente por meios
de eleições a cada quatro anos que só são vencidas quando se promete algum tipo
de crescimento: mais riquezas, mais indústrias, mais universidades. Até na
ciência, onde mais pesquisa significa mais conhecimento, o que ele classifica
como algo incomum culturalmente, já que o conhecimento pode ser visto como um
tipo de tesouro, como construir uma casa ou fabricar roupas. Ele lembra do
conhecimento ancestral dos rituais que passa de gerações, comparando com o
conhecimento da modernidade que se centra na ciência. O cientista deve prometer
criar um conhecimento novo, provar que pode produzir uma novidade se houver
dinheiro a ser investido.
Vida boa. Devemos sempre
ultrapassar os limites, por mais que e u tenha corrido ano
passado, esse ano devo correr mais! [para não perder a competição].[iv] E isso vale individual e
coletivamente, conforme Rosa. Se o Brasil “precisa” estar entre as dez maiores
economias do mundo, também precisamos ter um bom emprego e uma boa família,
ainda que estressado. E ano que vem será pior. E não para melhorar, mas para
permanecer. Internalizamos essa lógica por meio do triplo A: Availability,
Attainability, Accessibility (Disponibilidade, Atingibilidade, Acessibilidade).
Mas é o dinheiro que torna o mundo disponível (e acessível e alcançável...).
Com ele podemos viajar, comprar coisas. E por que morar em São Paulo e não em Manaus?
Queremos ir a museus, teatros, ter o mundo ao alcance, mas com dinheiro e esse
é nosso conceito de vida boa. A jaula de ferro da modernidade, conceito de
Weber, refere-se exatamente ao mote de crescer e inovar para permanecermos onde
estamos[v].
Lógica do progresso. O
problema, na visão dele, é que não é possível aumentar o tempo, o dia tem 24
horas. E ele traz um dado surpreendente: há cerca de 10 mil objetos em um lar
de classe média contra 400 em 1900, mostrando a lógica do crescimento[vi]. Temos tanto a fazer e,
como o tempo se torna um recurso muito escasso, há necessidade de acelerar
transporte, comunicação... O mundo muda muito rápido e precisamos correr e
realizar muitas tarefas simultaneamente. Essa lógica exige mais recursos e mais
energia política, particularmente para que se eduque os jovens mais rapidamente
exigindo mais energia física e política. No século XVIII, a lógica do progresso
era vista como algo que traria uma vida boa superando escassez de tempo e
pobreza por meio da tecnologia[vii]. Em nosso tempo, no
século XXI, já não há mais essa esperança, ao contrário, não há esperança de um
grande futuro e não se trabalha para uma vida melhor, mas para não termos vida
pior.
Limites. Ocorre que nem
tudo pode acelerar ao mesmo tempo. Vemos que essa pressão põe em perigo os
povos indígenas e mesmo diferenciação entre classes porque é preciso agilidade
e flexibilidade para seguir, conforme citação de Zygmunt Bauman[viii]. Rosa pontua quatro
limites sistêmicos nessa dinâmica: primeiro, o limite ecológico, já que o meio
ambiente não está preparado para esse ritmo, haja vista a poluição e o aquecimento
global – há dessincronização entre a natureza e o nosso tempo. A democracia,
conforme dito, também está em risco, já que precisa de tempo para diálogo e
deliberação, as vozes precisam “ressoar” para acomodar as visões. Na economia,
há dessincronização entre os mercados financeiros que operam por meio de
algoritmos em frações de segundos enquanto a economia real consome tempo, por
exemplo, para construir um carro, escrever um livro e para consumir essas
coisas[ix].
Ressonância.
Por fim, precisamos repensar o que é uma vida boa já que a lógica de
crescimento tem gerado doenças psíquicas como o burnout (esgotamento), isto é,
por mais capital social, cultura e físico que se tenha, sentimo-nos desconectados
e alienados – uma relação sem relação, segundo Rosa. Não há tempo para nos
apropriarmos do mundo e entrar em um modo de ressonância onde se escuta e se
responde.
O que faremos?
Então, ele conclui que é necessário sair dessa lógica da estabilização dinâmica
rumo a uma estabilização adaptativa, não estática. Precisamos, muitas vezes,
acelerar e inovar para superar os problemas, porém visando mudar o status quo. Conforme
seus exemplos, há lugares em que as pessoas passam fome e ali é necessário
crescer, ou mesmo levar internet para regiões distantes. É preciso inovar em
tecnologias verdes ou em algum medicamente novo para atender necessidades
urgentes e não crescer e acelerar indistintamente. Não é exatamente um
decrescimento, ele diz, mas sair da lógica de estabilização dinâmica por meio
da ressonância, ouvindo e respondendo[x], como o projeto de Jena
que ele cita e propõe mudanças práticas.
[i] Fichamento de https://youtu.be/Zsf_Wg1ll4A. Fomos sensibilizados por Michelle
Prazeres. “'Tá exausto? Imagina no segundo semestre.” Vamos continuar querendo
mais?… - Veja mais em https://www.uol.com.br/vivabem/colunas/michelle-prazeres/2026/06/07/ta-exausto-imagina-no-segundo-semestre-vamos-continuar-querendo-mais.htm?cmpid=copiaecola”
[ii] Rosa se refere ao mundo fugidio de
Anthony Giddens. Também Paul Virilio, “o mundo parece bater em nós como um
acidente”. Anthony Giddens é um sociólogo britânico, renomado por sua
Teoria da estruturação. Considerado por muitos como o mais importante filósofo
social inglês contemporâneo, figura de proa do novo trabalhismo britânico e
teórico pioneiro da Terceira via, tem mais de vinte livros publicados ao longo
de duas décadas (Wikipédia). Paul Virilio foi um filósofo, urbanista
francês, arquiteto, polemista, pesquisador e autor de vários livros sobre as
tecnologias da comunicação (Wikipédia). Ver: https://www.youtube.com/watch?v=OAPn7pBP0L8.
[iii] Há muitas, conforme Shmuel
Eisenstadt, sociólogo israelense, cuja pesquisa contribuiu consideravelmente
para a compreensão de que a tendência moderna de uma interpretação eurocêntrica
do programa cultural desenvolvido no Ocidente é um modelo de desenvolvimento
natural visto em todas as sociedades ... o modelo europeu é apenas um: foi
apenas o mais antigo. Começou a tendência. Mas as reações sociais, seja nos
EUA, Canadá, Japão ou no Sudeste Asiático ocorreram com reagentes culturais
completamente diferentes (Wikipédia).
[iv] Lembremos Michelle, nota [i].
[v] https://www.youtube.com/watch?v=0oUduAJ_5Wk – termo usado por Weber na Ética
Protestante e Espírito do Capitalismo, alegoria da essência do sistema
capitalista como sistema total (nos EUA associada a burocracia). Vida dura como
a dureza do aço, pela lógica de ferro do sistema que subtrai a liberdade do
indivíduo, escravidão sem mestre. Sistema impessoal. Weber é um pessimista e
não vê saída dessa jaula, devemos nos conformar a ele – ao modo de Nietzsche, como
heróis. Merleau-Ponty trata Georg Lukács no contexto de um marxismo weberiano –
o conceito de retificação remodelado que inspira a Escola de Frankfurt no
sentido da jaula de aço.
[vi] Assim como, de acordo com Kenneth
J. Gergen, o número de pessoas que encontramos ou vemos em um dia é maior do
que uma pessoa encontrava em toda a sua vida na Idade Média. Kenneth J. Gergen
é um psicólogo social americano e professor emérito do Swarthmore College. Ele
obteve seu Bacharelado em Artes pela Universidade de Yale e seu PhD pela
Universidade de Duke. Wikipedia (inglês).
[vii] Podemos lembrar que Gilbert
Simondon descreve o século XVIII como o nível elementar do desenvolvimento
técnico, uma fase caracterizada por um profundo otimismo. Nesse período o
progresso das técnicas e invenções ocorria de forma a não ameaçar os hábitos
tradicionais da sociedade, permitindo uma convivência harmoniosa entre a
cultura e o aparato técnico emergente. Essa era se distingue dos séculos XIX e
XX, nos quais o surgimento das máquinas termodinâmicas e da informática passou
a gerar angústia e alienação devido à falta de compreensão da relação entre o
ser humano e o objeto técnico. (https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/05/para-uma-educacao-tecnica.html).
[viii] O conceito de "modernidade
líquida" foi introduzido pelo sociólogo Zygmunt Bauman para descrever a
condição contemporânea da sociedade globalizada. Esse conceito é uma metáfora
para capturar a natureza fluida, volátil e dinâmica das relações sociais,
instituições e identidades no mundo moderno. Bauman contrasta a
"modernidade líquida" com a "modernidade sólida" do
passado, onde as estruturas sociais, econômicas e políticas eram mais estáveis
e previsíveis. (https://querobolsa.com.br/enem/sociologia/modernidade-liquida)
[ix] Consumimos um livro não quando compramos,
mas quando o lemos, pontua sarcasticamente Rosa. Lembremos de “BIBLIOTECA” (https://www.youtube.com/watch?v=k9CbDcOT1e8).
[x] Eu falo e você me ouve, mas
entende? (https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/search/label/efevmo-me).