sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

As abstrações do Bispo Berkeley

Mostra que não há lugar para ideias abstratas no discurso mental[i]

Filosofia corpuscular. Como idealista[ii], Berkeley acreditava que tudo o que existe é mental e se opunha à “filosofia corpuscular” oficializada por Locke, na época, e oriunda de Boyle, para quem o mundo é feito de átomos e moléculas. Para essa filosofia, a matéria é feita de corpúsculos muito pequenos e os corpos possuem qualidade primárias, mas não as qualidades secundárias que são produzidas em nós pelas sensações.

O mote de Berkeley contra o ateísmo. Diante desse cenário, Berkeley procurou negar essa distinção e, por consequência, negar que haja matéria inerte, sem cor e sem alma. Negando a matéria, negava a substância e suas teorias e negava a teoria realista da percepção de Locke, ou seja, o ateísmo que seria combatido por seu idealismo.

O conceito de ideia. Berkeley estava atento aos avanços dos conhecimentos científicos vistos por ele de maneira perversa, mas Hacking irá se ater à relação de sua filosofia idealista com a linguagem, especificamente como a mente pode conceber ideias abstratas. Berkeley aceitava o conceito de ideia que Hacking expõe assim[iii]: 1.) são as ideias que medeiam entre o ego e o mundo; 2.) elas são “vistas” pela percepção interna; 3.) as palavras significam ideias por meio de uma relação causal.

Alguma ideia. Isso posto, Hacking toma como exemplo a palavra chuva. Ela pode ser usada para expressarmos vários tipos de chuva, que podem ser diferentes em vários lugares e isso não significa que se trate de uma e mesma ideia de chuva. Hacking enfatiza que, pela teoria da correspondência, deveria haver várias ideias de chuva que correspondem as que caem. Ele comenta que, para Hobbes, são ideias diferentes, mas ideias de chuva, embora não a ideia universal de chuva e sim alguma ideia de chuva.

A ideia abstrata dos geômetras. A isso Hacking contrapõe o descrever ao raciocinar. Ao descrevermos o mundo, não tratamos de termos universais mas, ao raciocinar, por exemplo, sobre triângulos, raciocinamos não sobre alguma ideia de triângulo, mas sobre o que é universal neles[iv]. Como não dá para examinar cada triângulo individual, raciocinamos sobre o que é comum a eles e esse algo é o objeto de nosso escrutínio mental. Empiricamente há várias elocuções de chuva, mas a priori necessita-se de algo comum; uma ideia abstrata de triângulo usada pelos geômetras; aqueles que acreditam em um ego com ideias precisam de uma ideia para olhar e raciocinar sobre triângulos.

A ideia abstrata na teoria das ideias. Ora, se as palavras significam ideias, a palavra triângulo significa a ideia abstrata “triângulo” e o mesmo para chuva e, bingo! Platão! (O idealista original). Eis o problema: pela doutrina das ideias do século XVII: 1.) ideias medeiam, 2.) ideias são percebidas, 3.) palavras significam ideias. Até aqui tudo certo para Berkeley. Mas o geômetra acrescenta 4.) existem ideias abstratas que são objetos de “visão mental”. Berkeley não só não concorda com 4.) como condena.

Problema dos universais. A questão, explica Hacking, passa pelo “problema dos universais”, nesse caso, como é possível que um termo geral tenha significado. Pode ser da abstração, mas Wittgenstein tratou como semelhanças de família, i.e., agrupamento de propriedades semelhantes. Decorre que a doutrina das ideias do século XVII não implica nada sobre o significado dos termos gerais, o ponto fulcral é “a teoria da prova geométrica como uma visão mental que requer um objeto” (p. 45). Mas, para isso, Berkeley argumenta que não é necessária uma ideia abstrata para raciocinar, já que podemos usar uma ideia particular na demonstração – inclusive isso teria sido utilizado na lógica simbólica posteriormente, segundo Hacking, uma dedução mental.

Rejeição da ideia abstrata. Entretanto, continua ele, apesar de Berkeley desprezar as ideias abstratas ele não argumenta claramente que elas não existam já que cada um poderia, por inspeção direta, constatar tal ausência. A questão não é que não podemos formar imagens de ideias abstratas, o ponto é que uma faculdade como a visão não tem ideias abstratas por objeto e nem precisamos delas na demonstração geométrica.

Discurso público sedutor. E Berkeley segue a máxima cartesiana de escrutinar somente suas próprias ideias – ali não poderia se enganar pensando ter uma ideia que não tem. Se podemos falar sobre o que é comum aos triângulos, isso não passa de palavras sedutoras que não correspondem a nada que pudéssemos ver por introspecção. Conforme Hacking: “O discurso público pode encadear essas sílabas, mas no discurso mental, livre de palavras, não há nada correspondendo” (p. 47)

A primazia do discurso mental. Aí o discurso público é vazio, mas o que existe deve ser objeto do pensamento pois ser é ser percebido. E Berkeley, assim, pode considerar o discurso da filosofia corpuscular pura perversão de linguagem. Com seu argumento, Berkeley consegue mostrar principalmente que somos enganados pela linguagem, mas não se trata somente de uma medida profilática da linguística para com a filosofia. Hacking enfatiza que há um discurso mental encadeado de ideias internas, destituído de palavras e que é logicamente anterior ao discurso público que pode nos desorientar.



[i] Fichamento do quarto capítulo de Por que a linguagem interessa à filosofia? São Paulo: Editora Unesp, 1999. Ian Hacking.

[ii] Segundo Hacking, ideia-lista. Ele via uma lista de ideias?

[iv] Para Descartes fixamos essa ideia com um firme olhar mental.

sábado, 20 de janeiro de 2024

As ideias de Port Royal

Tenta elucidar um conceito tão amplo e tão simples: a ideia[i]

Hacking cita a Lógica[ii] como um livro de grande influência, tendo sido escrito em Port-Royal, no século XVII, por jansenistas, dentro do contexto de associação da linguagem com as ideias[iii]. Acontece que, no âmbito de Locke e Berkeley, parece que o conceito de ideia é tão abrangente que quase constitui uma impossibilidade, já que ideia pode ser desde o objeto do entendimento quando o homem pensa, como pode ser uma imagem mental, uma noção, espécie, pode ser um objeto da percepção de modo geral ou mesmo uma dor e até cócegas. Classificação heterogênea que pode levar a erros.

Já pela Lógica, conforme Hacking, nada é mais claro que a ideia, tipo mais elementar de entidade imaginável. E ele adverte que há uma distinção entre conceber e imaginar uma ideia, isso porque concebemos a ideia de uma figura de mil lados ou ideias como Deus ou vontade, mas não podemos formar imagens dessas coisas. Entretanto há de se questionar por que imagens e objetos do raciocínio poderiam ser considerados ideias, se díspares[iv].

Se tal classificação abrangente incomodou até Kant, segundo ele, a resposta da Lógica de Port-Royal passa pelo ego cartesiano, já que “não temos conhecimento de nada que está fora de nós exceto pela mediação das ideias dentro de nós” (p. 35) e acessíveis por ele. E ele complementa trazendo o princípio de classificação que o ego usa para as ideias: “uma ideia é qualquer objeto que pode ser contemplado por um ser pensante e sem que haja compromisso existencial com qualquer coisa exceto esse próprio ser pensante” (p. 36, grifo nosso).

Isto é, conforme entendemos, há garantias “até” o ego, não “além” dele. Os objetos são ideias do ego, dentro do compromisso existencial dele; existência do eu. Daí a ampla gama de objetos, i.e., ideias (cócegas, imagens e conceitos). Nesse caso, objetos não são moedas ou ventiladores, eles são objetos do desejo ou do pensamento (objetos de), embora para a metafísica daquele empirismo, Locke considere que moedas são objetos e Berkeley não[v]. Ainda nesse interim, uma coisa que Hacking pontua é que ideias são contempladas.

Acontece que a influência cartesiana em Port-Royal leva a ideia, se possuindo objetividade, para o campo do raciocínio e “raciocinar sobre ideias é como ver”, Descartes compara o raciocínio à visão. Segundo ele olhamos para nossas ideias e as escrutinamos separadamente para saber o que confunde o pensamento ou não. Mas Hacking questiona essa associação do mental com a visão e insiste que não formamos imagens de muitos conceitos. Só que, para Descartes, as ideias são iluminadas pelo pensamento, quiçá pela intuição.

Haveria um olhar mental para além do véu que cobre nossa visão e quando percebemos um argumento exclamamos: “agora estou vendo!” – vício de linguagem. Inclusive há uma supremacia da visão sobre os sentidos por parte dos empiristas. Mais do que argumentar com as palavras, foge-se delas para as ideias, embora haja objetos táteis, embora nós possamos prescindir da visão em muitos casos.

E Hacking resume assim a teoria das ideias: há uma classe de objetos chamados ideias que medeiam entre o ego e o resto do mundo e, embora as ideias não sejam imagens, temos acesso a elas pela faculdade da visão. Então, as palavras significam ideias por meio de uma relação causal. Se, aparentemente, no século XVII, havia esse trabalho profilático de escapar da linguagem pelas ideias, a linguagem que interessava à filosofia da época era a o discurso mental encadeado de ideias, despido do discurso público. Será que o discurso mental da época se assemelha ao discurso público de hoje?



[i] Fichamento do terceiro capítulo de Por que a linguagem interessa à filosofia? São Paulo: Editora Unesp, 1999. Ian Hacking. Falamos de sua estratégia aqui: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2022/12/a-estrategia-de-ian-hacking-para.html.

[ii] Lógica de Port-Royal: https://gulbenkian.pt/publications/a-logica-ou-a-arte-de-pensar/: A Lógica de Port-Royal foi um dos livros mais influentes de lógica filosófica -para o bem e para o mal – da época moderna, não só no seu tempo como nos séculos seguintes, apesar – e talvez por causa – das suas idiossincrasias, visto que não trata apenas de questões tradicionais de lógica, mas também de outros assuntos, que vão da epistemologia à moral, passando pela metafísica e pela retórica. Afirmando-se como um manual de rutura contra a tradição aristotélico-escolástica (no que esta tinha de formalista, de abstrato e de especulativo) mas também contra a conceção ramista da dialética, ela foi, em vez disso, iluminada pelos princípios da nova filosofia cartesiana e, sobretudo, pelo augustinismo dos seus autores jansenistas. A Lógica de Port-Royal não deixou de tratar os temas tradicionais da lógica, dos termos, da lógica proposicional e da silogística – nas primeiras três partes dedicadas a três operações do espírito: a de conceber [concevoir] a de julgar [juger] e a de raciocinar [raisonner] – , mas, num movimento que havia já começado com as lógicas renascentistas, acrescentou, para além daquelas, uma quarta parte sobre o método, ou seja, uma parte dedicada à operação mental de ordenar [ordonner], e, por isso, mais vocacionada para questões epistemológicas, como a possibilidade do conhecimento, a luta contra o ceticismo pirronista (não o metódico), a crença nos factos, sem deixar de dar o devido tratamento aos aspetos propriamente metodológicos, relativos ao momento heurístico da descoberta e à clara – geométrica e demonstrativa – exposição do conhecimento adquirido. O sucesso pedagógico e a tonalidade moderna desta Lógica – já que nela se apresentam inovações importantes como, por exemplo, a distinção entre extensão e compreensão dos termos – fizeram-na, por isso, merecer um lugar incontornável em muitas das histórias tradicionais da lógica. Para além, no entanto, deste lugar cativo na história geral da lógica, verificou-se a partir da segunda metade do século xx uma atenção especial a esta obra de Antoine Arnauld e Pierre Nicole. Tanto no domínio da filosofia da linguagem e da linguística, com os estudos de Noam Chomsky – que acreditou ter descoberto no par que esta obra compõe com a Grammaire Générale et Raisonnée, de Antoine Arnauld e de Claude Lancelot, o anúncio da sua Gramática Generativa, como no trabalho epistemológico da arqueologia das ciências humanas de Michel Foucault – que viu na Lógica de Port-Royal o paradigma da nova episteme clássica – mas também, ainda no âmbito das teorias da argumentação e daquilo a que se tem vindo a chamar “lógica informal” – onde a consideraram como uma lógica inovadora, voltada para a prática argumentativa, antecipando esse âmbito interdisciplinar que tem em conta os contextos e as dinâmicas efetivas da argumentação e que, nessa perspetiva, refletiu sobre alguns esquemas e falácias que haveriam de ser elaborados e sistematizados mais tarde.

[iii] Lembremos que Hacking divide seu livro em três partes: o apogeu das ideias, o apogeu dos significados e o apogeu das sentenças.

[iv] Hacking traz uma passagem na qual Foucault cita Borges com a exemplificação de uma variedade imensa de animais e que seria um conceito extremamente heterogêneo.

[v] Aqui https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2024/01/breves-ideias-sobre-locke-berkeley.html podemos encontrar um pouco mais dessa distinção. 

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Breves ideias sobre Locke, Berkeley, árvores e Deus

Importante marcar alguns pontos de Berkeley, como o seu empirismo idealista e o nominalismo[i]

Inatismo. Grosso modo, para o empirismo realista de Locke, as ideias nos são causadas pelas coisas por meio das sensações. Locke está nesse momento de florescimento das teorias do conhecimento (epistemologia) que visam escapar das amarras do platonismo e aristotelismo que influenciavam a filosofia desde sempre. Cabe lembrar que, conforme ressalta Lucas, ele não é exatamente um anti-racionalista, porém critica o inatismo proveniente do racionalismo, entre outras coisas, porque se tivéssemos ideias inatas (Deus, alma, etc.) não deveríamos discutir a respeito delas, elas já estariam “lá”. Desse modo, pensa Locke, somos uma tábula rasa e vamos aprendendo com a experiência, qual seja, conhecemos através de estímulos das qualidades primárias e secundárias dos objetos, as primeiras objetivas (a temperatura) e as segundas subjetivas (o calor).

Ideias. Ora veja, enfatiza Lucas, as ideias são produzidas pelas sensações, mas não só, há ideias produzidas pela reflexão (estímulo interno) a partir de operações simples da razão sobre aquelas ideias da percepção. Nota-se esse papel da razão. Por fim, há ideias simples e ideias complexas: as primeiras oriundas tanto da sensação (dados do sentido) ou da reflexão (composição, distinção, comparação); as segundas que são combinações de ideias simples (modo, substância e relação). Essas últimas, por exemplo, gratidão ou duração, ideias de modo dependentes de algo; relações de parentesco: fulano é pai de cicrano que é filho de beltrano e por aí vai; e uma pessoa como sendo uma substância, ou uma panela, que são ideias simples juntas, conforme ensina Lucas. Reconhecer uma coisa necessita que ela seja identificada e, como Locke não pode lançar mão da essência (aristotélica?), fica esse agregado de ideias simples, que podem até serem abstrações: medo ou Deus[ii].

Idealismo. Esse tipo de teoria empirista é um problema para Berkeley, católico que era, já que fundamenta o nosso conhecimento na matéria. Para Berkeley, o nosso conhecimento é formado por ideias que se originam em nossas percepções, então ser é ser percebido. De um lado o empirismo realista e, de outro, o empirismo idealista. Citações que Lucas apresenta: “As coisas existem de maneira verdadeira e imutável na matéria” e “As coisas não existem fora do fato de serem percebidas”. Choque. Mas para Berkeley é isso: o conhecimento vem das sensações, mas não há garantias de sua base material, o que, segundo Lucas, é uma noção perturbadora e que tenta se livrar de um mundo material que leva ao ceticismo e ateísmo.

Solipsismo. A partir do empirismo idealista de Berkeley, o exemplo que Lucas do Prado nos traz é aquele: se uma árvore cai na floresta e ninguém observou, ela fez barulho? Ora, parece que não, já que o evento não foi percebido por ninguém. As sensações não se ligam aos objetos, porque Berkeley postula que as ideias são substâncias mentais. Lucas insiste: as ideias são sensações dos sentidos, são pensamentos. Sentir é pensar. Ideias e sensações são subjetivas, sem suporte material. Então o existente é o perceptível, não podemos garantir o resto material do mundo. Ocorre que tal concepção leva ao relativismo pois cada qual estaríamos à mercê de nossas próprias ideias / percepções possivelmente nos conduzindo ao solipsismo, isto é, uma falta de garantia de algo fora de nós.

Salvaguarda. Para Berkeley, não existe divisão entre as qualidades primárias e secundárias, qualquer qualidade é uma sensação, é subjetiva, um pensamento. Berkeley, então, rejeita o dualismo cartesiano, optando pela “res cogitans”. Por aí, se as percepções não são relativas, pois estamos sempre vendo “o mesmo”, há um espírito ativo que cria ideias e coisas, ser onisciente, onipotente e onipresente, percebendo tudo ao mesmo tempo, embora não existindo para cada um individualmente. E o raio que caiu na árvore, foi escutado? Se não foi escutado por ninguém, nenhum ser humano, há um ser que tudo vê, tudo sabe e percebe: Deus. Então, por mais que eu não tenha garantia do mundo que você aí que lê, percebe, Deus percebe e garante. Conforme ressalta o Lucas, Deus é que dá essa coerência ao mundo e, pensando assim, Berkeley seria um coerentista e Locke correspondista. É Deus que garante essa coerência no mundo. É a existência de Deus que impede o solipsismo e o ceticismo.

Nominalismo. O fato de que haja um relativismo nos parece próprio ao empirismo, haja vista a relevância da percepção na obtenção do conhecimento, percepção essa que é individual. Entretanto, lá em Locke havia a composição de ideias complexas a partir de ideias simples, até ideias abstratas. Mas Berkeley não acredita na ideia abstrata, ele é um nominalista: cada ideia é uma ideia de uma coisa individual, há a ideia do cavalo preto, do cavalo velho, do cavalo arisco, mas não há a ideia de cavalo[iii]; há apenas o nome cavalo, uma palavra. Se um objeto é uma série de sensações particulares, essas percepções indicam a ideia de que tenho uma palavra que garante o universal, inexistente no mundo material. A palavra é uma convenção prática que destaca nas sensações series coerentes permanentes, conforme Lucas.


[i] Pegando vídeos introdutórios para relembrar. Canal https://www.youtube.com/@FilosofiaEspiral. Vídeos preparatórios para o vestibular da UFPR. Recordar (sic relembrar) é viver.

[ii] Seria a ideia complexa a coisa em si e as ideias simples fenômenos?

[iii] A cavalidade: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2014/02/cavalidade.html, que coisa mais engraçada essa defesa da essência... 

domingo, 7 de janeiro de 2024

O etnocentrismo de Rorty

Criticando a filosofia moderna, Rorty abre espaço para um outro tipo de conhecimento [i]

Rorty defendeu o materialismo eliminativo, um tipo de teoria da identidade mente e corpo que questiona a tese da impossibilidade de corrigir as representações mentais, já que teríamos um acesso privilegiado a elas e não conseguiríamos revê-las. Evoluindo seu pensamento, depois ele fez críticas as teorias da verdade como coerência e como correspondência, solapando a ideia de um mundo independente da mente e superando o debate entre idealismo e realismo; ele se volta contra uma filosofia fundante centrada na epistemologia.

Para Rorty, no projeto filosófico moderno a epistemologia era baseada em uma metáfora do “olho da mente” que representa o mundo exterior. Conhecimentos a priori se originam na filosofia da “mente como espelho” e que pode ser estudada a priori, polindo-se esse espelho. Sem essa metáfora, não há análise fenomenológica ou análise lógica da linguagem, já que, mesmo Frege, transformou problemas de ideias em problemas de linguagem, porém manteve o a priori e o empírico. Nessa visão, a linguagem se apega ao mundo do mesmo modo que o conhecimento se apegava ao mundo, para Descartes.

Sellars, com o “mito do dado”, e Quine refutando a “distinção analítico sintético” contribuem para eliminar problemas canônicos da filosofia, em um trabalho de terapia[ii] filosófica ao modo de Wittgenstein[iii], do que tentar resolvê-los teoricamente (i.e., são problemas mal colocados, conforme fala Plastino). Os problemas filosóficos são trazidos historicamente dentro de um vocabulário que deve ser questionado. Mesmo a filosofia analítica ainda tenta dirimir “desafios filosóficos”, mas ela não é o melhor estilo, apesar de útil. É preciso enxergar historicamente se não quisermos cair no platonismo.

A filosofia deve superar o projeto de descobrir a Verdade ou agir segundo a Razão buscando uma autotransformação e aquisição de novos vocabulários, deixando de lado o projeto epistemológico e a filosofia sistemática. Apesar da virada linguística, a filosofia moderna ainda assombra a filosofia analítica. Quine contribui com a visão de Rorty, por exemplo, ao abandonar a ideia de significado como determinando a referência, ideia essa que torna proposições verdadeiras independente do que ocorra, como os enunciados analíticos que são verdadeiros apenas em virtude do significado de seus termos. Sellars puxa para a noção de conceito que nós temos e que usamos em contextos, ou seja, perceber algo já requer o conceito: primeiro tem-se o conceito de verde para depois ter a consciência de coisas verdes.

Daí que Rorty vai tomar a noção de justificação como uma questão de prática social, ter o conceito e saber usar em uma prática social para que seja conhecimento e não a “relação entre palavra e objeto”. Justificamos na conversação, criticando e tratando objeções. Ele rompe a relação, supostamente verdadeira, entre a crença e o fato, e a traz para os jogos de linguagem. A epistemologia se dá pelo diálogo, por um vocabulário contingente e não por representações fiéis da realidade. É o chamado behaviorismo epistemológico, que não transcende a prática e se opõe ao objetivismo de Putnam.

Mas como usamos as palavras e formamos crenças? Temos que descrever o modo como as formamos, ao estilo de Kuhn, em períodos, crises, paradigmas e vocabulários que se sucedem. Mais do que a experiência, é a prática que desempenha papel central no conhecimento.  Davidson também contribui com a visão de Rorty, questionando o relativismo conceitual (e cognitivo), modos de organizar a experiência, e com esquemas conceituais apartados. Ora, sempre é possível haver uma tradução entre duas linguagens, ele se apega à interpretação radical já que a maioria de nossas crenças (e a dos outros) devem ser verdadeiras.

Critica-se o ceticismo radical, pois a linguagem é compreensível e compartilhada. O dogma esquema – conteúdo[iv] (mundo) provoca o relativismo, mas temos contato com os objetos não mediado. Rorty critica a noção de verdade, baseado em Quine, e procura eliminar o predicado “é verdadeiro” que se aplica à expressão “A neve é branca” é verdadeira sse a neve é branca. Também distinguir verdade e justificação: supor que p é verdadeira é supor que  p, sem justificação. Não se pode dizer verdadeiro para mim ou na minha cultura (noção absoluta), mas se pode dizer justificado para mim ou na minha cultura (noção relativa) – confusão feita por James e pragmatistas.  A justificação é um critério para uma proposição ser verdadeira e não uma definição de verdade. Assim, não há crenças indubitáveis, visão falibilista. Justificar depende de cultura e jogo de linguagem.

Estamos no campo do ironismo liberal defendido por Rorty, que tem como características o nominalismo, que se atem ao particular, o historicismo, já que as crenças são contingentes e visão críticas sobre as visões de mundo e vocabulários. Qualquer vocabulário deixa dúvidas e estão aquém da verdade, podem mudar e não evoluem para algo melhor. Entretanto, isso não leva a um relativismo cultural, que iguala perspectivas morais, pois sempre há algo a escolher. Não chegaremos a crenças indubitáveis, como queriam Sócrates e Platão, crenças morais imóveis, mas o pragmatismo que vê a história sabe que isso se dará por um acordo intersubjetivo. Escolher um esquema conceitual não significa atingir um ponto arquimediano fora do tempo e do espaço, absoluto, já que a própria racionalidade evolui e não há sistema neutro e universal. Respeitam-se posições que, de antagônicas, podem ser incomensuráveis (relativismo x absolutismo) tencionando fundamentar os pontos de vista e concepções de mundo que mudam.

De acordo com Plastino, o ironismo está atrelado ao etnocentrismo, que “funda” o conhecimento a certas práticas sociais e período histórico. Uma proposição é garantida em solidariedade com as outras pessoas da sociedade dentro de uma visão de mundo, já que não existe exílio cósmico. Por fim, Plastino traz a visão política de Rorty sobre a democracia liberal, garantidora de direitos e liberdades e que não requer uma concepção filosófica. A prática social não se funda em uma essência da natureza humana ou da razão, mas é pela solidariedade, vendo as diferenças (religião, raça) como menos importantes que as semelhanças (dor, sofrimento). Importa a lealdade para com os outros mais do que se ater a uma posição filosófica, criticando uma filosofia ou moral fundantes e acadêmicas.

Há que substituir o discurso da objetividade pelo da solidariedade porque Rorty, como Dewey, entende que a dor alheia nos toca levando em conta necessidade e desejo. A democracia liberal é legitimada pela construção human por um sentimento de solidariedade e compromisso social.



[i] Fichamento UNIVESP https://www.youtube.com/playlist?list=PLxI8Can9yAHcC9hEv4oAnMT5GI1zGRW1_  Empirismo e Pragmatismo Contemporâneos - O etnocentrismo de Rorty. Prof. Caetano Plastino.

[ii] Conforme https://pt.wikipedia.org/wiki/Terapia: Terapia ou terapêutica significa o tratamento para uma determinada doença.

[iii] Falaremos disso quando tratarmos do livro “Linguagem, conhecimento e formas de vida em Wittgenstein”, de Valério Hillesheim.

[iv] Diversos conteudos do mundo e diversos esquemas conceituais intraduzíveis entre si.