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terça-feira, 14 de abril de 2026

O entendimento a serviço da comunicação

Quando o entendimento emerge de práticas intersubjetivas do mundo da vida[i]

1. Sobre Habermas[ii]. Jürgen Habermas pertenceu à segunda geração da Escola de Frankfurt e à tradição da teoria crítica, sendo considerado um dos mais importantes filósofos e teóricos sociais do pós-Segunda Guerra Mundial. Segundo a SEP, seu trabalho abrange três grandes projetos: teoria social, ética do discurso e teoria deliberativa do direito e da democracia. Sua proeminência decorre especialmente do desenvolvimento da teoria da ação comunicativa, da noção de esfera pública e da defesa de uma racionalidade comunicativa voltada ao entendimento intersubjetivo, que renovaram a teoria crítica e influenciaram profundamente a filosofia, a sociologia e a teoria política contemporâneas.

2. Habermas no blog[iii]. Aparece como sendo responsável pela transição da razão instrumental para a razão comunicativa, focada no entendimento mútuo e na convergência racional no espaço público. Sua proposta de pragmatismo formal substitui a de um sujeito transcendental isolado por práticas linguísticas e sociais no mundo da vida, onde a validade das normas e a verdade são estabelecidas por meio da intersubjetividade e da argumentação entre interlocutores. Além disso, Habermas defende um realismo pragmático, sustentando que, embora o mundo exista de forma independente, os fatos e o conhecimento sobre ele são construídos e validados linguisticamente através de processos de aprendizagem contínuos e falíveis.

3. Habermas na perspectiva da nossa série[iv]. Jürgen Habermas dialoga com os autores da série efevmo-me ao propor a transição do paradigma da consciência individual para o da intersubjetividade, substituindo tanto o cogito privado de Descartes e a razão transcendental isolada de Kant por práticas linguísticas situadas no mundo da vida. Enquanto Kant fundamenta a moral na razão prática universal do sujeito, Habermas a socializa, defendendo que a validade das normas e a verdade dependem de justificações racionais reconhecidas entre interlocutores no espaço público.

Em oposição ao materialismo de Marx, que enfatiza a influência das condições materiais e econômicas na formação da consciência, Habermas resgata o potencial emancipador da razão comunicativa para salvar a democracia. Além disso, ele converge, em certa medida, com Sellars ao entender que o entendimento não é um dado imediato ou passivo, mas um ingresso no espaço das razões que exige assumir compromissos normativos e práticos.

4. Nossa máxima sobre o ponto de vista de Habermas. Em termos habermasianos, a nossa máxima “Eu falo e você me ouve, mas entende?” passa pelo núcleo da teoria da ação comunicativa. Para ele, ouvir não é ainda compreender, e compreender não é ainda entender-se (verständigung[v]). Vejamos.

5. Ouvir não é compreender, nem tampouco alcançar entendimento mútuo. Para Habermas, a linguagem não é primariamente transmissão de conteúdos mentais, mas coordenação intersubjetiva da ação. Assim, quando eu digo “Eu falo e você me ouve”, isso descreve apenas um fato empírico, um evento acústico-perceptivo que está longe da pergunta decisiva “você entende?”. Em Habermas, há uma distinção entre entender o significado linguístico (sinnverstehen[vi]) e aceitar a pretensão de validade do que foi dito. Portanto, o verdadeiro entendimento não é psicológico, mas normativo e intersubjetivo.

6. Entender é reconhecer pretensões de validade. Os atos de fala, segundo Habermas, levantam pretensões de validade. Quando falamos, nos comprometemos com inteligibilidade, verdade, correção normativa e sinceridade[vii]. Nessas pretensões, cabem as perguntas: “o meu enunciado é compreensível?”; “o conteúdo proposicional é verdadeiro?”; “o que falo é apropriado segundo normas compartilhadas?”; “o falante (eu, você) é autêntico?”.

Logo, a máxima poderia ser reformulada em termos habermasianos assim: “Eu produzo um ato de fala; você o decodifica. Mas você reconhece ou está disposto a reconhecer as pretensões de validade que eu levanto?” Se a resposta for “não”, então não houve entendimento comunicativo, mesmo que tenha havido compreensão linguística.

7. Entendimento não é acordo, mas possibilidade de acordo. Cabe enfatizar que, para Habermas, entender não significa concordar. O entendimento ocorre quando as pretensões de validade são claramente levantadas, e podem ser aceitas ou criticadas racionalmente. Isso significa que alguém pode entender perfeitamente o que eu disse e rejeitar o que foi dito, sem falha comunicativa. Ela ocorrerá quando o horizonte linguístico não for compartilhado ou quando uma das partes não se reconhece como participante simétrico do discurso[viii].

8. Mundo da vida e horizontes de sentido. A nossa pergunta também aponta para o mundo da vida (lebenswelt[ix]). Eu posso falar e você me ouvir, mas você pode não compartilhar comigo as mesmas pressuposições culturais, normas, ou formas de racionalidade. Nesse caso, o problema não é cognitivo, mas hermenêutico-social: os horizontes de sentido não se sobrepõem suficientemente. Desse modo, “não entender” pode significar que não se sabe o que está em jogo no ato de fala, ou que não se reconhece porque aquilo importa naquele contexto.

9. Diagnóstico habermasiano da nossa máxima. Habermas diria que a nossa máxima revela uma ilusão comunicativa moderna, ou seja, revela a ideia de que a comunicação bem-sucedida é garantida pela simples emissão e recepção de sinais. Entretanto isso seria típico de uma concepção instrumental da linguagem, que ignora sua dimensão normativa e intersubjetiva. Em termos fortes, Habermas diria que você pode falar, eu posso ouvir, e ainda assim não nos entendermos. Isso ocorreria porque o entendimento não está no som, nem na mente, mas na possibilidade de justificação recíproca.

10. Em forma de máxima habermasiana. Nossa máxima sob o escrutínio de Habermas soaria como “Eu falo e você me ouve; mas só nos entendemos se pudermos justificar racionalmente o que dizemos um ao outro.”. O que pode ser resumido como: “Ouvir é um fato; entender é entrar em um processo de justificação intersubjetiva.”



[i] Essa postagem é mais uma da série EFEVMO-ME, feita com insights de IA, mas revisada por humano. É como se a IA fosse o filósofo que a gente inquiri tentando obter uma resposta que nos conforme, mas, ao contrário, cada vez mais abre o campo investigativo.

[iii] Com base no histórico do Blog, entre outras: Habermas e a epistemologia após o giro linguístico-pragmático (2026): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/03/habermas-e-epistemologia-apos-o-giro.html, RIP Habermas (2026): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/03/rip-habermas.html, O entendimento como questão transcendental (2026): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/01/o-entendimento-como-questao.html, Hume anti cartesiano (2015): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2015/10/hume-anti-cartesiano.html.

[iv] Idem. Outros links: O entendimento como ato privado do pensamento (2026): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/01/o-entendimento-como-ato-privado-do.html, As condições materiais que tornam o entendimento possível (2026): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/01/as-condicoes-materiais-que-tornam-o.html, O entendimento contra o dado (2026): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/03/o-entendimento-contra-o-dado.html.

[v] Verständigung, conforme ChatGPT, significa, exatamente, chegar a um entendimento – algo que nossa série investiga. Na teoria da ação comunicativa, por um lado há uso da linguagem para influenciar ou persuadir (ação estratégica) e, por outro, há uso da linguagem para alcançar verständigung (ação comunicativa). É um pouco disso que essa nossa reflexão apresenta. Ação estratégica: https://revistaseletronicas.pucrs.br/veritas/article/view/8691/9031, para vermos.

[vi] Sinnverstehen é o entendimento do significado, oriundo da tradição hermenêutica alemã (Weber). Então, se verständigung é entendimento mútuo com o outro, sinnverstehen é entender o que foi dito (o significado). Conforme exemplo do ChatGPT, se eu digo “Está frio aqui”, você pode entender o significado da frase, mas não entender a intenção (pedido para fechar a janela, por exemplo). Assim, sinnverstehen está no campo da compreensão semântica, isto é, no nível linguístico e verständigung já vai para um entendimento comunicativo intersubjetivo, qual seja, nível pragmático e comunicativo. Idealmente precisaríamos nos aprofundar na relação Weber-Habermas: https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/76186/103945.pdf?sequence=1&isAllowed=y.

[vii] Aqui (https://ambitojuridico.com.br/a-teoria-discursiva-de-juergen-habermas/) as quatro pretensões são tratadas: “Nos atos de fala consensuais, ou seja, aqueles que são estabelecidos visando um consenso, um acordo sobre dado assunto, se pressupõe o reconhecimento mútuo de quatro pretensões de validade: Primeiramente, eu, como falante, tenho que escolher uma expressão inteligível para que meu ouvinte possa me entender. Então a primeira pretensão se refere à compreensão entre o falante e o ouvinte ou ouvintes. A segunda pretensão é que o conteúdo que eu comunico seja verdadeiro. A terceira pretensão é que a manifestação de minhas intenções seja sincera, para que o ouvinte possa crer no que manifesto, basicamente, possa confiar em mim. E a última estabelece que eu, falante, tenho que escolher a manifestação correta, com relação às normas e valores vigentes na sociedade, para que o ouvinte possa aceitar a minha manifestação, de modo que eu e o ouvinte possamos coincidir entre si no que se refere à essência normativa em questão.”

[viii] Para Habermas, a comunicação orientada ao entendimento (verständigung) pressupõe que os participantes tenham igual oportunidade de falar e não estejam sob coerção ou dominação, conforme vimos em RIP Habermas (2026) (em oposição a Bourdieu).

[ix] Lebenswelt é o horizonte compartilhado de significados culturais, normas sociais e competências comunicativas que torna possível o entendimento intersubjetivo.

domingo, 7 de janeiro de 2024

O etnocentrismo de Rorty

Criticando a filosofia moderna, Rorty abre espaço para um outro tipo de conhecimento [i]

Rorty defendeu o materialismo eliminativo, um tipo de teoria da identidade mente e corpo que questiona a tese da impossibilidade de corrigir as representações mentais, já que teríamos um acesso privilegiado a elas e não conseguiríamos revê-las. Evoluindo seu pensamento, depois ele fez críticas as teorias da verdade como coerência e como correspondência, solapando a ideia de um mundo independente da mente e superando o debate entre idealismo e realismo; ele se volta contra uma filosofia fundante centrada na epistemologia.

Para Rorty, no projeto filosófico moderno a epistemologia era baseada em uma metáfora do “olho da mente” que representa o mundo exterior. Conhecimentos a priori se originam na filosofia da “mente como espelho” e que pode ser estudada a priori, polindo-se esse espelho. Sem essa metáfora, não há análise fenomenológica ou análise lógica da linguagem, já que, mesmo Frege, transformou problemas de ideias em problemas de linguagem, porém manteve o a priori e o empírico. Nessa visão, a linguagem se apega ao mundo do mesmo modo que o conhecimento se apegava ao mundo, para Descartes.

Sellars, com o “mito do dado”, e Quine refutando a “distinção analítico sintético” contribuem para eliminar problemas canônicos da filosofia, em um trabalho de terapia[ii] filosófica ao modo de Wittgenstein[iii], do que tentar resolvê-los teoricamente (i.e., são problemas mal colocados, conforme fala Plastino). Os problemas filosóficos são trazidos historicamente dentro de um vocabulário que deve ser questionado. Mesmo a filosofia analítica ainda tenta dirimir “desafios filosóficos”, mas ela não é o melhor estilo, apesar de útil. É preciso enxergar historicamente se não quisermos cair no platonismo.

A filosofia deve superar o projeto de descobrir a Verdade ou agir segundo a Razão buscando uma autotransformação e aquisição de novos vocabulários, deixando de lado o projeto epistemológico e a filosofia sistemática. Apesar da virada linguística, a filosofia moderna ainda assombra a filosofia analítica. Quine contribui com a visão de Rorty, por exemplo, ao abandonar a ideia de significado como determinando a referência, ideia essa que torna proposições verdadeiras independente do que ocorra, como os enunciados analíticos que são verdadeiros apenas em virtude do significado de seus termos. Sellars puxa para a noção de conceito que nós temos e que usamos em contextos, ou seja, perceber algo já requer o conceito: primeiro tem-se o conceito de verde para depois ter a consciência de coisas verdes.

Daí que Rorty vai tomar a noção de justificação como uma questão de prática social, ter o conceito e saber usar em uma prática social para que seja conhecimento e não a “relação entre palavra e objeto”. Justificamos na conversação, criticando e tratando objeções. Ele rompe a relação, supostamente verdadeira, entre a crença e o fato, e a traz para os jogos de linguagem. A epistemologia se dá pelo diálogo, por um vocabulário contingente e não por representações fiéis da realidade. É o chamado behaviorismo epistemológico, que não transcende a prática e se opõe ao objetivismo de Putnam.

Mas como usamos as palavras e formamos crenças? Temos que descrever o modo como as formamos, ao estilo de Kuhn, em períodos, crises, paradigmas e vocabulários que se sucedem. Mais do que a experiência, é a prática que desempenha papel central no conhecimento.  Davidson também contribui com a visão de Rorty, questionando o relativismo conceitual (e cognitivo), modos de organizar a experiência, e com esquemas conceituais apartados. Ora, sempre é possível haver uma tradução entre duas linguagens, ele se apega à interpretação radical já que a maioria de nossas crenças (e a dos outros) devem ser verdadeiras.

Critica-se o ceticismo radical, pois a linguagem é compreensível e compartilhada. O dogma esquema – conteúdo[iv] (mundo) provoca o relativismo, mas temos contato com os objetos não mediado. Rorty critica a noção de verdade, baseado em Quine, e procura eliminar o predicado “é verdadeiro” que se aplica à expressão “A neve é branca” é verdadeira sse a neve é branca. Também distinguir verdade e justificação: supor que p é verdadeira é supor que  p, sem justificação. Não se pode dizer verdadeiro para mim ou na minha cultura (noção absoluta), mas se pode dizer justificado para mim ou na minha cultura (noção relativa) – confusão feita por James e pragmatistas.  A justificação é um critério para uma proposição ser verdadeira e não uma definição de verdade. Assim, não há crenças indubitáveis, visão falibilista. Justificar depende de cultura e jogo de linguagem.

Estamos no campo do ironismo liberal defendido por Rorty, que tem como características o nominalismo, que se atem ao particular, o historicismo, já que as crenças são contingentes e visão críticas sobre as visões de mundo e vocabulários. Qualquer vocabulário deixa dúvidas e estão aquém da verdade, podem mudar e não evoluem para algo melhor. Entretanto, isso não leva a um relativismo cultural, que iguala perspectivas morais, pois sempre há algo a escolher. Não chegaremos a crenças indubitáveis, como queriam Sócrates e Platão, crenças morais imóveis, mas o pragmatismo que vê a história sabe que isso se dará por um acordo intersubjetivo. Escolher um esquema conceitual não significa atingir um ponto arquimediano fora do tempo e do espaço, absoluto, já que a própria racionalidade evolui e não há sistema neutro e universal. Respeitam-se posições que, de antagônicas, podem ser incomensuráveis (relativismo x absolutismo) tencionando fundamentar os pontos de vista e concepções de mundo que mudam.

De acordo com Plastino, o ironismo está atrelado ao etnocentrismo, que “funda” o conhecimento a certas práticas sociais e período histórico. Uma proposição é garantida em solidariedade com as outras pessoas da sociedade dentro de uma visão de mundo, já que não existe exílio cósmico. Por fim, Plastino traz a visão política de Rorty sobre a democracia liberal, garantidora de direitos e liberdades e que não requer uma concepção filosófica. A prática social não se funda em uma essência da natureza humana ou da razão, mas é pela solidariedade, vendo as diferenças (religião, raça) como menos importantes que as semelhanças (dor, sofrimento). Importa a lealdade para com os outros mais do que se ater a uma posição filosófica, criticando uma filosofia ou moral fundantes e acadêmicas.

Há que substituir o discurso da objetividade pelo da solidariedade porque Rorty, como Dewey, entende que a dor alheia nos toca levando em conta necessidade e desejo. A democracia liberal é legitimada pela construção human por um sentimento de solidariedade e compromisso social.



[i] Fichamento UNIVESP https://www.youtube.com/playlist?list=PLxI8Can9yAHcC9hEv4oAnMT5GI1zGRW1_  Empirismo e Pragmatismo Contemporâneos - O etnocentrismo de Rorty. Prof. Caetano Plastino.

[ii] Conforme https://pt.wikipedia.org/wiki/Terapia: Terapia ou terapêutica significa o tratamento para uma determinada doença.

[iii] Falaremos disso quando tratarmos do livro “Linguagem, conhecimento e formas de vida em Wittgenstein”, de Valério Hillesheim.

[iv] Diversos conteudos do mundo e diversos esquemas conceituais intraduzíveis entre si. 

terça-feira, 19 de dezembro de 2023

Putnam e a objetividade do conhecimento

Passa pelas fases realistas de Putnam[i]

Putnam se filia ao realismo que ganha força na década de 70 impulsionado por Kripke e a teoria causal da referência, cuja proposta é estabelecer uma relação direta entre o referido e o termo, perpassando o significado. Se Kripke trata dos nomes próprios, Putnam aborda as espécies naturais (água, ouro, tigre...) que compõem o mundo. Em sua primeira fase, que poderia ser chamada de realismo metafísico, subentende-se que há no mundo uma totalidade fixa de objetos que são independentes da mente, mundo exterior existente e livre de nossas teorias. Além disso, é possível supor uma descrição completa e perfeita de como o mundo é, trazendo uma noção de verdade como correspondência entre as palavras e coisas externas. Essa é a perspectiva externalista, o chamado ponto de vista do olho divino.

Há uma ontologia externalista que prevê o mundo externo e a semântica da verdade com referência externalista baseada no realismo científico que nos dá acesso epistêmico ao mundo, evitando o ceticismo, mesmo que falível e aproximado (i.e., realismo convergente).  A ciência segue o ideal de busca da verdade, de um conhecimento verdadeiro do mundo, mas postula entidades inobserváveis em suas previsões e, assim, deixa questões problemáticas para os realistas, como uso de genes, átomos e outros. Ora, se não existem essas entidades, como seria possível explicar o êxito da ciência? É o argumento do milagre: sem essas explicações, como mostrar que tudo funciona adequadamente? Nesse caso, a melhor concepção é o realismo científico.

Plastino destaca que, por mais que haja teorias a respeito do átomo, a referência a ele permanece e busca-se por explicações a seu respeito, trazendo uma estabilidade referencial. As crenças mudam, o objeto não, o conhecimento avança cumulativamente incorporando teorias anteriores. Pode haver mudanças semânticas, de sentido, mas a referência continua, assim como na Terra Gêmea há uma substância chamada água que tem outra composição química: XYZ. Ou seja, o sentido de água não está em nossa cabeça, dado que XYZ não é água, pois a referência faz parte do significado, mesmo que semelhante em aparência. É a extensão do termo que determina o significado.

Porém, Putnam começa a rever sua posição externalista ao perceber que poderia haver vários mapeamentos da linguagem com o mundo, colocando em dúvida a fixação da referência e da verdade dada a multiplicidade de correspondências[ii]. Então ele se questiona sobre nossa capacidade de chegar ao conhecimento (concepção epistêmica de verdade), já que a correspondência é não epistêmica, independente de nossa capacidade cognitiva, embora para o realista há verdades que não dependem de nós.

Para o realista metafísico, uma teoria poderia satisfazer todos os critérios epistêmicos (coerência, previsão, explicação) e ainda ser falsa, não corresponder à realidade, já que pertencendo ao ser humano e enfatizando uma dicotomia entre realidade e teoria. Então ele questionará tal divisão entre mundo e conceito propondo que o que vale é o esquema conceitual que estamos utilizando e não devemos falar da coisa em si. Putnam já está negando o realismo metafísico em prol de um realismo interno que traz a relatividade conceitual dependente de perspectivas. Como pode haver teorias verdadeiras e equivalentes do mundo, a ideia de “Mundo” em si se esvai. O acesso a ele é feito por um esquema conceitual no qual colocamos os objetos, dentro de uma certa descrição. Sobre o sol, por exemplo, podemos falar dentro de um esquema conceitual, embora o sol não dependa desse esquema.

Ocorre que, inviabilizando a noção de verdade por correspondência propalada pelo realismo metafísico, Putnam proporá uma noção epistêmica em que associa a verdade à justificação e que evita mapear o mundo pela linguagem. Por exemplo, pelo verificacionismo fundado na evidência dos enunciados, nas condições de verdade que dependem de nossa capacidade cognitiva. Mas o verificacionismo pode levar ao relativismo cognitivo, já que pode haver mudanças de justificação pelo surgimento de evidências. Ora, a verdade não deveria ter essa oscilação, então, conforme Peirce, a justificação se daria ao longo do tempo, dentro do processo científico, em seu limite. Esse realismo com face humana de Putnam, traz a verdade de um enunciado como podendo ser justificado, algo aceitável racionalmente, mas não aqui e agora, mas idealmente. A verdade é um ideal regulador, que norteia a busca das condições epistêmicas e é vista como questão objetiva em que enunciados são melhores que outros independente do contexto histórico e cultural.

Mas também haverá dificuldade nessa nova “situação ideal”, se antes era a correspondência agora é a episteme, levando-o a uma nova autocrítica. A verdade, dependente de fatores humanos, poderia se manter estável? Como usar o papel da verdade na prática? Essa ideia estaria muito próxima de uma situação ideal difícil de ser encontrada na prática, de acordo Rorty. Se humano, esse ideal é suscetível a erros e mesmo uma investigação ideal pode ter proposições com conceitos vagos ou subdeterminados. Ou como distinguir melhores situações epistêmicas? Sabe-se que as avaliações epistemológicas variam com o tempo e pressuposições.

Então surge o realismo natural (direto ou pragmático) que descarta a linguagem como espelhamento da realidade, mas propõe que nossas crenças e enunciados devam ser responsáveis pela realidade (cognitivamente dar uma resposta ao mundo e ao outro, evitando o idealismo). Ele diz que observamos as próprias coisas diretamente pela percepção e não pela intermediação dos dados sensíveis, que são imagens delas e das quais falaríamos. Ora, o mundo que conhecemos não é produto de nossa mente, ele é independente de nós e de nossos artefatos e nos restringe forçando determinada resposta a ele. Mundo objetivo que limita nossas crenças. Então, o realismo não necessita de uma teoria epistêmica da verdade, já que fala sobre o mundo.

Sobre o pragmatismo, importa a crítica à dicotomia fato valor[iii]. Há valores cognitivos epistêmicos (predição, confiabilidade) que norteiam a teoria que versa sobre o mundo, então o fato é pautado por esses valores “embutidos”, assim como no discurso cotidiano. Há valor embutido na ciência: os fatos se dissolvem em valores (objetivos). Importa a noção pragmática de objetividade que visa superar cada cultura. Mesmo dentro de um falibilismo que não cai em ceticismo. Ele ressalta também que devemos estar abertos a várias descrições acerca do mundo, não devemos bloquear a investigação e não há um “a priori” universal e independente.

Associando os valores cognitivos da ciência e os valores éticos, pode haver comunhão ou competição entre os pesquisadores, mas sempre com interação mútua que influencia o conhecimento do mundo.  O dogmático não baseia suas crenças na experiência, elas são independente do que ocorre, disse Peirce, mas o que altera suas crenças são outras pessoas com outras crenças diferentes das dele gerando uma pressão social que o faça mudá-las. O realismo permite responder ao outro e ao mundo. Porém, Putnam discorda dos pragmatistas com relação as teorias da verdade que associam justificação e verdade levando ao relativismo[iv].



[i] Fichamento UNIVESP https://www.youtube.com/playlist?list=PLxI8Can9yAHcC9hEv4oAnMT5GI1zGRW1_  Empirismo e Pragmatismo Contemporâneos - Putnam e a objetividade do conhecimento. Prof. Caetano Plastino.

[ii] De acordo com Plastino, o Teorema de Löwenheim–Skolem.

[iii] Estão intrinsicamente ligados e ambos merecem interpretação objetiva. Já falamos do tema brevemente: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2013/12/possibilidade-possibilidade-reside.html

[iv] Plastino ressalta a dificuldade com a noção de verdade que aparecerá também em Rorty.