Trata do percurso que a comunicação faz nas estruturas
kantianas
Há uma máxima que ressoa em meus ouvidos: “Eu
falo e você me ouve, mas entende?”[i]. Ela me intriga por questões
práticas que se originaram na década passada, problemas comunicacionais tanto
em âmbito pessoal quanto profissional e adiante. A retórica ganha peso nas
disputas políticas recentes em terras brasilis e no durante / pós
pandemia, na virtualidade. Porém, se é
prática, pode ser analisada do ponto de vista teórico e em várias camadas.
Situando a contenda filosoficamente, a
filosofia da linguagem é uma área técnica especializada na questão e por ela
temos navegado nesse espaço. Especificamente, a questão aparece em 2020, no
texto “Trazendo a segunda pessoa para o debate”[ii], ali tratada pela lente
de Davidson. Já em 2023, pudemos falar sucintamente sobre algumas teorias de
filosofia da linguagem visando elucidações[iii].
Ocorre que, dada a ressonância da questão,
resolvemos colocá-la em perspectiva na filosofia em geral e na ótica conceitual
dos filósofos. É um exercício interessante e enviesado de questionamento que
ajuda a sedimentar conceitos básicos, mas a partir de questão crucial sobre
linguagem e comunicação, do ponto de vista humano.
No caso aqui, pela ótica de Kant, a nossa
máxima toca diretamente no coração da Crítica da Razão Pura e ajuda a estabelecer
a diferença entre receber representações e compreendê-las como conhecimento[iv]. Podemos organizar a
resposta kantiana em alguns eixos centrais.
Ouvir não é entender: sensibilidade versus
entendimento. Para Kant, a pergunta opõe duas
faculdades fundamentais: por um lado, a sensibilidade que recebe as impressões do
mundo, os sons, palavras e entonações e, por outro lado o entendimento pensa
essas impressões por meio de conceitos. Então, ouvir alguém falar é apenas um
fenômeno da sensibilidade ao passo que entender, exige que a faculdade do
entendimento subsuma o que foi ouvido sob conceitos adequados.
Lembremos que, para Kant, “intuições sem
conceitos são cegas”, o que me leva a pensar que você pode perfeitamente me
ouvir e ainda assim não entender nada, porque a audição fornece apenas o
material bruto da experiência.
Lembremos também que há a faculdade
suprema, a razão. Reforçando, as faculdades fundamentais de Kant são a
sensibilidade, que recebe passivamente os estímulos do mundo como intuições, o
entendimento, que organiza e unifica esses dados através de conceitos e
categorias, e a razão, que busca a unidade total e absoluta do conhecimento
para além dos limites da experiência. Enquanto a sensibilidade e o entendimento
garantem a recepção e a organização lógica da mensagem, a razão desempenha um
papel fundamental na busca por um sentido total e na fundamentação da
comunicação, ela poderia procurar compreender o “porquê” por trás das palavras[v].
Entender é uma atividade do sujeito, não um efeito da fala. Não podemos nos esquecer, também, que a compreensão não é algo que passa mecanicamente de um sujeito a outro, desse ponto de vista. O entendimento é ativo: ele organiza, sintetiza e julga. Portanto, quando eu falo, eu somente ofereço matéria para a sua experiência, já que o seu entendimento propriamente dito depende de você aplicar conceitos, regras, esquemas e categorias (como causalidade, unidade, substância e por aí vai.). Por aí percebemos que há um limite estrutural da comunicação: não há garantia transcendental de que o seu entendimento acompanhará a minha fala, mesmo que a gente partilhe as mesmas estruturas.
A linguagem não transmite conceitos prontos. Para Kant, os conceitos não são objetos que circulam pela linguagem porque são funções do entendimento. Assim, quando eu falo, minhas palavras evocam representações em você que podem ou não ser organizadas sob os mesmos conceitos que você emprega. Abre-se espaço para mal-entendidos não como meros acidentes psicológicos, mas como possibilidade estrutural da razão finita.
Olha que legal, esses dois pontos enfatizam um limite, não um defeito: pode não haver problema psicológico (p.ex., o ouvinte não prestar atenção); pode não haver problema semântico (p.ex., uma frase ambígua) - não há como garantir transcendentalmente que a sua atividade ocorrerá de modo coincidente com a minha.
O papel dos esquemas: por que às vezes
“quase entendemos”. Kant introduz os esquemas como mediações
entre conceitos puros e intuições sensíveis. Inferimos que algo semelhante
ocorre na comunicação: o falante pressupõe certos esquemas compartilhados. Só que
o ouvinte pode ter esquemas diferentes ou insuficientes e o resultado é que você
ouve, reconhece as palavras, mas não consegue esquematizar corretamente o que eu
disse. Isso não é totalmente arbitrário de cada um porque compartilhamos categorias e a estrutura.
A dimensão normativa do entendimento.
Cabe ressaltar que entender não é apenas ter uma imagem mental, mas ser capaz
de julgar, dar razões e aplicar corretamente um conceito. Logo, para Kant,
“entender” implica a possibilidade de dizer “Isto é assim porque…”. Assim
sendo, se você ouve e não consegue integrar o que ouve em juízos racionais,
então, kantianamente, não nos entendemos, apenas houve recepção sensível.
Para fechar esse passeio comunicativo por Kant,
podemos dizer que ele reformularia nossa máxima como algo do tipo “Eu forneço
intuições por meio da fala; se há entendimento, isso depende da síntese
conceitual que você realiza.” Ou, mais sucintamente: “Ouvir é passivo; entender
é um ato do entendimento.”[vi]
P.S.: Doctor Sadler, guiado por Ayer, argumenta
que a metafísica é um problema de linguagem, um problema linguístico[vii]. Falar de algo supõe que
tem algo lá, a coisa-em-si (ding an sich), basicamente por predicar. Isso o
positivismo procurou combater, Wittgenstein[viii] e tantos outros.
[i] Um dia foi “Eu falo e você me
escuta, mas entende?”. Parece que há mais compromisso quando escutamos, então o
mote correto é ouvir, que é o mínimo necessário para que duas pessoas
conversem.
[ii] Ver https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2020/09/trazendo-segunda-pessoa-para-o-debate.html.
[iii] Aqui https://www.youtube.com/watch?v=mrmrn4KY-t0.
[iv] Usamos o método de pedir para o
estagiário fazer o levantamento na base de conhecimento mundial - o estagiário
Gemini. Mas também estruturando com o conteúdo do blog: https://bit.ly/4k4uvCN.
[v]
[vi] Estamos começando as publicações
da série Eu falo e você me ouve, mas entende? (Efevmo-me?). Nela, Kant mostra
que o problema do entendimento não é primariamente linguístico, mas
transcendental. A pergunta “mas entende?” não é empírica, é uma pergunta sobre
as condições de possibilidade da compreensão. Haverá oportunidade de
mostrar como Habermas tenta “socializar” esse problema que Kant deixa no
sujeito.
[vii] A.J. Ayer, Language, Truth, and Logic | Examples of Philosophical
Nonsense | Philosophy Core Concept - https://www.youtube.com/watch?v=ArOfPwPmK7M.
[viii] https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2023/05/anotacoes-livro-azul.html, Anotações Livro Azul.
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