Quando o entendimento depende de práticas
transformadoras da realidade
No primeiro texto da série[i], nossa máxima foi
escrutinada por Kant, filósofo que pertenceu ao iluminismo alemão e funda um
movimento que busca determinar os limites e as condições de possibilidade do
conhecimento, em um contexto de conflito entre racionalismo e empirismo. Kant
reformula a metafísica ao deslocar o foco do objeto para as condições do
conhecer (a chamada “revolução copernicana”), e torna inevitável a necessidade
de se posicionar em relação ao seu projeto crítico.
Diante dessa proposta, agora queremos
ouvir Marx, mas não sem antes o opor a Kant porque Marx passa o foco do
indivíduo para a luta contra as estruturas de classe, bem como por uma mudança
de uma razão estática para uma história dinâmica. Por um lado, Kant está na
tradição do liberalismo moderno, fundamentando a moral e o conhecimento na
primazia da razão transcendental de um sujeito cujas condições de possibilidade
são universais e não historicizadas. Por outro lado, Marx opõe-se ao idealismo
e à análise paralisada de Kant ao introduzir o materialismo dialético,
substituindo a visão de verdades fundamentais e direitos naturais pela
compreensão de que a história é movida por contradições econômico-sociais
concretas que precisam ser superadas[ii].
Segundo a perspectiva marxista, a nossa
forma de pensar e enxergar o mundo não nasce conosco, mas é moldada pelas
condições materiais e sociais em que vivemos. No centro dessa teoria está o materialismo
histórico, que explica como a infraestrutura (a economia e o trabalho) sustenta
a superestrutura (as leis, a religião e a cultura), moldando de forma não
imediata a consciência humana em um reflexo das relações de produção. No
sistema capitalista, esse processo gera uma consciência reificada (conforme
postulou Lukács[iii])
e alienada, onde o indivíduo perde a visão do todo e passa a ser tratado como
mercadoria, enquanto instituições sociais reforçam a ideologia da classe
dominante para naturalizar as desigualdades.
Contudo, como a própria inteligência
humana é fruto da transformação da natureza pelo trabalho, a filosofia e a
educação crítica surgem como ferramentas essenciais para que o sujeito desperte
dessa passividade, compreenda as estruturas que o cercam e busque a sua
verdadeira emancipação social[iv].
Feita a contextualização, nossa máxima “Eu
falo e você me ouve, mas entende?”, lida a partir de Marx, aponta menos para um
problema meramente linguístico ou psicológico (como em Kant) e mais para um
problema material e social da compreensão. Se em Kant a questão era transcendental,
vejamos à luz do pensamento marxiano.
A compreensão não é um ato puramente
individual. Para Marx, a consciência não precede a vida social;
ela é produzida por ela. Em A Ideologia Alemã, ele insiste que: “Não é a
consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência.” Assim,
o fato de você ouvir o que eu digo não garante compreensão, porque compreender
envolve partilhar formas sociais de vida, práticas, necessidades e posições
materiais semelhantes. Se eu e você ocupamos lugares diferentes nas relações de
produção, a linguagem pode circular sem que o sentido efetivo se estabilize –
haveria comunicação não significativa. A nossa máxima, então, revela que ouvir
não basta quando há horizontes sociais distintos.
Linguagem como prática social, não como
meio neutro. Sabemos que Marx não tem uma teoria
sistemática da linguagem, mas lida a partir dele, a linguagem poderia ser
considerada não um canal transparente de transmissão de ideias; mas uma forma
de prática social. As palavras carregam marcas históricas, ideológicas e de
classe. Isso implica que o mesmo enunciado pode significar coisas diferentes
para sujeitos situados diferentemente; a linguagem pode reproduzir relações de
dominação, inclusive no nível do “entendimento”. Assim, quando eu pergunto “mas
entende?”, Marx responderia algo como: entende a partir de qual posição social?
De qual interesse material?
Ideologia e falsa compreensão.
Um ponto decisivo, para Marx, é que muitas vezes o problema não é falta de
compreensão, mas compreensão ideologicamente mediada. Você pode entender o que
foi dito de maneira invertida; você pode entender segundo categorias que
naturalizam relações sociais históricas; você entender de forma a reafirmar o
status quo. Nesse sentido, a nossa máxima pode ser lida como um diagnóstico
crítico: eu falo, você ouve, mas o entendimento é bloqueado ou distorcido pela
ideologia dominante. Assim, “não entender” não é ignorância simples, mas efeito
socialmente produzido.
Entender é poder agir.
Para Marx, compreensão genuína se manifesta na práxis. Não é apenas captar um
conteúdo mental, mas ser capaz de se orientar e agir no mundo a partir dele. Lembremos
das 11 Teses sobre Feuerbach, nas quais Marx critica o materialismo anterior
por ser contemplativo e abstrato e defende um novo materialismo prático e
revolucionário, cujo objetivo não é somente interpretar o mundo, mas transformá-lo.[v] Se quisermos, podemos parafrasear
a famosa tese 11 postulando que não basta interpretar corretamente o que foi
dito; o entendimento real aparece quando isso se traduz em prática.
Há uma transposição da tese do plano
ontológico-político para o plano da linguagem e da compreensão, mas o ponto
marxiano permanece o mesmo: o critério do entendimento não é apenas
interpretativo, mas prático, como uma capacidade de agir de outro modo. Logo, você
pode ouvir, repetir e até concordar verbalmente, porém ainda assim não
entender, se nada muda no modo como você age ou se relaciona com as condições
materiais envolvidas.
Resumindo, nossa máxima em tom marxiano, seria
algo como “Eu falo dentro de determinadas condições sociais; você ouve dentro
de outras. O que está em questão não é a audição, mas se partilhamos as
condições materiais que tornam o entendimento possível.” Ou, ainda mais forte:
“A comunicação falha não por deficiência cognitiva, mas por contradições
sociais.”
Haverá oportunidade de contrastar essa
leitura de Marx com Habermas e outros, nos próximos episódios da série.
[i] https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/01/o-entendimento-como-questao.html,
O entendimento como questão transcendental.
[ii] Com base em: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/09/kant-hegel-marx-anotacoes.html,
Kant, Hegel, Marx – Anotações.
[iv] Com base no histórico do Blog: https://bit.ly/notebook-blog.
[v] Sobre as 11 teses consultamos o DeepSeek: https://www.youtube.com/shorts/0-rbMMrD-JE. Conteúdo: Teses sobre Feuerbach.
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