quinta-feira, 24 de junho de 2021

Sobre relações tecnológicas

A tecnologia se relaciona com conceitos e áreas de conhecimento tais como: ética, história, técnica, ideologia, política, capitalismo, antropologia, poder, ciência, etc.

Esses elementos podem ser definidos por: E = f(e), por exemplo:

Ética é “a investigação dos princípios que orientam o comportamento humano, refletindo a respeito da essência das normas, valores, etc.”[i].

História é “a ciência que estuda o ser humano e sua ação no tempo e no espaço concomitantemente à análise de processos e eventos ocorridos no passado”.[ii]

Técnica é “arte ou maneira de realizar uma ação ou conjunto de ações.”[iii]

Essas são definições gerais e podem variar bastante, mas, por agora, bastam para uma amostragem do que procuramos. Esses elementos podem ser definidos em tipos[iv], por exemplo: epistemológicos (técnica, ciência), ontológicos (história, antropologia) e axiológicos (ética, ideologia, política, capitalismo, poder).

Isso posto, e dado que Tecnologia é T, se existe um E | E = f(e) e E é do tipo t, então T(e) variando em função de t T. Vejamos:

Para E = ética, conforme f(e) acima & t = “axiologia”, temos uma T1(ética) que pode ser “o homem deve subjugar a natureza em benefício próprio”.[v] Ou seja, essa proposição ou função tecnológica pertence à tecnologia, mas qual o seu valor de verdade?

Vejamos outro exemplo: para E = história, conforme f(e) acima & t = “ontologia”, temos uma T1(história) que pode ser “É o processo histórico de produção que mostra a relação do homem com a natureza.”.[vi] Ou seja, essa é outra proposição ou função tecnológica pertence à tecnologia, mas qual a sua comparação com relação à proposição anterior?

Ora, podem T1(ética) e T1(história) compartilharem sem atrito o mesmo conjunto T? “O homem deve subjugar a natureza em benefício próprio” e “É o processo histórico de produção que mostra a relação do homem com a natureza.” não parecem ter propriedades semelhantes, pois T1(ética) não é válida em todo T1(história), a saber: a visão de subjugar a natureza data do fim do renascimento europeu. É aqui que nos aproximamos de dois caminhos: o primeiro é uma atitude blasé, id est, bungeana pois “Cupani salienta que Bunge se pauta pela clareza cartesiana e alinhamento à tradição iluminista, isto é, é um otimista, porém, se vê os excessos da tecnologia ele não foca neles”[vii]. Ou seja, desfiliada na medida que poderia talvez aceitar ambas desinteressadamente.

Já o segundo caminho é fazer uma separação em subconjuntos de T, quais sejam[viii]: “teorias instrumentais veem a tecnologia como um meio ao serviço dos propósitos humanos; teorias substancialistas acreditam que a tecnologia seja autônoma; teorias pluralistas insistem na multiplicidade de fatores aos quais responde a tecnologia.” T seria igual a Ti (teorias instrumentais) ou Ts (teorias substancialistas) ou Tp (teorias pluralistas). Ou teorias deterministas: Td e procurar por uma filiação.

Então, T1(ética) poderia, sem contradição, pertencer a uma T cujo domínio é Ti e T1(história) pertencer a uma T cujo domínio é Ts e aí se trabalha em um debate enviesado, de posições claras. De todo modo, vale sempre considerar um enunciado tecnológico em relação a alguns dos critérios apresentados aqui, sejam eles conceitos ou áreas de conhecimento, nos mais variados tipos e filiados a um subconjunto específico ou, digamos, com uma visão mais holística.

quarta-feira, 23 de junho de 2021

Fuja!

Mais do que nunca é preciso fugir, mas não abandonar. Mais do que nunca é precisa impor limites. Basta! Fuja! Mas não fugir de repente, mas fugir com cuidado, com o dever cumprido. Isso não há como evitar. A pandemia aliada à tecnologia possibilitou, para algumas camadas e profissões, a não presença. Se, por um lado, há mais liberdade em organizar uma rotina doméstica, aliar tarefas caseiras com tarefas da profissão, não é nenhuma novidade, que, de outro lado, não se sabe exatamente bem o que os outros fazem do lado de lá. Pipocam atividades, acumulam-se problemas. Entretanto, a vida comum é assim.

Nessa barafunda, precisamos de nosso tempo. Pululam transtornos de ansiedade, isso é notícia corriqueira. O cérebro pensa e muito. Mas ele não precisa estar voltado para aquele pensar que quer nos aprisionar. Para isso existe o papel em branco, os livros, a pesquisa, etc. Para que o disco não fique arranhado e repetindo uma nota só. O cérebro não para e, diante disso, ele precisa de refresco. Criatividade! Fuja!

Sabemos, contudo, que fugir está cada vez mais difícil em virtude do quão artificial e instantânea tem sido nossa época. Para onde fugir se há sempre um prédio, uma rua, o celular emitindo algum som? Como fugir se temos que estar sempre online? Não atender o telefone ou responder uma mensagem de WhatsApp já desperta dúvida. Talvez, um caminho possa ser continuar fazendo essas mesmas coisas, respondendo, mas conscientemente. Não estar preso a essa miríade tecnológica sufocante e instigante, ou seja, tentar interiorizar possibilidades mais pregressas de vida, ritmos mais lentos. Sentir o corpo, olhar no espelho, fazer as inadiáveis tarefas mecânicas e repetitivas que servem para que todos os estímulos possam ser processados. Por isso, é preciso fugir, fugir do mesmo, do que está na nossa frente.

Se eu poderia explorar mais esse assunto? Creio que sim, mas por hora eu fujo!

sábado, 19 de junho de 2021

Lewis Mumford e a visão histórica da tecnologia

A construção do conceito do mito da máquina mostra que a técnica evolui enquanto a vida humana é depreciada [i]

Lewis Mumford, historiador, vê a máquina ampliando nossas capacidades ou “aliviando o ambiente” e tendendo ao autômato. Para ele, a técnica é a relação entre meio social e inovação e, a tecnologia, os procedimentos. Usa o jargão “a máquina” para tratar de todo o processo tecnológico que inclui máquinas (dispositivos), ferramentas, utilidades, etc.

O papel da técnica na civilização ocidental

Mumford trata da mecanização que atinge todos os processos orgânicos oriundos da disciplina de ferro dos monges beneditinos medievais e o ritmo imposto pelas horas canônicas, ritmo da máquina, que marca o tempo e permite quantificar. Conforme Cupani: “Para Mumford, o relógio (e não a máquina a vapor) é a máquina-chave da era industrial”. Assim como o espaço que, entre os séculos XIV e XVIII, passou de vinculado ao homem para sistema de magnitudes. Dessa maneira, o homem se afasta do mundo real e, por meio de abstrações, vai do capitalismo à ciência em uma busca de poder substituindo a economia das necessidades pela das aquisições.

E, um círculo virtuoso de técnica e capitalismo, favorece a invenção e produção de máquinas, porém mais em proveito particular que do bem geral. Nessa conjuntura está a mecanização como base da tecnologia científica. É “a máquina” essa visão mecanicista do mundo, união de ordem e poder alicerçados pelo comércio e a guerra.

Etapas do desenvolvimento tecnológico

Mumford define fases na evolução técnica com suas formas de gerar energia, alterar a produção e com efeitos na sociedade.

Etapa eotécnica (1000-1750): caracterizada pelo uso da água, madeira e ventos, o processo que leva à Revolução Industrial na Europa traz contribuições de diversas culturas (persa, chinesa, indiana). O ser humano vai deixando de ser o motor energético. Além da madeira, utiliza o vidro (janelas, lentes). É uma época de impessoalidade, das máquinas e autômatos, fundada nas invenções mecânicas e método experimental e Cupani destaca a imprensa. Por fim, há equilíbrio entre cultura e tecnologia, enriquecimento da vida humana, embora o capitalismo tenha avançado na exploração do homem.

Etapa paleotécnica (1750 ao final do XIX): caracterizada pelo uso do carvão e ferro, que sendo fontes de energia permanentes trazem a indústria inorgânica (mineração) superando a orgânica (têxtil). Acelera-se a produção em massa e exploração. A máquina, tecnologia e filosofia mecanicista provocam o desejo de ganho do empresário e enfraquecimento cultural (artes, diversão) e religioso. Conforme Mumford: “Isso porque um novo tipo de personalidade tinha surgido, uma abstração andante: o Homem Econômico – um neurótico de sucesso”.

A vida se degrada com pessoas amontoadas e depauperadas com o progresso escondendo mazelas e ignorando que o tempo passado foi melhor, mas suscitando noções como a luta de classes. Ainda que com grande avanço do maquinário que desembocará na fase neotécnica, que finalmente cumpre as promessas de Bacon e Leonardo e tendo como símbolo a estrada de ferro[ii], houve uma mudança axiológica da aceleração do tempo em busca de ganho.

Etapa neotécnica (até 1934): eletricidade e ligas metálicas, surge com o aperfeiçoamento, em 1832, da turbina de água onde colaboram ciência e tecnologia[iii]. Incremento da ciência e técnica especializada, porém sem formação humanística. Há maior rapidez nos transportes, comunicação instantânea, crescimento da automação. Se houve, por um lado, tentativa de reduzir o papel das máquinas, houve, também, recuperação das condições da era paleotécnica com cidades congestionadas, etc., ou seja, entre conquistas, problemas e compensações, questiona-se o papel da máquina no melhoramento da existência humana, principalmente por conta da associação ao capital.

O “mito da máquina”

 Trinta anos depois, Mumford avalia que somos, sim, homo sapiens e não homo faber. A produção humana supera a necessidade orgânica, haja vista nosso potencial cerebral que nos permitiu criar a linguagem e uma organização social que trouxe ordem cultural e nos deu certa estabilidade.

Então, é antes a mente que possibilita a criação de artefatos, como se vê no Neolítico até o surgimento da civilização em 3000 a.C., chamada por ele de grande máquina (big machine), que concentrou o poder e dominação nas mãos de uma minoria, organização, estruturação da população e o grande feito na construção da pirâmide de Quéops.

É uma megamáquina, constituída de seres humanos, que se prolonga ao longo dos tempos, entre aspectos positivos e negativos, acelerada por um capitalismo que afasta o artesanato tradicional em prol do poder. Impulso obsessivo de controlar natureza e vida que se inicia no XVII pela associação entre interesses humanos e pressões tecnológicas.

O pentágono do poder (poder – propriedade – produtividade – proveito – prestígio) marcha na direção do grande cérebro (computador) que pode nos eliminar. Segundo Mumford, só compreendendo nossa própria natureza poderemos controlar ou suprimir o que produzimos. Conforme a fórmula:

Se devemos evitar que a megatécnica continue controlando e deformando cada aspecto da cultura humana, seremos capazes de fazer isso tão somente com o auxílio de um modelo radicalmente diferente [de vida] derivado diretamente não das máquinas, mas dos organismos vivos e dos complexos orgânicos (ecossistemas).



[i] Conforme Cupani, Alberto. Filosofia da tecnologia: um convite. 3º ed. Florianópolis: Editora da UFSC, 2016. Capítulo 3: A visão do historiador. Podemos apreender há uma visão de progresso pessimista, diferente de outros autores, por exemplo Vieira Pinto. Da para notar semelhanças entre ambos.

[ii] A saber: eletricidade, escoamento de produção, regularidade e segurança.

[iii] Casamento perfeito ou maldito?

domingo, 13 de junho de 2021

Sobre uma era tecnológica que sempre exisitiu

Conta um pouco de nossa história produtiva que, entre avanços e cautela, tem por base uma essência técnica[i]

Álvaro Vieira põe, de um lado, os animais como consumidores do que a natureza lhes oferece e, de outro, os homens que, produtores, têm no sistema nervoso superior a capacidade de projetar e se unir socialmente para produzir. Embora alguns ainda se pretendam consumidores à custa alheia, Vieira ressalta que a produção é a essência de nossa realidade e o que nos permite resolver a contradição com o meio.

Conforme Vieira, “descobrimos, com esta reflexão, que a razão de ser de todo projeto consiste na produção”. E da produção de objetos até a de ideias, ou seja, a cultura por onde a contradição é resolvida pela produção amparada na técnica:

“Ora, obedecer às qualidades das coisas e agir de acordo com as leis dos fenômenos objetivos, seguindo os processos mais hábeis possíveis em cada fase do conhecimento da realidade, é precisamente aquilo em que a técnica consiste”.

Então, sem mistério, é o homem, pela sua origem e pela sua história natural, animal técnico.

É técnica a base da “era tecnológica” que envolve a produção material e ideal (artística, etc.), uma era tecnológica sempre existiu pelas produções técnicas. Se igualam o polimento da pedra e a Revolução Industrial, etc. E a criação humana se expande pelo crescimento do trabalho intelectual que representa o mundo circundante pela abstração.

A técnica, ou tecnologia, é a produção natural humana que, pelo caráter social, intervém no mundo, dadas as condições da época. Quando a ela se agregam tempo e lugar, crenças e valores, tem-se a cultura e conceito de época. As técnicas são as prescrições que asseguram o empreendimento e que são transmitidas hereditariamente.

Segundo Vieira, quanto mais se avança a tecnologia, mais declina a tecnocracia entendida como dispêndio de tempo com afazeres, pois qualquer erro pode ser mortal. É aí, em sociedades primitivas, que invenções técnicas que podem enriquecer as práticas podem representar perigo; cada descoberta traz uma incerteza[ii].

É fundamental o pensamento dialético se debruçar sobre a contradição entre continuidade quantitativa e saltos qualitativos e sobre o permanece: a técnica, embora variada pois movida por fenômenos físicos, sociais ou psíquicos. Assim, não é atual uma luta entre humanismo e tecnologia como fazia, segundo Vieira, Toynbee[iii], pois são falsos dilemas de cada época, manifestados pela ingenuidade.

Obviamente, o progresso é crescente, mas sempre existiu e é sem fim, mas não é a tecnologia o motor da história, que deve ser analisada sem estigma e nem ser endeusada, como um modo de ser do homem a ser analisado pelas categorias lógicas do pensamento crítico.



[i] VIEIRA PINTO, Álvaro. O Conceito de Tecnologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005. O conceito de produção e de era tecnológica. P. 61 e seguintes.

[ii] Vide internet, redes sociais. Vieira cita energia atômica ou arco e flecha, equiparando nossas criações tecnológicas com as antigas embora, claro, com outra qualidade.

[iii] Conforme https://pt.wikipedia.org/wiki/Arnold_J._Toynbee, Arnold Joseph Toynbee (1889 - 1975) foi um historiador britânico, cuja obra-prima é Um Estudo de História, em que examina, em doze volumes, o processo de nascimento, crescimento e queda das civilizações sob uma perspectiva global. 

sexta-feira, 11 de junho de 2021

Tecnomedo

De como uma sociedade progride olhando para os lados e, claramente, para trás

Reconhecer rosto, por quê? Tristeza? Não... Reconhecimento facial para controle.

Um rosto triste, se reconhece? Não, somente um rosto suspeito. Okay, okay.

*  *  *  *  *

Passou um carro na estrada, azul. Passou outro atrás, verde. Duas horas depois, o mesmo, mas no sentido oposto. Passeio? Não, presságio. E mau.

Seria o velho medo? Botar o narizinho para fora da caverna, procurar alimento. Tudo isso é muito perigoso. Tudo isso era muito perigoso há 10 mil anos atrás. Resquício? Receio.

*  *  *  *  *

Foucault explica. Foucault me explica! Tecnologias do poder. Nossa genealogia não nega. E a filosofia? Corrobora. Filosofia é discurso pautado, mas pode ser embasado e contestador, desde que seguindo as disposições mais elevadas da constituição biológica e racional, tudo muito ético e verdadeiro, não se regulando por uma moral prévia. Inovador? Sim e não. Não e sim.

*  *  *  *  *

Venho através desta somente dizer que eu não tenho nada a dizer, mas que estou vivendo. Vivo aqui espremido entre outros 6 ou 7 bilhões. São números, mas cada número desse é um número muito semelhante a mim. A Eu.

Cada número é um número indecifrável. Mas cada número deve ser decifrado: tecnomedo! O que aquele número pensa, o que aquele número fez??? O que aquele número... Aquele número, aquele... Fará?

O que fará?

Tecnomedo!

*  *  *  *  *

Conversão. Conversão de gente em dado. Conversão de gente em números e fórmulas. Dois passos para cá, três para lá, uma olhadinha de lado e. Bingo! Teje preso.

*  *  *  *  *

Uma pessoa.

Duas pessoas.

Quinze pessoas.

Cinquenta, trezentas e vinte pessoas.

Movimentação estranha, aglomerou. Mil. Sete mil, trinta mil. E contando...

Manifestação!! Alarme, polícia, repressão. Eficiência. Efi-ciência. Ciência?

*  *  *  *  *

É muito triste tudo isso. Você triste, eu triste. Nós tristes e dedos em riste. É o que resta, um dedo em riste. Resta um chiste. Ou um xote? Não, resta morte.

Fingimos e vivemos, fingimos e fugimos. Fingimos e fungamos. Eu fungo de choro, mas há quem fungue de vírus e há quem fungue de fungo. Fungo negro.

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Se a ciência fosse uma ciência de vida seria menos difícil. Ó, ciência, você pariu sua filha, a tecnologia, a logia do técnico, de uma técnica além de nós. Deus Máquina, rogai por nós!!

 Eu escuto coisas. Eu vejo gente. Ouvi dizer que a ciência é um jogo de verdade. Sim é um jogo, mas é de verdade!! Entende? Não é um jogo de mentira. Mentira e medo, duas velhas que andam de braços dados. Passeando? Não, passando. Um recado. Espreitando. Pedindo tecnomedo, orando pelo tecnomedo.

 *  *  *  *  *

Eu tiro um sorriso, mas logo passa. Os risos, hoje, são de cumplicidade. Poucos são de ironia. Fora disso, desfaçatez. Riso de um dentro podre, riso baforento. Bafo de bode. Bode velho, sorria! O bode velho que tem um sorriso amarelo e mentiroso é aquele bode cuja pele quero de tapete, não de centro, mas de fora da casa. Para limpar o pé, tirar a inhaca.

A inhaca tem que grudar em algo e gruda em coisas feias, por isso essa pele de bode há de limpar tudo. Há de pegar todas as inhacas, degustar a sujeira e palitar os dentes. E não há de defecar, nenhum detrito há de sair pois tudo é muito tóxico.

*  *  *  *  *

Num lapso eu volto a mim. Eu me pergunto se o caminho tecnológico é um caminho de sobrevivência, de excesso ou de medo. Eu queria saber o que estamos fazendo conosco, com o mundo. Eu tenho dúvidas, mas eu não queria que isso tudo não fosse nada mais do que um medo tecnológico. Não um medo da tecnologia, mas um tecnologia do medo.

domingo, 6 de junho de 2021

O Critério Renascentista da Verdade, a visão direta

Mostra o método por trás das navegações que, se influenciado pela tradição, a supera[i]

Vargas lembra que a Geografia, de Ptolomeu[ii] (século II d.C.), foi a base do Mapa Mundi no século XV e cujos processos astronômicos são válidos até hoje. Embora centralizada na Mesopotâmia, são mapas esféricos em oposição aos mapas medievais que representavam a terra como um disco plano (ex. o mapa das Etimologias de Santo Isidoro de Sevilha).

Ainda que com coordenadas imprecisas e, dadas as dificuldades para medições, a Geografia foi considerada certa por grandes cosmógrafos da época, incluindo aí o mapa usado por Colombo. Vargas credita a isso também o caráter matemático dos primeiros livros da Geografia e a autoridade do Almagesto[iii], baseada na episteme theoretike com caráter de verdade.

Se havia o critério da autoridade dos sábios da antiguidade clássica, com citações dessas duas obras de Ptolomeu em crônicas do descobrimento das Ilhas Atlânticas, um novo critério de verdade, a visão direta, surge quando os portugueses superam as supostas chamas líquidas do sol, que fariam o mar efervescer ao sul da África.

O método da ciência renascentista diverge da autoridade dos textos por contar com o que “pode ser visto”. A natureza não é mais criatura de Deus e fundamentada na mente divina, mas uma natureza panteísta, metafísica e de harmonia geométrica. A investigação pela visão fenomenológica apoiada na geometria supera o método analítico das epistemes gregas, mas ainda não é o empirismo que se funda no raciocínio indutivo.

Vargas ressalta que a lógica associada à confiança ilimitada na razão humana fez com que, na antiguidade e Idade Média, a discussão se baseasse em teses e não na enganosa observação sensível. Então, os portugueses revelaram um novo mundo à Humanidade e descobriam novas coisas pela visão direta, coisas que a teoria antiga não tinha experiência, porém levando em conta as bases anteriores.

O método se caracteriza por “abrir os olhos e ver”, para entender a razão por trás da natureza e a descrever ou desenhar, como o fez da Vinci: observar a natureza e pintá-la à risca. Por de trás do método leonardiano e mesmo no Voo dos Pássaros[iv] está uma natureza matemática geométrica e assente em princípios de movimento da Mecânica.

Mas, se é um conhecimento experimental, ele não se respalda em uma teoria prévia, como ocorre em Galileu, conforme Vargas: “É muito mais próximo da “experiência” vivida, do artista ou do técnico, do que da experiência teorizada dos cientistas modernos ou da tecnologia de hoje”.

Kepler, que institui a astronomia moderna, segue tais preceitos: ordem matemática da natureza, as figuras geométricas arquétipos na mente de Deus. A arquitetura do cosmos de Kepler, se verdadeira, apresenta sentido platônico e se permeia nas proporções harmoniosas. A teoria de Kepler, entretanto, só é verdadeira se as observações sensíveis concordam com o esquema arquetípico. É a ordem cósmica divina que presidia a natureza e o homem partilhando dessa natureza independente da vontade.

Por outro lado, coexistia uma tradição hermética, que considerava alterações no curso da natureza. É outro critério de verdade que Vargas nos traz. Temos Paracelso, filósofo químico contemporâneo de Copérnico, mas anterior a Kepler. Sua teoria alquímica também se valia da visão direta, mas que tinha uma procura nas viagens e sabedoria popular e se utilizava dos processos de combustão, vaporização e solidificação.

Paracelso, na alquimia, Kepler com a visão dos astros, Leonardo observando a realidade: todos guiados pelo critério de verdade lançado pelas navegações portuguesas.



[i] Conforme O Critério Renascentista da Verdade, Capítulo 6 de Vargas, M. (1994). Para uma filosofia da tecnologia. São Paulo: Alfa Omega.

[ii] Geografia foi uma obra feita pelo famoso astrônomo grego Cláudio Ptolomeu, que viveu nos séculos I e II d.C. Era um conjunto de oito volumes com conhecimentos científicos greco-romanos que incluíam conhecimentos de geografia como localização por coordenadas, ou seja, longitude e latitude. A obra foi traduzida e conservada pelos árabes durante a Idade Média e posteriormente impulsionou o desenvolvimento da cartografia. A primeira tradução para o árabe ocorreu no século IX e para o latim no ano de 1406. Conforme: https://pt.wikipedia.org/wiki/Geografia_(Ptolomeu).

[iii] Almagesto é um tratado matemático e astronômico escrito no século II por Cláudio Ptolomeu. A obra, escrita em grego, adota o modelo geocêntrico para o sistema solar, além de conter um extenso catálogo estelar. É um dos textos científicos mais influentes de todos os tempos, tendo sido autoridade no assunto desde a antiguidade, no império bizantino, no mundo árabe e na Europa ocidental ao longo da idade Média e Renascença até o século XVI, quando o surgiu o heliocentrismo de Copérnico. Conforme: https://pt.wikipedia.org/wiki/Almagesto.

[iv] O Códice sobre o Voo das Aves é um códice relativamente pequeno, registrado por volta de 1505 por Leonardo da Vinci. Compreende 18 folhas e mede 21 × 15 centímetros. Localizado atualmente na Biblioteca Reale em Turim, na Itália, o códice começa com um exame do comportamento de vôo das aves e propõe mecanismos para o vôo por máquinas. Leonardo construiu várias dessas máquinas e tentou lançá-las de uma colina perto de Florença. Conforme:  https://en.wikipedia.org/wiki/Codex_on_the_Flight_of_Birds.

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Filosofia além do tempo

Entre descrição, prescrição e predição

Especulava eu, em diálogo doméstico e a despeito do que tenho visto no estudo sistemático de filosofia da tecnologia que venho realizando, sobre a importância da história no desenvolvimento técnico. Isso tenho lido deveras, haja vista sua ênfase em Vieira Pinto, Simondon, etc.

Porém, isso é característica da filosofia em geral, afinal, “nada se cria, tudo se copia”[i], ou seja, sempre partimos de algo já iniciado. Impossível não olhar, ainda que minimamente, para Platão, Aristóteles, etc. O edifício filosófico seria até concomitante ao homem quando se socializa, afinal, de certa forma, pensar é filosofar.

Mas, em cada época, a filosofia está presa a seu tempo. Do pouco que conheço, ela se debruça muito sobre três “contextos”: histórico, o ser atual - mundo (descritivo) e o dever (prescritivo) e pouco sobre o futuro (preditivo).  O diagrama abaixo procura mostrar isso, passado e presente reais, dever e futuro supostos.

Pois que a filosofia funciona baseada na história e no tempo presente, mostrando o ser daquele tempo, nesse sentido sendo um devir e propondo um dever. Já o futuro não é algo que apareça tanto, mas podemos citar, por exemplo, Marx apontando para a conversão do capitalismo em socialismo, comunismo, etc. Por outro lado, autores tratam o tempo presente como o tempo final (Hegel[ii]), o fim da história. E, não custa lembrar, o passado filosófico ocidental pouco abarca uma pré-história que poderia ser determinante nessa chave temporal.

Já no cinema, esse tema é recorrente, há um grande esforço de adivinhação. Há muito de futurologia e podemos citar o filme “Passageiros”[iii] como exemplo. Trata-se de uma viagem espacial até um planeta muito distante, que dura 90 anos. Então, para que os passageiros possam desfrutar da nova vida lá, eles hibernam em cápsulas durante o percurso para que acordem na chegada sem sentirem a passagem do tempo nem seus efeitos. Ocorre que, durante a viagem, algumas cápsulas se rompem e alguns passageiros acabam tendo que passar o resto da vida na nave, viajando pelo espaço, heteronomamente.

Está aí um ótimo cardápio filosófico: o futuro nos sujeitaria a condições de vida completamente diferente das atuais, seja em nosso planeta ou em outro lugar? Quais valores seriam fundamentais nessas novas condições? Faz sentido uma vida humana fora da terra?

Referente à tecnologia, conseguiremos viver em outro planeta? Já há lotes a venda para Marte por volta de 2100. Quais seriam os fatores para determinar o que deve ser construído e como, em supostas hospedagens interplanetárias? Qual o interesse em se viver fora de nosso planeta? Expedicionário? Exploratório? Científico? Astronômico? Filosófico? 

Por outro lado, deveríamos nos afastarmos da tecnologia? Qual o investimento financeiro em tecnologia se comparado com a vasta desigualdade social dos países periféricos? Axiologicamente, devemos nos voltar para o orgânico e o local? Essas são algumas das questões que uma filosofia além do tempo poderia responder.



[i] Conforme Abelardo Barbosa, possivelmente parafraseando Lavoisier para quem “nada se cria, tudo se transforma”.

[ii] Fukuyama trata disso, mas agora não tenho mais detalhes.

[iii] Passengers (2016).

sábado, 29 de maio de 2021

Sobre a relação imanente entre univocidade técnica e multiplicidade tecnológica

De como o sentido imanente da técnica (Ser unívoco) é campo de expressões tecnológicas (multiplicidades de entes). Essas últimas atingem o impensado, além da inovação.[i]

Craia pensa a técnica com o aparelho analítico deleuziano, já que ele não tem uma filosofia da técnica específica, principalmente do ponto de vista ontológico. A análise de Craia se baseia em “Diferença e Repetição” na medida em que Deleuze investiga o estatuto da diferença a partir de um conceito filosófico diferencial.

A ontologia da diferença. Os conceitos que norteiam a Ontologia da Diferença são: univocidade, imanência, expressão ontológica, questão filosófica, multiplicidade e “virtual-atual”.

Conforme Craia, a afirmação central é: “o Ser é unívoco e imanente à multiplicidade dos entes como diferença”. Destacando: se imanente não é fundamento transcendente e, também, unívoco não é um, pois não se diz em um único sentido, é acontecimento aberto que se dá nas coisas e na linguagem. Mas, o fenômeno é multiplicidade, fluxo de intensidade em que a própria Diferença é potência vazia de conteúdo.

De tudo isso, dá-se que: “o Ser não deve ser entendido nem como algo, nem como nada”. Daí que o estatuto da Diferença deve ser buscado na noção virtual-atual, sendo que o virtual não se opõe ao real, mas ao atual, ou seja, o processo de atualização, que em cada caso é singular e diferente, não é um movimento do tipo potência-ato ou possível-real, mas exatamente um devir dentro de dimensões reais.

A atualização do virtual se faz por diferença, mas os termos atuais não se assemelham à virtualidade que eles atualizam. Então, o sentido imanente de nosso campo de existência se diz como diferença; este é seu ser.

Um ajuste conceitual. Segundo Craia, nossa realidade tecnológica passa por quatro momentos: 1.) coletivo político: o surgimento de uma necessidade / demanda; 2.) momento epistemológico do design, projeto de artefato ou processo; 3.) momento econômico-capitalista da produção; 4.) momento social do uso. Mas, esse mundo tecnológico não se esgota na plexa tecnológica, posto que há a técnica com estatuto epistêmico mais vasto de nosso modo de ser, mas que apresenta um efeito imanente no universo tecnológico expressando multiplicidades num sentido unívoco.

Compreendemos mundo e realidade pela noção imanente da técnica, que nos permite reconhecer a tecnologia univocamente em suas múltiplas produções. Conforme Craia:

É porque se expressa na compreensão técnica do mundo, que o campo fenomenal do tecnológico faz sentido e pode ser pensado. Esse campo de sentido é o horizonte onde as explicações epistemológicas, éticas, políticas da tecnologia encontram sua possibilidade de expressão; cuidado, não seu funcionamento, mas seu campo de sentido imanente.

Multiplicidade e Tecnologia. A produção tecnológica se dá dentro de um campo normalizado que é mecânico, planejado e previsível, dentro de padrões; nesse campo está a inovação que é seu limite criativo, mas ainda controlado. Por outro lado, há uma produção diferencial e impensada; às vezes, à mercê de casos fortuitos, como o caso do micro-ondas que inicialmente seria um radar.

Entre o planejado e o impensado, o primeiro se dá dentro das ferramentas estabelecidas, que não abarcaria o fator disruptivo de difícil compreensão, às vezes até visto como erro. Então, há necessidade nova categoria que permita colocar no mesmo estatuto o planejado e o devir, uns como majoritários e molares, outros como linhas de fuga e moleculares. Isso com uma ontologia que permita agenciar a multiplicidade tecnológica seja estandardizada ou indesejada.

Craia aproxima tecnologia e multiplicidade, ambas em um processo aberto que se organiza e desorganiza, que sempre se renova.

Já aproximando a hiperprodução tecnológica ao virtual-atual é quando se pode pensar tanto os processos padronizados quanto os diferenciais sem regras preestabelecidas. E por esses conceitos talvez seja possível pensar outras expressões tecnológicas.

Univocidade e Técnica. O tecnológico expressa um aliquid que não é tecnológico e que no agenciamento sentido-acontecimento no campo semântico é unívoco. A univocidade se diz do ser em um sentido em relação à multiplicidade das diferenças e se pode pensar em novos modos não como aberrantes.

Isto é, pela multiplicidade pensa-se o ser tecnológico que no seu sentido unívoco é o técnico não homogêneo ou totalizante, mas ressonâncias na dinâmica do tecnológico. Então, há relação imanente entre ambas: a técnica é unívoca como sentido de nossa época expressada na multiplicidade dos entes tecnológicos.

É dessa forma que Craia nos traz a análise baseada no arcabouço deleuziano, entre a multiplicidade e o virtual da tecnologia e o sentido e acontecimento da noção de univocidade da técnica.



[i] Filosofia da Tecnologia. Seus autores e seus problemas. Organização de Jelson Oliveira e prefácio de Ivan Domingues, resultado da iniciativa do GT de Filosofia da Tecnologia da ANPOF. Caxias do Sul, RS: Educs, 2020. Conforme capítulo 6, Gilles Deleuze – Um pensamento sobre a técnica, por Eladio C. P. Craia.

quarta-feira, 19 de maio de 2021

Apropriação

O nosso erro é o que nos diferencia, a saber, nossa espécie. Nossa maior virtude é o nosso maior erro porque, sendo racionais, nós racionalizamos tudo e aí planejamos a nossa existência. Entretanto, “racionalizar tudo” é fazer um suco de resultados, digo, espremer tudo o que é possível para que se chegue a uma produção.

Falamos disso reiteradas vezes e, devido a isso, nos tornamos chatos. Mas é impossível dissociar, atualmente, qualquer ação de algo que não seja produção. A partir do momento em que nossa ação dependa de insumos naturais e, também, nossa existência, a extração dos mesmos e seu provável esgotamento não entram exatamente nas contas.

É isso e não é por isso que somos menos “humanos”. Ser humano é só ser um bicho mais escroto. Aquela barata, noves fora umas antenas e um barrigão, é ser que vive. Vivência sem pensar é vivência. Vivência pensando é subtração. Porque um ser irracional vive para o momento e nós, seres racionais, vivemos sempre subtraindo algo de alguém, qual seja, planejando.

Contudo, não chegaríamos até aqui sem essa índole. De posse da racionalidade erguemos um império: já fomos à lua, já há robôs em Marte. Estamos engatinhando. É tão promissor... É tão... Então, é sempre ir além, é ciência. É uma prova do que somos, de nosso potencial. Um potencial exatamente apropriador.

E nem tudo é negativo. A curiosidade parece ser inata a qualquer coisa que se mova, porque, movendo-se vai daqui para lá, de lá para cá, fuça, tenta. Então nós vamos seguindo procurando algo, e não só procurando per se, mas procurando e catalogando, planejando e procurando, procurando e produzindo. E, nos apropriando.

 

sábado, 15 de maio de 2021

Para uma educação técnica, que compreenda a evolução do objeto

De como o objeto técnico evolui e ganha forma tal como um objeto natural [i]

Simondon parte de uma divergência entre a cultura, que ignora as máquinas e se aliena, e o mundo tecnológico que aí vai a um tecnicismo imoderado. Ele caracteriza a oposição entre homem e máquina como consentimento e ignorância. Então, a filosofia deve tentar compreender a índole dos objetos técnicos e ele prega um ensino de iniciação à técnica que forme pessoas capazes de entender a natureza das máquinas.

O autor enumera três níveis no mundo técnico: 1.) elementar, otimismo do século XVIII quando o avanço não ameaça hábitos tradicionais; 2.) indivíduos (máquinas do século XIX), era da termodinâmica que mistura exaltação e temores; 3.) era da informação (século XX) que regula e estabiliza o mundo.

Objeto Técnico

Simondon aposta no estudo da gênese do ser técnico, associado à cultura técnica, em oposição ao estudo estático do saber técnico que capta a atualidade. O objeto técnico evolui do abstrato ao concreto, com partes soltas que se sintetizam, por exemplo, o motor a combustão que tem no motor atual um todo interligado.

Quando abstrato, o objeto apresenta problemas de adaptação entre as partes que, progredindo, vão se aperfeiçoando para se tornar um objeto coerente que já “não mais está em luta consigo mesmo”.

Os objetos técnicos evoluem por causas, amiúde econômicas e sociais, mas principalmente técnicas ou quando avanços em um objeto (avião) interferem em outro (automóvel) e, às vezes, passando por intervalos até que surja nova matéria-prima, por exemplo.

Se o objeto técnico é produzido artesanalmente e aí instável, quando concreto se sujeita à industrialização, quando sua produção já está associada ao conhecimento científico. Embora se conserve uma essência técnica nessa evolução: combustão interna – motor a gás – motor a diesel.

O objeto abstrato, por exigir intervenções humanas, é considerado artificial para Simondon, ao passo que o objeto concreto é evoluído e se aproxima do modo de existência dos objetos naturais[ii]. A artificialidade, para ele, não é uma rivalidade com a natureza, mas diz respeito à independência do objeto, como quando sai do laboratório para a fábrica. É a cultura técnica que mostra o esquema de funcionamento dos objetos.

Evolução da realidade técnica

Os objetos técnicos se direcionam por certa finalidade que deve se adaptar ao meio técnico-geográfico em que se inserem. Ocorre ocasionalmente a criação de um meio para esse objeto, que não é a humanização da natureza, mas uma naturalização do homem que inventa esse meio antecipadamente pela sua imaginação criadora.

A evolução técnica é análoga a de um ser vivo, mas por uma tecnicidade que vai além de forma e matéria e capacidade de uso. Ela é a essência do objeto, a concretização de seu esquema funcional. No artesão, a tecnicidade está no homem e recentemente passa para a máquina que faz com que o homem passe de indivíduo técnico para servente de máquinas.

Os modos de relação do homem com o objeto técnico

Simondon vincula o homem à técnica, por um lado, no que ele chama de estatuto de minoridade, do aprendiz que se torna artesão com saber técnico implícito e, por outro, na vida adulta livre, o homem (engenheiro) já tem consciência científica. Cindidas, na primeira o homem está integrado à natureza em sociedades fechadas (commodities). Na segunda, se guia pelo Enciclopedismo e o conhecimento racional universal. Para nosso autor, deveria haver uma simbiose entre elas, ou seja, se tornar adulto progressivamente, mas com uma formação universal.

Progresso, cultura e filosofia

Mais do que valorar a tecnologia, Simondon trata do progresso humano, entre aperfeiçoamento (p.ex., no século XVII) de utensílios e angústia (p.ex., no século XIX) frente às máquinas que poderiam nos substituir. Isso porque o homem se aliena por não entender a relação da máquina com o ser humano.

Esse problema só pode ser superado por uma cultura tecnológica na qual o homem se familiariza com os esquemas de funcionamento das máquinas. Como a relação humana com a natureza se dá pela tecnicidade então não basta usar os objetos, é preciso compreendê-los como “portadores de informação”, sua história, como resolveram problemas e como o homem foi estabelecendo uma relação prática com o mundo.



[i] Conforme Cupani, Alberto. Filosofia da tecnologia: um convite. 3. ed. - Florianópolis: Editora da UFSC, 2016. Capítulo 2: Estudos Clássicos: Gilberto Simondon.

[ii] Embora o ser vivo seja concreto ab initio e o objeto técnico nunca se complete.