terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Substituição de nomes: um problema para a teoria referencialista do significado

Trata de dois enigmas que a teoria referencialista do significado para nomes deve responder: o puzzle de Frege e o paradoxo da substitutividade[i]

Tomemos as frases 1.) “Héspero é Héspero” e 2.) “Héspero é Eósforo”, que tratam de Héspero, a estrela da tarde e de Eósforo a estrela da manhã. Entretanto, como já vimos algumas vezes neste espaço, as duas frases são correferenciais, isto é, se referem a Vênus. Pelo princípio da composicionalidade, também já visto, o significado de uma frase depende de sua estrutura e do significado de cada parte. Se aplicado às duas asserções iniciais, vemos que elas possuem a mesma estrutura, já que são afirmações de identidade e têm por significado de cada parte um nome, que é seu referente.

Para o referencialista, então, Héspero e Eósforo se referem a Vênus e têm o mesmo significado. Porém, notou Frege, há uma diferença entre as asserções de identidade: a primeira é trivial, mas a segunda é informacional, ou seja, a segunda informa algo novo[ii]. Mas, como o referencialista poderia explicar que as duas sentenças têm o mesmo significado, mas somente a segunda é informativa?

Tomemos outro par de afirmações de identidade proposto por Sagid: 3.) “Anitta é Anitta” e 4.) “Anitta é Larissa de Macedo Machado”. Do mesmo modo, são expressões correferenciais e, portanto, para o referencialista significam a mesma coisa, mas, como explicar a diferença de informatividade? É aí que entra a solução fregeana: a questão só pode ser explicada se o significado do nome próprio for diferente do referente do nome próprio, então, os pares 1.) - 2.) e 3.) - 4.) não significam a mesma coisa, apesar do mesmo referente.

Para Frege, o significado é o modo de apresentação do referente e cada significado apresenta o referente de um certo modo. Em 1.), por exemplo, o objeto é apresentado da mesma forma duas vezes, já em 2.), o objeto é apresentado de dois modos diferentes. O significado ou modo de apresentação do referente é o sentido e é ele que determina o referente, embora ele possa falhar, quando uma asserção tenha sentido, mas não referente, como é o caso de Papai Noel e Vulcano[iii].

A abordagem de Frege trata o sentido da expressão como algo que é compreendido. Quanto entendemos algo, entendemos o seu significado. Esse significado é objetivo e, já que compreendido por muitas pessoas, é intersubjetivo e entendido mesmo quando não há referência. Todavia, Frege não deixa clado o que é o sentido, apesar de tê-lo caracterizado como um modo de apresentação do referente, como sendo aquele que determina ou aponta o referente, e que permite haver diferentes sentidos para o mesmo referente ou apontar para nenhum referente, de ser compreendido porque entendemos e de ser compreendido por todos. Sagid cita crítica de Evans a essa falta de clareza, inclusive certa incongruência ao tratar o sentido como aquele que apresenta o referente, mas ao mesmo tempo em que possa não haver referente. Não fica claro como o sentido determina ou seleciona o referente, embora Sagid deixe indicado que a teoria descritivista irá clarificar a ideia de sentido.

Sagid também mostra que, para Frege, a distinção entre sentido e referente vale para toda expressão linguística, não somente para o caso dos nomes próprios que estamos tratando. Logo, o sentido de uma frase é o pensamento expresso por ela, algo objetivo e que é entendido por nós. Além do mais, e o que soa estranho, uma frase completa pode ter um referente, que é o seu valor de verdade, seja ele verdadeiro ou falso. Segundo Sagid, Wittgenstein, no Tractatus, teria mostrado que o referente da frase é o fato, mas esse ponto poderá ser melhor clarificado pela teoria proposicional do significado.

Conclui-se, para o puzzle de Frege, que, se asserções de identidade têm o mesmo significado para o referencialista, ele não consegue explicar porque algumas são informativas. Consequentemente, ele faz a distinção entre o sentido e a referência que elucida esse ponto e mesmo os das existenciais negativas, embora não tendo sido suficiente claro sobre qual mecanismo o sentido opera.

Enigma da substitutividade[iv]

Se o enigma de Frege soluciona casos da substituição de um nome próprio por outro, correferencial e que deixa o referencialista em apuros, ele permite concluir que a substituição, nesse caso, altera o significado da frase, mas não altera seu valor de verdade nas afirmações de identidade (“Anitta é Anitta” e “Anitta é Larissa...” têm o mesmo valor de verdade). Porém, em certos contextos, a substituição de um nome por outro pode alterar o seu valor de verdade, invalidando o princípio da substitutividade que deveria ser aceito pelo referencialista.

O princípio da substitutividade é citado por Sagid como: “A substituição de um nome próprio por outro nome próprio que seja correferencial não altera o valor de verdade da frase”[v]. Vejamos, as sentenças 5.) “Maria acredita que Anitta é Anitta” e 6.) “Maria acredita que Anitta é Larissa de Macedo Machado” tem o mesmo valor de verdade? Ora, em 5.) todos acreditam, mas em 6.) pode haver o caso em que muitos não saibam do fato ou mesmo o rejeitem. Por isso, 5.) seria verdadeiro e 6.) falso.

Do mesmo modo, poderíamos ter que, para o astrônomo João, lá na Grécia Antiga, 7.) “João deseja saber se Héspero é Héspero” e 8.) “João deseja saber se Héspero é Eósforo”. As duas asserções claramente violam o princípio da substitutividade já que claramente João sabe 7.), mas não sabe 8.).

Não obstante, Sagid explica que esses casos estão relacionados a certos contextos onde são usados conceitos de crença, conhecimento, desejo. São atitudes proposicionais da forma “Fulano acredita que”, “Beltrano sabe que”, etc. Uma proposição, como se sabe, é o significado de uma frase, e as atitudes proposicionais são aquelas relacionadas a uma proposição. Assim dizendo, para a proposição “A neve é branca” podemos acreditar, duvidar ou rejeitar. Segue-se que o princípio da substitutividade falha em alguns contextos ditos opacos. 

Um contexto referencialmente transparente é aquele em que a substituição de um nome próprio por outro nome próprio não altera o valor de verdade da proposição, já um contexto referencialmente opaco é aquele contexto em que a substituição correferencial muda o valor de verdade. Tem-se que o referencialista não explica porque o princípio da substitutividade falha nos contextos referencialmente opacos.

Por fim, Sagid acena para a continuidade das aulas, dizendo que a teoria descritivista explica os três enigmas, a saber, ela da conta de explicar o significado de nomes vazios (sem referente), explicar o significado de afirmações de identidade e explicar a opacidade referencial. Além do que ela tornará mais clara a ideia de sentido usada por Frege para distinguir entre o significado e o referente, mas isso são cenas dos próximos capítulos.



[i] Recortes das aulas 9 e 10, links: https://www.youtube.com/watch?v=vs6h1RPf6yQ e https://www.youtube.com/watch?v=_f_y78jeSEE CURSO IF, filosofia da linguagem do professor Sagid Salles.

[ii] Em outros termos (kantianos), a primeira é analítica e a segunda é sintética, conforme Sagid.

[iii] Ver texto: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2023/01/np-pn.html. A solução fregeana também resolve esse caso, sem a necessidade de se recorrer a Meinong ou ao faz de conta.

[iv] Aqui entra a aula 10.

[v] Citação para nomes próprios, mas valeria para termos singulares e etc. 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

O discurso mental de Thomas Hobbes

Mostra que há um discurso privado, mental, anterior ao discurso público no uso da linguagem pelos modernos[i]

Hacking se refere a Mill (1844) como ponto de partida no tratamento da linguagem, porém por “razões menores”, como a prevenção de erros ou destacando a importância das proposições. É um marco, posto que antes dele havia o predomínio das ideias que não estavam diretamente ligadas ao significado, conceito associado à análise da linguagem atualmente. Então, a linguagem, na modernidade, era importante, mas em outros termos.

Para Hobbes (1651), a fala era uma transferência do discurso mental ao verbal, cada discurso seguindo um fluxo separado. Mas, o fluxo do pensamento seria pré-linguístico, isto é, depois era verbalizado para que pudesse ser comunicado. Se, para Hobbes, era tarefa da linguagem comunicar pensamentos, Berkeley também enfatizava seu papel em despertar emoções e dissuadir ações, como que para despertar nossos pensamentos nos outros.

Portanto, no século XVII, havia uma preocupação em livrar o pensamento da linguagem que, pública, levaria ao erro. De um lado o discurso verbal que era usado para comunicação e, de outro, o pensamento verdadeiro, haja vista a proposição de Descartes de escrutinar as ideias. Hacking acredita que não havia uma teoria do significado naquele tempo, mas uma teoria da linguagem autodidata baseada no mental[ii]. E também não acredita na divisão das teorias do significado, como a proposta por Alston, entre ideacional, referencial e comportamental.

Na teoria ideacional, o significado de uma palavra é a ideia em nossa mente que ela representa, isto é, quando proferimos uma frase nos referimos à ideia de algo, como um evento (um churrasco), etc. Na teoria referencial, o significado é o próprio evento e, no caso da comportamental, se verifica o que as pessoas fazem ao ouvir palavras. Hacking investiga com base nessas definições: Locke (40 anos depois de Hobbes), seria ideacionista? Para ele, as palavras são marcas sensíveis das ideias, são signos das ideias.

Para Hobbes, as palavras também são marcas ou signos e os nomes não são das coisas, mas há dificuldade de atribuir uma teoria do significado, pois, a definição de signo é outra. Aqui “significa” tem o sentido de “precede”, como uma nuvem carregada precede a chuva – é como que inferir o pensamento a partir do que é dito, não que ‘signifique”. Na verdade, segundo Hacking, Hobbes tanto poderia ser ideacionista como referencialista, pois uma palavra é dita depois de uma ideia e uma palavra produz (significa) no ouvinte um pensamento, mas ela realmente significa o que se refere[iii].

Hacking está enfatizando uma dificuldade de categorizar um discurso moderno sobre a linguagem, uma teoria do significado. Ele chega a aproximar Hobbes de Grice, uma teoria comportamental que seria a atual teoria intencional de Grice, quando o falante pretende que o ouvinte infira o significado do que é dito. Insere-se no campo da comunicação e intenção de comunicar. Portanto, ou Hobbes passou pelas três caracterizações em seus textos, ou ele não possuía uma teoria do significado, isto é, tinha outras preocupações, como uma teoria do pensamento.

Pensamento que é associado ao discurso mental, às ideias, ao passo que agora tratamos a linguagem de um jeito novo. E as palavras, que são signos das ideias, ideias estas que, no século XVII, queriam dizer algo que Hacking tentará explicar nos outros capítulos do livro. Por fim, ele ressalta que embora Hobbes seja reconhecido por sua teoria política, ele dá ênfase à natureza humana e à comunicação, já que o animal político é animal faltante. Analogamente, tanto indivíduos constituem um estado, quanto o discurso mental é constituído antes do discurso público.



[i] HACKING, I. Por que a linguagem interessa à filosofia? São Paulo: Editora Unesp, 1999. 2. O discurso mental de Thomas Hobbes – p 23.

[ii] Aqui cabe relembrar que no idealismo de Berkeley não existia matéria, todos os existentes eram mentais.

[iii] Omitimos as citações a Hobbes, se é o caso referir ao original. 

sábado, 7 de janeiro de 2023

NP PN

Trata do paradoxo das existenciais negativas singulares, um problema para a teoria referencialista do significado[i]

Conforme já dito[ii], para a teoria referencialista do significado o significado é o próprio objeto e, no caso dos nomes próprios, a pessoa referida. Ademais das objeções apontadas, Sagid aponta quatro desafios que essa teoria deve superar (quatro enigmas): substitutividade, terceiro excluído, existenciais negativas e enigma de Frege. Desses, será analisado agora o das existenciais negativas, particularmente, procurar-se-á saber se a frase “Papai Noel não existe” é verdadeira.

Ora, para os casos de pessoas, por exemplo, “Messi é argentino”, temos que a frase é verdadeira se Messi tem a propriedade de ser argentino. “Messi existe” ou “Messi não existe” também são frases que podem ter seu valor de verdade pela introdução de “Messi” no discurso e da referência a ele, mas a frase “Papai Noel não existe” é verdadeira ou falsa? A princípio, pelo senso comum, ela parece ser verdadeira, porém, para ser verdadeira ela deve ser dotada de significado e, pelo princípio da composicionalidade, cada expressão dela deve ser verdadeira e dotada de significado. Então, o significado de “Papai Noel” é seu referente, mas quem é o referente de “Papai Noel”? É o próprio Papai Noel que, por consequência, existe, mas Papai Noel não existe, conforme enunciado inicial e, portanto, Papai Noel existe e não existe.

O paradoxo das existenciais negativas singulares pode ser formalizado pelas premissas que se seguem:

P1: “Papai Noel não existe” é verdadeira.

P2: Se “Papai Noel não existe” é verdadeira, então tem significado.

P3: Se “Papai Noel não existe” tem significado, então “Papai Noel” tem significado.

P4: O significado de “Papai Noel” é apenas seu referente, que é o próprio Papai Noel.

P5: Se o nome “Papai Noel” tem significado e seu significado é apenas seu referente, então Papai Noel existe.

P6: Se Papai Noel existe, então a frase “Papai Noel não existe” é falsa.

P7: A frase “Papai Noel não existe” é falsa.

Conclusão: “Papai Noel não existe” é verdadeira e falsa

 O paradoxo[iii] implica que a teoria referencialista do significado para nomes próprios não nega a existência de nada[iv]. Mas os referencialistas tentam resolver esse paradoxo de duas maneiras: rejeitando P1 ou rejeitando P5. Ao rejeitar P1, os referencialistas respondem que a frase “Papai Noel não existe” não é nem falsa e nem verdadeira, mas destituída de significado, como que se fosse um ruído. Mas isso é implausível porque a frase parece ter significado, nós a entendemos... E, por que não teria?

Uma saída, nessa argumentação, seria dizer que a frase “Papai Noel não existe” não tem significado literalmente, mas, se usarmos nossa imaginação, podemos fingir que Papai Noel existe ou não[v]. Porém, tratar as existenciais negativos em jogos de faz de conta não seria considerado um uso sério da linguagem, haja visto que até mesmo a ciência já fez uso de conjecturas, como no caso do planeta Vulcano postulado por Le Verrier[vi] e sua “não existência” foi considerada uma importante descoberta cientifica. Ora, há uma parcela do discurso que não envolve o faz de conta e cria dificuldades para essa argumentação referencialista, posto que as pessoas não estavam fazendo de conta que Vulcano existia[vii], mas o mesmo era parte do discurso científico consensuado em determinado momento histórico.

Por outro lado, ao considerarmos P5 falsa, consideramos que mesmo que Papai Noel seja verdadeiro e tenha significado, ele não existe e, ainda assim, podemos falar sobre ele. Essa é a proposta de Meinong: embora intuitivamente pensemos que a realidade inclui somente o que existe, para ele, ela também inclui o que não existe e até podemos atribuir propriedades a objetos inexistentes como é o caso do cachimbo de Sherlock Holmes ou de um enunciado que diga que a montanha de ouro é feita de ouro. Resumindo, existem objetos inexistentes, como Pégaso, que é um cavalo alado, mas não existe.

Restaria, nessa tentativa de explicação referencialista, explicar o que são objetos inexistentes: onde eles residem? Qual a sua estrutura? Isso nos levaria a uma metafísica dos inexistentes que deveria versar sobre a natureza dos inexistentes para tornar o argumento plausível, o que certamente traria enorme contenda. Conclui-se que as duas alternativas referencialistas são implausíveis, seja considerar as existenciais negativas não dotadas de significado ou aceitar os inexistentes como existentes.



[i] Recortes da Aula 08 - Paradoxo das existenciais negativas - CURSO IF, filosofia da linguagem do professor Sagid Salles: https://www.youtube.com/watch?v=_3GtmNZ-QRY&ab_channel=ThePhilosophersDAO. NP PN: Nome Próprio Papai Noel.

[iii] Sagid explica que o paradoxo tem a função de mostrar que um argumento aparentemente válido, com premissas aparentemente válidas, chega a uma conclusão falsa. Mas para um argumento ser válido, a verdade da conclusão se extrai da verdade das premissas. Então, para o paradoxo, algo é falso, ou as premissas ou a validade do argumento.

[iv] Como negar a existência de algo cujo significado é o próprio objeto, a própria pessoa?

[v] É a “teoria do faz de conta”, cuja referência é apontada por Sagid: Mimesis as Make-Believe - On the Foundations of the Representational Arts, de Kendall L. Walton. Para ver também: The Logical Status of Fictional Discourse, de John R. Searle. Uma frase pode ser verdadeira em um jogo de faz de conta, assim como Sherlock Holmes é um detetive somente no livro.

[vii] Ver: https://revistas.ufg.br/philosophos/article/view/37530, SALLES, S. Fazendo de conta que Vulcano não existe. 

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Susto Linguístico

Introdução a Chomsky e a Linguagem[i]

McGilvray inicia citando poderes cognitivos notáveis do ser humano, surgidos entre 50 e 100 mil anos atrás e que seriam atribuídos à linguagem. São eles: se juntar em comunidades, a ciência, religião, as definições de tempo e espaço, arte, a capacidade de explicar as coisas, a política, etc. Pela linguagem podemos especular, planejar, medir, contar e medir. Enfim, “A linguagem é o meio expressivo – e criativo – primordial”.

De acordo com McGilvray, Chomsky teria criado sozinho a ciência moderna da linguagem e, para ele, a linguagem é um sistema de base biológica que evoluiu a partir de um único indivíduo que a transmitiu geneticamente para toda a sua prole. A sua introdução evolutiva significa que ela teve uma causa naturalística que nos torna únicos[ii].

Algumas ressalvas que tiramos da introdução, é que Chomsky, conforme sugere McGilvray, busca uma teoria da natureza humana e se vale da biolinguística. Ele também discute questões sobre moralidade e universalidade, ciência e senso comum, política, etc. Além disso, ele tem pouca simpatia com as filosofias contemporâneas da mente e linguagem. Chomsky é um racionalista que traz uma metodologia para estudar a mente humana e a linguagem visando construir uma ciência naturalista desses campos.

Uma primeira observação de Chomsky sobre a língua é a pobreza de estímulo, isto é, a criança desenvolve a língua sem um treinamento formal, isso vale para toda a população, em qualquer lugar. Ele vê a língua com um conteúdo fixo e inato e, pela biolinguística, a mente composta de várias partes / órgãos, programados pelo genoma.

Um segundo ponto é o aspecto criativo do uso da linguagem, isto é, que parece não ter antecedentes causais, mas que permite uma infinidade e complexidade conceitual. Há uma estrutura similar a um sistema computacional que gera maneiras estruturadas de falar, pensar e compreender, mas, não obstante, somos livres em nossa maneira de usar a linguagem.

Por fim, McGilvray ressalta que a ciência da linguagem fundada por Chomsky é um sistema interna e que polariza com os empiristas, que trazem uma ciência do comportamento linguístico e de como a mente se relaciona com o mundo exterior e baseada em regras de uso. De um lado, externalismo, de outro, inatismo e internalismo. Porém, os racionalistas são empíricos e visam desenvolver a linguagem como a química e a física, mas com outras técnicas experimentais.



[i] CHOMSKY, Noam. A ciência da linguagem: Conversas com James McGilvray. Editora Unesp. Introdução.

[ii] Isso implica que a linguagem não surgiu de maneira gradual e, nem tampouco, mística. 

domingo, 11 de dezembro de 2022

Referencialismo

Aborda a teoria referencialista do significado e mostra como ela mistura referência e significado[i]

Sagid atribui a Frege o ponto de partida das teorias através das quais o significado de uma expressão linguística se relaciona ao referente dessa expressão. Nesse sentido, misturam-se significado e referência. Porém, a teoria referencialista se divide em direta, isto é, a referência não é determinada pelo significado e indireta[ii], em que pelo menos parcialmente a referência é determinada pelo sentido / significado. Além disso, ambas as teses podem ser aplicadas globalmente, se universalmente válidas ou localmente, se limitadas a alguns casos.

Dito isso, tem-se que o referencialismo é uma teoria do significado em que o significado da expressão linguística é o referente da mesma. Sobre o problema descritivo da teoria referencialista do significado, temos que o significado é o referente, ou seja, o significado de "Aristóteles" é a própria pessoa. Sobre o problema fundacional da teoria referencialista do significado, temos que as expressões linguísticas significam o que significam em virtude de se referirem ao que se referem[iii]. E ela ainda implica na tese fundacional da teoria da referência direta[iv], na medida em que o referente não é determinado pelo significado.

Então, o referencialismo indica que o significado é o referente, mas não deixa claro, como podemos notar no caso da expressão “filósofos” que tanto pode ser uma propriedade como um conjunto. Mas é uma teoria intuitiva, já que o significado da expressão é o que a expressão seleciona. E ela também aborda de maneira razoável dois problemas do significado: a ambiguidade (quando uma expressão tem mais de um significado) e a sinonímia (quando duas ou mais expressões têm o mesmo significado). Para o primeiro, a ambiguidade se dá pelo fato de haver mais de um referente (como no caso do banco-instituição e banco-assento), para o segundo, a sinonímia se dá porque as expressões selecionam o mesmo indivíduo (Gil e ex-ministro da cultura).

Embora o referencialismo seja uma teoria intuitiva, tida como do senso comum, ela é em geral incorreta e já foi refutada pelos filósofos, basicamente por três objeções[v]. A primeira objeta que nem toda expressão linguística dotada de significado tem referente (ex., todavia, não, etc...). A segunda admite que, para o referencialismo, todas as expressões são tratadas como nomes e, por conseguinte, uma frase seria uma lista de nomes. Porém, um lista de nomes não têm significado, mesmo que sejam tipos de objetos diferentes, como nomes, propriedades e outros. Por fim, a terceira objeção mostra que algumas expressões referenciais com sentido não se referem a nada, como é o caso de “Papai Noel”, que não existe.

Mas, se o referencialismo não tem validade universal, pode ter abrangência local, como no caso dos nomes próprios, que são um subconjunto dos termos singulares. Assim, pela teoria referencialista do significado dos nomes próprios, o significado de um nome próprio é exclusivamente o referente desse nome (a pessoa). Donde que a função do nome na frase é introduzir o referente, essa a sua condição de verdade. A expressão “Aristóteles é sábio” é verdade se e somente se a pessoa Aristóteles pertence ao grupo dos sábios. Para esses casos, informa Sagid, é uma teoria bem aceita contemporaneamente, até mais do que a concorrente descritivista.



[i] Recortes da Aula 07 - Referência Direta, Indireta e Referencialismo, do professor Sagid Salles: https://www.youtube.com/watch?v=tKhXSNrWH0M&ab_channel=ThePhilosophersDAO - CURSO IF, Filosofia da linguagem.

[ii] Descritivista.

[iii] O referencialismo não diz exatamente como o significado é determinado, isso fica por conta da referência.

[iv] Isto é, o modo como o referente é determinado.

A estratégia de Ian Hacking para a filosofia da linguagem

Trata outros aspectos da filosofia da linguagem que não as teorias do significado[i]

Hacking postula que uma filosofia da linguagem aplicada teria mais interesse do que as teorias puras do significado, isto é, aquelas que estudam o significado em si mesmo. Sua abordagem é a de examinar estudos de casos que influenciaram as teorias da linguagem, seja partindo da metafísica ou epistemologia, questões estas que são centrais da filosofia e não da linguística. Segundo Hacking, mesmo os pais da filosofia da linguagem, como Wittgenstein, Moore ou Austin, estavam tratando de problemas tradicionais de filosofia como ética, percepção e a natureza da mente humana.

Entretanto, apenas recentemente a filosofia da linguagem enveredou pelas teorias do significado, conforme Hacking: “Grande parte da teoria pura do significado que atualmente ocupa nossa geração irá muito rapidamente tornar-se autônoma, mas um corpo de questões essencialmente filosóficas sobre a linguagem permanecerá” (p 13)[ii]. Mas não interessam tanto à filosofia, insiste Hacking, como a linguagem interessa.

Para Hacking, há um interesse filosófico pela linguagem que vai além das dificuldades de expressão e comunicação, questões relativas à ambiguidade, equívocos e paradoxos e que, por ventura, seriam prevenidas por boas definições de termos e palavras (conforme proposto por Bacon) ou mesmo fazendo uma “limpeza” dos diversos usos de termos no discurso cotidiano, mas que acabaria por trazer novos termos e aumentar o problema.

Além disso, Hacking diz que seus estudos de caso devem ser simples em geral, embora sejam abordados filósofos recentes da linguagem[iii], como Davidson e Feyerabend que ainda têm uma obra fragmentada e de difícil acesso, embora discorra pouco sobre nomes importantes como Austin, Strawson (Indivíduos) ou Quine (Palavra e Objeto), nem tampouco sobre a filosofia linguística de Oxford.

Hacking foca na tradição anglo-americana, além da perspectiva histórica, já que a linguagem é discutida desde Platão (Eutifrone), pelos empiristas ingleses, que são familiares e mais fáceis, segundo ele. Nessa perspectiva, a ideia surge como conceito chave, mas que teve abordagens bem diferentes ao longo da história.



[i] HACKING, I. Por que a linguagem interessa à filosofia? São Paulo: Editora Unesp, 1999. 1. Estratégia.

[ii] Autônoma como ocorreu com a psicologia.

[iii] Metafísicos, segundo ele.

sábado, 19 de novembro de 2022

Introdução ao Significado

Sobre o significado e conceitos correlatos[i]

Entendemos o significado da frase “Aristóteles é sábio”, ao passo que a frase “praticum ble” não o tem. De “Aristóteles é sábio”, sabemos tanto o significado da frase como de cada expressão subfrásica que a compõe e a filosofia da linguagem procura saber qual significado desta ou daquela expressão linguística, ou melhor, de cada tipo de expressão linguística. Se podemos procurar no dicionário o significado de uma palavra para nosso uso cotidiano, há desacordo no significado dos tipos de expressões, como nomes próprios, por exemplo, que podem ser descrições ou o próprio objeto referido (como temos visto).

Então, como esse tipo de expressão (um nome próprio) significa o que significa? Em virtude de quais fatos? E, assim como feito com a referência, Sagid traz os problemas descritivos e fundacionais também para o significado, conforme o quadro abaixo.

Problema

Descritivo

Fundacional

Referência

Qual item da realidade a expressão pretensamente seleciona?

Como essa expressão refere?

Significado

Qual significado desse tipo de expressão?

Em virtude de quais fatos essas expressões significam o que significam?

Isso posto, uma teoria do significado deveria tratar de fatos básicos a cerca do significado, como por que certos tipos de frases têm o significado que têm e casos específicos como a ambiguidade, que é o caso da mesma expressão ter significados diferentes (como em “Cheguei ao banco” – da praça ou instituição financeira?) e a sinonímia, abordando expressões diferentes com mesmo significado (como solteiro e não casado.. em virtude de que?). E, assim como o método usado na investigação da referência, no qual classes diferentes apresentam mecanismos diferentes para a resolução dos problemas, para o significado também se faz necessário dividir as expressões em classes específicas.

Conceitos

Sagid explica que a palavra significado é ambígua, apresentando diferentes sentidos como significado linguístico e conteúdo, e exemplifica. Supondo que encontremos um diário com a frase “Eu estou triste”. Embora não saibamos quem escreveu essa frase, sabemos que a frase significa que a pessoa que escreveu está triste. Sabemos porque conhecemos as convenções linguísticas, como “eu”, que tem sempre como referente quem proferiu a expressão, etc. Porém, não conhecemos o significado em certo sentido, qual seja, qual informação particular é transmitida: é João ou Maria quem está triste?

No primeiro caso, trata-se do significado linguístico, no segundo do conteúdo, que será o foco de Sagid nesse curso. Conforme dito, o significado linguístico é convencional por meio de regras; não varia com o contexto, isto é, a regra é sempre a mesma, embora o conteúdo possa variar; restringe o conteúdo impondo limites (por exemplo, “Eu estou triste” não quer dizer “A neve é branca”); pode não ser rico o suficiente para determinar o conteúdo[ii].

Ora, mesmo o conteúdo também apresenta diferentes sentidos, sendo 1.) o que é dito pela frase e 2.) o que é implícito pela frase. Pois bem, o significado linguístico restringe o conteúdo que é dito pela frase, embora uma parte do conteúdo possa escapar. A pergunta “Como você está se sentindo?” pode trazer o conteúdo dito “Eu estou triste.”. Já a pergunta “Você vai à festa?”, se tiver como resposta “Eu estou triste”, traz a informação adicional “Eu não vou à festa.”. Já a pergunta “Como você está se sentindo?” pode trazer o conteúdo dito “Eu estou triste.” acompanhado de um piscar de olhos e aí significando que a pessoa não está triste. Então, os dois conteúdos são importantes, já que o implícito pode, por exemplo, envolver cinismo, sendo fundamental no uso cotidiano.

A distinção entre o conteúdo dito e o implícito tem, provavelmente, forte relação com certo significado literal e não literal, assim como a semântica e a pragmática, respectivamente. A semântica, que será alvo da abordagem de Sagid, está sujeita a menor variação contextual, já a pragmática abrange todos os detalhes contextuais e as intenções que são relevantes para a comunicação[iii][iv].

Princípio da Composicionalidade

Seguindo com o arcabouço conceitual, finalizaremos com o PC. Não há dúvidas de que entendemos expressões subfrásicas (gato, cachorro, Platão, etc..) e parece que assim é porque aprendemos quando criança e temos esse conhecimento prévio. O mesmo com frases, cujos significados nos foram introduzidos e a eles recorremos por força da memória. Mas, se é assim, como podemos conhecer frases novas instantaneamente, frases nunca ouvidas como “João Rafael escreveu um bilhete com caneta tinteiro azul-turquesa?” Vejamos.

As frases “João é sábio” e “Marcos é sábio” têm significados diferentes já que, pelo menos, uma expressão é diferente entre elas. Do mesmo modo, “João é sábio” e “João é barbudo” atribuem predicados diferentes a João. Logo, tem-se a impressão de que o significado da frase é parcialmente determinado pelas expressões que a compõem. Mas, as frases tanto podem ter expressões linguísticas diferentes e significado igual, como “A neve é branca” e “Snow is white”, quanto podem ter as mesmas expressões e significados diferentes, como “João chegou ao banco” (instituição financeira) e “João chegou ao banco” (assento da praça). Desse modo, nossa hipótese inicial se invalida, e podemos enunciar a primeira parte de PC como "o significado da frase é determinado pelo significado das expressões subfrásicas".

Mas, há frases que podem ter as mesmas expressões com os mesmos significados e mesmo assim terem significados diferentes. É o caso de “João ama Maria” e “Maria ama João”. Destarte, teríamos que acrescentar a ordem no PC, isto é, o modo como as expressões estão organizadas, sua estrutura. E o princípio da composicionalidade é formulado por Sagid como se segue: “O significado de uma frase é determinado pelo significado de suas partes e pelo modo como estas estão estruturadas”. Segundo ele, o princípio é popular entre os filósofos e mostra que o significado das expressões é valioso na contribuição das frases, de maneira que será explorado por Russell no caso da teoria das descrições definidas.

Finalizamos ressaltando que o PC nos ajuda a esclarecer o fenômeno da produtividade da linguagem, isto é, nossa capacidade de formular e entender frases inteiramente novas pela composicionalidade, que permite criar um universo infinito de frases baseadas em um conjunto finito de regras.



[i] Recortes feitos das aulas 04, 05 e 06 do professor Sagid Salles disponíveis no Youtube. Curso IF - Filosofia da Linguagem: https://www.youtube.com/playlist?list=PLb6DzdXIOv4EtJpTp1G9kThcOi_DATFyS.

[ii] Sagid informa que tanto o significado linguístico quanto o conteúdo também levantam os problemas descritivo e fundacional.

[iii] Assim como a nota anterior, os problemas se aplicam tanto ao conteúdo dito quanto ao implícito.

[iv] Sobre pragmática, Sagid indica Grice, a conferir: https://criticanarede.com/lds_conversas.html.