A
medida do entendimento é a medida do uso público da linguagem
1. Sobre Quine.
Willard Van Orman Quine foi um filósofo americano associado principalmente ao naturalismo
dentro da tradição da filosofia analítica, e ficou especialmente conhecido por
criticar o positivismo lógico ao rejeitar a distinção entre verdades analíticas
e sintéticas, argumento central em seu ensaio Dois Dogmas do Empirismo.
Ele defendeu que não existe uma separação
rígida entre filosofia e ciência, propondo que a filosofia deve ser conduzida
com os mesmos padrões empíricos e metodológicos da ciência, o que o tornou uma
figura proeminente por transformar profundamente debates sobre significado,
epistemologia e a relação entre linguagem e conhecimento no século XX[i].
2. Quine no blog.
No nosso blog, pudemos ver que Quine propôs o holismo epistemológico, a ideia
de que nossas crenças formam uma "teia" que enfrenta o tribunal da
experiência como um corpo coletivo, o que implica que qualquer enunciado é
passível de revisão (falibilismo). Entre outras coisas, ele caracterizou a
linguagem como uma ‘arte social’ construída intersubjetivamente, em sentido
descritivo e naturalizado, não normativo. Suas teses incluem a indeterminação
da tradução (ilustrada pelo experimento "Gavagai") e a máxima
ontológica de que "ser é ser o valor de uma variável ligada"[ii], sugerindo que a
referência é inescrutável e dependente do sistema conceitual adotado[iii].
3. Quine na perspectiva da nossa série.
Quine se opõe radicalmente ao fundacionalismo de Descartes e ao apriorismo de
Kant ao rejeitar a ideia de uma mente como espelho privado ou detentora de
categorias fixas, propondo que o conhecimento é uma "teia de crenças"
holística e uma arte social construída intersubjetivamente. Enquanto Carnap
buscava uma distinção rígida entre verdades analíticas e sintéticas para
purificar a ciência, Quine denuncia essa clivagem como um "dogma
metafísico" sem critérios claros, argumentando que todo o conhecimento, inclusive
a lógica e a matemática, é passível de revisão no "tribunal da
experiência"[iv].
4. Nossa máxima sobre o ponto de vista de
Quine. A partir de Quine, a nossa máxima - “Eu falo e você
me ouve, mas entende?” - indicaria que não há um fato adicional, oculto, que
determine se houve entendimento para além do uso público da linguagem. Vejamos.
5. Entender não é acessar um “significado
interno”. Para Quine, não existe algo como um significado
mental privado que garanta o entendimento. Ele rejeita a ideia de que, além do
som emitido e da reação do ouvinte, exista um “conteúdo” compartilhado
acessível por introspecção. Então, para a nossa pergunta “Eu falo e você me
ouve, mas entende?”, Quine diria que não há um critério independente do
comportamento e das disposições para agir. Se você reage de maneira adequada,
isto é, se você responde, age, corrige, continua o jogo linguístico, então isso
é tudo o que há para o entendimento. Não existe um “entender de verdade”
escondido atrás disso.
6. A indeterminação da tradução.
Nossa máxima vai ecoar essa tese famosa. Mesmo que eu fale perfeitamente, você
ouça atentamente e responda coerentemente, ainda assim, diria Quine, há
múltiplas teorias de significado igualmente compatíveis com todos os fatos
observáveis. Isso quer dizer que não há um único fato que fixe o que exatamente
foi entendido; há apenas redes de crenças, hábitos inferenciais ancorados em
padrões de estímulo e assentimento. Portanto, nossa pergunta “mas entende?” não
tem uma resposta metafísica profunda. Ela só pode ser respondida pragmaticamente[v].
7. “Entender” é estar suficientemente
alinhado no jogo linguístico. Para Quine, entender
alguém é compartilhar padrões de assentimento e rejeição diante de estímulos
semelhantes, dentro de uma linguagem pública. Não é que temos a mesma imagem
mental; nem que acessamos o mesmo “sentido” abstrato e nem que correspondemos a
uma entidade semântica fixa. É algo mais fraco, mas funcional: coordenação, previsibilidade,
continuidade da prática. Se o diálogo funciona, o entendimento está dado e não
há mais nada a ser procurado.
8. A nossa máxima como um diagnóstico
quineano. A nossa frase pode ser lida, quineanamente, assim: “Mesmo
quando todas as condições externas do entendimento estão satisfeitas, ainda
sentimos a tentação de perguntar por algo a mais”. Ele diria que essa tentação
é um resíduo de uma má metafísica do significado, a ideia de que há um
“sentido” intermediário entre fala e mundo[vi]. Então, ele tentaria
dissolver a pergunta, não a responder.
Do ponto de vista naturalista quineano, podemos
supor que sobre o entendimento, seria possível explicações como uma aquisição
linguística, baseada na psicologia ou biologia, padrões de estímulo e
assentimento e coordenação intersubjetiva observável. Porém não algo como “o
entendimento ocorre porque o ouvinte acessou o significado correto”.
Supondo que provocássemos Quine com nossa
máxima, ele provavelmente retrucaria dizendo que “Se eu respondo
apropriadamente ao que você diz, o que mais você quer dizer com “entender”?” E,
para ele, não há uma resposta que não recaia em mito semântico.
Podemos concluir que, depois de Quine, a
pergunta “mas entende?” já não busca um fato oculto; ela se torna um gesto
crítico que interroga se a descrição naturalista do funcionamento da
linguagem é suficiente para capturar aquilo que, nas nossas práticas, chamamos
de entendimento.
[ii] Chamamos B de escopo da ocorrência
inicial do quantificador ∀x
em ∀xB.
Se uma ocorrência de uma variável não é livre em uma fórmula A, então ela é
ligada; todas as ocorrências de x em B são ligadas na fórmula quantificada ∀xB. De fato, frequentemente
escreveremos que elas estão dentro do escopo do quantificador inicial. https://plato.stanford.edu/entries/quantification/.
Também: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2023/11/o-empirismo-sem-dogmas-de-quine.html#comment-form.
[iii] Com base no histórico do Blog,
entre outras: https://bit.ly/notebook-blog.
“Quine e os problemas do positivismo lógico” - https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2020/11/quine-e-os-problemas-do-positivismo.html,
“Teses quineanas” - https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2023/11/teses-quineanas.html,” O
empirismo sem dogmas de Quine” - https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2023/11/o-empirismo-sem-dogmas-de-quine.html.
[iv] Idem.
[v] Cabe referir conforme “Ancorando
teorias do significado contra teorias do significado centradas na verdade: uma
defesa de Dummett contra o Programa de Davidson” (https://www.academia.edu/125312640)
que parece que correlações estímulo–resposta não parecem suficientes para
explicar a competência linguística produtiva. É que aprender uma linguagem
parece aprender também algo normativo e sistemático, isto é, aprender
significado, mesmo que não como entidade mental.
[vi] Como o terceiro reino de Frege
(quando falando de sinn, não bedeutung).