terça-feira, 14 de abril de 2026

O entendimento a serviço da comunicação

Quando o entendimento emerge de práticas intersubjetivas do mundo da vida[i]

1. Sobre Habermas[ii]. Jürgen Habermas pertenceu à segunda geração da Escola de Frankfurt e à tradição da teoria crítica, sendo considerado um dos mais importantes filósofos e teóricos sociais do pós-Segunda Guerra Mundial. Segundo a SEP, seu trabalho abrange três grandes projetos: teoria social, ética do discurso e teoria deliberativa do direito e da democracia. Sua proeminência decorre especialmente do desenvolvimento da teoria da ação comunicativa, da noção de esfera pública e da defesa de uma racionalidade comunicativa voltada ao entendimento intersubjetivo, que renovaram a teoria crítica e influenciaram profundamente a filosofia, a sociologia e a teoria política contemporâneas.

2. Habermas no blog[iii]. Aparece como sendo responsável pela transição da razão instrumental para a razão comunicativa, focada no entendimento mútuo e na convergência racional no espaço público. Sua proposta de pragmatismo formal substitui a de um sujeito transcendental isolado por práticas linguísticas e sociais no mundo da vida, onde a validade das normas e a verdade são estabelecidas por meio da intersubjetividade e da argumentação entre interlocutores. Além disso, Habermas defende um realismo pragmático, sustentando que, embora o mundo exista de forma independente, os fatos e o conhecimento sobre ele são construídos e validados linguisticamente através de processos de aprendizagem contínuos e falíveis.

3. Habermas na perspectiva da nossa série[iv]. Jürgen Habermas dialoga com os autores da série efevmo-me ao propor a transição do paradigma da consciência individual para o da intersubjetividade, substituindo tanto o cogito privado de Descartes e a razão transcendental isolada de Kant por práticas linguísticas situadas no mundo da vida. Enquanto Kant fundamenta a moral na razão prática universal do sujeito, Habermas a socializa, defendendo que a validade das normas e a verdade dependem de justificações racionais reconhecidas entre interlocutores no espaço público.

Em oposição ao materialismo de Marx, que enfatiza a influência das condições materiais e econômicas na formação da consciência, Habermas resgata o potencial emancipador da razão comunicativa para salvar a democracia. Além disso, ele converge, em certa medida, com Sellars ao entender que o entendimento não é um dado imediato ou passivo, mas um ingresso no espaço das razões que exige assumir compromissos normativos e práticos.

4. Nossa máxima sobre o ponto de vista de Habermas. Em termos habermasianos, a nossa máxima “Eu falo e você me ouve, mas entende?” passa pelo núcleo da teoria da ação comunicativa. Para ele, ouvir não é ainda compreender, e compreender não é ainda entender-se (verständigung[v]). Vejamos.

5. Ouvir não é compreender, nem tampouco alcançar entendimento mútuo. Para Habermas, a linguagem não é primariamente transmissão de conteúdos mentais, mas coordenação intersubjetiva da ação. Assim, quando eu digo “Eu falo e você me ouve”, isso descreve apenas um fato empírico, um evento acústico-perceptivo que está longe da pergunta decisiva “você entende?”. Em Habermas, há uma distinção entre entender o significado linguístico (sinnverstehen[vi]) e aceitar a pretensão de validade do que foi dito. Portanto, o verdadeiro entendimento não é psicológico, mas normativo e intersubjetivo.

6. Entender é reconhecer pretensões de validade. Os atos de fala, segundo Habermas, levantam pretensões de validade. Quando falamos, nos comprometemos com inteligibilidade, verdade, correção normativa e sinceridade[vii]. Nessas pretensões, cabem as perguntas: “o meu enunciado é compreensível?”; “o conteúdo proposicional é verdadeiro?”; “o que falo é apropriado segundo normas compartilhadas?”; “o falante (eu, você) é autêntico?”.

Logo, a máxima poderia ser reformulada em termos habermasianos assim: “Eu produzo um ato de fala; você o decodifica. Mas você reconhece ou está disposto a reconhecer as pretensões de validade que eu levanto?” Se a resposta for “não”, então não houve entendimento comunicativo, mesmo que tenha havido compreensão linguística.

7. Entendimento não é acordo, mas possibilidade de acordo. Cabe enfatizar que, para Habermas, entender não significa concordar. O entendimento ocorre quando as pretensões de validade são claramente levantadas, e podem ser aceitas ou criticadas racionalmente. Isso significa que alguém pode entender perfeitamente o que eu disse e rejeitar o que foi dito, sem falha comunicativa. Ela ocorrerá quando o horizonte linguístico não for compartilhado ou quando uma das partes não se reconhece como participante simétrico do discurso[viii].

8. Mundo da vida e horizontes de sentido. A nossa pergunta também aponta para o mundo da vida (lebenswelt[ix]). Eu posso falar e você me ouvir, mas você pode não compartilhar comigo as mesmas pressuposições culturais, normas, ou formas de racionalidade. Nesse caso, o problema não é cognitivo, mas hermenêutico-social: os horizontes de sentido não se sobrepõem suficientemente. Desse modo, “não entender” pode significar que não se sabe o que está em jogo no ato de fala, ou que não se reconhece porque aquilo importa naquele contexto.

9. Diagnóstico habermasiano da nossa máxima. Habermas diria que a nossa máxima revela uma ilusão comunicativa moderna, ou seja, revela a ideia de que a comunicação bem-sucedida é garantida pela simples emissão e recepção de sinais. Entretanto isso seria típico de uma concepção instrumental da linguagem, que ignora sua dimensão normativa e intersubjetiva. Em termos fortes, Habermas diria que você pode falar, eu posso ouvir, e ainda assim não nos entendermos. Isso ocorreria porque o entendimento não está no som, nem na mente, mas na possibilidade de justificação recíproca.

10. Em forma de máxima habermasiana. Nossa máxima sob o escrutínio de Habermas soaria como “Eu falo e você me ouve; mas só nos entendemos se pudermos justificar racionalmente o que dizemos um ao outro.”. O que pode ser resumido como: “Ouvir é um fato; entender é entrar em um processo de justificação intersubjetiva.”



[i] Essa postagem é mais uma da série EFEVMO-ME, feita com insights de IA, mas revisada por humano. É como se a IA fosse o filósofo que a gente inquiri tentando obter uma resposta que nos conforme, mas, ao contrário, cada vez mais abre o campo investigativo.

[iii] Com base no histórico do Blog, entre outras: Habermas e a epistemologia após o giro linguístico-pragmático (2026): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/03/habermas-e-epistemologia-apos-o-giro.html, RIP Habermas (2026): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/03/rip-habermas.html, O entendimento como questão transcendental (2026): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/01/o-entendimento-como-questao.html, Hume anti cartesiano (2015): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2015/10/hume-anti-cartesiano.html.

[iv] Idem. Outros links: O entendimento como ato privado do pensamento (2026): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/01/o-entendimento-como-ato-privado-do.html, As condições materiais que tornam o entendimento possível (2026): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/01/as-condicoes-materiais-que-tornam-o.html, O entendimento contra o dado (2026): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/03/o-entendimento-contra-o-dado.html.

[v] Verständigung, conforme ChatGPT, significa, exatamente, chegar a um entendimento – algo que nossa série investiga. Na teoria da ação comunicativa, por um lado há uso da linguagem para influenciar ou persuadir (ação estratégica) e, por outro, há uso da linguagem para alcançar verständigung (ação comunicativa). É um pouco disso que essa nossa reflexão apresenta. Ação estratégica: https://revistaseletronicas.pucrs.br/veritas/article/view/8691/9031, para vermos.

[vi] Sinnverstehen é o entendimento do significado, oriundo da tradição hermenêutica alemã (Weber). Então, se verständigung é entendimento mútuo com o outro, sinnverstehen é entender o que foi dito (o significado). Conforme exemplo do ChatGPT, se eu digo “Está frio aqui”, você pode entender o significado da frase, mas não entender a intenção (pedido para fechar a janela, por exemplo). Assim, sinnverstehen está no campo da compreensão semântica, isto é, no nível linguístico e verständigung já vai para um entendimento comunicativo intersubjetivo, qual seja, nível pragmático e comunicativo. Idealmente precisaríamos nos aprofundar na relação Weber-Habermas: https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/76186/103945.pdf?sequence=1&isAllowed=y.

[vii] Aqui (https://ambitojuridico.com.br/a-teoria-discursiva-de-juergen-habermas/) as quatro pretensões são tratadas: “Nos atos de fala consensuais, ou seja, aqueles que são estabelecidos visando um consenso, um acordo sobre dado assunto, se pressupõe o reconhecimento mútuo de quatro pretensões de validade: Primeiramente, eu, como falante, tenho que escolher uma expressão inteligível para que meu ouvinte possa me entender. Então a primeira pretensão se refere à compreensão entre o falante e o ouvinte ou ouvintes. A segunda pretensão é que o conteúdo que eu comunico seja verdadeiro. A terceira pretensão é que a manifestação de minhas intenções seja sincera, para que o ouvinte possa crer no que manifesto, basicamente, possa confiar em mim. E a última estabelece que eu, falante, tenho que escolher a manifestação correta, com relação às normas e valores vigentes na sociedade, para que o ouvinte possa aceitar a minha manifestação, de modo que eu e o ouvinte possamos coincidir entre si no que se refere à essência normativa em questão.”

[viii] Para Habermas, a comunicação orientada ao entendimento (verständigung) pressupõe que os participantes tenham igual oportunidade de falar e não estejam sob coerção ou dominação, conforme vimos em RIP Habermas (2026) (em oposição a Bourdieu).

[ix] Lebenswelt é o horizonte compartilhado de significados culturais, normas sociais e competências comunicativas que torna possível o entendimento intersubjetivo.

terça-feira, 31 de março de 2026

Habermas e a epistemologia após o giro linguístico-pragmático

Aborda o pragmatismo formal de Habermas que traz a linguagem como horizonte do entendimento e substitui o sujeito transcendental por práticas linguísticas e sociais no mundo da vida [i]

* * * Ponto de partida: a virada linguística * * *

Linguagem como horizonte do entendimento. É pela organização gramatical da linguagem que nos comunicamos e somos guiados na nossa conduta no mundo da vida. A linguagem o articula e ele é horizonte de interpretações e alvo do entendimento. O saber interpretativo que ocorre nas atitudes proposicionais possui uma semântica lógica e estrutura a racionalidade comunicativa, mas está suscetível a revisão e aprendizado contínuo que renova um saber anterior à linguagem.

A virada pragmática da linguagem. Através do giro linguístico-pragmático a linguagem perde pretensão de conhecimento porque o saber linguístico sobre o mundo é contextual e se dá na ação racional de sujeitos falíveis. Araújo nos lembra que a semântica veritativa de Frege e Wittgenstein (o primeiro) é redirecionada pela semântica pragmática, na qual atos ilocucionários se orientam pela ação[ii]. E os atos de fala que ocorrem em um contexto normativo devem ser aceitos como válidos pelo destinatário. O uso comunicativo da linguagem é pautado por pretensões de validez que podem ser examinadas pelos participantes da situação discursiva.

Validade e compreensão comunicativa. Araújo argumenta que uma teoria pragmática do significado requer o conceito de validez que leve à compreensão, superando as condições de verdade da semântica veritativa. A compreensão do ato de fala depende da clarificação das razões que levarão ao sucesso tanto ilocucionário quanto perlocucionário. Ela reforça que, pela virada linguístico-pragmática, a linguagem visa o entendimento e isso se dá pela triangulação entre a “expressão linguística como exposição e como ato comunicativo, o mundo e o destinatário” (p. 119). Conforme citação, toda a filosofia analítica[iii], mesmo depois da virada linguística, ainda se mantem presa no primado da asserção e de sua função expositiva como caso paradigmático.

Verdade como entendimento intersubjetivo. Para Habermas, a comunicação não transmite apenas pensamentos (p”), mas fatos compartilháveis (“que p”), cuja verdade depende de justificações racionais intersubjetivamente reconhecidas, ligando o significado da linguagem às condições de seu uso bem-sucedido no entendimento entre interlocutores.

* * * A reconstrução pragmática do conhecimento * * *

O retorno do transcendental pragmático. Araújo destaca que Habermas pretendia, pelo pragmatismo formal (em 2004), se haver com os fatores epistêmicos, condições transcendentais do conhecimento, que ele deixara em segundo plano ao tratar da linguagem do ponto de vista sociológico. E faz isso pela TAC, já que é indispensável tratar das pretensões de validez[iv].

Da subjetividade ao mundo da vida. A investigação transcendental de Kant, fundada no sujeito autorreferente e em juízos a priori, é deslocada por Wittgenstein para as regras provenientes do uso da linguagem em suas práticas. Habermas, após o giro linguístico-pragmático, procura pelos traços invariantes dessas práticas e substitui o acesso “ao dado” como critério de certeza da faculdade subjetiva da sensibilidade pelo acesso mediado pela linguagem e intepretação da experiência. Assim, passa-se da representação por uma mente baseada em juízos para um sujeito atuante que produz conhecimento por tentativas e erros, pragmaticamente. A teoria do conhecimento passa a explicar processos de aprendizagem inseridos no mundo da vida, onde práticas sociais, linguagem e experiência estruturam as condições do conhecimento.

Ação e conhecimento nas práticas sociais. No mundo da vida, há ações linguísticas e não linguísticas guiadas por regras, ambas com conteúdo proposicional: as primeiras voltadas à comunicação e objetivos ilocucionários, e as segundas ao êxito na intervenção no mundo. Há também ações sociais, orientadas por regras normativas, e ações não-sociais, de cunho estratégico. Nesse contexto, Habermas faz convergir razão teórica e prática, influenciado pelo pragmatismo norte-americano, pelo aprendizado por experiências de Piaget e pelos jogos de linguagem do segundo Wittgenstein, situando o conhecimento nos esforços comunicativos realizados no mundo da vida constituído intersubjetivamente.

Aprendizagem na resistência do mundo. Há um mundo objetivo ao nosso dispor, que pode ser objetivado tanto pela ação instrumental, guiada pelo saber tecnológico, quanto pela ação comunicativa. Nessas intervenções práticas, tanto a ação quanto a pretensão de verdade dos enunciados podem falhar, exigindo argumentação e aprendizado a partir da resistência do mundo. Assim, em vez de um sujeito transcendental que constitui o mundo, há sujeitos que se referem a um mesmo mundo objetivo, compartilhado intersubjetivamente, tanto na ação prática quanto na comunicação.

* * * O transcendental pós-kantiano * * *

O transcendental na intersubjetividade. O pragmatismo de Habermas pretende superar a dicotomia entre empírico e transcendental, própria das filosofias da consciência, sem renunciar ao problema transcendental, como teriam feito Dewey e Wittgenstein. Essa dicotomia dá lugar ao paradigma da intersubjetividade, no qual se articulam a perspectiva dos participantes, inseridos numa rede de práticas do mundo da vida, e a perspectiva do observador em terceira pessoa. Em Kant, o transcendental diz respeito ao entendimento de um eu transcendental; para Habermas, ele está presente nas formas de vida culturais. Assim, as condições transcendentais estão no próprio mundo da vida, cuja objetividade resulta “das necessidades da experiência e do exercício linguístico com suas pretensões de validade” (p. 124). Dessa forma, a visão deflacionada do transcendental mitiga o ceticismo de saber com certeza se há correspondência entre mente que conhece e mundo conhecido, idealmente a priori.

Universalidade sem necessidade. Mas Habermas não é um contextualista radical, como Kuhn ou Rorty, pois defende que existem traços transcendentais presentes em todas as culturas, como estruturas linguísticas, forma proposicional, atos ilocucionários e regras epistêmicas. Esses traços são universais, mas não necessários, pois pertencem ao mundo e decorrem de práticas aprendidas.

Contra o representacionismo. Habermas critica o modelo representacionista (mente como espelho de objetos) ao entender que o conhecimento é ação inteligente e que a função expositiva da linguagem ocorre em contextos de justificação discursiva. Como os participantes aprendem e corrigem erros por meio da argumentação, os fatos são encadeados por estruturas transcendentais que resultam de processos de aprendizagem e formam as próprias formas de vida.

O pragmatismo kantiano de Habermas. Araújo nos mostra que Habermas adota um pragmatismo de estilo kantiano no qual a linguagem funciona como forma pura a priori transferindo o papel transcendental da subjetividade para as condições intersubjetivas da interpretação e do entendimento no mundo da vida.

* * * Consequências epistemológicas * * *

Naturalismo mitigado e evolução do saber. Para Habermas, há continuidade entre natureza e cultura, mas sem redução de uma à outra, o que o leva a propor um naturalismo mitigado e um realismo pragmático. Esse naturalismo leva em conta processos de aprendizagem progressivos que formam estruturas transcendentais de aprendizagem, baseadas em procedimentos pragmáticos universais. Nesse processo, o mundo é progressivamente objetivado ao longo da evolução cultural e antropológica, possibilitando o incremento do saber com valor cognitivo. Contudo, esse valor não se reduz à experiência direta nem a explicações naturalísticas, pois depende das práticas do mundo da vida e dos processos intersubjetivos de aprendizagem.

Realismo intersubjetivo. A epistemologia realista de Habermas busca superar a oposição entre realismo e nominalismo ao defender um mundo objetivo acessível intersubjetivamente. Esse mundo atende a dois requisitos: o epistêmico, mediado pela linguagem no horizonte do mundo da vida, e o ontológico, no qual a realidade independente da linguagem limita a prática. Assim, os fatos não estão dados no mundo, mas se constituem por meio de enunciados cuja validade é estabelecida linguisticamente. Essa validade é distinta da existência dos objetos extralinguísticos, o que leva Habermas a rejeitar tanto o realismo conceptual quanto a metafísica neopositivista do dado[v].

Experiência como aprendizagem social. Contra o realismo que reduz a experiência à percepção sensorial, Habermas entende a experiência como ação de indivíduos socializados, orientada à solução de problemas e aos processos de aprendizagem.

Falibilismo e referência compartilhada. A teoria da figuração e a semântica veritativa não explicam o falibilismo, pois ignoram a relação entre experiência e construção do conhecimento. Para Habermas, o mundo pode frustrar expectativas e o saber é permanentemente revisado nas práticas do mundo da vida. Assim, ele propõe uma divisão de trabalho entre realismo e nominalismo: há objetos independentes da linguagem, mas sua referência surge pragmaticamente na prática linguística compartilhada, formando sistemas comuns de referência, como mostrou Putnam.

Mundo independente e verdade discursiva. Habermas sustenta que o mundo é independente das descrições, embora o acesso a ele ocorra por meio de paradigmas e práticas comunicativas que orientam a aprendizagem. A referência semântica surge dessas práticas, mas não basta para fundamentar a verdade, que depende de condições epistêmicas e de processos discursivos baseados em razões.



[i] Notas resumo de Habermas e a questão epistemológica, terceiro tópico de “A natureza do conhecimento após a virada linguístico-pragmática” em  https://periodicos.pucpr.br/aurora/article/view/1483/1414. De autoria de Inês Lacerda Araújo. O terceiro tópico tem três itens, mas aqui tratamos apenas do segundo, os outros dois virão a seguir.

[ii] Lembrar de nossa resenha da primeira parte do artigo: A queda: quando o sujeito se torna interlocutor: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/01/a-queda-quando-o-sujeito-se-torna.html

[iii] Tsc tsc: até o pobre Davidson que tem uma teoria da triangulação e Sellars-Brandom estão aí inclusos, isso é coisa para verificarmos. Excluiu o segundo Wittgenstein e seus nada ortodoxos discípulos, como Georg Henrik von Wright)

[iv] Passa pelas obras "Conhecimento e Interesse" e "Verdade e Justificação".

[v] Habermas está discutindo duas posições, vamos a elas. Para o realismo, o mundo já estaria estruturado em fatos, que seriam descritos por proposições. Assim, os fatos já existiriam prontos no mundo, por exemplo, “A cadeira é vermelha”, quer dizer que o fato “cadeira vermelha” já estaria no mundo, pronto para ser descrito. Por outro lado, para o nominalismo, existem objetos extralinguísticos (cadeira, mesa, árvore) que limitam o que podemos dizer. Desse modo, os fatos só surgem quando fazemos enunciados porque os objetos existem fora da linguagem, mas os fatos dependem dela. Então, existe uma cadeira (objeto extralinguístico que existe independentemente) mas fatos como “A cadeira é vermelha” ou “A cadeira está quebrada”, só surgem quando fazemos enunciados, linguisticamente. Nesse contexto, dirá Habermas, o mundo resiste (realismo) mas o conhecimento é linguisticamente mediado (virada linguística). São 3 passos, primeiro podemos entender que há realidade independente, isto é, objetos existem sem linguagem; segundo: os fatos são construídos linguisticamente, eles não existem sem linguagem; terceiro, a validade depende da argumentação quando a verdade depende de validação intersubjetiva. Em uma frase, conforme o ChatGPT: “Para Habermas, o mundo existe independentemente da linguagem, mas os fatos e o conhecimento sobre ele só surgem através de enunciados linguisticamente validados”. 

quarta-feira, 25 de março de 2026

RIP Habermas

Jürgen Habermas (18/06/1929 – 14/03/2026) foi um dos mais importantes filósofos do século XX. Em uma live tributo em sua homenagem, o professor Clóvis de Barros Filho aprofunda alguns de seus principais conceitos[i]

De acordo com Clóvis de Barros, Habermas, nascido no ano de 1929, é um pensador associado a Escola de Frankfurt e um dos mais importantes do século XX. Participante da segunda geração do movimento, que sucedeu a Horkheimer e Marcuse, pode ser considerado menos pessimista do que eles, principalmente no que tange ao mundo da técnica.

Habermas estaria mais associado a uma visão iluminista e encantada com as possibilidades humanas, ressaltando a noção de espaço público.  Ocorre que os primeiros autores da Escola de Frankfurt traziam duas noções de racionalidade, uma instrumental e ligada aos meios e às técnicas de desenvolvimento. A razão instrumental lida com o que é preciso para atingirmos aquilo que queremos alcançar, continua Clóvis de Barros, e ela estaria em seu apogeu naquela época, mas as custas do empobrecimento da razão objetiva, essa segunda foca nos fins ao passo que a primeira nos meios.

O professor Clóvis de Barros salienta, entretanto, que o meio só é bom se permite atingir o fim desejado, então, de que adianta aperfeiçoarmos as técnicas se isso não contribuirá para uma vida boa ou sociedade mais justa? Ora, nesse cenário, os instrumentos acabam por serem fins em si mesmos. Isso posto, o professor argumenta que Habermas traz a originalidade da razão comunicativa ou comunicacional, que entende que há um desenvolvimento da inteligência humana que busca alcançar uma comunicação mais pujante[ii].

A razão comunicativa se volta para a intersubjetividade e a coletiva e se pergunta pelas técnicas que seriam boas para irmos mais além. A busca de soluções se orienta por meio de conversas e Habermas enfatiza o espaço público como local onde se pode discutir questões que interessam à pólis. Ali, não importa quem você é, mas a produção de um discurso que seja racional, lógico e relevante, segundo Clóvis de Barros, permitindo convergência.

O professor, entretanto, abre um contraponto ao trazer a visão de Bourdieu para quem é impossível separar o que é dito de quem disse, no “mundo da vida”[iii]. Isso porque há um capital social que é decisivo na aceitação do discurso e a legitimidade deste é chancelada por aquele.

Mas, a proposta de Habermas dá voz para as pessoas e tenta salvar um tipo de democracia que nasce de um espaço no qual a opinião pública informa os agentes de estado sobre o que a sociedade está pensando. Como a relação representante-representado não dá conta das demandas, esse espaço de participação funciona como mediação, embora seja um espaço de argumentação no qual um argumento pode ser pior do que outro e suplantado.

Não podemos nos esquecer, seguindo na argumentação de Clóvis de Barros, que o surgimento dos meios de comunicação de massa abala esse espaço já que lá o debate não visa os melhores argumentos. Ao contrário, na televisão a lógica que impera é a do espetáculo e da persuasão já que é a audiência que importa e ela aumenta com a hostilidade de confronto entre os outros.

Outro ponto que Clóvis ressalta é que, em outros tempos, houve muito mais congruência de valores e concordância entre as pessoas. Por exemplo, como o culto a um único e mesmo Deus. Lá, face a tamanha certeza não havia espaço para divergências. Mas, de acordo com Habermas, as condições macro para este tipo de ambiente deixaram de existir então passa a ser melhor conseguir uma convivência saudável em um mundo que está repleto de crenças e convicções estilhaçadas.

Já que há dificuldade de acordo no campo dos valores, este deveria ser buscado, na visão de Habermas apresentada por Clóvis, na esfera procedimental de regras. Sem nos esquecermos de que se nossas crenças não são aceitas, também temos que saber lidar com as frustrações. É a adequação aos mecanismos que torna a convivência plural possível – fazendo de Habermas, grande pensador no campo da legitimidade das normas.

Para Habermas, conforme Clóvis, haveria dois princípios: o do discurso, habilitando a todos possibilidades de se manifestar abertamente, mas dentro de uma base de conhecimento que seja compartilhada e acessível através do uso de certa racionalidade; e o da universalização, frisando que há um “outro” – aquilo que é dito deve ser aceito por qualquer um.

Essa conceituação habermasiana é algo muito próximo do imperativo categórico kantiano[iv], avalia Clóvis. Porém, em Kant é fundamento de uma moral individual, mas em Habermas a moral é intersubjetiva, porque é conversando com os outros que encontramos os argumentos universais. É saindo da razão prática ensimesmada, através do diálogo que os argumentos são aperfeiçoados. Se há uma complexidade de valores de difícil coesão, os temas devem ser debatidos do espaço público em busca de acordo.



[ii] A razão comunicativa se vale da explicação e do diálogo quando persegue o entendimento e, aqui, vale os parênteses de ressaltarmos que Habermas já seria o próximo autor de nossa série justamente quando de sua passagem e dessa homenagem. Série EFEVMO-ME, que pode ser acompanhada nos links https://bit.ly/efevmo-me-blog e https://bit.ly/efevmo-me-yt. O mais legal é que Clóvis fala da questão de alcançarmos o entendimento juntos e isso é um ponto que pode nortear Habermas na série.

[iii] Lembremos: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2015/01/colocando-agua-no-capital-cultural.html. O texto compara o capital cultural de Pierre Bourdieu aos três estados da água. O capital cultural incorporado é como a água líquida (internalizado na pessoa), o objetivado é como o vapor (bens culturais que dependem de quem os compreende), e o institucionalizado é como o gelo (diplomas e certificados). A ideia central é que o capital cultural herdado pelas classes sociais influencia o desempenho escolar e ajuda a reproduzir desigualdades, já que a escola valoriza e legitima esse capital prévio.

[iv] Sobre o imperativo categórico, entre outros textos há algo aqui: “Transição da Metafísica dos Costumes para a Crítica da Razão Prática Pura” - https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2016/04/transicao-da-metafisica-dos-costumes.html. Na Fundamentação da Metafísica dos Costumes, a transição para a Crítica da Razão Prática mostra que a liberdade é a base da moralidade: o ser racional pertence ao mundo sensível (causalidade natural) e ao mundo inteligível (autonomia da vontade). Assim, o imperativo categórico surge como uma lei moral sintética a priori, válida porque devemos nos pensar livres, embora não possamos explicar empiricamente como a liberdade é possível — esse é o limite da filosofia prática em Immanuel Kant.

terça-feira, 17 de março de 2026

O entendimento contra o dado

Quando entender passa por assumir compromissos

1. Sobre Sellars[i]. Wilfrid Sellars foi um dos mais importantes filósofos do movimento da filosofia analítica do século XX, integrando e reformulando tradições como o realismo crítico[ii], a epistemologia naturalista e a crítica ao fundacionalismo dentro desse quadro analítico[iii], em oposição ao “mito do dado” e à ideia de conhecimento imediato[iv]. Sellars tornou-se proeminente por sua crítica sistemática à noção de dados epistemológicos não inferenciais[v], pela distinção entre a imagem manifesta e a imagem científica do mundo[vi] e por articular uma forma inovadora de semântica funcional/inferencialista[vii], influenciando debates em epistemologia, filosofia da mente e da linguagem no pós-guerra.

Breves notas[viii]. Cabe ressaltar que há vários tipos de dados: dado epistêmico, categorial, etc. Há várias camadas que um iniciante em Sellars ainda não consegue explorar. Um ponto importante sobre o espaço das razões e o Inferencialismo, no caso uma teoria coerentista, é não ficar preso nos pressupostos conceituais, como sair de lá? Por fim, curiosidade: haveria sellarsianos de esquerda e de direita, conforme as imagens do mundo, normativa e social ou científica e copiando os hegelianos de direita e de esquerda.

2. Sellars no blog[ix]. Podemos agregar sobre sua crítica ao empirismo e o "Mito do Dado" que as experiências sensoriais, por si só, não constituem conhecimento, pois percepções podem ocorrer causalmente, mas só contam como conhecimento quando inseridas em uma prática conceitual e inferencial. Ele desenvolveu uma teoria inferencial do significado, na qual o ato de inferir é tratado como um ato social regido por regras de prática comunitária, opondo-se à ideia de que frases são apenas entidades abstratas e inertes.

3. Sellars na perspectiva da nossa série[x]. Ele se opõe ao empirismo ao criticar projetos fundacionalistas como o do Aufbau de Carnap, que buscava reconstruir o conhecimento a partir de experiências elementares. Embora compartilhe com Quine o holismo e a crítica aos dogmas tradicionais, Sellars se distingue pelo seu nominalismo psicológico, que versa que já há papel da linguagem mesmo nos níveis primeiros do conhecimento.

4. Nossa máxima sobre o ponto de vista de Sellars[xi]. A nossa máxima “Eu falo e você me ouve, mas entende?” cai muito bem dentro do projeto filosófico de Wilfrid Sellars, sobretudo na crítica ao Mito do Dado e na sua concepção inferencialista do significado e do entendimento. Vejamos.

5. Ouvir não seria entender: contra o “dado” linguístico. Podemos entender que, para Sellars, não existiria algo como um entendimento imediato, dado simplesmente pela audição de sons ou pela recepção passiva de estímulos linguísticos. Ouvir sons não seria compreender um enunciado. A nossa máxima poderia ser reformulada assim: “O fato de você receber um estímulo linguístico não implica que você esteja já no espaço do entendimento”.

Isso seria uma extensão direta da crítica ao Mito do Dado, já que não haveria conteúdos epistemicamente ou semanticamente autoritativos que se imporiam por si mesmos; nem percepção, nem linguagem “entrariam” prontas na mente.

6. Entender seria estar no “espaço das razões”. O ponto central de Sellars parece ser que entender uma fala é estar apto a justificar, inferir, corrigir e responder normativamente a ela. Assim, quando eu digo “eu falo e você me ouve”, você pode estar apenas no espaço das causas, onde sons causam estados auditivos, mas não necessariamente no espaço das razões, onde fazemos perguntas como: “O que segue disso?”, “O que conta a favor?” e “O que seria um erro aqui?”. Logo, o “mas entende?” marca exatamente a passagem problemática entre esses dois espaços.

7. O significado não seria algo que se recebe, mas algo que se exerce[xii]. Para Sellars, compreender uma expressão não seria ter uma imagem mental, nem seria associar um som a um objeto, mas seria dominar um papel funcional-inferencial dentro de uma prática linguística. Entender “p” seria, em parte, saber que outras proposições seguem de “p”; que evidências contariam a favor ou contra “p”; em que circunstâncias “p” deveria ou não ser afirmado. Assim, nossa máxima expressaria uma tese sellarsiana: A comunicação falha não por déficit acústico, mas por déficit de inserção inferencial.

8. Linguagem como prática normativa, não como transmissão. Ao contrário de um modelo “telegráfico” da linguagem (mensagem → receptor → significado), Sellars sustentaria que quando eu falo eu assumo compromissos; quando você ouve e entende, você reconhece e pode avaliar esses compromissos[xiii]. Portanto, quando eu pergunto “mas entende?”, a questão real é saber se você reconhece quais compromissos eu assumi ao dizer isso e quais compromissos isso impõe a você. Se não, houve som, mas não houve entendimento.

9. Uma formulação sellarsiana da nossa máxima. Em linguagem sellarsiana, ela poderia ser reescrita assim: “Eu produzo um evento sonoro linguisticamente articulado; você o recebe causalmente - mas você ingressou no espaço normativo das razões que lhe dá significado?” Ou, mais curto: “A audição é causal; o entendimento é inferencial.”

10. Conexão com nossa sequência até agora. No arco que vimos traçando, Sellars ocupa um lugar decisivo, já que, contra Carnap, as regras não são meramente formais e contra Quine, o normativo não se reduz ao comportamento. A máxima é, nesse sentido, uma frase anti-mitológica: ela recusa a ideia de que compreender seja algo dado, imediato ou automático. Em suma, para Sellars, nossa máxima exprime uma verdade central da filosofia da linguagem:  entre falar e entender há uma diferença normativa fundamental, não apenas um canal de transmissão de informação.



[ii] Para o realista, o mundo existe independentemente da nossa mente, porém nosso conhecimento sobre ele é mediado. Podemos consultar os idealistas: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2024/01/breves-ideias-sobre-locke-berkeley.html.

[iii] A epistemologia naturalista é uma reação ao fundacionalismo clássico e ganha força com Quine, que propôs naturalizar a epistemologia, transformando-a em parte da psicologia empírica. Assim, o estudo do conhecimento se dá em continuidade com as ciências empíricas, especialmente a psicologia e as ciências cognitivas e não deve ser feito a partir de fundamentos puramente a priori ou “transcendentais”. Então, ao invés de perguntamos “Quais são as condições filosóficas últimas que justificam o conhecimento?”, a epistemologia naturalista pergunta “Como, de fato, os seres humanos formam crenças e quais mecanismos tornam essas crenças confiáveis?”

[iv] Não há “dados puros” dados à consciência. Ou, o “Mito do Dado” é a crença de que existiriam conteúdos imediatamente dados à mente que já teriam autoridade epistemológica por si mesmos, como “Vejo vermelho, logo tenho conhecimento direto de vermelho”. Na empiria clássica, haveria um nível básico de conhecimento não inferencial que serviria de fundamento para todo o resto. Há sensação no espaço das causas, mas para que algo conte como conhecimento, é necessário que esteja inserido no espaço das razões.

[v] Não há um estágio epistemicamente autônomo de “crença não inferencial” que fundamente o resto. Mesmo crenças perceptivas “básicas” (como “isso é vermelho”) só contam como crenças porque já pertencem a uma prática linguística normativa. Elas podem ser não inferidas, mas não são pré-conceituais nem independentes do domínio inferencial

[vi] A imagem manifesta do mundo, isto é, tal como aparece na experiência comum pode ser integrada (ou reinterpretada) à luz da imagem científica do mundo, descrito pelas ciências.

[vii] Em vez de dizer que as palavras são etiquetas coladas nas coisas, Sellars diz que a linguagem é um sistema de regras. Ter um conceito ou saber um significado é como saber "conduzir-se" dentro do espaço das razões: é saber quais conclusões você pode tirar de uma frase e quais frases justificam o que você está dizendo. Portanto, o significado é o papel funcional que uma expressão ocupa dentro de uma vasta rede de inferências e usos sociais

[viii] EP. 70 - Hegel, Sellars, Filosofia Analítica e História da Filosofia: https://www.youtube.com/watch?v=mgY0X8ywoOo, Neste episódio, conversamos com J.-P. Caron (UFRJ) sobre a relação de Hegel com a filosofia analítica, sua influência sobre Wilfrid Sellars e a chamada Escola de Pittsburgh e uma forma global de se enxergar a filosofia. Caron trata também dos pressupostos metodológicos dominantes, aspectos descritivos e normativos do fazer filosófico e seus desdobramentos políticos. Por fim, ele discute a relação entre passado e presente: como utilizar frutiferamente o pensamento de grandes filósofos de outras épocas para compreendermos aspectos contemporâneos sem distorcer aquilo que falaram.

[x] Idem.

[xi] Conforme temos dito, para a série EFEVMO-ME temos usado o ChatGPT para gerar o conteúdo de resposta do filósofo para a nossa máxima e fazemos uma revisão. São dois objetivos: o primeiro é escrutinar a máxima do ponto de vista do filósofo e o segundo é fazer uma aproximação conceitual do filósofo, de maneira geral. Mostrando postagens com marcador efevmo-me: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/search/label/efevmo-me. No Canal: https://youtube.com/playlist?list=PLnDky5U6KdTn7T-fRc3YWlosgMpPVzH9k&si=I2HECee5weE_WO13 - FEVMO-ME, por Luís Quissak, Playlist, Público, 6 vídeos, 44 visualizações “Eu falo e você me ouve, mas entende?”.

[xii] Aqui é pura semântica e depois podemos explorar dot-quotation.

[xiii] Aqui pode ser que já estejamos transicionando para Robert Brandom: https://www.youtube.com/@BobBrandomPitt.

domingo, 15 de março de 2026

EFEVMO-ME em 11 de março de 2026

Aborda algumas formas e contextos da comunicação e aponta para certa complexidade envolvida no ato de falar, ouvir e entender no cotidiano[i]

Eu falo de várias maneiras e sobre diversos protocolos. Eu falo no trabalho por e-mail visando documentar e importa ser formal e claro. Eu falo por meio de uma apresentação de proposta para um cliente e representando um fornecedor. Ali o sentido importa, tem que fazer sentido e é muito difícil comunicar significados.

Ocorre que, se há ocasião de se apresentar pessoalmente, em um encontro presencial, a semântica vai a reboque da pragmática - o contexto importa. Mas é importante, também, que na reunião os envolvidos compartilhem interesses semelhantes. Cliente parceiro e fornecedor, quando sintonizados e engajados em suas práticas, podem assumir compromissos adequados. 

Eu ouço de várias maneiras. Há um amigo no WhatsApp que pode “somente” me enviar uma figura: ali está tudo, o pacote formal-significativo-contextual. E quando eu comunico, respondendo com um texto? Eu deveria enviar um áudio, “carregado”? Há grande diferença quando eu recebo um texto e quando eu recebo um áudio. Por que o áudio? Preguiça ou pedido de envolvimento?

Há estruturas sensíveis e racionais que vão influenciar minha decisão e empenho. Eu ouço uma música e dou a ela o meu sentido. Não conheço o autor, mas eu remoto dentro de mim o seu sentimento, à minha maneira. Ele comunica um sentimento e isso não quer dizer que ele comunica “o” sentimento dele e nem que eu seja capaz de elaborar o que sinto.

Falar, ouvir, entender. Coisas do dia a dia.



[i] Aplicação de https://bit.ly/efevmo-me-blog e https://bit.ly/efevmo-me-yt. 

quarta-feira, 4 de março de 2026

Carnap antes da semântica

Apresenta a evolução do fenomenalismo para a sintaxe lógica

Contexto histórico. De acordo com Emmendorfer[i], Ernest Mach, através de uma espécie de sensorialismo radical, influenciou a primeira fase de Carnap, a fenomenalista, expressa no Aufbau[ii] (1928). A proposta era que os objetos mais simples seriam qualidades sensíveis (“este vermelho” - Erlebnisse), constituindo uma base auto psicológica do sistema construcional. Carnap (e Neurath) também foram influenciados pelo convencionalismo de Poincaré e o holismo de Duhem. Os empiristas lógicos, reunidos no Círculo de Viena, davam muita importância à investigação lógica da linguagem, como sabemos. 

Emmendorfer pontua que, para os empiristas, o significado estaria ligado à experiência e só poderia ser confirmado ou infirmado pela verificação. É uma tese reducionista, segundo ela, que se vincula à tese extensionalista do Aufbau. No manifesto “A concepção científica do mundo”, distinguiam-se dois tipos de sentenças: as analíticas, cujas verdades são determinadas pelas regras da linguagem, e as sintéticas a posteriori, que se apoiam nos dados empíricos coletados por observação. Caberia à filosofia esclarecer o sentido das sentenças. 

O reducionismo de Carnap, ela continua, consistia em reduzir enunciados empíricos a mais elementares, os dados vivenciados e categorizados como proposições protocolares. Entretanto, de acordo com a visão de Neurath, proposições protocolares serviriam para descrever o mundo, não se confundindo com as próprias vivências. Conforme citação: “E a elaboração das proposições protocolares são convenções nas quais são tomados os dados empíricos e a partir disso é feita a redução” (p. 61). Visava-se uma linguagem ideal construída convencionalmente pela escolha ou descarte das proposições protocolares, elementares para formar a base das teorias[iii]

No artigo “A superação da metafísica por meio da análise lógica”, como observa com Emmendorfer, Carnap se utiliza de critérios para atribuir significado aos conceitos. Isso é feito através de proposições simples como “x é um mamífero”, na qual “x” pode ser substituído por “este cachorro” e validando contra as características da classe dos mamíferos. Pela análise, então, se chega na significatividade da palavra dada, decompondo e reduzindo proposições.

A fase fenomenalista de Carnap. Conforme acima, Emmendorfer destaca classificação de Stein que associa essa fase ao Aufbau. Na obra, há uma genealogia de conceitos, a partir dos quatro níveis tratados no texto da nota [ii]. Segundo Emmendorfer, o reducionismo tem um viés lógico, de um constituinte suficiente e outro dispensável e um viés epistemológico, de um núcleo e uma parte secundária.

Dado o exemplo que ela utiliza “Se eu franzir a testa, então estou pensando em algo”, pelo lado lógico, há um constituinte suficiente que é “pensar em algo” - por experiências anteriores sei que o constituinte secundário (franzir a testa) é um conhecimento por familiaridade, aspecto físico que me leva ao mental, o núcleo (pensar em algo). Por outro lado, o aspecto físico de “franzir a testa” é reduzido epistemologicamente ao “pensar em algo”, isto é, o conhecimento de “franzir a testa” está contido em “pensar em algo”, em termos de redução lógica.[iv] 

Carnap, buscava, nessa fase, uma reconstrução do mundo mediante uma base auto psicológica[v], mas depois passa a se preocupar com a forma da linguagem, a sintaxe, se utilizando de uma metalinguagem que analisa linguisticamente uma linguagem objeto. 

A fase sintática de Carnap. Já em 1934, influenciado pela metamatemática de Hilbert e Tarski, Carnap constrói uma teoria geral das formas linguísticas, por meio de uma sintaxe lógica. Há uma metalinguagem que possibilita transformar proposições de uma linguagem objeto através de regras da lógica simbólica. Aí já não se utilizam as vivências como base do significado das proposições, projeto do Aufbau, mas a linguagem simbólica, ainda que com a mesma ideia do esclarecimento das teorias científicas.

Na leitura de Emmendorfer, é uma passagem do reducionismo fenomenalista para uma análise lógico-sintática e independente da noção de significado com destaque para o princípio da tolerância, sobre o qual regras são formadas pela conveniência de cada teoria. Aí ainda há linguagem extensional, mas também se abre espaço para uma linguagem lógica. Nesse momento, então, o projeto de esclarecimento de controvérsias filosóficas é menos factual, lidando com os objetos e mais formal, por meio de signos.

Nessa época, a semântica ainda não é tematizada como teoria do significado; a análise permanece formal e sintática. A virada semântica só ocorrerá quando o problema da verdade e da referência entrar no centro da reflexão.



[i] Na página 54 de O significado em Frege e Carnap. Ela atribui as fases de Carnap a uma definição de Sofia Stein em sua tese de doutorado. Usaremos o capítulo 2 aqui.

[ii] Exploramos aqui: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/02/aufbau.html. O artigo discute a obra Aufbau (A Estrutura Lógica do Mundo), de Rudolf Carnap, defendendo que o projeto deve ser compreendido como uma reconstrução racional de caráter lógico-linguístico, e não apenas como um sistema epistemológico ou empirismo ingênuo. O autor explica que Carnap propõe um sistema construcional onde conceitos de diferentes domínios (auto psicológico, físico, hetero-psicológico e cultural) são reduzidos a uma base comum por meio da lógica, utilizando um "solipsismo metodológico" que busca objetividade através de propriedades estruturais da experiência. Ao final, o texto contrapõe as críticas de Quine, argumentando que o fundacionismo de Carnap não é dogmático ou infalível, mas sim uma escolha metodológica e convencional baseada na clareza das regras lógicas e na tolerância linguística. (resumo Gemini em 01/03/2026). 

[iii] Não passaremos por Wittgenstein e o Tractatus pois este tema já foi explorado nesse espaço em outras oportunidades. 

[iv] Pensar em algo é derivado de franzir a testa já que franzir a testa aponta para pensar em algo, conforme Emmendorfer, embora saibamos que “franzir a testa” também possa ser um truque. 

[v] Os objetos auto psicológicos são os elementos mais básicos do sistema construcional, ponto de partida epistêmico e estrutural. Eles são os conteúdos imediatos da experiência própria do sujeito. São dados pré-objetivos, por exemplo, uma mancha visual marrom que vejo agora e não o objeto físico cadeira. Eles têm primazia epistêmica absoluta, para Carnap, porque são dados diretos, não dependem de hipóteses e permitem construção de outros objetos. Importa salientar que não são vistos por Carnap como ontologicamente mais reais, mas de um ponto de vista lógico. Então, a cadeira é uma construção lógica sobre padrões de experiência. Eles são autopsicológicos porque são objetos definidos exclusivamente em relação ao fluxo de experiência do próprio sujeito e daí para a linguagem pública, o mundo físico e a intersubjetividade. Conclui-se que, no Aufbau, o mundo físico não é o fundamento e a ordem não é mundo → experiência, mas experiência → mundo. (burilando ChatGPT...)