Aborda o pragmatismo
formal de Habermas que traz a linguagem como horizonte do entendimento e
substitui o sujeito transcendental por práticas linguísticas e sociais no mundo
da vida [i]
* * * Ponto de
partida: a virada linguística * * *
Linguagem como horizonte do
entendimento. É pela organização
gramatical da linguagem que nos comunicamos e somos guiados na nossa conduta no
mundo da vida. A linguagem o articula e ele é horizonte de interpretações e
alvo do entendimento. O saber interpretativo que ocorre nas atitudes
proposicionais possui uma semântica lógica e estrutura a racionalidade
comunicativa, mas está suscetível a revisão e aprendizado contínuo que renova
um saber anterior à linguagem.
A virada pragmática da linguagem. Através do giro linguístico-pragmático a linguagem
perde pretensão de conhecimento porque o saber linguístico sobre o mundo é
contextual e se dá na ação racional de sujeitos falíveis. Araújo nos lembra que
a semântica veritativa de Frege e Wittgenstein (o primeiro) é redirecionada
pela semântica pragmática, na qual atos ilocucionários se orientam pela ação[ii]. E os
atos de fala que ocorrem em um contexto normativo devem ser aceitos como
válidos pelo destinatário. O uso comunicativo da linguagem é pautado por
pretensões de validez que podem ser examinadas pelos participantes da situação
discursiva.
Validade e compreensão comunicativa. Araújo argumenta que uma teoria pragmática do
significado requer o conceito de validez que leve à compreensão, superando as
condições de verdade da semântica veritativa. A compreensão do ato de fala
depende da clarificação das razões que levarão ao sucesso tanto ilocucionário
quanto perlocucionário. Ela reforça que, pela virada linguístico-pragmática, a
linguagem visa o entendimento e isso se dá pela triangulação entre a “expressão
linguística como exposição e como ato comunicativo, o mundo e o destinatário” (p.
119). Conforme citação, toda a filosofia analítica[iii], mesmo
depois da virada linguística, ainda se mantem presa no primado da asserção e de
sua função expositiva como caso paradigmático.
Verdade como entendimento
intersubjetivo. Para Habermas, a
comunicação não transmite apenas pensamentos (p”), mas fatos compartilháveis
(“que p”), cuja verdade depende de justificações racionais intersubjetivamente
reconhecidas, ligando o significado da linguagem às condições de seu uso
bem-sucedido no entendimento entre interlocutores.
* * * A
reconstrução pragmática do conhecimento * * *
O retorno do transcendental
pragmático. Araújo destaca que Habermas
pretendia, pelo pragmatismo formal (em 2004), se haver com os fatores
epistêmicos, condições transcendentais do conhecimento, que ele deixara em
segundo plano ao tratar da linguagem do ponto de vista sociológico. E faz isso
pela TAC, já que é indispensável tratar das pretensões de validez[iv].
Da subjetividade ao mundo da vida. A investigação transcendental de Kant, fundada no sujeito
autorreferente e em juízos a priori, é deslocada por Wittgenstein para as
regras provenientes do uso da linguagem em suas práticas. Habermas, após o giro
linguístico-pragmático, procura pelos traços invariantes dessas práticas e
substitui o acesso “ao dado” como critério de certeza da faculdade subjetiva da
sensibilidade pelo acesso mediado pela linguagem e intepretação da experiência.
Assim, passa-se da representação por uma mente baseada em juízos para um
sujeito atuante que produz conhecimento por tentativas e erros,
pragmaticamente. A teoria do conhecimento passa a explicar processos de
aprendizagem inseridos no mundo da vida, onde práticas sociais, linguagem e
experiência estruturam as condições do conhecimento.
Ação e conhecimento nas práticas
sociais. No mundo da vida, há
ações linguísticas e não linguísticas guiadas por regras, ambas com conteúdo
proposicional: as primeiras voltadas à comunicação e objetivos ilocucionários,
e as segundas ao êxito na intervenção no mundo. Há também ações sociais, orientadas
por regras normativas, e ações não-sociais, de cunho estratégico. Nesse
contexto, Habermas faz convergir razão teórica e prática, influenciado pelo
pragmatismo norte-americano, pelo aprendizado por experiências de Piaget e
pelos jogos de linguagem do segundo Wittgenstein, situando o conhecimento nos
esforços comunicativos realizados no mundo da vida constituído
intersubjetivamente.
Aprendizagem na resistência do mundo.
Há um mundo objetivo ao nosso dispor,
que pode ser objetivado tanto pela ação instrumental, guiada pelo saber
tecnológico, quanto pela ação comunicativa. Nessas intervenções práticas, tanto
a ação quanto a pretensão de verdade dos enunciados podem falhar, exigindo
argumentação e aprendizado a partir da resistência do mundo. Assim, em vez de
um sujeito transcendental que constitui o mundo, há sujeitos que se referem a
um mesmo mundo objetivo, compartilhado intersubjetivamente, tanto na ação
prática quanto na comunicação.
*
* * O transcendental
pós-kantiano * * *
O transcendental na
intersubjetividade. O pragmatismo de
Habermas pretende superar a dicotomia entre empírico e transcendental, própria
das filosofias da consciência, sem renunciar ao problema transcendental, como
teriam feito Dewey e Wittgenstein. Essa dicotomia dá lugar ao paradigma da
intersubjetividade, no qual se articulam a perspectiva dos participantes,
inseridos numa rede de práticas do mundo da vida, e a perspectiva do observador
em terceira pessoa. Em Kant, o transcendental diz respeito ao entendimento de
um eu transcendental; para Habermas, ele está presente nas formas de vida
culturais. Assim, as condições transcendentais estão no próprio mundo da vida,
cuja objetividade resulta “das necessidades da experiência e do exercício
linguístico com suas pretensões de validade” (p. 124). Dessa forma, a visão
deflacionada do transcendental mitiga o ceticismo de saber com certeza se há
correspondência entre mente que conhece e mundo conhecido, idealmente a priori.
Universalidade sem necessidade. Mas Habermas não é um contextualista radical, como
Kuhn ou Rorty, pois defende que existem traços transcendentais presentes em
todas as culturas, como estruturas linguísticas, forma proposicional, atos
ilocucionários e regras epistêmicas. Esses traços são universais, mas não
necessários, pois pertencem ao mundo e decorrem de práticas aprendidas.
Contra o representacionismo. Habermas critica o modelo representacionista (mente
como espelho de objetos) ao entender que o conhecimento é ação inteligente e
que a função expositiva da linguagem ocorre em contextos de justificação
discursiva. Como os participantes aprendem e corrigem erros por meio da
argumentação, os fatos são encadeados por estruturas transcendentais que
resultam de processos de aprendizagem e formam as próprias formas de vida.
O pragmatismo kantiano de Habermas. Araújo nos mostra que Habermas adota um pragmatismo de
estilo kantiano no qual a linguagem funciona como forma pura a priori transferindo
o papel transcendental da subjetividade para as condições intersubjetivas da
interpretação e do entendimento no mundo da vida.
*
* * Consequências
epistemológicas * * *
Naturalismo mitigado e evolução do
saber. Para Habermas, há
continuidade entre natureza e cultura, mas sem redução de uma à outra, o que o
leva a propor um naturalismo mitigado e um realismo pragmático. Esse
naturalismo leva em conta processos de aprendizagem progressivos que formam
estruturas transcendentais de aprendizagem, baseadas em procedimentos
pragmáticos universais. Nesse processo, o mundo é progressivamente objetivado
ao longo da evolução cultural e antropológica, possibilitando o incremento do
saber com valor cognitivo. Contudo, esse valor não se reduz à experiência
direta nem a explicações naturalísticas, pois depende das práticas do mundo da
vida e dos processos intersubjetivos de aprendizagem.
Realismo intersubjetivo. A epistemologia realista de Habermas busca superar a
oposição entre realismo e nominalismo ao defender um mundo objetivo acessível
intersubjetivamente. Esse mundo atende a dois requisitos: o epistêmico, mediado
pela linguagem no horizonte do mundo da vida, e o ontológico, no qual a
realidade independente da linguagem limita a prática. Assim, os fatos não estão
dados no mundo, mas se constituem por meio de enunciados cuja validade é
estabelecida linguisticamente. Essa validade é distinta da existência dos objetos
extralinguísticos, o que leva Habermas a rejeitar tanto o realismo conceptual
quanto a metafísica neopositivista do dado[v].
Experiência como aprendizagem social.
Contra o realismo que reduz a
experiência à percepção sensorial, Habermas entende a experiência como ação de
indivíduos socializados, orientada à solução de problemas e aos processos de
aprendizagem.
Falibilismo e referência
compartilhada. A teoria da figuração e
a semântica veritativa não explicam o falibilismo, pois ignoram a relação entre
experiência e construção do conhecimento. Para Habermas, o mundo pode frustrar
expectativas e o saber é permanentemente revisado nas práticas do mundo da
vida. Assim, ele propõe uma divisão de trabalho entre realismo e nominalismo:
há objetos independentes da linguagem, mas sua referência surge pragmaticamente
na prática linguística compartilhada, formando sistemas comuns de referência,
como mostrou Putnam.
Mundo independente e verdade
discursiva. Habermas sustenta que o
mundo é independente das descrições, embora o acesso a ele ocorra por meio de
paradigmas e práticas comunicativas que orientam a aprendizagem. A referência
semântica surge dessas práticas, mas não basta para fundamentar a verdade, que
depende de condições epistêmicas e de processos discursivos baseados em razões.
[i] Notas resumo de Habermas e a
questão epistemológica, terceiro tópico de “A natureza do conhecimento após
a virada linguístico-pragmática” em https://periodicos.pucpr.br/aurora/article/view/1483/1414.
De autoria de Inês Lacerda Araújo. O terceiro tópico tem três itens, mas aqui
tratamos apenas do segundo, os outros dois virão a seguir.
[ii] Lembrar de nossa resenha da
primeira parte do artigo: A queda: quando o sujeito se torna interlocutor: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/01/a-queda-quando-o-sujeito-se-torna.html
[iii] Tsc tsc: até o pobre Davidson que
tem uma teoria da triangulação e Sellars-Brandom estão aí inclusos, isso é
coisa para verificarmos. Excluiu o segundo Wittgenstein e seus nada ortodoxos
discípulos, como Georg Henrik von Wright)
[iv] Passa pelas obras
"Conhecimento e Interesse" e "Verdade e Justificação".
[v] Habermas está discutindo duas posições, vamos a elas. Para o realismo, o mundo já estaria estruturado em fatos, que seriam descritos por proposições. Assim, os fatos já existiriam prontos no mundo, por exemplo, “A cadeira é vermelha”, quer dizer que o fato “cadeira vermelha” já estaria no mundo, pronto para ser descrito. Por outro lado, para o nominalismo, existem objetos extralinguísticos (cadeira, mesa, árvore) que limitam o que podemos dizer. Desse modo, os fatos só surgem quando fazemos enunciados porque os objetos existem fora da linguagem, mas os fatos dependem dela. Então, existe uma cadeira (objeto extralinguístico que existe independentemente) mas fatos como “A cadeira é vermelha” ou “A cadeira está quebrada”, só surgem quando fazemos enunciados, linguisticamente. Nesse contexto, dirá Habermas, o mundo resiste (realismo) mas o conhecimento é linguisticamente mediado (virada linguística). São 3 passos, primeiro podemos entender que há realidade independente, isto é, objetos existem sem linguagem; segundo: os fatos são construídos linguisticamente, eles não existem sem linguagem; terceiro, a validade depende da argumentação quando a verdade depende de validação intersubjetiva. Em uma frase, conforme o ChatGPT: “Para Habermas, o mundo existe independentemente da linguagem, mas os fatos e o conhecimento sobre ele só surgem através de enunciados linguisticamente validados”.