sábado, 13 de agosto de 2022

Comunicação com compromisso e restrição pessoal

O que nós queremos dizer quando dizemos algo? Ou melhor, o que quer dizer, “dizer algo”? Ora, assumamos a linguagem como uma capacidade-humana-que-se-desenvolveu-evolutivamente[i], etc., isto é, assumamos que em algum momento passamos a emitir sons e, em outro, passamos a desenhar símbolos em pedras ou coisas semelhantes. Pois bem, o resumo da ópera é que, assim como manuseamos o barro ou andamos, também falamos.

Nesse sentido, “falar” ou “dizer algo”, como admitimos aqui, pode ter surgido como capacidade-para-superar-alguma-necessidade, qual seja, a de gritarmos para espantar o perigo ou para solicitarmos ajuda [de outrem]. Não cabe aqui estabelecermos uma ordem de precedência, mas enfatizar esse papel utilitário e subjetivo porque, como capacidade, a linguagem nos é útil e, não menos importante, é de cada um, já que da espécie. De alguma necessidade, pela nossa hipótese, a capacidade de “falar” surge e se incrementa no “escrever”[ii].

Porém, quando falamos, nós materializamos algo que vem de nosso interior. Por exemplo, a feitura de um pote de cerâmica é algo que alguém externaliza, mas cada um externaliza “o seu algo” de uma maneira diferente e, aqui, podemos postular duas determinantes: a externalização com base no que está dentro (de forma autoral) ou a externalização com base no que está fora (se adaptando)[iii]. Voltando para a linguagem, nos parece que ao falar, falamos de algo interior, algo que é realmente uma extensão material nossa, algo que é parte de nós e que parte de nós. E isso significa uma série de coisas a nosso a respeito, a respeito de cada falante: um suspiro, medo, alegria. Quando falamos, então, trazemos algo de nosso âmago que é sempre um compromisso conosco, mesmo que seja um blefe ou enganação, já que podemos, inquestionavelmente, ter o compromisso de enganar alguém, seja para nos livrarmos de uma situação indesejada ou para tirarmos alguma vantagem[iv].

Epitomando, dizer algo quer dizer materializar em som uma parte de nosso ser e isso é um compromisso que cada um tem consigo mesmo. Comunicamos algo cujo significado é um compromisso que temos conosco, uma parte de nós, embora haja restrição pessoal, isto é, não temos clareza do que acontecerá com esse significado ao encontrar outros caleidoscópios de significados (ie[v], outras pessoas). Desse modo, nos comunicamos apesar de outrem ou a despeito de outrem. Nos comunicamos, como pedra fundamental, independentemente do interlocutor.

Mas, não se pode negar que na maioria dos casos há o interlocutor e, aí, o que falamos começa a ganhar um significado intersubjetivo, respeitando a regra do compromisso pessoal, mas com certa adequação, seguindo as regras da linguagem e de cada ambiente e contexto. Mas, a linguagem é, antes de tudo, algo que parte de um sujeito e, sem ele, não existiria, de modo que qualquer análise linguística que tome frases ou expressões sem essa premissa é uma análise que se aproxima de um objetivismo abstrato[vi]. Analisar a linguagem dessa última forma é teorizá-la, tomá-la matematicamente se valendo de um objetivo acadêmico que não leva em consideração os fatos do mundo da vida.

Cabe ressaltar também que, se falamos de um objeto, falamos de algo que é dado e pode ser observado por todos, então não é tanto uma expressão cujo significado dependa propriamente de nós, mas de uma especulação ou retórica consensuada. Entretanto, há casos em que nos é imposta a tarefa de convencer para que possamos nos comunicar minimamente e desempenhar nossas atividades diárias sem grandes surpresas. Logo, como entendemos, o significado sempre está ligado na verdade individual e depende de nosso poder de explicação e persuasão.  

Uma palavra ou frase depende da verdade do falante, autor ou proponente. Toda frase está associada a alguém e seu valor de verdade só pode ser definido por aquelas pessoas. Isso não implica cair em solipsismo pois, pela experiência, sabemos que nos entendemos e nos comunicamos de alguma maneira pois partilhamos das mesmas estruturas que compõem os membros da espécie. Mas, por mais que dependa do formulador, é possível que haja mais que um, pode haver um conjunto de formuladores em acordo sobre certos objetos (ou objetivos). Nesse ponto, a linguagem é feita de tateio e teste já que falamos algo que geralmente acreditamos e testamos a concordância em certos grupos para que ela vá se elaborando e se edificando[vii].



[i] Os termos justapostos enfatizam que se trata de uma descrição.

[ii] Sobre esses pontos, Leroy-Gourhan pode ter algo a nos ensinar. Ver https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/09/a-mao-que-liberta-lidera-mas-ate-quando.html.

[iii] Ou ambos, o que não vem ao caso.

[iv] Não podemos nos esquecer de caras e bocas que são exibidas na linguagem falada e que, em muitos casos, são cruciais para o que queremos dizer, assim como na escrita há a pragmática, um sentido que “paira” sobre o texto.

[v] Id est, isto é.

[vi] Precisamos investigar melhor esse termo de Bakhtin, mas é como algo objetivo sem conteúdo, diferente do vaso de cerâmica que se torna algo objetivo concreto. Parece que há, nele, um deslocamento da linguagem [objetiva] para o enunciado [subjetivo], mas que não é a tradução de um discurso mental interior (moderno, como em Locke ou Berkeley - sobre isso falaremos).

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Paraíso verde

A nossa relação com a natureza sempre foi duvidosa, seja ela com a nossa própria natureza humana ou com uma natureza extrínseca. Em realidade, é proeminentemente uma atitude de negação já que, conforme nos alerta Haddad, a subjugação de outrem está em nosso DNA e, clara e indistintamente, a subjugação da natureza, nossa necessidade de dominá-la.

Porém, a ciência produziu uma nova visão pela teoria de alguém que acaba de nos deixar: Lovelock (RIP 26/07/2022). Ele tentou mostrar que a natureza, em oposição à tradição iniciada por Bacon e pelo renascimento (século XIV), é um organismo vivo, é Gaia. A natureza não está ali objetificada para nossa exploração e expropriação, ao contrário, ela é um todo articulado e em equilíbrio único que tencionamos descontrolar em virtude de nossos anseios mais supérfluos.

O mesmo Haddad nos lembrou, em entrevista recente, do programa da ditadura militar de enfrentar o “inferno verde”. Sim, ambiente hostil. Era essa a visão na década de 70, a mais dileta expressão positivista. Por impenetrável, haveria de se travar contra a natureza uma guerra. Mas, uma guerra contra ela é uma guerra contra o planeta, contra nós.

Ora, tal não é a nossa surpresa, 50 anos depois, de testemunhar que algo mudou. A ecologia e a sustentabilidade são palavras de ordem, atualmente. Os orgânicos ganham espaço, a pegada de carbono envergonha e termos como ESG dominam o mundo corporativo. Seriam ressonâncias dos pedidos de Lovelock?

Sem dúvida, o buraco na camada de ozônio chamou a atenção, mas, também, as anotações sucessivas da constante elevação do aquecimento global comprovaram cientificamente que o homem lidera e potencializa a destruição do planeta, pela produção desenfreada de CO2 e outros gases de efeito estufa.

As palavras de Lovelock estão por aí ecoando na cabeça de acadêmicos, cientistas, voluntários e guerreiros que, não se alienando, tentam mudar a realidade. Mas, decerto, uma grande mudança para a sociedade é entender que, na atmosfera baixa, quem manda é a natureza e é ela um verdadeiro paraíso, paraíso verde.

sábado, 30 de julho de 2022

Fontes iniciais da filosofia analítica

Funda a filosofia analítica em Russell, destacadamente, e Moore[i]

Nesse capítulo introdutório, Schwartz finca as bases da filosofia analítica em Russell e Moore, com destaque também para Frege e Wittgenstein, que têm como principais pontos a recuperação do clássico empirismo britânico (mas corrigindo-o), a invenção da lógica simbólica e a repulsa ao idealismo hegeliano. Além disso, Schwartz passa pela filosofia da linguagem, mas com uma abordagem muito lógica e distante da linguística. Enfim, é um passeio inicial nessa visão positivista que tanto influenciou a filosofia do século XX até os nossos dias.

Schwartz destaca o pioneirismo de Frege, mas que foi popularizado por Russell nos Principia mathematica (com Whitehead) e que expõe a nova lógica simbólica que influencia, por exemplo, Kurt Godel e posteriormente a computação e o estudo da linguagem. Então, a lógica matemática pode resolver a questão deixada em aberto pelos empiristas que é “Como é possível a matemática pura?”[ii]. Conforme Schwartz: “Russell não podia aceitar o “empirismo puro” – a ideia de que todo o conhecimento é derivado da experiência sensorial imediata...” (p. 11) e que levaria ao ceticismo, senão solipsismo. Bem, isso mostra a faceta racionalista de Russell, quando diz que o “empirismo tradicional é um erro e que há um conhecimento a priori e universal”, mas que o leva a ter de explicar a independência empírica, digamos assim. Para esse fim, Frege e Russell reconceitualizam a matemática pelo uso da lógica simbólica que trata a lógica matematicamente e a matemática como uma forma de lógica. Isso permite responder a questão deixada em aberta por Kant e não explicada pelos empiristas e que aponta para uma matemática analítica.

Ora, se Kant estabeleceu que “7 + 5 = 12” é sintético a priori, Frege procura mostrar que a aritmética pode ser deduzida da lógica pura. Mas os idealistas tinham a geometria como uma fortaleza, segundo Russell, pois com validade independente da experiência ou mesmo a questão relacionada à infinitude dos números primos não possível de prova via teste empírico. Há uma solidez matemática racionalista já que as proposições matemáticas, se independentes da experiência, são necessariamente verdadeiras e oriundas da razão pura. Entretanto, ao mesmo tempo, tal conceituação abre as portas metafísica, ontologia, etc., e para a falência do empirismo. É aí que o logicismo de Russell visa mostrar que a matemática pura é um prolongamento da lógica dedutiva e que não há proposições sintéticas a priori; toda a matemática poderia ser derivada da pura lógica, em um trabalho gradual. Poder-se-ia partir dos postulados de Peano, demonstrar que são puramente lógicos e, daí, com base analítica para a matemática. Mas, ao mesmo tempo, leva Wittgenstein a mostrar que a matemática é toda tautológica. Isso desmistifica não somente as verdades matemáticas como também o uso racionalista das verdades da religião ou da metafísica[iii].

Schwartz também enfatiza a importância da linguagem para o desenvolvimento da filosofia analítica. Sua análise se inicia com teoria das descrições definidas de Russell, que aparece na obra “Da denotação”, de 1905 e que se baseia em sua lógica simbólica. Como sabemos, uma descrição definida se destina a selecionar (denotar) um objeto, mas pode ocorrer de selecionar algo inexistente, mais de uma coisa, etc., e daí que Russell procura mostrar que as descrições definidas não denotam de forma isolada[iv], elas não denotam por si mesmas. Isso pode ser demonstrado se analisadas logicamente, o que revelará o que está por trás de uma descrição enganadora como “o presidente do Canadá é uma mulher” que se transforma em “há um e somente um presidente do Canadá e é uma mulher” (a predicação "uma mulher" é falsa, e não o caso de que haja um objeto inexistente). O uso da lógica simbólica faz com que a expressão não se refira a um indivíduo, mas seja uma expressão geral da forma: Ǝx{[Fx & x (Fy x = y)] & Mx} :: há ao menos uma coisa, no máximo uma coisa e a predicação.

Para além das descrições definidas, Russell desenvolveu uma metafísica com base na sua lógica simbólica, conhecida como atomismo lógico. Conforme Schwartz, “Russell sustentava que a linguagem, quando totalmente analisada, consiste em proposições atômicas e proposições moleculares constituídas delas pelas funções lógicas: não, ou, e, se ..., então ...”. Isto é, há átomos lógicos que podem ser descobertos pela análise filosófica, um tipo de realidade que não pertence a nenhuma outra coisa, mas que são metafisicamente necessários. Tanto mundo quanto linguagem tem uma estrutura comum que pode ser representada pela lógica simbólica, visão esta que influenciará Wittgenstein, mas será negada pela filosofia da linguagem comum.

Por outro lado, a contribuição de Moore é no sentido de uma filosofia do senso comum. Schwartz mostra que o positivismo foi uma reação contra a dialética hegeliana, que tratava da negação da negação e considerada por eles obscura. De acordo com Moore a metafísica hegeliana negava a realidade em prol do espírito absoluto, legando o senso comum a mera aparência. Então, Moore visa limpar essa crosta filosófica por um apelo à simplicidade do senso comum. Se Hegel (e Bradley, contemporâneo de Moore) procurou negar a realidade dos objetos do mundo, isso poderia ser configurado como ilusão filosófica. Porém, embora influenciando Wittgenstein e a filosofia de Oxford, a proposta de Moore do senso comum não teve força suficiente para superar os argumentos tanto de céticos quanto de idealistas.

Moore fundamentava a sua filosofia do senso comum nos dados dos sentidos, quer dizer, sensações oriundas dos sentidos e privadas de cada pessoa. De acordo com Moore, vemos algo, mesmo que não seja o próprio objeto e, segundo ele, para saber o que é um dado do sentido basta olharmos para a nossa mão. Contudo, Schwartz alerta para complexidade da teoria, já que o senso comum não conhece dados dos sentidos e sim os próprios objetos e tal conceito foi questionado mesmo por Austin e Wittgenstein. Já Russell tomou por base os dados dos sentidos para propor um tipo de conhecimento por familiaridade, mas para falar de um objeto usamos o conhecimento por descrição, que é indireto. Dados dos sentidos, então, fazem parte daqueles átomos metafísicos da proposta russelliana e que, de fato, nos afasta do senso comum.

Essas são, então, resumidamente, as impressões que mais nos chamaram a atenção na abordagem de Schwartz sobre os primórdios da filosofia analítica e que marca toda uma nova forma de fazer filosofia passando a limpo o idealismo alemão e fundando o positivismo lógico que propõe uma junção entre lógica e matemática, mas que não deixa de mostrar uma certa tendência de Russell por um tipo de platonismo negado pelos positivistas, quando postula certos entes metafísicos.



[i] Conforme Uma breve história da filosofia analítica de Russell a Rawls. Schwartz, Stephen P. São Paulo: Edições Loyola, 2017, capítulo 1: Russell e Moore.

[ii] Destaque para a citação inicial do capítulo.

[iii] Ficamos com o nem-nem: nem experiência e nem mística. O programa de Frege e Russell teve que enfrentar vários problemas, como o da autorreferência, mas mostrou que as noções da matemática clássica podem ser definidas pelas noções da lógica como “ou”, “se ..., então ...”, “todos...”, etc., e foi quase concluído com êxito.

[iv] Repetimos o foco de Schwartz na abordagem da filosofia da linguagem: uma que não nos ajuda em nossas competências linguísticas, mas que se vale da lógica como ciência do raciocínio e inferências e impacta em muitas áreas e domínios. A despeito das descrições definidas, ainda suscitam discussões filosóficas, mas é uma alternativa profícua ao postulado de Meinong (anti occaminiano). 

sábado, 16 de julho de 2022

Do nome à descrição definida dele

É um exercício de filosofia da linguagem ainda bem incipiente e incompleto[i]

Se eu digo “Gilberto Gil é o baiano com mais balanço”, o que isso significa e a quem me refiro? Do ponto de vista intuitivo, a frase acima significa que me refiro a Gil, isto é, o significado de Gil é o próprio Gil, qual seja, a referência. Agora, se eu digo “Gilberto Moreira é o baiano com mais balanço”, o que isso significa e a quem me refiro?

Da mesma forma, intuitivamente, essa segunda frase assere a Gilberto Moreira a descrição de ser o baiano com mais balanço. Ora, se o significado é a referência, temos um problema aqui: temos dois nomes referindo à mesma pessoa, como que sendo dois significados diferentes para a mesma referência. Além do mais, certamente alguém pode não saber que Gilberto Moreira é Gilberto Gil e pensar se tratar de outra pessoa.

Essas questões iniciais trazem algumas dificuldades em se tratar do significado de um nome como sendo a própria referência, pois parece que impede flexões. Então, o que podemos fazer é separar o significado da referência, de modo que haja uma referência (Gil) e muitos significados (Gilberto Gil, Gil Moreira, o baiano com mais balanço, o primogênito de José Gil Moreira, etc.). Ora, temos aí duas teorias da referência: uma direta (o significado é a referência) e outra indireta (o significado é uma descrição da referência[ii]).

Ora, agora parece que temos uma maleabilidade maior em descrever as referências de acordo com as descrições que queiramos e nos afastando de um significado fixado. Isso aproxima o nome que identifica o objeto das descrições [definidas] que identificam o objeto. Ainda assim, vejamos, há uma âncora lá: a referência. Mas ela pode não haver como em “Saci-pererê é o menino mais travesso”, considerando que o saci-pererê não existe.

Isso leva a um terceiro e último aspecto que gostaríamos de comentar. O fato de “falar de” seja por um nome (fixo) ou uma descrição levanta dificuldades de comunicação quando falta ou sobra significado ou referência, o que nos leva a suprimir a descrição definida por uma análise lógica. Assim, o que quereria dizer a frase “O primogênito de José Gil Moreira é o baiano com mais balanço”? Que existe um primogênito de José Gil Moreira, que há no máximo um primogênito de José Gil Moreira e que, quem quer que seja o primogênito de José Gil Moreira, ele é o baiano com mais balanço.

Tem-se que a descrição definida se despe em uma asserção de existência (o primogênito existe), de univocidade (só há um primogênito do José Gil) e da predicação (ele é o baiano com mais balanço). Essa análise já permitiria também refutar o saci-pererê[iii]. A camada aparente da linguagem fica, assim, subsumida à sua base lógica real e evitamos problemas de interpretação e comunicação.

Bem, esperamos não ter errado muito, esperamos que argumentação tenha um pouco de clareza e que possa ter coberto em linhas gerais os pontos principais, embora nesse momento eu não esteja tão certo que isso tenha sido feito a contento.



[i] Nossa intenção com esse primeiro exercício de filosofia da linguagem, descompromissado, é nos aproximarmos da escrita técnica e tentar passar brevemente pelos primórdios das teorias, circunscrevendo-nos entre Russell e Frege e só.

[ii] Conforme Frege, o sentido, ou seja, um modo de apresentar o objeto (a referência).

[iii] Já que não existe, apesar de Meinong ter proposto que ele tem um ser, que faz parte da realidade dos inexistentes. 

terça-feira, 28 de junho de 2022

Segunda problema

A segunda-feira sempre foi um problema para mim. Houve uma época em que eu sentia um grande vazio existencial segunda à noite e só me restava a alternativa de ir para os botecos tomar uma cerveja e “rebater o fim de semana”. Essa solução se mostrou um tanto cara e maléfica para a saúde, mas isso foi “lá traz”, lá pelos idos de 2005, 6.

O tempo passa e, na minha estada no Rio de Janeiro (7-10), a “síndrome da segunda-feira”, às vezes, durava até quarta ou quinta-feira. Não se sabe porquê, mas a terra de São Sebastião não me ajudou quando o assunto era trabalho. Enfim, o tempo passa e a gente toca o barco. Na volta para a SP, a terapia me ajudou a afastar esse problema com um pouco de conversa e alguns remedinhos. Nada de mais, digamos que uma dose de uma cachacinha feita em laboratório.

Tudo vai e tudo vem, pandemia e a coisa toda, e eis que estamos aqui, terça-feira, 6h AM, nos defrontando com esse texto resultado do que chamo de uma insônia de última milha e que tem me acometido no que, já vai tarde se ainda não foi, 2022. A experiência e a barba branca, contudo, me ensinam a “modular”, digamos, a questão. Dá para conviver: entre despertares por volta de 4 ou 5h da manhã, um pouco de sofá e tuite me trazem de volta para a cama e o sono. Mas, cá entre nós, embora não afete meu dia, poderia ser melhor né?

Bem, o Rufino[i] aponta o caminho: trabalhar três dias na semana e folgar quatro. A Lívia trabalha quatro e folga três, mas o inimigo ainda está ganhando. O Safatle tem dito que na Europa eles têm tentado reduzir a carga de trabalho, mas esses sacanas desses branquelos tomaram o Brasil de assalto e acabaram com a nossa relação com a natureza, que agora ocorre mediante o trabalho.

Reverter isso levará tempo, mas é, sem dúvida, a melhor alternativa. Produzir demais não ajuda ninguém, mas quem sou eu para dizer, que estou quase um workaholic. Ora, voltarmos para as formas de vida de nossos povos originários e, com a sabedoria deles aprendermos, é o melhor que temos a fazer, afinal, ainda está em nosso DNA, mesmo que tentemos brutalmente acabar com essa marca indelével.



[i] Em Arruaças, Mentira vira verdade e verdade vira mentira, a respeito do Neco.

sexta-feira, 24 de junho de 2022

unidade semântica

Faz uma exploração inicial acerca da possibilidade de se encontrar uma unidade semântica

Em termos gerais, a sintaxe é aquela que trata das regras gramáticas ao passo que a semântica se preocupa com o significado, que é coisa difícil de definir e entender. Isso porque um significado em si é uma passagem para alguma coisa, isto é, é um signo. Então, um significado significa algo: uma ideia em nossa mente, uma memória, um fato no mundo ou até uma ludibriação. Vejamos:

1. A frase “Que vontade de comer uma picanha” pode indicar a sensação de comer uma picanha nesse momento, por fome, desejo, whatever.

2. Já “Que vontade de comer aquela picanha” pode se referir a um fato, ou melhor, há uma carne comida outrora.

3. Por outro lado, “Que vontade de comer picanha” referir-se-ia a um argumento tolo em uma discussão sobre a proteína do almoço de amanhã.

Pois bem, voltemos ao título e perguntemos: Qual a "unidade semântica” do que foi até agora explicitado? Seria a picanha, a vontade, comer ou nenhuma das anteriores? Por nenhuma das anteriores abrimos o leque de tudo-o-que-existe, que são as mais variadas teorias psíquicas sobre o desejo de comer picanha, teorias fisiológicas sobre o efeito da picanha no corpo, teorias ecológicas sobre a pastagem do gado origem da picanha, elocubrações veganas relativas à piedade de se matar os pobres bichanos, e por aí vai.

Em resumo, podemos encontrar uma unidade semântica ou a própria unidade semântica é semântica, qual seja, dependente da própria maneira de como entendemos a semântica, ou de um ponto de vista objetivo, daquilo que é aceito por muitos (“a picanha está muito cara atualmente”) ou do que se entende subjetivamente (“picanha era carne de segunda, antigamente”).

Um ponto evidente a se ressaltar é que se trocarmos “picanha” por “feijão”, “comer” por “cozinhar” e “vontade” por “raiva”, todos os exemplos significantes que levamos em conta até agora cairiam por terra, exceto a estrutura da argumentação. Clarificando, a busca pela unidade semântica emerge agora como uma negação do significado em si. Repetimos: buscar a unidade semântica significa abrir mão do significado aplicado e entender, usando a linguística ou a filosofia, se a unidade semântica pode ser uma classe gramatical (substantivo, verbo...), uma frase (sentença, proposição...), um parágrafo ou o texto todo (poderíamos, talvez, usar máquinas, algoritmos de computação e matemática para tentar nos ajudar nessa identificação).

De novo, peguemos esse texto (a tal da autorreferência) e façamos o teste: extraio significado do título, de algumas palavras chave, de cada uma das frases individualmente, dos parágrafos ou do conjunto da obra? Se isso é importante? Claro! Nossa maior aquisição é a linguagem, embora muito mal utilizada.

quinta-feira, 2 de junho de 2022

Referência Indireta e Humanidade

Me parece sobremaneira interessante fazer um recorte da chamada teoria da referência indireta, como a nós pareceu. Vejamos: há um nome, talvez uma expressão ou proposição, ou seja, um recurso linguístico que tem um sentido antes de ter uma referência. Mais do que isso, o sentido é mister, é mais do que a referência e pode até dela prescindir.

Por exemplo, tomemos a frase: “Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá”. A semântica fregeana se perguntaria pelo sentido dela e não pela referência, isto é, se há palmeiras e se nela existem sabiás que cantam. Se eu digo: “Superman!!”, o que quero dizer? Ao analisar esse nome, “Superman”, eu penso no Superman em si ou no homem que vai me salvar? Ou no homem que usa uma capa vermelha? Engano, não é um homem, pois veio de outra planeta...

Parece óbvio, não é? Há tantos sentidos e há uma referência, mas quantas e repetidas vezes vivemos do sentido? Esquecemos completamente a referência e tratamos do sentido que a ela queremos dar. Diz a mãe: “Ah, meu menino...”, ao que o outro responde: “Que menino o que boba, já passou dos 30!”. Vê? São sentidos bem diferentes. Quem tem razão? Basta olhar para a referência? Certamente não. Então? Há o impasse e, daí, o diálogo.

                                                   * * * * *

As notícias recentes me fizeram pensar sobre a expressão: “crime contra a humanidade”. Ela se refere a agentes da Polícia Rodoviária Federal que assassinaram Genivaldo em Sergipe, em Umbaúba, semana passada. Os policiais assassinos executaram esse cidadão pela tortura: espancamento e câmara de gás. Tortura é um crime contra a humanidade. Mas o atual presidente é um genocida, e também cometeu crime contra a humanidade durante toda a pandemia, reiteradamente.

Humanidade... Humanidade que é o que eu tenho, você tem. Humanidade que é muita gente ou toda a gente do planeta. O crime de tortura que as polícias brasileiras praticam, e agora com maior complacência, é um crime contra a humanidade de uma pessoa. Quando você tortura uma pessoa, ela deixa de ser humana. O genocídio que o atual presidente cometeu na pandemia, e que ainda quer cometer, visa pobres, minorias, indígenas, etc., é um crime que coloca em risco a humanidade como um todo, se a moda pega.

Nesse "sentido", não importa a referência, o que importa é o sentido mesmo: fascismo.

PS.: inspiração oriunda dos vídeos de Ruffino sobre Frege e tristemente ancorada na tragédia brasileira.