sábado, 21 de fevereiro de 2026

Carnap, 1945

Passa pela lógica indutiva proposta por Carnap[i]

Contextualização. Com base exclusivamente nos seguintes artigos Rudolf Carnap (Stanford Encyclopedia of Philosophy) e Rudolf Carnap > C. Inductive Logic (Stanford Encyclopedia of Philosophy), o movimento que Rudolf Carnap realiza em 1945 visa a fundamentação e o desenvolvimento sistemático de uma nova lógica indutiva, centrada na distinção entre dois conceitos de probabilidade[ii].

Em 1945, Carnap publica o artigo "The Two Concepts of Probability", onde propõe que a controvérsia histórica sobre o tema resultava da falha em distinguir dois "explicanda" (conceitos a serem explicados) diferentes sob o mesmo nome. Há probabilidade$_1$, uma probabilidade epistêmica ou lógica que se refere ao grau de confirmação de uma hipótese com base em evidências. Este é um conceito analítico e relativo a um "framework" linguístico[iii]. Há, por outro lado, probabilidade$_2$, uma probabilidade estatística que se refere à frequência relativa de um evento em uma série de longo prazo, sendo um conceito puramente empírico.

Sobre evidências. A probabilidade estatística é empírica, mas a probabilidade lógica, ao tratar de evidências, também não se refere ao “mundo”? Embora as sentenças de evidência descrevam eventos e resultados de observações do mundo, a questão da confirmação exige apenas que sejamos capazes de entender o seu significado e as relações lógicas que elas possuem com uma hipótese $h$. Para decidir o grau de confirmação de uma hipótese com base em uma evidência, não é necessário saber se a evidência é factual ou materialmente verdadeira no momento da análise. A análise de confirmação é estritamente lógica e semântica, focada em como o conteúdo da sentença de evidência apoia o conteúdo da hipótese.

Motivações. A partir desse ano, Carnap também publica "On Inductive Logic", resumindo seu novo sistema que visava fornecer uma explicação quantitativa exata para a metodologia da ciência. Por que ele fez esse movimento? De acordo com os artigos, as motivações de Carnap foram as que se seguem.

Necessidade de Explicação (Explication). Carnap via a filosofia como uma "engenharia conceitual" destinada a substituir ferramentas linguísticas primitivas e vagas por conceitos novos e precisos. Ele acreditava que a probabilidade lógica deveria fornecer uma explicação exata para o conceito de confirmação, que é básico na ciência.

Superação da Crise da Verificação. Carnap reconhecia, desde seus primeiros escritos, que as leis científicas universais não podem ser estritamente verificadas, mas apenas confirmadas ou desconfirmadas passo a passo. A lógica indutiva serviria para medir esse crescimento gradual da confiança em uma lei.

Conciliação de Escolas de Pensamento. Ele desejava encerrar a disputa "fútil" entre a concepção lógica de probabilidade (Keynes, Jeffreys) e a concepção frequentista (von Mises, Reichenbach), demonstrando que ambas as teorias tratam de conceitos importantes que se complementam em vez de se excluírem.

Criação de Frameworks Abrangentes. Carnap queria expandir a ideia de "frameworks" linguísticos para que estes incluíssem não apenas regras dedutivas, mas também regras de lógica indutiva que fossem constitutivas do sistema e permitissem a confirmação de sentenças sintéticas (os juízos sintéticos kantianos).

Reconsideração Pessoal. Em 1941, ele reconsiderou o problema da probabilidade após uma leitura mais cuidadosa de Keynes, abandonando a visão de que a confirmação seria apenas comparativa ("mais fortemente confirmada", "menos confirmada"...) e passando a buscar um sistema métrico quantitativo, menos vago, assim como a ciência introduziu o conceito métrico de temperatura para substituir o conceito comparativo de "mais quente".

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Os Dois Conceitos de Probabilidade. O artigo "The Two Concepts of Probability", escrito por Rudolf Carnap em 1945, é dividido em seis capítulos (ou seções) principais. Abaixo está um resumo de cada um deles.

I. O Problema da Probabilidade. Carnap define o objetivo como uma explicação (explication), que consiste em substituir um conceito vago da linguagem comum (o explicandum) por um conceito novo e mais exato (o explicatum). O problema central é encontrar uma explicação adequada para o termo "probabilidade".

II. Os Conceitos Lógicos de Confirmação. O autor explora o lado lógico da confirmação de hipóteses $h$ com base em evidências $e$. Ele distingue três tipos de conceitos de confirmação: positivo ($h$ é confirmado por $e$), comparativo ($h$ é mais confirmado por $e$ do que $h’$ por $e’$) e métrico (o grau numérico de confirmação).

III. Os Dois Conceitos de Probabilidade. Este é o ponto central da obra, onde Carnap argumenta que a maioria das disputas históricas sobre o tema ocorre porque os autores estão tratando de dois conceitos diferentes sob o mesmo nome. Ele os define como 1.) Probabilidade$_1$: O grau de confirmação (conceito lógico) e 2.)  Probabilidade$_2$: A frequência relativa a longo prazo (conceito estatístico/empírico).

IV. A Natureza Lógica dos Dois Conceitos de Probabilidade. Carnap detalha as diferenças entre ambos. A Probabilidade$_1$ é um conceito semântico e analítico, cujas sentenças são verdadeiras ou falsas apenas pela análise lógica, sem depender de fatos. Já a Probabilidade$_2$ é um conceito factual e empírico, que diz algo sobre o mundo físico e deve ser testado por observações estatísticas.

V. O Empirismo e o Conceito Lógico de Probabilidade. O autor defende que o uso da Probabilidade$_1$ não viola os princípios do empirismo. Ele critica a visão de Reichenbach, que tentava identificar os dois conceitos como um só, reforçando que, embora relacionados, eles permanecem fundamentalmente distintos: um é uma estimativa lógica e o outro é uma frequência física.

VI. Probabilidade e Verdade. Carnap discute a confusão comum entre "verdade" e "confirmado". Ele argumenta que, embora nunca possamos verificar definitivamente uma lei física (alcançar a verdade absoluta), podemos determinar seu grau de confirmação. Assim, a lógica indutiva não substitui a lógica clássica de dois valores (verdadeiro/falso), mas adiciona uma escala contínua de confirmação para as sentenças.

Lógica dedutiva versus lógica indutiva. A diferença entre a lógica indutiva e a dedutiva, segundo os textos de 2025[iv], reside na natureza da relação entre as premissas e a conclusão, bem como no grau de certeza que cada uma oferece. A lógica dedutiva é focada na validade lógica e na demonstração de conclusões que são consequências necessárias de suas premissas. Por exemplo, no silogismo científico, se as premissas são necessariamente verdadeiras, a conclusão também deve sê-lo, não havendo possibilidade de erro se a forma lógica for respeitada. Por basear-se em uma estrutura formal fechada, as provas dedutivas são consideradas estáticas.

Por outro lado, a lógica indutiva é descrita como um tipo de raciocínio não dedutivo que não se fundamenta na validade absoluta, mas em graus de probabilidade e na plausibilidade, onde o apoio das premissas torna a conclusão meramente provável. Ao contrário da dedução, os raciocínios indutivos são dinâmicos, pois estão sujeitos a revisões constantes e à busca por novos dados para corrigir crenças anteriores.

Apesar das diferenças[v], ambas as lógicas compartilham uma natureza lógica e semântica. Resolver problemas em qualquer uma delas não exige conhecimento de fatos empíricos, mas apenas a análise do significado das sentenças envolvidas. Em resumo, enquanto a lógica clássica lida com uma relação de "tudo ou nada" (ou a conclusão segue com necessidade ou não), a lógica indutiva quantifica o quanto uma evidência apoia uma hipótese.

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Sobre a Lógica Indutiva. O artigo intitulado "On Inductive Logic", escrito por Rudolf Carnap em 1945, apresenta um resumo informal do sistema de lógica indutiva desenvolvido pelo autor. O objetivo central é fornecer uma explicação quantitativa exata para o conceito de "grau de confirmação", permitindo que a ciência avalie objetivamente o quanto uma evidência apoia uma hipótese.

O artigo é dividido em 16 seções (parágrafos ou capítulos curtos), numeradas de §1 a §16. Abaixo está o resumo de cada uma das seções.

§1. Lógica Indutiva. Carnap distingue entre Probabilidade$_1$ (conceito lógico de grau de confirmação) e Probabilidade$_2$ (conceito empírico de frequência relativa). A lógica indutiva é definida como a teoria do grau de confirmação, atuando como uma "implicação lógica parcial". Citando, logo na página 1:

In a certain sense we might regard deductive logic as the theory of L-implication (logical implication, entailment). And inductive logic may be construed as the theory of degree of confirmation, which is, so to speak, partial L-implication. "e L-implies h" says that h is implicitly given with e, in other words, that the whole logical content of h is contained in e. On the other hand, "c(h, e) = 3/4" says that h is not entirely given with e but that the assumption of h is supported to the degree 3/4 by the observational evidence expressed in e.

§2. Alguns Conceitos Semânticos. Apresenta as bases da lógica de predicados e introduz os conceitos de descrições de estado, que descrevem estados possíveis do universo e amplitude, as descrições de estado nas quais uma sentença é verdadeira.

§3. Funções-c Regulares. Define funções matemáticas ($m$e $c$) para atribuir valores numéricos ao grau de confirmação. Sendo que $m$ é métrica e $c$ grau de confirmação. Em resumo, $m$ é uma medida de volume lógico de uma sentença, enquanto $c$ é a medida da relação de suporte entre duas sentenças, calculada pela razão entre suas amplitudes

§4. O Conceito Comparativo de Confirmação. Introduz uma maneira de comparar se uma hipótese é "mais ou igualmente confirmada" que outra sem a necessidade imediata de valores numéricos.

§5. Funções-c Simétricas. Estabelece o princípio de que a lógica indutiva não deve discriminar entre indivíduos particulares, tratando todos de forma igual.

§6. O Grau de Confirmação $c$. Carnap seleciona uma função específica, chamada $c*$, como a base de seu sistema, fundamentada na atribuição de valores iguais para descrições de estrutura[vi].

§7. Linguagens Apenas com Predicados de Um Lugar. Explica que a teoria foca inicialmente em propriedades simples (como cores) para facilitar a análise matemática antes de expandir para relações complexas.

§8. Inferências Indutivas. Define que "inferência" na lógica indutiva significa determinar o valor exato do grau de confirmação de uma hipótese com base em evidências.

§9. A Inferência Direta. Trata da inferência de uma população inteira para uma amostra.

§10. A Inferência Preditiva. Trata da inferência de uma amostra observada para outra amostra não observada, sendo considerada por Carnap a inferência mais importante[vii].

§11. A Inferência por Analogia. Examina como a similaridade entre indivíduos aumenta a probabilidade de compartilharem outras propriedades.

§12. A Inferência Inversa. Trata da inferência de uma amostra para a população total[viii].

§13. A Inferência Universal. Trata da inferência de uma amostra para uma lei universal (ex: "todos os cisnes são brancos"). Carnap nota que, em um universo infinito, o grau de confirmação de uma lei universal tende a zero[ix].

§14. A Confirmação de Instância de uma Lei. Argumenta que cientistas não precisam que a lei seja universalmente verdadeira para sempre, mas sim que a próxima instância da lei seja confirmada (confirmação de instância qualificada), o que justifica a confiança nas leis científicas.

§15. A Variedade de Instâncias. Explica que a confirmação de uma lei é mais forte quando as evidências vêm de casos variados (ex: testar metais diferentes para a lei da expansão pelo calor) do que quando vêm de muitos casos idênticos.

§16. O Problema da Justificação da Indução. Discute a "reconstrução racional" do pensamento indutivo e defende que o sucesso de um sistema indutivo deve ser medido por sua eficácia em longo prazo em um mundo previsível.



[i] Resumo com o uso de IA e a partir dos arquivos: “The Two Concepts of Probability (1945)”: https://drive.google.com/file/d/1a4rUDve9Zsq--DWSruiMyRkRlxSf-NhC/view?usp=drive_link, “ON INDUCTIVE LOGIC (1945)”: https://drive.google.com/file/d/1NXXEexgt0DypUfdfVFE9A6ZjofEtnSgJ/view?usp=drive_link e “MEANING AND NECESSITY (1947)”: https://drive.google.com/file/d/1JM9xXXoyvmgG52DVIRTpCUI1bLmwakDj/view?usp=drive_link. Os arquivos foram encontrados na grande rede.

[ii] Resumido por IA.

[iii] Um framework serve para substituir linguagens naturais vagas e ambíguas por sistemas precisos que permitem ao cientista ou filósofo criar um "espaço conceitual" onde as afirmações podem ser verificadas ou confirmadas de forma objetiva, eliminando pseudo-problemas metafísicos que surgem da confusão linguística.

[iv] Aspectos de Lógica Elementar - parte 1 (https://bit.ly/4b2Mzdi), Aspectos de Lógica Elementar - parte 2  (https://bit.ly/40iQtbU), Lógica Aristotélica (https://bit.ly/4cDx38W), Introdução à lógica elementar (https://bit.ly/4c7QDdl).

[v] De acordo com as fontes sobre Carnap já citadas.

[vi] Our inductive logic is the theory of this particular function $c*$ as our concept of degree of confirmation.

[vii] The kinds of inference discussed in the subsequent sections may be construed as special cases of the predictive inference. p. 86.

[viii] This inference is of much greater importance for practical statistical work than the direct inference, because we usually have statistical information only for some samples and not for the whole population. p. 88.

[ix] The role of universal sentences in the inductive procedures of science has generally been overestimated. p. 88.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Quando o entendimento se sujeita a múltiplas interpretações

A medida do entendimento é a medida do uso público da linguagem

1. Sobre Quine. Willard Van Orman Quine foi um filósofo americano associado principalmente ao naturalismo dentro da tradição da filosofia analítica, e ficou especialmente conhecido por criticar o positivismo lógico ao rejeitar a distinção entre verdades analíticas e sintéticas, argumento central em seu ensaio Dois Dogmas do Empirismo.

Ele defendeu que não existe uma separação rígida entre filosofia e ciência, propondo que a filosofia deve ser conduzida com os mesmos padrões empíricos e metodológicos da ciência, o que o tornou uma figura proeminente por transformar profundamente debates sobre significado, epistemologia e a relação entre linguagem e conhecimento no século XX[i].

2. Quine no blog. No nosso blog, pudemos ver que Quine propôs o holismo epistemológico, a ideia de que nossas crenças formam uma "teia" que enfrenta o tribunal da experiência como um corpo coletivo, o que implica que qualquer enunciado é passível de revisão (falibilismo). Entre outras coisas, ele caracterizou a linguagem como uma ‘arte social’ construída intersubjetivamente, em sentido descritivo e naturalizado, não normativo. Suas teses incluem a indeterminação da tradução (ilustrada pelo experimento "Gavagai") e a máxima ontológica de que "ser é ser o valor de uma variável ligada"[ii], sugerindo que a referência é inescrutável e dependente do sistema conceitual adotado[iii].

3. Quine na perspectiva da nossa série. Quine se opõe radicalmente ao fundacionalismo de Descartes e ao apriorismo de Kant ao rejeitar a ideia de uma mente como espelho privado ou detentora de categorias fixas, propondo que o conhecimento é uma "teia de crenças" holística e uma arte social construída intersubjetivamente. Enquanto Carnap buscava uma distinção rígida entre verdades analíticas e sintéticas para purificar a ciência, Quine denuncia essa clivagem como um "dogma metafísico" sem critérios claros, argumentando que todo o conhecimento, inclusive a lógica e a matemática, é passível de revisão no "tribunal da experiência"[iv].

4. Nossa máxima sobre o ponto de vista de Quine. A partir de Quine, a nossa máxima - “Eu falo e você me ouve, mas entende?” - indicaria que não há um fato adicional, oculto, que determine se houve entendimento para além do uso público da linguagem. Vejamos.

5. Entender não é acessar um “significado interno”. Para Quine, não existe algo como um significado mental privado que garanta o entendimento. Ele rejeita a ideia de que, além do som emitido e da reação do ouvinte, exista um “conteúdo” compartilhado acessível por introspecção. Então, para a nossa pergunta “Eu falo e você me ouve, mas entende?”, Quine diria que não há um critério independente do comportamento e das disposições para agir. Se você reage de maneira adequada, isto é, se você responde, age, corrige, continua o jogo linguístico, então isso é tudo o que há para o entendimento. Não existe um “entender de verdade” escondido atrás disso.

6. A indeterminação da tradução. Nossa máxima vai ecoar essa tese famosa. Mesmo que eu fale perfeitamente, você ouça atentamente e responda coerentemente, ainda assim, diria Quine, há múltiplas teorias de significado igualmente compatíveis com todos os fatos observáveis. Isso quer dizer que não há um único fato que fixe o que exatamente foi entendido; há apenas redes de crenças, hábitos inferenciais ancorados em padrões de estímulo e assentimento. Portanto, nossa pergunta “mas entende?” não tem uma resposta metafísica profunda. Ela só pode ser respondida pragmaticamente[v].

7. “Entender” é estar suficientemente alinhado no jogo linguístico. Para Quine, entender alguém é compartilhar padrões de assentimento e rejeição diante de estímulos semelhantes, dentro de uma linguagem pública. Não é que temos a mesma imagem mental; nem que acessamos o mesmo “sentido” abstrato e nem que correspondemos a uma entidade semântica fixa. É algo mais fraco, mas funcional: coordenação, previsibilidade, continuidade da prática. Se o diálogo funciona, o entendimento está dado e não há mais nada a ser procurado.

8. A nossa máxima como um diagnóstico quineano. A nossa frase pode ser lida, quineanamente, assim: “Mesmo quando todas as condições externas do entendimento estão satisfeitas, ainda sentimos a tentação de perguntar por algo a mais”. Ele diria que essa tentação é um resíduo de uma má metafísica do significado, a ideia de que há um “sentido” intermediário entre fala e mundo[vi]. Então, ele tentaria dissolver a pergunta, não a responder.

Do ponto de vista naturalista quineano, podemos supor que sobre o entendimento, seria possível explicações como uma aquisição linguística, baseada na psicologia ou biologia, padrões de estímulo e assentimento e coordenação intersubjetiva observável. Porém não algo como “o entendimento ocorre porque o ouvinte acessou o significado correto”.

Supondo que provocássemos Quine com nossa máxima, ele provavelmente retrucaria dizendo que “Se eu respondo apropriadamente ao que você diz, o que mais você quer dizer com “entender”?” E, para ele, não há uma resposta que não recaia em mito semântico.

Podemos concluir que, depois de Quine, a pergunta “mas entende?” já não busca um fato oculto; ela se torna um gesto crítico que interroga se a descrição naturalista do funcionamento da linguagem é suficiente para capturar aquilo que, nas nossas práticas, chamamos de entendimento.



[ii] Chamamos B de escopo da ocorrência inicial do quantificador x em xB. Se uma ocorrência de uma variável não é livre em uma fórmula A, então ela é ligada; todas as ocorrências de x em B são ligadas na fórmula quantificada xB. De fato, frequentemente escreveremos que elas estão dentro do escopo do quantificador inicial. https://plato.stanford.edu/entries/quantification/. Também: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2023/11/o-empirismo-sem-dogmas-de-quine.html#comment-form.

[iv] Idem.

[v] Cabe referir conforme “Ancorando teorias do significado contra teorias do significado centradas na verdade: uma defesa de Dummett contra o Programa de Davidson” (https://www.academia.edu/125312640) que parece que correlações estímulo–resposta não parecem suficientes para explicar a competência linguística produtiva. É que aprender uma linguagem parece aprender também algo normativo e sistemático, isto é, aprender significado, mesmo que não como entidade mental.

[vi] Como o terceiro reino de Frege (quando falando de sinn, não bedeutung).

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

O entendimento entre sintaxe, semântica e pragmática

Quando a nossa máxima se torna um pseudoproblema

1. Sobre Carnap. De acordo com nossa base de conhecimento do blog[i], Rudolf Carnap foi uma figura central do Círculo de Viena e do positivismo lógico, cujo projeto visava a eliminação da metafísica ao considerar que seus enunciados carecem de sentido por não serem empiricamente verificáveis. Em sua obra Aufbau, propôs uma reconstrução racional do conhecimento através de um sistema lógico-linguístico de conceitos, inicialmente baseado no fenomenalismo das experiências imediatas, mas que evoluiu para o fisicalismo em busca de uma ciência unificada.

Ele é notável pela formulação do Princípio da Tolerância Linguística, sustentando que a escolha de uma linguagem é uma decisão pragmática e convencional ("em lógica não há moral"), distinguindo entre questões teóricas internas ao sistema e decisões ontológicas externas. Suas teses influenciaram a transição do critério de verificabilidade para o de confirmação, consolidando a filosofia como uma atividade de análise lógica do discurso científico.

2. Carnap na perspectiva da nossa série. Enquanto Carnap e o positivismo lógico buscam a eliminação da metafísica, como discurso cognitivo significativo, ao restringir o conhecimento ao que é empiricamente verificável ou logicamente tautológico, Descartes fundamenta o saber no dualismo e na certeza indubitável do cogito, tratando a mente como uma substância pensante privada e inacessível, o que Carnap rejeitaria como um contrassenso linguístico sem conteúdo cognitivo verificável.

Kant compartilha com Carnap a visão de que o sujeito estrutura a experiência, mas o filósofo do Círculo de Viena reinterpreta os juízos sintéticos a priori kantianos, argumentando que a matemática é puramente analítica e que a escolha de sistemas conceituais é uma convenção regida pelo Princípio da Tolerância Linguística.

Por fim, em oposição a Marx, outro autor da série e que define a consciência como um produto das condições materiais de existência e da luta de classes, Carnap foca na unificação da ciência por meio de uma linguagem fisicalista comum, transformando a filosofia em uma atividade de análise lógica do discurso científico, em vez de uma ferramenta de transformação política e social.

3. Nossa máxima sobre o ponto de vista de Carnap. Vista a partir de Carnap, a nossa máxima — “Eu falo e você me ouve, mas entende?” — expõe uma tensão central entre sintaxe, semântica e pragmática, e especialmente entre compreensão formal e interpretação empírica[ii]. Vejamos, em três movimento.

4. Primeiro Movimento - Entender não é um fato psicológico, mas um fato linguístico (dentro de um sistema). Para Carnap, sobretudo a partir de Meaning and Necessity e dos textos sobre linguagens formais, “entender” não é primariamente um estado mental privado, mas um fato linguístico reconstruível: compreender uma expressão é dominar as regras de uso e interpretação que a definem dentro de um sistema.

Assim, frente à nossa máxima, Carnap diria algo como: “Se você fala numa linguagem bem definida, e eu conheço suas regras sintáticas e semânticas, então não há um problema filosófico restante de ‘entender’.” Isso significa que ou a linguagem é formalmente determinada, ou o problema do entendimento não é filosófico, mas empírico ou psicológico. A nossa pergunta só parece profunda porque estamos falando da linguagem natural, que é imprecisa, aberta e contextualmente instável.

5. Segundo Movimento - O “mas entende?” surge da indeterminação semântica da linguagem natural. Há em Carnap uma distinção clara entre as linguagens formalizadas, nas quais a compreensão é nítida e linguagem natural, cuja compreensão é vaga e dependente de contexto. Na nossa máxima, o “mas entende?” aponta para o fato de que ouvir não garante nem a associação sonora, nem a reação comportamental correta, nem mesmo o acordo prático.

Carnap diria que isso ocorre porque os termos não têm critérios de aplicação totalmente fixados. Por isso, podemos supor que ele defenderia que o problema não é metafísico, nem cético, mas um problema de engenharia linguística, de explication. A pergunta correta, em Carnap, não é “você entende?”, mas: “Quais são as regras de interpretação que estamos adotando aqui?”

6. Terceiro Movimento - A nossa máxima como diagnóstico do mau uso da filosofia. Há um ponto mais crítico: Carnap poderia dizer que nossa máxima é filosoficamente enganadora. Isso porque ela sugere que há um “entender” profundo, não redutível a critérios públicos, talvez inacessível à verificação intersubjetiva. É o que ele classificaria como um típico pseudoproblema filosófico.

Nessa situação ele poderia reagir argumentando que se não conseguimos especificar condições públicas sob as quais dizemos que alguém entendeu, então a pergunta “mas entende?” não teria conteúdo cognitivo claro. Nesse sentido, nossa máxima funcionaria como um sintoma da insuficiência da linguagem ordinária, não como um problema que exigiria metafísica, hermenêutica profunda ou teoria da mente robusta.

7. Formulação carnapiana. Fica claro que, aos olhos de Carnap: entender é dominar um sistema de regras linguísticas e nossa máxima, se perde um pouco de dramatização, ganha em diagnóstico técnico. Então, se traduzíssemos a máxima para uma linguagem carnapiana, ela ficaria algo como: “Um emissor pode produzir uma expressão bem-formada que é percebida por um receptor, sem que haja concordância quanto às regras semânticas adotadas”. E isso, para Carnap, não é um mistério, mas um convite à explicitação formal.

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8. Experimento filosófico. Por fim, tomados pela filosofia de Carnap, podemos tentar canonizar a nossa máxima como um experimento filosófico, propondo um Teste de Entendimento sem Garantias. A formulação atende a seguinte situação: “Um falante (A) profere um enunciado (E) numa língua compartilhada.” “Um ouvinte (B) percebe perfeitamente o som de (E) e reage de modo compatível com as convenções linguísticas usuais.” Nesse cenário, cabe a pergunta: “É possível afirmar, apenas a partir disso, que (B) entendeu (E)?”[iii]

O experimento impõe condições deliberadamente fortes como 1.) audição perfeita: não há ruído, erro perceptivo ou déficit sensorial. 2.) competência linguística aparente: (B) domina a gramática e o vocabulário da língua de (A). 3.) Resposta adequada (B) responde de maneira socialmente apropriada ao enunciado.

Mesmo sob essas condições, o experimento suspende a tese forte do entendimento — segundo a qual percepção correta e resposta adequada garantiriam compreensão —, fazendo da máxima um contraexemplo conceitual que distingue sucesso pragmático e acordo semântico[iv].

9. Entendimento invisível[v]. Daí surge como resultado um paradoxo do entendimento invisível, isto é, o entendimento é exigido para explicar a comunicação, mas não é diretamente observável, nem conclusivamente inferível do comportamento. A encruzilhada se dá porque, por um lado, se o entendimento é interno, não temos acesso; e por outro, se é externo, parece dissolver-se em critérios insuficientes. É um pouco do que nossa série e nossos amigos filósofos estão tentando ajudar a clarificar.

Como formulação final do Experimento do Entendimento sem Garantia podemos ter:

Demonstra-se que, mesmo sob condições ideais de percepção, competência linguística e adequação pragmática, não há critério conclusivo para afirmar que um enunciado foi compreendido.

O experimento visa testar se o entendimento é um fato comportamental, semântico, intencional ou normativo — ou se ele emerge apenas da articulação reflexiva entre esses níveis.

O que a máxima procura fazer é isolar conceitualmente o entendimento como problema filosófico, sem apelar para a ignorância, má-fé ou supor erro empírico.



[ii] Lembrando que por método e falta de tempo, temos usa o orientando (ou o estagiário) fazer o levantamento na base de conhecimento mundial - o estagiário Gemini e/ou ChatGPT.

[iii] Nota-se que é diferente de perguntar se (B) entendeu o que (A) disse.

[iv] Quando o ato comunicativo funciona no plano da ação, isto é, a conversa avança sem conflito imediato, houve sucesso pragmático. Porém, isso não quer dizer que houve acordo semântico, que os interlocutores associaram o mesmo sentido relevante, que as palavras significaram a mesma coisa para falante e ouvinte. Não basta usar as mesmas palavras, os mesmos critérios também devem ser partilhados.

[v] A expressão “paradoxo do entendimento invisível” não é canônica na literatura filosófica. Ela é empregada aqui como uma reconstrução conceitual que sintetiza tensões clássicas presentes no argumento da linguagem privada (Wittgenstein), na crítica carnapiana aos pseudoproblemas e na tese quineana da indeterminação do significado. 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

O entendimento como ato privado do pensamento

Quando a certeza do entendimento depende do sujeito

De acordo com nossa base de conhecimento do blog[i], Descartes pode ser considerado um dos fundadores da filosofia moderna e do racionalismo. Seu projeto baseou-se na dúvida metódica e na busca por um conhecimento certo, seguro e inabalável. Como resposta, ele estabeleceu o cogito (penso, logo existo) como ponto arquimediano indubitável, definindo a essência humana como uma "coisa pensante" em oposição à "coisa extensa". A res cogitans possui atributos de intelecto, vontade, sensação e emoção[ii], em oposição à res extensa, que é o corpo material sujeito a leis mecânicas.

Essa é uma formulação dualista substancial que, no entanto, foi criticada por muitos que o seguiram, como Ryle, por exemplo, que cunha o "mito do fantasma na máquina", isto é, a partir da tese cartesiana e de sua tradição surge o problema de se explicar como uma mente imaterial e privada interage com um corpo físico, uma lacuna que Descartes tentou preencher por meio da glândula pineal. No blog, há contraste com o empirismo de Hume, que nega ideias inatas e a existência de um "eu" observável fora das percepções – isso veremos futuramente.

Contrastando-o com os autores que abriram a série, Kant e Marx, enquanto Descartes fundamenta a filosofia no sujeito individual por meio do cogito e no dualismo, Kant avança para uma síntese onde o sujeito transcendental organiza a realidade através de categorias a priori do entendimento, distinguindo o fenômeno da coisa-em-si incognoscível. Em oposição a esse foco na consciência pura, Marx inverte a lógica idealista ao sustentar que a consciência é um produto da vida social e das condições materiais de existência, sendo determinada pela base econômica (infraestrutura). Assim, enquanto o racionalismo de Descartes e o criticismo de Kant buscam a verdade e a moral nos limites da razão, embora em Kant busque validade universal e normativa, o materialismo de Marx foca na transformação da realidade material através do trabalho e na superação das contradições sociais e da luta de classes.

Passando, então, para a nossa máxima “Eu falo e você me ouve, mas entende?”, sob o ponto de vista cartesiano, uma possível chave de interpretação é a assimetria entre certeza interior e acesso ao entendimento alheio, como vamos ver.

Certeza do cogito vs. opacidade do outro. Para Descartes, a única coisa absolutamente certa é o que se apresenta clara e distintamente à minha mente. Eu tenho certeza de que penso, de que entendo o que digo — mas não tenho acesso direto ao seu entendimento. Assim, a nossa máxima expressa algo profundamente cartesiano, que é o fato de que eu falar e você ouvir não garante, em absoluto, que você entenda. O entendimento é um ato mental, interno, inacessível de modo imediato a terceiros.

Linguagem como sinal externo, não como garantia de sentido. Em textos como o Discurso do Método, Descartes observa que máquinas ou animais podem emitir sinais, mas isso não significa que entendam o que dizem. A linguagem, para ele, é um indício de racionalidade, não uma prova conclusiva do entendimento efetivo em cada caso. Segue-se que poderíamos dizer que ouvir palavras é um fato físico e entender o sentido é um ato do intelecto. Daí que nada na audição garante o segundo passo.

O problema das outras mentes. Nossa máxima também toca no chamado problema das outras mentes: como posso saber que você realmente entende, e não apenas reage mecanicamente a estímulos? Descartes responderia a isso apenas de forma indireta: confiamos na semelhança estrutural entre nós e os outros seres humanos; e, em última instância, na veracidade divina, que não nos faria viver sistematicamente enganados. Mas essa confiança nunca tem o mesmo grau de certeza que o cogito[iii].

Entendimento não é transferência, é reconstrução. Para Descartes, o sentido não passa da minha mente para a sua como um objeto. O que passa são sons ou sinais gráficos; o seu entendimento ocorre quando você reconstrói internamente ideias claras e distintas correspondentes. Nossa máxima poderia ser reformulada cartesiana­mente assim: “Eu emito sinais; você só entende se sua razão produzir, por si mesma, as ideias adequadas[iv]”.

Podemos inferir que Descartes diria que nossa máxima é verdadeira, prudente e filosoficamente inevitável porque eu falar não garante sua compreensão e você ouvir não quer dizer que você entendeu pois entender é um ato privado do pensamento. Em suma, para Descartes, podemos assumir que a comunicação é sempre epistemicamente frágil, porque o entendimento reside onde nenhum outro sujeito pode olhar: na interioridade do pensamento.



[i] Com base no histórico do Blog: https://bit.ly/notebook-blog.

[ii] Modos conscientes da mente.

[iii] Como já comentamos ao longo da série, no presente momento temporal não pretendemos rebater o filósofo, como no caso apontar um solipsismo (metodológico, por exemplo, oriundo da dúvida hiperbólica) que se esvai na certeza da existência de Deus.

[iv] Ideia adequada, aqui, não é o conceito forte de Espinosa, apenas uma referência a uma ideia suficientemente clara e distinta, um critério subjetivo e não algo imanente.

sábado, 24 de janeiro de 2026

As condições materiais que tornam o entendimento possível

Quando o entendimento depende de práticas transformadoras da realidade

No primeiro texto da série[i], nossa máxima foi escrutinada por Kant, filósofo que pertenceu ao iluminismo alemão e funda um movimento que busca determinar os limites e as condições de possibilidade do conhecimento, em um contexto de conflito entre racionalismo e empirismo. Kant reformula a metafísica ao deslocar o foco do objeto para as condições do conhecer (a chamada “revolução copernicana”), e torna inevitável a necessidade de se posicionar em relação ao seu projeto crítico.

Diante dessa proposta, agora queremos ouvir Marx, mas não sem antes o opor a Kant porque Marx passa o foco do indivíduo para a luta contra as estruturas de classe, bem como por uma mudança de uma razão estática para uma história dinâmica. Por um lado, Kant está na tradição do liberalismo moderno, fundamentando a moral e o conhecimento na primazia da razão transcendental de um sujeito cujas condições de possibilidade são universais e não historicizadas. Por outro lado, Marx opõe-se ao idealismo e à análise paralisada de Kant ao introduzir o materialismo dialético, substituindo a visão de verdades fundamentais e direitos naturais pela compreensão de que a história é movida por contradições econômico-sociais concretas que precisam ser superadas[ii].

Segundo a perspectiva marxista, a nossa forma de pensar e enxergar o mundo não nasce conosco, mas é moldada pelas condições materiais e sociais em que vivemos. No centro dessa teoria está o materialismo histórico, que explica como a infraestrutura (a economia e o trabalho) sustenta a superestrutura (as leis, a religião e a cultura), moldando de forma não imediata a consciência humana em um reflexo das relações de produção. No sistema capitalista, esse processo gera uma consciência reificada (conforme postulou Lukács[iii]) e alienada, onde o indivíduo perde a visão do todo e passa a ser tratado como mercadoria, enquanto instituições sociais reforçam a ideologia da classe dominante para naturalizar as desigualdades.

Contudo, como a própria inteligência humana é fruto da transformação da natureza pelo trabalho, a filosofia e a educação crítica surgem como ferramentas essenciais para que o sujeito desperte dessa passividade, compreenda as estruturas que o cercam e busque a sua verdadeira emancipação social[iv].

Feita a contextualização, nossa máxima “Eu falo e você me ouve, mas entende?”, lida a partir de Marx, aponta menos para um problema meramente linguístico ou psicológico (como em Kant) e mais para um problema material e social da compreensão. Se em Kant a questão era transcendental, vejamos à luz do pensamento marxiano.

A compreensão não é um ato puramente individual. Para Marx, a consciência não precede a vida social; ela é produzida por ela. Em A Ideologia Alemã, ele insiste que: “Não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência.” Assim, o fato de você ouvir o que eu digo não garante compreensão, porque compreender envolve partilhar formas sociais de vida, práticas, necessidades e posições materiais semelhantes. Se eu e você ocupamos lugares diferentes nas relações de produção, a linguagem pode circular sem que o sentido efetivo se estabilize – haveria comunicação não significativa. A nossa máxima, então, revela que ouvir não basta quando há horizontes sociais distintos.

Linguagem como prática social, não como meio neutro. Sabemos que Marx não tem uma teoria sistemática da linguagem, mas lida a partir dele, a linguagem poderia ser considerada não um canal transparente de transmissão de ideias; mas uma forma de prática social. As palavras carregam marcas históricas, ideológicas e de classe. Isso implica que o mesmo enunciado pode significar coisas diferentes para sujeitos situados diferentemente; a linguagem pode reproduzir relações de dominação, inclusive no nível do “entendimento”. Assim, quando eu pergunto “mas entende?”, Marx responderia algo como: entende a partir de qual posição social? De qual interesse material?

Ideologia e falsa compreensão. Um ponto decisivo, para Marx, é que muitas vezes o problema não é falta de compreensão, mas compreensão ideologicamente mediada. Você pode entender o que foi dito de maneira invertida; você pode entender segundo categorias que naturalizam relações sociais históricas; você entender de forma a reafirmar o status quo. Nesse sentido, a nossa máxima pode ser lida como um diagnóstico crítico: eu falo, você ouve, mas o entendimento é bloqueado ou distorcido pela ideologia dominante. Assim, “não entender” não é ignorância simples, mas efeito socialmente produzido.

Entender é poder agir. Para Marx, compreensão genuína se manifesta na práxis. Não é apenas captar um conteúdo mental, mas ser capaz de se orientar e agir no mundo a partir dele. Lembremos das 11 Teses sobre Feuerbach, nas quais Marx critica o materialismo anterior por ser contemplativo e abstrato e defende um novo materialismo prático e revolucionário, cujo objetivo não é somente interpretar o mundo, mas transformá-lo.[v] Se quisermos, podemos parafrasear a famosa tese 11 postulando que não basta interpretar corretamente o que foi dito; o entendimento real aparece quando isso se traduz em prática.

Há uma transposição da tese do plano ontológico-político para o plano da linguagem e da compreensão, mas o ponto marxiano permanece o mesmo: o critério do entendimento não é apenas interpretativo, mas prático, como uma capacidade de agir de outro modo. Logo, você pode ouvir, repetir e até concordar verbalmente, porém ainda assim não entender, se nada muda no modo como você age ou se relaciona com as condições materiais envolvidas.

Resumindo, nossa máxima em tom marxiano, seria algo como “Eu falo dentro de determinadas condições sociais; você ouve dentro de outras. O que está em questão não é a audição, mas se partilhamos as condições materiais que tornam o entendimento possível.” Ou, ainda mais forte: “A comunicação falha não por deficiência cognitiva, mas por contradições sociais.”

Haverá oportunidade de contrastar essa leitura de Marx com Habermas e outros, nos próximos episódios da série.

[v] Sobre as 11 teses consultamos o DeepSeek: https://www.youtube.com/shorts/0-rbMMrD-JE. Conteúdo: Teses sobre Feuerbach