quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Filosofia da Sobrevivência

A filosofia da sobrevivência rege: "é preciso sair do outro lado". Cada um luta com as armas que tem. Nesse sentido, a filosofia da sobrevivência traz o homem para perto de seus instintos. "Sair do outro lado" significa: não importa o que houve, não importa o que há, importa o que será. O foco da filosofia da sobrevivência é ação e futuro, não planejamento ou execução com qualidade. Mais rápido, mais simples e mais fácil.
E é tão difícil sobreviver. Enquanto houver vida haverá a encruzilhada entre o medir as consequências e o fazer. É o velho dilema entre a subjetividade que seduz e a objetividade que despe qualquer sentido. A última impera porque as pessoas perderam qualquer pudor em despir-se das aparências. Pensar e pensar. Pensar cansa. Fazer e fazer. Fazer cansa. Não há mérito, entende? É só uma opção, questão de gosto. Foda-se.
Veja: eu preciso dormir! Que horas são? É de manhã. Hum... O que preciso fazer para dormir de noite? Sabe, tem um monte de coisa voando aí na internet, existem assuntos superinteressantes e existem as fake news. Cara, vem tanta mensagem nesse WhatsApp! Meu mundo é o WhatsApp!!! :) :)
Quem me colocou esse cérebro todo entranhado na minha cabeça? Um monte de massa mole. Meu cérebro lembra meu intestino, por dentro e por fora. O intestino é um monte de massa mole cheio de merda, já meu cérebro... Tem mais merda!
Azar do que pensam. Ninguém está preocupado comigo. De fato, ninguém se preocupa com ninguém porque cada um se preocupa em SAIR DO OUTRO LADO. Sabe aquele tatuzinho meigo, pequeninho, bonitinho? Ele só quer sair do outro lado. E você tont@ tentando tirar uma foto dele para colocar no Face.
Eu quero beber uma, mas será que assim eu saio do outro lado?
Entrego minha alma a Deus, el@ me ajudará a sair do outro lado?
Como de boca aberta... Isso me compromete na busca do lado de lá?
Qual o lado de lá? Alguém já viu??
O
Lado
De
É
Um
Lado
Que
Não
Vemos
Que
Buscamos
Aonde?
Do
Lado
De
Lá?
Com quem????????????????????? Não importa, não é essa a questão. Preste atenção. Alooooou? Alô?
Eu estava aqui meio sei lá. Aí de repente eu fui comprar um jornal. Ali na capa haviam umas manchetes que não diziam respeito a mim, eu achei interessante, mas achei também que era de um mundo meio esquisito, meio estranho, meio sem amor. Não sei, me achei meio careta. Achei que era bem ridículo ficar pensando nessas coisas. Então fui tomar um cuado no Jeová. Eu fiquei ali amuado no sol e de repente passou um muleque pedalando uma magrela com uma caixa grandona laranja nas costas. Um caixão. Eu fiquei curioso pra saber o que tinha dentro e pensei: essas caixas podiam ser transparentes, né? Falta transparência no mundo, embora as redes zelem pela transparência, diria um filósofo sul coreano.
Mas whatahell fazia o boy na bike? Saía do outro lado.
E o whatahell quem pediu fazia? Saía do outro lado.
E whatahell eu fazia? Saía do outro lado.
Você me entende agora? Você entende a filosofia da sobrevivência?

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Sobre mesa[i]

Nesse primeiro capítulo Russell aborda um objeto simples, uma mesa, para enfatizar o problema do conhecimento, por um lado e, por outro, o papel da Filosofia. Desde este início já podemos notar o uso do método cartesiano e a refutação ao idealismo.
Ao se perguntar se há algum conhecimento no mundo do qual não se pode duvidar, Russell entra no campo da teoria do conhecimento argumentando que só uma filosofia crítica e não dogmática pode responder, depois de muita investigação. Retomando Descartes, mas sem [ainda] o citar, Russell analisa a mesa para mostrar que o conhecimento oriundo da experiência é duvidoso e controverso já que nossos sentidos não são sempre precisos e que há diferentes pontos de vista que variam em cada um de nós, com relação à mesa.
O questionamento do conhecimento pelos sentidos levanta a questão central da aparência versus realidade. Tomamos por real uma mesa a partir de suas características aparentes, ou seja, do que inferimos do que vemos. E existe muito de nós no que vemos: a forma da mesa criada por nós não vem somente da mesa, mas do que nossa sensação obtém. A isso Russell nomeia “dados-dos-sentidos”, contrapondo-os ao objeto físico.
A mesa que vemos e temos, então, são dados-dos-sentidos, mas há de fato uma mesa real? Há um objeto físico despido de dados-dos-sentidos e livre de nossa sensação? Essas questões podem ser extrapoladas para uma questão mais ampla: há, de todo, matéria? Tal questão do problema do conhecimento foi respondida, como Russell retoma, pelos idealistas. Para eles só há mesa para uma mente, ou seja, há uma mesa lá porque estamos cientes dela. Porém, ao fecharmos os olhos, a mesa desaparece? Com certeza não, porque Deus está ciente, de acordo com o bispo Berkeley.
Desse modo adentramos no terreno da dicotomia mente e matéria. Há uma mesa dura, marrom, que eu posso tocá-la e o faço pela garantia da mente de Deus. A filosofia de Berkeley supõe que a mesa real é feita de mente e põe em dúvida a existência da matéria. E, não podemos considerar essa ideia absurda, pois foi acompanhada por muitos filósofos.
Russell considera tal argumento falacioso e retoma a dúvida: há objeto físico, matéria? De que natureza? Para Russell há razões para supor que há uma mesa real e a investigação continuará, mas, por agora, já mostrou o papel da filosofia: tornar uma simples mesa um problema cheio de possibilidades.



[i] Há uma primeira resenha desse primeiro capítulo de Russell disponível no link que se segue: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2019/04/o-mundo-nao-existei.html. Já a atual é feita com base na tradução de Desidério Murcho, Edições 70. Abril de 2008. RUSSELL, B. “Os Problemas da Filosofia”.

sábado, 30 de novembro de 2019

Parasita[i]

Queria falar um pouco sobre um vazio-de-si não abstrato, mas concreto e não individual, mas coletivo. Este vazio-de-si é uma casa onde mora uma família. A casa-em-si poderia ser um vazio-em-si, assim como a família-em-si poderia ser um vazio-em-si, mas aqui falamos especificamente da família e da casa, juntas. Esse vazio-em-si existe? Existe uma casa concebida de tal modo que proporcione tal sensação? Existe, mas não é autoimune, como se propõe.
A casa que falamos é moderna, com suas formas retangulares lisas e limpas, com concreto aparente e um vazio penetrante. Casa de arquiteto, feita por arquiteto, para ele mesmo. A sala grande divide espaço com um amplo gramado separado por uma imensa porta de vidro lisa e limpa. Nada escapa a tamanha longitude e frieza... Será? A casa possui camadas, andares: abaixo a rua e a garagem, depois a sala-copa-cozinha e por fim os quartos. Espaços vazados, longilíneos e longitudinais.
A casa é grande, tão grande que é duas. Existe dentro dessa casa, no porão, uma casa desconhecida, com acesso escondido: é a casa da guerra. Ela é feita para não ser descoberta, para que se possa viver em segredo, longe da invasão inimiga. E é no vazio-de-si prometido que começam a aparecer parasitas que não são vistos ou percebidos por anos. Na casa moram pessoas que ali vivem e se alimentam sem que a família-em-si saiba, pois a família-em-si acredita no vazio-de-si prometido.
Família rica e gentil. Família bonita, limpa e cheirosa. Existe família assim, sem defeito? O homem é um defeito-em-si. Tudo o que vive tem defeito. A família rica e gentil (pai, mãe, filho e filha) tem sua contraparte no subúrbio, na sobrevida. Para cada família rica assim existem iguais famílias pobres de pais, mães, filhos e filhas na proporção de 10, 20, 100 vezes. Isso é o capitalismo, cuja base é o lucro, deveríamos saber e não nos assustar.
A “família Doriana” não sabe que alguém assalta sua geladeira toda noite, dança em sua sala quando saem para jantar e descansam sob o sol do jardim nos domingos de passeio. O vazio-de-si traz segurança tamanha que a reboque vem à ingenuidade. A família precisa de funcionários: motorista, governanta, professores particulares, tutores. São parasitas. Parasitas pobres e de cheiro azedo. Cheiro que faz ultrapassar limites imaginários e imaginados.
Quem são os parasitas mesmo? O povo pobre relegado a condições precárias que devem servir diuturnamente ou a família no seu vazio-de-si oneroso? A família “não tem culpa”, a família rica e gentil tem problemas... E não sabe o que o filho caçula sabe. A família rica não sabe até que ponto haverá famílias pobres para servi-la ou até quando famílias aceitarão ser submissas e expropriadas. E também não sabe que as famílias pobres têm que sobreviver. Até quando essa equação matemática será igual a zero?

sábado, 19 de outubro de 2019

Repouso[i]

Uma coisa em repouso está como que isolada das demais em um determinado estado que possivelmente não pode ser influenciada ou talvez não se contradiga.
Porém, o estado de repouso não é um estado duradouro, pois tudo está em movimento. Os astros estão em constante movimento, o sol, o universo, etc. Sentimos a chuva e o vento. A rocha de tão dura vira areia. Nosso corpo nunca está em repouso pois há sempre um coração batendo e sangue circulando, quando vivo e plena decomposição quando morto, até ser completamente putrefato e começar a pertencer a outros corpos ou materiais.
Conclui-se, então, que o repouso não existe por si só, mas que ele é uma parte do movimento, uma situação intermediária, pois nada permanece indefinidamente em repouso senão que se volta ao movimento como forma primordial.
As consequências dessa conclusão implicam em duvidar de tudo que signifique repouso ou permanência. A duvidar do uno e do estável. A duvidar de ideais abstratas ou das formas de Platão. Assim, uma ideia abstrata é uma quimera, ela não existe senão no pensamento e nele não permanece, ela surge e se esvai. É na concretude que as coisas acontecem e de onde surgem as ideias e onde elas terminam, passando por nossa mente e nossos pensamentos.
A fórmula matemática eterna e verdadeira é um erro, uma petição de princípio. A expressão “2 + 2 = 4” acaba ali, após lê-la. Aquele número 2 não é um algo imutável, mas algo aplicável e dispensável. O eterno não é eterno, mas tudo é enquanto dura e tudo passará. Diante disso só nos resta lutar em movimento e para uma direção que leve à subtração de dogmatismos.




[i] Pensamentos espontâneos a partir de um trecho de THALHEIMER, A. INTRODUÇÃO AO MATERIALISMO DIALÉTICO. Fundamentos da Teoria Marxista. ~pg. 52. Acessado em 19/10/2019: https://www.marxists.org/portugues/thalheimer/1928/materialismo/Introducao-ao-Materialismo-Dialetico.pdf

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Cidadãos do Universo*

Nesse último capítulo, Russel verificará qual o valor da filosofia e por que estudá-la. Ele inicia com a constatação de que, se há utilidade no estudo das ciências físicas, isso não ocorre no caso da filosofia já que seu valor diz respeito não somente ao estudo de coisas materiais, mas para os benefícios que traz para a mente.
Para Russell, a filosofia é um tipo de conhecimento que dá unidade ao todo das ciências examinando criticamente as bases de nossas convicções, preconceitos e crenças. Porém, diferentemente dos resultados obtidos pelas outras ciências, a filosofia não costuma apresentar resultados positivos, até porque quando um conhecimento, antes filosófico, se estabelece, ele passa para outra ciência, como no caso da astronomia, filosofia natural ou psicologia. Ficam, então, com a filosofia, questões sem resposta definitiva.
Por outro lado, Russell ressalta que a filosofia investiga questões especulativas não demonstráveis e controversas, mas de grande importância, como a natureza e finalidade do universo, mente e consciência, questões morais, etc. Embora filósofos sustentassem respostas e demonstrações para crenças religiosas, o estudo promovido por Russell nessas investigações demonstrou que não há provas filosóficas contundentes em tal conhecimento e não está aí o valor da filosofia.
Russell define o valor da filosofia na incerteza. O homem que desconhece a filosofia fica preso em seus preconceitos e nas verdades do seu tempo, acreditando que o mundo é definido e fechado. Então, o estudo filosófico levanta dúvidas nas questões mais banais nos lançando nas mais variadas possibilidades de como as coisas podem ou poderiam ser. Principalmente, a filosofia faz com que nos libertemos de nosso mundo de interesses privados e vontades instintivas em direção a um mundo maior e mais livre, escapando de nossa prisão cotidiana.
Para Russell, a contemplação filosófica (que nos permite escapar..) traz um alargamento do ser, do eu, para além do maniqueísmo e se baseando puramente em um conhecimento livre de amarras. Daí que não devemos nos prender em filosofias que tratam do universo para o homem, definindo-o como a medida das coisas e do conhecimento uma criação de e para nossa mente. Russell apregoa que é preciso romper nosso círculo doméstico de preconceitos em busca do não eu pois um intelecto livre se deixa levar pela verdadeira contemplação filosófica que busca um conhecimento abstrato e universal, superando a barreira do corpo, do eu, do aqui, agora.
Russell conclui ressaltando que uma mente que se eleva à contemplação filosófica é livre e imparcial e tal comportamento reflete em nossas ações e sentimentos como um propósito do todo. A mente que deseja a verdade, segundo ele, é a ação que deseja justiça e o sentimento do amor universal e não uma que parte de nosso julgamento e utilidade. Só assim nos tornamos cidadãos do universo. Finalizando o livro, vem sua citação:
Thus, to sum up our discussion of the value of philosophy; Philosophy is to be studied, not for the sake of any definite answers to its questions since no definite answers can, as a rule, be known to be true, but rather for the sake of the questions themselves; because these questions enlarge our conception of what is possible, enrich our intellectual imagination and diminish the dogmatic assurance which closes the mind against speculation; but above all because, through the greatness of the universe which philosophy contemplates, the mind also is rendered great, and becomes capable of that union with the universe which constitutes its highest good.



Bertrand Russell, Problems of Philosophy. THE VALUE OF PHILOSOPHY. Acessado em 15/8/2019: http://www.ditext.com/russell/rus15.html. Ver o seguinte fichamento e os anteriores:.https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2019/09/criticismo-filosofico-i.html.

domingo, 15 de setembro de 2019

Criticismo Filosófico [i]

A Ideia Absoluta de Hegel. Russell diz que é prática comum na filosofia o uso de um raciocínio metafísico a priori para tratar de dogmas da religião, universo, matéria, etc., que, porém, não sobreviveria a um escrutínio crítico. Para ele, o representante desse pensamento é Hegel, que estabelece que o todo é composto por partes fragmentárias incapazes de existirem sem o resto do mundo.  Nesse sentido, o filósofo, a partir de qualquer amostra de realidade pode ver o todo, como se cada pedaço fosse enganchado com o próximo e assim por diante. Russell diz que, de acordo com Hegel, essa incompletude aparece tanto no mundo das coisas quanto no dos pensamentos, composto por ideias enganchadas que, através da contradição, uma ideia se transforma em antítese para daí virar síntese que, ainda incompleta, inicia um novo ciclo e, sucessivamente, avança até a "Ideia Absoluta".[ii] Essa ideia absoluta descreve a realidade absoluta que seria o que Deus vê: uma unidade espiritual imutável, perfeita e eterna.
Os problemas com a Ideia Absoluta. Russell argumenta que, apesar de parecerem sublimes, ao serem investigados os argumentos são confusos. Hegel diz que o que é incompleto não subsiste por si só e depende de relações com outras coisas que fazem parte de sua natureza. Por natureza de uma coisa, Russell entende que seja “all the truths about the thing”. Se parece claro que a verdade que liga uma coisa à outra não subsiste se a outra coisa não subsiste, essa verdade não é parte da coisa, mas, segundo Hegel, é parte da natureza da coisa. Russell, então, enfatiza a confusão da natureza entre conhecimento de coisas e conhecimento de verdades. Se assumirmos que a natureza da coisa consiste nas verdades da coisa, deveríamos conhecer todas as relações da coisa com todo o universo, porém isso não é possível e ainda assim conhecemos a coisa, mesmo quando sua natureza não é completa. Conhecemos uma coisa por familiaridade até mesmo sem conhecer nenhuma proposição da coisa. Ou seja, conhecer uma coisa não requer conhecimento da natureza da coisa, conforme acima, embora esse conhecimento esteja envolvido no conhecimento de qualquer proposição da coisa[iii]. Russell diz que o fato de uma coisa ter relações não quer dizer que elas sejam logicamente necessárias já que não podemos deduzir suas relações, somente o faríamos depois de conhecê-las. Ou seja, não podemos provar que o universo forma um todo como queria Hegel, e o que se seguiria disso: a irrealidade do espaço, tempo, matéria, etc. O resultado é a inviabilidade de uma análise sistêmica e a filosofia segue a análise indutiva e científica.
Argumentação Metafísica. Segundo Russell, o trabalho metafísico se assentou em provar que as características do mundo eram autocontraditórias e por isso não reais. Porém, os modernos vão no sentido de mostrar que essas contradições eram ilusórias e que muito pouco pode ser provado a priori de considerações do que deve ser. Por exemplo, espaço e tempo parecem ser infinitos em extensão, por mais que tentemos não achamos um fim. Por menor que seja um espaço ou tempo sempre podemos dividi-los novamente e assim sucessivamente até o infinito. Porém, contra esses fatos aparentes, filósofos argumentaram que não haveriam coleções infinitas de coisas. Daí surge uma contradição entre a aparente natureza do espaço e do tempo e a suposta impossibilidade de coleções infinitas. Quando Kant enfatizou essa contradição deduzida da impossibilidade do tempo e do espaço declarados por ele subjetivos, os filósofos trataram tempo espaço como sendo aparentes e não fazendo parte do mundo real, como ele é.
Contribuição da Lógica. Porém o trabalho de matemáticos, principalmente Cantor, mostrou que a impossibilidade de coleções infinitas era um erro, invalidando uma das grandes construções metafísicas. Conforme Russell: "They are not in fact self-contradictory, but only contradictory of certain rather obstinate mental prejudices". Os matemáticos não só mostraram que o espaço como se supõe ser é possível, como também que outras formas de espaço são possíveis como a lógica pode mostrar. Por exemplo, alguns axiomas de Euclides que influenciaram filósofos retiraram sua aparente necessidade de nossa familiaridade com o espaço atual conhecido e não com alguma fundação lógica a priori. Imaginando mundos em que esses axiomas fossem falsos, os matemáticos criaram espaços diferentes do nosso e mesmo colocando em dúvida se nosso espaço é estritamente euclidiano. Até então a experiência descrevia uma possibilidade de espaço que a lógica mostrou impossível, agora a lógica mostra muitos espaços possíveis que a experiência apenas parcialmente decide entre eles. Russell abre o mundo para enormes possibilidades onde pouco é conhecido: "Thus, while our knowledge of what is has become less than it was formerly supposed to be, our knowledge of what may be is enormously increased". A lógica, então, torna-se a grande libertadora da imaginação apresentando inúmeras alternativas para a experiência decidir, quando possível, entre os mundos oferecidos.
Criticismo Filosófico. O conhecimento, não fica limitado à experiência atual, mas ao que podemos aprender da experiência, conforme o conhecimento por descrição, que não se prende a uma experiência direta. Nesse tipo de conhecimento, porém, precisamos de uma "conexão de universais" que nos permite inferir um objeto de um dado. É a conexão de universais que nos permite extrair dados-dos-sentidos de objetos físicos, ou seja, dá munição para a experiência, assim como da lei da causalidade para lei da gravitação. A lei de gravitação, segundo Russell, é uma combinação da experiência com um princípio a priori como o princípio de indução.[iv] O conhecimento filosófico é um tipo de conhecimento científico, a diferença é o criticismo que procura inconsistências nos conhecimentos científicos e da vida diária. Embora a investigação de Russell tenha refutado, criticamente, um sistema metafísico como não estando a altura da ciência, ao contrário, a crítica filosófica corrobora em muito o conhecimento empreendido pela humanidade. Porém, Russell impõe um certo limite na crítica já que um ceticismo absoluto (blank doubt) impede qualquer tipo de conhecimento tornando-se destrutivo. A essência da crítica, para Russell, é a dúvida metodológica cartesiana, analisando cada aspecto do conhecimento, como feito nessa investigação com os dados-dos-sentidos que pareciam indubitáveis e levaram a rejeitar uma semelhança direta com o objeto físico. A filosofia não rejeitaria um conhecimento impassível de objeção. O criticismo filosófico analisa cada parte aparente de conhecimento em seu mérito e retém o que se mostra ser de fato um conhecimento, admitido o erro proveniente da falibilidade humana. Ocorre que a filosofia reduz a chance desse erro tornando-o às vezes irrisório, mais do que isso não é prudente esperar.




[i] Bertrand Russell, Problems of Philosophy. THE LIMITS OF PHILOSOPHICAL KNOWLEDGE. Acessado em 18/7/2019: http://www.ditext.com/russell/rus14.html. Ver o seguinte fichamento e os anteriores: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2019/08/conhecimento-erro-e-opiniao-provavel.html.
[ii] Ideia absoluta que “has no incompleteness, no opposite, and no need of further development”.
[iii] Hence, (1) acquaintance with a thing does not logically involve a knowledge of its relations, and (2) a knowledge of some of its relations does not involve a knowledge of all of its relations nor a knowledge of its 'nature' in the above sense.
[iv] Thus our intuitive knowledge, which is the source of all our other knowledge of truths, is of two sorts: pure empirical knowledge, which tells us of the existence and some of the properties of particular things with which we are acquainted, and pure a priori knowledge, which gives us connexions between universals, and enables us to draw inferences from the particular facts given in empirical knowledge. Our derivative knowledge always depends upon some pure a priori knowledge and usually also depends upon some pure empirical knowledge.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Do conhecimento à opinião há erro*

Russell tratará de verificar se conseguimos distinguir entre crenças verdadeiras e falsas, iniciando com o que significa conhecer. Se parece que o conhecimento é o resultado de uma crença verdadeira, pode às vezes acontecer de uma crença verdadeira ser deduzida de uma crença falsa e isso não resulta em conhecimento. Ou de um processo falacioso de raciocínio,  até mesmo com premissas e conclusão verdadeiras.
Segundo Russell, o conhecimento é algo deduzido de premissas conhecidas, ou seja, um conhecimento derivativo de premissas conhecidas intuitivamente, desde que assumida uma conexão lógica válida. Há, até mesmo, conhecimento que pode ser uma inferência de uma notícia de jornal obtido pelos dados-dos-sentidos da leitura da notícia que não é, de fato, uma inferência lógica, mas inferência psicológica. Russell diz que não há uma definição precisa de conhecimento pois este pode ser estender até a provável opinião. Se o conhecimento derivativo depende do indutivo, o último não tem um critério certo de conhecimento ou erro[i].
Russell, então, compara o conhecimento de verdades, que corresponde ao complexo dito no capítulo anterior, com o conhecimento por familiaridade e situa o último como dependente da percepção e não suscetível ao julgamento que pode acarretar em erro. Então ele distingue os dois tipos de autoevidência que se seguem.
Conhecimento autoevidente de um fato particular fica privado a uma pessoa: dados-dos-sentidos, um sentimento, já fatos relacionados a universais não têm essa privacidade e podem ser conhecidos por muitas mentes por familiaridade. Assim, uma garantia absolutamente de autoevidência é quando conhecemos por familiaridade os termos e a relação envolvidos em um complexo, neste caso o julgamento de que os termos estão relacionados deve ser verdadeiro.
Entretanto, passar da percepção de um fato complexo ao seu julgamento não é um processo infalível porque pode terminar em não correspondência devido a algum erro. Já o segundo caso de autoevidência apresenta graus, não por conta dos dados-dos-sentidos, mas pelos julgamentos duvidosos sobre eles[ii]. Já nos conhecimentos derivados, as últimas premissas devem ter alto grau de autoevidência, como quando em matemática partimos de axiomas e devemos demonstrar os resultados.
Encerrando, Russell argumenta que se no que acreditamos é verdade, tem-se conhecimento, seja intuitivo ou inferido, caso contrário se falso é erro e, não sendo ambos, é uma opinião provável. Na base, há o conhecimento intuitivo em proporção aos graus de autoevidência. A opinião provável pode se valer do critério da coerência que é usado nas ciências e filosofia, mas que por si só não se transforma em conhecimento indubitável.



* Bertrand Russell, Problems of Philosophy. KNOWLEDGE, ERROR, AND PROBABLE OPINION. Acessado em 12/7/2019: http://www.ditext.com/russell/rus13.html. Ver o seguinte fichamento e os anteriores: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2019/07/a-unidade-complexa-de-russell.html.
[i] Conforme Russell: “all our knowledge of truths is infected with some degree of doubt, and a theory which ignored this fact would be plainly wrong”.
[ii] Graus como ocorrem na afinação de um instrumento, ele cita.