quarta-feira, 3 de março de 2021

Ciência, técnica e realidade

Anotações da Palestra de Abertura do “I Simpósio Internacional de História da Ciência e Epistemologia”, realizada por Milton Vargas de 9 a 11 de outubro de 1991, em Piracicaba-SP[i].

Em um primeiro momento, Milton Vargas traz uma concepção da Ciência Moderna, transformadora da realidade, como uma fusão do que seria a teoria e a techne na Grécia do século VI ac. A ciência, enquanto atividade construtiva, associa saber, teoria e atividade, ou seja, há uma via teórica associada a uma via prática.

Se a teoria grega se fazia pela abstração, a partir de dados essenciais e pela utilização da matemática e da filosofia passando de uma contemplação para a atividade, a teoria atual é um sistema lógico composto por enunciados, hipóteses e leis gerais. Há um leque de teorias sobre a realidade, sobre algo imaginado (como a geometria não-euclidiana) ou teorias capazes de mudar a realidade (como a marxista) sob os olhares da filosofia, história e ciência.

A origem da ciência se liga à filosofia, pois essa última parte do espanto das coisas à nossa volta, sobre o que é o ente, em que ele consiste. Da árvore, a filosofia visa extrair a arboridade, isto é, sua quididade. O conceito de ousia vem dos gregos significando substância, essência ou entidade e a teoria é a busca por essa ousia. Então, ciência e filosofia tem o viés da episteme, que é ver teoricamente. Desde Aristóteles, analisando os princípios e as causas até Heidegger, que diz que, embora o quid procurado possa variar em cada filósofo e tempo, sempre há um diálogo. Milton Vargas postula o saber filosófico associado à busca da verdade absoluta, mas pelo diálogo e define a Filosofia da Ciência como a busca da quididade da ciência que tem como aspecto principal o espanto.

A técnica não é a techne. A técnica é tão antiga quanto o homem, pois não há homem sem instrumento, há um saber-fazer que nasce com o homem da pedra lascada. A techne só se inicia na Grécia a partir da sistematização da técnica e depois a ars[ii] romana, ambas suportando a arquitetura, medicina, etc.

No Renascimento, a burguesia, liderada pelos príncipes, retoma os tratados antigos, mas é só em 1600 que a tecnologia une a técnica com a experimentação científica. Vargas traz uma metáfora de Spengler: enquanto o cientista é como o boi que tudo vê “desinteressadamente”, o tecnólogo é como águia que da o tiro certo. E é predador? Então, a tecnologia, com o esclarecimento da teoria e a manipulação e controle da técnica se desenvolve em um mundo aberto ao saber, progressista.

Vargas traz a conceituação de realidade de Julián Marías[iii] como sendo composta pelo eu mais o que eu encontro no mundo, encontro do subjetivo com o objetivo. O real é composto por homens e objetos formando a natureza que, se inicialmente sobrenatural, passa a ser domesticada e instrumentalizada. Também há valores como o belo e feio, útil e inútil, e pela valoração temos a cultura. Temos ideias e objetos ideais (formas, números) e Ultimidades[iv]. Tudo isso é a realidade e a ciência se ocupa do que se dá no mundo: natureza, cultura e ideias.

Por fim, Vargas traz a visão de Jaspers de ciência moderna[v], que teria como características: o método, fazer as coisas metodicamente, uma certeza irresistível (sob certas condições) e validez universal, essa última ao lembrar que a episteme grega era válida somente no mundo sublunar.

Contudo, se a ciência buscou uma concepção geral do mundo, o conhecimento se desenvolveu e não abrangeu. De acordo com Jaspers, o mundo não é um objeto que podemos abarcar, pois só vemos fenômenos e não o fundo das coisas. Ao não atingirmos a totalidade, nos prendemos na busca por cada coisa, que é indefinida.



[i] Conforme Ciência, Técnica e Realidade, Capítulo 1 de Vargas, M. (1994). Para uma filosofia da tecnologia. São Paulo: Alfa Omega.

[ii] Conforme https://www.eba.ufmg.br/graduacao/materialdidatico/apl001/aula006web.html, acesso em 02/03/2021: “Arte - do latim ars; corresponde ao termo grego techne (técnica); significa: o que é ordenado ou toda espécie de atividade humana submetida a regras. Seu campo semântico se define em oposição ao acaso, ao espontâneo e ao natural. Arte é um conjunto de regras para dirigir uma atividade humana qualquer.”

[iii] Julián Marías Aguilera foi um filósofo espanhol, considerado o principal discípulo de José Ortega y Gasset, conforme Wikipedia.

[iv] Conceito de Marías abrange o reino dos mortos, fé, crenças, etc.

[v] O texto de Vargas oscila entre teoria, ciência, tecnologia, técnica, techne, etc., que muitas vezes se confundem.

segunda-feira, 1 de março de 2021

Do "creatio ex nihilo" ao "reductio at nihil"

Introdução ao pensamento de Anders a partir de minha livre interpretação do texto de Agostino Cera[i]

Ser humano sem mundo. Diferentemente dos animais, que já nascem com seu espaço vital pronto, o homem nasce sem um espaço vital próprio. O homem nasce sem um lugar no mundo e tem que construir sua habitação. Então, em nossa origem está essa falta de mundo, uma “desterritorialização” que precisa ser construída, pela técnica.

Anders ancora sua análise na antropologia filosófica alemã que traz o paradigma do homem como um ser deficiente, ou seja, não terminado. Perante essa estranheza do mundo, moldar o espaço aproxima a antropogênese da tecnogênese.

Mundo sem ser humano. Com a técnica o homem moldou seu mundo. A técnica evoluiu para a tecnologia e Anders presenciou os campos de concentração alemães e a bomba atômica, o que, segundo Cera, instou sua obra original e um sentimento entre a obsessão e a culpa. Essa evolução tecnológica coloca em dúvida o futuro, já que a tecnologia deu tamanho poder ao homem que ele pode se auto destruir.

Parafraseando o mito do Prometeu de apropriação do conhecimento, o homem vai do creatio ex nihilo ao reductio at nihil. A onipotência abre caminho para o infinito. Extrapolando Nietzsche, Anders traz o conceito de aniilismo, isto é, aniquilação e niilismo, a fórmula de um apocalipse sem reino onde um mundo novo só é possível pelo auto aniquilamento.

A tecnologia e o homem. Em sua obra-prima “A obsolescência do ser humano”, defendeu que há uma relação de obsolescência, de desatualização entre a tecnologia e o homem. A tecnologia, se criatura do homem, superou o criador e se tornou mais perfeita. O ser humano, perante a tecnologia, é imperfeito e não se atualiza na criação. Então, ele tem um papel de coadjuvante na história tecnológica e se abdica.

Dessa forma, a tecnologia se naturaliza e temos em nosso horizonte, outrora povoado pela natureza, a tecnologia. É a confusão entre techne e physis: Technature, naturalização da tecnologia ou tecnologização da natureza. Nessa Technature o próprio homem, que antes era Homo Faber passa a ser Homo Matéria, pois o ser desse mundo é um ser realizável, tudo deve ser feito, tudo deve ser consumido. Assim, o homem se nega e se faz matéria aonde o ser humano é um recurso humano orientado a uma tecnodiceia[ii]. Tendendo a se libertar de ser somente homem, o homem se intersecciona entre um super homem e um homem matéria, desumanizado.

*  *  *  *  *

Cera contextualiza Anders na primeira geração dos filósofos da tecnologia, que seriam deterministas e estariam mais preocupados com a ontologia tecnológica[iii]. Segundo ele, houve uma revolução empírica na Filosofia da Tecnologia (chamo-a Fitec), por volta dos anos 80, que a teria encaminhado para uma visão ôntica (Ihde[iv]) e de resultados.

Entretanto, Cera argumenta que a destinação dessa análise de Anders se afasta do misticismo conceituado por Heidegger e permite uma análise filosófica do conceito. Além disso, Cera nos lembra que Anders traz a necessidade do uso da criatividade que teria sido superada pelo uso da produção. Se a tecnologia ficará, é nosso papel estimularmos a nossa criatividade, até para que ela sirva como uma forma de compreensão da tecnologia e possa nos trazer uma responsabilidade social[v].



[i] Conforme capítulo 1 de Filosofia da Tecnologia. Seus autores e seus problemas. Organização de Jelson Oliveira e prefácio de Ivan Domingues, resultado da iniciativa do GT de Filosofia da Tecnologia da ANPOF. Caxias do Sul, RS: Educs, 2020.

[ii] Lembremos da teodiceia, aqui vista do ponto de vista da tecnologia. Conforme Cera mostra, o homem passa de uma ansiedade psicológica para uma ansiedade soteriológica em busca da salvação.

[iii] Classifica-o também como homem de esquerda, se opondo a Arnold Gehlen. Também assumiu uma posição de luta fora da academia, subvertendo o habitus filosófico. Contra o otimismo de Bloch, via a crença na esperança como covardia.

[iv] Don Ihde, chegaremos nele.

[v] E assim, pela criatividade, eu vou acordando do meu sono dogmático.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

O que você tem na mão?

O que você tem na mão significa. Significa, por um lado, que sempre teremos algo na mão e, por outro, que aquilo que temos na mão significa o que somos, o que podemos ser.

O primeiro significado faz parte da essência humana. O homem é fazer pois sem o fazer o homem não existe. O homem precisa criar seu território, sua habitação e assim por diante. Somos filhos da pedra lascada. “Parece” que nossa condição física não nos permite viver sem instrumentos.

Então isso vem. Vem de um processo às vezes mais acelerado, às vezes mais distendido, o fato é que desde a pedra lascada não deixamos de produzir, de criar. Não por escolha, mas por necessidade. Diante disso, será que em algum momento isso deixou de ser uma necessidade? Foi sempre uma “escolha inconsciente”?

Entretanto, isso é menos importante agora do que pensar na significação. Saltemos ao nosso tempo: o que você tem na mão? Há sempre algo na mão e aqui não estamos falando de técnica ou tecnologia, em um primeiro momento. O que você tem na mão significa o que o você é ou ao menos a maneira como você quer ser visto. Um rosa, um telefone celular, uma arma ou um livro? O que você tem na mão?

Se pensarmos tecnologicamente, o que temos na mão significa o quão tecnologicamente estamos avançados. Ou possuídos. E significa, também, o reflexo do que somos. Porque, sem entrar no mérito das condições, a tecnologia é criação nossa. E, no sentido de ser um facilitador ou um potencial de mudança pessoal, o acesso à tecnologia é meta, não só de equidade social mas de desenvolvimento de um povo.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Curto panorama da Filosofia da Tecnologia

Panorama da Filosofia da Tecnologia: contemporânea e história[i]

Origem e evolução do conceito de tecnologia. Os autores resgatam a téchne aristotélica como o conhecimento necessário para a produção de artefatos (poiesis) úteis a partir da transformação da natureza pelo homem, em oposição à physis, onde a natureza é autônoma per se.

A téchne é o trabalho manual do artesão como fim em si mesmo, que depois passa a ser o trabalho do técnico como conhecimento transmitido pelo ensino caraterizado por ser repetitivo e como meio para atingir um fim desejado. Segundo os autores, a tecnologia surge com a revolução científica do XVII como conjunto organizado de conhecimento para produção de bens e serviços até chegar a ser instrumento necessário da nossa civilização contemporânea.

Discutem brevemente a neutralidade da ciência enquanto instrumental[ii], se isenta de valores e independente de um fim ou do que o homem faz dela, por outro lado as alterações que a tecnologia gera na sociedade, sejam elas boas ou ruins.

Racionalidade tecno científica e prática. Segue-se ligeiro debate do conhecimento do senso comum que acredita na realidade do mundo que vê, mas cuja resposta só é confiável pelo uso da razão e do já bem conhecido debate filosófico entre racionalistas (ex. Platão, conhecimento dos sentidos é doxa) e empiristas com a visão oposta.

Mas será mostrado que houve uma mudança de abordagem na história. A racionalidade prática, oriunda de Aristóteles, está relacionada à ética e ao agir humano pela virtude, gerando bem geral na polis. Entretanto, o advento da racionalidade tecnológica (tecno científica), voltada ao progresso e controle da natureza, estratificou a sociedade não permitindo o acesso de todos e se distanciou dos valores humanos e sociais trazendo degradação ambiental, entre outros.

Essa abordagem tecnológica contemporânea é criticada por Heidegger que, presenciando o uso das bombas nucleares prevê um futuro terrível no uso da tecnologia, criticando, por exemplo, o uso das hidrelétricas e inteligência artificial. Também há críticas à racionalidade instrumental pela Escola de Frankfurt. Então os autores vão discutir a questão tecnológica desde os pontos de vista do determinismo e da autonomia tecnológica.

Determinismo e autonomia tecnológica. Para o esquema determinista, a tecnologia condiciona nosso modo de vida. Proveniente de Marx, segundo os autores, a tecnologia seria o motor do progresso e transformação social, seja através das forças ou relações de produção. Já na perspectiva da autonomia, defendida por Ellul, o avanço tecnológico independe do ser humano e sua evolução, por mais que traga problemas, trará soluções.

Dentro desse debate, os autores trazem também a questão da neutralidade, com a visão de Weber de uma racionalidade instrumental destituída de valores e desinteressada e a posição contrária da Teoria Crítica de que não existem artefatos neutros, pois são criados pelo homem com uma finalidade. Mas eles defendem o ponto de vista de Monterroza Ríos que trata os objetos com uma dupla natureza: material (elementos que compõem os objetos) e intencional, quando o home imprime significado aos artefatos e usos em determinados contextos.

Movimentos anti tecnológicos. Se a sociedade contemporânea é tecnológica, há críticas a seu uso. Romantismo do XVIII, contra uso excessivo da razão e racionalidade iluminista baseada na matemática e cujo representante é Rousseau[iii] e seu bom selvagem que ser perverte ao ter contato com a civilização. Luddismo[iv], contra o desemprego advindo do uso de máquinas e que gerou a destruição delas e rejeição tecnológica. Movimento ecológico abordando impactos no ambiente, uso de recursos naturais em excesso, combustíveis fósseis, entre outros. Eles fecham com a questão de Heidegger sobre até quando estaremos no controle.

Considerações finais. Por fim, para os autores desde o domínio do fogo até a tecnociência, a humanidade evolui para uma sociedade melhor e com mais conforto. Seja na medicina, globalização ou internet. Entretanto, há que se conciliar tecnologia e valores, ciência e ética. Nesse ponto, a filosofia contribui na formação e na conscientização do uso prudente da tecnologia. Ao ver de fora a atividade cientifica e tecnológica ela permite crítica, reflexão e, pela sua natureza multidisciplinar, o diálogo com os outro domínios e na busca de respostas às questões mais angustiantes do nosso tempo.



[i] FILOSOFIA DA TECNOLOGIA: UMA NOVA ÁREA DE INTERESSE DE ESTUDO DA FILOSOFIA. Geraldo das Dôres de Armendane e Adenilson Felipe Sousa Silva, na Revista Complexitas. Conforme acessado pelo link a seguir: https://periodicos.ufpa.br/index.php/complexitas/article/view/3980, em 15/02/2021.

[ii] Racionalidade instrumental cunhada por Horkheimer afirma que a razão, cedida em sua autonomia, tornou-se instrumento, e o seu valor operacional e papel de domínio dos homens e da natureza tornou-se o único critério para avaliá-la. Weber relaciona o surgimento da modernidade ao predomínio de um tipo de ação racional que orienta o indivíduo aos fins.

sábado, 20 de fevereiro de 2021

Filosofia da Tecnologia: três enfoques

Três modos de investigar filosoficamente a tecnologia: perspectiva analítica, uma abordagem fenomenológica e um exame inspirado na Escola de Frankfurt. [i]

Introdução. Se a filosofia da tecnologia é recente e a definição de seu objeto não é unânime, em parte pela relação com a técnica e estilos de pensamento, sua unidade se dá pela atividade eficiente e racional do fazer. Cupani trará a visão analítica de Bunge, o enfoque fenomenalista de Borgmann e Feenberg trazendo a Escola de Frankfurt.[ii]

A perspectiva analítica de Mario Bunge

Bunge associa a técnica (tradicional) ou tecnologia (científica) ao artefato, ou seja, produção de algo artificial transformando a natureza, seja ele uma coisa ou um sistema, como mudar o leito de um rio e até social e a uma planificação, isto é, atingir um objetivo eficientemente a partir de instruções e tarefas sequenciadas. Porém, o progresso humano se acelera com a inovação trazida pela tecnologia, através do “estudo científico do artificial”, conforme Bunge.

A tecnologia busca um conhecimento específico, embora a partir do método geral de pesquisa hipotético-dedutivo, seja com teorias substantivas, que fornecem conhecimento sobre os objetos da ação ou operativas, que versam sobre as ações de que depende o funcionamento dos artefatos, por exemplo nas interações homem-máquina. Uma teoria científica se torna teoria tecnológica ao visar a prática e previsão dos eventos, tendendo a simplificá-la e segundo Bunge, se não é ciência pura é a concretização de uma ação plenamente racional seguindo a tradição iluminista e possibilitando uma engenharia social que de conta de problemas como fome, superpopulação, entre outros.

Por fim, Bunge ressalta que há sabidas consequências negativas no avanço tecnológico, muito devido ao mau uso pelo ser humano e quando ele se isenta de responsabilidade ou quando se considera que a tecnologia é neutra, tais aspectos devem ser tratados por uma ética que ponha a tecnologia a serviço de todos, verdadeiramente.

A abordagem fenomenológica de Albert Borgmann

Borgmann vê a tecnologia como padrão de vida da modernidade e limitador da existência, trazendo um enfoque fenomenológico que capte suas especificidades[iii] a partir da filosofia e ciências sociais. Para ele, a chave da tecnologia são os dispositivos que usamos, muitas vezes sem compreender seu funcionamento, para nos trazer conforto. Dispositivos que devem estar disponíveis ao nosso alcance e ao mesmo tempo são descartáveis e substituíveis.

Remontando a Bacon e Descartes e o domínio da natureza, a tecnologia visou libertar o homem dos seus problemas, constituindo o modo de vida europeu que supera o uso da técnica concreta para trazer os dispositivos como meio sem fins últimos, ou seja, trazem uma função descontextualizada ao mesmo que tempo que nos desengaja em nossa relação com eles. Impulsionado pela propaganda, cria-se uma cultura de consumo tecnológico que, se por um lado traz a promessa de uma vida melhor, por outro se impõe como paradigma.

Então, Cupani traz o conceito de foco, que vem do latim focus ou seja, lareira, que era o centro de calor nas casas e onde se praticavam grande parte das atividades. Mesmo ainda nas lareiras atuais há o fogo vivo queimando. Há “práticas focais” que realizamos, como comer em família ou pescar, que são fim em si mesmas e têm significado e se opõem ao olhar tecnológico onde as coisas são meios, por exemplo, uma vaca como máquina que produz carne e leite, submetidos à lei da eficiência[iv].

Segundo Borgmann, nisso consiste a atitude tecnológica: a perda das coisas ou práticas focais para um universo de consumo, como meios para fins circunstanciais. O trabalho deixa de ser atividade social para ser atividade de produção de artifícios. A tecnologia, ao mesmo tempo que nos traz alívio, traz uma comodidade frívola e de instrumentalização da vida, mas também uma implicação que nos faz manter esse modo de vida.

Se a promessa tecnológica está em acordo com os padrões de liberdade e auto realização da democracia liberal é justamente ao trazer a questão de uma vida boa que poderemos reconstruir nossa relação com a tecnologia, conforme Borgmann.  É quando percebemos a importância das coisas e práticas focais, usando uma descrição dêitica[v], que nos contrapomos à tendência tecnológica. Uma vida boa com práticas em si mesmas e que seja favorecida pela tecnologia, que ela realce essas práticas ao invés de soterrá-las naquele modo cúmplice. Interesse focal como fim, tecnologia como meio. Mais qualidade de vida e com algum dispositivo. Diminuir o consumo dos ricos para melhor as condições dos pobres.

A perspectiva crítica de Andrew Feenberg

Feenberg, que segue a linha da Teoria Crítica, vê a tecnologia como a estrutura material da modernidade capitalista, operando em termos do controle da natureza e dos seres humanos, eficiência e recursos. Seu desenvolvimento pode ser determinado por critérios técnicos ou sociais de progresso, mas ela se torna a principal forma de poder nas mãos de empresários e tecnocratas que, visando sua autopreservação, ignoram condições comunitárias e ambientais em prol da perpetuação da racionalidade que se justifica pela eficiência.

Entretanto, movida por interesses sociais específicos, trata-se de uma eficiência que visa o lucro e a venda de mercadorias em uma sociedade consumista que não observa as exigências da vida humana como igualdade de oportunidades e direito de lazer, por exemplo.  A mediação tecnológica se generaliza em todos os setores (trabalho, educação, esportes) obedecendo interesses privilegiados que, em nome da eficiência, restringem as possibilidades e aumenta a disciplina e a padronização. Nesse sentido, as realizações tecnológicas são praticadas por sujeitos que não se responsabilizam pelos produtos, se reificam[vi].

Mas, segundo Feenberg há limitações que podem ser contestadas quando os dominados subvertem o uso para se protegerem ou trazerem inovações informais. É a ambivalência da tecnologia que permite que ela seja contestada e siga um desenvolvimento divergente saindo de uma realidade instrumentalizada em direção à realização humana quando as pessoas assumem uma responsabilidade política.

Entretanto, Feenberg propõe uma transformação gradual a uma civilização onde as potencialidades humanas, hoje negadas, caminhem em direção ao público, uma evolução de bem-estar social. A mudança civilizatória que permitiria um avanço social além do capitalismo atual pode se dar com o foco cada vez maior nas necessidades humanas dentro dos códigos técnicos.

*   *   *   *   *

Trazemos as reflexões de Cupani sobre a contribuição de cada enfoque.

Bunge traz a confiança na tecnologia para aprimorar nossa existência superando modos de vida atrasados, reconhecendo que não é neutra, mas se alinhando a sua ação racional oriunda do Iluminismo sem esquecer a ação ética e política, embora Cupani ressalte sua falta de apreço a culturas não científicas e nesse caso, as visões de Ladrière e Lacey poderiam ajudar.

Borgmann mostra como paradigma tecnológico nos perpassa e traz uma abordagem dêitica para nos alertar de nossa cumplicidade com a tecnologia. Entretanto, enfatiza Cupani, ele subestima fatores sociais e rejeita a visão marxista alegando que traça um cenário de incapacidade de mudanças que viria de sua proposta de nossa relação ambivalente com a tecnologia. A saída é pelo cultivo dos interesses focais, entretanto, argumenta Cupani, em países periféricos a possibilidade de boa parcela da população mudar a relação com a tecnologia é quase nula se tornando inócua e ingênua.

Feenberg faz a análise no âmbito sociopolítico e critica a eficiência que não é inerente à tecnologia, mas guiada por interesses sociais. Diferentemente de uma proposta marxista clássica, Cupani reforça que ele busca uma relação com a tecnologia que a instrumentalize para transformar o modo de vida e uma transição difícil ao socialismo pelos estratos médios da sociedade, como por exemplo ocorreu em maio de 1968.

Por fim Cupani, cita Feenberg na função heurística da tecnologia, de “quebrar a ilusão de necessidade de que o mundo quotidiano está recoberto”, que talvez valha para os três autores, como forma de abordar os desafios da análise tecnológica na busca por um mundo melhor.



[i] Conforme https://www.scielo.br/pdf/ss/v2n4/a02v2n4.pdf, acesso em 15/02/2021. Alberto Cupani, na Revista Scientiae Studia (2004).

[ii] Os dois últimos com Technology and the character of contemporary life (1984) e Transforming technology (2002).

[iii] Cupani caracteriza: teorias instrumentais veem a tecnologia como um meio ao serviço dos propósitos humanos; teorias substancialistas acreditam que a tecnologia seja autônoma; teorias pluralistas insistem na multiplicidade de fatores aos quais responde a tecnologia.

[iv] Esse nos parece ser o conceito central da tecnologia e o mais artificial e impositivo. O que não serve a esse fim é indiferente.

[v] Ou mostrativa, ou seja, baseada naquelas experiências de coisas que possuem valor e direito de existir em si mesmas (e não como meros meios) e no testemunho que se pode dar delas.

[vi] Reificado é como estou, é como estava até acordar do sono dogmático, do qual ainda desembaço a vista.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Introdução panorâmica à filosofia e sociologia da ciência do século XX

Aspectos do positivismo de Carnap, sociologia de Merton, Kuhn e outras abordagens.[i]

Filosofia da Ciência: a lógica e o papel normativo.

Pessoa trata aqui basicamente das noções do Círculo de Viena e suas linhagens. Parte-se, na raiz da ciência principalmente na concepção de Carnap, da lógica [simbólica] correspondendo à observação, ou seja, uma postura empirista. Já o positivismo pleiteia condições para se verificar o significado das sentenças demarcando a ciência e a metafísica, que não teria sentido. Entretanto, se opondo à referência aos dados sensoriais (fenomenalismo), Neurath defendeu o fiscalismo trazendo dificuldades para Carnap que mudou sua abordagem verificacionista para uma de confirmação.

Pessoa cita brevemente a ideia de ciência unificada[ii], mas volta ao positivismo lógico para trazer a concepção de falseacionismo de Popper que, ao invés de buscar por sentenças válidas com o método de generalização indutiva de fatos em leis, deveria ser hipotético dedutivo, ou seja, partir de hipóteses para ver sua validade empírica que pode ser falseada e continuar a busca ou corroborada. Por fim, trazendo a visão de Reichenbach, conclui que o papel dessa corrente da Filosofia da Ciência, chamada “visão recebida” é do deve ser, qual seja, normativa, não focalizando a prática de como a ciência era feita.

Sociologia da Ciência: a institucionalização da ciência.

Pessoa localiza a busca de Merton pela origem da prática científica no século XVII, na Inglaterra, associada à ética puritana. Merton elenca as principais normas éticas da ciência desse ponto de vista: universalismo (deixar de lado o pessoal), comunalidade (colaboração), desinteresse (não visar interesse próprio) e ceticismo organizado (duvidar de tudo), embora também haja contra normas implícitas. Abordando o etos científico, Merton conceitua o efeito Mateus na universidade: aos mais citados, mais citações, ou seja, gera-se uma estratificação dentro da academia. Por fim, Pessoa conjuga essa sociologia funcionalista à tradição lógica tratada acima, pois ambas não questionam efetivamente o conteúdo da ciência.

Filosofia da Ciência: além da lógica.

Reações das teorias globalistas no fim dos 50, que não se prendiam aos aspectos teóricos, entre outras coisas, misturavam a abordagem empírica com a teoria do observador e não se restringiam aos procedimentos lógicos de confirmação ou falseamento, pois traziam o contexto histórico e social. Elas rejeitam o fundacionalismo trazido pelos dados da observação e passam a focar na teoria, embora tanto a “visão recebida” como as teorias globalistas desprezassem a prática experimental.

O expoente é Kuhn com o “paradigma”, quer dizer, as crenças e valores dos cientistas e o modelo de sua atividade ficam vigentes enquanto tratam dos problemas de determinada visão de mundo, até que entram em crise e uma revolução estabelece um novo paradigma. Nesse sentido, mais do que uma acomodação aos fatos do mundo, vale resolver os problemas.

Lakatos apresenta o “programa de pesquisa”, trazendo elementos de Popper e Kuhn, em que teorias se filiam a uma tradição com um núcleo duro, cujo sucesso depende de fazer previsões novas, mesmo explicando menos fatos[iii]. Já Feyerabend vê a ciência como anarquia, onde “Tudo Vale!”: vale mais persuasão, criatividade individual do que racionalidade.

Nova Sociologia e Relativismo.

Sociologia do conhecimento marxista com Mannheim e escola de Frankfurt com três pontos: inclusão do conteúdo científico, rompendo a distinção entre social e científico; preocupação internalista de como o conteúdo da ciência é construído; análise linguística do significado no discurso científico. Essa sociologia traz do globalismo uma noção de negociação de consenso, com a concepção de que a visão científica depende do contexto social do observador e de que pode haver mais de uma teoria sobre determinados fatos.

Começa com Fleck, sob a influência de Kuhn, passando pela cienciometria dos índices das citações científicas entre outras. Dentre as abordagens, Pessoa destaca o relativismo epistêmico em oposição à crença verdadeira justificada chegando à influência social na cognição humana e interesse de grupos; a abordagem do construtivismo que se vale mais da descrição do processo científico que de sua explicação; e o estudo das práticas de laboratório com Latour & Woolgar onde há construção social em cima dos fatos científicos.



[i] Filosofia & Sociologia da Ciência, Osvaldo Pessoa Jr. Acesso em 15/02/2021: http://opessoa.fflch.usp.br/sites/opessoa.fflch.usp.br/files/Soc1.pdfAula ministrada na disciplina de HG-022 Epistemologia das Ciências Sociais do curso de Ciências Sociais da Unicamp a convite da profa. Fátima Évora. 

[iii] Há também a “tradição de pesquisa” de Laudan, mais focada na resolução de problemas, como Kuhn. 

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Aufbau

Reavaliar leituras estereotipadas do Aufbau visando mostrar que se trata mais de um projeto lógico-linguístico do que somente epistemológico.[i]

O Aufbau[ii] tinha por fim lançar as bases para a construção da ciência unificada sobre um sistema lógico (linguístico)-epistemológico (psicológico) de conceitos (objetos) visando a redução de cognições umas às outras por uma linguagem fenomenalista com a certeza do imediatamente dado na experiência, mais certo que as coisas materiais.

Tentando desintrincar o lógico-psicológico, Pizzutti e Liston argumentam que as cognições básicas seriam derivadas não dos dados dos sentidos, mas metodologicamente tidas com válidas. O próprio Carnap afirmara que a epistemologia era de base metodológica visando justificar as cognições relacionadas. Assim, a premissa do Aufbau é de ordenação lógica dos conceitos, visando o sistema construcional, mas que teria um base auto psicológica, na medida em que essa ordenação também dependeria do conhecimento dos objetos inferiores, trazendo uma primazia epistêmica.

Conforme citações de Carnap, o sistema construcional é baseado em conceitos sobre conceitos e transitivo, ou seja, os conceitos superiores podem ser reduzidos a enunciados sobre os fundamentais, etc. É fundado na lógica e teoria dos tipos do Principia Mathematica, ou seja, conforme os autores, projeto lógico-linguístico. Haveria quatro domínios base para construção dos conceitos das ciências empíricas em um único sistema:

i.  Auto psicológico: formam a base do sistema de reconstrução racional do conhecimento pela sua redutibilidade lógica e têm primazia epistêmica. São os objetos do mundo subjetivo do sujeito.

ii. Físico: se baseiam nos anteriores para construir os objetos do mundo da física. Se reduzem pela percepção.

iii. Hetero psicológico: outras mentes e sujeitos dotados de consciência. Se reduzem por meio da externalização dos estados psicológicos (comportamento).

 iv. Cultural: mundo dos objetos culturais. Se reduzem através de manifestações psicológicas e suas documentações físicas.

Se a base foi auto psicológica em função da base lógica construcional e epistêmica e por possuir poucos objetos básicos, envolveu dificuldades:

1. Aparente solipsismo, mas que teria apenas essa forma pois trata-se de um solipsismo metodológico e não somente experiências particulares de um indivíduo.

2. Se a base subjetiva permitiria objetividade e, segundo Carnap, sim, por propriedades estruturais análogas a todos os sujeitos e que perpassam qualquer fluxo de experiência.

3. A base formada por percepções, que são experiências elementares não sujeitas a análise, seria superada por meio da descrição das relações das propriedades individuais das experiências, num processo de quase-análise.

A partir desses pontos Carnap estabelece como sustentação das relações o reconhecimento de similaridade, comparando a imagem memorética de duas percepções para considerá-las semelhantes e construir o domínio auto psicológico subindo para os outros níveis.

Pizzutti e Liston mostram que as críticas de Quine e outros foram enviesadas e criaram uma visão caricatural do movimento de Viena. Para Quine, Carnap traria um empirismo clássico seguindo a lógica de Frege e Russell, ou seja, uma versão ingênua de empirismo fundacionista e reducionismo fenomenalista. Segundo Quine, teria havido fracasso na busca pelos fundamentos da matemática, ou seja, no logicismo, dentro do campo conceitual das ciências exatas, de um significado teórico.

Entretanto, haveria o campo doutrinal nas ciências naturais, reduzindo o significado à experiencia sensorial e daí, a verdade do conhecimento através de leis. O pai do projeto era Russell e sua proposta de dados dos sentidos como construto lógico do mundo exterior que, segundo Quine, teria quase obtido êxito por Carnap no Aufbau, mas a busca de uma certeza cartesiana teria fracassado via experiência imediata.

Segundo o próprio Carnap, uma base fiscalista seria mais interessante do ponto de vista científico, entretanto sua escolha foi pela ordenação auto psicológica privilegiando o aspecto epistemológico na esteira do realismo, idealismo e fenomenalismo e formação de uma base convencional.

Na visão de Carnap, a epistemologia, ao mesmo tempo em que justifica o conhecimento, é relativa porque relaciona cognições. No caso do Aufbau, a construção do sistema é ordenada pelo conhecimento partindo dos dados dos sentidos e cognições pressupostas como válidas. Mas a condição suficiente do sistema construcional é lógica e só metodologicamente é feita a análise epistemológica. A reconstrução racional é de inferência lógica partindo de cada um dos constituintes das experiências que podem ser epistemicamente independentes, mas a análise epistemológica para ser válida, deve permitir uma redução das cognições. Conforme os autores:

No projeto de sistemas construcionais de modo geral, a análise lógica é condição suficiente para construir um sistema, a análise epistemológica é condição necessária se o sistema proposto deve refletir, além de uma ordenação lógica, uma ordenação epistemológica do conhecimento.

Ao tratar do sistema, os autores acreditam que o Aufbau é fundacionista, mas não da maneira vista por Quine, qual seja, de que Carnap teria assumido o reducionismo como dogma da tradição empirista, isto é, a verdade “cartesiana” seria dada pela tradução do discurso significativo na linguagem dos dados dos sentidos, constatado diretamente da experiência. Na visão de Pizzutti e Liston, o sistema de Carnap é fundacionista com o domínio auto psicológico das percepções e enunciados fenomenalistas baseados em crenças básicas justificadas por si (irrevisáveis) e construcional pois permite a redução dos objetos do conhecimento científico à sua base, pela primazia epistêmica. Entretanto, se há esse justificacionismo epistemológico por enunciados básicos autoevidentes, ele não é infalível, tal como ocorre em Descartes, mas segue uma razão metodológica e, por isso, escolhida convencionalmente e substituível.

Por fim, os autores reforçam que, no Aufbau, o “projeto é guiado por uma reconstrução racional do conhecimento científico cuja base é uma ordenação lógica com elementos psicológicos” e que não está comprometido com a análise epistêmica do conhecimento.  Eles tentaram defender a tese de que Carnap não é dogmático por defender o convencionalismo e a tolerância linguística, desde que explicitada a clareza das regras o invés de argumentos filosóficos. Segundo ele, em lógica não há moral.


[i] Pedro Henrique Nogueira Pizzutti e Gelson Liston. O PROJETO LÓGICO-LINGUÍSTICO E EPISTEMOLÓGICO DO AUFBAU DE RUDOLF CARNAP. Na Revista Problemata, acessado em 10/02/2021 pelo link https://periodicos.ufpb.br/ojs/index.php/problemata/article/view/44612/29117. Sem a marcação de em qual obra de cada autor está cada argumento, apenas uma tentativa de expor a visão panorâmica da discussão.

[ii] The logical structure of the world. Aufbau = construção.