quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

O Antropoceno e a nossa visão de mundo

Sobre um tempo em que o ser humano deixa marcas geológicas em um planeta cuja imagem ele precisa rearticular[i]

O Antropoceno: uma inovação. A despeito do 34º Congresso Internacional de Geologia, em 2012, declarar o Antropoceno uma “possível” época geológica e, conforme ressalta Latour sobre o tamanho do peso desse tipo de decisão, já que colocaria uma marca da humanidade na geo-história, ainda assim, foi decretado o fim do Holoceno[ii]. Nesse sentido, depois de 11 mil anos de desenvolvimento da civilização, há um período novo de instabilidade[iii].

Certamente, continua Latour, a burocracia associada a tal decisão se deve a que a comunidade geológica precisa de um sinal geológico que seja medido pela estratigrafia, ou seja, seu reconhecimento nas rochas. Entretanto, não se discute o fato que o termo Antropoceno, cunhado por Crutzen no ano 2000[iv], já seja consenso nas pesquisas de mudanças climáticas.

Embora o Novo Regime Climático não tenha respaldo ainda na Geologia (depois de 2016, mas antes de 2019 quando foi chancelado[v]), Latour aponta para as contribuições do grupo liderado por Zalasiewicz a respeito dos temas das conferências: potências de agir, zona metamórfica, etc., e nossas pegadas começam a aparecer na base rochosa, nossa ação gera fenômenos em escala global e o dispêndio de energia da humanidade como um todo chega ao gasto energético de vulcões ou tsunamis, senão que nossa potência pode atingir a das placas tectônicas (nosso gasto por volta de 17 terawatts ainda ínfimo perto dos 130 mil oriundos da ação do sol).

Não obstante o citado na definição do termo, Latour recupera nossas “contribuições”[vi], enfatizando os efeitos dos sinais radioativos das bombas atômicas. Se antes queríamos dominar a natureza, agora trata-se de procurar nosso traço em suas ruínas. Importante ressaltar o fato de marcamos um tempo geológico a partir de uma contribuição de 100 a 200 anos, o que mostra o ritmo da transformação.

Mente et malleo. Porém, ressalta Latour, é justamente o Antropoceno, “cavilha de ouro” (golden spike), que pode se tornar o conceito filosófico que nos afastará da modernidade. Se a questão humana era parte dos estudos em ciências humanas, esse novo oximoro trata de colocar “Anthropo” no centro da “ciência natural” e da geologia, deixando para traz a área das humanidades que, as voltas com nossos valores, não viu o trabalho do martelo[vii].

E o termo, conforme continua ele, sendo mal compreendido, faz com que apressadamente se fundam as noções de Natureza e Cultura, em metamorfose capaz de petrificar o rosto humano ou antropomorfizar a natureza. A esse propósito Latour alude à revista Nature[viii] que, trazendo a “Era do humano”, não percebeu que se tratava exatamente do seu fim.

A ocasião ideal para desagregar as figuras do homem e da natureza. Retomando o tema anterior, Latour enfatiza que o Antropoceno não é capaz de reconciliar natureza e sociedade, mas que vem para desintegrar tais noções tão presentes até então. Pois quando a ação humana se funde com a geologia, tudo se mistura, pois nos misturamos aos ciclos do carbono e do nitrogênio, e às impressões de lavas em rochas se misturam plásticos.

O Antropoceno habilita a transposição da geografia física e da geografia humana tornando obsoleto um conceito como o de Natureza. Assim como não permite responsabilizar ninguém por ele, já que a humanidade como um todo não poderia atuar como um agente único, dotado de consistência moral ou política. E mesmo que se pudesse responsabilizar é possível já imaginar a grita em contrário. Entretanto, não se pode enumerar a pegada de carbono de cada um porque há povos distintos, há interesses diversos, enfim, uma miríade de hábitos e ações as mais contraditórias que nos impede de ser um todo unificado.

Sloterdijk ou a origem da imagem da esfera[ix]. Conforme argumenta Latour, para retirar o fardo que é para o humano carregar o Globo todo nas costas, convém recorrer ao conceito de esferas de Sloterdijk, como que capaz de imunizar e perpetuar a vida. É esse conceito de esfera, germinado na história da filosofia, que Sloterdijk usa para tematizar um envoltório que nos permite viver e respirar, que nos climatiza. Inclusive para criticar o Dasein de Heidegger, ele pergunta: para onde o Dasein é jogado no mundo, qual a composição do ar e temperatura de lá?

Segundo Sloterdijk, criou-se uma imagem de Globo que não se sustenta, se o Globo é belo, não se põe de pé. Ter uma visão global é sair da esfera e se expor ao mundo, quebrar o envoltório é destruir a camada de proteção que nos sustenta vivos. Envoltório frágil, mas que contém as condições climáticas que permitem nossa existência.

Conforme Latour, “oferecendo-nos a primeira filosofia que atende diretamente às exigências do Antropoceno”, Sloterdijk conceitua um Deus Esfera (Deus sive Sphaera)[x] que pode romper a cosmologia ocidental ao colocar a Terra no centro jogando Deus para a periferia. Ele mostra que há um bifocalismo a ser superado: local teocêntrico ou geocêntrico. No mais, pensar globalmente trazendo a reboque Deus nos impede ter de pensar historicamente e ficamos sem o tempo e o espaço...

A confusão entre a ciência e o globo. Da mesma maneira há, para Latour, duas visões de mundo científicas que não se reconciliam: a da Natureza (na natureza, centrada no cosmos) e a da Natureza no laboratório, como se uma descoberta científica pudesse traduzir a Natureza. Do mesmo modo que a imagem do Globo ou Deus cristão é o Globo platônico separado e perfeito, sem os efeitos da gravidade. Esse sim, se pode abarcar com a mão[xi], mas que aí não passaria de um globo de papel machê.

 Então, Segundo Latour, é pelo uso da esferologia de Solterdijk ou da história da ciência que conseguiremos escapar da maldição de Atlas, pelo entendimento que a noção de globo não inclui tudo o que está contido no mundo, o global é um modelo reduzido pois nunca se pode pensar globalmente sobre a Natureza ou Gaia.

Tyrrell versus Lovelock. Conforme Latour, ao tratar do Antropoceno, de Gaia ou do Globo, confundem-se as figuras de conexão com as de totalidade, mesmo entre os cientistas. Um exemplo que ele traz é o de Tyrrell que converte Gaia em algo superior que envolveria a Terra[xii]. Diante disso, Tyrrell postula que Lovelock não consegue provar que existe essa camada de proteção da Terra, tal como uma Providência. E aí seu erro, conforme indica Latour, de tomar o todo pelas partes.

A despeito do alerta de Lovelock e de sua hesitação em definir Gaia, ainda assim Tyrrell a toma por um ente todo-poderoso como que por uma visão teológica, talvez pela influência daquele conceito de Globo. Mesmo que Lovelock tenha conceituado uma versão profana de Gaia, não teleológica e que foge de um nível de conexão e outro de totalidade reguladora, Tyrrell é taxativo ao adotar o segundo ponto em prol da teoria da evolução, tirando qualquer possibilidade de os organismos também poderem interferir no meio.

Por mais que Lovelock enfatize não haver intenção oculta na autorregulação planetária, um neodarwinista como Tyrrell vê ali uma Teodiceia. Isso porque alguns cientistas se agarram à visão global de um superorganismo, ao invés de se mirarem nas conexões entre os seres. E o Antropoceno ensina que não há uma unificação em uma esfera terráquea e que a cosmologia do planeta azul como Globo deve ser superada. Se livrar da maldição de Atlas é ultrapassar a imagem da Esfera platônica sem história nem descontinuidade, a ideia ideal.

Os ciclos de realimentação não desenham um globo. Mas é tomando as potências de agir com um movimento em ciclos que se traça um caminho que rompe o desenho da esfera. E aqui Latour toca num ponto particularmente problemático que é o de como trazer essa noção de Antropoceno, tão distante, para o centro das atenções. Ainda que já tenham havido vários ciclos para superar a visão de Globo, como as observações de Keeling e as medições do ciclo do dióxido de carbono, o buraco na camada de ozônio ou os estudos de Carl Sagan sobre um possível inverno nuclear, é preciso que os sintamos, de fato, em nós mesmos. Isso quer dizer receber os efeitos do que praticamos, de nossa frágil condição climática, ou seja, desses ciclos que voltam a nós e nos sensibilizam (assim como os ciclos para parar de fumar, por exemplo, conforme cita Latour: a necessidade de sentir na pele, ou, nos pulmões...).

É por ciclos entrelaçados que a camada de Gaia se compõe, envoltório delicado das zonas críticas e que, não somente sente a nossa ação, como reage e é nesse momento que temos que ter nossos sensores ativados para não sermos negacionistas e identificarmos de que maneira as potências de agir estão conectadas.

Enfim, outro princípio de composição. Por mais que Gaia gere sinais de insatisfação, a partir do Antropoceno que destruiu qualquer sonho de união no cuidado com a Natureza, ela em si também não nos une como que nos chamando à ordem. Dada a complexidade do que se passa sob Gaia, nem mesmo a Ciência une, haja vista as pseudocontrovérsias lideradas pelos climatocéticos. Há, então, que se tecer uma universalidade, segundo Latour, pela construção de coletivos em uma multiplicidade de ações em torno de uma luta política.

Redesenhar o formato Natureza/Cultura em uma nova cosmologia, que é de um tempo pós-natural e pós-humano. Não se trata mais de questões ambientais, mas da redistribuição das potências de agir, maior que as paixões políticas que conhecemos.

Melancolia ou o fim do globo. Por fim, Latour relembra Melancolia, o filme, com a imagem de Melancolia, e não o planeta Terra, sendo Gaia, pois é aquela que devastará o que é demasiado humano. Enfim destruídos, haveremos de encontrar uma nova teologia geopolítica.



[i] Resenha da Quarta Conferência de Bruno Latour: O Antropoceno e a destruição (da imagem) do globo. Em LATOUR, B. Diante de Gaia: oito conferências sobre a natureza no Antropoceno. São Paulo / Rio de Janeiro: Ubu Editora / Ateliê de Humanidades Editorial, 2020. Como de costume, de maneira alguma visa exaurir a argumentação do autor, é um recorte das principais ideias abordadas.

[ii] Conforme https://www.infoescola.com/geologia/holoceno/: Na escala de tempo geológico, o Holoceno ou Holocênico é a época do Período Quaternário da Era Cenozoica do Eon Fanerozóico, que se iniciou há cerca de 11,5 mil anos e se estende até o presente, onde a humanidade se desenvolveu. O desenvolvimento da humanidade se deu principalmente graças ao clima mais ameno e estável. Os grupos nômades de caçadores-coletores passaram para uma população com casas fixas de mais de 6 bilhões de pessoas, que estão agrupadas em complexas organizações sociais com nacionalidades, culturas e modos de vida. Durante o Holoceno, o clima sofreu drásticas mudanças em relação à temperatura, chuva, nível médio do mar, entre outros aspectos. Indicadores climáticos mostraram que o El Niño também foi impactado pelas mudanças climáticas ocorridas no Holoceno, que podem ter sido geradas pela variação nos parâmetros orbitais. Neste mesmo período, também ocorreu a extinção em massa de diversos animais e vegetais, principalmente de grandes mamíferos, por volta de 9.000 a 13.000 anos atrás, ou seja, ao final da última glaciação, no limite Pleistoceno - Holoceno. Este grande evento pode estar relacionado a dois outros eventos que ocorreram na mesma época, sendo eles a mudança climática e a fixação dos povos humanos. A quantidade de espécies que estão entrando em extinção é superior a quantidade de novas espécies ou até mesmo de nascimento de animais e vegetais. Com todas estas mudanças que ocorreram e continuam a ocorrer, teve início uma nova corrente de pesquisa, na qual os pesquisadores propõem uma época nova, o Antropoceno. No entanto, para que esta nova época seja efetivamente reconhecida na tabela geológica é necessário que se tenha uma significância ou ocorrência global que marque o estratotipo globalmente, um golden Spike. Esta significância ou golden Spike é um ponto que marca o limite entre tempos geológicos diferentes, e o grande desafio está sendo encontrar este ponto que determina o início do Antropoceno para que esta nova nomenclatura seja aceita sem ressalvas pela comunidade científica da geologia mundial. Embora seja aceito que o homem seja o grande causador de algumas mudanças que estão ocorrendo na Terra, não se sabe precisar se estes impactos se iniciaram com o advento da agricultura ou da industrialização, se estão relacionados ao crescimento da população e ao uso de recursos naturais. No final do século XIX e início do século XX, a sociedade deixou de ser industrial e passou a ser uma sociedade de informação, com um grande aumento da população global e consequente consumo de recursos naturais, modificando ainda mais o planeta Terra.

[iii] Há controvérsias se por volta de 1800, no começo da revolução industrial ou no pós 2ª Guerra, graças à radioatividade artificial. Um pouco disso na nota anterior.

[iv] Tradução do texto seminal publicado por Paul Crutzen & Eugene Stoermer em 2000 na Global Change Newsletter, 41:17-18 https://revistas.uminho.pt/index.php/anthropocenica/article/view/3095/2989. Sucinto, porém mostra o estrago que temos feito ao planeta.

[vi] São: "a modificação por barragens da sedimentação dos rios; mudanças na acidez dos oceanos; a introdução de produtos químicos anteriormente desconhecidos; as ruínas compostas de vastas infraestruturas que não se parecem em nada com as anteriores; as mudanças na taxa e na natureza da erosão; as variações no ciclo do nitrogênio; o aumento contínuo do CO2 atmosférico; sem esquecer o desaparecimento abrupto de espécies vivas durante o que os biólogos se resignam chamar de "sexta extinção" p. 187, 188. Muitos dos pontos tratados por Crutzen e Stoermer.

[vii] Nossa resenha segue a fina ironia latouriana.

[viii] Referência de Latour à ilustração de Jessica Fortner https://www.nature.com/articles/519144a.

[xi] Aqui ressaltando sua constante referência a Atlas, nesses tópicos: “Na mitologia da Grécia antiga, Atlas era um gigante condenado a carregar o universo nas costas”, conforme o artigo acessado em 16/01/2022:  https://escola.britannica.com.br/artigo/Atlas/480699.

[xii] Latour uso o livro “On Gaia: A Critical Investigation of the Relationship Between Life and Earth” de Tyrrell como base da argumentação do equivocado professor.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Base física do efeito estufa e aquecimento global

Sobre as bases físicas que mostram que as emissões antropogênicas de gases estufa contribuem para o aquecimento global[i]

Introdução. Com a emergência da temática ambiental, nos interessa entender questões ligadas às mudanças climáticas e ao aquecimento global. Para isso, requer voltarmos a conceitos básicos outrora vistos para melhor compreensão desses fenômenos, ou seja, suas bases físicas. A respeito do artigo, mais precisamente, os autores enfocam o aquecimento global cuja causa dominante é a ação humana, de acordo com a evolução das pesquisas científicas no último século e a despeito de alegações em contrário[ii]. Então, o efeito estufa tem papel preponderante na regulação da temperatura planetária.

O papel da composição atmosférica na temperatura planetária. Os autores trazem o raciocínio de Fourier, primeiro a tratar da temperatura planetária, de que a Terra, recebendo energia constantemente do sol, deveria reemiti-la de volta pois, de outra forma, superaqueceria e assim poderia manter uma temperatura de equilíbrio. A energia solar atinge os planetas de seu sistema por ondas eletromagnéticas cujas intensidades dependem da luminosidade do astro e da sua distância. Porém, boa parte dessa energia não é absorvida pelo planeta[iii], já que uma parte é refletida pela atmosfera e outra parte pela superfície. Ocorre que o planeta recebe a luz solar em metade de sua superfície e a reflete por toda a sua extensão (conceito conhecido por albedo[iv]). A figura abaixo ilustra esse ponto.

Os itens elencados acima fazem com que a temperatura de equilíbrio da Terra (-18º) seja bem menor do que a temperatura em sua superfície, em torno de 15º. Comparando com outros planetas que têm as temperaturas estimadas, podemos notar a diferença entre elas, conforme a tabela que segue.

Se Mercúrio e Marte as têm próximas, isso não ocorre com Terra e Vênus que as têm distintas exatamente por conta da atmosfera de cada um. Se a atmosfera é substancial, isto é, espessa e com gases estufa, ela absorve parte da radiação refletida e aumenta a temperatura da atmosfera baixa, qual seja, da superfície e a isso dá-se o nome de “efeito estufa”. Já a próxima tabela ilustra as tênues pressões atmosféricas em Mercúrio e Marte que não geram as diferenças de temperatura bem como o oposto para Terra e Vênus.

Vênus que, mais longe do sol do que Mercúrio, ainda assim apresenta alta temperatura devido à junção da alta pressão com alta presença do gás de efeito estufa dióxido de carbono, como podemos ver a seguir.

Ainda conforme a tabela, embora Marte também tenha alta presença de CO2, ele é pouco concentrado como se pode ver pela sua pressão atmosférica, que faz com que o planeta não absorva muita radiação infravermelha oriunda da superfície. A tabela também mostra a distinta composição de gases que a Terra apresenta com relação aos vizinhos Vênus e Marte (conforme figura dos planetas do sistema solar que se segue[v]) e, embora seja baixa a concentração de dióxido de carbono, ele se junta a outros gases (vapor d’água, metano e óxido nitroso) para compor o efeito estufa e aumentar a temperatura da superfície em 30º acima da temperatura de equilíbrio.

Os autores também enfatizam que é a própria vida na Terra, sua biosfera, que regula a composição química da atmosfera pelos ciclos biogeoquímicos e, se a vida fosse extinta, rapidamente teríamos uma composição similar a Vênus e Marte.

Detalhamento do efeito estufa da Terra. Embora Fourier tenha afirmado que o calor encontra menos resistência ao entrar na atmosfera em estado de luz do que ao sair como calor não luminoso, a base física só foi evidenciada com o uso de um espectrofotômetro por Tyndall, em 1859, que mostrou que dióxido de carbono e vapor d’água (CO2, H2O) poderiam absorver radiação infravermelha, enquanto oxigênio, nitrogênio e hidrogênio não (O2, N2, H2).

Contudo, só no século XX se clarificaram as medidas e os gases de efeito estufa, nomeadamente: CO2, H2O, CH4 (metano), N2O (óxido nitroso), CFCs e O3(ozônio) que absorvem radiação infravermelha. Abaixo são mostrados os comprimentos de onda com destaque para o espectro visível e também as ondas longas de infravermelho na qual os gases estufa são ativos radioativamente.

Então, conforme já dito, o sol emite ondas eletromagnéticas para nós numa radiação visível que não é absorvida por esses gases (0,4 μm a 0,7 μm). Cerca de 70% dessa radiação visível entra na Terra aquecendo-a, que então emite radiação infravermelha para o espaço que é obstruída pelos gases estufa, esquentando a baixa atmosfera.

Acima o desenho esquemático do efeito estufa, com destaque para a emissão de dióxido de carbono em todas as direções. Outro ponto é que, quanto maior a temperatura de um corpo, menor o seu comprimento de onda emitida e aí a Terra, bem menos quente que o sol, emitindo na faixa do infravermelho em torno de 10 μm (isso será mostrado em outro gráfico mais a frente). Pois que, pelo estudo da espectroscopia do infravermelho para o dióxido de carbono, é mostrado que ele absorve radiação nos comprimentos de onda de e 4,2 μm e 15 μm, ou seja, ele é opaco nesses pontos (e vai coincidir com o comprimento de onda da Terra, como se verá).

Os autores ainda trazem uma questão extremamente técnica para esclarecer as bandas de absorção do CO2 e sua interação com a radiação infravermelha. Sucede-se que a radiação infravermelha incidente na molécula de CO2 possui frequência compatível com a frequência de vibração do mesmo e este absorve radiação em uma mudança do momento de dipolo, que ocorre quando a molécula vibra e interage com os campos elétricos e magnéticos da radiação.

Acima é mostrado os modos normais de vibração do CO2 com destaque para os momentos de absorção v2 e v3, ao passo que o estado v1 é apolar (simétrico). Trazendo o gráfico da emissão da radiação da Terra abaixo, vê-se a atuação da banda de 15 μm (v2 acima) atuando na faixa de 10 μm, indicando a existência do efeito estufa.

O balanço energia da Terra: o efeito estufa em ação. A despeito do comportamento do CO2, etc., os autores ressaltam que o mecanismo principal da temperatura planetária é o balanço de energia da Terra, qual seja, a manutenção da temperatura média entre as intensidades de energia entrantes e saintes. De acordo com os cientistas, um desequilíbrio que possa levar a mudança da temperatura média ocorreria por três possiblidades ou forçantes climáticas: 1.) mudança da radiação solar entrante, seja por mudança na intensidade da radiação solar ou da órbita da Terra (que não tem acontecido, segundo observações), 2.) mudança do albedo da Terra, pela mudança de cobertura das nuvens, partículas de aerossóis e cobertura do solo (também não ocorre) e 3.) mudança da radiação terrestre para o espaço, devido à alteração na concentração dos gases de efeito estufa.

Não obstante, convém lembrar que a temperatura de equilíbrio se dá a uma altitude média da atmosfera acima dos gases estufa e, abaixo deles, há a temperatura da superfície que recebe a reemissão da radiação para baixo e aí se aplicam modelos de medida da transferência radioativa que não nos interessa detalhar agora, embora os autores os tivessem simplificado em  um modelo de linha que abstrai as camadas da atmosfera e outros fatores como correntes oceânicas, variações dos espectros de onda, transferência de energia entre as camadas e distribuição dos gases.

De todo modo, desse modelo é possível estimar a temperatura da superfície a partir da temperatura de equilíbrio, chegando a um valor de ~303 K (-273 = 30º, acima dos 15º por conta da simplificação) e permitindo mostrar que a “radiação reemitida para baixo contribui para o aquecimento da superfície” (p. 16) e também que, em última instância, a radiação escapa a altas altitudes e o aumento dos gases de estufa irá aumentar a temperatura de superfície e sua diferença com relação à temperatura de equilíbrio, desequilibrando o balanço.

O aumento do efeito estufa e a busca do balanço trazem aquecimento. Se o efeito estufa é um processo natural e essencial para a vida na Terra, a mudança da composição química da atmosfera pela concentração de gases de efeito estufa, sem dúvida, irá aumentar a temperatura do planeta. Acontece que, se é mantida a radiação entrante e os gases de efeito estufa dificultam a sua saída, há um desequilíbrio entre a entrada e a saída de radiação. Nesse caso, a Terra precisa esquentar para reequilibrar o fluxo de energia e, aí, atinge um novo estado de equilíbrio.

A figura acima ilustra a busca pelo balanço de energia quando, em b), o aumento da concentração de dióxido de carbono irá diminuir a temperatura de saída para 236K e, então, a Terra se aquece (3º) para atingir o novo equilíbrio. Esse valor de incremento e sua rapidez de aumento ainda são debate entre os cientistas, conforme enfatizam os autores.

Papel do CO2 no aquecimento global. Se o vapor d’água contribui mais do que o CO2 entre os gases com efeito estufa (vapor d’água = 50%, nuvens = 25%, CO2 = 20% e demais gases 5%), o CO2, além de não condensável, apresenta evidências de relação com as eras do gelo[vi] e é parte da história climática da terra. Soma-se a isso que o nível atual de CO2 jamais foi atingido no período observado (um pico de 300 contra 400 ppm atuais das emissões humanas pós revolução industrial)[vii].

Já o vapor d’água é condensável e se regula pela temperatura da atmosfera que vai comportar determinada quantidade, o resto condensa-se. Assim sendo, ele não é considerado uma forçante climática e se associa com o mecanismo de retroalimentação. Conclui-se que o CO2 é o termostato da terra, já que a sua ausência atmosférica levaria a um congelamento do planeta.

A contribuição de dióxido de carbono de origem humana é demonstrada pelas conhecidas anotações de Charles David Keelling, ilustradas abaixo.

Se aliarmos esse dado com as medições de temperatura ao longo dos anos (considerando incremento de 1º desde a revolução industrial) e com as comprovações cientificas que descartam as outras forçantes climáticas, os autores afirmam que:

“O IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) criado em 1988 sob o comando da Organização Meteorológica Mundial (WMO) em seus relatórios tem atestado com níveis de confiança cada vez maiores que as evidências científicas são suficientemente fortes para afirmar que o aquecimento observado tem como causa dominante as emissões antropogênicas de gases estufa (Ipcc, 2013)”

Por fim, os autores sintetizam o argumento da seguinte forma:

1. O efeito estufa é um fenômeno natural essencial à vida na Terra.

2. O mecanismo do efeito estufa opera a partir das moléculas dos gases estufa que absorvem a radiação infravermelha emitida pela Terra, reemitindo uma parte de volta para a superfície terrestre.

3. As emissões humanas estão aumentando a concentração de gases estufa na atmosfera.

4. Um aumento da concentração de gases estufa na atmosfera intensifica o efeito estufa da Terra.

5. Um efeito estufa mais forte causa um desequilíbrio no balanço de energia da Terra.

6. Para retornar ao equilíbrio energético a Terra precisa esquentar tendo como resultado o aquecimento global.



[i] Conforme https://if.ufmt.br/eenci/artigos/Artigo_ID531/v13_n5_a2018.pdf: Efeito Estufa e Aquecimento Global: Uma abordagem conceitual a partir da física para Educação Básica. Simplificado, resumido, sem fórmulas 😊.

[ii] “Fatos alternativos” citados: 1.) o planeta não está aquecendo, mas resfriando; 2.) estamos num ciclo natural; 3.) as emissões de dióxido de carbono não são um problema; 4.) o efeito estufa não existe.

[iii] Energia absorvida = potência.

[iv] Conforme http://sigep.cprm.gov.br/glossario/verbete/albedo.htm, albedo é a medida da quantidade de radiação solar refletida de um objeto ou alvo com relação a quantidade de energia incidente. O albedo varia de 1 (reflexão total de corpo refletor perfeito) a 0 (absorção total de um corpo negro), que são extremos teóricos inexistentes na natureza. O albedo da Terra como um todo, incluindo as nuvens, é em torno de 0,4, ou seja, 60% da energia solar incidente é retida no sistema Terra.

[vi] Conforme citação dos autores dos estudos feitos na estação Vostok da Antártica.

[vii] Não só o dióxido de carbono, como metano, óxido nitroso, ozônio e clorofluorcarbonetos apresentam aumentos expressivos de 1850 para cá, principalmente pela queima de combustíveis fosseis como petróleo e carvão, desmatamento, agricultura e pastagens.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

There's only Gaia but Gaia is not One

Sobre uma nova agência que explica a vida na Terra, a partir de Lovelock[i]

1. Galileu, Lovelock: duas descobertas simétricas. A respeito da simetria, para Latour, se Galileu enfileirou a Terra no rol de planetas parecidos, Lovelock a trata como único, ou seja, fomos para o infinito, mas voltamos para nossos limites. Já em 65, em Pasadena, Lovelock dizia que ao invés de enviar grandes foguetes para buscar vida em Marte, bastaria um simples instrumento para verificar se sua atmosfera seria inerte ou não[ii].

Galileu, ao verificar sombras na Lua, traz uma nova concepção de cosmos em que não há mundo sublunar, mas também uma chaga filosófica que faz dos astros “bolas de bilhar” com as qualidades primárias de extensão e movimento. Isto é, todo o universo, infinito porquê seguidor das leis da natureza, é uma res extensa cartesiana. Porém, dentro dessa res extensa infinita, Lovelock postula que Vênus, Lua, etecetera, são mortos pois estão em equilíbrio químico ao passo que a Terra é viva pois seu desequilíbrio químico nos permitiu superar todas as adversidades as quais passamos, sejam vulcões ou meteoros, por bilhões de anos. Mas, prossegue Latour, essa força terrena é uma agência cuja potência de agir precisa ser investigada e, assim, estamos de volta ao mundo sublunar.

É a pergunta que traz Latour das ideias de Lovelock: por que temos o privilégio de sermos um planeta vivo[iii]? A despeito de seu envoltório para manter as diferenças internas e externas, Lovelock traz as qualidades secundárias para o primeiro plano, isto é, a terra e seu comportamento[iv], muito além do movimento descoberto por Galileu e que, lá, instalou uma dúvida que agora se renova. Se não somos o centro do universo como pensavam os antigos, estamos presos em nossa atmosfera local, sozinhos. Sublinha Latour que não há como escaparmos para o espaço, teremos que nos ver aqui embaixo.

2. Gaia, um nome mítico perigoso para uma teoria científica. Se é Gaia o nome que Lovelock escolhe para batizar sua teoria, Latour a investiga na mitologia grega, onde Gaia aparece não como uma deusa ou figura harmoniosa, mas controversa que traz bons conselhos ao mesmo tempo que aterroriza e é impiedosa. Bem, se há uma maldição a respeito de Gaia e, não obstante os avisos recebidos para não levar Lovelock a sério, Latour explica que persistiu, pois também teria sido difícil levar Galileu a sério lá pelos idos de 1610. Mas o problema ocorre, segundo ele, ao fazer da distinção galileana de qualidades primárias e secundárias, necessária para sua abordagem, a distinção moderna Cultura / Natureza[v] que passa a ser usada como filosofia geral que retira da terra qualquer comportamento.

É daí que surge a bifurcação da natureza tratada por Whitehead[vi] e que faz com que Gaia não se encaixe nesse esquema, assim como no cosmos medieval não cabia o movimento. Porém, uma nomenclatura alternativa como “ciência do Sistema Terra” não traduz o que Lovelock propõe sobre uma Terra com sua potência de agir. A Gaia de Lovelock não é um todo já composto e nem um sistema passivo de seres inertes que mantem viva a sua fina película. Gaia que, se não tem alma, a sua natureza também não é de cunho moral quase religioso oriunda de Galileu. Gaia é, enfatiza Latour, inteiramente secular, isto é, mundana e fora da lei.

3. Um paralelo com os micróbios de Pasteur. Latour, então, faz referência a Pasteur quando tentou convencer os cirurgiões de que seus instrumentos infectados com micróbios poderiam matar os pacientes, assim como Lovelock adverte que somos a doença de Gaia, mantendo-se o desafio de guerra e paz. A batalha de Pasteur vem com a inclusão de um agente desconhecido que “superanima” o mundo, superando o que era feito na época por uma análise estritamente química. Nos exemplos que Latour apresenta, seja da levedura que é agente da fermentação ou a potência de agir dos micróbios que eliminavam a suposta geração espontânea, há sempre novos objetos que surgem povoando o mundo, seja o da metafisica ou o cosmológico (da antropologia).

4. Lovelock também está espalhando os micros atores. Se a microbiologia lutou contra químicos eminentes, Lovelock luta contra os geólogos para passar da geoquímica para a “geofisiologia”. Conforme mostra Latour, a proporção de oxigênio e dióxido de carbono na atmosfera, responsável por adiar o desaparecimento do planeta, não é somente uma questão química, mas está ligada à erosão das rochas. Trata-se não só de forças geofísicas e geoquímicas, mas de uma série de micro-organismos vivos invisíveis que regulam nossa vida, por exemplo, evitando a concentração de nitrogênio nos oceanos.

5. Como evitar a ideia de sistema? Ocorre que, segundo Latour, há a questão de não superanimar a Terra como organismo vivo: apenas um e único agente coordenador. Se Lovelock diz que a Terra se comporta como um sistema autorregulado e sugere um ser senciente, isso dá a medida de seu esforço de definição de Gaia, mas não significa que se trata de um “Todo Superior”.

6. Os organismos fazem seu ambiente, não se adaptam a ele. Também, contrariando Darwin, para Lovelock os organismos não se adaptam ao ambiente, mas ajustam o ambiente para eles, manipulando-o em vista de seus interesses[vii]. Latour ressalta que Gaia não é uma composição de partes extra partes, mas de seres que se auto contagiam intencionalmente[viii]. Não somente humanos, mas formigas e vírus, enfim, todos agem transformando sua vizinhança em prol do que lhes favorecem e isso significa que não se trata de antropomorfismo, mas de uma característica geral da qual também participamos. Então, não há uma intencionalidade da totalidade, mas uma intencionalidade diluída, ou um caos de retroalimentações mútuas.

7. Sobre uma ligeira complicação do darwinismo. Rebatendo a crítica do darwinismo, continua Latour, há certo egoísmo no cálculo de interesse de cada agente, que de forma alguma é para algum todo superior, isto é, não há um planeta vivo lutando pela sobrevivência. Conforme Latour: “se há um resto de Providência, é nos darwinianos que corremos o risco de encontrá-la” (p. 168), já que o modelo de Darwin tem a sombra de um Criador agindo na seleção natural. Latour afirma que a biologia empresta da teoria econômica um modelo de cálculo matemático entre uma necessidade interna e o ambiente externo que não faz sentido se aplicado para Gaia e seus acasos e ruídos.

8. Espaço, filho da história. Se os evolucionistas insistiram em Gaia como um todo, mantendo uma separação entre indivíduo e totalidade, também não perceberam que Lovelock não só não toma as partes, como também não usa a totalidade para tratar das escalas. Porém, para isso conta com Margulis[ix na tarefa de mostrar, por exemplo, que o oxigênio surge no final do Arqueano a partir de microrganismos que, se tóxico, permitiu o surgimento da vida e da fotossíntese. Ou seja, o veneno trouxe novas perspectivas. Mas aí não há diferença de escalas, não há uma res extensa pelo qual os indivíduos se espalham, mas campos de interações. Se não há partes extra partes, conforme já dito, somos consequência do tempo e de agentes que se desenvolvem de maneira contingente e oportuna.

9. Antropomorfizar o homo economicus na era da geo-história. De acordo com Latour e a teoria de Gaia, então, não há uma natureza em sentido clássico, mas um emaranhado de acontecimentos imprevistos e ocasionais na geo-história que agora os humanos deixam sua marca.

Entretanto, Latour enfatiza que há um humanoide que calcula, que é econômico e que se universalizou trazendo a globalização que impede a homodiversidade. Seu padrão de comportamento é o da governança e o homo economicus não passa de um cérebro simples de capitalização e consumo com mínimos desejos e preso em sua natureza econômica. A modernidade trouxe a divisão entre uma natureza necessária e o reino da liberdade humana, mas que agora cai por terra a partir do acontecimento geo-histórico que nos deixa a mercê dos acontecimentos não humanos. Nos torna humanos imóveis, impassíveis em vias de desaparecer no antes espetáculo da natureza.

Por fim, Latour lembra novamente da bifurcação na natureza, de Whitehead, que agora se transmuta em qualidades primárias que são de sensibilidade e incerteza. Acontece que Latour ressalta que não se trata de uma antropomorfização da natureza a partir de nossos valores, mas de nos enquadrar nesse novo cenário em que perdemos o papel principal, ainda que na época do Antropoceno.



[i] Resenha da Terceira Conferência de Bruno Latour: Gaia: uma figura (enfim profana) da natureza. Em LATOUR, B. Diante de Gaia: oito conferências sobre a natureza no Antropoceno. São Paulo / Rio de Janeiro: Ubu Editora / Ateliê de Humanidades Editorial, 2020.

[ii] Tão simples quanto o telescópio de Galileu, mas para descoberta oposta, segundo Latour.

[iii] O que quer dizer corruptível, mas animado.

[iv] Potência de agir e comportamento são elaborados na segunda conferência, a qual já tratamos.

[v] Precisaríamos voltar à primeira conferência para revisitar o tratamento desse tema.

[vi] Autor que teremos que investigar, mas que Latour usa para opor uma natureza inanimada à nossa natureza animada.

[vii] Talvez seja possível fazer uma aproximação com Simondon, tópico Evolução da Realidade Técnica, referência: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/05/para-uma-educacao-tecnica.html.

[viii] Isto é, segundo ele, geoquímica versus geofisiologia.

[ix] Conforme https://pt.wikipedia.org/wiki/Lynn_Margulis: Lynn Margulis foi uma bióloga e professora na Universidade de Massachusetts. (...) Margulis também foi a co-desenvolvedora da hipótese de Gaia com o químico britânico James Lovelock, propondo que a Terra funcionasse como um sistema único de autorregulação, e foi a principal defensora e promotora da classificação dos cinco reinos de Robert Whittaker.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Químicos orgânicos em Marte

Trata de elucidar alguns termos técnicos relativos à matéria sobre a descoberta de químicos orgânicos em Marte[i]

Olhar Digital informa que o rover Perseverance encontrou traços de compostos orgânicos no planeta vermelho, especificamente na Cratera Jezero onde a nave posou em fevereiro desse ano e que teria sido um grande lago há alguns milhares de anos[ii]. O rover Perseverance foi lançado em 30 de julho de 2020 e faz parte da missão Mars para “procurar sinais de vida antiga e coletar amostras de rocha e regolito (rocha quebrada e solo) para possível retorno à Terra”[iii].

A matéria informa que essa descoberta é um marco histórico pois, como os elementos são compostos por carbono, haveria a possibilidade de ter existido vida naquele planeta[iv]. Por outro lado, pela reportagem não se pode ter certeza já que tais complexos podem ser de origem não biológica e as conclusões, talvez, só possam ser aprofundadas com a volta da missão, prevista para 2031.

Mas é justamente o fato de ter havido água naquele ponto o foco da coleta. Também, pela presença de água ocorreu menos erosão e maior chance de armazenamento de vida nas rochas sedimentares[v]. Enfim, o rover segue sua missão de coleta de pedras para tentar verificar a habitabilidade de Marte, bem como desvendar um pouco mais da história daquele planeta. Inclusive com o uso do helicóptero Ingenuity a ele acoplado e que pode fazer voos multidirecionais aonde o rover tem dificuldade de acesso.



[ii] Marte é chamado de planeta vermelho em virtude da grande concentração de óxido de ferro (ferro e oxigênio) no solo. Conforme https://mundoeducacao.uol.com.br/geografia/planeta-marte.htm, sua temperatura média atual é de -60 graus, o que inviabiliza a presença de água em estado líquido.

[iv] Conforme Wikipedia: “O carbono é um componente-chave de toda a vida que ocorre naturalmente na Terra. Moléculas complexas estão estruturadas por carbonos ligados com outros elementos químicos, especificamente o oxigénio, o hidrogénio e o nitrogénio, sendo que o carbono é capaz de formar ligações com eles(...)”. Acesso: https://pt.wikipedia.org/wiki/Vida_baseada_em_carbono.

[v] “Rochas sedimentares são formadas pela deposição e compactação de diversos tipos de sedimentos ao longo de milhões de anos. Os principais agentes atuantes na área de origem dos sedimentos são o intemperismo e erosão. O intemperismo físico desagrega as rochas. O intemperismo químico transforma minerais e rochas em sólidos alterados, soluções e precipitados. Já a erosão remobiliza as partículas produzidas pelo intemperismo para outras áreas de deposição. As rochas sedimentares possuem grande importância econômica, dentre as quais destacam-se as jazidas de carvão, petróleo e gás, que são originadas de partículas orgânicas depositadas junto a outros sedimentos nas bacias sedimentares. Além disso, são as rochas sedimentares que abrigam os fósseis, que são os restos de animais e plantas que viveram no passado, e se preservaram nesse tipo de rocha, possibilitando a compreensão e interpretação da evolução da vida ao longo dos diferentes períodos de idade da Terra.” Conforme: https://www.infoescola.com/geologia/rochas-sedimentares/.