sexta-feira, 31 de julho de 2026

Futuridade

Procura mostrar que a invenção técnica não é hilomórfica, mas antecipa um potencial futuro

Imbricamento entre pensamento e matéria. Vimos na introdução[i] que “a inovação tecnológica é um lugar privilegiado no qual o pensamento se materializa concretamente”, ou seja, pela tecnologia pensamento e matéria se imbricam no processo de individuação. Podemos dizer que a ideia deixa de ser mental e se torna ferramenta.

Rede Técnica. Em um segundo movimento, a entrevista passa a abordar o ensaio Mentalidade Técnica[ii], e BM (Brian Massumi) mostra que ele antecipa preocupações que só se tornaram óbvias depois da internet quando ela difundiu a evolução da rede técnica. A rede reforça essa ideia de concretização, de individuação técnica já que nega que o objeto técnico é estático avançando de uma condição industrial fechada para uma condição pós-industrial “aberta”.

Eficiência. Não obstante, BM alerta para que não tomemos o ensaio anacronicamente, sem o contextualizar com o restante da obra simondoniana. Ali, a terminologia usada fala de normas, de aproveitamento da natureza e da influência do consumismo no design técnico através de razões não técnicas. O ponto principal é que pode parecer que há, nessa proposta, favorecimento da eficiência pelo esquema cognitivo.

Controle tecnocrático. Ocorre que essa abordagem vem depois da distinção apresentada entre o modelo cartesiano, hierárquico e que prima pela estabilidade e o modelo cibernético, horizontal e que se regula por retroalimentação fazendo com que seja continuamente auto adaptável. Como Simondon é propenso para o lado cibernético, cno que Massumi chama de idealismo realista[iii], pode parecer que a “mentalidade técnica” se orienta pelo controle tecnocrático, o que seria um erro.

Normatividade. Embora ainda não tenha explicitado, BM reconhece a proximidade de Simondon com a cibernética ao mesmo tempo que diverge dela porque sua ética não é normativa e tecnocrática. Teremos um pouco mais a dizer sobre isso no parágrafo final, mas isso não é algo tratado por Massumi [ainda].

Esquema cognitivo. Adentrando na discussão, BM faz a ressalva que compreender o ensaio fora do contexto da obra simondoniana é tarefa árdua. Ele aborda o exemplo de Mentalidade sobre a turbina de Guimbal[iv], um caso real de invenção técnica no qual a tentativa de resolver um problema técnico de superaquecimento trouxe consigo a redução do tamanho do artefato. Como Simondon usa o termo esquema de concretização como dando origem a invenção e, ao longo do ensaio, ele também se refere ao esquema cognitivo, pode parecer que os termos são sinônimos. O resultado é que essa identificação poderia nos levar a entender o esquema cognitivo como um modelo mental que existe antes do objeto, na cabeça do inventor, e que é replicado no objeto material.

Repetição com semelhança. Se supusermos esse entendimento, a gênese do objeto técnico fica restrita ao pensamento humano, estritamente cognitiva como solução preconcebida que depois somente molda a matéria a sua forma. Assim, o processo técnico ocorre em um fluxo temporal que visa transportar uma ideia já pronta para sua versão física, isto é, do abstrato ao material[v]. BM destaca a repetição que ocorre, no futuro, da forma abstrata do pensamento na matéria, como mera semelhança. Ou seja, o processo de individuação não acrescentaria nada de material, o processo técnico perderia papel constitutivo, e o objeto técnico somente se conforma ao modelo formal[vi].

Hilomorfismo. Voltando à confusão entre concretização e cognição, BM esclarece que não é essa a visão de Simondon. Se a concretização fosse a materialização do esquema mental, ela seria um hilomorfismo, algo que reduziria a matéria a forma e ideia central contra qual nosso filósofo luta em sua obra. Destaquemos que a definição do hilomorfismo feita por BM fixa três elementos: (1) a forma já está pronta antes, (2) a matéria é inerte, (3) a relação entre as duas é de imposição, não de conformação.

Abandono do modelo mental. Se há um modelo mental abstrato, e de fato há conforme reconhece Massumi, ele por si só não resolve a questão, não é nele que Simondon irá focar no esquema de concretização.  

Futuridade. O caso da turbina de Guimbal mostra uma ação do futuro sobre o presente em oposição ao que seria esperado com causalidade do modelo hilomórfico-cognitivo, do passado para o futuro. Pelo exemplo, a invenção entra em funcionamento por uma causalidade circular.

Momento da invenção. Concretamente, poderia se supor que cada elemento natural, água e óleo, tem funções específicas, mas na realidade há potenciais multifuncionais[vii] ainda não organizados que se acoplam, no momento da invenção, formando um sistema único. Não se trata de uma mente decidindo por meio de um modelo cognitivo já que o sistema se forma somente a partir do encaixe.

Autonomia. Repentinamente, há mudança de plano, uma descontinuidade que origina um novo regime de funcionamento emergente que não é a soma das partes. Algo que BM classifica como salto quântico, haja vista não ser um mero acréscimo gradual, mas uma mudança qualitativa. A partir desse momento, o sistema passa a se manter sozinho mediante as trocas de energia dos materiais e sem que haja necessidade de operação ou reparo externo.

Continuidade. Cabe frisar que, inicialmente, óleo e água estavam separados por vários fatores, como temperatura e pressão, e cada um se limitava a seu campo energético. Em termos simondonianos: antes do acoplamento havia uma disparidade[viii] entre os campos energéticos dos elementos que se transforma em continuidade a partir do encontro. Ocorre que as diferenças de fatores persistem depois da emergência “mas há também algo mais, que saltou para a existência”, como explica BM.

Identificação e separação. Não há causa nova aí, mas um novo plano de operação que resulta do feedback recorrente entre óleo e água, contínuo e autossustentável[ix]. Destaca-se, sobretudo, que a continuidade ocorre na diferença, ela a atravessa e é feita exatamente da relação entre campos díspares. Mas ela é continuidade e, sendo assim, tem autonomia operativa própria como regime novo. Identificação e separação acontecem juntas, no mesmo movimento.

Relação recíproca. Contudo, se essa autonomia pode ser vista como uma nova qualidade, ela é mais um efeito da disparidade [que não some] do que uma causa linear pressuposta pelo modelo hilomórfico[x]. A causa do novo regime é a relação dinâmica e circular entre as multifuncionalidades de cada campo e não a disparidade em si, como dado estático e unidirecional.

Paradoxo. Massumi aprofunda a análise ao argumentar que, antes do acoplamento, os potenciais dos elementos não estavam ativos, ou seja, não era um dado em vigor naquele momento. Mais do que isso, eles simplesmente não existiam em nenhum lugar. É somente quando ocorre a relação que surge o potencial e é esse evento que o constitui, do que BM conclui: “Se o potencial não existia efetivamente no passado, só há um lugar de onde ele poderia ter vindo: do futuro.”

Origem absoluta. É no instante do acoplamento que surgem os potenciais multifuncionais do petróleo e da água e é isso que caracteriza a invenção. No exemplo da turbina, o ativamento energético da relação traz para o presente, como um salto, algo que só pode ser descrito em termo futuros. Então, o objeto técnico não é produzido pela causalidade hilomórfica, supostamente linear, mas por uma ação do futuro sobre o presente fora da cadeia causal histórica, precisamente uma origem absoluta. É o efeito que condiciona retroativamente seu próprio potencial, sua condição de possiblidade, por meio do ato de emergir e maneira autocondicionada.

Uma mente coadjuvante. Com esse esclarecimento, BM volta ao termo “mentalidade” para considerar que, se há um modelo abstrato na mente do projetista, não é ele que determina a invenção já que o sucesso ou fracasso do objeto técnico está primariamente ligado à eficácia do efeito em um evento de tudo ou nada. O designer aparece como coadjuvante uma vez que a passagem de limiar pertence aos próprios campos e potenciais dos elementos. O designer segue a linearidade de passos, mas como forma de preparo das condições, evoluindo do passado da concepção abstrata em sua mente.

Solidariedade operativa. Ocorre que, ele reafirma, em determinado momento há um salto que atravessa o limiar e que não é mera continuação da série linear, mas, citemos: “a potencialização dos elementos atualmente presentes como função de seu futuro”. É o que BM cunha de solidariedade operativa: o resultado do acoplamento ainda que a disparidade de campos persista (ou, apesar dela).

Holismo. Por fim, a despeito dessa solidariedade, Massumi vai negar que ela seja uma acumulação gradual ou a soma de partes fragmentadas, já que essas duas possibilidades pressupõem que algo que ele descarta, qual seja, que o todo se reduz à soma das partes. Isso porque, ele diz taxativamente que a solidariedade não pode ser decomposta de volta em seus elementos constituintes sem que haja perda e afirma que ela é holística. Simondon, nega, de acordo com ele, que os elementos formem uma unidade estrutural (ao modelo cartesiano) em detrimento do acréscimo de uma dimensão nova de existência sobre a disparidade, a citada solidariedade operativa, o regime de funcionamento emergente[xi].

Então, caracterizado como secundário, o esquema cognitivo não produz o salto, uma vez que é o esquema de concretização que leva a esse evento holístico e indecomponível de solidariedade operativa, que não é resultado da execução de um plano. E, podemos acrescentar, a “mentalidade técnica” de Simondon não é normativa, tecnocrática porque não se define por imposição de forma (hilomorfismo) nem por controle regulador externo. Ela define-se pela capacidade de reconhecer e favorecer emergências holísticas que os próprios materiais, em relação, produzem.

Se a proximidade com a cibernética é real, já que ambas valorizam feedback e autorregulação sobre hierarquia fixa, a “regulação” simondoniana diverge dela porque não é normatividade imposta, é efeito autônomo de uma relação, origem absoluta sem causa determinante prévia.



[i] Conforme “Por que Simondon hoje” https://bit.ly/4yhk4Ck.

[ii] https://www.researchgate.net/publication/326700191_Mentalidade_Tecnica - O ensaio "A Mentalidade Técnica" (La mentalité technique, 1958) do filósofo francês Gilbert Simondon é um manifesto pela superação da alienação entre cultura e tecnologia. A obra argumenta que a técnica constitui uma modalidade de conhecimento original e autônoma, essencial para a compreensão do mundo contemporâneo. (Visão geral criada por IA).

[iii] O idealismo realista de Simondon é citado por Massumi nesse momento, mas ele não explica, ainda. Contudo e baseado em elucidações com o Claude, parece que ele se refere ao que foi dito na introdução, o imbricamento entre pensamento e matéria. Uma leitura possível seria, conforme a pesquisa que fizemos: o modelo cibernético agrada a Simondon porque nele a “ideia” (o regime de funcionamento, o novo plano de operação) não é imposta de fora sobre a matéria - ela emerge do próprio encontro real entre os elementos (óleo, água), e mesmo assim tem uma espécie de autonomia e consistência formal própria uma vez que surge (o “regime” é real, tem eficácia própria, não é redutível às partes).

[iv] Jean Marie Claude GUIMBAL (1920-2013) - https://annales.org/site/archives/x/guimbal.html. O texto é simultaneamente um testemunho autobiográfico, uma crítica institucional da pesquisa científica e uma defesa da invenção técnica como um processo longo, imprevisível e profundamente criativo:

[v] Algo tratado aqui https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/05/para-uma-educacao-tecnica.html, “Para uma educação técnica, que compreenda a evolução do objeto”.

[vi] Interessante notar a terminologia aristotélica de forma e matéria, como a que se dá na relação entre potência e ato. (Com ajuda da IA).

[vii] Água = (1) fonte de energia, (2) meio de dissipação de calor. Óleo = (1) condutor de calor até a carcaça, (2) isolante, (3) lubrificante, (4) barreira contra infiltração de água (via diferença de pressão).

[viii] Parece que disparidade tem ressonância com o conceito de campos incompatíveis que só se resolvem numa operação de individuação.

[ix] O exemplo da turbina Guimbal mostra que não há uma hierarquia predefinida entre óleo e água mas um circuito de feedback do qual emerge o regime de funcionamento novo (a autossustentação da turbina). Ou seja: a auto-regulação vem primeiro, funcionalmente; qualquer ordem/hierarquia que se possa depois enxergar no sistema é efeito desse processo, não sua causa. É nesse sentido específico e limitado que cibernética e Simondon "se parecem": ambos rejeitam a ideia de que o sistema precisa de uma hierarquia fixa e externa para funcionar bem, e ambos colocam o feedback recorrente como o que realmente sustenta e produz qualquer ordem funcional. (Com ajuda da IA).

[x] Podemos dizer que ser efeito de algo não implica que esse algo seja sua causa eficiente, de novo no sentido aristotélico.

[xi] Vale ressaltar que algo pode ser holístico e ainda assim se decompor, se as partes se mantiverem com a perda da propriedade do todo. No caso em questão, da turbina, o processo é irreversível porque se as partes se agregam solidariamente, que é a propriedade holística de autossustentação e autonomia operativa, mais do que a soma das partes.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Precariedade

Começamos a nos aventurar pela “Comunicação Precária”, livro do professor André Lemos do Laboratório 404[i]. O número 404 remete ao famoso e comum erro do protocolo de internet que ocorre quando uma aplicação não faz o que supostamente deveria fazer, mas acaba não fazendo nada e devolve uma página de erro.

Acontece que é exatamente extrapolando essa condição, que o professor propõe que a tecnologia (ou cultura digital) é errática, primordialmente. Mas não só ela, o mundo é precário e errático e nossa própria condição humana e os objetos. Nesse sentido, temos uma ontologia do erro, mas também uma epistemologia, isto é, admitindo que a tecnologia é precária e aceitando essa condição, podemos estudá-la sobre essa ótica.

Lembremos que Quine propõe esse tipo de abordagem para uma teoria, um pouco ao contrário, mas no mesmo limite de análise:

“Já o naturalismo nega que haja uma filosofia primeira que não seja experimental e fora da ciência, pois é essa última que diz o que é que existe (ontologia) e como sabemos o que existe (epistemologia), de como conhecemos o que existe”[ii]

Lembremos também que epistemologia e ontologia se imbricam em Simondon, já que para, ele “a inovação tecnológica é um lugar privilegiado no qual o pensamento se materializa concretamente”[iii], ou seja, pela tecnologia pensamento e matéria se imbricam no processo de individuação. Podemos dizer que a ideia deixa de ser mental e se torna ferramenta.

Lemos passará por Simondon, Heidegger, Latour e tantos outros, aguardemos as cenas dos próximos capítulos. Não obstante, Lemos cita Haraway: fazer com o erro. Isso significa que o objetivo da tecnologia é se fazer invisível, isto é, fugir do erro tentando trazer uma situação de normalidade quando, na realidade, é o oposto. Os objetos estão sempre falhando e, por consequência, nos irritando e nós, sempre esperando uma nova tecnologia promissora que resolverá todos os nossos problemas.

Ainda estamos no início, mas já passeamos por alguma genealogia do erro e da precariedade, e já vimos que o erro permeia a história da filosofia, desde o mito de Prometeu, que nos reconheceu limitados, até os nossos dias, com exemplos concretos que o professor traz. E é pela análise de problemas da cultura digital que emergem causas políticas, econômicas e sociais. Quer dizer, quando há um erro e um impacto social, o modo como cada país ou sociedade lida com essa situação mostra, de fato, o que é aquele lugar, desmascara-o.

Por fim, e ainda não terminamos o primeiro capítulo, Lemos trata nele da comunicação precária. Ora, o entendimento é precário, ele mostra, e isso nos remete a efevmo-me[iv]. Lemos é especialista em comunicação e sabe, e enfatiza, o caráter precário do entendimento dentro desse sistema. A despeito do não entendimento, vivemos. Mas esse serão temas para explorar, não sem uma breve citação à página 25: “O entendimento nunca é uma simples transferência de um enunciado para o receptor. A precariedade da comunicação refere-se à sua própria maneira de ser. A incapacidade de entendimento não impede que isso aconteça”.

A incapacidade de entendimento não impede que continuemos a explorar essa magnifica obra, tão sintomática de nossos tempos.



[i] LEMOS, André. A comunicação precária: erros, falhas e perturbações na cultura digital. Rio de Janeiro: Edições 70 / Alta Books, 2026.

[iv] Estante: https://bit.ly/efevmo-me-blog. EFEVMO-ME é o acrônimo que dá nome a nossa série de reflexões filosóficas (aqui e no YT) baseada na máxima: “Eu falo e você me ouve, mas entende?”. O termo é formado pelas iniciais dessa pergunta central, que guia uma investigação sobre o abismo existente entre a recepção física de sons e a compreensão real do sentido na comunicação humana. Como pontos principais já abordados no projeto, falemos de:

1.      Origem e Motivação: A questão surgiu de nossas inquietações práticas, motivadas por problemas comunicacionais ocorridos na última década em âmbitos pessoais e profissionais, além da observação da polarização política e dos efeitos da virtualidade nas relações humanas.

2.      Objetivo Filosófico: A série busca isolar conceitualmente o entendimento como um problema filosófico, evitando reduzi-lo a simples ignorância ou má-fé. O projeto investiga se o entendimento é um ato individual, um processo socialmente mediado ou um conjunto de regras linguísticas.

3.      Método de Investigação: Cada entrada da série submete a máxima ao escrutínio de um filósofo diferente (como Kant, Marx, Descartes, Aristóteles, Carnap, Quine, Habermas e Sellars, até o momento) para analisar como seus sistemas de pensamento respondem ao problema do entendimento.

4.      Uso de Inteligência Artificial: A construção utiliza ferramentas de IA (como ChatGPT e Gemini) para gerar as respostas iniciais sob a ótica dos filósofos, mas depois realizamos uma revisão e estruturação baseada em nosso conteúdo de mais de uma década de publicações aqui. 

terça-feira, 7 de julho de 2026

Por que Simondon hoje

Procurar explicitar por que estudar Simondon e coloca a velha ontologia no centro do debate[i]

Teoria. Massumi inicia com uma recapitulação histórica visando responder à pergunta do porquê Simondon hoje (em 2009, ano da entrevista), já que 20 anos antes ele não despertava interesse. O período dos anos 60-90 abre brechas na especialização do conhecimento ocorrida no pós-guerra e culmina em um campo interdisciplinar e sincrético classificado de “Teoria”[ii]. Isso de maneira infame, já que o nome sugeria abstração, exatamente o oposto do que a "Teoria" pretendia: conectar-se às práticas culturais.

Ciência e Cultura. Paralelamente, as tecnologias digitais que remodelavam o mundo levantavam preocupações tanto do conhecimento científico quanto dos estudos sobre cultura e de imbricamento entre poder e conhecimento. Nesse contexto, no qual se insere o famoso caso Sokal[iii] e que parecia querer trazer de volta a velha divisão, a unificação das duas culturas já era tida como certa[iv].

Epistemologia e Ontologia. Isso posto, iniciava-se uma era tida como pós-humana por uns e refém de zombaria pelo tom milenarista por outros. Entretanto, conforme coloca nosso autor, era possível afirmar que a tecnologia passava a constituir a vida humana, haja vista a biotecnologia. “Como nos tornamos ou nos transformamos” passa a ser uma questão que põe a ontologia no centro, mas não de modo estático, já que o “vir-a-ser” traz o conceito de ontogênese. Ali, o debate da tecnologia é visto de maneira tanto epistemológica quanto ontológica, ligado a práticas de conhecimento.

Individuação. Então, Massumi enfatiza que Simondon já havia escrito isso décadas atrás. Seu conceito de individuação primava pelo devir sobre o ser e mesmo o conhecimento é um pensamento que também se individua, assim como a matéria e em continuidade com ela e com a vida. Para Simondon, a inovação tecnológica é um lugar privilegiado no qual o pensamento se materializa concretamente, algo que a “Teoria” dos anos 90 não tinha condições de abarcar: a questão da ontogênese.

Construtivismo. Nesse ponto, o entrevistado diz que os próprios movimentos que abriram brechas e permitiram chegar à ontogênese, tornaram-se um obstáculo para resolvê-la. De acordo com ele, naquele momento havia uma orientação construtivista que tinha como base filosófica o devir e se alinhava a Simondon. Mas, esse construtivismo dos anos 1990 caminhou para uma construção de perspectivas socioculturais e subjetivas, em oposição a se perguntar como as coisas se formavam. Ele se concentra no plano humano e seus fenômenos, como linguagem e discurso[v] e reduz a constituição do humano a esse mesmo plano. São ferramentas conceituais já pré-humanizadas e que não permitem ir além do humano.

O não-humano de Simondon. Já do ponto de vista simondoniano, tornar-se humano é um processo que passa pelo não-humano como um deslocamento de fase ou como uma mudança de estado, em termos físicos, como a água virando vapor. O não-humano aparece da ontogênese, atravessa este processo e está presente de modo imanente, não externo, mas o construtivismo não tem capacidade de enxergar que o devir humano o pressupõe.

Realismo ingênuo. Para piorar, na argumentação de Massumi, o construtivismo tem medo de se aproximar de um realismo ingênuo ao tentar abordar o não humano por ele se aproximar da matéria. Havia um pavor com a ideia de que existe algo lá fora, sem mediação discursiva porque gerações de teóricos aprenderam que a ontologia era o inimigo. E até a epistemologia ficou sob suspeita pois de alguma forma pressupõe alguma ontologia, já que, para dizer que conheço X assumo que X tem algum tipo de existência. A conclusão é a de que o caminho que Simondon indicava era estruturalmente incompatível com o paradigma da época.

A-significação (ou significado não dado). Continuando o ataque ao construtivismo, o professor assere que se essa vertente unisse epistemologia e ontologia no nível material, para além do discurso e da cultura, poderia cair em uma filosofia da natureza[vi]. E coexistir essa filosofia com uma teoria da informação, de acordo com a argumentação, seria absurdo já que transferiria do humano para a matéria física o processamento de informação, algo considerado do domínio linguístico e discursivo. Se um átomo mudando de estado é informação, aí não temos o significado no sentido humano e seria uma informação “pré-semântica”.

Inventivismo Integral. Ocorre que, para Simondon (na visão de Massumi), o significado não está em uma estrutura prévia, mas emerge de um processo de individuação, ele é inventado, nas palavras do filósofo alvo da análise. Cabe a ressalva do entrevistado que não se trata de invenção técnica, como inventar uma máquina, mas de algo que acontece antes do humano, a nível físico e biológico. É o que Massumi chama de “inventivismo integral”, um construtivismo universal para além do plano linguístico-discursivo, então integral por abranger todos os planos. Enfim, um inventivismo capaz de aceitar que a própria natureza é criativa.

Novas correntes de pensamento. Retomando o fio da meada, a partir da “simplificação grosseira” que fez do construtivismo ele entende há condições (em 2009) para que essa teoria se torne um inventivismo, uma vez que surgiram novas correntes de pensamento. Entre elas, ele cita Deleuze e Guattari, Bergson, Spinoza e Whitehead, nomes associados ao devir e imanência. A linguística, na visão de Massumi, dá lugar ao afeto e a invenção aparece em Isabelle Stengers, por exemplo.

Para além da tecnologia. Se há boas condições, contudo, ele se preocupa com a concentração de estudos na teoria do objeto técnico de Simondon em detrimento da individuação que passa pela individuação física, a vital e a psíquica, isto é, individuação coletiva. É por meio da alagmática, que Massumi caracteriza como sendo “a teoria geral da mudança qualitativa (...) que se dedica a compreender esses modos de individuação em sua relação entre si” que se pode compreender melhor a tecnologia. Isso porque até no livro sobre tecnologia há estudo do objeto estético, além do técnico. É nesse contexto que a tradução de mais obras de Simondon permitirá compreender a sua tecnologia dentro do sistema filosófico mais amplo.



[i] Resenha da resposta à primeira pergunta da entrevista de Parrhesia (ARNE DE BOEVER, ALEX MURRAY e JON ROFFE) com BRIAN MASSUMI - autor de várias obras, incluindo Parables for the Virtual e A Users' Guide to Capitalism and Schizophrensia, além de tradutor de A Thousand Plateaus, de Deleuze e Guattari. O Professor Massumi leciona no Instituto de Comunicação da Universidade de Montreal, onde é responsável pelo Laboratório de Empirismo Radical.

[ii] Trata-se, de 40 a 60, da balcanização do conhecimento no qual as disciplinas acadêmicas (sociologia, filosofia, literatura, antropologia), vão se especializando cada vez mais, criando paredes entre si e da formulação canônica das “duas culturas” por C. P. Snow, sobre o abismo entre ciências exatas e humanidades. De 60 a 90, movimentos intelectuais, como estruturalismo, pós-estruturalismo e teoria crítica, furam as paredes disciplinares. (https://claude.ai/chat/c029e7ce-cb85-4e05-9387-e5158a461c36)

[iii] O Caso Sokal (ou "Escândalo Sokal") foi um famoso trote acadêmico orquestrado em 1996 pelo físico Alan Sokal, da Universidade de Nova York. Ele enviou um artigo propositalmente absurdo à revista de estudos culturais Social Text para testar se a publicação aceitaria um texto repleto de nonsense apenas por soar bem e bajular a ideologia dos editores. (Wikipedia)

[iv] Referências a Estudos de Ciência e Cultura, campo que inclui autores como Bruno Latour, Donna Haraway e Ian Hacking, que estudam a ciência não como verdade objetiva pura, mas como uma atividade social e cultural situada, como os cientistas realmente trabalham, negociam, constroem fatos em laboratório etc. “Poder-conhecimento” (pouvoir-savoir) é um conceito-chave de Michel Foucault: a ideia de que conhecimento e poder não são separáveis - todo regime de saber (inclusive o científico) está entrelaçado com relações de poder que definem o que conta como verdade, quem tem autoridade para falar, etc. Estudos de Ciência e Cultura, "poder-conhecimento" à la Foucault.

[v] É sempre saudável lembrar de efevmo-me (https://bit.ly/efevmo-me-blog) e como ele se debruça no significado.

[vi] Nesse caso, a natureza teria racionalidade própria? Schelling acreditava que a natureza é tão real e tem a mesma relevância que o eu, e mais, afirmava que os objetos da natureza, a sua objetividade, é que dá à nossa consciência o substrato, a matéria que iremos reproduzir em nossa consciência. (...) A natureza é idêntica a nós mesmos enquanto princípio de inteligência, nós somos o produto mais acabado da natureza, mas temos a mesma origem. O homem é o fim último da natureza porque é somente nele que se manifesta o espírito. (http://www.filosofia.com.br/historia_show.php?id=104).

terça-feira, 30 de junho de 2026

Sobre a constituição do nós técnico

Uma primeira passagem pela memória terciária[i]

Bluemink começa por asserir que, para Stiegler, enquanto seres humanos somos definidos pela nossa própria tecnicidade, já que ele considera que nossa consciência e essência são técnicas. Assim, para lançar luz no nosso presente, ele busca entender nossa origem humana por um processo de exteriorização em ferramentas e formas de matéria inorgânica organizada.

Essa leitura, continua Bluemink, está apoiada em Leroi-Gourhan e sua argumentação de que as ferramentas preservam traços de nossa espécie como uma memória coletiva e impessoal que nos permite conhecer o passado. Ela compõe um terceiro tipo de memória, que Stiegler classifica como epifilogenética, sendo a primeira a memória individual de nosso cérebro (epigenética) e a segunda a memória biológica evolutiva (filogenética). Entretanto, se não vivenciamos esse passado, pois ele é transmitido pela cultura, a epifilogênese constitui a memória que usamos para projetar nosso futuro ampliando a concepção husserliana da memória ao introduzir a dimensão técnica da retenção.

Chegamos então no ponto alto da argumentação de Bluemink, quando ele compara a abordagem de Stiegler com a de Husserl sobre a concepção da memória. É conhecido o exemplo que Husserl usa da melodia para mostrar que há um tipo de retenção primária, da percepção, que a consciência usa para constituir as notas enquanto as escutamos no fluxo temporal. Ocorre que, na visão de Husserl, quando nos recordamos da melodia posteriormente, fazemos uso de uma memória secundária, uma forma de imaginação, derivada da experiência. E é nesse ponto que Stiegler discorda já que ele afirma que a retenção secundária participa da constituição da experiência ao orientar aquilo que é retido na retenção primária.

Bluemink nos lembra que o ponto principal da argumentação de Stiegler é que podemos reescutar a mesma melodia inúmeras vezes graças à retenção terciária, que conserva tecnicamente o objeto temporal a partir de um dispositivo de gravação, seja ele analógico ou digital. Qual seja, pela técnica que permite a repetição. A retenção primária, nesse sentido, depende da secundária e terciária, ampliando os limites da fenomenologia husserliana e apontando para uma memória técnica externa que nos precede historicamente e nos entrega o mundo temporalmente.

Então o nosso autor acrescenta que, nas sociedades modernas, nos deparamos com objetos temporais industriais, produzidos em massa, por exemplo, pela indústria midiática e que atingem milhares de consciências simultaneamente, estruturando formas coletivas de atenção, memória e desejo. É pelas retenções terciárias que o capitalismo foi alçado a uma época hiper industrial e consumista na qual os objetos estão na base de nossos desejos e nossa atenção.

É por meio do conceito de memória terciária que Stiegler mostrará, em seguida, que a materialização da experiência, por meio da técnica, “constitui uma espacialização do tempo da consciência para além da consciência e, portanto, constitui um inconsciente, senão o próprio inconsciente”. A sua crítica será política, no sentido de que há influência dos suportes externos de consciência sobre a consciência humana individual tornando-se um obstáculo ao processo de individuação da consciência.

Bluemink finaliza com o diagnóstico de Stiegler de que deveríamos nos coletivizarmos para projetarmos um futuro comum a partir da consciência das memórias terciárias de nosso passado comum[ii]Ocorre que esse passado não foi de fato vivido por nenhum 'Nós' originário; é precisamente pelos processos de transindividuação que esse 'Nós' se constitui a partir de heranças técnicas compartilhadas. O processo de unificação teria atingido seu ápice nos séculos XX e XXI com as mídias técnicas e redes digitais que industrializaram os indivíduos. E o “Nós” é uma questão da economia política em seu todo. Isso mostra que Stiegler compreende a politização do ser humano por meio da técnica como adoção do Nós coletivo, colocando a memória terciária no centro da crítica da economia política.



[i] Notas sobre https://www.3ammagazine.com/3am/stieglers-memory-tertiary-retention-and-temporal-objects/ Stiegler’s Memory: Tertiary Retention and Temporal Objects. Matt Bluemink é um filósofo e escritor londrino. Seus principais interesses são as conexões entre filosofia, literatura, tecnologia e cultura. Ele é o fundador e editor de bluelabyrinths.com.  

[ii] Segundo Bluemink, a partir do capítulo “Eu e nós” de Técnica e Tempo 3, de Stiegler. As argumentações são de Técnica e Tempo 1, 2 e 3 assim como Por uma Nova Crítica da Economia Política. 

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Entre aceleração e ressonância

Trata dos desafios de uma vida moderna acelerada[i]

Modernização. Rosa começa dizendo que a modernização se resuma a acelerar a vida, por exemplo, no transporte sempre há mais pessoas se movimentando simultaneamente, e não só, também bens e matéria-prima, desde o transporte sobre trilhos até os aviões. E, agora, dados e informação.

Aceleração. Por outro lado, tendemos a temer que as coisas possam ficar rápidas demais e que não tenhamos condições de acompanhar[ii]. Então ele define o que é viver em uma nova sociedade, quer dizer, a partir de uma mudança sistemática de como estruturamos nossas vidas: precisamos acelerar para atingir estabilidade institucional, o que leva à aceleração social. Temos como meta um futuro no qual precisamos acelerar e inovar para permanecer onde estamos.

Dessincronização. O diagnóstico do autor é que isso leva a sérios problemas, já que não podemos acelerar o mundo todo porque há grupos sociais que não podem ou não querem acelerar gerando dessincronização entre grupos. Ele cita que a crise ecológica é uma crise de dessincronização e a política, já que é um processo lento demais para o mundo atual. Nossa psique teria dificuldades de acompanhar tal velocidade. Isso posto, que futuro nos espera?

Estabilização dinâmica. Entrando no detalhe, o sociólogo nos provoca se a modernidade ainda é um conceito útil[iii] haja vista sua multiplicidade, preferindo o termo moderno cujo modelo de estabilização e reprodução estrutural é dinâmico, qual seja, acelerar para manter, conforme sublinhado acima. Desde o século XVIII, a fórmula capitalista é que dinheiro só investido para ganhar mais dinheiro – o que ele classifica como algo que não é imoral ou injusto. Isso é verdade para empresas e economias nacionais; é necessário crescer para manter a estrutura institucional (empregos, impostos etc.). Ele cita o caso grego, cuja economia não cresceu em dez anos quebrando a previdência e uma grande crise orçamentária e até política (ele lembra o caso da vizinha Argentina, também). Se não há crescimento constante, há desestabilização institucional.

Tempo é dinheiro. Ocorre que o crescimento depende de aceleração e inovação para criar produtos e processos produtivos, afinal, “time is money”. Segundo ele, investimos tempo da mesma forma que investimos dinheiro. Ele lembra de Pierre Bourdieu e acrescenta que dinheiro também é um capital cultural, mas também precisamos ler, escrever e cuidar de nossa vida pessoal, do que se segue que tempo é capital social, por outro lado. Então, o que fazer nesta noite? Nessa reflexão, podemos lembrar que tempo é capital corporal e precisamos ir para a academia ou ao menos meditar para reduzir o estresse mental. De novo, é a lógica do aumento, no caso de nosso capital para termos recursos suficientes para mantermos nossas posições.

Promessa de crescimento. O poder político, continua Rosa, também se estabiliza dinamicamente por meios de eleições a cada quatro anos que só são vencidas quando se promete algum tipo de crescimento: mais riquezas, mais indústrias, mais universidades. Até na ciência, onde mais pesquisa significa mais conhecimento, o que ele classifica como algo incomum culturalmente, já que o conhecimento pode ser visto como um tipo de tesouro, como construir uma casa ou fabricar roupas. Ele lembra do conhecimento ancestral dos rituais que passa de gerações, comparando com o conhecimento da modernidade que se centra na ciência. O cientista deve prometer criar um conhecimento novo, provar que pode produzir uma novidade se houver dinheiro a ser investido.

Vida boa. Devemos sempre ultrapassar os limites, por mais que e u tenha corrido ano passado, esse ano devo correr mais! [para não perder a competição].[iv] E isso vale individual e coletivamente, conforme Rosa. Se o Brasil “precisa” estar entre as dez maiores economias do mundo, também precisamos ter um bom emprego e uma boa família, ainda que estressado. E ano que vem será pior. E não para melhorar, mas para permanecer. Internalizamos essa lógica por meio do triplo A: Availability, Attainability, Accessibility (Disponibilidade, Atingibilidade, Acessibilidade). Mas é o dinheiro que torna o mundo disponível (e acessível e alcançável...). Com ele podemos viajar, comprar coisas. E por que morar em São Paulo e não em Manaus? Queremos ir a museus, teatros, ter o mundo ao alcance, mas com dinheiro e esse é nosso conceito de vida boa. A jaula de ferro da modernidade, conceito de Weber, refere-se exatamente ao mote de crescer e inovar para permanecermos onde estamos[v].

Lógica do progresso. O problema, na visão dele, é que não é possível aumentar o tempo, o dia tem 24 horas. E ele traz um dado surpreendente: há cerca de 10 mil objetos em um lar de classe média contra 400 em 1900, mostrando a lógica do crescimento[vi]. Temos tanto a fazer e, como o tempo se torna um recurso muito escasso, há necessidade de acelerar transporte, comunicação... O mundo muda muito rápido e precisamos correr e realizar muitas tarefas simultaneamente. Essa lógica exige mais recursos e mais energia política, particularmente para que se eduque os jovens mais rapidamente exigindo mais energia física e política. No século XVIII, a lógica do progresso era vista como algo que traria uma vida boa superando escassez de tempo e pobreza por meio da tecnologia[vii]. Em nosso tempo, no século XXI, já não há mais essa esperança, ao contrário, não há esperança de um grande futuro e não se trabalha para uma vida melhor, mas para não termos vida pior.

Limites. Ocorre que nem tudo pode acelerar ao mesmo tempo. Vemos que essa pressão põe em perigo os povos indígenas e mesmo diferenciação entre classes porque é preciso agilidade e flexibilidade para seguir, conforme citação de Zygmunt Bauman[viii]. Rosa pontua quatro limites sistêmicos nessa dinâmica: primeiro, o limite ecológico, já que o meio ambiente não está preparado para esse ritmo, haja vista a poluição e o aquecimento global – há dessincronização entre a natureza e o nosso tempo. A democracia, conforme dito, também está em risco, já que precisa de tempo para diálogo e deliberação, as vozes precisam “ressoar” para acomodar as visões. Na economia, há dessincronização entre os mercados financeiros que operam por meio de algoritmos em frações de segundos enquanto a economia real consome tempo, por exemplo, para construir um carro, escrever um livro e para consumir essas coisas[ix].  

Ressonância. Por fim, precisamos repensar o que é uma vida boa já que a lógica de crescimento tem gerado doenças psíquicas como o burnout (esgotamento), isto é, por mais capital social, cultura e físico que se tenha, sentimo-nos desconectados e alienados – uma relação sem relação, segundo Rosa. Não há tempo para nos apropriarmos do mundo e entrar em um modo de ressonância onde se escuta e se responde.

O que faremos? Então, ele conclui que é necessário sair dessa lógica da estabilização dinâmica rumo a uma estabilização adaptativa, não estática. Precisamos, muitas vezes, acelerar e inovar para superar os problemas, porém visando mudar o status quo. Conforme seus exemplos, há lugares em que as pessoas passam fome e ali é necessário crescer, ou mesmo levar internet para regiões distantes. É preciso inovar em tecnologias verdes ou em algum medicamente novo para atender necessidades urgentes e não crescer e acelerar indistintamente. Não é exatamente um decrescimento, ele diz, mas sair da lógica de estabilização dinâmica por meio da ressonância, ouvindo e respondendo[x], como o projeto de Jena que ele cita e propõe mudanças práticas.



[i] Fichamento de https://youtu.be/Zsf_Wg1ll4A. Fomos sensibilizados por Michelle Prazeres. “'Tá exausto? Imagina no segundo semestre.” Vamos continuar querendo mais?… - Veja mais em https://www.uol.com.br/vivabem/colunas/michelle-prazeres/2026/06/07/ta-exausto-imagina-no-segundo-semestre-vamos-continuar-querendo-mais.htm?cmpid=copiaecola

[ii] Rosa se refere ao mundo fugidio de Anthony Giddens. Também Paul Virilio, “o mundo parece bater em nós como um acidente”. Anthony Giddens é um sociólogo britânico, renomado por sua Teoria da estruturação. Considerado por muitos como o mais importante filósofo social inglês contemporâneo, figura de proa do novo trabalhismo britânico e teórico pioneiro da Terceira via, tem mais de vinte livros publicados ao longo de duas décadas (Wikipédia). Paul Virilio foi um filósofo, urbanista francês, arquiteto, polemista, pesquisador e autor de vários livros sobre as tecnologias da comunicação (Wikipédia). Ver: https://www.youtube.com/watch?v=OAPn7pBP0L8.

[iii] Há muitas, conforme Shmuel Eisenstadt, sociólogo israelense, cuja pesquisa contribuiu consideravelmente para a compreensão de que a tendência moderna de uma interpretação eurocêntrica do programa cultural desenvolvido no Ocidente é um modelo de desenvolvimento natural visto em todas as sociedades ... o modelo europeu é apenas um: foi apenas o mais antigo. Começou a tendência. Mas as reações sociais, seja nos EUA, Canadá, Japão ou no Sudeste Asiático ocorreram com reagentes culturais completamente diferentes (Wikipédia).

[iv] Lembremos Michelle, nota [i].

[v] https://www.youtube.com/watch?v=0oUduAJ_5Wk – termo usado por Weber na Ética Protestante e Espírito do Capitalismo, alegoria da essência do sistema capitalista como sistema total (nos EUA associada a burocracia). Vida dura como a dureza do aço, pela lógica de ferro do sistema que subtrai a liberdade do indivíduo, escravidão sem mestre. Sistema impessoal. Weber é um pessimista e não vê saída dessa jaula, devemos nos conformar a ele – ao modo de Nietzsche, como heróis. Merleau-Ponty trata Georg Lukács no contexto de um marxismo weberiano – o conceito de retificação remodelado que inspira a Escola de Frankfurt no sentido da jaula de aço.

[vi] Assim como, de acordo com Kenneth J. Gergen, o número de pessoas que encontramos ou vemos em um dia é maior do que uma pessoa encontrava em toda a sua vida na Idade Média. Kenneth J. Gergen é um psicólogo social americano e professor emérito do Swarthmore College. Ele obteve seu Bacharelado em Artes pela Universidade de Yale e seu PhD pela Universidade de Duke. Wikipedia (inglês).

[vii] Podemos lembrar que Gilbert Simondon descreve o século XVIII como o nível elementar do desenvolvimento técnico, uma fase caracterizada por um profundo otimismo. Nesse período o progresso das técnicas e invenções ocorria de forma a não ameaçar os hábitos tradicionais da sociedade, permitindo uma convivência harmoniosa entre a cultura e o aparato técnico emergente. Essa era se distingue dos séculos XIX e XX, nos quais o surgimento das máquinas termodinâmicas e da informática passou a gerar angústia e alienação devido à falta de compreensão da relação entre o ser humano e o objeto técnico. (https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/05/para-uma-educacao-tecnica.html).

[viii] O conceito de "modernidade líquida" foi introduzido pelo sociólogo Zygmunt Bauman para descrever a condição contemporânea da sociedade globalizada. Esse conceito é uma metáfora para capturar a natureza fluida, volátil e dinâmica das relações sociais, instituições e identidades no mundo moderno. Bauman contrasta a "modernidade líquida" com a "modernidade sólida" do passado, onde as estruturas sociais, econômicas e políticas eram mais estáveis e previsíveis. (https://querobolsa.com.br/enem/sociologia/modernidade-liquida)

[ix] Consumimos um livro não quando compramos, mas quando o lemos, pontua sarcasticamente Rosa. Lembremos de “BIBLIOTECA” (https://www.youtube.com/watch?v=k9CbDcOT1e8).

[x] Eu falo e você me ouve, mas entende? (https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/search/label/efevmo-me).