Reflexões do Filósofo (de rua)
domingo, 31 de maio de 2026
Uma nota sobre arbitrariedade
terça-feira, 19 de maio de 2026
Tudo Ney
E aí,
beleza?
Ney.
Eita,
poxa. Mas desde quando?
Ah,
já tem um tempinho, mas nos últimos dias a coisa se intensificou.
E você
acha que dá para reverter?
Ney.
Entendi.
É fato consumado.
Parece
que sim, algo além do nosso controle.
E se
você vir a coisa de outro ponto de vista?
Ney.
Nossa,
é grave mesmo.
É. A
turma tentou bastante, mas a comoção foi maior.
Incrível,
algo que já parecia superado.
Não
tanto, a gente sempre carrega uns fantasmas no armário.
E como
vai ser?
Não
sei ainda, estou tentando me adaptar.
Ah.. o
que você tem feito?
Eu
procuro pensar em outra coisa, ligo a TV para espiar...
E?
Ney.
Santa
Edwiges.
Está
mais pra São Tomé, difícil acreditar.
É o que
dizem, se não tem tu, vai tu mesmo?
Eu não
queria que fosse, tantos sonhos. Todo um ciclo de espera.
Mas
vejo que já se está pensando no próximo, haja vista isso.
Mas
de pensar no futuro a gente não vive o presente.
E o que
é pior, virou-se tudo para o passado.
Sim,
um passado que já está aí há mais de quinze anos.
Última chance?
Isso
com certeza, inexoravelmente.
Então, bora
comprar a pipoca e ver no que que dá.
Ney!
sábado, 16 de maio de 2026
O entendimento da potência ao ato
Quando o ouvir é potência e o entender é ato
1. Sobre Aristóteles[i]. Aristóteles pertenceu à tradição da filosofia grega clássica e se distingue de seu mestre Platão por fundamentar o conhecimento na investigação das causas imanentes às coisas. Segundo a Stanford Encyclopedia of Philosophy, ambos são considerados os maiores filósofos de todos os tempos. Além disso, a obra aristotélica abrange uma impressionante variedade de áreas, desde a lógica, metafísica, ética, política, retórica, estética e até biologia empírica. Assim estabelece métodos e conceitos fundamentais que estimularam debates filosóficos por mais de dois milênios.
2. Aristóteles no blog[ii].
Aparece como o fundador da lógica e da metafísica, tendo sistematizado o
pensamento ocidental por meio do silogismo e da doutrina das quatro causas
(material, formal, eficiente e final) para explicar a origem e o propósito de
todos os seres. Ele definiu a substância (ousia) como a categoria
primordial do ser e o sujeito último de toda predicação, defendendo que a forma
é imanente aos objetos físicos e não transcendente como em Platão.
Na sua filosofia natural, descreveu a alma
como a "forma" que faz o corpo orgânico funcionar,
dividindo-a em faculdades vegetativa, sensitiva e racional, sendo esta última a
base para a ética da virtude e, em seu horizonte mais elevado, a busca da felicidade (eudaimonia)
através da atividade contemplativa. Além disso, sua epistemologia distingue episteme
(conhecimento teórico da natureza ou physis) e techne (saber
prático e produtivo), influenciando o desenvolvimento científico até a
modernidade.Parte superior do
formulárioParte inferior do formulário
3. Aristóteles na perspectiva da nossa
série[iii].
Aristóteles dialoga com os autores da série efevmo-me ao fundamentar o
entendimento na relação entre a alma racional (nous) e a realidade
concreta, recusando o dualismo de Descartes ao defender que a alma é a
"forma" imanente do corpo e não um "fantasma na
máquina"[iv].
Enquanto Kant desloca a lógica para o sujeito transcendental e a síntese das
representações como condições de possibilidade do conhecer, Aristóteles a
mantém ancorada na estrutura do ser para descrever suas propriedades em caminho
oposto. Sistematicamente, em Aristóteles do ser ao pensamento e, em Kant, do pensamento ao fenômeno (a
famosa revolução copernicana).
Em contraste com o materialismo de Marx, que vê a consciência como produto das condições materiais de existência, e a razão comunicativa de Habermas, que busca o entendimento no espaço público intersubjetivo, Aristóteles foca na virtude e na atividade contemplativa como caminho para a felicidade (eudaimonia). Por fim, sua divisão ontológica das faculdades da alma oferece um paralelo estrutural da divisão de Sellars entre senciência e sapiência (sentir x saber) que serve de base para o ingresso normativo no "espaço das razões" linguisticamente construído. Ressaltando que o nous, uma das faculdades da alma aristotélica, não é apenas uma construção linguística, mas uma faculdade que capta a essência real das coisas.
4. Nossa máxima sobre o ponto de vista de Aristóteles[v].
Pela lente de Aristóteles, a máxima “Eu falo e você me ouve, mas entende?” tocaria
diretamente o núcleo da teoria aristotélica do logos, do significado e da
comunicação. A resposta aristotélica seria, em linhas gerais, que ouvir não é
ainda entender e que entender exige uma partilha de formas inteligíveis.
5. Som (phone) e logos (λόγος).
No Da Interpretação (Peri Hermeneias), Aristóteles trata de sons vocais
como símbolos das afecções da alma, e as letras símbolos dos sons. Então, há um
som qualquer, mas há um som que significa algo por convenção, aí temos um nome
e só depois teremos logos, um enunciado que já está chegando no discurso apofântico,
que pode ser verdadeiro ou falso, ao contrário de ordens, perguntas e desejos. São enunciados que afirmam ou negam coisas sobre o mundo.
Já na Política, Aristóteles indica
que a phoné está associada aos animais, por exemplo, um grunhido que expressa
um prazer. O ser humano, possui logos que expressa o bem e mal, faz julgamentos. Vamos
lembrar que o ser humano é tido com um animal mais político que abelhas ou
outros gregários, pelo fato de logos, discussão de valores e isso se dá na
polis.
Assim, em “Eu falo e você me ouve” isso
ainda está no nível da phoné. E quando surge a pergunta “mas entende?”
indica-se que nem todo som ouvido é apreendido como portador de sentido.
6. Significar é evocar uma forma na alma.
Aristóteles afirma que as palavras são símbolos das afecções da alma, e que essas afecções são semelhanças (homoiómata) das próprias coisas. Ou seja, poderíamos inferir
que entender não é apenas ouvir um som, mas atualizar na alma a mesma forma
inteligível que o falante pretende significar. Se o som chega ao ouvido, mas
não desperta a forma correta no intelecto, não há entendimento.
7. Entender exige um koinón (algo comum[vi]).
Para Aristóteles, a comunicação só funciona porque há uma natureza humana
compartilhada, formas inteligíveis comuns, hábitos linguísticos e conceituais
partilhados. A nossa máxima poderia ser lida, aristotelicamente, como a
constatação de que o lógos só se completa quando há comunhão de formas, não
apenas transmissão de sons. Sem esse koinón, a fala falha enquanto lógos, mesmo
que funcione como som.
8. A ambiguidade e o equívoco.
Aristóteles também enfatiza que palavras são convencionais, o mesmo som pode
significar coisas diferentes, o equívoco é estrutural à linguagem. Assim, você
pode ouvir perfeitamente e ainda assim apreender outra forma, outro sentido, ou
nenhum sentido[vii].
Então, nossa máxima captura exatamente essa possibilidade permanente de
desalinhamento semântico.
9. O papel do intelecto ativo.
No De Anima, Aristóteles distingue o intelecto passivo, aquele que
recebe, do intelecto ativo, aquele que atualiza. Ouvir pertence ao nível
sensível. Entender pertence ao nível intelectual. Portanto, nossa pergunta
final “mas entende?” seria, para Aristóteles, uma pergunta que busca saber se o
seu intelecto passou da potência ao ato, não obstante a obscuridade dessa passagem.
10. Formulação aristotélica para a nossa
máxima. Se Aristóteles reescrevesse nossa frase, ela poderia
soar assim: “Proferi sons significativos; teus sentidos os receberam. Mas a
forma que atualizaste na alma é a mesma que intencionei?”. Em termos
aristotélicos, nossa máxima expressa que falar é diferente de significar com
sucesso e ouvir é diferente de compreender. Se a compreensão exige comunhão de
formas inteligíveis, então a falha comunicativa não é acidental, mas estrutural.
Etimologias
Phone: φωνή (phōnē): voz,
som, tom ou linguagem.
Logos: λόγος (logos):
palavra, discurso, razão, argumento ou ordem cósmica.
Homoiómata:
ὁμοιώματα: semelhanças, figuras, formas ou aparências.
Koinon: coisa comum, público
ou partilha. Koinonia (comunhão).
[ii] Com base no histórico do Blog,
entre outras: Lógica Aristotélica (2025): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2025/11/logica-aristotelica.html,
Alma feliz (2024): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2024/11/alma-feliz.html,
A primeira doutrina da substância (2016): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2016/03/a-primeira-doutrina-da-substancia.html,
Teologia aristotélica (2016): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2016/06/teologia-aristotelica.html,
Causalidade, acaso e necessidade em Aristóteles (2021): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/04/causalidade-acaso-e-necessidade-em.html
e Sobre a evolução científica da antiguidade ao renascimento (2021): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/07/sobre-evolucao-cientifica-da.html.
[iii] Outros: O entendimento como ato
privado do pensamento (Descartes): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/01/o-entendimento-como-ato-privado-do.html,
O entendimento como questão transcendental (Kant): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/01/o-entendimento-como-questao.html.
As condições materiais que tornam o
entendimento possível (Marx): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/01/as-condicoes-materiais-que-tornam-o.html,
RIP Habermas: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/03/rip-habermas.html,
O entendimento contra o dado (Sellars): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/03/o-entendimento-contra-o-dado.html.
[iv] Expressão de Ryle, usada aqui para
nomear o dualismo cartesiano que Aristóteles antecipadamente recusaria.
[v] Conforme temos dito, para a série
EFEVMO-ME temos usado o ChatGPT para gerar o conteúdo de resposta do filósofo
para a nossa máxima e fazemos uma revisão. São dois objetivos: o primeiro é
escrutinar a máxima do ponto de vista do filósofo e o segundo é fazer uma
aproximação conceitual do filósofo, de maneira geral. Mostrando postagens com
marcador efevmo-me: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/search/label/efevmo-me.
No Canal: https://youtube.com/playlist?list=PLnDky5U6KdTn7T-fRc3YWlosgMpPVzH9k&si=I2HECee5weE_WO13
- FEVMO-ME, por Luís Quissak, Playlist, Público, 6 vídeos, 44 visualizações “Eu
falo e você me ouve, mas entende?”.
[vi] https://www.youtube.com/shorts/LJenjUkW6bQ
no contexto político.
[vii] Olha a semântica: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/05/a-semantica-da-mediacao-simbolo-e.html.
quarta-feira, 13 de maio de 2026
A Semântica da Mediação: Símbolo e Significação em Aristóteles
Apresenta
a teoria aristotélica da linguagem como um sistema de símbolos convencionais
que representam as afecções da alma e possibilitam a comunicação e o julgamento
da verdade[i]
A impossibilidade do diálogo.
Dinucci traça um panorama de época no qual os sofistas, por um lado, entendiam
que a linguagem estava associada ao ser, isto é, dizer algo é dizer sobre algo
existente, com ligação direta entre palavra e ser. Nesse cenário, o erro era
impossível já que dizer o falso seria dizer o “não-ser”, que é impronunciável.
Por outro lado, o uso da linguagem como ferramenta de persuasão fazia com que
não se tivesse garantias sobre o que é dito. Ou seja, ou a linguagem estaria
presa ao ser ou ela seria extremamente livre ao poder de argumentação,
manipulação. De toda forma, vemos que a linguagem era valorizada pelos
sofistas.
Formulação aristotélica.
É nesse contexto que Aristóteles propõe que as palavras são símbolos (symbolon)
e, conforme sabemos, um símbolo é uma marca, um sinal. Mas para ele, conforme
explica Dinucci, elas são símbolos das afecções da alma e, desse modo,
Aristóteles separa a palavra da coisa fazendo com que a linguagem signifique a
coisa por meio da alma (psyché) e quebre a ligação imediata com o ser. E, pelo
fato de serem afecções da alma, é a alma que afirma e que nega [não o discurso
em si]. Outro ponto importante é que tanto as afecções da alma quanto as coisas
seriam iguais para todos, ao passo que as letras não. Isso quer dizer que a letra
varia e a afecção seria universal
Ao tomar nomes como símbolos, Aristóteles
entende que eles não são algo natural, como a proposta de Antístenes, mas uma
convenção humana. De fato, se fossem algo natural haveria somente uma língua,
mas sabemos que cada língua depende de regras de uso. Entre a visão de Górgias
de um abismo entre as palavras e as coisas e a relação imediata entre as
palavras e as coisas notada por Antístenes, a formulação aristotélica adverte
que a linguagem não tem relação de semelhança com as coisas, o símbolo não toma
o lugar da coisa.
Significação.
Aristóteles trata dos nomes que usamos na voz como símbolos, então sendo vozes significativas
convencionais, mas não se esquece das vozes significativas não convencionais,
aquelas dos animais, chamadas de naturais. Diferente dessas, a significação das
palavras depende fortemente da estrutura articulada e convencional da
linguagem. Cabe citar, uma elaboração tipicamente aristotélica, trazida por Dinucci:
“Se a voz é a matéria dos símbolos linguísticos, a estrutura articulada
é a forma da qual depende a significação, pois o sentido é, a princípio,
em função da estrutura”. Digamos que é a forma como empacotamos a mensagem.
Símbolo e signo.
Uma vez que as vozes naturais não são consideradas uma linguagem simbólica, é a
voz enquanto símbolo que permite comunicar um conteúdo que fixa o pensamento e
se relaciona com as afecções da alma[ii]. Mas é também signo
dessas afecções que são as mesmas para todos. Signo (seméion) é algo que não é
ele próprio, como o exemplo citado de que a fumaça é signo do fogo. Um grito de
dor é um signo: indica algo sem que ninguém tenha deliberado sobre isso. Uma
palavra é um símbolo: ela significa porque uma comunidade acordou, ainda que
tacitamente, que seria assim. A linguagem, enquanto símbolo, é um signo
convencional, citando: “símbolo é um conceito específico enquanto signo é o
conceito genérico que compreende o primeiro.”. Mas não é só signo, porque os signos
se relacionam ao real e aí só haveria uma língua.
Verdade. Até agora,
falamos de significar, mas isso não é o mesmo que julgar se algo existe ou não.
Para Aristóteles, a verdade reside na relação de semelhança do discurso que é
verdadeiro quando as conexões que ele articula se assemelham às conexões reais
entre as coisas. Ocorre que quem efetua esse julgamento, de fato, não é o
discurso, mas a psyché. É a alma que, ao apreender as afecções produzidas pelo
contato com o real, julga se a composição que o pensamento realiza corresponde
ou não ao que as coisas são. O discurso é o lugar dos símbolos convencionais,
signos que remetem às afecções psíquicas, enquanto a verdade acontece quando o
signo de uma afecção se assemelha efetivamente ao real que a produziu.
É desse modo que Aristóteles supera as dificuldades
postas pelos sofistas contra a ciência. Como Antístenes ata o ser à linguagem,
cria paradoxos como, por exemplo, dizer o falso é dizer o que não é, e o
não-ser não existe, então o falso seria impronunciável. Ao contrário, para Aristóteles
há o logos, a voz convencional significativa e o ser. Então, dizer o falso não
é dizer o não-ser; é compor uma proposição errônea. A lógica silogística
permite identificar onde a composição falhou e os termos foram conectados de
forma incompatível com as relações reais. Ela prepara caminho para o discurso
apofântico, esse capaz de ser verdadeiro ou falso e que pode revelar o real.
Regras do jogo.
Voltando para significação, Aristóteles propõe, conforme explanação de Dinucci,
que devemos nos fazermos compreender, através de uma voz significativa
convencional que não apenas transmite uma mensagem, mas revela a estrutura do
mundo real. Em oposição a Górgias, que valoriza o efeito que o discurso produz,
para Aristóteles, quando falamos, falamos de algo determinado.
No jogo dialético, segue Dinucci trazendo
para a argumentação o princípio de não contradição, é possível sustentar
posições opostas desde que em acordo com o princípio de não-contradição: uma
propriedade não pode pertencer e não pertencer ao mesmo objeto simultaneamente
e sob o mesmo aspecto. A contradição pode ocorrer fundada neste
predicado e neste sujeito.
Além disso, pela formulação psicológica do
princípio, a mesma pessoa não pode contradizer a si mesma dentro de um
argumento. Isso é exatamente o que faz o sofista: ao abrir a boca para negar
que a linguagem fala de algo, já está falando de algo.
Ameaças. Uma vez abarcada
em linhas gerais a teoria da linguagem aristotélica, Dinucci levanta pontos
fracos, sendo primeiramente que, dentro da formulação, um nome pode significar
várias coisas. Ora, se os nomes são convencionais e as coisas são em número
indeterminado, não há garantia de correspondência biunívoca entre palavra e
realidade[iii].
Aqui a equivocidade aparece como uma
possibilidade sempre aberta. Então, perguntamos: se cada palavra puder
significar muitas coisas, como nos entendemos[iv]? Como podemos garantir
que o interlocutor apreende o mesmo que o falante visava? É essa a brecha que o
sofista explora para criar paralogismos: ele usa a equivocidade para deslocar o
sentido de um termo ao longo do raciocínio.
Dado esse problema, a resposta
aristotélica reside em exigir que o nome tem de possuir uma significação única
no interior de um argumento[v]. Não que cada palavra sempre
tenha um único sentido, mas que, quando usada, esteja visando algo
determinado. Há também o problema dos nomes próprios que carregam
definições acidentais (p.ex., Sócrates) e os conceitos universais, como “homem”,
que são adquiridos indutivamente, sem que precisemos ver todos os homens para
formar o conceito. O que Aristóteles tem em vista não é a unidade do
significado e sim a da significação, “aquilo através do que o significado é
visado”[vi].
Unidade de sentido.
Fundamentalmente, podemos dizer que embora usemos nomes convencionais que se
multiplicam pela variedade de línguas, a teoria da linguagem de Aristóteles
procura preservar as afecções psíquicas, aquelas que são evocadas pelos sons,
mas são as mesmas para todos os seres humanos, porque derivam do mesmo contato
com o mesmo mundo. Essa é a regra semântica: palavras diferentes, em línguas
diferentes, afetam a alma de modo idêntico e, portanto, significam as mesmas
coisas. Ser e não-ser, portanto, não é uma questão de linguagem, mas de
realidade.
Se a linguagem pode compor erroneamente e enganar,
quando funciona bem permite correspondência entre palavras e coisas. A unidade
de sentido surge como condição de possibilidade de toda linguagem cujo fundamento
último é o princípio de não-contradição. Uma coisa não pode ser e não ser ao
mesmo tempo. É porque o real tem essa estrutura que a linguagem pode, ao menos
em princípio, alcançá-lo.
[i] Anotações sobre DINUCCI, A. L.
Notas sobre a teoria aristotélica da linguagem. Cadernos UFS: filosofia, São
Cristóvão, v. 5, p. 7-16, jan./jun. 2009. Disponível em: http://200.17.141.110/periodicos/cadernos_ufs_filosofia/revistas/ARQ_cadernos_5/aldo.pdf.
Acesso em: 05 maio 2026.
[ii] Aqui uma menção a https://bit.ly/efevmo-me-blog: parece
que é essa afecção que não muda que garante o entendimento entre alguém que diz
gato e outro que diz cat.
[iii] Russell toca nesse ponto: “A
descrição definida significa o nome próprio e cada pessoa pode ter uma. Aí
“Stalin”, uma palavra, pode ter diferentes significados e é pela ambuiguidade
que nos comunicamos. Conforme Russell, “Seria completa e inacreditavelmente
inconveniente ter uma linguagem não ambígua”” em O conhecimento por
familiaridade de Bertrand Russell: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2024/03/o-conhecimento-por-familiaridade-de.html.
[iv] Efevmo-me.
[v] Outra aproximação, aqui com
Strawson: “Uma forma de tratar o problema, proposta por Strawson, é não fazer a
distinção entre tipos de termos, mas entre tipos de uso dos termos, isto é,
quando determinada expressão é usada como um termo singular, etc., entretanto
haveríamos que sempre qualificar sua utilização.” em Filosofia da linguagem -
introdução e referência: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2022/10/filosofia-da-linguagem-introducao-e.html.
[vi] A unidade da significação é o "compromisso" que o falante assume com um sentido específico. Sem esse compromisso de visar algo determinado, a linguagem colapsa em ruído e a ciência torna-se impossível. Aristóteles não exige que as palavras sejam perfeitas, mas exige que o nosso uso delas seja rigoroso e orientado a um alvo fixo na realidade (by Gemini).
terça-feira, 21 de abril de 2026
Racionalidade, verdade e justificação
Apresenta a abordagem pragmática de Habermas sobre
verdade e justificação, além de destacar os diferentes tipos de racionalidade[i]
Em
Verdade e Justificação (1999), Habermas trata de verdade e justificação de
maneira pragmática, ante a pressupostos fundacionalistas e escapando de uma
visão realista. A sua epistemologia, conforme Araújo, passa pelos tipos de
racionalidade, uma abordagem pós giro linguístico e pragmático[ii] e, por
fim, verdade e justificação.
* * * Os tipos de
racionalidade * * *
A
racionalidade reflexiva está relacionada às convicções que as pessoas expressam
e na liberdade de escolha. A racionalidade epistêmica está ligada aos nossos juízos
e pretensão de verdade, onde há necessidade de justificação e aceitação racional
por uma terceira pessoa e por um saber que pode ser testado. Já a racionalidade
teleológica é atividade que busca fins e se orienta pelo êxito e as sentenças
intencionais não se furtam a fatores psicológicos.
Por
fim, a racionalidade comunicativa se diferencia porque produz entendimento[iii] guiado
por processos intersubjetivos situados no mundo da vida.
Conforme cita Araújo, a fórmula é “entender-se com alguém, a respeito de algo”
(p. 117), isto é, significado + uso. O ato de fala tem como objetivo
ilocucionário ser compreensível pelo ouvinte na medida em que sua verdade pode
ser justificada por argumentação racional[iv].
Pela TAC, por um lado, objetivos ilocucionários levam ao entendimento e, por outro, intervenções no mundo tem efeitos perlocucionários[v], quais sejam, tem influência causal[vi]. Se os usos teleológico e epistemológico não pautam a interação e vida em sociedade, os atos de fala levam o outro a se posicionar e é no telos da linguagem que o entendimento habita.
Em
um diálogo, se afirmo “que p”, a respeito de um estado de coisas, não preciso
argumentar porque a verdade reside na representação daquele estado (uso
epistemológico). Porém se afirmo “que p” visando concordância o ato de fala
deve ser assertórico, deve ser reconhecido como verdadeiro. Tudo isso dentro da
linguagem e da prática discursiva que considera o contexto do mundo da vida e
das práticas inerentes a ele, como tradições, costumes e meios técnicos que
conduzem a nossa capacidade de solucionar por problemas e, por consequência, formar
crenças e agir.
* * * Verdade e
justificação * * *
Para Habermas, a verdade é testada no discurso, mas
pretende valer além dele. Em Habermas,
conforme Araújo, os enunciados verdadeiros situam-se numa tensão entre a
justificação discursiva e a pretensão de validade que transcende os contextos.
A verdade é construída linguisticamente, mas aponta para a realidade,
sendo sustentada por pretensões de validade como sinceridade, publicidade e
equidade, que são testadas e revistas em processos de aprendizagem histórica, e
não fundadas em princípios a priori.
Justificamos no discurso, mas ainda buscamos uma
verdade que dependa do mundo.
Então, a verdade [pretendida] é examinada por meio do discurso intersubjetivo,
no qual enunciados falíveis são justificados publicamente. Porém, surge o
problema de como a verdade pode ajustar-se aos fatos, se, como observa
Wittgenstein, não podemos duvidar de tudo e partimos de certezas do mundo da
vida, enquanto os enunciados se constituem dentro de contextos linguísticos e
crenças compartilhadas que não se reduzem ao contextualismo, como em Rorty.
O discurso justifica entre nós, mas a verdade aponta
para o mundo. Há tanto processos
de justificação quanto a pretensão de verdade voltada ao mundo
objetivo. Os conteúdos veritativos referem-se aos fatos por meio de
recursos semânticos, constituindo as duas faces de Jano após a virada
pragmática: de um lado, a justificação discursiva; de outro, a referência à
realidade, ambas necessárias para a ação comunicativa e para que o discurso
contraia laços com o mundo.
Habermas tenta salvar a modernidade sem voltar aos
fundamentos absolutos nem cair no relativismo. De acordo com Araújo, Habermas assume uma posição
intermediária que tenta salvar o projeto moderno. Ele reafirma o compromisso
com os ideais da modernidade, mas evita tanto o idealismo subjetivo quanto o
realismo empírico de base analítica, criticando também o contextualismo
radical, o ceticismo e o relativismo das concepções pós-modernas[vii].
O discurso nos aproxima da verdade, mas a verdade não
se reduz ao consenso. Habermas procura
evitar que a assertibilidade racional sob condições ideais seja confundida com
o conceito de verdade. Embora o acesso à verdade permaneça discursivo, um
enunciado deve satisfazer uma propriedade de verdade que vai além da
justificação. O discurso funciona como filtro para examinar pretensões de
validade e estabelecer condições de verdade para crenças empíricas, que, no
mundo da vida, servem de base segura para a ação.
Primeiro agimos com certezas; quando elas falham,
começamos a discutir. Cabe notar que, no
trato cotidiano com o mundo, formamos expectativas e só debatemos a validade
dos enunciados quando essas crenças falham. Assim, a distinção entre verdade e
justificação atribui funções diferentes à ação e ao discurso: a ação depende de
crenças tidas como verdadeiras, enquanto o discurso examina criticamente
pretensões de verdade.
A verdade transcende a justificação, mas só acessamos
a verdade pela justificação. Como no discurso
os falantes pretendem uma verdade que transcende a justificação, o exame da
verdade ou falsidade dos enunciados aproxima o conceito de verdade da
aceitabilidade racional. Surge então o impasse entre aceitar a pretensão de
verdade de “p”, bem justificada, ou a própria verdade de “p”, impasse que se
resolve pelo modo como o discurso é usado para examinar criticamente essas
pretensões.
Quando a prática falha, discutimos; quando aprendemos,
voltamos a agir — mas agora com saber falível.
No uso cotidiano, quando as práticas fracassam, recorre-se ao discurso para
examinar crenças e produzir razões que permitam retomar a ação com confiança.
Nesse processo há aprendizagem, mas o saber resultante permanece falível e
revisável, ao contrário das crenças, que produzem certeza para a ação[viii].
A verdade surge quando crenças, mediadas pela
linguagem, aprendem com a resistência do mundo. Habermas supera o mito do dado, rejeitando a ideia
de um enunciado que confronta diretamente a realidade. A verdade, no
pragmatismo formal, depende de aprendizado constante em uma teia holista de
crenças mediadas pela linguagem. Contudo, isso não implica mera coerência entre
crenças, nem correspondência direta com o mundo. A verdade envolve referência
ao mundo independente, mas mediada linguisticamente, e exige que os enunciados
possam ser criticados e eventualmente refutados.
A
verdade não nasce da linguagem, mas só pode ser alcançada por práticas
linguísticas que aprendem com um mundo independente. Para Habermas, a verdade não é metafísica, mas
deflacionada e ligada às práticas linguísticas intersubjetivas, que permitem
justificar crenças sobre um mundo objetivo independente. A verdade não se reduz
à justificação, mas só pode ser acessada por ela, superando o dualismo entre
interior e exterior dentro de um realismo pragmático moderado.
A
verdade não está apenas nas sentenças, mas na cooperação discursiva que
sustenta a ação no mundo. Habermas supera
o conceito neopositivista de significado como verdade, incorporando a ideia de
significado como uso. No realismo moderado, a verdade não é apenas uma
propriedade semântica da sentença, mas também desempenha papel pragmático
ligado à ação e à assertibilidade justificada no discurso. Já na Teoria da Ação
Comunicativa, a verdade é buscada cooperativamente, por meio do exame
argumentativo de pretensões de verdade que orientam a ação.
Falar com validade não é apenas convencer, mas
reivindicar uma verdade que deve resistir ao melhor argumento livre e público. Para Habermas, o valor ilocucionário de uma
afirmação não se sustenta apenas em certezas práticas ou justificações, mas
exige um conceito epistêmico de verdade, estruturado pragmaticamente por
condições como participação pública, ausência de coação e sinceridade, ainda
que difíceis de alcançar.
A verdade é aquilo que orienta a ação como
incondicional, embora permaneça sempre aberta à revisão pelo discurso. Araújo conclui que, na teoria discursiva da verdade,
esta não se reduz à reprodução de fatos nem à mera aceitabilidade epistêmica,
mas resulta da interpretação discursiva de argumentos com pretensão de verdade.
Inserida no mundo da vida, a verdade orienta a ação por meio de proposições
tomadas como incondicionalmente verdadeiras, embora sempre revisáveis, reflexivamente.
Citando, por fim: “O nexo interno entre verdade e justificação se coloca nesse
nível, reflexivo. A resposta a este problema vem da relação entre ação e
discurso”.
* * * Resumo Storytelling por IA * * *
1.
Saindo do relativismo: a verdade é testada no discurso, mas aponta para além do
contexto. Habermas propõe um realismo pós-metafísico em que a verdade não
depende de fundamentos absolutos, mas também não se dissolve no relativismo
contextual.
2.
Justificamos publicamente, mas ainda buscamos algo chamado verdade. A
intersubjetividade nasce do mundo compartilhado, porém surge a tensão: se só
temos justificações discursivas, como a verdade ainda pode corresponder aos
fatos?
3.
Duas faces da verdade: justificar entre nós e referir-se ao mundo. Habermas
distingue entre processos de justificação discursiva e a verdade voltada à
realidade objetiva - como uma "face dupla" da linguagem.
4.
Uma modernidade sem absolutismos nem relativismos. Essa virada semântica
reafirma o projeto moderno, evitando tanto o idealismo subjetivo quanto o
relativismo pós-moderno.
5.
Aceitabilidade racional não é o mesmo que verdade. Habermas mantém o discurso
como caminho para a verdade, mas insiste que verdade não se reduz ao que é
racionalmente aceito.
6.
Agimos com crenças confiáveis, discutimos quando elas falham. No cotidiano,
assumimos crenças como verdadeiras; o discurso surge apenas quando essas
certezas entram em crise.
7.
A verdade é pretendida além das justificações. Mesmo justificando
discursivamente, os falantes continuam pretendendo uma verdade que transcenda
essas justificações.
8.
Do debate de volta à ação: quando a confiança retorna. O discurso restaura a
confiança nas crenças e permite que voltemos à ação direta no mundo.
9.
Aprender com o mundo: verdade como processo falível e progressivo: A verdade
surge de aprendizado contínuo, onde crenças são revistas à luz da experiência.
10.
Sem fundamentos absolutos: verdade dentro da rede de crenças. Habermas adota um
antifundacionalismo em que verdade e justificação dependem de redes holistas de
crenças.
11.
Sem justificativa não há verdade, mas justificativa não basta. A verdade não
se reduz à justificação, mas só pode ser afirmada por meio dela.
12.
Significado no uso: a verdade como prática social. A verdade deixa de ser
apenas propriedade semântica e passa a ter função pragmática na ação e no
discurso.
13.
Agir exige verdades confiáveis. Sem aceitar algumas verdades como confiáveis,
não seria possível agir nem tomar decisões.
14.
A verdade exige condições ideais de argumentação. A validade das afirmações
depende de condições discursivas como sinceridade, abertura e ausência de
coerção.
15.
Verdade como resistência à refutação. Um enunciado é verdadeiro quando pode
resistir a todas as tentativas de refutação em um discurso racional.
16.
Entre ação e discurso: o nexo reflexivo entre verdade e justificação. A verdade
é sempre revisável, mas necessária para a ação — e é nesse equilíbrio que
Habermas encerra sua teoria.
[i] Notas resumo de Habermas
e a questão epistemológica, terceiro tópico de “A natureza do conhecimento
após a virada linguístico-pragmática” em
https://periodicos.pucpr.br/aurora/article/view/1483/1414. De autoria de
Inês Lacerda Araújo.
[ii] Essa abordagem
foi tratada aqui: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/03/habermas-e-epistemologia-apos-o-giro.html
[iii] Efevmo-me? https://bit.ly/efevmo-me-blog.
[iv] Isso é possível? As pessoas estão dispostas a aceitar argumentos racionais?
[v] Conforme Austin https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2023/09/por-este-meio.html: Ilocução é o ato realizado ao dizer algo (como prometer, aconselhar ou ordenar), enquanto perlocução é o efeito produzido no ouvinte (como convencer, irritar ou enganar)..
[vi] Interessante que
o papel perlocutório tem, sim, influência.
[vii] Seria (ChatGPT): Immanuel
Kant → modernidade, G. W. F. Hegel → idealismo, Richard Rorty → contextualismo,
Michel Foucault → crítica pós-moderna.
[viii] Três níveis: crença (certeza prática), discurso (justificação), saber (falível e revisável).
terça-feira, 14 de abril de 2026
O entendimento a serviço da comunicação
Quando o entendimento emerge de práticas
intersubjetivas do mundo da vida[i]
1. Sobre Habermas[ii].
Jürgen Habermas pertenceu à segunda geração da Escola de Frankfurt e à tradição
da teoria crítica, sendo considerado um dos mais importantes filósofos e
teóricos sociais do pós-Segunda Guerra Mundial. Segundo a SEP, seu trabalho
abrange três grandes projetos: teoria social, ética do discurso e teoria
deliberativa do direito e da democracia. Sua proeminência decorre especialmente
do desenvolvimento da teoria da ação comunicativa, da noção de esfera pública e
da defesa de uma racionalidade comunicativa voltada ao entendimento
intersubjetivo, que renovaram a teoria crítica e influenciaram profundamente a
filosofia, a sociologia e a teoria política contemporâneas.
2. Habermas no blog[iii].
Aparece como sendo responsável pela transição da razão instrumental para a
razão comunicativa, focada no entendimento mútuo e na convergência racional no
espaço público. Sua proposta de pragmatismo formal substitui a de um sujeito
transcendental isolado por práticas linguísticas e sociais no mundo da vida,
onde a validade das normas e a verdade são estabelecidas por meio da
intersubjetividade e da argumentação entre interlocutores. Além disso, Habermas
defende um realismo pragmático, sustentando que, embora o mundo exista de forma
independente, os fatos e o conhecimento sobre ele são construídos e validados
linguisticamente através de processos de aprendizagem contínuos e falíveis.
3. Habermas na perspectiva da nossa série[iv].
Jürgen Habermas dialoga com os autores da série efevmo-me ao propor a transição
do paradigma da consciência individual para o da intersubjetividade,
substituindo tanto o cogito privado de Descartes e a razão transcendental
isolada de Kant por práticas linguísticas situadas no mundo da vida. Enquanto
Kant fundamenta a moral na razão prática universal do sujeito, Habermas a
socializa, defendendo que a validade das normas e a verdade dependem de
justificações racionais reconhecidas entre interlocutores no espaço público.
Em oposição ao materialismo de Marx, que
enfatiza a influência das condições materiais e econômicas na formação da
consciência, Habermas resgata o potencial emancipador da razão comunicativa
para salvar a democracia. Além disso, ele converge, em certa medida, com
Sellars ao entender que o entendimento não é um dado imediato ou passivo, mas
um ingresso no espaço das razões que exige assumir compromissos normativos e
práticos.
4. Nossa máxima sobre o ponto de vista de Habermas. Em
termos habermasianos, a nossa máxima “Eu falo e você me ouve, mas entende?” passa
pelo núcleo da teoria da ação comunicativa. Para ele, ouvir não é ainda
compreender, e compreender não é ainda entender-se (verständigung[v]). Vejamos.
5. Ouvir não é compreender, nem tampouco
alcançar entendimento mútuo. Para Habermas, a linguagem não é
primariamente transmissão de conteúdos mentais, mas coordenação intersubjetiva
da ação. Assim, quando eu digo “Eu falo e você me ouve”, isso descreve apenas
um fato empírico, um evento acústico-perceptivo que está longe da pergunta
decisiva “você entende?”. Em Habermas, há uma distinção entre entender o
significado linguístico (sinnverstehen[vi]) e aceitar a pretensão de
validade do que foi dito. Portanto, o verdadeiro entendimento não é
psicológico, mas normativo e intersubjetivo.
6. Entender é reconhecer pretensões de
validade. Os atos de fala, segundo Habermas, levantam
pretensões de validade. Quando falamos, nos comprometemos com inteligibilidade,
verdade, correção normativa e sinceridade[vii]. Nessas pretensões,
cabem as perguntas: “o meu enunciado é compreensível?”; “o conteúdo
proposicional é verdadeiro?”; “o que falo é apropriado segundo normas
compartilhadas?”; “o falante (eu, você) é autêntico?”.
Logo, a máxima poderia ser reformulada em
termos habermasianos assim: “Eu produzo um ato de fala; você o decodifica. Mas
você reconhece ou está disposto a reconhecer as pretensões de validade que eu
levanto?” Se a resposta for “não”, então não houve entendimento comunicativo,
mesmo que tenha havido compreensão linguística.
7. Entendimento não é acordo, mas
possibilidade de acordo. Cabe enfatizar que, para Habermas,
entender não significa concordar. O entendimento ocorre quando as pretensões de
validade são claramente levantadas, e podem ser aceitas ou criticadas
racionalmente. Isso significa que alguém pode entender perfeitamente o que eu
disse e rejeitar o que foi dito, sem falha comunicativa. Ela ocorrerá quando o
horizonte linguístico não for compartilhado ou quando uma das partes não se
reconhece como participante simétrico do discurso[viii].
8. Mundo da vida e horizontes de sentido.
A nossa pergunta também aponta para o mundo da vida (lebenswelt[ix]). Eu posso falar e você
me ouvir, mas você pode não compartilhar comigo as mesmas pressuposições
culturais, normas, ou formas de racionalidade. Nesse caso, o problema não é
cognitivo, mas hermenêutico-social: os horizontes de sentido não se sobrepõem
suficientemente. Desse modo, “não entender” pode significar que não se sabe o
que está em jogo no ato de fala, ou que não se reconhece porque aquilo importa
naquele contexto.
9. Diagnóstico habermasiano da nossa
máxima. Habermas diria que a nossa máxima revela uma ilusão
comunicativa moderna, ou seja, revela a ideia de que a comunicação bem-sucedida
é garantida pela simples emissão e recepção de sinais. Entretanto isso seria
típico de uma concepção instrumental da linguagem, que ignora sua dimensão
normativa e intersubjetiva. Em termos fortes, Habermas diria que você pode
falar, eu posso ouvir, e ainda assim não nos entendermos. Isso ocorreria porque
o entendimento não está no som, nem na mente, mas na possibilidade de
justificação recíproca.
10. Em forma de máxima habermasiana.
Nossa máxima sob o escrutínio de Habermas soaria como “Eu falo e você me ouve;
mas só nos entendemos se pudermos justificar racionalmente o que dizemos um ao
outro.”. O que pode ser resumido como: “Ouvir é um fato; entender é entrar em
um processo de justificação intersubjetiva.”
[i] Essa postagem é mais uma da série
EFEVMO-ME, feita com insights de IA, mas revisada por humano. É como se a IA
fosse o filósofo que a gente inquiri tentando obter uma resposta que nos
conforme, mas, ao contrário, cada vez mais abre o campo investigativo.
[iii] Com base no histórico do Blog,
entre outras: Habermas e a epistemologia após o giro linguístico-pragmático
(2026): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/03/habermas-e-epistemologia-apos-o-giro.html,
RIP Habermas (2026): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/03/rip-habermas.html,
O entendimento como questão transcendental (2026): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/01/o-entendimento-como-questao.html,
Hume anti cartesiano (2015): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2015/10/hume-anti-cartesiano.html.
[iv] Idem. Outros links: O entendimento
como ato privado do pensamento (2026): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/01/o-entendimento-como-ato-privado-do.html,
As condições materiais que tornam o entendimento possível (2026): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/01/as-condicoes-materiais-que-tornam-o.html,
O entendimento contra o dado (2026): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/03/o-entendimento-contra-o-dado.html.
[v] Verständigung, conforme ChatGPT, significa,
exatamente, chegar a um entendimento – algo que nossa série investiga. Na
teoria da ação comunicativa, por um lado há uso da linguagem para influenciar
ou persuadir (ação estratégica) e, por outro, há uso da linguagem para alcançar
verständigung (ação comunicativa). É um pouco disso que essa nossa reflexão
apresenta. Ação estratégica: https://revistaseletronicas.pucrs.br/veritas/article/view/8691/9031,
para vermos.
[vi] Sinnverstehen é o
entendimento do significado, oriundo da tradição hermenêutica alemã (Weber).
Então, se verständigung é entendimento mútuo com o outro, sinnverstehen é entender
o que foi dito (o significado). Conforme exemplo do ChatGPT, se eu digo “Está
frio aqui”, você pode entender o significado da frase, mas não entender a
intenção (pedido para fechar a janela, por exemplo). Assim, sinnverstehen está
no campo da compreensão semântica, isto é, no nível linguístico e verständigung
já vai para um entendimento comunicativo intersubjetivo, qual seja, nível
pragmático e comunicativo. Idealmente precisaríamos nos aprofundar na relação
Weber-Habermas: https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/76186/103945.pdf?sequence=1&isAllowed=y.
[vii] Aqui (https://ambitojuridico.com.br/a-teoria-discursiva-de-juergen-habermas/)
as quatro pretensões são tratadas: “Nos atos de fala consensuais, ou seja,
aqueles que são estabelecidos visando um consenso, um acordo sobre dado
assunto, se pressupõe o reconhecimento mútuo de quatro pretensões de validade: Primeiramente,
eu, como falante, tenho que escolher uma expressão inteligível para que meu
ouvinte possa me entender. Então a primeira pretensão se refere à compreensão
entre o falante e o ouvinte ou ouvintes. A segunda pretensão é que o conteúdo
que eu comunico seja verdadeiro. A terceira pretensão é que a manifestação de
minhas intenções seja sincera, para que o ouvinte possa crer no que manifesto,
basicamente, possa confiar em mim. E a última estabelece que eu, falante, tenho
que escolher a manifestação correta, com relação às normas e valores vigentes
na sociedade, para que o ouvinte possa aceitar a minha manifestação, de modo
que eu e o ouvinte possamos coincidir entre si no que se refere à essência
normativa em questão.”
[viii] Para Habermas, a comunicação
orientada ao entendimento (verständigung) pressupõe que os participantes tenham
igual oportunidade de falar e não estejam sob coerção ou dominação, conforme vimos
em RIP Habermas (2026) (em oposição a Bourdieu).
[ix] Lebenswelt é o horizonte compartilhado de significados culturais, normas sociais e competências comunicativas que torna possível o entendimento intersubjetivo.