Procurar
explicitar por que estudar Simondon e coloca a velha ontologia no centro do
debate[i]
Teoria. Massumi inicia com uma recapitulação histórica visando
responder à pergunta do porquê Simondon hoje (em 2009, ano da entrevista), já
que 20 anos antes ele não despertava interesse. O período dos anos 60-90 abre
brechas na especialização do conhecimento ocorrida no pós-guerra e culmina em um
campo interdisciplinar e sincrético classificado de “Teoria”[ii]. Isso de maneira infame,
já que o nome sugeria abstração, exatamente o oposto do que a "Teoria" pretendia: conectar-se às práticas culturais.
Ciência e Cultura. Paralelamente, as tecnologias digitais que remodelavam
o mundo levantavam preocupações tanto do conhecimento científico quanto dos
estudos sobre cultura e de imbricamento entre poder e conhecimento. Nesse
contexto, no qual se insere o famoso caso Sokal[iii] e que parecia querer
trazer de volta a velha divisão, a unificação das duas culturas já era tida como certa[iv].
Epistemologia e Ontologia. Isso posto, iniciava-se uma era tida
como pós-humana por uns e refém de zombaria pelo tom milenarista por outros.
Entretanto, conforme coloca nosso autor, era possível afirmar que a tecnologia passava
a constituir a vida humana, haja vista a biotecnologia. “Como nos tornamos ou
nos transformamos” passa a ser uma questão que põe a ontologia no centro, mas
não de modo estático, já que o “vir-a-ser” traz o conceito de ontogênese. Ali,
o debate da tecnologia é visto de maneira tanto epistemológica quanto ontológica,
ligado a práticas de conhecimento.
Individuação. Então, Massumi enfatiza que Simondon já havia escrito isso
décadas atrás. Seu conceito de individuação primava pelo devir sobre o ser e
mesmo o conhecimento é um pensamento que também se individua, assim como a
matéria e em continuidade com ela e com a vida. Para Simondon, a inovação
tecnológica é um lugar privilegiado no qual o pensamento se materializa concretamente,
algo que a “Teoria” dos anos 90 não tinha condições de abarcar: a questão da ontogênese.
Construtivismo. Nesse ponto, o entrevistado diz que os próprios movimentos
que abriram brechas e permitiram chegar à ontogênese, tornaram-se um obstáculo
para resolvê-la. De acordo com ele, naquele momento havia uma orientação construtivista
que tinha como base filosófica o devir e se alinhava a Simondon. Mas, esse
construtivismo dos anos 1990 caminhou para uma construção de perspectivas
socioculturais e subjetivas, em oposição a se perguntar como as coisas se
formavam. Ele se concentra no plano humano e seus fenômenos, como linguagem e
discurso[v] e reduz a constituição do
humano a esse mesmo plano. São ferramentas conceituais já pré-humanizadas e que
não permitem ir além do humano.
O não-humano de Simondon. Já do ponto de vista simondoniano, tornar-se
humano é um processo que passa pelo não-humano como um deslocamento de fase ou como
uma mudança de estado, em termos físicos, como a água virando vapor. O
não-humano aparece da ontogênese, atravessa este processo e está presente de
modo imanente, não externo, mas o construtivismo não tem capacidade de enxergar
que o devir humano o pressupõe.
Realismo ingênuo. Para piorar, na argumentação de Massumi, o
construtivismo tem medo de se aproximar de um realismo ingênuo ao tentar
abordar o não humano por ele se aproximar da matéria. Havia um pavor com a
ideia de que existe algo lá fora, sem mediação discursiva porque gerações de
teóricos aprenderam que a ontologia era o inimigo. E até a epistemologia ficou
sob suspeita pois de alguma forma pressupõe alguma ontologia, já que, para
dizer que conheço X assumo que X tem algum tipo de existência. A conclusão é a
de que o caminho que Simondon indicava era estruturalmente incompatível com o
paradigma da época.
A-significação (ou significado não dado). Continuando o ataque ao
construtivismo, o professor assere que se essa vertente unisse epistemologia e
ontologia no nível material, para além do discurso e da cultura, poderia cair
em uma filosofia da natureza[vi]. E coexistir essa filosofia
com uma teoria da informação, de acordo com a argumentação, seria absurdo já que
transferiria do humano para a matéria física o processamento de informação,
algo considerado do domínio linguístico e discursivo. Se um átomo mudando de
estado é informação, aí não temos o significado no sentido humano e seria uma
informação “pré-semântica”.
Inventivismo Integral. Ocorre que, para Simondon (na visão
de Massumi), o significado não está em uma estrutura prévia, mas emerge de um
processo de individuação, ele é inventado, nas palavras do filósofo alvo da
análise. Cabe a ressalva do entrevistado que não se trata de invenção técnica,
como inventar uma máquina, mas de algo que acontece antes do humano, a nível
físico e biológico. É o que Massumi chama de “inventivismo integral”, um
construtivismo universal para além do plano linguístico-discursivo, então
integral por abranger todos os planos. Enfim, um inventivismo capaz de aceitar
que a própria natureza é criativa.
Novas correntes de pensamento. Retomando o fio da meada, a partir
da “simplificação grosseira” que fez do construtivismo ele entende há condições
(em 2009) para que essa teoria se torne um inventivismo, uma vez que surgiram
novas correntes de pensamento. Entre elas, ele cita Deleuze e Guattari,
Bergson, Spinoza e Whitehead, nomes associados ao devir e imanência. A linguística,
na visão de Massumi, dá lugar ao afeto e a invenção aparece em Isabelle
Stengers, por exemplo.
Para além da tecnologia. Se há boas condições, contudo, ele
se preocupa com a concentração de estudos na teoria do objeto técnico de
Simondon em detrimento da individuação que passa pela individuação física, a vital e a psíquica, isto é, individuação coletiva. É por
meio da alagmática, que Massumi caracteriza como sendo “a teoria geral
da mudança qualitativa (...) que se dedica a compreender esses modos de
individuação em sua relação entre si” que se pode compreender melhor a tecnologia.
Isso porque até no livro sobre tecnologia há estudo do objeto estético, além do
técnico. É nesse contexto que a tradução de mais obras de Simondon permitirá
compreender a sua tecnologia dentro do sistema filosófico mais amplo.
[i] Resenha da resposta à
primeira pergunta da entrevista de Parrhesia (ARNE DE BOEVER, ALEX MURRAY e JON
ROFFE) com BRIAN MASSUMI - autor de várias obras, incluindo Parables for the
Virtual e A Users' Guide to Capitalism and Schizophrensia, além de tradutor de
A Thousand Plateaus, de Deleuze e Guattari. O Professor Massumi leciona no
Instituto de Comunicação da Universidade de Montreal, onde é responsável pelo
Laboratório de Empirismo Radical.
[ii] Trata-se, de 40 a 60, da
balcanização do conhecimento no qual as disciplinas acadêmicas (sociologia,
filosofia, literatura, antropologia), vão se especializando cada vez mais,
criando paredes entre si e da formulação canônica das “duas culturas” por C. P.
Snow, sobre o abismo entre ciências exatas e humanidades. De 60 a 90, movimentos
intelectuais, como estruturalismo, pós-estruturalismo e teoria crítica, furam
as paredes disciplinares. (https://claude.ai/chat/c029e7ce-cb85-4e05-9387-e5158a461c36)
[iii] O Caso Sokal (ou
"Escândalo Sokal") foi um famoso trote acadêmico orquestrado em 1996
pelo físico Alan Sokal, da Universidade de Nova York. Ele enviou um artigo
propositalmente absurdo à revista de estudos culturais Social Text para testar
se a publicação aceitaria um texto repleto de nonsense apenas por soar bem e
bajular a ideologia dos editores. (Wikipedia)
[iv] Referências a Estudos de
Ciência e Cultura, campo que inclui autores como Bruno Latour, Donna Haraway e
Ian Hacking, que estudam a ciência não como verdade objetiva pura, mas como uma
atividade social e cultural situada, como os cientistas realmente trabalham,
negociam, constroem fatos em laboratório etc. “Poder-conhecimento”
(pouvoir-savoir) é um conceito-chave de Michel Foucault: a ideia de que
conhecimento e poder não são separáveis - todo regime de saber (inclusive o
científico) está entrelaçado com relações de poder que definem o que conta como
verdade, quem tem autoridade para falar, etc. Estudos de Ciência e Cultura,
"poder-conhecimento" à la Foucault.
[v] É sempre saudável lembrar
de efevmo-me (https://bit.ly/efevmo-me-blog)
e como ele se debruça no significado.
[vi] Nesse caso, a natureza
teria racionalidade própria? Schelling acreditava que a natureza é tão real e
tem a mesma relevância que o eu, e mais, afirmava que os objetos da natureza, a
sua objetividade, é que dá à nossa consciência o substrato, a matéria que
iremos reproduzir em nossa consciência. (...) A natureza é idêntica a nós
mesmos enquanto princípio de inteligência, nós somos o produto mais acabado da
natureza, mas temos a mesma origem. O homem é o fim último da natureza porque é
somente nele que se manifesta o espírito. (http://www.filosofia.com.br/historia_show.php?id=104).