sábado, 31 de outubro de 2026

O sonho de Wiener

Um passeio pela proposta cibernética

Para Saturnino, há uma visão utópica e de otimismo científico que marca o projeto da Cibernética, pela via da comunicação. Uma vez que a informação se torna objeto quantificável, conforme definição de Shannon, ela pode ser analisada pelos cientistas do ponto de vista matemático, estabelecendo um aparato filosófico consistente. É nessa perspectiva que Wiener aparece como “pai da Cibernética moderna”, criando um método de medição da informação em experimentos eletrônicos. Seu livro Cybernetics or control and communication in the animal and the machine, publicado em 1948, funda, assim, uma nova ciência, seguindo a argumentação de Saturnino.

Conforme https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/10/tecnociencia-e-utopia.html.

O autor afirma que, apesar da noção de informação constituir o núcleo central da Cibernética, seu conceito é multivariado e, por isso, transdisciplinar, tendo diferentes usos. Em Ellul, ele comenta, vemos o paralelismo da teleologia da informação com o debate filosófico, no que tange à sua pluralidade. Devido a isso, pode haver apropriação política para um constructo conforme seu significado. Para Weaver, deveríamos considerar os problemas técnicos oriundos de sua quantificação, a questão semântica (significado e verdade) e impacto no comportamento humano. Do ponto de vista qualitativo, a análise envolve os campos pragmático (social, discurso), matemático (técnico, operacional) e semântico (cognitivo).

Em “Em busca do método mais eficaz” (2021), com base em Mocellin sobre Jacques Ellul, distingue-se a “operação técnica”, voltada à solução de problemas específicos, do “fenômeno técnico”, que busca o meio mais eficaz em todos os domínios da vida. Esse fenômeno é caracterizado por racionalidade, artificialidade, automatismo, autocrescimento, unicidade e universalismo. Por seguir leis próprias, a técnica moderna é autônoma e determinista: a eficácia prevalece sobre valores e escolhas humanas, o que ameaça a liberdade. Disponível em: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/07/em-busca-do-metodo-mais-eficaz.html.

Voltando ao pai Wiener, continua Saturnino, a noção de informação se refere a nossa troca com o mundo, de ajuste às contingências do meio ambiente. Ele traz o exemplo do termostato, que regula a temperatura ambiente por meio da troca de informação com o exterior. Seu sistema de autocontrole é baseado nas regras da Cibernética e é um princípio que serve como ponto de partida para o equilíbrio técnico e social. Do ponto de vista epistêmico, houve a troca de watts por bits, mostrando novo arcabouço do pensamento científico.

Para Wiener, toda relação no mundo, seja natural ou artificial, se dá mediante a permuta de informação, pela via da comunicação. Sob essa perspectiva, a sociedade seria, a reboque, homeostática. Na base, formulações de Leibniz sobre linguagem universal e automatização do raciocínio.

Contextualizando sua matemática, ela foi aplicada na II Guerra Mundial, no estudo do lançamento e trajetórias de projeteis pelas artilharias antiaéreas (1948). Elas usavam dispositivos eletromecânicos que se baseavam no feedback como mecanismo de retroalimentação do sistema, compensando desvios e corrigindo futuros erros. Isso era feito pelo comparativo entre comando e desempenho, permitindo padronizar o comportamento da máquina evitando ações que não correspondessem ao esperado.

Na fisiologia, Wiener observou, em testes com humanos, que a perda de coordenação motora de pacientes com ataxia era influenciada pela insuficiência de informações de feedback para o sistema nervoso. Haveria um sistema sensorial humano semelhante ao que operava nos dispositivos de controle, por depender de mensagens que caminhavam pelos músculos e órgãos dos sentidos.

https://www.rededorsaoluiz.com.br/doencas/ataxia. A ataxia é definida como sendo uma dificuldade ou mesmo incapacidade de se manter a coordenação motora como normalmente. São, essencialmente, dos movimentos voluntários que se perdem o controle, ou seja, aqueles movimentos que o paciente deseja fazer, como levantar ou mesmo erguer um garfo para se alimentar.

Recuperando o sonho iluminista de harmonizar máquinas, animais e humanos, ele procurou estabelecer uma dinâmica entre funcionamento das máquinas e organização social, traçando analogia entre o sistema nervoso e dispositivos de controle. De acordo com Saturnino, suas experiências matemáticas abrem caminho para o desenvolvimento da automação e “inteligência artificial”. Une engenharia elétrica e estudo de linguagem em uma teoria englobante de troca de mensagens.

Junto com Rosenblueth, participa das Conferências Macy, encontros interdisciplinares envolvendo antropologia, biologia, filosofia, entre outros, e nomes como Bateson, Mead, von Neumann, Shannon, de 46 a 53.

A teoria que ele propôs priorizava, detalhando um pouco mais, o estudo das mensagens como forma de controlar as máquinas e a sociedade. Mas Saturnino enfatiza que tal controle não seria de domínio, mas de regulação, de comando de processos comunicacionais, sejam naturais ou artificiais. Assim, criando um método de para resolução de problemas de comunicação.

Historicamente, nos lembra Saturnino, o termo “Cibernética” tinha aparecido já em Platão com a palavra “kybernetikos” associada ao controle das embarcações por pilotos e em Ampére (~1800), tratando de governabilidade, seguindo sentido platônico. Já Maxwell, anos depois, associou o termo aos estudos de mecanismos de repetição. Não obstante, Wiener o utilizará se referindo a “piloto” – controle de comunicação e seguindo descrição de Claude Bernard, na medicina, do isolamento e estabilidade entre meio interior e exterior. Esse princípio foi chamado de homeostase, por Cannon (agora já no século XX), tratado como propriedade tanto de seres vivos como de máquinas. Citando Martins, Saturnino procura mostrar que Bernard já propunha a construção de máquinas mais orgânicas com comportamento orientado a fins e com a capacidade de aprender e corrigir erros.

De posse de condição humana de regular a informação, a Cibernética então proporá que máquinas fossem criadas com tal mecanismo autônomo. Se em 48 Wiener procurou formular cientificamente a cibernética, uma segunda obra, conforme comenta Saturnino, irá divulgar a cibernética agora por meio da organização social. The Human use of Human Beings: Cybernetics and Society procura traduzir “sua teoria matemática em um valor social facilmente apreendido por diferentes tipos de pessoas”.

Aparece, então, uma segunda cibernética com Heinz von Foerster consolidando o conceito como programa para diversas áreas de pesquisa, impulsionadas também pelas contribuições de Shannon e Weaver. E, na biologia, com Maturana e Varela.

Saturnino enfatiza que o estratagema do projeto de Wiener era fazer com que todos os processos sociais se dessem por meio do paradigma da comunicação, que ela pudesse harmonizar as trocas interacionais nas sociedades. Assim, constituía-se em um valor que mediasse as relações tanto naturais como artificiais. Na obra de 50, surge essa premissa como razão ordenadora da sociedade e a utopia que permitiu, posteriormente, sustentar a tese da “homeostase social através do controle do seu processo”. Era um projeto ambicioso.

Ele acredita que o processo de partilha de mensagens, em si dinâmico, aleatório e complexo, se dava de maneira similar em máquinas, animais e humanos. O estudo das mensagens e facilidades de transmissão, pela matemática, poderia garantir uma homogeneização da entropia.

Há mudança paradigmática na proposta de Wiener de passagem de uma noção inicial de troca de informação para a comunicação. Para ele, uma sociedade tem uma natureza comunicacional (o ser-informação) que pode ser identificada pelos modelos de comunicação que ela utiliza (o ser -intérprete). Isso vale para sistemas mecânicos, biológicos e elétricos, tratando do que é comum entre eles. A comunicação passa de uma simples troca de mensagens entre emissor e receptor para uma proposição epistemológica que funda nas noções de informação e comunicação, estabelecendo uma nova metodologia científica.

Entretanto, deveria haver um compromisso social para guiar os avanços tecnológicos oriundos das descobertas cibernéticas. Para Wiener, somos seres livres e, como homens de bem, deveríamos usar a comunicação como meio para liberdade de expressão e troca livre de informação.

Não obstante aparente otimismo, ele temia que a humanidade pudesse ser seduzida pela inteligência das máquinas, como preludio para o fim da humanidade. A partir dessa constatação, no fim da vida alertou o público e a comunidade científica sobre os perigos das tentações científicas. Se a cibernética propiciava o avanço da genética, deveria ter uma responsabilidade moral ante a capacidade destrutiva da tecnologia.

E, de fato, constata Saturnino, que a Cibernética foi fonte de inspiração tanto para a indústria bélica como para teorias sociais. Sua influência foi fortemente notada nas conferências Macy e no conceito de sociedade de comunicação. Dado seu caráter “anárquico” constituiu tanto uma visão mecanicista do mundo como concepção orgânica da vida.

Finalizando, para Saturnino, o maior triunfo da proposta de Wiener terá sido o de tratar a comunicação como ideologia que permitisse suportar o fracasso das promessas tecnológicas predecessoras as guerras mundiais. Seria uma ideia comum que permitiria agregar conceitos díspares por meio de valores que proclamassem a diversidade e unidade do mundo.


Referências

SATURNINO, R. A retórica da ilusão: Esboços da Cibernética no rastro da Sociedade da Informação. Redes.Com, 10. 327-359. 2014. Disponível em: https://repositorio.ulisboa.pt/entities/publication/50b78ab7-a214-4f29-b08c-a5c810597001. Abstract: “O artigo destaca a importância de alguns fenômenos sociais que antecederam a entrada da informação no campo da disputa política e econômica. O objetivo é registrar como este processo preparou o terreno para a sua posterior digitalização e, consequentemente, para sua mercantilização, tornando-se num atraente campo de regulação submetido por lógicas de privatização e exploração comercial. O texto foi baseado no projeto da chamada Primeira Cibernética e os seus posteriores resíduos teóricos encontrados no rastro da produção científica das Ciências Sociais.”

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Tecnociência e utopia

Tratamos da primeira parte do artigo de Saturnino, que traz o percurso da noção de informação em sua relação com a ciência e a sociedade.

Tecnociência. Na introdução, Saturnino explora bastante a relação, senão simbiose, entre o homem e a máquina no desenvolvimento das tecnologias da informação. Nesse contexto, a tecnociência aparece como caminho para superação dos limites humanos. No campo da comunicação, o autor argumenta que “retóricas mecanicistas” se reiteram, ressurgem quando do intenso desenvolvimento das Novas Tecnologias da Comunicação e Informação (NTCIs), incidindo primordialmente entre as décadas de 70 a 90. Elas fazem um paralelo útil entre o que ocorre em um organismo vivo e numa máquina, de forma simplificada.

Internet. Um divisor de águas nessa trajetória, tratado por Saturnino, é a criação da internet que se torna terreno tecnológico para a execução de políticas econômicas, sociais e científicas. Grandes autores, como Lévy e Castells, emitem um discurso eloqüente sobre a tecnociência e, principalmente Negroponte, “chegou a considerar a era digital como uma força da natureza” (1995). Esse tipo de previsão [profética] de digitalização da sociedade aparece como prognoses prometeicas (expressão de Martins, 2011) do papel libertador que adviria do conhecimento científico.

Ciberespaço. Por seu turno, Castells vê a internet como tendo papel primordial dentro de um novo paradigma sociotécnico, por servir como uma base para as relações sociais que, complexas, se estruturam no seu caráter reticular. Conforme Saturnino, a internet, vista como cyberspace - utopia tecnológica, permitiria uma melhor administração dos fluxos informacionais sociais mediante suas teias.

Ser digital. Nesse sentido, promoveria uma inteligência coletiva, conforme Lévy, fazendo com que o individualismo, ao operar em rede, se tornasse uma forma de sociabilidade dominante. Saturnino aproxima essa perspectiva das ideias de McLuhan (não confundir com Luhmann) propondo que as experiências sociais, mediadas pela NTCI, trouxessem uma corporificação tecnológica pelo surgimento de um ser e um self digital. Temos, então, um “fantasminha tecnológico”.

Impactos sociais. Mas nem tudo são flores. O autor reconhece os impactos causados pelas inovações tecnológicas, haja vista que a ascensão de novos modelos empresariais e de ideologias que visam uma integração mundializada, determinaram uma nova existência cultural para o ser humano. Lembrando que toda essa transformação social é suportada por sistemas capazes de processar enormes volumes de dados e pela difusão de artefatos tecnológicos que domesticam a tecnologia, por serem cada vez mais amigáveis e acessíveis.

Neoliberalismo. Por outro lado, além das inovações da indústria, as pesquisas científicas no setor tecnológico também contribuíram para a centralidade da noção de informação, seja mediada por máquinas ou não. Saturnino cita que o conceito de informação, que ganha novos contornos a partir das formulações de Shannon, Weaver e Wiener (SWW), passa a ser visto como instrumento de poder. Tanto a ideia de informação quantificável, como a conceituação da cibernética, são condicionantes na formação de um novo projeto social e econômico que leva à busca de desregulamentação do mercado das telecomunicações nos EUA, no final do século XX (sic). Nesse período, com Clinton e Al Gore, há a cristalização desse alicerce para o desenvolvimento econômico mundial pela legitimação do consumo de informação e uso das novas tecnologias, embora permeado pela ideologia neoliberal.

Prosperidade. Segundo o panorama histórico traçado por Saturnino, esse universo imaterial ancorou grandes volumes de capitais suficientes para que a indústria eletrônica enfrentasse tanto a bolha da Internet, em 2001, quanto a crise financeira mundial de 2008. Cisco, Microsoft e Google, entre outras, acumularam rendimentos na casa dos bilhões de dólares. De posse dessa prosperidade, as empresas de tecnologia da informação se reconfiguram a partir do surgimento das redes sociais virtuais, com milhões de usuários ao redor do mundo.

Comunicação mercantilizada. Com esse panorama histórico de desenvolvimento social das NTCI e que proporcionou o êxito destas empresas, Saturnino buscará olhar para a Cibernética, oriunda de SWW, como marco histórico que legitima a comunicação como processo que integra a formação integral das sociedades. Para isso, ele vai mirar as principais teses sobre a informação e explorar traços utópicos presentes em Breton e Schiller, por exemplo. Sua análise mostrará que a comunicação passa a ser vista como paradigma dominante contemporâneo e que embasa fenômenos sociais influenciados pelas ideologias dominantes do pensamento ocidental. São processos que permitirão a digitalização da informação e sua regulamentação submetida à privatização e exploração comercial.

Esquecimento cibernético. De todo o modo, Saturnino se distancia tanto de certa tecnofobia como de um purismo humanista que desqualifica a tecnologia. Ele pretende analisar esse percurso desde a Cibernética até a Sociedade da Informação. Ora, para o autor, a primeira se silencia e se perde na segunda. Assim, esquece-se das Conferências Macy e da euforia científica que vigorou nos EUA, URSS e até no Chile de Allende, oriundas da Cibernética.

As Conferências Macy: Com o nome de The Macy Conferences, aconteceu, entre os anos 1946 e 1953, uma série de dez conferências interdisciplinares que levou à fundação do que hoje conhecemos como cibernética (https://pt.wikipedia.org/wiki/Macy_Conferences).

Cibernética autocrata. Esse esquecimento é caracterizado como uma perda de memória “convencional” nas ciências sociais e áreas afins. Mas, segundo ele, é ingenuidade negar a influência da cibernética no nosso modo de entender as formas de interação humana. E é lamentável confundir comunicação com os chamados media – meios de comunicação. De toda forma, Saturnino pretende nos lembrar de que as concepções de Wiener deixaram vestígios que serviram de base para uma cibernética autocrata e que se transforma em tirania informática que busca uma sociedade homeostática.

Conceito de Homeostase: A homeostase é qualquer processo de autorregulação pelo qual sistemas biológicos tendem a manter a estabilidade enquanto se ajustam a condições ideais para a sobrevivência. Se a homeostase for bem-sucedida, a vida continua; se não, o resultado é o desastre ou a morte. A estabilidade alcançada é, na verdade, um equilíbrio dinâmico, no qual ocorrem mudanças contínuas, mas prevalecem condições relativamente uniformes. A ideia geral desse processo de autorregulação foi explorada pelo fisiologista francês Claude Bernard em 1849, e o termo "homeostase" foi cunhado pelo neurologista e fisiologista americano Walter Bradford Cannon em 1926. Em https://www.britannica.com/science/homeostasis.

Roteiro de análise. Então, sua análise passará pelo projeto original da cibernética, pelos seus resíduos nas Ciências Sociais e pela análise da Sociedade da Informação, favorável aos interesses privados. Como pano de fundo transpassa o conceito de informação, que parte das premissas de Wiener e desemboca no campo das disputas políticas e econômicas.

Utopia. O pensamento ocidental, conforme comenta Saturnino, em algum momento visa rompimento com a tradição, como na “utopia” proposta por Thomas More, no século XVI. Em sua obra homônima, ele procurou, ante ao período em que vivia na Inglaterra, idealizar uma sociedade homeostática, conforme entende Saturnino. Entretanto, tal figura serviu, para uns, como alegoria da impossibilidade da realização do desejo do autor em forma de sátira, embora ela possa ter servido de base para a superação dos infortúnios políticos e sociais da época. Essa segunda visão é a que se difundiu, conforme Saturnino, elevando o otimismo científico que poderia superar doxa e dogma devolvendo autonomia aos seres humanos.

Ciência. A partir daí surge uma nova construção filosófica chamada “ciência”, a ciência moderna retomada pelos renascentistas que sobrepujaria, depois, os mistérios metafísicos dos séculos XVI e XVII. O cientista aparece como novo sacerdote possuidor da prova empírica que supera o pensamento teológico e pré-iluminista. Ele visa superar a contingência do mundo e suplantar a especulação filosófica.

Letramento. Ocorre que, ao passo que não mais especula, o homem também passa a querer dominar a natureza. Conforme elaboração cartesiana, há o progresso de técnicas úteis à vida que encontram lugar na obrigatoriedade escolar e surgimento da imprensa. Com esta última, difunde-se a utilização de livros, jornais e revistas, contribuindo para a possibilidade de redução da iliteracia.

Da ciência para a cibernética. Houve, nesse movimento, supervalorização da razão que se instrumentaliza já que ciência passa a ser usada como legitimação de argumentos políticos, aos moldes da religião. Porém, sem tutela religiosa, o conhecimento não se sustenta e se associa com uma mera repetição de verdades vazias. De acordo com Saturnino, há uma monolitização social do pensamento humano e o progresso científico leva à instrumentalização militar. O cenário ao fim da primeira guerra mundial é de combate ao otimismo científico e formulação de novas premissas. Aí emergem novos fenômenos, como a linguagem e a comunicação como forma de harmonização dos mundos social, biológico e maquínico. Algo típico do projeto cibernético original que veremos na continuidade da análise.

Representação Política e Científica em Latour: Conforme temos visto em Bruno Latour, há um tema interessante de pensar duas formas diferentes de representação, uma política (humana) e outra científica (natural). Seria um processo de purificação que separa natureza e sociedade.

Referências

SATURNINO, R. A retórica da ilusão: Esboços da Cibernética no rastro da Sociedade da Informação. Redes.Com, v. 10, p. 327-359, 2014. Disponível em: https://repositorio.ulisboa.pt/entities/publication/50b78ab7-a214-4f29-b08c-a5c810597001. Acesso em: 14 out. 2026.

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Informação definida em termos de probabilidade

Um percurso pela definição probabilística de Shannon e pelas abordagens que relacionam informação e significado.

Shannon (EUA, 1916-2001) aparece, obviamente, extensamente no artigo da SEP sobre informação. Logo nas definições técnicas do conceito de informação, quando se tentou, no século XX, formalizá-lo, levando-se em conta duas propriedades centrais: a de que a informação é extensa e que ela reduz incerteza.

Nota de Escopo: Aqui falaremos da informação do ponto de vista de Shannon, não de outros teóricos ou do percurso da sua história.

A primeira propriedade se baseia na aditividade, ao afirmar que dois conjuntos independentes de informação, se somados, contêm duas vezes a quantidade de informação, tanto quanto teriam se separados. Ela toma como exemplo a multiplicação logarítmica que se reduz a adição: loga×b = loga + logb. Essa formalização foi aplicada nas definições de entropia, inicialmente na Física, por Boltzmann, e depois emprestada por Shannon para a sua definição, como veremos.

Já a relação de que a incerteza diminui com mais informação aparece pela primeira vez com Locke e Hume, segundo o autor, esse último versando que uma escolha em um conjunto maior de possibilidades fornece mais informação (falamos sobre isso no artigo sobre indução). Entretanto, Shannon unifica os conceitos de extensividade e probabilidade na definição probabilística de informação: I(A) = −logP(A). Ou seja, a quantidade de informação em uma mensagem é o logaritmo negativo de sua probabilidade de ocorrência – teremos mais a dizer sobre isso na sequência.

Ocorre que Shannon se enquadra no ramo das teorias quantitativas da informação, que tratam da mensuração técnica, probabilística e estrutural dos dados, ao passo que há teorias qualitativas voltadas ao significado, veracidade e impacto da informação sobre um agente. Embora Shannon não a trate do ponto de vista semântico, sua noção de informação quantitativa é uma das mais conhecidas. Contudo, de acordo com a SEP, ela não capturaria a noção de desordem do sistema, que é essencial na termodinâmica, algo um tanto controverso porque a própria crítica compara eventos individuais (duas mensagens específicas), quando desordem, termodinamicamente, é uma propriedade do sistema como um todo (do conjunto de estados possíveis), não de um evento isolado. Isso ficará mais claro abaixo, mas vamos dar uma primeira espiada.

Supondo que, em um determinado corpus em português com significado comum, convencional, primeiro sorteemos a mensagem “sim” e, depois, “mis”. Naturalmente, a probabilidade de “sim” ocorrer é muito maior do que “mis”, então “mis” traz mais informação – um espanto. Porém, em português, “mis” não significa nada. Então, em si, “mis” tem quase zero informação semântica, mas uma alta quantidade de informação para Shannon.

Nosso exemplo deixa claro que a quantidade de informação presente em uma mensagem não determina seu significado. Tomando uma sequência improvável, que pode apresentar alta informação contida nela mesma, no sentido de Shannon, vemos que ela pode possuir um significado convencional no contexto considerado. Por outro lado, uma mensagem familiar pode ser perfeitamente compreendida sem trazer novidade relevante.

Então, o artigo cita de passagem a contribuição de Shannon no desenvolvimento histórico do significado do termo informação, que havia desaparecido na filosofia moderna e aparece com o matemático ao introduzir um método formal para mensurá-la. Embora, de forma heurística, em 1844, um assistente de Morse tenha utilizado um princípio de teoria de códigos ótimos para determinar a frequência das letras usadas em um jornal local em Morristown, EUA.

Conforme o artigo, Shannon se filia a uma tradição da Física proveniente de Galileu, que passa por entender conceitos abstratos, como calor e pressão, usando a matemática das probabilidades, como ponte entre o mundo micro e o macroscópico. Nessa linha, há uma evolução da teoria cinética, desde a proposição galileica do movimento das partículas, passando por Boltzmann, que formula a equação que relaciona a entropia com o número de combinações possíveis das partículas: S = k logW. A entropia S é a medida de desordem ou de estados do sistema, enquanto W são os microestados, as configurações invisíveis das partículas que produzem a mesma condição que vemos por fora (temperatura, pressão).

Daí surge a teoria da informação, com o log W podendo ser a quantidade de entropia do sistema, o tamanho da informação ou os dados necessários para detalhar cada microestado, o nível de incerteza sobre em qual estado exato as partículas estão ou, por fim, uma medida da probabilidade de encontrar o sistema em determinado estado. Até chegar na Ciência da Informação, com Shannon, que parte dessa estrutura matemática para criar a Teoria da Informação, medindo a entropia em sistemas de comunicação e dados. Shannon adapta a fórmula da Entropia de Gibbs, que mede o grau médio de incerteza, surpresa ou desordem de um sistema probabilístico, de forma mais geral.

Fórmula da Entropia de Gibbs
Representação matemática da Fórmula da Entropia de Gibbs

Já adentrando nas teorias modernas da informação, o artigo elenca Popper, o primeiro a tentar formular uma boa teoria formal para medir a quantidade de informação, no seu caso intimamente ligada à falseabilidade. Então Shannon aparece com a informação definida em termos de probabilidade.

O artigo da SEP menciona que, por usar o logaritmo na base 2, há garantia de que a medição ocorre em bits. E que, quando as mensagens de um sistema têm igual probabilidade de ocorrer, isto é, são típicas, a entropia de comunicação é máxima.

Lembrando da definição probabilística de informação, acima, o que se representa é a proporção de um evento acontecer em relação ao total de possibilidades. Assim, a probabilidade de um evento varia de zero a um, sendo zero impossibilidade e um, certeza. Já a quantidade de informação definida por Shannon varia em sentido inverso. Quando a ocorrência de uma mensagem é certa, a informação que carrega é zero; quanto mais improvável for o evento, maior será a surpresa associada à sua ocorrência. Para eventos de probabilidade zero, a expressão não fornece um valor finito.

Então, se px = 1, então I(x) = 0. Isso quer dizer que quando é certo que vamos receber a mensagem x, ela não traz novidade, porque quanto menor a probabilidade de ocorrência da mensagem, mais informação ela contém. Conforme o exemplo: “O sol nascerá amanhã”, traz pouquíssima informação. E lembremos também da propriedade da aditividade: I(x + y) = I(x) + I(y), para dois eventos independentes, a quantidade de informação em duas mensagens combinadas é igual à soma da quantidade de informação nas mensagens individuais.

Gráfico da função logarítmica representando a quantidade de informação
Gráfico gerado (com auxílio de IA) para demonstração visual do comportamento logarítmico na Teoria da Informação.

Não obstante, conforme o gráfico, como o logaritmo de base 2 não é positivo, há necessidade do sinal para garantir que não haja informação negativa.

Por fim, lembremos que, para Shannon, a informação de uma mensagem não depende do seu significado, mas da sua imprevisibilidade e, a partir daí, há filosofias da informação voltadas à semântica, como Bar-Hillel - Carnap e Floridi.

A terceira das teorias modernas da informação trata informação como o tamanho de um programa. Ela surge das considerações de um aluno de Carnap, Solomonoff, que tenta universalizar suas formulações de probabilidade, que eram dependentes da linguagem: P1 como grau de confirmação, aí numa relação lógica entre duas sentenças e P2 como frequência relativa, já do ponto de vista estatístico.

Então vem a definição de complexidade de Kolmogorov (1965, com Solomonoff e Chaitin), definindo a complexidade algorítmica de uma string x como o comprimento do menor programa que produz x quando é executado em uma máquina de Turing universal. Essa Teoria Algorítmica da Informação ganhou rápida aceitação passando a ser aceita como uma teoria da informação mais fundamental, conforme citação de Cover e Thomas (2006) “… consideramos a complexidade de Kolmogorov (ou seja, AIT) mais fundamental do que a entropia de Shannon”.

Quando trata de considerações sistemáticas, o artigo da SEP enquadra Shannon no campo da Filosofia da Informação como uma Extensão da Filosofia da Matemática. Há outras duas subdivisões onde ele não aparece: primeiro, na Informação e Computação Simbólica, com destaque para as máquinas de Turing e teorema de Gödel. Depois, em um trecho mais curto chamado Informação quântica e além, sendo relevante a notícia de que a física quântica mina o determinismo laplaciano e o conceito de qubit – bit quântico que pode se sobrepor, isto é, pode existir como 0, 1 ou em uma combinação de ambos ao mesmo tempo.

Detalhando um pouco mais, o autor da SEP remete ao seu Manual de Filosofia da Informação (Adriaans & van Benthem 2008b), ele caracteriza três tipos: informação-A: conhecimento, lógica, o que é transmitido em respostas informativas; informação-B: probabilístico, baseado na teoria da informação, medido quantitativamente e informação-C: compressão algorítmica de código, medida quantitativamente. A informação-A fez parte do programa positivista ao tentar reconciliar a lógica dos mundos possíveis (A) com o raciocínio probabilístico (B) e, como vimos, B a Shannon e C a Kolmogorov.

De volta para a filosofia da matemática, há forte correlação da filosofia da informação para com ela, na ligação entre perguntas como o autor cita: “O que são dados?” e “O que é informação?” com relação a “O que é um conjunto?” e “O que é um número?”. Então, para além da informação cotidiana, advinda da medição de coisas que remete a contagem de ovelhas na Mesopotâmia, há o desenvolvimento histórico dos símbolos, conjuntos, multiconjuntos e cadeias de caracteres para representar as coisas. Nesse ínterim, Shannon aparece como mais interessado na frequência das mensagens do que na informação sobre essa sequência, se inserindo em um multiconjunto que é atualizado a cada nova mensagem recebida, sem focar em sua estrutura.

Como a informação está intimamente relacionada ao conceito de conjunto e que Hilbert formula a ideia de que os conceitos matemáticos são definidos implicitamente por um conjunto de axiomas, nos leva a termos que explicitar exemplos. Dentro desse contexto, cita-se o paradoxo de Russell, variante do paradoxo dos mentirosos, no qual o filósofo inglês procura pelo conjunto de todos os conjuntos que não são membros de si mesmos, cujo objeto não se pode determinar. O exemplo mostra que há um limite para a teoria dos conjuntos e algum grau de controvérsia, embora Frege e Russell partam dessa base para definir o conjunto dos números naturais e assim por diante.

E é justamente um conjunto de números que vai servir de base para medirmos a quantidade de informação que se atribui a determinado elemento de um conjunto. É aqui que aparece as medições logarítmicas de Boltzmann (desordem de um gás) e Shannon (surpresa de uma mensagem), conforme vimos. Conforme o autor, elas estão fundamentadas em conceitos matemáticos mais básicos, como o conceito geral de conjuntos e podem levar a uma teoria unificada da informação. Já o supracitado Kolmogorov, cujo axioma da aditividade pode ter sua fórmula questionada no nível quântico, se junta a Shannon na conformidade de que programas determinísticos não criam informação nova.

Por fim e não cabe aqui, a seção explora fatoração, números primos, técnicas de criptografia e a atualização, em Gödel, do paradoxo do mentiroso, no teorema da incompletude que mostra que sistemas determinísticos devem conter afirmações que são verdadeiras, mas não demonstráveis. Ou seja, existem sentenças verdadeiras da forma “Eu não sou demonstrável”. Como o sistema não pode conter contradições, a frase não pode ser falsa, mas nunca poderá ser provada. É a incompletude que adverte que verdades existem, mas o sistema jamais consegue demonstrar com suas próprias regras.

Como pudemos ver nesse passeio pela informação, tendo como centro Shannon, há complexidade no tema e o capítulo 6 da SEP passará por anomalias, paradoxos e problemas em aberto na Filosofia da Informação. Principalmente, concentrando-se nas conexões entre informação, computação, busca, complexidade, termodinâmica, lógica, semântica e significado.

Em um primeiro momento, ilustra-se o paradoxo da busca sistemática, que aparece no Menon, de Platão, que pergunta a Sócrates: “como saber se você encontrou o objeto que procurava se ele é desconhecido?”. São problemas em aberto, tanto na ciência da computação como na filosofia, como podemos pensar em João em busca de um unicórnio. Se o encontra, para Shannon, há ali muita informação; já para Kolmogorov não, porque João já sabia o que era um unicórnio.

Contudo, tratando de determinismo e termodinâmica, os autores argumentem ser mais fácil relacionar Shannon (informação) com Kolmogorov (complexidade), embora tenha havido tentativas de criar computadores de bolas de bilhar para estudar sistemas reversíveis em termodinâmica.

Quando trata da semântica, na seção 6, há referência a Frege, no campo filosófico, como destaque na virada linguística, ligando lógica e informação. Porém, se pesquisadores como Popper, Carnap e Kolmogorov, entre outros, tiveram a ambição de quantificar a informação em conjuntos de frases verdadeiras, Shannon, conforme já mencionamos, afirma que sua teoria não é semântica.

Fechando o tema, na conclusão ressalta-se o papel importante que a informação tem na filosofia, seja na lógica, epistemologia e ontologia. Na verdade, as ciências em geral lidam com a informação e a filosofia da informação traz novas perspectivas para compreensão de problemas filosóficos, como a abordagem de Shannon que aqui analisamos e que vamos conectar com Wiener e Simondon, ali adiante.

Referências

ADRIAANS, Pieter. Information. The Stanford Encyclopedia of Philosophy. Disponível em: <https://plato.stanford.edu/archives/sum2024/entries/information/>.

ADRIAANS, Pieter; VAN BENTHEM, Johan (Ed.). Philosophy of Information (Handbook of the Philosophy of Science 8). Amsterdam: Elsevier, 2008. Disponível em: <https://www.sciencedirect.com/book/edited-volume/9780444517265/philosophy-of-information>.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

A epistemologia do erro

Um passeio pela comunicação precária, primeiro capítulo da obra homônima de André Lemos

Neste primeiro capítulo, no qual trata da comunicação precária, André Lemos traça uma epistemologia do erro tomando como base um mundo errático, já em si mesmo, como ele diz.

O ponto de partida é o retrocesso que houve, desde o otimismo da “rede” dos anos 90 ao cenário atual de precariedade, composto pela plataformização, discursos de ódio e domínio das Big Tech. Não podemos fugir desse assunto, trata-se das ruínas do capitalismo e, pela tríade erros, falhas e perturbações (EFP), Lemos vai buscar rastrear a precariedade da cultura digital.

Para ele, a precariedade pode ser tomada como uma condição planetária, mais ampla do que o objeto técnico. Ela emerge do que ele classifica de “assembleias”, isto é, pela coletividade e que nos permite mapear problemas éticos e políticos da cultura digital. Nesse sentido, não fica preso em uma análise do que é meramente técnico, já que o objeto pode funcionar bem ou mal.

Partindo do diagnóstico de que a cultura digital cria uma visão de mundo, ela, a tecnologia, acaba por se tornar invisível e nos faz acreditar em um mundo como ordem. Ocorre que há miríade de problemas oriundos tanto do humano como do não humano e seu método propõe constatar, por meio de uma ontologia, que o mundo é precário e, a partir disso, o observar com esse viés, através de uma epistemologia. É uma postura onto-epistêmica que evita aceitar as benesses do digital ao reconhecer e identificar seus problemas.

Esse é o ponto que precisamos enfatizar: parte-se de uma “ontologia do precário”, como algo constitutivo do mundo, para, a partir da constatação de que o precário nos constitui, usarmos a epistemologia com a noção de que o conhecimento não deve partir do funcionamento normal, da estabilidade e da ordem para, por fim, usarmos a metodologia de observar erros, falhas e perturbações porque eles revelam relações que permanecem ocultas no funcionamento ordinário.

Contra as promessas da eficiência, Lemos propõe que EFP não são exceções já que o mundo é errático. A nossa vida é composta de pequenos erros e fracassos, ainda que o erro possa ser fruto de um desejo inconsciente, como um ato falho. E ele cita Beckett, como quem levou a questão ao extremo, tocando em temas como a incomunicabilidade e o absurdo da existência.

Por outro lado, ao contrário do escritor irlandês que via o erro como nossa condição, as startups do Vale do Silício negam o erro, usam o fracasso como motivador do sucesso, ao proporem “falhe logo!”, como ele exemplifica. Ali o precário é visto como acidental. Já o neomaterialismo procura corrigir essa falha epistemológica. Sim, o produto quebra e quando isso ocorre sentimos surpresa ou frustração.

Tratando da etimologia, o autor nos informa que erro remete a desvio ou engano, mas na sua base significa vagar. Como exemplo, ele cita Rousseau (século XVIII – Devaneios do Caminhante Solitário), sua errância e busca pelo autoconhecimento. Trata-se da metáfora do caminhar como ato filosófico. Seguindo adiante, na ciência moderna (século XIX), o erro também pode ser formalizado como desvio em relação a uma medida ou expectativa. Gauss desempenha papel fundamental na teoria dos erros, nesse campo. Aqui, porém, o desvio não apenas indica uma diferença em relação ao esperado, algo que precisa ser corrigido, mas passa a fazer parte da própria medição empírica.

A partir dos anos 1980, ele denomina a “virada imperfeita” como momento de estudo de objetos quebrados. Constata-se a imprecisão inerente à comunicação e à cultura digital em rede, evidenciada nos chamados “estudos da mídia maligna”. Ora, tudo quebra e os objetos aparecem como caixas pretas que guardam problemas invisíveis. Entretanto, se os defeitos revelam relações sociotécnicas em redes complexas que envolvem múltiplos atores, EFP recebem pouca atenção das teorias sociais. E complementa que uma epistemologia do erro é capaz de evidenciar o modo de funcionamento operacional de um sistema.

Voltando para a comunicação precária, então, a comunicação humana é errática e as mensagens que são trocadas inevitavelmente sofrem degradação. Por detrás das mediações sociotécnicas que parecem funcionar bem, há perturbações e incompreensões. Vejamos o caso das ciências da comunicação: analisa-se o erro do ponto de vista da engenharia (ruído no canal, entropia) e da filosofia (dialética, desentendimento). Já pela linguística há o problema da interpretação.

Nessa área, há bastante destaque para Niklas Luhmann, que aborda nossa dificuldade em compartilharmos ideias procurando mostrar que a nossa comunicação é improvável. Mas, para fazermos uma epistemologia do precário, não podemos excluí-lo, ao contrário, devemos partir disso. Na esteira de Luhmann, Nöth dirá que não há troca mútua de ideias porque as mentes dos envolvidos são sistemas fechados (tema que dialoga diretamente com as reflexões sobre o entendimento como ato privado). Para Nöth, a comunicação livre é um mito europeu, relacionado à ideia de conhecimento universal e afins.

Luhmann discorrerá sobre a comunicação e sua teoria propõe que ela constitui a sociedade como um sistema autopoiético, ou seja, como um sistema fechado de comunicação autorreferencial que se reproduz e organiza a si mesmo de forma contínua. E volta a ideia de que a percepção do outro é opaca. Citando: “O entendimento nunca é uma simples transferência de um enunciado para o receptor” (p. 25). Para Luhmann, a comunicação se dá sobre três pilares: informação, enunciação e compreensão. Mas a compreensão não significa necessariamente que o receptor apreenda a mensagem da forma pretendida pelo emissor.

Nota sobre Autopoiese em Niklas Luhmann: O conceito de autopoiese é oriundo da biologia (desenvolvido por Humberto Maturana e Francisco Varela) e foi adaptado por Luhmann para explicar a teoria dos sistemas sociais. Para aprofundar o entendimento desse conceito e seu papel na comunicação autorreferencial, recomenda-se a leitura do ensaio Niklas Luhmann: What is Autopoiesis?.

Inclusive, e isso nos toca já que tratamos das teses de Habermas no ensaio sobre o entendimento a serviço da comunicação na série EFEVMO-ME, Luhmann critica a Teoria da Ação Comunicativa (TAC) por entender que ela seria empiricamente falsa ao pressupor que uma busca pelo consenso é mais racional do que pelo dissenso.

Ainda no campo das teorias da comunicação, Lemos trata da cibernética – área associada a Simondon e a autores como Shannon e Wiener. No caso de Shannon, ele investiga o ruído presente nas trocas de mensagens, partindo da noção de entropia emprestada da física. Já em Wiener, o desvio pode alimentar um processo de feedback que permite a correção do sistema, dimensão que também exploramos na discussão sobre futuridade e os conceitos de Massumi. Pelo lado da cibercultura, vemos que a “internet cresceu quebrando” ao esbarrar nos limites dos protocolos e da infraestrutura.

Sobre sistemas algorítmicos, erros suscitam controvérsias fazendo com que os dados ofereçam explicações. Quando um sistema de Machine Learning erra, ele revela dimensões éticas e políticas escondidas. Então, de posse da metodologia do precário, os erros algorítmicos, para além de evidenciarem os limites das previsões produzidas a partir dos dados, podem adquirir uma função epistemológica: abrir caixas-pretas que escondem pressupostos. Se tudo funciona conforme o esperado, as mediações permanecem frequentemente invisíveis; o erro, ao contrário, pode torná-las perceptíveis.

A precariedade como questionamento aparece nas artes, na Glitch Art, um dos últimos tópicos abordados por Lemos nesse capítulo. É uma prática artística que explora, esteticamente, as fissuras da tecnologia, seja por EFP intencionais ou acidentais. É o fracasso como estética, que aparece na música associado a ritmos como techno, house e drum and bass. Isso se vê em exemplos da arte de vídeo e artes plásticas explorando interferências visuais, ruídos e objetos funcionais. Tomado como operador metodológico, o glitch questiona os valores da sociedade industrial e informacional.

Por fim, Lemos destaca como o erro aparece na teoria comunicativa para revelar problemas sociais como privacidade, soberania e desinformação. Olhar com cuidado para as mediações enfatiza a distância existente entre o remetente e o destinatário. O erro deve convocar a ação e, por meio de uma epistemologia do erro, podemos reconhecer que o mundo é errático e superarmos a visão antropocêntrica, que subestima a importância dos objetos técnicos.

Terminamos com o chamado de Haraway, citado na conclusão do capítulo: “ficar com o problema” e não querer fugir para um local seguro. A partir desse panorama, reconhecemos a dimensão coletiva do erro, e ele passa a ser não um acontecimento a ser corrigido, mas algo a ser investigado epistemológica e ontologicamente.



Referências

LEMOS, André. A comunicação precária. Lisboa/São Paulo: Edições 70, 2025.

PHILIPPOPOULOS-MIHALOPOULOS, Andreas. Niklas Luhmann: What is Autopoiesis? Critical Legal Thinking, 2022. Disponível em: <https://criticallegalthinking.com/2022/01/10/niklas-luhmann-what-is-autopoiesis/>. Acesso em: 2026.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Construindo sistemas sociotécnicos

Um primeiro passo para a definição de uma arquitetura híbrida

Trata-se de um embrião de pesquisa baseado em investigações ainda exploratórias sobre filosofia da técnica e da tecnologia colocando a relação entre o humano e o não humano no centro e que nos conduz na análise de objetos e mediações sociotécnicas.

Ainda em uma primeira leitura de Jamais Fomos Modernos (JFM), de Bruno Latour, fomos despertos para a questão da simetria. O ponto que nos toca é o exemplo da “disputa” entre Hobbes, que se atém à contenda política e Boyle, que circunscreve querelas científicas em torno do laboratório. Esse episódio caracteriza o que ele chama de Constituição Moderna e, por conseguinte, a necessidade de uma abordagem simétrica para descrevê-la.

Na base da argumentação de Latour nós encontramos dois modelos de representação: a científica, que privilegia o experimento visando excluir qualquer contaminação política e a política, disposta a rejeitar que um fato natural tenha qualquer fundamento de autoridade. Então, essa dupla exclusão produz, seguindo a cartilha da Constituição Moderna, por um lado, a natureza representada pela ciência e, por outro, a sociedade representada pela política.

Isto posto, precisamos ressaltar que esta é uma operação que separa humanos e não humanos por meio de um processo de purificação que separa natureza e sociedade. E, quando somos tocados por JFM, e pela aplicação dos seus conceitos na construção de sistemas sociotécnicos, a separação é o que a arquitetura que estamos formulando deveria justamente colocar em questão. Nós podemos denominá-la, provisoriamente, arquitetura híbrida, justamente porque a própria modernidade produz continuamente misturas entre natureza e sociedade, algo que a purificação procura negar.

No JFM, o episódio envolvendo Boyle e Hobbes é retomado por Latour a partir da leitura de Shapin e Schaffer. Porém, embora S&S adotem uma estratégia simétrica ao reconstruir a controvérsia entre Hobbes e Boyle, Latour desloca essa análise por meio da Constituição Moderna. Por outro lado, não se objeta, o senso comum parte da suposição de que a ciência tem acesso privileged ao real (sucesso) enquanto a política é mera convenção (fracasso). Ora, mas é justamente essa assimetria que Latour questiona, por meio da análise simétrica, ao não atribuir antecipadamente à ciência uma autoridade absoluta nem à sociedade um papel explicativo secundário.

Assim, de posse desse ponto de vista da simetria, podemos formular que a construção de uma arquitetura híbrida não deve somente identificar humanos e não humanos como partícipes do sistema, mas descrever como diferentes entidades assumem determinados papéis, produzem efeitos e estabelecem associações sociotécnicas. Sob essa ótica, cliente e fornecedor não são atores simples; eles são coletivos que precisam ser descritos antes de serem tratados como unidades arquiteturais. Não rotulamos de antemão o cliente como simplesmente “quem compra” e nem o fornecedor como aquele “quem vende ou entrega”. Além disso, há o contexto (leis, instituições, dinheiro, infraestrutura...) que participa da constituição do sistema. Como background, no sentido de Searle, fazendo uma analogia.

O sistema sociotécnico parte, portanto, de uma memória técnica já estabelecida (memória terciária), exteriorizada nas ferramentas, nos dispositivos, nas instituições jurídicas, financeiras, científicas e por aí vai. O cliente tem a sua rede de interesses no sistema, ele classifica o que para ele é relevante, não oportunisticamente, mas medindo a aquisição em termos financeiros, não se pode negar. Porém, ele tem um ecossistema próprio que pode apresentar diferentes graus de maturidade tecnológica.

Podemos chamar o ecossistema do cliente de cadeia de valor. O conceito, associado a Michael Porter, descreve as atividades de uma organização que contribuem para a criação de valor.

Há situações em que uma ferramenta tecnologicamente menos avançada, mas mais estável, atende melhor às necessidades do sistema. Há setores com diferentes níveis de maturidade tecnológica, diferentes capacidades de investimento e diferentes graus de familiaridade com determinada tecnologia. Há especialistas que conhecem profundamente o domínio de negócio e outros que dominam a tecnologia. Enfim, é preciso bater à porta antes de entrar: compreender o contexto no qual a arquitetura será construída.

Uma vez que temos esse contexto (que pode fazer parte da sociedade) e o coletivo que nomeamos cliente (que pode até ser o “usuário final”, e aí estamos falando de B2C e não de nosso foco em B2B, ou seja, de uma análise que envolve a complexidade organizacional de parte a parte), há o fabricante, fornecedor, consultor ou distribuidor de determinado produto, serviço ou solução. Eles também têm seu ecossistema com sua relevância, composto por diversas áreas que têm como foco a venda, mas entregam tecnologia, serviços técnicos.

Cabe notar que esse recorte tangencia o conceito de cadeia de suprimentos, mas nossa preocupação é outra. Já que não pretendemos entrar no campo da administração empresarial, da logística ou da engenharia de produção. Nossa análise é mais abstrata, com foco em TI e na busca de um padrão, de um modelo de referência que possa orientar a definição de arquiteturas híbridas para sistemas sociotécnicos.

Primeira representação do coletivo sociotécnico em uma arquitetura híbrida
Figura 1: Primeira representação do coletivo sociotécnico

A partir dessas considerações, uma arquitetura híbrida deveria partir de uma perspectiva de antropologia simétrica (que, no JFM, trata da mesma forma modernos e não-modernos, humanos e não-humanos). Essa arquitetura deve ser guiada por concepções capazes de tornar visíveis as mediações (conceito também explorado em tópicos como a precariedade, com base em André Lemos) e que questionem a posição do ser humano como centro privilegiado da explicação do sistema.

Para finalizar, entendemos que esse pode ser um primeiro pilar para o desenvolvimento de uma arquitetura híbrida para sistemas sociotécnicos. Sabemos que existem diferentes abordagens, frameworks e linguagens para arquiteturas empresariais, como TOGAF, Zachman e ArchiMate, além de abordagens e modelos de referência produzidos por organizações como o Gartner. Contudo, nosso direcionamento é específico e ainda exploratório, embora possa encontrar pontos de convergência com essas abordagens.

Referências

LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos: ensaio de antropologia simétrica. Tradução de Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1994.

sábado, 12 de setembro de 2026

Ruído no Canal

Entre informação, meio e verdade

O engenheiro da Bell Labs, Claude Elwood Shannon, definiu informação em termos probabilísticos, isto é, com uma preocupação com a quantidade de informação trafegada de ponta a ponta em seu clássico Uma Teoria Matemática da Comunicação (1948). Como trabalhava com telecomunicações, queria determinar em que condições um sistema de comunicação poderia transmitir sinais de forma confiável através de um canal, mesmo quando sujeito a ruídos.

Essa é uma parte da história da informação e a Shannon muito mérito se deu, embora, e em tempos de fake news, já nos demos conta de que o conteúdo importa. É justamente a partir dessa separação entre transmissão e significado que se torna particularmente interessante perguntar pelo que acontece quando introduzimos a dimensão semântica da informação. Aqui no blog, por exemplo, ela foi investigada por Carnap e vimos brevemente em um capítulo da nossa série EFEVMO-ME que procurou analisar o entendimento entre a sintaxe, semântica e pragmática. A preocupação de Carnap era menos com o meio e mais com a análise das condições formais e semânticas da linguagem, algo que podemos chamar de uma espécie de engenharia linguística (o conceito de explication).

Nota conceitual — Explication: Conceito de Rudolf Carnap abordado no blog, a explication é o processo de engenharia linguística que consiste em substituir um termo vago e impreciso da linguagem comum por um conceito novo, exato e formalmente construído.

Ocorre que o contexto de Carnap era um pouco outro, ressaltemos, já que ele desenvolveu uma abordagem semântica que, embora relacionada à tradição iniciada por Tarski, introduzia outras distinções. Tarski trata formalmente das relações entre linguagem, referência e verdade, e analisa a relação entre expressões, objetos e condições de verdade. Nesse paradigma, podemos aproximar Tarski da perspectiva referencialista que temos tratado no nosso site. Já a semântica de Carnap tinha como propósito ampliar a análise semântica ao distinguir extensão e intensão e ao considerar diferentes descrições de estados possíveis. Ele vai no sentido de considerar diferentes estados possíveis e distinguir aquilo que uma expressão designa daquilo que ela significa. Assim, dizer “a grama é verde” é verdade aqui no nosso mundo, mas pode não ser verdade em algum mundo em que haja possibilidade de uma grama ser azul.

Nota conceitual — Extensão, Intensão e Sintaxe em Carnap:

Conforme nosso blog, para Carnap, a extensão de uma expressão é o próprio objeto ou classe de coisas a que ela se refere no mundo, enquanto a intensão é o conceito ou significado que determina essa referência. Já as descrições de estado, no seu sistema semântico e de lógica indutiva, são especificações formais que “descrevem estados ou mundos possíveis do universo” dentro de um sistema linguístico. Elas estabelecem uma atribuição completa de valores de verdade para as sentenças do sistema, definindo exaustivamente o que é verdadeiro em cada cenário possível. A partir das descrições de estado, Carnap define o conceito de amplitude de uma sentença, que é o conjunto de todas as descrições de estado nas quais essa sentença específica é verdadeira.

Antes de sua fase semântica, quando se debruça sobre significado das palavras, Carnap se ateve à sintaxe. No início, ele acreditava que todo o conhecimento sobre o mundo poderia se dar por meio de nossas experiências sensoriais, pelos sentidos. Mais tarde, ele investiga a sintaxe lógica se distanciando dos sentidos e avaliando as regras formais da linguagem, defendendo ser possível criar e escolher regras linguísticas mais convenientes para a ciência antes mesmo de se investigar os conceitos formais de verdade e referência.

Dito isto, podemos ver que quando começamos a olhar para a semântica a verdade aparece e a coisa se complica um pouco. Outro nobre pensador que se ateve à informação semântica foi (é) Luciano Floridi, autor que ainda não discorremos no blog, que trabalha com uma noção de informação semântica como dados bem formados, significativos e verdadeiros. Aí, então, a novela vai longe. O próprio Shannon tratou de resumir o problema quando disse algo como “os aspectos semânticos da comunicação são irrelevantes para o problema de engenharia”.

Ora, é justamente isso que a série EFEVMO-ME procura investigar. Ela se pergunta, resumidamente, se é possível haver entendimento, no mais baixo dos níveis. Ela busca por uma resposta filosófica. E é aí que voltamos a Shannon porque, antes de tudo, há o meio. Imagine uma reunião com colegas de trabalho em que você, sozinho, argumenta dentro de um determinado ponto de vista, mas o outro grupo defende um ponto divergente. Não cabe agora explicar psicologicamente por que os grupos sustentam posições diferentes, mas nos perguntamos: o que temos, nessa situação? Se tomarmos emprestada a linguagem de Shannon, poderíamos chamar essa situação de ruído no canal, saindo do domínio estritamente técnico da teoria da informação. Continuamos a questionar: se a transmissão pode ser tecnicamente perfeita, o que acontece com o conteúdo? É justamente aí que a questão do entendimento reaparece.

Shannon nos permite imaginar uma comunicação tecnicamente perfeita que não garante entendimento. O emissor pode tentar, de várias maneiras, transmitir uma informação. Ela pode chegar perfeitamente aos receptores e, ainda assim, não produzir entendimento. Do ponto de vista do EFEVMO-ME, investigamos filosoficamente as condições do entendimento, e não suas explicações psicológicas.

Sobre o engenheiro Shannon, falaremos em breve nesse espaço, falaremos de sua investigação probabilística da informação. Mas ressaltamos, por fim, que a palavra probabilidade pode ter significados que geram confusão, algo que o filósofo Carnap observou ao mostrar que ela pode ter dois sentidos bem diferentes. Podemos falar de uma probabilidade estatística que é empírica e se baseia na frequência com que os fatos acontecem no mundo real, como, por exemplo, a chance de dar “cara” no lançamento de uma moeda. Por outro lado, a probabilidade lógica tem característica epistêmica, já que mede o quanto uma evidência ou um dado suporta uma hipótese científica. Desse modo, Carnap criou uma lógica indutiva matemática que mede o grau de confiança que podemos ter em teorias científicas, na medida em que acumulamos novas informações, dado o caráter não dedutivo da confirmação de hipóteses científicas e a impossibilidade de, em geral, estabelecer definitivamente leis universais apenas pela acumulação de observações.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Invisibilidade

Quando o que funciona desaparece, sua existência deixa de ser percebida

No livro Comunicação Precária[i], André Lemos trata, em alguns momentos, da tecnologia invisível. Essa seria uma de suas finalidades: desaparecer enquanto funciona e, ao mesmo tempo, esconder seu ecossistema fundacional e o fato de que se baseia no erro.

Falamos um pouco da precariedade[ii] e falaremos da epistemologia do erro, em outra ocasião, mas o que queremos anotar nesse texto é o conceito de invisibilidade, que amplamente nos permeia.

Por exemplo, eu escrever este texto e você entender, quer dizer que compartilhamos um significado oculto, por mais que você entenda aproximadamente o que eu disse[iii], talvez numa proporção de uns 80-20, razoável.

Porém, há inúmeras situações de diálogo, no dia a dia, nas quais se supõe um entendimento que não ocorre. Parece que nossas ideias são cristalinas e que sua verbalização é coerente, mas o público não entende, por diversos fatores. Então, o “problema” aparece.

É o que acontece quando a internet não funciona. Nós a usamos desenfreadamente, sem perceber, assim como acontece com a água que sai da torneira, mas só nos damos conta das “assembleias” que a fazem funcionar quando ela não funciona, quando deixa de ser invisível.

Há algo semelhante no mundo corporativo, deveras. Uma pessoa invisível é aquela que faz o seu trabalho rotineiramente, disciplinadamente e, então, aquilo que por ela passa, funciona. Porém, só se dá conta de sua importância quando da privação de sua presença.

Um tanto quanto diferente disso, são as reuniões invisíveis, que ocorrem sem que determinada pessoa esteja presente, muitas vezes, o mensageiro. De que adianta uma reunião ocorrer e consumir tempo, se ela não for “comunicada”?

Interessante que isso remete a “esse est percipi”: se uma árvore caiu na floresta e ninguém observou, ela fez barulho?[iv] O ser é ser percebido e podemos fazer uma adaptação provocativa: o não ser é ser invisível. E estamos tomados por não seres, pelo vazio.

Por fim, agora que a IA Generativa produz muito, muito texto, muito documento, ela materializa pensamentos, mas de forma muito prolixa. Recebemos muitos documentos produzidos por IA que, por sua vez, se tornam invisíveis e são deixados de lado.

Haveria uma salvação, para documentos produzidos por IA: serem consumidos por IA. Assim, deixaremos as IAs dialogarem em seu mundo invisível enquanto nós, aqui fora, vamos tentando nos fazer perceber.



[i] LEMOS, André. A comunicação precária: erros, falhas e perturbações na cultura digital. Rio de Janeiro: Edições 70 / Alta Books, 2026.