segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

O entendimento entre sintaxe, semântica e pragmática

Quando a nossa máxima se torna um pseudoproblema

1. Sobre Carnap. De acordo com nossa base de conhecimento do blog[i], Rudolf Carnap foi uma figura central do Círculo de Viena e do positivismo lógico, cujo projeto visava a eliminação da metafísica ao considerar que seus enunciados carecem de sentido por não serem empiricamente verificáveis. Em sua obra Aufbau, propôs uma reconstrução racional do conhecimento através de um sistema lógico-linguístico de conceitos, inicialmente baseado no fenomenalismo das experiências imediatas, mas que evoluiu para o fisicalismo em busca de uma ciência unificada.

Ele é notável pela formulação do Princípio da Tolerância Linguística, sustentando que a escolha de uma linguagem é uma decisão pragmática e convencional ("em lógica não há moral"), distinguindo entre questões teóricas internas ao sistema e decisões ontológicas externas. Suas teses influenciaram a transição do critério de verificabilidade para o de confirmação, consolidando a filosofia como uma atividade de análise lógica do discurso científico.

2. Carnap na perspectiva da nossa série. Enquanto Carnap e o positivismo lógico buscam a eliminação da metafísica, como discurso cognitivo significativo, ao restringir o conhecimento ao que é empiricamente verificável ou logicamente tautológico, Descartes fundamenta o saber no dualismo e na certeza indubitável do cogito, tratando a mente como uma substância pensante privada e inacessível, o que Carnap rejeitaria como um contrassenso linguístico sem conteúdo cognitivo verificável.

Kant compartilha com Carnap a visão de que o sujeito estrutura a experiência, mas o filósofo do Círculo de Viena reinterpreta os juízos sintéticos a priori kantianos, argumentando que a matemática é puramente analítica e que a escolha de sistemas conceituais é uma convenção regida pelo Princípio da Tolerância Linguística.

Por fim, em oposição a Marx, outro autor da série e que define a consciência como um produto das condições materiais de existência e da luta de classes, Carnap foca na unificação da ciência por meio de uma linguagem fisicalista comum, transformando a filosofia em uma atividade de análise lógica do discurso científico, em vez de uma ferramenta de transformação política e social.

3. Nossa máxima sobre o ponto de vista de Carnap. Vista a partir de Carnap, a sua máxima — “Eu falo e você me ouve, mas entende?” — expõe uma tensão central entre sintaxe, semântica e pragmática, e especialmente entre compreensão formal e interpretação empírica[ii]. Vejamos.

4. Primeiro Movimento - Entender não é um fato psicológico, mas um fato linguístico (dentro de um sistema). Para Carnap, sobretudo a partir de Meaning and Necessity e dos textos sobre linguagens formais, “entender” não é primariamente um estado mental privado, mas um fato linguístico reconstruível: compreender uma expressão é dominar as regras de uso e interpretação que a definem dentro de um sistema.

Assim, frente à nossa máxima, Carnap diria algo como: “Se você fala numa linguagem bem definida, e eu conheço suas regras sintáticas e semânticas, então não há um problema filosófico restante de ‘entender’.” Isso significa que ou a linguagem é formalmente determinada, ou o problema do entendimento não é filosófico, mas empírico ou psicológico. A nossa pergunta só parece profunda porque estamos falando da linguagem natural, que é imprecisa, aberta e contextualmente instável.

5. Segundo Movimento - O “mas entende?” surge da indeterminação semântica da linguagem natural. Há em Carnap uma distinção clara entre as linguagens formalizadas, nas quais a compreensão é nítida e linguagem natural, cuja compreensão é vaga e dependente de contexto. Na nossa máxima, o “mas entende?” aponta para o fato de que ouvir não garante nem a associação sonora, nem a reação comportamental correta, nem mesmo o acordo prático.

Carnap diria que isso ocorre porque os termos não têm critérios de aplicação totalmente fixados. Por isso, podemos supor que ele defenderia que o problema não é metafísico, nem cético, mas um problema de engenharia linguística, de explication. A pergunta correta, em Carnap, não é “você entende?”, mas: “Quais são as regras de interpretação que estamos adotando aqui?”

6. Terceiro Movimento - A nossa máxima como diagnóstico do mau uso da filosofia. Há um ponto mais crítico: Carnap poderia dizer que nossa máxima é filosoficamente enganadora. Isso porque ela sugere que há um “entender” profundo, não redutível a critérios públicos, talvez inacessível à verificação intersubjetiva. É o que ele classificaria como um típico pseudoproblema filosófico.

Nessa situação ele poderia reagir argumentando que se não conseguimos especificar condições públicas sob as quais dizemos que alguém entendeu, então a pergunta “mas entende?” não teria conteúdo cognitivo claro. Nesse sentido, nossa máxima funcionaria como um sintoma da insuficiência da linguagem ordinária, não como um problema que exigiria metafísica, hermenêutica profunda ou teoria da mente robusta.

7. Formulação carnapiana. Fica claro que, aos olhos de Carnap: entender é dominar um sistema de regras linguísticas e nossa máxima, se perde um pouco de dramatização, ganha em diagnóstico técnico. Então, se traduzíssemos a máxima para uma linguagem carnapiana, ela ficaria algo como: “Um emissor pode produzir uma expressão bem-formada que é percebida por um receptor, sem que haja concordância quanto às regras semânticas adotadas”. E isso, para Carnap, não é um mistério, mas um convite à explicitação formal.

*  *  *  *  *

8. Experimento filosófico. Por fim, tomados pela filosofia de Carnap, podemos tentar canonizar a nossa máxima como um experimento filosófico, propondo um Teste de Entendimento sem Garantias. A formulação atende a seguinte situação: “Um falante (A) profere um enunciado (E) numa língua compartilhada.” “Um ouvinte (B) percebe perfeitamente o som de (E) e reage de modo compatível com as convenções linguísticas usuais.” Nesse cenário, cabe a pergunta: “É possível afirmar, apenas a partir disso, que (B) entendeu (E)?”[iii]

O experimento impõe condições deliberadamente fortes como 1.) audição perfeita: não há ruído, erro perceptivo ou déficit sensorial. 2.) competência linguística aparente: (B) domina a gramática e o vocabulário da língua de (A). 3.) Resposta adequada (B) responde de maneira socialmente apropriada ao enunciado.

Mesmo sob essas condições, o experimento suspende a tese forte do entendimento — segundo a qual percepção correta e resposta adequada garantiriam compreensão —, fazendo da máxima um contraexemplo conceitual que distingue sucesso pragmático e acordo semântico[iv].

9. Entendimento invisível[v]. Daí surge como resultado um paradoxo do entendimento invisível, isto é, o entendimento é exigido para explicar a comunicação, mas não é diretamente observável, nem conclusivamente inferível do comportamento. A encruzilhada se dá porque, por um lado, se o entendimento é interno, não temos acesso; e por outro, se é externo, parece dissolver-se em critérios insuficientes. É um pouco do que nossa série e nossos amigos filósofos estão tentando ajudar a clarificar.

Como formulação final do Experimento do Entendimento sem Garantia podemos ter:

Demonstra-se que, mesmo sob condições ideais de percepção, competência linguística e adequação pragmática, não há critério conclusivo para afirmar que um enunciado foi compreendido.

O experimento visa testar se o entendimento é um fato comportamental, semântico, intencional ou normativo — ou se ele emerge apenas da articulação reflexiva entre esses níveis.

O que a máxima procura fazer é isolar conceitualmente o entendimento como problema filosófico, sem apelar para a ignorância, má-fé ou supor erro empírico.



[ii] Lembrando que por método e falta de tempo, temos usa o orientando (ou o estagiário) fazer o levantamento na base de conhecimento mundial - o estagiário Gemini e/ou ChatGPT.

[iii] Nota-se que é diferente de perguntar se (B) entendeu o que (A) disse.

[iv] Quando o ato comunicativo funciona no plano da ação, isto é, a conversa avança sem conflito imediato, houve sucesso pragmático. Porém, isso não quer dizer que houve acordo semântico, que os interlocutores associaram o mesmo sentido relevante, que as palavras significaram a mesma coisa para falante e ouvinte. Não basta usar as mesmas palavras, os mesmos critérios também devem ser partilhados.

[v] A expressão “paradoxo do entendimento invisível” não é canônica na literatura filosófica. Ela é empregada aqui como uma reconstrução conceitual que sintetiza tensões clássicas presentes no argumento da linguagem privada (Wittgenstein), na crítica carnapiana aos pseudoproblemas e na tese quineana da indeterminação do significado. 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

O entendimento como ato privado do pensamento

Quando a certeza do entendimento depende do sujeito

De acordo com nossa base de conhecimento do blog[i], Descartes pode ser considerado um dos fundadores da filosofia moderna e do racionalismo. Seu projeto baseou-se na dúvida metódica e na busca por um conhecimento certo, seguro e inabalável. Como resposta, ele estabeleceu o cogito (penso, logo existo) como ponto arquimediano indubitável, definindo a essência humana como uma "coisa pensante" em oposição à "coisa extensa". A res cogitans possui atributos de intelecto, vontade, sensação e emoção[ii], em oposição à res extensa, que é o corpo material sujeito a leis mecânicas.

Essa é uma formulação dualista substancial que, no entanto, foi criticada por muitos que o seguiram, como Ryle, por exemplo, que cunha o "mito do fantasma na máquina", isto é, a partir da tese cartesiana e de sua tradição surge o problema de se explicar como uma mente imaterial e privada interage com um corpo físico, uma lacuna que Descartes tentou preencher por meio da glândula pineal. No blog, há contraste com o empirismo de Hume, que nega ideias inatas e a existência de um "eu" observável fora das percepções – isso veremos futuramente.

Contrastando-o com os autores que abriram a série, Kant e Marx, enquanto Descartes fundamenta a filosofia no sujeito individual por meio do cogito e no dualismo, Kant avança para uma síntese onde o sujeito transcendental organiza a realidade através de categorias a priori do entendimento, distinguindo o fenômeno da coisa-em-si incognoscível. Em oposição a esse foco na consciência pura, Marx inverte a lógica idealista ao sustentar que a consciência é um produto da vida social e das condições materiais de existência, sendo determinada pela base econômica (infraestrutura). Assim, enquanto o racionalismo de Descartes e o criticismo de Kant buscam a verdade e a moral nos limites da razão, embora em Kant busque validade universal e normativa, o materialismo de Marx foca na transformação da realidade material através do trabalho e na superação das contradições sociais e da luta de classes.

Passando, então, para a nossa máxima “Eu falo e você me ouve, mas entende?”, sob o ponto de vista cartesiano, uma possível chave de interpretação é a assimetria entre certeza interior e acesso ao entendimento alheio, como vamos ver.

Certeza do cogito vs. opacidade do outro. Para Descartes, a única coisa absolutamente certa é o que se apresenta clara e distintamente à minha mente. Eu tenho certeza de que penso, de que entendo o que digo — mas não tenho acesso direto ao seu entendimento. Assim, a nossa máxima expressa algo profundamente cartesiano, que é o fato de que eu falar e você ouvir não garante, em absoluto, que você entenda. O entendimento é um ato mental, interno, inacessível de modo imediato a terceiros.

Linguagem como sinal externo, não como garantia de sentido. Em textos como o Discurso do Método, Descartes observa que máquinas ou animais podem emitir sinais, mas isso não significa que entendam o que dizem. A linguagem, para ele, é um indício de racionalidade, não uma prova conclusiva do entendimento efetivo em cada caso. Segue-se que poderíamos dizer que ouvir palavras é um fato físico e entender o sentido é um ato do intelecto. Daí que nada na audição garante o segundo passo.

O problema das outras mentes. Nossa máxima também toca no chamado problema das outras mentes: como posso saber que você realmente entende, e não apenas reage mecanicamente a estímulos? Descartes responderia a isso apenas de forma indireta: confiamos na semelhança estrutural entre nós e os outros seres humanos; e, em última instância, na veracidade divina, que não nos faria viver sistematicamente enganados. Mas essa confiança nunca tem o mesmo grau de certeza que o cogito[iii].

Entendimento não é transferência, é reconstrução. Para Descartes, o sentido não passa da minha mente para a sua como um objeto. O que passa são sons ou sinais gráficos; o seu entendimento ocorre quando você reconstrói internamente ideias claras e distintas correspondentes. Nossa máxima poderia ser reformulada cartesiana­mente assim: “Eu emito sinais; você só entende se sua razão produzir, por si mesma, as ideias adequadas[iv]”.

Podemos inferir que Descartes diria que nossa máxima é verdadeira, prudente e filosoficamente inevitável porque eu falar não garante sua compreensão e você ouvir não quer dizer que você entendeu pois entender é um ato privado do pensamento. Em suma, para Descartes, podemos assumir que a comunicação é sempre epistemicamente frágil, porque o entendimento reside onde nenhum outro sujeito pode olhar: na interioridade do pensamento.



[i] Com base no histórico do Blog: https://bit.ly/notebook-blog.

[ii] Modos conscientes da mente.

[iii] Como já comentamos ao longo da série, no presente momento temporal não pretendemos rebater o filósofo, como no caso apontar um solipsismo (metodológico, por exemplo, oriundo da dúvida hiperbólica) que se esvai na certeza da existência de Deus.

[iv] Ideia adequada, aqui, não é o conceito forte de Espinosa, apenas uma referência a uma ideia suficientemente clara e distinta, um critério subjetivo e não algo imanente.

sábado, 24 de janeiro de 2026

As condições materiais que tornam o entendimento possível

Quando o entendimento depende de práticas transformadoras da realidade

No primeiro texto da série[i], nossa máxima foi escrutinada por Kant, filósofo que pertenceu ao iluminismo alemão e funda um movimento que busca determinar os limites e as condições de possibilidade do conhecimento, em um contexto de conflito entre racionalismo e empirismo. Kant reformula a metafísica ao deslocar o foco do objeto para as condições do conhecer (a chamada “revolução copernicana”), e torna inevitável a necessidade de se posicionar em relação ao seu projeto crítico.

Diante dessa proposta, agora queremos ouvir Marx, mas não sem antes o opor a Kant porque Marx passa o foco do indivíduo para a luta contra as estruturas de classe, bem como por uma mudança de uma razão estática para uma história dinâmica. Por um lado, Kant está na tradição do liberalismo moderno, fundamentando a moral e o conhecimento na primazia da razão transcendental de um sujeito cujas condições de possibilidade são universais e não historicizadas. Por outro lado, Marx opõe-se ao idealismo e à análise paralisada de Kant ao introduzir o materialismo dialético, substituindo a visão de verdades fundamentais e direitos naturais pela compreensão de que a história é movida por contradições econômico-sociais concretas que precisam ser superadas[ii].

Segundo a perspectiva marxista, a nossa forma de pensar e enxergar o mundo não nasce conosco, mas é moldada pelas condições materiais e sociais em que vivemos. No centro dessa teoria está o materialismo histórico, que explica como a infraestrutura (a economia e o trabalho) sustenta a superestrutura (as leis, a religião e a cultura), moldando de forma não imediata a consciência humana em um reflexo das relações de produção. No sistema capitalista, esse processo gera uma consciência reificada (conforme postulou Lukács[iii]) e alienada, onde o indivíduo perde a visão do todo e passa a ser tratado como mercadoria, enquanto instituições sociais reforçam a ideologia da classe dominante para naturalizar as desigualdades.

Contudo, como a própria inteligência humana é fruto da transformação da natureza pelo trabalho, a filosofia e a educação crítica surgem como ferramentas essenciais para que o sujeito desperte dessa passividade, compreenda as estruturas que o cercam e busque a sua verdadeira emancipação social[iv].

Feita a contextualização, nossa máxima “Eu falo e você me ouve, mas entende?”, lida a partir de Marx, aponta menos para um problema meramente linguístico ou psicológico (como em Kant) e mais para um problema material e social da compreensão. Se em Kant a questão era transcendental, vejamos à luz do pensamento marxiano.

A compreensão não é um ato puramente individual. Para Marx, a consciência não precede a vida social; ela é produzida por ela. Em A Ideologia Alemã, ele insiste que: “Não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência.” Assim, o fato de você ouvir o que eu digo não garante compreensão, porque compreender envolve partilhar formas sociais de vida, práticas, necessidades e posições materiais semelhantes. Se eu e você ocupamos lugares diferentes nas relações de produção, a linguagem pode circular sem que o sentido efetivo se estabilize – haveria comunicação não significativa. A nossa máxima, então, revela que ouvir não basta quando há horizontes sociais distintos.

Linguagem como prática social, não como meio neutro. Sabemos que Marx não tem uma teoria sistemática da linguagem, mas lida a partir dele, a linguagem poderia ser considerada não um canal transparente de transmissão de ideias; mas uma forma de prática social. As palavras carregam marcas históricas, ideológicas e de classe. Isso implica que o mesmo enunciado pode significar coisas diferentes para sujeitos situados diferentemente; a linguagem pode reproduzir relações de dominação, inclusive no nível do “entendimento”. Assim, quando eu pergunto “mas entende?”, Marx responderia algo como: entende a partir de qual posição social? De qual interesse material?

Ideologia e falsa compreensão. Um ponto decisivo, para Marx, é que muitas vezes o problema não é falta de compreensão, mas compreensão ideologicamente mediada. Você pode entender o que foi dito de maneira invertida; você pode entender segundo categorias que naturalizam relações sociais históricas; você entender de forma a reafirmar o status quo. Nesse sentido, a nossa máxima pode ser lida como um diagnóstico crítico: eu falo, você ouve, mas o entendimento é bloqueado ou distorcido pela ideologia dominante. Assim, “não entender” não é ignorância simples, mas efeito socialmente produzido.

Entender é poder agir. Para Marx, compreensão genuína se manifesta na práxis. Não é apenas captar um conteúdo mental, mas ser capaz de se orientar e agir no mundo a partir dele. Lembremos das 11 Teses sobre Feuerbach, nas quais Marx critica o materialismo anterior por ser contemplativo e abstrato e defende um novo materialismo prático e revolucionário, cujo objetivo não é somente interpretar o mundo, mas transformá-lo.[v] Se quisermos, podemos parafrasear a famosa tese 11 postulando que não basta interpretar corretamente o que foi dito; o entendimento real aparece quando isso se traduz em prática.

Há uma transposição da tese do plano ontológico-político para o plano da linguagem e da compreensão, mas o ponto marxiano permanece o mesmo: o critério do entendimento não é apenas interpretativo, mas prático, como uma capacidade de agir de outro modo. Logo, você pode ouvir, repetir e até concordar verbalmente, porém ainda assim não entender, se nada muda no modo como você age ou se relaciona com as condições materiais envolvidas.

Resumindo, nossa máxima em tom marxiano, seria algo como “Eu falo dentro de determinadas condições sociais; você ouve dentro de outras. O que está em questão não é a audição, mas se partilhamos as condições materiais que tornam o entendimento possível.” Ou, ainda mais forte: “A comunicação falha não por deficiência cognitiva, mas por contradições sociais.”

Haverá oportunidade de contrastar essa leitura de Marx com Habermas e outros, nos próximos episódios da série.

[v] Sobre as 11 teses consultamos o DeepSeek: https://www.youtube.com/shorts/0-rbMMrD-JE. Conteúdo: Teses sobre Feuerbach

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

O entendimento como questão transcendental

O limite transcendental do entendimento na comunicação, aos olhos de Kant

Há uma máxima que ressoa em meus ouvidos: “Eu falo e você me ouve, mas entende?”[i]. Ela me intriga por questões práticas que se originaram na década passada, problemas comunicacionais tanto em âmbito pessoal quanto profissional e adiante. A retórica ganha peso nas disputas políticas recentes em terras brasilis e no durante / pós pandemia, na virtualidade.  Porém, se é prática, pode ser analisada do ponto de vista teórico e em várias camadas.

Situando a contenda filosoficamente, a filosofia da linguagem é uma área técnica especializada na questão e por ela temos navegado nesse espaço. Especificamente, a questão aparece em 2020, no texto “Trazendo a segunda pessoa para o debate”[ii], ali tratada pela lente de Davidson. Já em 2023, pudemos falar sucintamente sobre algumas teorias de filosofia da linguagem visando elucidações[iii].

Ocorre que, dada a ressonância da questão, resolvemos colocá-la em perspectiva na filosofia em geral e na ótica conceitual dos filósofos. É um exercício interessante e enviesado de questionamento que ajuda a sedimentar conceitos básicos, mas a partir de questão crucial sobre linguagem e comunicação, do ponto de vista humano.

No caso aqui, pela ótica de Kant, a nossa máxima toca diretamente no coração da Crítica da Razão Pura e ajuda a estabelecer a diferença entre receber representações e compreendê-las como conhecimento[iv]. Podemos organizar a resposta kantiana em alguns eixos centrais.

Ouvir não é entender: sensibilidade versus entendimento. Para Kant, a pergunta opõe duas faculdades fundamentais: por um lado, a sensibilidade, que recebe passivamente afecções (sons, palavras, entonações) segundo suas formas próprias e, por outro lado o entendimento pensa essas impressões por meio de conceitos. Então, ouvir alguém falar é apenas um fenômeno da sensibilidade ao passo que entender, exige que a faculdade do entendimento subsuma o que foi ouvido sob conceitos adequados.

Lembremos que, para Kant, “intuições sem conceitos são cegas”, o que me leva a pensar que você pode perfeitamente me ouvir e ainda assim não entender nada, porque a audição fornece apenas o material bruto da experiência.

Não é demais lembrar, também, que há a faculdade suprema, a razão. Reforçando, as faculdades fundamentais de Kant são a sensibilidade, que recebe passivamente os estímulos do mundo como intuições, o entendimento, que organiza e unifica esses dados através de conceitos e categorias, e a razão, que busca a unidade total e absoluta do conhecimento para além dos limites da experiência. Enquanto a sensibilidade e o entendimento garantem a recepção e a organização lógica da mensagem, a razão desempenha seu papel na busca por um sentido total do que é comunicado, e na exigência racional de fundamento - ela poderia procurar compreender o “porquê” por trás das palavras[v].

Entender é uma atividade do sujeito, não um efeito da fala. Não podemos nos esquecer, também, que a compreensão não é algo que passa mecanicamente de um sujeito a outro, desse ponto de vista. O entendimento é ativo: ele organiza, sintetiza e julga. Portanto, quando eu falo, eu somente ofereço matéria para a sua experiência, já que o seu entendimento propriamente dito depende de você aplicar conceitos, regras, esquemas e categorias (como causalidade, unidade, substância e por aí vai.). Por aí percebemos que há um limite estrutural da comunicação. Não há garantia transcendental de que o seu entendimento acompanhará a minha fala, mesmo que a gente partilhe as mesmas estruturas. Isso não significa que o entendimento seja improvável, apenas que ele não é necessário a priori.

A linguagem não transmite conceitos prontos. Para Kant, os conceitos não são objetos que circulam pela linguagem porque são funções do entendimento. Assim, quando eu falo, minhas palavras evocam representações em você que podem ou não ser organizadas sob os mesmos conceitos que você emprega. Abre-se espaço para mal-entendidos não como meros acidentes psicológicos, mas como possibilidade estrutural da razão finita.

Olha que legal, esses dois pontos enfatizam um limite, não um defeito: pode não haver problema psicológico (p.ex., o ouvinte não prestar atenção); pode não haver problema semântico (p.ex., uma frase ambígua) - não há como garantir transcendentalmente que a sua atividade ocorrerá de modo coincidente com a minha.

O papel dos esquemas: por que às vezes “quase entendemos”. Kant introduz os esquemas como mediações entre conceitos puros e intuições sensíveis. Inferimos, por analogia, que algo semelhante ocorre na comunicação: o falante pressupõe certos esquemas compartilhados. Só que o ouvinte pode ter esquemas diferentes, embora não arbitrários ou insuficientes e o resultado é que você ouve, reconhece as palavras, mas não consegue esquematizar corretamente o que eu disse. Isso não é totalmente arbitrário de cada um porque compartilhamos categorias e a estrutura.

A dimensão normativa do entendimento. Cabe ressaltar que entender não é apenas ter uma imagem mental, mas ser capaz de julgar, dar razões e aplicar corretamente um conceito. Logo, para Kant, “entender” implica a possibilidade de dizer “Isto é assim porque…”. Assim sendo, se você ouve e não consegue integrar o que ouve em juízos racionais, então, kantianamente, não nos entendemos, apenas houve recepção sensível.

Para fechar esse passeio comunicativo por Kant, podemos dizer que ele reformularia nossa máxima como algo do tipo “Eu forneço intuições por meio da fala; se há entendimento, isso depende da síntese conceitual que você realiza.” Ou, mais sucintamente: “Ouvir é passivo; entender é um ato do entendimento - e nenhum ato pode ser exigido como necessidade transcendental.”[vi]

Como provocação final, Doctor Sadler, guiado por Ayer, argumenta que grande parte das proposições metafísicas não tratam de problemas metafísicos, mas são problemas de linguagem, problemas linguísticos[vii]. Por exemplo, ele cita, ao tratar dos universais, podemos falar de algo como a essência de um livro e isso nos leva a postular que essa essência existe. "Livro é maravilhoso" - ele diz. Ora, como podemos falar de universais gramaticalmente somos seduzidos a crer que universais existem. 

Se podemos predicar de algo esse algo é uma entidade, esse algo existe. Mesmo um livro particular.. Ele é uma coleção de páginas, ele somente é uma aparência, coleção de qualidades ou uma unidade, a substância - a coisa em si (ding an sich)? Vimos isso em Wittgenstein[viii] e isso passa pela terapia linguística, mas devemos ter muito mais a dizer sobre esse tipo de coisa - a batalha da filosofia analítica com a continental.



[i] Um dia foi “Eu falo e você me escuta, mas entende?”. Parece que há mais compromisso quando escutamos, então o mote correto é ouvir, que é o mínimo necessário para que duas pessoas conversem.

[iv] Usamos o método de pedir para o estagiário fazer o levantamento na base de conhecimento mundial - o estagiário Gemini. Mas também estruturando com o conteúdo do blog: NotebookLM do Blog.

[v] Conforme textos desse espaço. A máxima ecoa majoritariamente na teoria do conhecimento, mas futuramente ela pode ser pensada eticamente, quiçá pela filosofia da mente e ontologia, etc. 

[vi] Estamos começando as publicações da série Eu falo e você me ouve, mas entende? (Efevmo-me?). Nela, Kant mostra que o problema do entendimento não é primariamente linguístico, mas transcendental. A pergunta “mas entende?” não é empírica, é uma pergunta sobre as condições de possibilidade da compreensão. Haverá oportunidade de mostrar como Habermas tenta “socializar” esse problema que Kant deixa no sujeito.

[vii] A.J. Ayer, Language, Truth, and Logic | Examples of Philosophical Nonsense | Philosophy Core Concept - https://www.youtube.com/watch?v=ArOfPwPmK7M.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Novas formas epistemológicas

 A proposta externista de Davidson, ao tentar refutar o ceticismo, passa do realismo ao idealismo[i]

Introdução. Smith aborda questões epistemológicas contemporâneas e traz para debate a proposta externista de Davidson que permitiria uma refutação ao ceticismo. É uma forma de teoria moderada da coerência que, tratando o conjunto de crenças dependentes umas das outras, faz com que dificilmente elas sejam falsas sobre o mundo real, ou seja as crenças majoritariamente corretas.

O pressuposto do internismo e as vantagens de recusá-lo. De acordo com Smith, Davidson pressupõe que o internismo, na medida em que baseia os pensamentos em crenças que não se vinculam ao exterior, como “Amanhã será um dia ensolarado”, não evita que sejam falsas. Assim, separa crenças de verdades marcando a diferença do que pode ser verdadeiro com o que de fato é.

Ao separar o domínio interior da mente do exterior, Davidson argumenta que o internismo abre as portas para o ceticismo, já que nossos pensamentos poderiam ser como são e o mundo completamente diferente, levando o epistemólogo a ter que enfrentar o desafio do cérebro num balde (ou cuba), conforme argumenta Smith.

Além disso, com a separação entre mente e mundo apareceriam entidades de ligação entre eles, chamados intermediários epistêmicos por meio dos quais o mundo é representado, porém eles não trazem garantias de que são como o mundo é. Uma proposta verificacionista como a de Quine, ao passo que se dá pelos nossos estímulos sensoriais, não assegura que o mundo não possa ser algo diferente. Smith sublinha que podem haver intermediários causais, mas uma tal terminação nervosa, por exemplo, não tem valor epistêmico.

Dessa forma, rejeitando o internismo semântico, há ganhos para a teoria do conhecimento que não precisa tratar dos problemas que ele levanta, como quando o ceticismo questiona o mundo exterior, já que o externismo está atrelado causalmente ao mundo. E, também, pelo prisma do externismo deixa de fazer sentido a pergunta cética por outras mentes e Davidson se associa a Wittgenstein ao tratar da linguagem como algo social e que pode ser interpretado ou conhecido pelos outros.

A versão davidsoniana do argumento transcendental. A refutação ao ceticismo por parte de Davidson se vale de três argumentos e passa pelo esquema da triangulação[ii]. Smith esclarece que o argumento de Davidson contra o ceticismo se encaixa numa família de argumentos transcendentais (Kant, Strawson e Putnam são outros casos), mas fortemente realista e anti representacionalista. Em um primeiro momento, Davidson estabelece que o conjunto de crenças tem natureza verídica, contrariando a hipótese cética de que as crenças poderiam ser falsas. Mas isso se dá do ponto de vista do intérprete que atribui crenças ao falante. Smith exemplifica: quando o falante diz “gavagai” na presença de um coelho, o intérprete atribui a ele a crença de que gavagai significa coelho. Ou seja, crença e significado estão relacionados e, se são interpretados corretamente, temos que a maioria das frases do falante são verdadeiras, de acordo com o intérprete. 

Ocorre que, nesse caso, ficamos a mercê da opinião do intérprete e não de uma verdade objetiva[iii]. E, se é verdade que as crenças do intérprete são verdadeiras, então as do falante também o são.  Mas o argumento carece de explicar como as crenças do intérprete são verdadeiras e então Davidson lança mão de um segundo momento do argumento, com a ficção do intérprete onisciente cujas crenças sobre o mundo são verdadeiras e retira-se o condicional, assegurando a validade objetiva das crenças do intérprete. 

De posse desse passo adicional, Smith enfatiza que o intérprete onisciente é uma hipótese, todavia, não um fato. Não obstante, apesar de Davidson reconhecer a fraqueza do argumento[iv] insiste na sua teoria a despeito dele, e Smith invoca o terceiro passo da argumentação e que ele considera mais importante, a relação causal entre o mundo e nossas crenças. Como o cético global[v] supunha um intermediário epistêmico entre crença e objeto da crença, ali se instalava a dúvida mas, uma vez que Davidson postula que os objetos de uma crença são a causa dessa crença, há um caminho para refutar o ceticismo. Conforme Smith: “Sendo o conteúdo da crença determinado pelo próprio objeto que causa a crença, a crença será sempre verídica. Uma vez que o conteúdo da crença é precisamente o próprio mundo que a causa, não há como o conteúdo ser falso” (p. 129). E voltamos à questão do internismo e do externismo.

Exame da solução de Davidson. Para Smith, é crucial saber de que maneira a causa determina o significado de nossos enunciados. Será que a relação causal determina o significado e o conteúdo independentemente dos faltantes? Parece que seria possível assegurar a verdade da crença identificando o objeto com a causa da crença e removendo o hiato mente mundo, conforme começa analisar Smith. Mas ele entende que uma mera causalidade sonora não implica significado, a menos que haja por parte do falante essa aceitação durante a comunicação. Por outro lado, se não conhecemos a causa, haveria o ceticismo sobre o conteúdo, isto é, mesmo que a crença fosse verdadeira não saberíamos qual a sua causa real. Haveria o ceticismo de saber sobre o que estamos pensando.

Entretanto, Smith reconhece que, para Davidson, temos participação na constituição do significado. Para além do objeto que causa a crença não só no falante, mas também no intérprete, há uma intervenção humana na comunicação que faz com que a causalidade possa determinar o conteúdo, quando há compartilhamento de conceitos, como os dos objetos e do mundo e seus eventos que independem dos nossos pensamentos.

Smith também pontua que Davidson discorda de que não conheçamos os conteúdos das crenças. Assim ele difere de Putnam, por exemplo, quando postula que é a estrutura química da água que determina nosso pensamento sobre ela, saibamos ou não o que é H2O. Para Davidson trata-se do líquido inodoro que podemos observar, sua causa é conhecida. Mas Smith aí vê um retorno sub-reptício do ceticismo, já que entra na equação o entendimento entre os falantes que pode diferir do mundo como ele é. Nós não nos reportamos mais ao mundo real, mas a um mundo que concebemos e cujas causas supomos que sejam a de nossos pensamentos, crenças e palavras. volta-se a um conhecimento do mundo tal qual nos aparece e o questionamento cético de se ele é tal como nos aparece.

Passos finais. Assim, Davidson, que partiu de uma atitude realista, se aproxima perigosamente do idealismo já que nos distanciamos do mundo e das causas em si mesmas. Smith resume os argumentos 1 e 2 de Davidson como tratando das crenças verdadeiras na opinião do intérprete e o argumento 3 tratando das crenças se referindo a uma realidade não objetiva, mas que aparece para nós, então, de forma idealista, quando a realidade depende de esquemas conceituais.

Smith defende que a tese realista de Davidson só desemboca no idealismo quando ele se preocupa em refutar o cético, quando tenta negar a conclusão dos argumentos céticos. Quando o cético diz que não conhecemos o mundo, mas Davidson insiste que sim, o conhecemos, percebemos que o conhecemos como aparece e não como é, que é justamente a hipótese cética. Smith, por fim, sugere que Davidson se comprometa com uma investigação da natureza diferente da investigação cética, que trata do conhecimento do mundo exterior. Ele deveria se preocupar com uma reorientação epistemológica, substituindo problemas tradicionais por novos e em direção a uma epistemologia empirista e naturalista em oposição a uma resposta transcendental a priori. Ao desenvolver uma reflexão que não se relaciona com a cética, o epistemólogo pode contribuir para o esclarecimento de nossas práticas cognitivas.

Notas.

[i] Fichamento do capítulo - Davidson, Externismo e Ceticismo. SMITH, Plínio Junqueira. O ceticismo sob suspeita. São Paulo: Associação Filosófica Scientiae Studia, 2022. 318 p. (Coleção epistemologia e filosofia analítica).

[ii] Ver https://bit.ly/4s9WLan - Trazendo a segunda pessoa para o debate. O texto examina a centralidade da "segunda pessoa" na filosofia de Donald Davidson, conforme interpretada por Waldomiro J. Silva Filho, estabelecendo a interação dialética como condição sine qua non para a constituição da linguagem e da objetividade. Superando o solipsismo e a dependência de convenções linguísticas prévias, a tese sustenta que o significado emerge de uma triangulação epistêmica entre dois agentes e um objeto comum no ambiente, processo no qual a "interpretação radical" permite a convergência de crenças e a individuação de pensamentos no espaço público. Nesse modelo investigativo, a comunicação transcende a mera transmissão de informações para se tornar um processo de justificação epistêmica, em que o interlocutor é reconhecido como um sujeito intencional e a distinção entre crenças subjetivas e o valor de verdade ("o que é o caso") é estabelecida através do ajuste dialético entre os falantes - resumo Gemini. Entra também o Princípio da Caridade que ainda não tratamos.

[iii] Conforme Klein e Rorty, de acordo com Smith.

[iv] Assim como no Homem do Pântano. Conforme Gemini (em 24/12/2025), esse experimento mental (Swampman), proposto por Donald Davidson em 1987, argumenta que a existência de estados mentais e significados depende da história causal do indivíduo. Davidson imagina que um raio o atinge em um pântano, desintegrando-o, enquanto simultaneamente organiza moléculas próximas em uma réplica física exata sua. Embora o Homem do Pântano se comporte e reaja de forma idêntica a Davidson, o autor defende que essa réplica não possuiria pensamentos ou linguagem genuínos no início, pois seus estados internos careceriam das conexões históricas e causais com o mundo (objetos e pessoas) que conferem conteúdo às crenças e palavras. A referência é o ensaio "Knowing One’s Own Mind" (1987) e traz como pontos chave: 1.) Externalismo Histórico: A mente não está apenas "dentro da cabeça"; ela depende de como interagimos com o ambiente ao longo do tempo e 2.) Identidade Física vs. Mental: Ter o mesmo cérebro (átomo por átomo) não garante ter os mesmos pensamentos se a origem for puramente acidental.

[v] Conforme Gemini (em 24/12/2025), o ceticismo global (ou ceticismo radical) é uma posição filosófica que defende que é impossível termos conhecimento sobre qualquer coisa ou que não temos justificativa para acreditar que o mundo exterior existe da forma como o percebemos. Diferente do ceticismo local (que questiona áreas específicas, como a religião ou a ética), o ceticismo global ataca a própria base da nossa capacidade de conhecer a realidade. O ceticismo global é frequentemente visto como um "desafio intelectual" para testar a força das nossas teorias do conhecimento (epistemologia).


sábado, 15 de novembro de 2025

Introdução à lógica elementar

O documento apresenta definições fundamentais de lógica, distinguindo sentenças, enunciados e proposições, aborda a linguagem natural e artificial, e detalha a Lógica Clássica ou Cálculo Quantificacional Clássico[i], incluindo seus símbolos, gramática, tipos de fórmulas e quantificadores, exemplificando sua aplicação[ii]

Definições. Lima define a lógica como: “investigação que tem por objeto a inferência, e seu objetivo é determinar em que condições (princípios e métodos) determinadas conclusões se seguem (isto é, são consequência) de suas premissas”. O conjunto de proposições que atendem esse requisito é chamado de argumento, por meio de um processo que gera uma informação nova, por meio de inferência. 

Já uma sentença é uma sequência que tem entre suas palavras um verbo e podem ser interrogativas, imperativas e declarativas, sendo que a última permite afirmar ou negar algo. Já o enunciado é uma sentença declarativa realizada em determinada situação.

Ocorre que sentenças e enunciados podem ser falsos e verdadeiros e ao mesmo tempo, contrariando o princípio da não-contradição. “Eu sou gordo” tem valores diferentes dependendo de quem a pronuncia. Daí surge a proposição como aquilo que é declarado pela sentença ou enunciado, seu conteúdo.

Linguagem. A linguagem, sistema de signos ou sinais, que usamos é diferente da linguagem usada pela lógica. A linguagem pode ser estudada pela sintaxe, que se preocupa com a sua estrutura, a semântica, que foca nos significados e a pragmática, associada ao uso pelos falantes[iii].  Quando falamos da linguagem natural, por exemplo, a língua portuguesa, falamos de uma linguagem desenvolvida culturalmente e que sofre modificações ao longo do tempo, diferentemente da linguagem artificial, como a linguagem de programação.

Lógica Clássica. É chamada de Cálculo Quantificacional Clássico (CQC), a lógica elementar, ela é formal e simplificada, com um universo estático e descontextualizado, bem como modelada por aproximações do real. A formalização deve conceituar os objetos que aquela linguagem trata e definir seus indivíduos, propriedades e relações, evitando ambiguidades. Devem ser escolhidos símbolos para designar os objetos e se as sentenças são atômicas ou moleculares, bem como as regras para formação de sentenças, isto é, uma gramática.

Então, uma linguagem artificial deve conter um alfabeto, a gramática e definir quais expressões são bem formadas. Também deve ter símbolos para constantes e variáveis que designam indivíduos (em letras minúsculas), propriedades unárias (em letras maiúsculas) que são sentenças proposicionais, fórmulas atômicas, como, por exemplo, Pc (Cléo é um peixe) e operadores lógicos que permitem formar sentenças moleculares, como a negação (não é o caso), conjunção (e, mas), disjunção (ou), implicação (se… então) e bi-implicação (se e somente se). A pontuação se restringe aos parênteses, que podem tratar ambiguidades e há os quantificadores existencial (existe) e universal (todos). 

Vitor classifica as fórmulas da seguinte maneira:

  1. fórmulas atômicas: iniciam com o símbolo do predicado: Fx
  2. fórmulas moleculares: iniciam com negação ou parênteses: ~Fx, (Fx -> Gx)
  3. fórmulas gerais: iniciam com x ou x

Por fim, alguns casos interessantes de aplicação: xFx = Alguém é filósofo e ~xFx = Ninguém é filósofo. E o recado que conhecemos, que não existe apenas uma lógica, como temos visto em Susan Haack[iv].



[ii] Resumo de Lima, Vitor, "Introdução à Lógica elementar | Introdução Geral à Filosofia | Aula 26", Canal Youtube Isto não é Filosofia, URL = <https://www.youtube.com/watch?v=slz71T27nQU>. Fonte: Introdução à lógica - Cezar Mortari.

[iii] Aqui há categorização dos níveis linguísticos: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2022/02/niveis-de-processamento-linguistico.html. As duas últimas referentes ao significado, conforme https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2022/11/introducao-ao-significado.html.

[iv] https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2025/11/filosofia-das-logicas.html , Filosofia das Lógicas