quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Informação definida em termos de probabilidade

Um percurso pela definição probabilística de Shannon e pelas abordagens que relacionam informação e significado.

Shannon (EUA, 1916-2001) aparece, obviamente, extensamente no artigo da SEP sobre informação. Logo nas definições técnicas do conceito de informação, quando se tentou, no século XX, formalizá-lo, levando-se em conta duas propriedades centrais: a de que a informação é extensa e que ela reduz incerteza.

Nota de Escopo: Aqui falaremos da informação do ponto de vista de Shannon, não de outros teóricos ou do percurso da sua história.

A primeira propriedade se baseia na aditividade, ao afirmar que dois conjuntos independentes de informação, se somados, contêm duas vezes a quantidade de informação, tanto quanto teriam se separados. Ela toma como exemplo a multiplicação logarítmica que se reduz a adição: loga×b = loga + logb. Essa formalização foi aplicada nas definições de entropia, inicialmente na Física, por Boltzmann, e depois emprestada por Shannon para a sua definição, como veremos.

Já a relação de que a incerteza diminui com mais informação aparece pela primeira vez com Locke e Hume, segundo o autor, esse último versando que uma escolha em um conjunto maior de possibilidades fornece mais informação (falamos sobre isso no artigo sobre indução). Entretanto, Shannon unifica os conceitos de extensividade e probabilidade na definição probabilística de informação: I(A) = −logP(A). Ou seja, a quantidade de informação em uma mensagem é o logaritmo negativo de sua probabilidade de ocorrência – teremos mais a dizer sobre isso na sequência.

Ocorre que Shannon se enquadra no ramo das teorias quantitativas da informação, que tratam da mensuração técnica, probabilística e estrutural dos dados, ao passo que há teorias qualitativas voltadas ao significado, veracidade e impacto da informação sobre um agente. Embora Shannon não a trate do ponto de vista semântico, sua noção de informação quantitativa é uma das mais conhecidas. Contudo, de acordo com a SEP, ela não capturaria a noção de desordem do sistema, que é essencial na termodinâmica, algo um tanto controverso porque a própria crítica compara eventos individuais (duas mensagens específicas), quando desordem, termodinamicamente, é uma propriedade do sistema como um todo (do conjunto de estados possíveis), não de um evento isolado. Isso ficará mais claro abaixo, mas vamos dar uma primeira espiada.

Supondo que, em um determinado corpus em português com significado comum, convencional, primeiro sorteemos a mensagem “sim” e, depois, “mis”. Naturalmente, a probabilidade de “sim” ocorrer é muito maior do que “mis”, então “mis” traz mais informação – um espanto. Porém, em português, “mis” não significa nada. Então, em si, “mis” tem quase zero informação semântica, mas uma alta quantidade de informação para Shannon.

Nosso exemplo deixa claro que a quantidade de informação presente em uma mensagem não determina seu significado. Tomando uma sequência improvável, que pode apresentar alta informação contida nela mesma, no sentido de Shannon, vemos que ela pode possuir um significado convencional no contexto considerado. Por outro lado, uma mensagem familiar pode ser perfeitamente compreendida sem trazer novidade relevante.

Então, o artigo cita de passagem a contribuição de Shannon no desenvolvimento histórico do significado do termo informação, que havia desaparecido na filosofia moderna e aparece com o matemático ao introduzir um método formal para mensurá-la. Embora, de forma heurística, em 1844, um assistente de Morse tenha utilizado um princípio de teoria de códigos ótimos para determinar a frequência das letras usadas em um jornal local em Morristown, EUA.

Conforme o artigo, Shannon se filia a uma tradição da Física proveniente de Galileu, que passa por entender conceitos abstratos, como calor e pressão, usando a matemática das probabilidades, como ponte entre o mundo micro e o macroscópico. Nessa linha, há uma evolução da teoria cinética, desde a proposição galileica do movimento das partículas, passando por Boltzmann, que formula a equação que relaciona a entropia com o número de combinações possíveis das partículas: S = k logW. A entropia S é a medida de desordem ou de estados do sistema, enquanto W são os microestados, as configurações invisíveis das partículas que produzem a mesma condição que vemos por fora (temperatura, pressão).

Daí surge a teoria da informação, com o log W podendo ser a quantidade de entropia do sistema, o tamanho da informação ou os dados necessários para detalhar cada microestado, o nível de incerteza sobre em qual estado exato as partículas estão ou, por fim, uma medida da probabilidade de encontrar o sistema em determinado estado. Até chegar na Ciência da Informação, com Shannon, que parte dessa estrutura matemática para criar a Teoria da Informação, medindo a entropia em sistemas de comunicação e dados. Shannon adapta a fórmula da Entropia de Gibbs, que mede o grau médio de incerteza, surpresa ou desordem de um sistema probabilístico, de forma mais geral.

Fórmula da Entropia de Gibbs
Representação matemática da Fórmula da Entropia de Gibbs

Já adentrando nas teorias modernas da informação, o artigo elenca Popper, o primeiro a tentar formular uma boa teoria formal para medir a quantidade de informação, no seu caso intimamente ligada à falseabilidade. Então Shannon aparece com a informação definida em termos de probabilidade.

O artigo da SEP menciona que, por usar o logaritmo na base 2, há garantia de que a medição ocorre em bits. E que, quando as mensagens de um sistema têm igual probabilidade de ocorrer, isto é, são típicas, a entropia de comunicação é máxima.

Lembrando da definição probabilística de informação, acima, o que se representa é a proporção de um evento acontecer em relação ao total de possibilidades. Assim, a probabilidade de um evento varia de zero a um, sendo zero impossibilidade e um, certeza. Já a quantidade de informação definida por Shannon varia em sentido inverso. Quando a ocorrência de uma mensagem é certa, a informação que carrega é zero; quanto mais improvável for o evento, maior será a surpresa associada à sua ocorrência. Para eventos de probabilidade zero, a expressão não fornece um valor finito.

Então, se px = 1, então I(x) = 0. Isso quer dizer que quando é certo que vamos receber a mensagem x, ela não traz novidade, porque quanto menor a probabilidade de ocorrência da mensagem, mais informação ela contém. Conforme o exemplo: “O sol nascerá amanhã”, traz pouquíssima informação. E lembremos também da propriedade da aditividade: I(x + y) = I(x) + I(y), para dois eventos independentes, a quantidade de informação em duas mensagens combinadas é igual à soma da quantidade de informação nas mensagens individuais.

Gráfico da função logarítmica representando a quantidade de informação
Gráfico gerado (com auxílio de IA) para demonstração visual do comportamento logarítmico na Teoria da Informação.

Não obstante, conforme o gráfico, como o logaritmo de base 2 não é positivo, há necessidade do sinal para garantir que não haja informação negativa.

Por fim, lembremos que, para Shannon, a informação de uma mensagem não depende do seu significado, mas da sua imprevisibilidade e, a partir daí, há filosofias da informação voltadas à semântica, como Bar-Hillel - Carnap e Floridi.

A terceira das teorias modernas da informação trata informação como o tamanho de um programa. Ela surge das considerações de um aluno de Carnap, Solomonoff, que tenta universalizar suas formulações de probabilidade, que eram dependentes da linguagem: P1 como grau de confirmação, aí numa relação lógica entre duas sentenças e P2 como frequência relativa, já do ponto de vista estatístico.

Então vem a definição de complexidade de Kolmogorov (1965, com Solomonoff e Chaitin), definindo a complexidade algorítmica de uma string x como o comprimento do menor programa que produz x quando é executado em uma máquina de Turing universal. Essa Teoria Algorítmica da Informação ganhou rápida aceitação passando a ser aceita como uma teoria da informação mais fundamental, conforme citação de Cover e Thomas (2006) “… consideramos a complexidade de Kolmogorov (ou seja, AIT) mais fundamental do que a entropia de Shannon”.

Quando trata de considerações sistemáticas, o artigo da SEP enquadra Shannon no campo da Filosofia da Informação como uma Extensão da Filosofia da Matemática. Há outras duas subdivisões onde ele não aparece: primeiro, na Informação e Computação Simbólica, com destaque para as máquinas de Turing e teorema de Gödel. Depois, em um trecho mais curto chamado Informação quântica e além, sendo relevante a notícia de que a física quântica mina o determinismo laplaciano e o conceito de qubit – bit quântico que pode se sobrepor, isto é, pode existir como 0, 1 ou em uma combinação de ambos ao mesmo tempo.

Detalhando um pouco mais, o autor da SEP remete ao seu Manual de Filosofia da Informação (Adriaans & van Benthem 2008b), ele caracteriza três tipos: informação-A: conhecimento, lógica, o que é transmitido em respostas informativas; informação-B: probabilístico, baseado na teoria da informação, medido quantitativamente e informação-C: compressão algorítmica de código, medida quantitativamente. A informação-A fez parte do programa positivista ao tentar reconciliar a lógica dos mundos possíveis (A) com o raciocínio probabilístico (B) e, como vimos, B a Shannon e C a Kolmogorov.

De volta para a filosofia da matemática, há forte correlação da filosofia da informação para com ela, na ligação entre perguntas como o autor cita: “O que são dados?” e “O que é informação?” com relação a “O que é um conjunto?” e “O que é um número?”. Então, para além da informação cotidiana, advinda da medição de coisas que remete a contagem de ovelhas na Mesopotâmia, há o desenvolvimento histórico dos símbolos, conjuntos, multiconjuntos e cadeias de caracteres para representar as coisas. Nesse ínterim, Shannon aparece como mais interessado na frequência das mensagens do que na informação sobre essa sequência, se inserindo em um multiconjunto que é atualizado a cada nova mensagem recebida, sem focar em sua estrutura.

Como a informação está intimamente relacionada ao conceito de conjunto e que Hilbert formula a ideia de que os conceitos matemáticos são definidos implicitamente por um conjunto de axiomas, nos leva a termos que explicitar exemplos. Dentro desse contexto, cita-se o paradoxo de Russell, variante do paradoxo dos mentirosos, no qual o filósofo inglês procura pelo conjunto de todos os conjuntos que não são membros de si mesmos, cujo objeto não se pode determinar. O exemplo mostra que há um limite para a teoria dos conjuntos e algum grau de controvérsia, embora Frege e Russell partam dessa base para definir o conjunto dos números naturais e assim por diante.

E é justamente um conjunto de números que vai servir de base para medirmos a quantidade de informação que se atribui a determinado elemento de um conjunto. É aqui que aparece as medições logarítmicas de Boltzmann (desordem de um gás) e Shannon (surpresa de uma mensagem), conforme vimos. Conforme o autor, elas estão fundamentadas em conceitos matemáticos mais básicos, como o conceito geral de conjuntos e podem levar a uma teoria unificada da informação. Já o supracitado Kolmogorov, cujo axioma da aditividade pode ter sua fórmula questionada no nível quântico, se junta a Shannon na conformidade de que programas determinísticos não criam informação nova.

Por fim e não cabe aqui, a seção explora fatoração, números primos, técnicas de criptografia e a atualização, em Gödel, do paradoxo do mentiroso, no teorema da incompletude que mostra que sistemas determinísticos devem conter afirmações que são verdadeiras, mas não demonstráveis. Ou seja, existem sentenças verdadeiras da forma “Eu não sou demonstrável”. Como o sistema não pode conter contradições, a frase não pode ser falsa, mas nunca poderá ser provada. É a incompletude que adverte que verdades existem, mas o sistema jamais consegue demonstrar com suas próprias regras.

Como pudemos ver nesse passeio pela informação, tendo como centro Shannon, há complexidade no tema e o capítulo 6 da SEP passará por anomalias, paradoxos e problemas em aberto na Filosofia da Informação. Principalmente, concentrando-se nas conexões entre informação, computação, busca, complexidade, termodinâmica, lógica, semântica e significado.

Em um primeiro momento, ilustra-se o paradoxo da busca sistemática, que aparece no Menon, de Platão, que pergunta a Sócrates: “como saber se você encontrou o objeto que procurava se ele é desconhecido?”. São problemas em aberto, tanto na ciência da computação como na filosofia, como podemos pensar em João em busca de um unicórnio. Se o encontra, para Shannon, há ali muita informação; já para Kolmogorov não, porque João já sabia o que era um unicórnio.

Contudo, tratando de determinismo e termodinâmica, os autores argumentem ser mais fácil relacionar Shannon (informação) com Kolmogorov (complexidade), embora tenha havido tentativas de criar computadores de bolas de bilhar para estudar sistemas reversíveis em termodinâmica.

Quando trata da semântica, na seção 6, há referência a Frege, no campo filosófico, como destaque na virada linguística, ligando lógica e informação. Porém, se pesquisadores como Popper, Carnap e Kolmogorov, entre outros, tiveram a ambição de quantificar a informação em conjuntos de frases verdadeiras, Shannon, conforme já mencionamos, afirma que sua teoria não é semântica.

Fechando o tema, na conclusão ressalta-se o papel importante que a informação tem na filosofia, seja na lógica, epistemologia e ontologia. Na verdade, as ciências em geral lidam com a informação e a filosofia da informação traz novas perspectivas para compreensão de problemas filosóficos, como a abordagem de Shannon que aqui analisamos e que vamos conectar com Wiener e Simondon, ali adiante.

Referências

ADRIAANS, Pieter. Information. The Stanford Encyclopedia of Philosophy. Disponível em: <https://plato.stanford.edu/archives/sum2024/entries/information/>.

ADRIAANS, Pieter; VAN BENTHEM, Johan (Ed.). Philosophy of Information (Handbook of the Philosophy of Science 8). Amsterdam: Elsevier, 2008. Disponível em: <https://www.sciencedirect.com/book/edited-volume/9780444517265/philosophy-of-information>.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

A epistemologia do erro

Um passeio pela comunicação precária, primeiro capítulo da obra homônima de André Lemos

Neste primeiro capítulo, no qual trata da comunicação precária, André Lemos traça uma epistemologia do erro tomando como base um mundo errático, já em si mesmo, como ele diz.

O ponto de partida é o retrocesso que houve, desde o otimismo da “rede” dos anos 90 ao cenário atual de precariedade, composto pela plataformização, discursos de ódio e domínio das Big Tech. Não podemos fugir desse assunto, trata-se das ruínas do capitalismo e, pela tríade erros, falhas e perturbações (EFP), Lemos vai buscar rastrear a precariedade da cultura digital.

Para ele, a precariedade pode ser tomada como uma condição planetária, mais ampla do que o objeto técnico. Ela emerge do que ele classifica de “assembleias”, isto é, pela coletividade e que nos permite mapear problemas éticos e políticos da cultura digital. Nesse sentido, não fica preso em uma análise do que é meramente técnico, já que o objeto pode funcionar bem ou mal.

Partindo do diagnóstico de que a cultura digital cria uma visão de mundo, ela, a tecnologia, acaba por se tornar invisível e nos faz acreditar em um mundo como ordem. Ocorre que há miríade de problemas oriundos tanto do humano como do não humano e seu método propõe constatar, por meio de uma ontologia, que o mundo é precário e, a partir disso, o observar com esse viés, através de uma epistemologia. É uma postura onto-epistêmica que evita aceitar as benesses do digital ao reconhecer e identificar seus problemas.

Esse é o ponto que precisamos enfatizar: parte-se de uma “ontologia do precário”, como algo constitutivo do mundo, para, a partir da constatação de que o precário nos constitui, usarmos a epistemologia com a noção de que o conhecimento não deve partir do funcionamento normal, da estabilidade e da ordem para, por fim, usarmos a metodologia de observar erros, falhas e perturbações porque eles revelam relações que permanecem ocultas no funcionamento ordinário.

Contra as promessas da eficiência, Lemos propõe que EFP não são exceções já que o mundo é errático. A nossa vida é composta de pequenos erros e fracassos, ainda que o erro possa ser fruto de um desejo inconsciente, como um ato falho. E ele cita Beckett, como quem levou a questão ao extremo, tocando em temas como a incomunicabilidade e o absurdo da existência.

Por outro lado, ao contrário do escritor irlandês que via o erro como nossa condição, as startups do Vale do Silício negam o erro, usam o fracasso como motivador do sucesso, ao proporem “falhe logo!”, como ele exemplifica. Ali o precário é visto como acidental. Já o neomaterialismo procura corrigir essa falha epistemológica. Sim, o produto quebra e quando isso ocorre sentimos surpresa ou frustração.

Tratando da etimologia, o autor nos informa que erro remete a desvio ou engano, mas na sua base significa vagar. Como exemplo, ele cita Rousseau (século XVIII – Devaneios do Caminhante Solitário), sua errância e busca pelo autoconhecimento. Trata-se da metáfora do caminhar como ato filosófico. Seguindo adiante, na ciência moderna (século XIX), o erro também pode ser formalizado como desvio em relação a uma medida ou expectativa. Gauss desempenha papel fundamental na teoria dos erros, nesse campo. Aqui, porém, o desvio não apenas indica uma diferença em relação ao esperado, algo que precisa ser corrigido, mas passa a fazer parte da própria medição empírica.

A partir dos anos 1980, ele denomina a “virada imperfeita” como momento de estudo de objetos quebrados. Constata-se a imprecisão inerente à comunicação e à cultura digital em rede, evidenciada nos chamados “estudos da mídia maligna”. Ora, tudo quebra e os objetos aparecem como caixas pretas que guardam problemas invisíveis. Entretanto, se os defeitos revelam relações sociotécnicas em redes complexas que envolvem múltiplos atores, EFP recebem pouca atenção das teorias sociais. E complementa que uma epistemologia do erro é capaz de evidenciar o modo de funcionamento operacional de um sistema.

Voltando para a comunicação precária, então, a comunicação humana é errática e as mensagens que são trocadas inevitavelmente sofrem degradação. Por detrás das mediações sociotécnicas que parecem funcionar bem, há perturbações e incompreensões. Vejamos o caso das ciências da comunicação: analisa-se o erro do ponto de vista da engenharia (ruído no canal, entropia) e da filosofia (dialética, desentendimento). Já pela linguística há o problema da interpretação.

Nessa área, há bastante destaque para Niklas Luhmann, que aborda nossa dificuldade em compartilharmos ideias procurando mostrar que a nossa comunicação é improvável. Mas, para fazermos uma epistemologia do precário, não podemos excluí-lo, ao contrário, devemos partir disso. Na esteira de Luhmann, Nöth dirá que não há troca mútua de ideias porque as mentes dos envolvidos são sistemas fechados (tema que dialoga diretamente com as reflexões sobre o entendimento como ato privado). Para Nöth, a comunicação livre é um mito europeu, relacionado à ideia de conhecimento universal e afins.

Luhmann discorrerá sobre a comunicação e sua teoria propõe que ela constitui a sociedade como um sistema autopoiético, ou seja, como um sistema fechado de comunicação autorreferencial que se reproduz e organiza a si mesmo de forma contínua. E volta a ideia de que a percepção do outro é opaca. Citando: “O entendimento nunca é uma simples transferência de um enunciado para o receptor” (p. 25). Para Luhmann, a comunicação se dá sobre três pilares: informação, enunciação e compreensão. Mas a compreensão não significa necessariamente que o receptor apreenda a mensagem da forma pretendida pelo emissor.

Nota sobre Autopoiese em Niklas Luhmann: O conceito de autopoiese é oriundo da biologia (desenvolvido por Humberto Maturana e Francisco Varela) e foi adaptado por Luhmann para explicar a teoria dos sistemas sociais. Para aprofundar o entendimento desse conceito e seu papel na comunicação autorreferencial, recomenda-se a leitura do ensaio Niklas Luhmann: What is Autopoiesis?.

Inclusive, e isso nos toca já que tratamos das teses de Habermas no ensaio sobre o entendimento a serviço da comunicação na série EFEVMO-ME, Luhmann critica a Teoria da Ação Comunicativa (TAC) por entender que ela seria empiricamente falsa ao pressupor que uma busca pelo consenso é mais racional do que pelo dissenso.

Ainda no campo das teorias da comunicação, Lemos trata da cibernética – área associada a Simondon e a autores como Shannon e Wiener. No caso de Shannon, ele investiga o ruído presente nas trocas de mensagens, partindo da noção de entropia emprestada da física. Já em Wiener, o desvio pode alimentar um processo de feedback que permite a correção do sistema, dimensão que também exploramos na discussão sobre futuridade e os conceitos de Massumi. Pelo lado da cibercultura, vemos que a “internet cresceu quebrando” ao esbarrar nos limites dos protocolos e da infraestrutura.

Sobre sistemas algorítmicos, erros suscitam controvérsias fazendo com que os dados ofereçam explicações. Quando um sistema de Machine Learning erra, ele revela dimensões éticas e políticas escondidas. Então, de posse da metodologia do precário, os erros algorítmicos, para além de evidenciarem os limites das previsões produzidas a partir dos dados, podem adquirir uma função epistemológica: abrir caixas-pretas que escondem pressupostos. Se tudo funciona conforme o esperado, as mediações permanecem frequentemente invisíveis; o erro, ao contrário, pode torná-las perceptíveis.

A precariedade como questionamento aparece nas artes, na Glitch Art, um dos últimos tópicos abordados por Lemos nesse capítulo. É uma prática artística que explora, esteticamente, as fissuras da tecnologia, seja por EFP intencionais ou acidentais. É o fracasso como estética, que aparece na música associado a ritmos como techno, house e drum and bass. Isso se vê em exemplos da arte de vídeo e artes plásticas explorando interferências visuais, ruídos e objetos funcionais. Tomado como operador metodológico, o glitch questiona os valores da sociedade industrial e informacional.

Por fim, Lemos destaca como o erro aparece na teoria comunicativa para revelar problemas sociais como privacidade, soberania e desinformação. Olhar com cuidado para as mediações enfatiza a distância existente entre o remetente e o destinatário. O erro deve convocar a ação e, por meio de uma epistemologia do erro, podemos reconhecer que o mundo é errático e superarmos a visão antropocêntrica, que subestima a importância dos objetos técnicos.

Terminamos com o chamado de Haraway, citado na conclusão do capítulo: “ficar com o problema” e não querer fugir para um local seguro. A partir desse panorama, reconhecemos a dimensão coletiva do erro, e ele passa a ser não um acontecimento a ser corrigido, mas algo a ser investigado epistemológica e ontologicamente.



Referências

LEMOS, André. A comunicação precária. Lisboa/São Paulo: Edições 70, 2025.

PHILIPPOPOULOS-MIHALOPOULOS, Andreas. Niklas Luhmann: What is Autopoiesis? Critical Legal Thinking, 2022. Disponível em: <https://criticallegalthinking.com/2022/01/10/niklas-luhmann-what-is-autopoiesis/>. Acesso em: 2026.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Construindo sistemas sociotécnicos

Um primeiro passo para a definição de uma arquitetura híbrida

Trata-se de um embrião de pesquisa baseado em investigações ainda exploratórias sobre filosofia da técnica e da tecnologia colocando a relação entre o humano e o não humano no centro e que nos conduz na análise de objetos e mediações sociotécnicas.

Ainda em uma primeira leitura de Jamais Fomos Modernos (JFM), de Bruno Latour, fomos despertos para a questão da simetria. O ponto que nos toca é o exemplo da “disputa” entre Hobbes, que se atém à contenda política e Boyle, que circunscreve querelas científicas em torno do laboratório. Esse episódio caracteriza o que ele chama de Constituição Moderna e, por conseguinte, a necessidade de uma abordagem simétrica para descrevê-la.

Na base da argumentação de Latour nós encontramos dois modelos de representação: a científica, que privilegia o experimento visando excluir qualquer contaminação política e a política, disposta a rejeitar que um fato natural tenha qualquer fundamento de autoridade. Então, essa dupla exclusão produz, seguindo a cartilha da Constituição Moderna, por um lado, a natureza representada pela ciência e, por outro, a sociedade representada pela política.

Isto posto, precisamos ressaltar que esta é uma operação que separa humanos e não humanos por meio de um processo de purificação que separa natureza e sociedade. E, quando somos tocados por JFM, e pela aplicação dos seus conceitos na construção de sistemas sociotécnicos, a separação é o que a arquitetura que estamos formulando deveria justamente colocar em questão. Nós podemos denominá-la, provisoriamente, arquitetura híbrida, justamente porque a própria modernidade produz continuamente misturas entre natureza e sociedade, algo que a purificação procura negar.

No JFM, o episódio envolvendo Boyle e Hobbes é retomado por Latour a partir da leitura de Shapin e Schaffer. Porém, embora S&S adotem uma estratégia simétrica ao reconstruir a controvérsia entre Hobbes e Boyle, Latour desloca essa análise por meio da Constituição Moderna. Por outro lado, não se objeta, o senso comum parte da suposição de que a ciência tem acesso privileged ao real (sucesso) enquanto a política é mera convenção (fracasso). Ora, mas é justamente essa assimetria que Latour questiona, por meio da análise simétrica, ao não atribuir antecipadamente à ciência uma autoridade absoluta nem à sociedade um papel explicativo secundário.

Assim, de posse desse ponto de vista da simetria, podemos formular que a construção de uma arquitetura híbrida não deve somente identificar humanos e não humanos como partícipes do sistema, mas descrever como diferentes entidades assumem determinados papéis, produzem efeitos e estabelecem associações sociotécnicas. Sob essa ótica, cliente e fornecedor não são atores simples; eles são coletivos que precisam ser descritos antes de serem tratados como unidades arquiteturais. Não rotulamos de antemão o cliente como simplesmente “quem compra” e nem o fornecedor como aquele “quem vende ou entrega”. Além disso, há o contexto (leis, instituições, dinheiro, infraestrutura...) que participa da constituição do sistema. Como background, no sentido de Searle, fazendo uma analogia.

O sistema sociotécnico parte, portanto, de uma memória técnica já estabelecida (memória terciária), exteriorizada nas ferramentas, nos dispositivos, nas instituições jurídicas, financeiras, científicas e por aí vai. O cliente tem a sua rede de interesses no sistema, ele classifica o que para ele é relevante, não oportunisticamente, mas medindo a aquisição em termos financeiros, não se pode negar. Porém, ele tem um ecossistema próprio que pode apresentar diferentes graus de maturidade tecnológica.

Podemos chamar o ecossistema do cliente de cadeia de valor. O conceito, associado a Michael Porter, descreve as atividades de uma organização que contribuem para a criação de valor.

Há situações em que uma ferramenta tecnologicamente menos avançada, mas mais estável, atende melhor às necessidades do sistema. Há setores com diferentes níveis de maturidade tecnológica, diferentes capacidades de investimento e diferentes graus de familiaridade com determinada tecnologia. Há especialistas que conhecem profundamente o domínio de negócio e outros que dominam a tecnologia. Enfim, é preciso bater à porta antes de entrar: compreender o contexto no qual a arquitetura será construída.

Uma vez que temos esse contexto (que pode fazer parte da sociedade) e o coletivo que nomeamos cliente (que pode até ser o “usuário final”, e aí estamos falando de B2C e não de nosso foco em B2B, ou seja, de uma análise que envolve a complexidade organizacional de parte a parte), há o fabricante, fornecedor, consultor ou distribuidor de determinado produto, serviço ou solução. Eles também têm seu ecossistema com sua relevância, composto por diversas áreas que têm como foco a venda, mas entregam tecnologia, serviços técnicos.

Cabe notar que esse recorte tangencia o conceito de cadeia de suprimentos, mas nossa preocupação é outra. Já que não pretendemos entrar no campo da administração empresarial, da logística ou da engenharia de produção. Nossa análise é mais abstrata, com foco em TI e na busca de um padrão, de um modelo de referência que possa orientar a definição de arquiteturas híbridas para sistemas sociotécnicos.

Primeira representação do coletivo sociotécnico em uma arquitetura híbrida
Figura 1: Primeira representação do coletivo sociotécnico

A partir dessas considerações, uma arquitetura híbrida deveria partir de uma perspectiva de antropologia simétrica (que, no JFM, trata da mesma forma modernos e não-modernos, humanos e não-humanos). Essa arquitetura deve ser guiada por concepções capazes de tornar visíveis as mediações (conceito também explorado em tópicos como a precariedade, com base em André Lemos) e que questionem a posição do ser humano como centro privilegiado da explicação do sistema.

Para finalizar, entendemos que esse pode ser um primeiro pilar para o desenvolvimento de uma arquitetura híbrida para sistemas sociotécnicos. Sabemos que existem diferentes abordagens, frameworks e linguagens para arquiteturas empresariais, como TOGAF, Zachman e ArchiMate, além de abordagens e modelos de referência produzidos por organizações como o Gartner. Contudo, nosso direcionamento é específico e ainda exploratório, embora possa encontrar pontos de convergência com essas abordagens.

Referências

LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos: ensaio de antropologia simétrica. Tradução de Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1994.

sábado, 12 de setembro de 2026

Ruído no Canal

Entre informação, meio e verdade

O engenheiro da Bell Labs, Claude Elwood Shannon, definiu informação em termos probabilísticos, isto é, com uma preocupação com a quantidade de informação trafegada de ponta a ponta em seu clássico Uma Teoria Matemática da Comunicação (1948). Como trabalhava com telecomunicações, queria determinar em que condições um sistema de comunicação poderia transmitir sinais de forma confiável através de um canal, mesmo quando sujeito a ruídos.

Essa é uma parte da história da informação e a Shannon muito mérito se deu, embora, e em tempos de fake news, já nos demos conta de que o conteúdo importa. É justamente a partir dessa separação entre transmissão e significado que se torna particularmente interessante perguntar pelo que acontece quando introduzimos a dimensão semântica da informação. Aqui no blog, por exemplo, ela foi investigada por Carnap e vimos brevemente em um capítulo da nossa série EFEVMO-ME que procurou analisar o entendimento entre a sintaxe, semântica e pragmática. A preocupação de Carnap era menos com o meio e mais com a análise das condições formais e semânticas da linguagem, algo que podemos chamar de uma espécie de engenharia linguística (o conceito de explication).

Nota conceitual — Explication: Conceito de Rudolf Carnap abordado no blog, a explication é o processo de engenharia linguística que consiste em substituir um termo vago e impreciso da linguagem comum por um conceito novo, exato e formalmente construído.

Ocorre que o contexto de Carnap era um pouco outro, ressaltemos, já que ele desenvolveu uma abordagem semântica que, embora relacionada à tradição iniciada por Tarski, introduzia outras distinções. Tarski trata formalmente das relações entre linguagem, referência e verdade, e analisa a relação entre expressões, objetos e condições de verdade. Nesse paradigma, podemos aproximar Tarski da perspectiva referencialista que temos tratado no nosso site. Já a semântica de Carnap tinha como propósito ampliar a análise semântica ao distinguir extensão e intensão e ao considerar diferentes descrições de estados possíveis. Ele vai no sentido de considerar diferentes estados possíveis e distinguir aquilo que uma expressão designa daquilo que ela significa. Assim, dizer “a grama é verde” é verdade aqui no nosso mundo, mas pode não ser verdade em algum mundo em que haja possibilidade de uma grama ser azul.

Nota conceitual — Extensão, Intensão e Sintaxe em Carnap:

Conforme nosso blog, para Carnap, a extensão de uma expressão é o próprio objeto ou classe de coisas a que ela se refere no mundo, enquanto a intensão é o conceito ou significado que determina essa referência. Já as descrições de estado, no seu sistema semântico e de lógica indutiva, são especificações formais que “descrevem estados ou mundos possíveis do universo” dentro de um sistema linguístico. Elas estabelecem uma atribuição completa de valores de verdade para as sentenças do sistema, definindo exaustivamente o que é verdadeiro em cada cenário possível. A partir das descrições de estado, Carnap define o conceito de amplitude de uma sentença, que é o conjunto de todas as descrições de estado nas quais essa sentença específica é verdadeira.

Antes de sua fase semântica, quando se debruça sobre significado das palavras, Carnap se ateve à sintaxe. No início, ele acreditava que todo o conhecimento sobre o mundo poderia se dar por meio de nossas experiências sensoriais, pelos sentidos. Mais tarde, ele investiga a sintaxe lógica se distanciando dos sentidos e avaliando as regras formais da linguagem, defendendo ser possível criar e escolher regras linguísticas mais convenientes para a ciência antes mesmo de se investigar os conceitos formais de verdade e referência.

Dito isto, podemos ver que quando começamos a olhar para a semântica a verdade aparece e a coisa se complica um pouco. Outro nobre pensador que se ateve à informação semântica foi (é) Luciano Floridi, autor que ainda não discorremos no blog, que trabalha com uma noção de informação semântica como dados bem formados, significativos e verdadeiros. Aí, então, a novela vai longe. O próprio Shannon tratou de resumir o problema quando disse algo como “os aspectos semânticos da comunicação são irrelevantes para o problema de engenharia”.

Ora, é justamente isso que a série EFEVMO-ME procura investigar. Ela se pergunta, resumidamente, se é possível haver entendimento, no mais baixo dos níveis. Ela busca por uma resposta filosófica. E é aí que voltamos a Shannon porque, antes de tudo, há o meio. Imagine uma reunião com colegas de trabalho em que você, sozinho, argumenta dentro de um determinado ponto de vista, mas o outro grupo defende um ponto divergente. Não cabe agora explicar psicologicamente por que os grupos sustentam posições diferentes, mas nos perguntamos: o que temos, nessa situação? Se tomarmos emprestada a linguagem de Shannon, poderíamos chamar essa situação de ruído no canal, saindo do domínio estritamente técnico da teoria da informação. Continuamos a questionar: se a transmissão pode ser tecnicamente perfeita, o que acontece com o conteúdo? É justamente aí que a questão do entendimento reaparece.

Shannon nos permite imaginar uma comunicação tecnicamente perfeita que não garante entendimento. O emissor pode tentar, de várias maneiras, transmitir uma informação. Ela pode chegar perfeitamente aos receptores e, ainda assim, não produzir entendimento. Do ponto de vista do EFEVMO-ME, investigamos filosoficamente as condições do entendimento, e não suas explicações psicológicas.

Sobre o engenheiro Shannon, falaremos em breve nesse espaço, falaremos de sua investigação probabilística da informação. Mas ressaltamos, por fim, que a palavra probabilidade pode ter significados que geram confusão, algo que o filósofo Carnap observou ao mostrar que ela pode ter dois sentidos bem diferentes. Podemos falar de uma probabilidade estatística que é empírica e se baseia na frequência com que os fatos acontecem no mundo real, como, por exemplo, a chance de dar “cara” no lançamento de uma moeda. Por outro lado, a probabilidade lógica tem característica epistêmica, já que mede o quanto uma evidência ou um dado suporta uma hipótese científica. Desse modo, Carnap criou uma lógica indutiva matemática que mede o grau de confiança que podemos ter em teorias científicas, na medida em que acumulamos novas informações, dado o caráter não dedutivo da confirmação de hipóteses científicas e a impossibilidade de, em geral, estabelecer definitivamente leis universais apenas pela acumulação de observações.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Invisibilidade

Quando o que funciona desaparece, sua existência deixa de ser percebida

No livro Comunicação Precária[i], André Lemos trata, em alguns momentos, da tecnologia invisível. Essa seria uma de suas finalidades: desaparecer enquanto funciona e, ao mesmo tempo, esconder seu ecossistema fundacional e o fato de que se baseia no erro.

Falamos um pouco da precariedade[ii] e falaremos da epistemologia do erro, em outra ocasião, mas o que queremos anotar nesse texto é o conceito de invisibilidade, que amplamente nos permeia.

Por exemplo, eu escrever este texto e você entender, quer dizer que compartilhamos um significado oculto, por mais que você entenda aproximadamente o que eu disse[iii], talvez numa proporção de uns 80-20, razoável.

Porém, há inúmeras situações de diálogo, no dia a dia, nas quais se supõe um entendimento que não ocorre. Parece que nossas ideias são cristalinas e que sua verbalização é coerente, mas o público não entende, por diversos fatores. Então, o “problema” aparece.

É o que acontece quando a internet não funciona. Nós a usamos desenfreadamente, sem perceber, assim como acontece com a água que sai da torneira, mas só nos damos conta das “assembleias” que a fazem funcionar quando ela não funciona, quando deixa de ser invisível.

Há algo semelhante no mundo corporativo, deveras. Uma pessoa invisível é aquela que faz o seu trabalho rotineiramente, disciplinadamente e, então, aquilo que por ela passa, funciona. Porém, só se dá conta de sua importância quando da privação de sua presença.

Um tanto quanto diferente disso, são as reuniões invisíveis, que ocorrem sem que determinada pessoa esteja presente, muitas vezes, o mensageiro. De que adianta uma reunião ocorrer e consumir tempo, se ela não for “comunicada”?

Interessante que isso remete a “esse est percipi”: se uma árvore caiu na floresta e ninguém observou, ela fez barulho?[iv] O ser é ser percebido e podemos fazer uma adaptação provocativa: o não ser é ser invisível. E estamos tomados por não seres, pelo vazio.

Por fim, agora que a IA Generativa produz muito, muito texto, muito documento, ela materializa pensamentos, mas de forma muito prolixa. Recebemos muitos documentos produzidos por IA que, por sua vez, se tornam invisíveis e são deixados de lado.

Haveria uma salvação, para documentos produzidos por IA: serem consumidos por IA. Assim, deixaremos as IAs dialogarem em seu mundo invisível enquanto nós, aqui fora, vamos tentando nos fazer perceber.



[i] LEMOS, André. A comunicação precária: erros, falhas e perturbações na cultura digital. Rio de Janeiro: Edições 70 / Alta Books, 2026.

sábado, 22 de agosto de 2026

O salto quântico é uma ilusão de ótica

Esse texto trata do terceiro recorte que estamos fazendo da entrevista de Brian Massumi para o jornal Parrhesia, na qual abordam o ensaio “Mentalidade Técnica” de Gilbert Simondon

A respeito do último ponto sobre a nossa análise da “futuridade”[i], os entrevistadores questionam Massumi (Brian Massumi - BM) sobre uma possível tensão entre o postulado de Simondon sobre a decomponibilidade do objeto técnico e o holismo que o contradiria. A resposta de BM passará por separar dois tipos de decomponibilidade, uma decomponibilidade dos materiais e outra do efeito. Vejamos.

Apesar de reconhecer a crítica de Simondon ao holismo, para BM o ponto central é que a decomponibilidade dos elementos (água e óleo), e a emergência de um efeito unitário (modo de funcionamento) não são teses concorrentes. Ele cita Deleuze (o todo coexiste com as partes, em outro nível) e Whitehead (a unificação não elimina a multiplicidade original) para esclarecer que o holismo é um efeito, a descrição de um resultado e passa longe de uma tese metafísica. Ou seja, o efeito não é uma continuidade ontológica das partes. Ele cita o efeito óptico usado por Deleuze como modelo, no qual o efeito-todo é algo que aparece a partir de elementos, sem substituí-los, é algo que excede os elementos e não se reduz a eles. Como uma ilusão de ótica, algo que salta como todo visual a partir de uma diversidade que algumas filosofias pretendem anular. Importa mais, para Simondon, criticar certa prioridade ontológica indevida atribuída ao efeito emergente.

O que marca a originalidade do pensamento de Simondon, conforme prossegue o entrevistado, é o esforço de tratar descontinuidade e continuidade juntos, a exemplo do empirismo radical de William James, ele complementa[ii]. Há o duplo movimento composto pelos elementos decomponíveis e seu efeito contínuo, unitário.

É exatamente nesse ponto que passamos para o vocabulário da física quântica tomado pelo tecnólogo francês como modelo conceitual desse movimento duplo. O que ocorre é um salto quântico que em si não é decomponível, visto que não tem gradação interna, mas que, por outro lado, leva a coleção de partículas diversas e decomponíveis de uma configuração particular a uma configuração alterada.

O evento é um evento-todo[iii], podemos dizer, classificado por BM como um evento de tudo ou nada interposto nessa transição que não é gradual. Trata-se, segundo ele, de uma mudança qualitativa nas propriedades do sistema. E BM é taxativo: “Para Simondon, toda transição, toda mudança, todo vir, é quântica”. O modelo não é só sobre física ou objetos técnicos, é o esquema geral de toda individuação em Simondon.

Resumindo, se o holismo pode parecer contraditório, em um primeiro momento, pudemos ver que a decomponibilidade e o efeito unitário não competem entre si porque operam em níveis diferentes, lembrando da analogia com o efeito ótico. Uma ilusão de ótica é uma unidade emergente, indecomponível enquanto salto perceptivo, mas não apaga os elementos gráficos que a sustentam. Nesse sentido, o alvo do ataque simondoniano são as filosofias que apagam a diversidade das condições e dão ao todo prioridade ontológica, classificado por ele como holismo em sentido pejorativo. Então vem a generalização filosófica, o duplo movimento que pensa continuidade e descontinuidade juntas e que se caracteriza como salto quântico, um evento que se interpõe entre duas diversidades marcando mudança de nível sem se tornar propriamente uma substância e nem apagar as diversidades que liga.

Figura 1: Imagem gerada pelo Gemini, de descontinuidade e continuidade, parece fazer sentido

Nesse ponto, Massumi retoma o papel do esquema cognitivo, que vimos na resenha anterior (Futuridade) e acreditamos que fecha um arco na entrevista, antes de passar ao próximo ponto. Inclusive, a sua distinção com o esquema de concretização fica até mais explícita. Como ele explica, o esquema cognitivo é aquele que está na mente do projetista e que é uma forma abstrata. Só que ele preexiste e passa por etapas que organizam os elementos que estão decompostos até que há o salto quântico, origem absoluta não decomponível que ocorre no evento da invenção que emerge. Acrescentamos, conforme estamos analisando os trechos com a ajuda da Claude, que o projetista é condicionado pelo passado, pelo conhecimento acumulado e pelos esquemas herdados.

Então a inversão temporal ocorre (Futuridade, de novo). Não é mais o passado que empurra o processo, é o efeito ainda por vir que passa a comandar. Transita-se, abruptamente, para o sistema autossustentável, caraterístico da invenção e supera-se a fase do planejamento, das partes decompostas para a auto solidariedade, o efeito holístico. BM fala em “elevação”, já que há uma nova dimensão de existência onde as condições passadas ganham um novo estatuto, por serem retroativamente reorganizadas pelo efeito que ainda estava por vir.

Então, o que estava disperso, mas que tinha potencialidades, se encaixa. Acrescentamos, que o novo regime de funcionamento já nasce orientado a seu uso futuro, nascimento constituinte do uso que não será um acréscimo posterior.

BM trata, então, do esquema da concretização, que já tocamos na última análise, como que pudesse ser confundido com o esquema cognitivo, que ficou no passado. O esquema de concretização, seguimos, não é um esquema mental prévio, mas o encaixe, a passagem na qual emerge a solidariedade operativo como salto.

BM sublinha que Simondon trata literalmente, no ensaio Mentalidade Técnica, da multifuncionalidade do óleo concretamente, de como o óleo funciona. E é justamente a capacidade do óleo, de se acoplar operacionalmente à água que constitui o esquema que se concretiza na relação entre eles.

Caminhando para o fechamento dessa questão, ele volta a rejeitar o hilemorfismo: o esquema de concretização não imita o que o projetista pensou. Precisamente pelo salto que dá ao objeto técnico autonomia, uma nova dimensão de existência a partir do encaixe em solidariedade operacional.

Então, Massumi retoma o holismo para dizer que ele é o efeito desse esquema de concretização, desse acoplamento, que marca a origem absoluta do objeto técnico e é um efeito da matéria mesma, não de fora. Não é hilemorfismo porque é imanente ao processo material de vir-a-ser e que reenergiza a matéria, nas palavras de BM.



[ii] Nota de rodapé - sugestão de texto: William James, no empirismo radical (esp. Essays in Radical Empiricism, 1912; A Pluralistic Universe, 1909), recusa tanto o racionalismo idealista — que dissolve as partes num Todo contínuo e totalizante — quanto o empirismo associacionista clássico, que reduz a experiência a átomos sensoriais desconectados, exigindo uma síntese externa para uni-los. Para James, a experiência bruta já contém, de forma imediata, tanto a distinção entre os termos quanto as relações (transições, continuidades) entre eles: sente-se o "e" e o "mas" tão diretamente quanto se sente uma cor. Daí seu "pluralismo": um universo feito de partes genuinamente diversas, ligadas por conexões reais, mas nunca totalizado num sistema único e fechado. É esse duplo compromisso — preservar a diversidade das partes e a realidade das transições entre elas, sem hipostasiar um Todo superior — que aproxima James do modo simondoniano de pensar continuidade e descontinuidade juntas. (https://claude.ai/share/b2c60446-d93e-4483-82bb-7498ffcb52ac)

[iii] Com a ajuda da IA nesse termo e na decomposição analítica da argumentação de Brian Massumi. 

sábado, 15 de agosto de 2026

Trabalhando com documentos - um ensaio sobre tecnologia aplicada

Grande parte do tempo em que passamos trabalhando, nós lidamos com documentos. Nós consumimos e produzimos documentos. Eles são, nesse sentido, um meio de transmissão de informação, de conhecimento e de necessidades. Ocorre que, ao mesmo, eles são limitadores de pensamentos humanos, porque eles são ferramentas que não são capazes de abarcar todo o sentido que deveria ser comunicado.

Quando produzimos documentos, nós temos que nos adaptar a eles. Por exemplo, para usar o Word, ferramenta que utilizo agora, é preciso escolher uma fonte, espaçamento, tamanho de letra. Por aí já vemos que requer conhecimento técnico e que há uma forma de fazer e de comunicar. Escrever uma frase ou palavra, em negrito ou itálico, é algo determinado pelo aplicativo, que podemos ou não usar, mas que é determinado pelo meio, por esse meio técnico.

O mais interessante, todavia, é o processo de criação, de geração do documento. Ele parte de uma ideia, de uma concepção nossa que pode ser abrupta ou solicitada por alguém, uma ordem, uma tarefa que nos delegaram. Enfim, precisamos criar o documento e começamos.

Tomemos o caso de um manual de instruções: para criá-lo, muitas vezes já precisamos consultar outros manuais e as informações disponíveis em documentos e outros artefatos. Na base da empreitada, já partimos de uma base técnica, de uma memória e ela nos norteia, já delimita o “processo criativo”.

Mas, o mais interessante é que, na medida em que começamos a colocar as informações no documento, parece que é ele que nos guia, é ele que passa a comandar o processo. Em um primeiro momento, nós materializamos uma ideia, a concepção inicial e, a partir daí, o documento começa a nos devolver necessidades: melhorar uma formatação, adicionar uma imagem, uma tabela, explicar determinado ponto.

A situação se inverte, e de forma restritiva: é dentro das possibilidades da ferramenta. Não obstante, há esse retorno, um feedback que recebemos daquela primeira impressão do documento e ela que passa a nos conduzir em um processo cíclico, até que: eis o documento pronto!

Um ponto que precisa ficar registrado, no processo criativo, é qual ferramenta usar em determinado momento. Se é necessário usar uma tabela ou planilha, ficamos limitado a esse formato e precisamos comunicar uma ideia em uma tabela. Mas, é melhor uma tabela ou um texto corrido? Vemos que há uma interação entre humano e ferramenta em que um e outro, ambos se adaptam para atingir um objetivo que depende dos dois.

Agreguemos que, em tempos de inteligência artificial (IA), muitas vezes é a máquina que está no comando, definitivamente. Frequentemente, usando uma IA que “conversa”, nós jogamos uma ideia inicial e ela nos guia. Somos, sobremaneira, determinados pelo não-humano nos processos atuais.

Isso posto, o que gostaríamos de enfatizar é não só essa relação, não-humano => humano => não-humano e etecetera. Mas, também, que ela acontece inserida em uma base técnica que foi construída desde o surgimento do primeiro homem. Essa base técnica, muitas das vezes, não nos é dada explicitamente, é um meio “invisível”, mas que existe de uma reciprocidade entre o humano e o artificial que atravessa os tempos.

Então, uma mera atividade de criar um documento, é uma atividade altamente tecnológica e que configura a relação homem – artefato primordialmente como uma relação em que muitas vezes somos comandados pelo artefato, ainda que ele tenha sido criado, também. Mas o humano está em simbiose com o natural (as matérias-primas, como fonte) e criando coisas que se cristalizam na memória técnica em nossa jornada humana na terra.

Pós-escrito. Esse texto livre passa por Stiegler e a memória terciária, passa por Latour e as redes entre humanos e não humanos, passa por Haraway e a simbiose com a máquinas, passa por Simondon, principalmente, pela reflexão sobre a gênese, passa por Wiener e o feedback, passa por Nicolelis e a artificialidade pautada na humanidade. Procura fazer um exercício de aproximação de uma base conceitual nascente. 

PS2: alucinações: https://bit.ly/4g197Om.