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domingo, 29 de junho de 2025

Filosofia da Mente livre-arbítrio (Parte 2)

Problematizando o livre-arbítrio[i]

Nessa segunda aula, Vitor discute se existe livre-arbítrio e qual a sua natureza, considerando dois aspectos importantes, o constitutivo e o ético. Entende-se o livre-arbítrio como o mecanismo que um agente usa para controlar suas escolhas e ações, seja se ele poderia escolher de outra forma ou se é ele próprio a fonte de sua ação. Isto é, pode haver mais de uma alternativa de escolha, mas mesmo que seja apenas uma, é ele que escolhe.

O argumento da consequência, fundado no determinismo, versa que tudo o que acontece na realidade é oriundo de uma cadeia de acontecimentos e não temos poder para mudar o passado e as leis. Isto é, não temos controle sobre nossas ações. Isso posto, não há livre-arbítrio e, consequentemente, responsabilidade moral porque não podemos agir de outro modo ou de maneira autônoma.

Caracteriza-se o livre-arbítrio como a “liberdade de fazer diferente”, seja por uma capacidade física, psicológica ou com base em desejos. Nesse contexto, há uma vertente compatibilista que aceita o livre-arbítrio mesmo em um mundo determinado e há os que aceitam o livre-arbítrio desde que o mundo não seja determinado. 

Pela análise categórica, poderíamos agir de outra forma contanto que não houvesse nenhuma mudança nas “variáveis do mundo”. Aí ignora-se a causalidade da natureza, incompatibilizando livre-arbítrio e determinismo.

Pela análise condicional simples um agente faria o contrário se escolhesse fazer o contrário, mesmo em um mundo determinado causalmente. Entretanto, parece que a ação poderia ser diferente, mas não a escolha em si, porque ela seguiria o nexo natural. Parece que as escolhas estão predeterminadas e oriundas de fatores como cultura, sociedade e características biológicas, entre outras. Nesse caso, há uma ilusão de escolha, conforme comenta Vitor.

Então, reformula-se a análise condicional simples para que o controle ocorra efetivamente na escolha e não somente na ação, isto é, na capacidade escolher de outra forma, mesmo que não a desejada ou escolhida, mediante condições de terceiros, que é quando cedemos. Conclui Vitor que essa formulação de livre-arbítrio associada a desejo ou escolhas é falha porque não satisfeita somente pelo ator.

Então ele traz o exemplo de um agorafóbico que não escolhe nem ao menos ficar em casa porque não se trata de uma escolha, mas de uma imposição psicológica. Ele escolhe ficar em casa dentro dessa circunstância.

Então, estamos no campo do livre-arbítrio de escolhas entre alternativas, conforme ressalta Vitor e o que está envolvido nessa escolha, seja se “escolhemos a escolha” ou se ela decorre de outros fatores. O agente é livre se prefere uma escolha, não uma ação, mas acabamos cedendo a outras pessoas ou fatores 

Tentando salvar a análise condicional, a análise condicional pode se valer das propriedades do próprio agente que não são as leis deterministas da natureza, externas a nós. Ficamos entre uma incompatibilização do livre-arbítrio com o determinismo ou reformular o que significa ser livre. 

Adentramos no campo das teorias da fonte da ação, quando provém do próprio agente, sem coerção. Vitor então traz um experimento mental de um neurocirurgião que instala um chip no paciente que controla suas ações e é ativado quando ele for tomar uma decisão errada. Ocorre que ele toma uma decisão correta, por conta própria, sem que tenha sido necessário ativar o chip. Por um lado, ele fez uma ação positiva, independentemente das possibilidades alternativas e de não poder agir, negativamente, de outra forma. Então há responsabilidade moral porque ele foi a origem da ação.

O dilema Wiederkehr-Ginet procura problematizar este experimento, mostrando que, em um mundo determinado, mesmo que o paciente tenha sido a fonte da ação, não se comprova que foi independente de fatores externos. Já em um mundo indeterminado, se não houvesse o chip, há possibilidade de agir de forma diferente e agir por conta própria, nesse caso, é irrelevante.

Então Vitor traz o tema do libertarianismo que é incompatibilista, e tem versões não causal (espontânea, parece não haver responsabilidade moral porque aleatória e incontrolável), causal de eventos (por causas internas, mas difícil de explicar a independência das causas externas) e de agentes (o agente é a causa primeira, não um evento e aí fica a mercê das críticas dualistas, como explicar a natureza do agente e como se relaciona com o mundo físico).

Se o livre-arbítrio postula um “eu” que toma decisões, há dificuldades de explicar o que é esse tomador de decisão e como ele age, de um ponto de vista metafísico e no contexto de um mundo determinado e causal. 

Falando dos argumentos contra o livre-arbítrio, há um argumento a priori, de ordem lógica, já que a liberdade viola o princípio de razão suficiente e que livre-arbítrio sempre recorre a uma causa outra daquela ação livre, tendendo a uma sequência infinita para a razão daquela ação.

Há o argumento da sorte, também a priori e contra o libertário, que procura enfatizar que se não há causa somos guiados pela sorte e, portanto, sem liberdade. Entretanto, podemos pensar no controle metafísico, que procura pelo sujeito como causa real, e no controle epistêmico, que procura entender por que uma decisão foi tomada. Podemos ter uma escolha que, mesmo indeterminada, pode ser explicada e compreensível. Vitor comenta que, trazendo a explicação para dentro do contexto, é um livre-arbítrio possível e não que busque por todas as causas.

No campo empírico, a posteriori, pesquisas indicam que o comportamento humano é estatístico, seguindo tendências e não regras determinísticas. A liberdade seria o caso de quebrar um padrão estatístico ou ainda dentro dos padrões já que as pesquisas retratam o que as pessoas querem, de acordo com Vitor. 

Então Vitor traz o experimento de Libet[ii] que mostra que há uma atividade cerebral precedente à decisão consciente indicando uma liberdade ilusória e a consciência como que justificando a escolha. Mele[iii] entende que esse potencial de prontidão não passa de uma preparação fisiológica e dentro do processo contínuo decisório. Além disso, o experimento trata de movimentos simples e não de um processo complexo de decisão. Também é mencionada a abordagem de Sapolsky em defesa do determinismo e de que o livre-arbítrio é uma sensação subjetiva, apenas, um reflexo condicionado de experiências passadas que ele aborda com exemplos práticos[iv].

 Por fim, argumentos favoráveis ao livre-arbítrio. Primeiro que, por hipótese, seres racionais são livres para tomarem suas decisões, ainda que isso seja um postulado ao modo kantiano. De outra forma não teríamos responsabilidade moral e etc. O’Connor entende que mesmo esse agir racional ainda pode ser determinado. Há ainda a experiência interna da liberdade que não precisa de explicação metafisica, mas é intuitiva, ao modo agostiniano. Por fim, do ponto de vista teórico, o livre-arbítrio pode ser considerado uma crença básica, como um fundamento da realidade. Os materialistas eliminativistas tentam explicar a realidade sem crenças, mas ainda não obtiveram sucesso.

[iv] Vitor discorda por se tratar de estatísticas e, nesse sentido, mostra que não se aplica a todos os casos. 

sexta-feira, 2 de maio de 2025

Introdução ao livre-arbítrio

Aborda aspectos desse conceito tão complexo e multifacetado[i]

A questão da liberdade. Vitor Lima introduz o tema problematizando a questão da liberdade[ii], se agimos espontaneamente ou envoltos pela cultura e sociedade e que levanta reflexões existenciais, metafísicas e éticas. O livre-arbítrio, inicialmente, estaria ligado ao controle de nossas ações e se relacionando com a filosofia da mente, dependendo de cada teoria. Assim, a causalidade das ações pode ser livre (mente com natureza imaterial) ou determinada (mente física regulada por leis, possivelmente sem escolha). O desafio é explicar a liberdade dentro de um mundo físico, tema tratado no idealismo alemão, conforme lembra Lima, pelo escape da mente do mundo material rumo ao ideal, seja um “eu” ou o absoluto.

Liberdade e filosofia da mente. Entrando na filosofia da mente, para o dualismo a mente, sendo imaterial, não está sujeita a leis físicas, abrindo espaço para a vontade livre, mas trazendo problemas na explicação de como a mente se relaciona com o corpo, sendo coisas diferentes. Já o fisicalismo, postulando uma mente física, precisa responder se há liberdade. Se parece que as teorias físicalistas, mais populares atualmente, tem maior proximidade com a ciência, conforme ressalta Lima, ainda há falta de explicação. Outra teoria importante, o funcionalismo pode pleitear processos que sejam ou não determinísticos, independentemente do suporte material. Nessa visão de mente como software e dentro de um sistema arquitetural e com regras, há dificuldade em encontrar a liberdade. Por fim, o eliminativismo interpreta o livre-arbítrio como um conceito que pode ser redefinido, tratando-o como ilusão porque não usa os termos da psicologia popular.

Temas centrais. Entrando em questões centrais do livre-arbítrio, Lima contrasta liberdade de ação com autodeterminação, o valor de uma ação moral e sua responsabilização e implicações sobre qual a natureza da realidade e o sistema ético que a ela está atrelado.

Determinismo. Mas é o determinismo[iii] ponto de partida para Vitor Lima, conceituado como mundo regido por leis naturais e nada além disso, do ponto de vista metafísico, isto é, mesmo que algo nos pareça “surpreendente”, como que com uma causa outra qualquer, isso seria porque não conhecemos (do ponto de vista epistemológico) todas as variáveis que atuam sobre o mundo físico, se mantido esse enfoque determinista.

Determinismo e correlações. Vitor associa o determinismo ao princípio de razão suficiente[iv] (PRS) proposto por Leibniz, isto é, tudo o que existe tem uma razão suficiente que o causa, como uma explicação para as coisas serem como são, embora não restrito ao mundo físico, porque Deus entra na causa das razões como causa primeira, à maneira de Aristóteles ou Tomás. Então, o determinismo não busca a cadeia de causas, como o PRS. Vitor também distingue o determinismo do fatalismo, quando as coisas acontecem independentemente de uma ação, associado a algo sobrenatural: “aconteceu porque tinha que acontecer”. Por fim, o determinismo não se confunde com a previsibilidade, Vitor traz o exemplo do demônio de Laplace – uma entidade que tudo sabe e conhece todas as leis – ela poderia prever o futuro? Vitor ressalta que o determinismo independe se podemos ou não prever o futuro (e vice-versa), mesmo uma inteligência infinita teria dificuldade de lidar com a complexidade do caos.

Inserindo livre-arbítrio pela visão antiga-helenística. Voltando ao livre-arbítrio, Lima pontua que este é tema em debate e remete sua origem seja a Agostinho (origem na intenção) ou ao Epiteto (origem externa). Em Platão, há conceituação da razão como guia de instintos e desejos, trazendo harmonia interna e implicando liberdade. Em Aristóteles parece que há um conceito de vontade que parte de um processo de deliberação interna, mesmo que baseado em fatores externos, mas garantido autonomia. Aristóteles não se vale de princípios universais, como é o caso platônico, o estagirita presta atenção nas situações particulares, mas ambos alçam a razão ao patamar elevado na condução das ações. Os estoicos e epicuristas acreditam que tudo é corpóreo e sujeito a leis naturais, portanto deterministas. Vitor pontua que os estoicos eram compatibilistas por aceitarem o livre-arbítrio no sentido de que nossas ações dependem de nós. Os epicuristas entendiam que a natureza da realidade podia ter desvios, fugindo de um determinismo rígido.

O livre-arbítrio na filosofia medieval. Então Vitor traz Agostinho que, neoplatônico, tem sua visão teológica e cristã e, nessa abordagem, busca incluir a liberdade humana (livre-arbítrio) dentro de um mundo criado por um Deus onisciente. E é por aí que o mal tem espaço para agir, a partir de uma vontade má que, lá na frente, buscará a salvação divina. Filosoficamente falando, em Agostinho a vontade é autodeterminante e racional, não determinada por fatores externos e nem por outras faculdades internas, como pontua Vitor. Embora os desejos nos desestabilizem, a verdadeira liberdade deve buscar o Bem – ideia platônica reguladora de uma realidade ordenada, agora transformada em Deus (transubstanciada?). Então, a liberdade é, contra intuitivamente, obedecer a Deus e não se manter indeterminada[v].

Modernos e contemporâneos. Resumidamente, a questão moral permeia o livre-arbítrio porque sem ele não teríamos responsabilidades pelos nossos atos, ainda que ela remeta a Deus como norma de ação. Por outro lado, a descrição do mundo é primariamente fisicalista, cientificista e dificulta a explicação do livre-arbítrio, quando podemos lembrar do PRS como pilar da metafísica moderna. Mas o livre-arbítrio se situa entre agir de outra forma ou autodeterminadamente, conciliando com a responsabilidade moral. Já Espinosa é uma voz destoante nesse debate porque traz uma visão necessitarista – as coisas acontecem assim porque deveriam acontecer, retirando margem de liberdade e sendo um cético radical do livre-arbítrio. Como o Deus de Espinosa[vi] é a natureza, ele não delibera, não pune e nem recompensa. Porém, é exatamente por não esperarmos uma recompensa que a ação moral deve ser virtuosa em si mesma. Não devemos desejar nada além do que deve ser, mas orientar o que queremos para o que irá acontecer, ou seja, desejar o que já aconteceria, aceitando a realidade. Nas palavras de Vitor Lima: “liberdade não é livre-arbítrio, mas harmonização entre aquilo que acontece e aquilo que você quer que aconteça”, não lutar contra a “verdade das coisas”.[vii]



[i] Conforme a aula do canal INEF no YT: https://youtu.be/DxQS_1Bi8o8, usa como fontes SEP: Determinismo causal https://plato.stanford.edu/entries/determinism-causal/ e livre-arbítrio https://plato.stanford.edu/entries/freewill/.

[ii] Lembremos, foi o primeiro tópico explorado nesse espaço, quando especulávamos de modo bem iniciante sobre temas aleatórios: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2013/11/liberdade-liberdade-liberdade.html.

[iii] Interessante, no nosso Espaço, Liberdade aparece muito e determinismo muito pouco. Aqui on passant: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2024/11/revisitando-o-mito-cartesiano.html, mas associado livre-arbítrio e ao mito. De toda forma vamos precisar olhar o Prigogine – ele fala de caos e ali pode abordar o assunto, a ver. Claro, essa oposição é tema clássico, lembremos a terceira antinomia, por aqui bastante abordada.

[v] Vitor passa lateralmente por Aquino que concilia a visão aristotélica com a cristã e também mantem a primazia da razão sobre a vontade.

[vi] Conforme https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2017/02/deus-ou-seja-natureza1.html e o resumo da IA: O texto discute a filosofia de Espinosa, focando em sua caracterização de Deus e sua visão revolucionária.  Espinosa contesta a visão tradicional de Deus, argumentando que Deus, ou seja, a Natureza, é a única substância, eterna e livre, que causa a si mesma e a todas as coisas no universo.  Ele rejeita a ideia de um Deus pessoal, com intelecto e vontade, que cria o mundo por escolha, e em vez disso, propõe uma "ontologia do necessário", onde tudo é determinado pela natureza divina.  Essa despersonalização de Deus tem implicações políticas, libertando o campo político da imagem de governantes com poderes divinos.

[vii] Ao final da aula, três breves assuntos foram tratados, registremos: 1.) dignidade do herói, oriundo da tragédia, mas que enfatiza o caráter do herói a seguir princípios para além dos atos de coragem; 2.) amor fati, que se refere a amar o próprio destino, tema tratado pelo estoicismo e Nietzsche, lidar com as dificuldades da vida; 3.) por fim lembrar que a conceituação determinista de universa está mais associada a uma visão de mundo clássica, hoje há espaço para a probabilidade, por meio da física do século XX.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

De Kant a Schopenhauer: a fundação da moral passa da razão ao caráter

Parte superior do formulário

Documento de Briefing: Análise Comparativa da Moral Kantiana e Schopenhaueriana[i]

Introdução

Este documento tem como objetivo apresentar uma análise comparativa das filosofias morais de Immanuel Kant e Arthur Schopenhauer, baseada no texto "De Kant a Schopenhauer: a fundação da moral passa da razão ao caráter". O artigo explora a crítica de Schopenhauer à ética kantiana, mostrando a transição da fundamentação da moral da razão para o caráter.

A Moral Kantiana. Uma Fundamentação Racional e Autônoma

Razão como Fundamento. Kant estabelece uma moral baseada na razão, anterior a qualquer experiência sensível. Essa moral é autônoma, livre e se manifesta através do imperativo categórico.

Vontade Boa. A ação moral, para Kant, deve ser guiada por uma "vontade boa" que é um fim em si mesmo e não busca a felicidade como objetivo primário. A felicidade é uma consequência da ação moral, não sua motivação.

Imperativo Categórico. A moral kantiana é regida pelo imperativo categórico, uma lei prática incondicional que ordena a vontade e que tem validade universal. "A representação de um princípio objetivo, enquanto obrigante para uma vontade, chama-se um mandamento (da razão), e a fórmula do mandamento chama-se Imperativo." (Fundamentação, p. 48)

Liberdade Transcendental e Prática. Kant distingue entre liberdade transcendental (conceito especulativo) e liberdade prática (independência da coerção sensível). A liberdade prática é fundamentada pela liberdade transcendental que permite a autonomia moral.

Reino dos Fins. A ideia de um "reino dos fins" representa um estado ideal onde seres racionais, legisladores e governantes, agem de acordo com o princípio da autonomia da vontade.

Sumo Bem. Conceito da Segunda Crítica que liga virtude e felicidade, onde a virtude é a dignidade de ser feliz.

A Crítica de Schopenhauer à Moral Kantiana. Egoísmo e Caráter.

Rejeição da Razão Pura como Fundamento. Schopenhauer critica a ideia de uma moral racional a priori, argumentando que a ação humana é motivada por uma vontade egoísta, determinada pelo nosso caráter.

Imperativo Categórico como Construção Vazia. Schopenhauer considera o imperativo categórico kantiano uma "proposição vazia", sem sustentação real, e o vê como um processo de pensamento puramente lógico e não um princípio moral.

Crítica ao Conceito de Dever. Schopenhauer questiona a noção de "dever" kantiano, argumentando que, sem a expectativa de recompensa ou punição, o dever seria um conceito vazio. Assim, o dever é uma contradictio in adjecto porque só faria sentido sustentado por uma recompensa ou ameaçado por um castigo.

Prioridade do Egoísmo. Para Schopenhauer, o egoísmo é a principal força motivadora da ação humana, e a moral kantiana, ao ignorar essa realidade, não tem base empírica. Mais do que isso, em detrimento da racionalidade da lei, é o egoísmo que impera em nossas ações.

O Caráter como Base da Moral. Schopenhauer afirma que nossas ações são fruto do nosso caráter, que só se revela pela experiência, e não de leis ou princípios racionais.

Vontade como Núcleo Metafísico[ii]. Schopenhauer recupera o a priori para fundamentar a vontade como a base da moral, como sendo a própria coisa em si.

Razão Secundária. Schopenhauer considera a razão secundária em relação à vontade. A razão serve para a comunicação entre seres racionais, mas a vontade é o núcleo da ação.

Comparação e Contraste

Aspecto

Kant

 Schopenhauer

Fundamento da Moral

Razão pura, a priori, imperativo categórico

Vontade, caráter, egoísmo, motivos empíricos

Liberdade

Transcendental (especulativa) e prática (autonomia da vontade)

Livre-arbítrio é uma ilusão; a ação é determinada pelo caráter

Dever

Essencial, incondicionado, agir por respeito à lei moral

Conceito vazio sem recompensa ou punição; ligado a coerção

Motivação

Razão, lei universal, respeito à lei moral

Egoísmo, motivos empíricos, busca pelo bem-estar

Papel da Razão

Primária, legisladora, orienta a ação moral

Secundária, serve para comunicação e compreensão do mundo, não para determinar a ação moral

Natureza Humana

Seres racionais capazes de agir de acordo com a lei moral; dualidade sensível e inteligível

Determinados por sua vontade egoísta e caráter; razão como ferramenta de comunicação e não guia moral

Metodologia

Parte do saber comum, passa pelo campo filosófico para construir a razão prática

Parte da crítica à moral Kantiana para fundamentar sua própria moral

 

Conclusão

O artigo demonstra como Schopenhauer radicalmente se opõe à moral kantiana. Enquanto Kant busca uma fundamentação racional, universal e autônoma da moral, Schopenhauer aterrissa essa discussão na realidade concreta do egoísmo e da vontade que, para ele, são as forças motrizes da ação humana. A ética de Schopenhauer não é racional, mas sim baseada na experiência e no caráter individual. Essa crítica de Schopenhauer à filosofia de Kant marca uma mudança significativa na história do pensamento ético, deslocando o foco da razão para a vontade e o caráter como elementos centrais da ação moral. 



[i] Resumo fornecido pelo NotebookLM da dissertação final da disciplina de FILOSOFIA GERAL IV, relativo ao 1º Semestre de 2016 e ministrada pelo Prof. Eduardo Brandão. NotebookLM (Google NotebookLM) is a research and note-taking online tool developed by Google Labs that uses artificial intelligence (AI), specifically Google Gemini, to assist users in interacting with their documents. It can generate summaries, explanations, and answers based on content uploaded by users. It also includes "Audio Overviews", which summarizes documents in a conversational, podcast-like format. The team building the product includes popular science author Steven Johnson and product manager Raiza Martin. (https://en.wikipedia.org/wiki/NotebookLM). Ementa: https://drive.google.com/file/d/111cO0WCz6DT8yvZMjQB-norPdu2y9Lln/view?usp=drive_link. Dissertação: https://drive.google.com/file/d/14UMwBCb_aQnx0_qE3F8eGHGQrjJFD5jh/view?usp=drive_link.

[ii] Aqui necessita aprofundamento. A vontade é a força motriz fundamental e metafísica da existência, um impulso cego e irracional que determina nossas ações e que o egoísmo, determinado pelo nosso caráter e não por leis morais racionais, é a principal lei de motivação. 

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

O tema do Regresso da Alma em Agostinho

De como o conflito existencial não é uma oposição corpo-alma, mas uma luta da alma consigo mesma[i]

Crítica à Purificação da Alma e ao Platonismo. Agostinho investiga o tema do regresso da alma[ii] cuja tese principal é a de que o corpo é um cárcere da alma, ou seja, a alma aspira voltar ao seu lugar de origem por não fazer parte de sua natureza estar nesse mundo presa a um corpo.

Agostinho se posiciona contra a condenação da natureza corpórea e sua crítica ao neoplatonismo dá novo sentido a ideia de regresso da alma, trazendo grande repercussão da Idade Média, só equiparada ao aristotelismo redescoberto pelos árabes[iii]. Se o platonismo, principal ascendência agostiniana e influência cristã, era um esforço de busca da verdade que implicava na purificação da alma [relativa ao corpo], quando o critica, Agostinho mostra que o cristianismo é a única e verdadeira filosofia.

Crítica ao maniqueísmo. Porém, é de Platão que Agostinho se vale para se opor ao maniqueísmo que rejeitava as coisas inferiores por atrair as vontades e, nesse sentido, o mal, já que o filósofo grego tinha nelas um [mero] ponto de partida para o acesso desse mundo sensível e corruptível e, de certa maneira negado, para o verdadeiro mundo superior.

O maniqueísmo frisa a dualidade e transforma o mal em uma substância, naturalizando-o, ao mostrá-lo presente na natureza. Essa posição traz um erro acerca da natureza da mediação entre corporal e espiritual, sensível e inteligível e trazendo um mundo já carregado de mal.

A concepção agostiniana: reunião corpo-alma. Se, mesmo citando o Livro da Sabedoria[iv] que apregoa que "um corpo corruptível pesa sobre a alma", o projeto agostiniano é de uma reunião saudável entre corpo e alma, integridade saudável, mas também significando a salvação humana.

No livro Cidade de Deus, se há relação de opressão do corpo sobre a alma, isso não significa um conflito de naturezas em que o mal encontraria sua causa em algo alheio à vontade humana. Para Agostinho, na verdade o conflito é um sintoma, uma desordem da natureza em relação à ordem natural do império da alma sobre o corpo. Ou seja, se essa ordem não ocorre, é preciso restabelecê-la.

Evitar todo o corpo. Mesmo filosofias de um princípio (não dualistas) trazem a origem do mal fora da vontade e a purificação da alma passando pelo controle das paixões. Entretanto, em sua nova análise, Agostinho enfatizará a dissociação clássica entre corpo e alma legada da tradição, como na Eneida em que o pranto de Eneias não denuncia sua alma, isto é, há uma manifestação corpórea dissociada da alma, que a escusa.

Do ponto de vista dos estoicos e do platônico Porfírio, as impurezas do corpo contaminam a alma e são elas as paixões, o desejo, o medo, a alegria, que devem ser evitadas para o encontro com Deus. E tal condenação da exterioridade, compartilhada por Agostinho, pode dar força ao maniqueísmo em nova naturalização do mal. Então, em seu projeto, Agostinho procura neutralizar moralmente as paixões, argumentando que elas não são intrinsecamente boas ou más. Ou seja, evitando o maniqueísmo, o projeto agostiniano condena a exterioridade, mas sem substancializar o mal e se posicionando contra a tese de que a carne é a prisão da alma.

Vontade como alternativa entre o bem e o mal. No Cidade de Deus, as paixões são encaradas como diferentes vontades cuja espécie independe, haja vista seu valor moral (amor bom e desejo mau). Isso porque há uma fluidez do vocabulário entre bons e maus amores, etc. e neutralizam-se as paixões pois essas dependem de um valor moral, de que coisas que a vontade elege ou aborrece (coisas que devem ou não eleger, etc.). Essa inflexão agostiniana, se não é um elogio das paixões, redefine o vínculo delas com o mal e mostra que são só vontades.

Condição peregrina. Todavia, as paixões devem ser analisadas na peregrinação da vida humana, pois são sintomas da nossa condição decaída. Advém daí que um exilado tem paixões e não se pode negligenciar a sua miséria, pois ele vive nesse mundo que não é sua terra natal, estando aquém da integridade da natureza humana.

Em sua análise, na Cidade de Deus, Agostinho enfatiza as memórias de outra vida e, se aqui tememos e desejamos, sofremos e gozamos, se afeições retas, são privativas dessa vida. E é daí que se insurge o problema da moral: não de um aparente conflito do corpo com a alma, mas da alma consigo mesma, já que a queda é causada por uma livre decisão da vontade, quando ela entrou em contato consigo mesma[v].

É uma tempestade interior, uma rixa da alma contra si mesma: ela comanda o corpo que obedece, mas comanda a si mesma que resiste. A alma ordena que a alma queira, mas ela mesma não obedece, seria soberba? Por detrás da ideia de regresso da alma há uma tirania do corpo sobre a alma, mas um poder contrário à natureza, causado pela alma própria ter produzido a sublevação do corpo (na queda). Então, a alma não deve se divorciar, mas se reunir com o corpo de forma íntegra para superar o conflito da carne que, oriundo da decorrência moral e não dos movimentos do corpo[vi].

A Metafísica da Criação. É pela decomposição do ato criador que Agostinho explica a natureza alma corpo. Em um primeiro ato tem-se a criação de um algo diferente de Deus, depois dá-se a esse outro os traços de semelhança com o criador. Se o outro é a matéria sujeita à alteridade, a forma impõe a sua marca. E, sendo cada corpo matéria e forma, também o é a alma racional, enquanto matéria diferente de Deus, mas é Deus enquanto racional. Se o primeiro ato gera um outro, a forma convoca o outro de volta a origem, em um chamado para se reaproximar do criador.

A nova roupagem do regresso da alma. A alma humana tem o livre-arbítrio, pois é a imagem de Deus [que é livre] e é ela que deve comandar o homem no regresso, mas em uma condição peregrina. De posse da condição decaída, é preciso recuperar a saúde do corpo que deve regressar com ela, mas não ela liberta dele. Ressalta-se que, na metafísica agostiniana, a alma não é a forma e o corpo não é a matéria, embora haja um primado dessas relações, pois é a alma que escolhe, sendo mais próxima da forma de Deus e o corpo, sendo mais próximo da matéria, pois mais alteridade com relação a Deus.



[i] Resenha de https://www.youtube.com/watch?v=DkIh1_Gk7r4, professor Moacyr Novaes. Em 06/09/2021.

[ii] Influenciado pela obra homônima de Porfírio.

[iii] Frise-se, aqui, que Agostinho de Hipona – um clássico e vivente da antiguidade tardia, não só elabora, como transforma o que recebeu da antiguidade grega (Platão, Aristóteles, Plotino e Porfírio) e romana (Cícero, Salústio e Virgílio).

[iv] Conforme https://pt.wikipedia.org/wiki/Livro_da_Sabedoria, O Livro da Sabedoria (ou Sabedoria de Salomão) é um dos maiores livros deuterocanônicos da Bíblia. Possui 19 capítulos e é considerado o volume companheiro do Eclesiástico. (...) Ele ensina a verdadeira sabedoria que conduz a uma vida justa e à felicidade.

[v] Não se nega a consciência do conflito, mas ela é atribuída à própria alma. Isso fica claro à luz das confissões agostinianas, da sua experiência pessoal e luta travada por ele, que pode nortear sua tomada de posição nesse tema presente.

[vi] Moacyr ressalta que a domesticação das paixões não é negação do livre-arbítrio. Isso porque é preciso estar ciente da tirania do corpo e não se culpar, como uma renovação do “Conhece-te a Ti Mesmo”: um diagnóstico da alma racional dividida em relação a si mesma.

sábado, 24 de abril de 2021

Quando a técnica extrapola seu valor moral

Gehlen mostra o caminho da técnica que, em direção ao inorgânico, perde seu valor moral[i]

A técnica do inorgânico. A análise de Gehlen, seguindo as linhas de Kapp e McLuhan, parte da capacidade biológica humana de produzir instrumentos, da antropologia e do impacto da tecnologia na cultura. Para ele, o homem carece de órgãos e instintos especializados de adaptação ao ambiente e por isso deve transformar as condições naturais. Para agir, o ser humano se serve de princípios como a substituição e fortalecimento das capacidades biológicas por técnicas que são substitutivas, fortalecedoras e facilitadoras.

A técnica, como a nossa capacidade de transformar a natureza, faz parte da essência do homem e é esperta e improvável, como se pode ver, por exemplo, com a invenção da roda e do fogo. Entretanto, como alavanca de nossa cultura, ela substitui o orgânico pelo inorgânico, tanto nos materiais, quanto na energia que substitui a força humana e animal. Isso porque, salienta Gehlen pelo texto de Cupani, o inorgânico é mais fácil de conhecer racionalmente e experimentalmente, características da ciência moderna e da cosmovisão pragmático-positivista impulsionada pelo modo de produção capitalista.

Técnica sobrenatural. Gehlen também aborda a magia, tida como técnica sobrenatural, que foi usada durante milênios para imputar regularidade e estabilidade ao ambiente, seja intervindo na provocação de chuvas, fertilidade, entre outros. Dela se valiam as comunidades antes da ciência, funcionando como um autônomo animado, isto é, uma relação rítmica entre homem e cosmos, uma ressonância entre o homem e a natureza, o periodismo dos fenômenos no qual a ação humana se inseria e tentava intervir.

Então, magia e técnica visam facilitar a ação humana e evoluem em uma lei progressiva que passa pelo estágio da ferramenta, depois da máquina que dispensa energia humana, até o autômato, com processos autorregulados. Todavia, neste caminho evolutivo que culmina nos tecnólogos modernos, o trabalho é instintivo, posto que, dada a não especialização, o homem deve aumentar o controle sobre a natureza como lei de sua existência. E segue.

Cultura das máquinas. Tudo isso, aliado à produção capitalista e ao credo iluminista, leva à “cultura das máquinas” e a um intelectualismo, senão esoterismo, das ciências e das artes que fogem do naturalismo através de um experimentalismo sem metafisica. É uma experimentação incessante que se espalha pelas áreas chegando ao caráter transitório das produções artísticas, científicas e arquitetônicas e a indústria passa a viver a obsolescência das mercadorias. É o pensamento técnico e social moderno que se pauta em cinco “modos”: requerimento ou demanda total, efeitos preestabelecidos, mensuração padronizada, partes intercambiáveis e o princípio da concentração nos efeitos.

Efeitos da tecnologia. O resultado disso é prejudicial à nossa dimensão emotiva e moral que é substituída pela abstração e pela dificuldade de compreender a complexidade técnica que nos afasta do ambiente natural. Mas a atitude iluminista, que gerou essa cultura industrial, estava baseada em ingredientes como a bondade natural, o caminho racional para ser feliz ou a universalidade moral, que já não são mais endossados. Até a Revolução Industrial, nosso contato com o mundo orgânico trazia dependência das forças naturais. A partir dela, priorizamos o inorgânico que não suscita um padrão moral fazendo com que, no auge do século XX, tivéssemos perdido o senso de realidade e não fôssemos mais responsáveis pelo que fazemos. Assim, na visão de Gehlen, a técnica ultrapassa a magia na subjugação do natural, mas extrapolando qualquer norma moral traz consequências negativas para nossa alma. Contudo, como bom conservador, o autor não aponta soluções, segundo Cupani.



[i] Conforme Cupani, Alberto. Filosofia da tecnologia: um convite. 3. ed. - Florianópolis: Editora da UFSC, 2016. Capítulo 2: Estudos Clássicos: Arnold Gehlen.