Apresenta
a teoria aristotélica da linguagem como um sistema de símbolos convencionais
que representam as afecções da alma e possibilitam a comunicação e o julgamento
da verdade[i]
A impossibilidade do diálogo.
Dinucci traça um panorama de época no qual os sofistas, por um lado, entendiam
que a linguagem estava associada ao ser, isto é, dizer algo é dizer sobre algo
existente, com ligação direta entre palavra e ser. Nesse cenário, o erro era
impossível já que dizer o falso seria dizer o “não-ser”, que é impronunciável.
Por outro lado, o uso da linguagem como ferramenta de persuasão fazia com que
não se tivesse garantias sobre o que é dito. Ou seja, ou a linguagem estaria
presa ao ser ou ela seria extremamente livre ao poder de argumentação,
manipulação. De toda forma, vemos que a linguagem era valorizada pelos
sofistas.
Formulação aristotélica.
É nesse contexto que Aristóteles propõe que as palavras são símbolos (symbolon)
e, conforme sabemos, um símbolo é uma marca, um sinal. Mas para ele, conforme
explica Dinucci, elas são símbolos das afecções da alma e, desse modo,
Aristóteles separa a palavra da coisa fazendo com que a linguagem signifique a
coisa por meio da alma (psyché) e quebre a ligação imediata com o ser. E, pelo
fato de serem afecções da alma, é a alma que afirma e que nega [não o discurso
em si]. Outro ponto importante é que tanto as afecções da alma quanto as coisas
seriam iguais para todos, ao passo que as letras não. Isso quer dizer que a letra
varia e a afecção seria universal
Ao tomar nomes como símbolos, Aristóteles
entende que eles não são algo natural, como a proposta de Antístenes, mas uma
convenção humana. De fato, se fossem algo natural haveria somente uma língua,
mas sabemos que cada língua depende de regras de uso. Entre a visão de Górgias
de um abismo entre as palavras e as coisas e a relação imediata entre as
palavras e as coisas notada por Antístenes, a formulação aristotélica adverte
que a linguagem não tem relação de semelhança com as coisas, o símbolo não toma
o lugar da coisa.
Significação.
Aristóteles trata dos nomes que usamos na voz como símbolos, então sendo vozes significativas
convencionais, mas não se esquece das vozes significativas não convencionais,
aquelas dos animais, chamadas de naturais. Diferente dessas, a significação das
palavras depende fortemente da estrutura articulada e convencional da
linguagem. Cabe citar, uma elaboração tipicamente aristotélica, trazida por Dinucci:
“Se a voz é a matéria dos símbolos linguísticos, a estrutura articulada
é a forma da qual depende a significação, pois o sentido é, a princípio,
em função da estrutura”. Digamos que é a forma como empacotamos a mensagem.
Símbolo e signo.
Uma vez que as vozes naturais não são consideradas uma linguagem simbólica, é a
voz enquanto símbolo que permite comunicar um conteúdo que fixa o pensamento e
se relaciona com as afecções da alma[ii]. Mas é também signo
dessas afecções que são as mesmas para todos. Signo (seméion) é algo que não é
ele próprio, como o exemplo citado de que a fumaça é signo do fogo. Um grito de
dor é um signo: indica algo sem que ninguém tenha deliberado sobre isso. Uma
palavra é um símbolo: ela significa porque uma comunidade acordou, ainda que
tacitamente, que seria assim. A linguagem, enquanto símbolo, é um signo
convencional, citando: “símbolo é um conceito específico enquanto signo é o
conceito genérico que compreende o primeiro.”. Mas não é só signo, porque os signos
se relacionam ao real e aí só haveria uma língua.
Verdade. Até agora,
falamos de significar, mas isso não é o mesmo que julgar se algo existe ou não.
Para Aristóteles, a verdade reside na relação de semelhança do discurso que é
verdadeiro quando as conexões que ele articula se assemelham às conexões reais
entre as coisas. Ocorre que quem efetua esse julgamento, de fato, não é o
discurso, mas a psyché. É a alma que, ao apreender as afecções produzidas pelo
contato com o real, julga se a composição que o pensamento realiza corresponde
ou não ao que as coisas são. O discurso é o lugar dos símbolos convencionais,
signos que remetem às afecções psíquicas, enquanto a verdade acontece quando o
signo de uma afecção se assemelha efetivamente ao real que a produziu.
É desse modo que Aristóteles supera as dificuldades
postas pelos sofistas contra a ciência. Como Antístenes ata o ser à linguagem,
cria paradoxos como, por exemplo, dizer o falso é dizer o que não é, e o
não-ser não existe, então o falso seria impronunciável. Ao contrário, para Aristóteles
há o logos, a voz convencional significativa e o ser. Então, dizer o falso não
é dizer o não-ser; é compor uma proposição errônea. A lógica silogística
permite identificar onde a composição falhou e os termos foram conectados de
forma incompatível com as relações reais. Ela prepara caminho para o discurso
apofântico, esse capaz de ser verdadeiro ou falso e que pode revelar o real.
Regras do jogo.
Voltando para significação, Aristóteles propõe, conforme explanação de Dinucci,
que devemos nos fazermos compreender, através de uma voz significativa
convencional que não apenas transmite uma mensagem, mas revela a estrutura do
mundo real. Em oposição a Górgias, que valoriza o efeito que o discurso produz,
para Aristóteles, quando falamos, falamos de algo determinado.
No jogo dialético, segue Dinucci trazendo
para a argumentação o princípio de não contradição, é possível sustentar
posições opostas desde que em acordo com o princípio de não-contradição: uma
propriedade não pode pertencer e não pertencer ao mesmo objeto simultaneamente
e sob o mesmo aspecto. A contradição pode ocorrer fundada neste
predicado e neste sujeito.
Além disso, pela formulação psicológica do
princípio, a mesma pessoa não pode contradizer a si mesma dentro de um
argumento. Isso é exatamente o que faz o sofista: ao abrir a boca para negar
que a linguagem fala de algo, já está falando de algo.
Ameaças. Uma vez abarcada
em linhas gerais a teoria da linguagem aristotélica, Dinucci levanta pontos
fracos, sendo primeiramente que, dentro da formulação, um nome pode significar
várias coisas. Ora, se os nomes são convencionais e as coisas são em número
indeterminado, não há garantia de correspondência biunívoca entre palavra e
realidade[iii].
Aqui a equivocidade aparece como uma
possibilidade sempre aberta. Então, perguntamos: se cada palavra puder
significar muitas coisas, como nos entendemos[iv]? Como podemos garantir
que o interlocutor apreende o mesmo que o falante visava? É essa a brecha que o
sofista explora para criar paralogismos: ele usa a equivocidade para deslocar o
sentido de um termo ao longo do raciocínio.
Dado esse problema, a resposta
aristotélica reside em exigir que o nome tem de possuir uma significação única
no interior de um argumento[v]. Não que cada palavra sempre
tenha um único sentido, mas que, quando usada, esteja visando algo
determinado. Há também o problema dos nomes próprios que carregam
definições acidentais (p.ex., Sócrates) e os conceitos universais, como “homem”,
que são adquiridos indutivamente, sem que precisemos ver todos os homens para
formar o conceito. O que Aristóteles tem em vista não é a unidade do
significado e sim a da significação, “aquilo através do que o significado é
visado”[vi].
Unidade de sentido.
Fundamentalmente, podemos dizer que embora usemos nomes convencionais que se
multiplicam pela variedade de línguas, a teoria da linguagem de Aristóteles
procura preservar as afecções psíquicas, aquelas que são evocadas pelos sons,
mas são as mesmas para todos os seres humanos, porque derivam do mesmo contato
com o mesmo mundo. Essa é a regra semântica: palavras diferentes, em línguas
diferentes, afetam a alma de modo idêntico e, portanto, significam as mesmas
coisas. Ser e não-ser, portanto, não é uma questão de linguagem, mas de
realidade.
Se a linguagem pode compor erroneamente e enganar,
quando funciona bem permite correspondência entre palavras e coisas. A unidade
de sentido surge como condição de possibilidade de toda linguagem cujo fundamento
último é o princípio de não-contradição. Uma coisa não pode ser e não ser ao
mesmo tempo. É porque o real tem essa estrutura que a linguagem pode, ao menos
em princípio, alcançá-lo.
[i] Anotações sobre DINUCCI, A. L.
Notas sobre a teoria aristotélica da linguagem. Cadernos UFS: filosofia, São
Cristóvão, v. 5, p. 7-16, jan./jun. 2009. Disponível em: http://200.17.141.110/periodicos/cadernos_ufs_filosofia/revistas/ARQ_cadernos_5/aldo.pdf.
Acesso em: 05 maio 2026.
[ii] Aqui uma menção a https://bit.ly/efevmo-me-blog: parece
que é essa afecção que não muda que garante o entendimento entre alguém que diz
gato e outro que diz cat.
[iii] Russell toca nesse ponto: “A
descrição definida significa o nome próprio e cada pessoa pode ter uma. Aí
“Stalin”, uma palavra, pode ter diferentes significados e é pela ambuiguidade
que nos comunicamos. Conforme Russell, “Seria completa e inacreditavelmente
inconveniente ter uma linguagem não ambígua”” em O conhecimento por
familiaridade de Bertrand Russell: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2024/03/o-conhecimento-por-familiaridade-de.html.
[iv] Efevmo-me.
[v] Outra aproximação, aqui com
Strawson: “Uma forma de tratar o problema, proposta por Strawson, é não fazer a
distinção entre tipos de termos, mas entre tipos de uso dos termos, isto é,
quando determinada expressão é usada como um termo singular, etc., entretanto
haveríamos que sempre qualificar sua utilização.” em Filosofia da linguagem -
introdução e referência: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2022/10/filosofia-da-linguagem-introducao-e.html.
[vi] A unidade da significação é o "compromisso" que o falante assume com um sentido específico. Sem esse compromisso de visar algo determinado, a linguagem colapsa em ruído e a ciência torna-se impossível. Aristóteles não exige que as palavras sejam perfeitas, mas exige que o nosso uso delas seja rigoroso e orientado a um alvo fixo na realidade (by Gemini).