domingo, 31 de maio de 2026

Uma nota sobre arbitrariedade

Sabemos que, para Wittgenstein, o segundo, a linguagem não está envolta em metafísica. Isto é, que a linguagem espelha a realidade (isomorfismo) - não, para ele a linguagem é uso e, nesse sentido, determinada pela gramática. Ora, mas então, qual o fundamento das regras gramaticais?

Pizzutti[i] nos lembra que elas são arbitrárias, algo que parece muito estranho. De acordo com o exemplo "rosa é uma cor mais escura que preto", se arbitrário, poderíamos utilizar essa expressão (ou norma de representação conforme o autor) por uma decisão individual?

Isso não parece um bom caminho porque cada um poderia ter uma escolha e, assim, deixaria de ser arbitrária. Há, em nossa formação conceitual, fatores biológicos, antropológicos e naturais que influenciam em nossa gramática. Por exemplo, a afirmação anterior só faz sentido porque temos a capacidade de ver um espectro de cores de determinada forma. 

Porém, "este condicionamento não determina univocamente nossas formas de representação." Haja vista geometria euclidiana e não-euclidiana. Isso posto, é possível ver que a gramática não é arbitrária por uma questão metafísica. Quando falamos que "o vermelho é uma cor", apenas usamos uma regra gramatical que permite falar de cores, em oposição a querer postular a natureza das cores. A justificação das proposições se dá no próprio uso da linguagem, não fora, mas sempre, em algum momento, de maneira arbitrária.

Reforçando esse ponto, uma proposição como "todo objeto tem uma extensão" não é necessária, mas uma regra gramatical, parte da estrutura linguística e não além. Regra arbitrária, não necessária - cindida a relação linguagem-realidade fica cindida, também, a necessidade da realidade.

Teremos mais a dizer sobre arbitrariedade, eu creio, na sequência.



[i] Artigo que usamos referência. WITTGENSTEIN, A ARBITRARIEDADE DA GRAMÁTICA E O FIM DA FILOSOFIA ESPECULATIVA. Pedro Henrique Nogueira Pizzutti.

terça-feira, 19 de maio de 2026

Tudo Ney

E aí, beleza?

Ney.

Eita, poxa. Mas desde quando?

Ah, já tem um tempinho, mas nos últimos dias a coisa se intensificou.

E você acha que dá para reverter?

Ney.

Entendi. É fato consumado.

Parece que sim, algo além do nosso controle.

E se você vir a coisa de outro ponto de vista?

Ney.

Nossa, é grave mesmo.

É. A turma tentou bastante, mas a comoção foi maior.

Incrível, algo que já parecia superado.

Não tanto, a gente sempre carrega uns fantasmas no armário.

E como vai ser?

Não sei ainda, estou tentando me adaptar.

Ah.. o que você tem feito?

Eu procuro pensar em outra coisa, ligo a TV para espiar...

E?

Ney.

Santa Edwiges.

Está mais pra São Tomé, difícil acreditar.

É o que dizem, se não tem tu, vai tu mesmo?

Eu não queria que fosse, tantos sonhos. Todo um ciclo de espera.

Mas vejo que já se está pensando no próximo, haja vista isso.

Mas de pensar no futuro a gente não vive o presente.

E o que é pior, virou-se tudo para o passado.

Sim, um passado que já está aí há mais de quinze anos.

Última chance?

Isso com certeza, inexoravelmente.

Então, bora comprar a pipoca e ver no que que dá.

Ney!

 

 

sábado, 16 de maio de 2026

O entendimento da potência ao ato

Quando o ouvir é potência e o entender é ato

1. Sobre Aristóteles[i]. Aristóteles pertenceu à tradição da filosofia grega clássica e se distingue de seu mestre Platão por fundamentar o conhecimento na investigação das causas imanentes às coisas. Segundo a Stanford Encyclopedia of Philosophy, ambos são considerados os maiores filósofos de todos os tempos. Além disso, a obra aristotélica abrange uma impressionante variedade de áreas, desde a lógica, metafísica, ética, política, retórica, estética e até biologia empírica. Assim estabelece métodos e conceitos fundamentais que estimularam debates filosóficos por mais de dois milênios.

2. Aristóteles no blog[ii]. Aparece como o fundador da lógica e da metafísica, tendo sistematizado o pensamento ocidental por meio do silogismo e da doutrina das quatro causas (material, formal, eficiente e final) para explicar a origem e o propósito de todos os seres. Ele definiu a substância (ousia) como a categoria primordial do ser e o sujeito último de toda predicação, defendendo que a forma é imanente aos objetos físicos e não transcendente como em Platão.          

Na sua filosofia natural, descreveu a alma como a "forma" que faz o corpo orgânico funcionar, dividindo-a em faculdades vegetativa, sensitiva e racional, sendo esta última a base para a ética da virtude e, em seu horizonte mais elevado, a busca da felicidade (eudaimonia) através da atividade contemplativa. Além disso, sua epistemologia distingue episteme (conhecimento teórico da natureza ou physis) e techne (saber prático e produtivo), influenciando o desenvolvimento científico até a modernidade.Parte superior do formulárioParte inferior do formulário

3. Aristóteles na perspectiva da nossa série[iii]. Aristóteles dialoga com os autores da série efevmo-me ao fundamentar o entendimento na relação entre a alma racional (nous) e a realidade concreta, recusando o dualismo de Descartes ao defender que a alma é a "forma" imanente do corpo e não um "fantasma na máquina"[iv]. Enquanto Kant desloca a lógica para o sujeito transcendental e a síntese das representações como condições de possibilidade do conhecer, Aristóteles a mantém ancorada na estrutura do ser para descrever suas propriedades em caminho oposto. Sistematicamente, em Aristóteles do ser ao pensamento e, em Kant, do pensamento ao fenômeno (a famosa revolução copernicana).

Em contraste com o materialismo de Marx, que vê a consciência como produto das condições materiais de existência, e a razão comunicativa de Habermas, que busca o entendimento no espaço público intersubjetivo, Aristóteles foca na virtude e na atividade contemplativa como caminho para a felicidade (eudaimonia). Por fim, sua divisão ontológica das faculdades da alma oferece um paralelo estrutural da divisão de Sellars entre senciência e sapiência (sentir x saber) que serve de base para o ingresso normativo no "espaço das razões" linguisticamente construído. Ressaltando que o nous, uma das faculdades da alma aristotélica, não é apenas uma construção linguística, mas uma faculdade que capta a essência real das coisas.

4. Nossa máxima sobre o ponto de vista de Aristóteles[v]. Pela lente de Aristóteles, a máxima “Eu falo e você me ouve, mas entende?” tocaria diretamente o núcleo da teoria aristotélica do logos, do significado e da comunicação. A resposta aristotélica seria, em linhas gerais, que ouvir não é ainda entender e que entender exige uma partilha de formas inteligíveis.

5. Som (phone) e logos (λόγος). No Da Interpretação (Peri Hermeneias), Aristóteles trata de sons vocais como símbolos das afecções da alma, e as letras símbolos dos sons. Então, há um som qualquer, mas há um som que significa algo por convenção, aí temos um nome e só depois teremos logos, um enunciado que já está chegando no discurso apofântico, que pode ser verdadeiro ou falso, ao contrário de ordens, perguntas e desejos. São enunciados que afirmam ou negam coisas sobre o mundo.

Já na Política, Aristóteles indica que a phoné está associada aos animais, por exemplo, um grunhido que expressa um prazer. O ser humano, possui logos que expressa o bem e mal, faz julgamentos. Vamos lembrar que o ser humano é tido com um animal mais político que abelhas ou outros gregários, pelo fato de logos, discussão de valores e isso se dá na polis.

Assim, em “Eu falo e você me ouve” isso ainda está no nível da phoné. E quando surge a pergunta “mas entende?” indica-se que nem todo som ouvido é apreendido como portador de sentido.

6. Significar é evocar uma forma na alma. Aristóteles afirma que as palavras são símbolos das afecções da alma, e que essas afecções são semelhanças (homoiómata) das próprias coisas. Ou seja, poderíamos inferir que entender não é apenas ouvir um som, mas atualizar na alma a mesma forma inteligível que o falante pretende significar. Se o som chega ao ouvido, mas não desperta a forma correta no intelecto, não há entendimento.

7. Entender exige um koinón (algo comum[vi]). Para Aristóteles, a comunicação só funciona porque há uma natureza humana compartilhada, formas inteligíveis comuns, hábitos linguísticos e conceituais partilhados. A nossa máxima poderia ser lida, aristotelicamente, como a constatação de que o lógos só se completa quando há comunhão de formas, não apenas transmissão de sons. Sem esse koinón, a fala falha enquanto lógos, mesmo que funcione como som.

8. A ambiguidade e o equívoco. Aristóteles também enfatiza que palavras são convencionais, o mesmo som pode significar coisas diferentes, o equívoco é estrutural à linguagem. Assim, você pode ouvir perfeitamente e ainda assim apreender outra forma, outro sentido, ou nenhum sentido[vii]. Então, nossa máxima captura exatamente essa possibilidade permanente de desalinhamento semântico.

9. O papel do intelecto ativo. No De Anima, Aristóteles distingue o intelecto passivo, aquele que recebe, do intelecto ativo, aquele que atualiza. Ouvir pertence ao nível sensível. Entender pertence ao nível intelectual. Portanto, nossa pergunta final “mas entende?” seria, para Aristóteles, uma pergunta que busca saber se o seu intelecto passou da potência ao ato, não obstante a obscuridade dessa passagem.

10. Formulação aristotélica para a nossa máxima. Se Aristóteles reescrevesse nossa frase, ela poderia soar assim: “Proferi sons significativos; teus sentidos os receberam. Mas a forma que atualizaste na alma é a mesma que intencionei?”. Em termos aristotélicos, nossa máxima expressa que falar é diferente de significar com sucesso e ouvir é diferente de compreender. Se a compreensão exige comunhão de formas inteligíveis, então a falha comunicativa não é acidental, mas estrutural.

Etimologias

Phone: φωνή (phōnē): voz, som, tom ou linguagem.

Logos: λόγος (logos): palavra, discurso, razão, argumento ou ordem cósmica.

Homoiómata: ὁμοιώματα: semelhanças, figuras, formas ou aparências.

Koinon: coisa comum, público ou partilha. Koinonia (comunhão).



[ii] Com base no histórico do Blog, entre outras: Lógica Aristotélica (2025): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2025/11/logica-aristotelica.html, Alma feliz (2024): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2024/11/alma-feliz.html, A primeira doutrina da substância (2016): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2016/03/a-primeira-doutrina-da-substancia.html, Teologia aristotélica (2016): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2016/06/teologia-aristotelica.html, Causalidade, acaso e necessidade em Aristóteles (2021): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/04/causalidade-acaso-e-necessidade-em.html e Sobre a evolução científica da antiguidade ao renascimento (2021): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/07/sobre-evolucao-cientifica-da.html.

[iv] Expressão de Ryle, usada aqui para nomear o dualismo cartesiano que Aristóteles antecipadamente recusaria.

[v] Conforme temos dito, para a série EFEVMO-ME temos usado o ChatGPT para gerar o conteúdo de resposta do filósofo para a nossa máxima e fazemos uma revisão. São dois objetivos: o primeiro é escrutinar a máxima do ponto de vista do filósofo e o segundo é fazer uma aproximação conceitual do filósofo, de maneira geral. Mostrando postagens com marcador efevmo-me: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/search/label/efevmo-me. No Canal: https://youtube.com/playlist?list=PLnDky5U6KdTn7T-fRc3YWlosgMpPVzH9k&si=I2HECee5weE_WO13 - FEVMO-ME, por Luís Quissak, Playlist, Público, 6 vídeos, 44 visualizações “Eu falo e você me ouve, mas entende?”.

[vi] https://www.youtube.com/shorts/LJenjUkW6bQ no contexto político.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

A Semântica da Mediação: Símbolo e Significação em Aristóteles

Apresenta a teoria aristotélica da linguagem como um sistema de símbolos convencionais que representam as afecções da alma e possibilitam a comunicação e o julgamento da verdade[i]

A impossibilidade do diálogo. Dinucci traça um panorama de época no qual os sofistas, por um lado, entendiam que a linguagem estava associada ao ser, isto é, dizer algo é dizer sobre algo existente, com ligação direta entre palavra e ser. Nesse cenário, o erro era impossível já que dizer o falso seria dizer o “não-ser”, que é impronunciável. Por outro lado, o uso da linguagem como ferramenta de persuasão fazia com que não se tivesse garantias sobre o que é dito. Ou seja, ou a linguagem estaria presa ao ser ou ela seria extremamente livre ao poder de argumentação, manipulação. De toda forma, vemos que a linguagem era valorizada pelos sofistas.

Formulação aristotélica. É nesse contexto que Aristóteles propõe que as palavras são símbolos (symbolon) e, conforme sabemos, um símbolo é uma marca, um sinal. Mas para ele, conforme explica Dinucci, elas são símbolos das afecções da alma e, desse modo, Aristóteles separa a palavra da coisa fazendo com que a linguagem signifique a coisa por meio da alma (psyché) e quebre a ligação imediata com o ser. E, pelo fato de serem afecções da alma, é a alma que afirma e que nega [não o discurso em si]. Outro ponto importante é que tanto as afecções da alma quanto as coisas seriam iguais para todos, ao passo que as letras não. Isso quer dizer que a letra varia e a afecção seria universal

Ao tomar nomes como símbolos, Aristóteles entende que eles não são algo natural, como a proposta de Antístenes, mas uma convenção humana. De fato, se fossem algo natural haveria somente uma língua, mas sabemos que cada língua depende de regras de uso. Entre a visão de Górgias de um abismo entre as palavras e as coisas e a relação imediata entre as palavras e as coisas notada por Antístenes, a formulação aristotélica adverte que a linguagem não tem relação de semelhança com as coisas, o símbolo não toma o lugar da coisa.

Significação. Aristóteles trata dos nomes que usamos na voz como símbolos, então sendo vozes significativas convencionais, mas não se esquece das vozes significativas não convencionais, aquelas dos animais, chamadas de naturais. Diferente dessas, a significação das palavras depende fortemente da estrutura articulada e convencional da linguagem. Cabe citar, uma elaboração tipicamente aristotélica, trazida por Dinucci: “Se a voz é a matéria dos símbolos linguísticos, a estrutura articulada é a forma da qual depende a significação, pois o sentido é, a princípio, em função da estrutura”. Digamos que é a forma como empacotamos a mensagem.

Símbolo e signo. Uma vez que as vozes naturais não são consideradas uma linguagem simbólica, é a voz enquanto símbolo que permite comunicar um conteúdo que fixa o pensamento e se relaciona com as afecções da alma[ii]. Mas é também signo dessas afecções que são as mesmas para todos. Signo (seméion) é algo que não é ele próprio, como o exemplo citado de que a fumaça é signo do fogo. Um grito de dor é um signo: indica algo sem que ninguém tenha deliberado sobre isso. Uma palavra é um símbolo: ela significa porque uma comunidade acordou, ainda que tacitamente, que seria assim. A linguagem, enquanto símbolo, é um signo convencional, citando: “símbolo é um conceito específico enquanto signo é o conceito genérico que compreende o primeiro.”. Mas não é só signo, porque os signos se relacionam ao real e aí só haveria uma língua.

Verdade. Até agora, falamos de significar, mas isso não é o mesmo que julgar se algo existe ou não. Para Aristóteles, a verdade reside na relação de semelhança do discurso que é verdadeiro quando as conexões que ele articula se assemelham às conexões reais entre as coisas. Ocorre que quem efetua esse julgamento, de fato, não é o discurso, mas a psyché. É a alma que, ao apreender as afecções produzidas pelo contato com o real, julga se a composição que o pensamento realiza corresponde ou não ao que as coisas são. O discurso é o lugar dos símbolos convencionais, signos que remetem às afecções psíquicas, enquanto a verdade acontece quando o signo de uma afecção se assemelha efetivamente ao real que a produziu.

É desse modo que Aristóteles supera as dificuldades postas pelos sofistas contra a ciência. Como Antístenes ata o ser à linguagem, cria paradoxos como, por exemplo, dizer o falso é dizer o que não é, e o não-ser não existe, então o falso seria impronunciável. Ao contrário, para Aristóteles há o logos, a voz convencional significativa e o ser. Então, dizer o falso não é dizer o não-ser; é compor uma proposição errônea. A lógica silogística permite identificar onde a composição falhou e os termos foram conectados de forma incompatível com as relações reais. Ela prepara caminho para o discurso apofântico, esse capaz de ser verdadeiro ou falso e que pode revelar o real.

Regras do jogo. Voltando para significação, Aristóteles propõe, conforme explanação de Dinucci, que devemos nos fazermos compreender, através de uma voz significativa convencional que não apenas transmite uma mensagem, mas revela a estrutura do mundo real. Em oposição a Górgias, que valoriza o efeito que o discurso produz, para Aristóteles, quando falamos, falamos de algo determinado.

No jogo dialético, segue Dinucci trazendo para a argumentação o princípio de não contradição, é possível sustentar posições opostas desde que em acordo com o princípio de não-contradição: uma propriedade não pode pertencer e não pertencer ao mesmo objeto simultaneamente e sob o mesmo aspecto. A contradição pode ocorrer fundada neste predicado e neste sujeito.

Além disso, pela formulação psicológica do princípio, a mesma pessoa não pode contradizer a si mesma dentro de um argumento. Isso é exatamente o que faz o sofista: ao abrir a boca para negar que a linguagem fala de algo, já está falando de algo.

Ameaças. Uma vez abarcada em linhas gerais a teoria da linguagem aristotélica, Dinucci levanta pontos fracos, sendo primeiramente que, dentro da formulação, um nome pode significar várias coisas. Ora, se os nomes são convencionais e as coisas são em número indeterminado, não há garantia de correspondência biunívoca entre palavra e realidade[iii].

Aqui a equivocidade aparece como uma possibilidade sempre aberta. Então, perguntamos: se cada palavra puder significar muitas coisas, como nos entendemos[iv]? Como podemos garantir que o interlocutor apreende o mesmo que o falante visava? É essa a brecha que o sofista explora para criar paralogismos: ele usa a equivocidade para deslocar o sentido de um termo ao longo do raciocínio.

Dado esse problema, a resposta aristotélica reside em exigir que o nome tem de possuir uma significação única no interior de um argumento[v]. Não que cada palavra sempre tenha um único sentido, mas que, quando usada, esteja visando algo determinado. Há também o problema dos nomes próprios que carregam definições acidentais (p.ex., Sócrates) e os conceitos universais, como “homem”, que são adquiridos indutivamente, sem que precisemos ver todos os homens para formar o conceito. O que Aristóteles tem em vista não é a unidade do significado e sim a da significação, “aquilo através do que o significado é visado”[vi].

Unidade de sentido. Fundamentalmente, podemos dizer que embora usemos nomes convencionais que se multiplicam pela variedade de línguas, a teoria da linguagem de Aristóteles procura preservar as afecções psíquicas, aquelas que são evocadas pelos sons, mas são as mesmas para todos os seres humanos, porque derivam do mesmo contato com o mesmo mundo. Essa é a regra semântica: palavras diferentes, em línguas diferentes, afetam a alma de modo idêntico e, portanto, significam as mesmas coisas. Ser e não-ser, portanto, não é uma questão de linguagem, mas de realidade.

Se a linguagem pode compor erroneamente e enganar, quando funciona bem permite correspondência entre palavras e coisas. A unidade de sentido surge como condição de possibilidade de toda linguagem cujo fundamento último é o princípio de não-contradição. Uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo. É porque o real tem essa estrutura que a linguagem pode, ao menos em princípio, alcançá-lo.



[i] Anotações sobre DINUCCI, A. L. Notas sobre a teoria aristotélica da linguagem. Cadernos UFS: filosofia, São Cristóvão, v. 5, p. 7-16, jan./jun. 2009. Disponível em: http://200.17.141.110/periodicos/cadernos_ufs_filosofia/revistas/ARQ_cadernos_5/aldo.pdf. Acesso em: 05 maio 2026.

[ii] Aqui uma menção a https://bit.ly/efevmo-me-blog: parece que é essa afecção que não muda que garante o entendimento entre alguém que diz gato e outro que diz cat.

[iii] Russell toca nesse ponto: “A descrição definida significa o nome próprio e cada pessoa pode ter uma. Aí “Stalin”, uma palavra, pode ter diferentes significados e é pela ambuiguidade que nos comunicamos. Conforme Russell, “Seria completa e inacreditavelmente inconveniente ter uma linguagem não ambígua”” em O conhecimento por familiaridade de Bertrand Russell: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2024/03/o-conhecimento-por-familiaridade-de.html.

[iv] Efevmo-me.

[v] Outra aproximação, aqui com Strawson: “Uma forma de tratar o problema, proposta por Strawson, é não fazer a distinção entre tipos de termos, mas entre tipos de uso dos termos, isto é, quando determinada expressão é usada como um termo singular, etc., entretanto haveríamos que sempre qualificar sua utilização.” em Filosofia da linguagem - introdução e referência: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2022/10/filosofia-da-linguagem-introducao-e.html.

[vi] A unidade da significação é o "compromisso" que o falante assume com um sentido específico. Sem esse compromisso de visar algo determinado, a linguagem colapsa em ruído e a ciência torna-se impossível. Aristóteles não exige que as palavras sejam perfeitas, mas exige que o nosso uso delas seja rigoroso e orientado a um alvo fixo na realidade (by Gemini).