segunda-feira, 29 de abril de 2024

Pelo fim das opiniões filosóficas

Tenta pôr um fim na opinião filosófica que é um fim em si mesma[i]

Opiniões filosóficas. A princípio uma opinião filosófica é uma opinião que visa “desmistificar” algo, isto é, visa esclarecer, porém o faz procurando mostrar a essência daquele algo. “Cogito ergo sum”, ou, “penso, logo existo” é todo o fundamento da filosofia cartesiana que parte da dúvida para negar o mundo exterior. Ora, esclarece que não se pode confiar nos sentidos, mas, por outro lado, mostra nossa essência mental. Uma outra opinião filosófica pode nos ajudar a entender que devemos fazer o bem, mas para isso ela se baseia em uma máxima universal que se funda na essência moral. Já postular que Deus é a natureza esclarece que ele não é transcendente posto que sua essência é imanente.

Leis. Isso tudo são usos de linguagem para fins filosóficos. Entretanto, são opiniões que, uma vez postas, ficam à mercê de argumentação contrária. Mas por que estamos falando de “opiniões”? Isso não seria rebaixar a nobre filosofia? De maneira alguma, isso seria colocá-la em lugar útil e promissor. Porque se tratássemos opiniões filosóficas como leis filosóficas, elas não seriam passíveis de contestação, mas leis, pelo seu próprio caráter, ou são imposições ou têm total comprovação empírica. Uma lei filosófica é um absurdo em si mesmo, se imposta. Se, ao contrário, é empírica, não é filosofia, mas ciência.

Uso filosófico da linguagem. Então, uma opinião filosófica é um uso filosófico da linguagem. Mas esse uso não é promissor porque ele está sempre buscando esconder uma essência travestida em esclarecimento. Por isso, denunciemos o uso filosófico da linguagem ou o uso da linguagem para fazer filosofia. O uso da linguagem para expressar opinião filosófica é um uso especulativo e estéril. É um uso que arrebanha intelectuais que se digladiam por detrás de livros e ideias provisórias, senão dogmáticas.

Terapia. Se não de se pode falar se deve calar? De maneira alguma e o próprio mestre depois ensinou: devemos falar e muito, mas denunciar esses usos, que não passam de confusões. Na vida cotidiana temos nossas opiniões e um conjunto de crenças que muitas vezes nos levam a uma vida angustiante. Enxergamos o mundo de tal forma que essa interpretação se mostra claramente equivocada, se analisada. São confusões que devem ser resolvidas por uma boa terapia com procedimentos e métodos terapêuticos que podem nos ser úteis tanto no dia a dia como em filosofia.

Uso inadequado da linguagem. É justamente essa visão de terapia filosófica que estamos tentando entender da proposta wittgensteiniana. Conforme Plínio: “... as investigações filosóficas (...) nos farão reconhecer que o suposto conhecimento filosófico é apenas um produto de um uso inadequado da linguagem”.[ii] Não parece claro e cristalino? Só há conhecimento (sic. opinião) filosófico porque fazemos um uso inadequado da linguagem. Se queremos usar a linguagem para o seu fim adequado, não devemos usá-la para fazer filosofia. Mas não devemos fazer filosofia? Devemos! Mas como uma atividade de denúncia do uso inadequado da linguagem e de esclarecimento do uso correto da linguagem, mas um uso que não se mostre dogmático.

Pragmática. Um uso terapêutico no campo filosófico é um uso que não deve ser dogmático, já que visa elucidá-lo. Mas um uso terapêutico pode acabar pode ter teses positivas e cuja proteção se poderia dar pela pragmática, conforme o projeto de Arley Moreno[iii] e seu compromisso com “teses filosóficas não dogmáticas” e que enfoca a gramática dos usos das palavras sem formular hipóteses sobre sua justificação e sem afirmar nada sobre o que é, mas sobre o que é possível ser.

É um campo a ser explorado.



[i] Essa é uma tentativa de manifesto baseada em terapia e ceticismo a partir dos textos que temos lido e que, em geral, resenhamos nesse blog. Coisas que temos olhado: FILOSOFIA E TERAPIA EM WITTGENSTEIN, de João Carlos Salles Pires da Silva e WITTGENSTEIN E O PIRRONISMO: SOBRE A NATUREZA DA FILOSOFIA de Plínio Junqueira Smith.

[ii] Analytica, volume 1, número 1, 1993, pg 160.

[iii] Analytica, volume 9, número 2, 2005, pg 104.

segunda-feira, 15 de abril de 2024

Positividade Cética

Introduz a racionalidade cética perdida nos manuscritos[i]

 Nessa conferência Plínio trata da visão mais específica de Sexto Empírico sobre o ceticismo, oriunda de sua principal obra sobre o ceticismo antigo[ii]. Para Sexto, a escola cética pode ser conhecida por zetética, pelo exame da verdade; aporética, por produzir impasses; pirrônica, em relação ao mestre; suspensiva por suspender o juízo.

Há cinco noções fundamentais do ceticismo, conforme Plínio. A definição ou conceito, os princípios, os logoi (discursos ou razões céticas), o critério cético para agir no mundo e o objeto (telos) que o cético persegue, como sendo a tranquilidade nas ações. Conforme já vimos, a filosofia cética é mais uma habilidade do que uma doutrina, mas essa definição se limita a uma atividade filosófica da verdade, entretanto o ceticismo é uma forma de vida sem opiniões[iii].

Os princípios dirão como o cético é levado à filosofia e o que guia a atividade cética na investigação filosófica. Sobre as razões, Plínio ressalta que foram pouco notadas pois sua unidade se perdeu nos manuscritos. Por um lado, a razão nos mostra a forma correta de viver a vida, por outro que a investigação filosófica correta leva a suspensão do juízo. Então, de posse dos princípios, os critérios dirão que é possível viver uma vida convencional mesmo suspendo o juízo e tendo como objetivo a ataraxia (imperturbabilidade) e moderando as afecções, sendo essa a vida mais feliz que um ser humano pode ter.

Então, são as razões (a terceira noção) que fazem a mediação entre a teoria e a prática cética, sendo ela dupla: ação no mundo e suspensão do juízo, que integram o sistema cético como um todo. É uma ideia normativa do bem viver e da investigação filosófica que evita o dogmatismo e orienta a vida cética. Plínio enfatiza que o cético dispõe de uma argumentação, negando que o discurso cético seja dialético e, nesse sentido, positivo. Há uma racionalidade própria do ceticismo, que para Sexto é a maneira correta de raciocinar, e não o que dizem sobre o ceticismo de que a razão deveria combater a razão[iv], se voltando contra si mesma, já que a razão seria por si dogmática. Por essa opinião, o cético usaria um argumento temporariamente para mostrar que o dogmático está errado.

Plínio argumenta que há uma positividade no ceticismo que permite uma investigação correta, mas que não foi bem levada em conta na visão que se tem do ceticismo. O ceticismo não deixa de ter compromisso com a racionalidade. Entretanto é uma racionalidade que não se precipita, assim como o dogmático, mas esse último em algum momento deixa de ser racional ao não levar em consideração os outros argumentos e objeções. E Plínio considera que esses raciocínios são fundamentais para a escola cética.



[i] Um fichamento de https://youtu.be/nax9RDg-vko Plínio Junqueira Smith sobre Sexto Empírico: As características do ceticismo pirrônico. Acessado em 13 de abril de 2024.

[ii] Esboços Pirrônicos.

[iii] Adoxástica, ao contrário da doxa = opinião. Doxa que se rivaliza com a episteme, conforme algumas coisas já ditas por aqui: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/search?q=episteme .

[iv] Conforme Montaigne e Hume.

quinta-feira, 11 de abril de 2024

Habilidade Cética

Mostra que a filosofia cética se funda em uma atividade investigativa[i]

Plínio ressalta que Sexto Empírico não pretende precisar exatamente a essência do ceticismo, mas o divide em grandes linhas entre os novos céticos (Agripa, que traz outros modos de suspensão, reorganizando o material argumentativo) e os velhos céticos (Enesidemo e sucessores). Sexto visa comunicar o ceticismo não como o vê, mas dentro de uma longa tradição na qual ele pertence, a tradição cética que, remontada a Pirro, levaria em torno de 500 anos. Mas não é um discurso rigoroso, já que esse é dogmático, é um discurso que traz o ceticismo que se desenrola no tempo e vai se moldando e que ele deseja transmitir como um legado da escola pirrônica.

De acordo com Plínio, o ceticismo antigo pode ser dividido em três fases[ii]: a de Pirro e seu discípulo Tímon, que depois desaparece um pouco e surge a tradição acadêmica, que também tende a desaparecer, até que Enesidemo resgata o pensamento pirrônico, agora apresentando-o de maneira sistemática, porém com uma versão mais negativa do ceticismo e se aproximando da visão acadêmica. Até chegarem os novos pirrônicos que trazem uma concepção mais coerente de pirronismo que se alia ao discurso de que a suspensão do juízo nos leva a uma vida feliz e concebido como habilidade[iii].

Entretanto, Plínio vê essa periodização muito marcada e trazendo cada fase como autônoma. É como se fosse uma história dogmática do ceticismo, segundo ele, como se fossem doutrinas incompatíveis e que confunde a suspensão do juízo com um raciocínio e não uma habilidade. Plínio não vê essas contradições, mas uma evolução, um todo coerente de continuidades ao longo dos séculos, embora com suas diferenças.

Os cinco modos não refutam os dez, mas se juntam para refutar mais fortemente o dogmatismo, todos com origem pirrônica. Nesse sentido, é uma continuação da investigação da verdade e ainda poderia haver outros desdobramentos, já que é uma filosofia viva ainda hoje, uma investigação permanente que discute ideias. Interessante que Plínio cita as Investigações Filosóficas de Wittgenstein, obra que não apresenta teses definitivas, mas se desenrola como uma atividade de investigação.  Um belo exemplo.



[i] Um fichamento de https://youtu.be/npFZoTWE8FY Plínio Junqueira Smith sobre Sexto Empírico: Sexto e a tradição cética. Acessado em 10 de abril de 2024.

[ii] Divisão de Richard Bett, conforme citação de Plínio. Divisão de historiador, diferente da perspectiva de Sexto.

[iii] Diferentemente de Enesidemo que negava a possibilidade de conhecimento, sendo esse o motivo da vida feliz. 

terça-feira, 9 de abril de 2024

Filosofia e busca da verdade

Mostra que o interesse filosófico é pela busca da verdade, mas aí há três atitudes[i]

Plínio nos apresenta o recorte histórico que Sexto Empírico faz do empirismo antigo, chamado de pirronismo. Segundo ele, o ceticismo pirrônico faz uma distinção geral entre as filosofias, de maneira diferente do que estamos acostumados com a divisão das doutrinas entre platonismo, filosofia cartesiana, filosofia kantiana e por aí vai. Para o cético, essa distinção seria mais específica e cada uma delas poderia ser enquadrada em conjuntos de crenças que disputam entre si para saber qual é a verdadeira.

Entretanto, há filosofias com pensamento divergente, sejam elas as provenientes dos acadêmicos[ii] e o ceticismo. Para os primeiros, como não é possível conhecer a verdade, eles não se filiam a uma doutrina, ao passo que os dogmáticos o fazem ao dizer como as coisas são na realidade. Para os acadêmicos, se é impossível conhecer, não há uma tese. Por fim, o cético não pende para nenhum lado já que está sempre procurando a verdade e não a considera algo impossível de ser encontrado. É tipicamente uma filosofia investigativa.

Mas é importante reconhecer, segundo ele, que todo filósofo em algum momento faz uma investigação para tentar descobrir o que é a verdade, sendo essa a característica mais geral da filosofia. O que distingue cada um é o resultado dessa busca, mas todos passam por essa etapa inicial de investigação quando se debruçam sobre o estudo filosófico. É a filosofia como atividade, conforme enfatiza Plínio.

E é sobre a filosofia cética que falará Sexto Empírico[iii], dividindo-a em um discurso geral que descreve o ceticismo e uma discussão que combate o dogmatismo e a filosofia acadêmica. Sexto Empírico exporá os conceitos gerais do ceticismo e os modos de suspensão do juízo que definem a atitude cética e que são retomados dos acadêmicos. São os dez modos de Enesidemo[iv], os cinco modos de Agripa e os dois modos dos novos céticos. Nos dez modos e nos seguintes, não se fala sobre como as coisas são, mas como aparecem para nós, eles mesmos mais gerais; depois suspende-se o juízo sobre a lógica, a física e a ética.

Na continuação, de acordo com Plínio, ele falará das expressões céticas, por exemplo, “eu suspendo o juízo”, que permitem evitar falar das coisas em si mesmas, de sua natureza e nem dizendo que é impossível conhecê-las. O discurso sobre os objetos investigados nada afirma ou nega, sem se comprometer com eles. Essa apresentação é uma visão positiva do que é o ceticismo, posteriormente ele tratará dos seus limites externos e de filosofias próximas e como o diferenciar seja de Heráclito, Demócrito ou Protágoras, finalizando com a escola empirista.

E, assim, iniciamos um novo passeio pelo labirinto filosófico! 😊



[i] Um fichamento de https://youtu.be/O-lw68J-AqQ, Plínio Junqueira Smith sobre Sexto Empírico 1: Os tipos mais gerais de filosofias. Acessado em 9 de abril de 2024.

[ii] Na fase de Arcesilau.

[iii] Em Esboços Pirrônicos.

[iv] Rompe com a Academia e remete a Pirro. 

domingo, 7 de abril de 2024

Pesquisa sobre a atitude filosófica cética

Falaremos sobre a atitude filosófica cética e o conhecimento do mundo constituído pela linguagem[i]

Vamos admitir que a atitude filosófica se mede por uma régua cuja escala vai do ceticismo ao dogmatismo. É uma medida inicial de enquadramento, embora em algum momento as duas atitudes possam se confundir. Esquematicamente a posição dogmática parece procurar fundamentar suas posições em cima de verdades que vão sendo adquiridas e admitidas ao passo que a posição cética prefere manter a dúvida e colocar a verdade como ideal, ou mesmo possa duvidar que existam verdades.

Ocorre que a posição cética, ao duvidar das afirmações e das coisas, pode colocar nossa existência em risco. Ora, como podemos viver duvidando de tudo? A resposta cética parece ser a de uma atitude filosófica: aceitamos as coisas da vida ordinária e vivemos nos baseando nela, porém dentro de uma atitude filosófica mantemos a dúvida. Obviamente o ceticismo é uma escola milenar, mas é o que entendemos até agora de estudos preliminares.

Continuando, se há uma posição dogmática comum que se filia ao realismo ingênuo, a atitude cética passa a duvidar do conhecimento das coisas e de suas propriedades[ii]. A posição de Descartes, iniciada com a dúvida hiperbólica, foi a de postular uma mente que representa o mundo e, desse modo, acaba caindo em uma posição dogmática[iii]. Porchat, por outro lado, trata o mundo como um dado da experiência, um conteúdo fenomênico que tanto pode ser empírico quanto inteligível, dessa forma procurando escapar da conceituação de uma mente.

Mas, o conteúdo dado pela experiência se constitui pela linguagem, ele é expresso pela linguagem. Plínio diz que a linguagem se mistura no fenômeno. Esse é o ponto cético. Por outro lado, o dogmatismo usa a linguagem para falar sobre o fenômeno. Há um uso expressivo e um uso afirmativo, revelando uma ambiguidade, conforme ressalta Plínio. Para o cético, as afirmações se travestem em expressões. Volta-se do “é” para o “aparece”, do “ser” para o “aparecer”[iv].

O conteúdo da experiência é, com frequência, expresso na forma de uma afirmação, conforme explica Plínio sobre o pensamento de Porchat, e essas afirmações não são suspensas, mas aquelas afirmações que tratam do conteúdo. A linguagem ordinária é útil quando fala de aparências, fenômenos, dentro de uma atitude cética. Ao contrário do discurso tético[v] que fala de realidades.



[i] Estamos começando o estudo do ceticismo e esse texto carece de exegese teórica. É um primeiro descarrego sobre o assunto, mas a inspiração tem vindo dos vídeos de Plinio Junqueira Smith disponíveis no YouTube. Há bastante material que servirá como base para o nosso aprofundamento: Plínio se filia ao neopirronismo, então precisaremos aprender sobre essa doutrina, sobre Sexto Empírico. Plínio analisa Porchat e por aí também precisaremos adentrar. Não vamos parar nosso estudo da linguagem, ele corre em paralelo com menos prioridade. Mas aqui também gostaríamos de falar algumas coisas sobre “Plínio Junqueira Smith sobre o Sobre o que aparece 3: o fenômeno e a linguagem”, https://youtu.be/JjOc1b5SHtA, dia 7 de abril de 2024.

[ii] Ainda nos falta embasamento para avançar nas definições mais simples.

[iii] Parece que é isso que Plínio Junqueira diz, mas procuraremos compreender melhor seus ensinamentos: https://www.youtube.com/playlist?list=PL8IrZq3aRbAzPZUnTh3ODkvrG8Qft3BOq (Plínio Junqueira Smith: aulas sobre a filosofia de Descartes).

[iv] “O mel é doce” (dogmático) versus “O mel aparece doce” (cético, mas dá para viver assim).

[v] “Que põe ou é posto como tendo certo modo de realidade; posicional; existencial”: https://www.meudicionario.org/t%C3%A9tico. 

terça-feira, 12 de março de 2024

O problema fundamental da gramática

Verifica se falamos de coisas ou de fatos[i]

Hacking retoma argumentação de Russell de que a forma gramatical S-P pode ser parafraseada pela forma lógica pela qual “existe pelo menos um S, há no máximo um e todo S é P”. Hacking esclarece que, para um argumento dedutivo válido, a conclusão decorre das premissas em virtude de sua forma, caracterizada desde Aristóteles como “todo A é B, todo B é C, portanto todo A é C”.

Não obstante isto, o fato de uma sentença poder ocorrer tanto em premissas quanto em conclusões leva a uma crítica de Strawson que rejeita essa forma lógica, já que enunciados poderiam ocorrer em diferentes classes gerais de inferência. Hacking não acata essa objeção ao dizer que o intuito de Russell vai mais além pois ele não pretende tratar somente de inferências. Haveria uma forma lógica para uma sentença que é subjacente a todas as formas lógicas propostas por Strawson e que permite que ela tenha significado.

Russell estava interessado, em sua concepção, em condições sob as quais determinada sentença é verdadeira. Em associação com o primeiro Wittgenstein, essa concepção assere que as verdades correspondem aos fatos, isto é, a estrutura dos fatos poderia ser investigada pela forma lógica de sentenças verdadeiras a eles correspondentes e, com isso, abrir um campo de metafísica especulativa.

Contudo, o próprio Wittgenstein parece aderir, de acordo com Hacking, a um idealismo linguístico que restringe o conhecimento dos fatos com o qual temos familiaridade aos limites de linguagem, não à realidade dos fatos, de um mundo “lá”, independente de linguagem. Atualizamos Berkeley que dizia que não há mundo senão o percebido, em Wittgenstein, como o dito que ser é ser falado a respeito.

Hacking, então, remete ao século XVII novamente para ressaltar a importância da gramática e como a linguagem pode falar de coisas, já que a primeira é articulada e as segundas são totalidades. O malmequer, por exemplo, é uma coisa única, mas as palavras ocorrem em sequência[ii]. Isso fica claro pela teoria da referência quando sentenças da forma S é P (sujeito-predicado) se referem a coisas com propriedades e são verdadeiras se tem aquelas propriedades. O problema é que o objeto é um todo não articulado e não coisa de um lado e propriedade de outro.

Isso posto, Hacking postula: “O problema da gramática geral é explicar como a linguagem articulada realiza a representação de uma parte não articulada do mundo.” Ou seja, como as palavras se juntam na cópula que representa o objeto? Hacking argumenta que, como não foi possível fazer com que a cópula funcionasse da mesma maneira, surgiram diferentes gramáticas para as diferentes famílias de linguagens. E é Wittgenstein que traz o Tractatus para nos socorrer propondo que o mundo é feito de fatos e não de coisas e eles são articulados como as sentenças que os representam, os objetos se encaixam. Fica para trás o mundo das coisas e então “a proposição analisada não é sujeito e predicado, mas uma concatenação de nomes” (p. 93). Embora Hacking entenda que Russell ainda tenha mantido um mundo de coisas, o “isto”.

Se a forma lógica russelliana seria uma tentativa de responder ao problema da gramática, Hacking sugere que ela pode ser uma forma gramatical profunda, o que teria um paralelo com a proposta de Chomsky de uma gramática constituída de uma estrutura superficial projetada por regras de uma estrutura profunda a ela subjacente. Da proposta de Russell pode ser extraída uma lógica de primeira ordem das sentenças do inglês, como proporá Davidson. Mas esse caminho é rechaçado pelos seguidores de Chomsky que se mantem à estrutura sujeito-predicado, oriunda da gramática antiga. E essa é uma disputa em aberto, de acordo com Hacking.



[i] Fichamento do oitavo capítulo de Por que a linguagem interessa à filosofia? São Paulo: Editora Unesp, 1999. Ian Hacking. O capítulo se chama A articulação de Ludwig Wittgenstein.

[ii] A parte a teoria das ideias e se uma ideia é uma totalidade ou articulada. 

sábado, 9 de março de 2024

O conhecimento por familiaridade de Bertrand Russell

Mostra como a epistemologia de Russell interfere em sua teoria da linguagem[i]

Hacking traz citação inicial de Russel sobre temas de linguagem (lógica do sujeito-predicado, significado dos nomes próprios representando entidades) para dizer que a metafísica se expressa por ela[ii]. Passando para a argumentação mais detalhada de Hacking, o autor argumenta que Russell rejeita a teoria das ideias dos modernos, mas postula que o conhecimento por familiaridade vem de objetos imediatos da experiência. Nesse sentido, o significado de um nome próprio é o próprio homem, aquele que nos referimos apontando. Hacking nos lembra que, tanto Frege quanto Russell, desconsideram a ideia associada ao significado, mas, se concordam que o nome refere, Russell rejeita os significados públicos (Sinn) que não sejam a própria referência.

Tomando exemplo de Hacking, o significado do “malmequer laranja ali adiante” é o próprio malmequer, já “laranja” denota[iii] um universal abstrato do qual temos familiaridade (acquaintance). Esses universais são representados pelas palavras do dicionário e se enquadram bem a predicados, porém não a sujeitos. Por exemplo, “a montanha dourada” seria para Russell um objeto mental independente. Esse objeto, assim como números ou os deuses homéricos devem ser de um certo tipo para que possamos usá-los em proposições. Reparemos que nem todos esses “seres” “existem”. Mas, em “On Denoting”, ele dirá que não há referência, nesses casos. E Hacking evoca as famosas paráfrases: “Não é o caso que alguma coisa seja uma montanha dourada” não se refere a algo e “a montanha dourada não existe” que parece ter o mesmo significado só aparentemente tem a forma sujeito-predicado, mas logicamente quer dizer “Não é o caso que alguma coisa seja uma montanha dourada”. Assim como o famoso “atual rei da França” que é uma descrição que pretende denotar um indivíduo como “o malmequer” de fato denota. São as descrições definidas do tipo “o F” que parecem um sujeito gramatical, mas se comprovam sujeitos lógicos passando pela análise “o F é G”.

Sobre Stalin, Russell usa esse nome próprio significativamente como bom referencialista, mas fundamentalmente por sua epistemologia, por tê-lo conhecido. Nós, que não o conhecemos, precisamos de uma descrição definida de Stalin para nos comunicarmos, já que não temos o objeto imediato. A descrição definida significa o nome próprio e cada pessoa pode ter uma. Aí “Stalin”, uma palavra, pode ter diferentes significados e é pela ambuiguidade que nos comunicamos. Conforme Russell, “Seria completa e inacreditavelmente inconveniente ter uma linguagem não ambígua” (p. 80). Hacking destaca que a epistemologia de Russell leva sua teoria referencial a ter significados essencialmente privados. Mas Hacking insiste que uma teoria do significado é sobre o que é público, aquilo que Frege chamou Sinn e que permite nossa comunicação. Já a teoria de Russell depende da ambiguidade. E o mais irônico é que o idealista Locke reconhecia a aceitação comum dos termos.

Ora, na visão russelliana, nos referimos apenas a objetos imediatos, porém eles ficam restritos a nós como nomes próprios, uma vez comunicados são descrições que podem conter erros. E tal visão soa como contrassenso, já que aproxima Russell de Berkeley, problematicamente no ponto em que Russell fundamenta o conhecimento na “consciência distinta”. Mais do que isso, ao falarmos de um giz, conforme exemplo que Hacking tira de Russell, não falamos do objeto físico, mas do dado sensorial: “um isto”. E, conforme Hacking: “a palavra isto pode ser usada como um nome próprio”. É um nome que se dá a algo que estamos familiarizados no momento, é um nome próprio que é ambíguo porque pode não significar a mesma coisa em diferentes momentos.

Se parece que um nome próprio é usado significativamente por representar uma entidade, nessa teoria da linguagem não existe tal entidade, mas construções lógicas a partir delas, todas as vezes que dizemos “isto”. E, se uma expressão significa o que denota, poucas expressões têm significado por dependerem de estarmos familiarizados com a referência. Aqui, não há sentido fregeano. Por outro lado, Strawson sustenta que a linguagem depende de dizermos as coisas sobre corpos existentes (em “Individuals”). De toda forma, Russell se livra da ontologia substância-atributo. O uso de quantificadores na teoria das descrições elimina os sujeitos das sentenças[iv]. Isso pode significar que tal metafísica é um artefato da linguagem, não da realidade. Mas, por mais que pudéssemos seguir pelo caminho da metafísica de Strawson, Hacking se fiará na “forma lógica” proposta por Russell como sustentáculo da forma gramatical.



[i] Fichamento do sétimo capítulo de Por que a linguagem interessa à filosofia? São Paulo: Editora Unesp, 1999. Ian Hacking. Esse capítulo é bem denso porque supõe conhecimentos já explorados nesse blog, como as teorias da linguagem de Frege e Russell assim como uma compreensão da teoria das ideias dos modernos.

[ii] Se na matemática Russell parece crer que os fundamentos se explicam pelas conclusões, em sua epistemologia, seguindo caminho semelhante, a natureza do conhecimento vem dos sentidos.

[iii] Diferente do que se pensou em grande medida de Aristóteles em diante, conforme Hacking.

[iv] Quine terá aprofundado isso em Palavra e Objeto, conforme Hacking. 

segunda-feira, 4 de março de 2024

O inatismo de Noam Chomsky

Entre o inatismo de Descartes e o de Chomsky[i]

Hacking começa dizendo que, no século XX, a filosofia parece se preocupar com os significados haja a vista de perda de interesse nas ideias associadas aos sentidos e, contrariamente, o destaque para o significado público[ii]. Porém, Hacking nos lembra da controvérsia das ideias inatas levantada por Chomsky. Ora, lembremos que essa querela divide Aristóteles e Locke, para quem a alma é tábula rasa e Platão e Leibniz defendendo que já há princípios na alma.

A análise da questão poderia começar com a investigação de como uma criança começa a falar, mas ela rapidamente pode supor grandes diferenças entre racionalistas e empiristas. De um lado, a criança se compara a tábua de cera que é escrita passivamente e, de outro, ao bloco do mármore que já tem veios. Ocorre que, pelo empirismo, todo o conhecimento vem da experiência em um processo de aprendizado que é feito não somente de dizer palavras (“fome!”), mas também aprender uma gramática que permite pronunciar sentenças. Nesse processo há abstração muitas vezes negada pelo empirismo ingênuo. Para o racionalismo, as ideias inatas revelam tendências ou predisposições a certas características. Por mais que a distinção não seja tão distante, o racionalismo admite que conhecimentos vêm da experiência e o empirista que temos capacidades naturais.

Hacking destaca, então, duas questões de interesse provenientes da querela: aplicações na matemática e filosofia da percepção. Para Descartes nos tocam partículas, movimentos corpóreos, mas as ideias de cor, dor e som nos são inatas, ao contrário de Locke que considerava que essas características são abstraídas por nós. Assim como já temos a ideia do “triângulo verdadeiro” dentro de nós, que é apreendida a partir de triângulos imperfeitos do mundo. No Menon, Platão já usa esse expediente, isto é, despertar conhecimentos a priori pela argumentação e não pela experiência. Pelas provas matemáticas podemos prever propriedades de números e formas, além de sua necessidade universal comprovada por Leibniz, já que a experiência só nos dá contraexemplos particulares e os princípios não estão neles.

Hacking acrescenta que a abstração da experiência não permitiria, de acordo com o racionalista, abranger todas as propriedades de um triângulo. “Apenas as ideias inatas podem explicar verdades necessárias e conhecimento a priori” (p. 69). Ora, se para Descartes as ideias inatas provêm de partículas que excitam terminações nervosas, ainda assim há um vínculo material que será descartado por Berkeley e seu idealismo que solapa a presença de um mundo material[iii]. Já para Geach, séculos depois, há impossibilidade de abstração porque não há coisas semelhantes, há similaridade em alguns aspectos como a cor, por exemplo. E, para isso, deve haver um conceito de cor. Mas mesmo esses aspectos se misturam, não são inequívocos.

No processo de abstração há muitas características e o que procuramos aí se subdetermina, não obstante possa estar em linha com nossos mecanismos inatos. Esse caráter subdeterminado da experiência é usado por Chomsky para caracterizar a gramática (do inglês) que fica subdeterminada quando coisas são ditas na frente de uma criança. De posse dessa gramática elas podem proferir sentenças inteiramente novas por uma habilidade considerada por ele inata. Há, então, uma estrutura que é subjacente a toda língua e a criança com uma disposição virtual de aprender qualquer uma delas. O ponto comum no inatismo de Chomsky e o cartesianismo é a busca pelo que nos diferencia dos outros animais. Descartes via um mundo mecânico do qual nosso organismo participa e pode agir como uma máquina, exceto pela fala. Essa é uma capacidade única humana que Chomsky chama de “aspecto criativo do uso de linguagem”.

Assim Chomsky cria um programa de pesquisa em linguística que busca explicitar a gramática inata da espécie humana e que se diferencia frontalmente do “olhar para ver” dos modernos[iv]. Na proposta de Chomsky há uma teoria que pode ser confirmada ou refutada pela observação na qual “as explicações devem ser determinadas pelo que se possa ser teoricamente atribuído a uma criança” (p. 73) – enfoque inatista. Nesse inatismo os conceitos não estão “lá” (Descartes), mas a habilidade evolucionária de adquirir linguagem.

Hacking conclui ressaltando que, se a fala nos distingue, a linguagem interessa à filosofia. Entretanto, para além da comunicação ou significado, o estudo da natureza da linguagem pode nos levar para a natureza da mente, ou da própria realidade.



[i] Fichamento do sexto capítulo de Por que a linguagem interessa à filosofia? São Paulo: Editora Unesp, 1999. Ian Hacking.

[iv] Conforme https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2024/01/as-ideias-de-port-royal.html (“raciocinar sobre ideias é como ver”). 

domingo, 3 de março de 2024

Hacking - estratégia e apogeu das ideias

Resume a abordagem da Hacking para o interesse que deveríamos ter na filosofia da linguagem e como ele vê o apogeu das ideias, dentro dessa ótica[i]

Recapitulemos o que vimos até aqui. Hacking divide sua obra em três fases: apogeu das ideias, apogeu dos significados e apogeu das sentenças. Destacaremos abaixo sua abordagem para a filosofia da linguagem e o apogeu das ideias.

A estratégia de Ian Hacking para a filosofia da linguagem[ii]. No primeiro capítulo Hacking explicita sua estratégia de abordagem considerando que a filosofia da linguagem associada ao significado é um ramo específico, recente e então ele se debruça em casos de uso ao longo da história nos quais a filosofia da linguagem se aplica e conversa com as demais áreas da filosofia, como ética, percepção e a natureza da mente humana.

O discurso mental de Thomas Hobbes[iii]. Nos capítulos de dois a cinco ele trata do apogeu das ideias, começando por Hobbes, que considerava a fala como uma transferência do discurso mental para o verbal. Para ele, a linguagem tinha a tarefa de comunicar pensamentos e nós, erroneamente, tentamos enquadrar Hobbes e os modernos na divisão das teorias do significado proposta por Alston entre ideacional, referencial e comportamental. Hacking aproxima a teoria comportamental de Hobbes a atual teoria intencional de Grice. Nessa abordagem, o falante pretende que o ouvinte infira o significado do que é dito, inserindo-se no campo da comunicação e intenção de comunicar. Mais do que uma teoria do significado, Hobbes tinha uma teoria do pensamento, associado ao discurso mental e às ideias. passando pela ênfase que a elas davam os modernos, muito por conta de um discurso mental, livre de erros.

As ideias de Port Royal[iv]. Aqui Hacking tenta elucidar um conceito tão amplo e tão simples: a ideia. Se por um lado, para Locke e Hobbes uma ideia poderia ser uma imagem mental, um objeto da percepção ou mesmo uma emoção, a Lógica, obra de Port Royal, define a ideia como tipo elementar, influenciada pelo cartesianismo que definia a ideia como polo que nos permitiria conhecer o mundo exterior. Ora, conhecemos ideias e só com elas estamos comprometidos, elas medeiam entre o ego e o mundo. Para Descartes, temos uma visão de cada ideia e as escrutinamos para saber aquelas que são claras e as confusas. Embora fale-se da visão, não se trata de imagens, já que podem ser conceitos. Por fim ele define a teoria das ideias dos modernos como essa classe de objetos que medeiam entre o ego e o mundo, ideias que nos são acessíveis pela visão, mesmo não sendo imagens e que palavras significam ideias, como uma relação causal. Ora, nessa visão, o discurso mental encadeado de ideias é que importava à filosofia.

As abstrações do Bispo Berkeley[v]. Hacking opõe Berkeley a Locke que, ao compactuar com a filosofia atomista de Boyle, abria caminho para a matéria e o ateísmo. Então, o idealismo de Berkeley postula que a matéria é inerte e vai ao extremo de dizer que tudo o que existe é mental. Mas Hacking dá atenção à relação que sua filosofia idealista tem com a linguagem, no que tange a possiblidade da concepção de ideias abstratas. Se, Berkeley concorda com a teoria das ideias dos modernos ele rejeita o raciocínio dos geômetras que se utiliza de ideias abstratas em demonstrações, por exemplo, no caso de triângulos, de uma ideia universal de triângulo. Hacking cita que para Hobbes não havia uma ideia universal, por exemplo, de chuva, mas alguma ideia de chuva, das que caem por aí. Mas, para Berkeley, cada qual que escrutine suas ideias não acha por objeto uma ideia abstrata, não as vemos. Então, mesmo raciocinando em demonstrações geométricas, usamos uma ideia particular. Ora, é possível “falar”, no discurso público, de uma ideia abstrata, mas quando vamos para o discurso mental não há nada que corresponda a elas. Como, por exemplo, a filosofia corpuscular de Boyle que não passaria de perversão da linguagem, já que não há matéria pois ser é ser percebido.

Teoria do significado de ninguém[vi]. Esse capítulo fecha o apogeu das ideias e já aborda mais diretamente o significado, que tem Frege como ponto de partida. Conforme capítulos anteriores, não há uma teoria do significado nos modernos, porém eles investigam a função comunicativa da linguagem, que tem base física e biológica e se refere à tradução de ideias em palavras pelo falante e de palavras em ideias pelos ouvintes. E é exatamente por admitir a existência de leis físicas que podemos garantir que essa dupla tradução é possível, já que temos os mesmos mecanismos. Podemos até discordar, mas entendemos a mensagem. Podemos até discordar, mas a fonte de erro é nossa ideia que formamos erradamente. Mas é suficiente que haja “aceitação comum”, que não tem a ver com significação, mas com a possibilidade do uso público. A aceitação comum vai se tornar, em Frege, o sentido (sinn) que é compartilhado e fruto do estoque de conhecimentos transmitidos na historia. Nessa transição, o discurso publico passa a ter relevância e a ideia passa a ser mera coisa privada associada ao significado.


terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

Teoria do significado de ninguém

Um breve mergulho na teoria comunicativa dos modernos e a passagem a Frege[i]

Função comunicativa da linguagem. Hacking enfatiza que os filósofos modernos (Hobbes etc.) se interessavam pela linguagem, mas é um anacronismo tentar enquadrá-los em alguma teoria do significado, conforme aquelas propostas por Alston: ideacional, referencial ou comportamental. Sabemos que, para eles, a linguagem estava associada com a teoria das ideias porque “palavras significam ideias”. Isso não quer dizer uma teoria ideacional do significado, porém sublinha a função comunicativa da linguagem: a tradução do discurso mental em palavras que são traduzidas de volta pelo ouvinte. Esse esquema pode exemplificar: faltante => ideias => tradução => palavras => tradução => ideias => ouvinte.

Tradutor ideacional. Parece, com isso, que a dupla tradução é bem-sucedida: forma-se a mesma sequência de ideias no falante e no ouvinte, mesmo que eles possam, eventualmente, discordar delas. Ocorre que o tradutor ideacional não dá um critério de identidade para as ideias na mente de cada falante. E Locke se pergunta se, pela percepção direta, o mesmo objeto pode produzir diferentes ideias em diferentes mentes ao mesmo tempo, mas descarta a questão.

Garantias físicas. Hacking nos lembra da herança da teoria cartesiana do ego pelo qual a fonte de erros era oriunda das ideias, já que só elas são evidentes. E, por mais que alguém possa ter uma ideia de violeta quando ambos vemos um malmequer, isso não constitui uma falsidade “porque são somente minhas ideias que medeiam entre o que existe dentro de mim e o que existe fora” (p. 53). A preocupação epistemológica no século XVII é entre “minhas ideias e o mundo”, mas é provável que tenhamos as mesmas ideias em virtude de compartilharmos leis físicas e psíquicas agindo em nossos organismos, embora eles não se preocupem em elucidar esses mecanismos oriundos de Descartes.

Aceitação comum. Se Bennett acusa Locke de complacência, Hacking argumenta que isso não ocorre porque ele não está interessado em uma teoria do significado. Para Locke, palavras significam ideias em uma relação de precedência ou consequência e não dentro de uma teoria do significado. Não se investiga se temos as mesmas ideias quando falamos, mas é suficiente que haja uma “aceitação comum” de seus significados. Aceitação comum não tem que ver com significação, mas com um uso público estabelecido entre os falantes.

Sentido. Hacking explica que Bennett, por ter uma teoria do significado que é uma teoria da aceitação comum, atribui isso a Locke erroneamente[ii]. Como Locke não se interessa por esse ponto, ele só fica mais claro com Frege no século XIX para quem a “aceitação comum” era o sentido (sinn) e o significado a própria referência (bedeutung). Ora, o sentido pode variar bastante, como sabemos. Já a ideia, para Frege, é uma imagem interna e subjetiva. Se a ideia é individual, o sentido do signo pode ser uma propriedade comum de muitos.

Comportamento público. Conforme Hacking, “daqui por diante usarei a frase ‘teoria do significado’ para indicar algo que ao menos inclua uma teoria daquilo que Frege chamou de sentido (sinn) e o que Locke pode ter chamado de aceitação comum” (p. 57). Isso porque teorias do significado lidam com o comportamento público e compartilhado da linguagem e com um estoque comum transmitido ao longo do tempo[iii].

Superação das ideias. Se para Frege nossa comunicação não se explica pelas ideias a ela associadas, a teoria filosófica da comunicação de Locke assumia essa possibilidade por meio dos estímulos físicos. A teoria comunicativa dos modernos era questão física e psicológica. E uma teoria das ideias, isto é, do discurso mental que tinha como interface a ideia mediando o ego cartesiano e a realidade. Depois, o discurso mental foi substituído pelo público e as ideias se tornaram ininteligíveis, porém cada qual a seu jeito, importam para entender como a linguagem interessa à filosofia.



[i] Fichamento do quinto capítulo de Por que a linguagem interessa à filosofia? São Paulo: Editora Unesp, 1999. Ian Hacking.

[ii] Aqui não foi possível esgotar a argumentação lógica, porém o intuito é mais de uma visão geral.

[iii] Ocorre que a teoria do significado de Frege surge em um contexto de efervescência do significado com usos em múltiplas áreas por Stallo, Mach, Weber e Freud. Mas Hacking a usa especificamente no ramo da filosofia. 

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

As abstrações do Bispo Berkeley

Mostra que não há lugar para ideias abstratas no discurso mental[i]

Filosofia corpuscular. Como idealista[ii], Berkeley acreditava que tudo o que existe é mental e se opunha à “filosofia corpuscular” oficializada por Locke, na época, e oriunda de Boyle, para quem o mundo é feito de átomos e moléculas. Para essa filosofia, a matéria é feita de corpúsculos muito pequenos e os corpos possuem qualidade primárias, mas não as qualidades secundárias que são produzidas em nós pelas sensações.

O mote de Berkeley contra o ateísmo. Diante desse cenário, Berkeley procurou negar essa distinção e, por consequência, negar que haja matéria inerte, sem cor e sem alma. Negando a matéria, negava a substância e suas teorias e negava a teoria realista da percepção de Locke, ou seja, o ateísmo que seria combatido por seu idealismo.

O conceito de ideia. Berkeley estava atento aos avanços dos conhecimentos científicos vistos por ele de maneira perversa, mas Hacking irá se ater à relação de sua filosofia idealista com a linguagem, especificamente como a mente pode conceber ideias abstratas. Berkeley aceitava o conceito de ideia que Hacking expõe assim[iii]: 1.) são as ideias que medeiam entre o ego e o mundo; 2.) elas são “vistas” pela percepção interna; 3.) as palavras significam ideias por meio de uma relação causal.

Alguma ideia. Isso posto, Hacking toma como exemplo a palavra chuva. Ela pode ser usada para expressarmos vários tipos de chuva, que podem ser diferentes em vários lugares e isso não significa que se trate de uma e mesma ideia de chuva. Hacking enfatiza que, pela teoria da correspondência, deveria haver várias ideias de chuva que correspondem as que caem. Ele comenta que, para Hobbes, são ideias diferentes, mas ideias de chuva, embora não a ideia universal de chuva e sim alguma ideia de chuva.

A ideia abstrata dos geômetras. A isso Hacking contrapõe o descrever ao raciocinar. Ao descrevermos o mundo, não tratamos de termos universais mas, ao raciocinar, por exemplo, sobre triângulos, raciocinamos não sobre alguma ideia de triângulo, mas sobre o que é universal neles[iv]. Como não dá para examinar cada triângulo individual, raciocinamos sobre o que é comum a eles e esse algo é o objeto de nosso escrutínio mental. Empiricamente há várias elocuções de chuva, mas a priori necessita-se de algo comum; uma ideia abstrata de triângulo usada pelos geômetras; aqueles que acreditam em um ego com ideias precisam de uma ideia para olhar e raciocinar sobre triângulos.

A ideia abstrata na teoria das ideias. Ora, se as palavras significam ideias, a palavra triângulo significa a ideia abstrata “triângulo” e o mesmo para chuva e, bingo! Platão! (O idealista original). Eis o problema: pela doutrina das ideias do século XVII: 1.) ideias medeiam, 2.) ideias são percebidas, 3.) palavras significam ideias. Até aqui tudo certo para Berkeley. Mas o geômetra acrescenta 4.) existem ideias abstratas que são objetos de “visão mental”. Berkeley não só não concorda com 4.) como condena.

Problema dos universais. A questão, explica Hacking, passa pelo “problema dos universais”, nesse caso, como é possível que um termo geral tenha significado. Pode ser da abstração, mas Wittgenstein tratou como semelhanças de família, i.e., agrupamento de propriedades semelhantes. Decorre que a doutrina das ideias do século XVII não implica nada sobre o significado dos termos gerais, o ponto fulcral é “a teoria da prova geométrica como uma visão mental que requer um objeto” (p. 45). Mas, para isso, Berkeley argumenta que não é necessária uma ideia abstrata para raciocinar, já que podemos usar uma ideia particular na demonstração – inclusive isso teria sido utilizado na lógica simbólica posteriormente, segundo Hacking, uma dedução mental.

Rejeição da ideia abstrata. Entretanto, continua ele, apesar de Berkeley desprezar as ideias abstratas ele não argumenta claramente que elas não existam já que cada um poderia, por inspeção direta, constatar tal ausência. A questão não é que não podemos formar imagens de ideias abstratas, o ponto é que uma faculdade como a visão não tem ideias abstratas por objeto e nem precisamos delas na demonstração geométrica.

Discurso público sedutor. E Berkeley segue a máxima cartesiana de escrutinar somente suas próprias ideias – ali não poderia se enganar pensando ter uma ideia que não tem. Se podemos falar sobre o que é comum aos triângulos, isso não passa de palavras sedutoras que não correspondem a nada que pudéssemos ver por introspecção. Conforme Hacking: “O discurso público pode encadear essas sílabas, mas no discurso mental, livre de palavras, não há nada correspondendo” (p. 47)

A primazia do discurso mental. Aí o discurso público é vazio, mas o que existe deve ser objeto do pensamento pois ser é ser percebido. E Berkeley, assim, pode considerar o discurso da filosofia corpuscular pura perversão de linguagem. Com seu argumento, Berkeley consegue mostrar principalmente que somos enganados pela linguagem, mas não se trata somente de uma medida profilática da linguística para com a filosofia. Hacking enfatiza que há um discurso mental encadeado de ideias internas, destituído de palavras e que é logicamente anterior ao discurso público que pode nos desorientar.



[i] Fichamento do quarto capítulo de Por que a linguagem interessa à filosofia? São Paulo: Editora Unesp, 1999. Ian Hacking.

[ii] Segundo Hacking, ideia-lista. Ele via uma lista de ideias?

[iv] Para Descartes fixamos essa ideia com um firme olhar mental.