sábado, 20 de agosto de 2022

Papagaio

Eu, quando criança, fiz aula de capoeira e o mestre me apelidou papagaio porque eu estava sempre de prosa enquanto ele palestrava. Fato psicológico passível de explicação, não trataremos dele aqui, trataremos da linguagem e da comunicação trazendo nossa pergunta retórica: “Eu falo e você em escuta, mas entende?”. Bem, não há dúvidas que sim pois estamos aí nos comunicando há milênios, mas como isso acontece?

Ora, pelo que pudemos apreender até agora por estudos da Filosofia da Linguagem e correlatos, isso se dá pelo significado, isto é, a palavra, o texto, os ruídos que emitimos, todos eles carregam significado e, devido a ele, nos entendemos. Mas que chatice essa de nos perguntarmos sobre esse tipo de coisa, não é mesmo? Conversamos e pronto! Ora bolas. Entretanto, não é bem assim, vejamos.

Há uma ordem no universo? Essa pergunta evasiva nos leva a pensar se há algum tipo de substrato, seja ele material ou espiritual, em todas as coisas que nos cercam. Podemos atribuir isso a Deus e seguirmos nessa viagem "desinteressada" ou podemos investigar. E a filosofia está aí justamente para isso, investigar se há leis na natureza, se seguimos essa lei, se há o livre-arbítrio e quais ações deveríamos escolher em determinadas ocasiões, etc. Não só a filosofia, obviamente, mas ela, primordialmente.

Soma-se a esse leque de questões aquelas relacionadas à linguagem e voltamos ao significado. Se nos comunicamos porque a linguagem é feita de significados, o que eles são? Mais comumente pleiteia-se que o significado se refere a algo no mundo, a chamada teoria ingênua da referência, qual seja, que o significado é a referência. Então, eu falo sobre algo, você vê aquele algo e nos entendemos. Porém, isso não é assim em muitos casos, ainda que geralmente o seja. Por exemplo, se eu falo “O atual rei da França é careca” eu não estou me referindo a algo, pois tal objeto (o rei da França) não existe. E é aí que começam os problemas, avaliemos.

A Filosofia da Linguagem reflete sobre o significado, a referência e suas teorias. Contudo, ela se mostra muito lógica e podem haver outras abordagens, como a Linguística, análise do discurso ou mesmo a destituição de uma abordagem tão estrita e que, muitas das vezes, desconsidera os próprios falantes responsáveis pela existência da linguagem e etecetera.

Isso posto, já há um edifício da filosofia da linguagem de aproximadamente 150 anos que não pode ser descartado. Se o significado é a referência, se o significado está na proposição, em outras palavras, se eu analiso a própria frase para extrair dela o significado (uma verdade que frase expressa) ou se ele é uma questão de uso da linguagem, definido pelos falantes em jogos de linguagem. Também podemos ter um enfoque mais subjetivo ou intersubjetivo entre nós que falamos ou objetivo, como investigar se a linguagem per se poderia ser analisada.

É justamente aí que nos lembramos do papagaio. Ele fala, eu escuto, mas entendo??? Depende, ele pode falar coisas com sentido ou sem sentido para nós, mas para ele, há sentido, isto é, significado? Se ele fala “são 10 horas” e são dez horas, posso entender, mas se ele fala “hoje é televisão”, a primeira vista eu posso não entender, mas ele pode estar a se referir que "hoje é o dia de comprar a televisão", já que ontem comprei um chiclete. 

De todo modo, há muitas cartas nesse jogo da filosofia da linguagem, mas muitas delas já marcadas e não podemos nos embaralharmos, por isso é vital uma análise mais aproximada do assunto que nos permita limpar o terreno e verificar se o que o papagaio fala tem sentido, aquele do poleiro ou a criança que fazia bagunça na capoeira.

sábado, 13 de agosto de 2022

Comunicação com compromisso e restrição pessoal

O que nós queremos dizer quando dizemos algo? Ou melhor, o que quer dizer, “dizer algo”? Ora, assumamos a linguagem como uma capacidade-humana-que-se-desenvolveu-evolutivamente[i], etc., isto é, assumamos que em algum momento passamos a emitir sons e, em outro, passamos a desenhar símbolos em pedras ou coisas semelhantes. Pois bem, o resumo da ópera é que, assim como manuseamos o barro ou andamos, também falamos.

Nesse sentido, “falar” ou “dizer algo”, como admitimos aqui, pode ter surgido como capacidade-para-superar-alguma-necessidade, qual seja, a de gritarmos para espantar o perigo ou para solicitarmos ajuda [de outrem]. Não cabe aqui estabelecermos uma ordem de precedência, mas enfatizar esse papel utilitário e subjetivo porque, como capacidade, a linguagem nos é útil e, não menos importante, é de cada um, já que da espécie. De alguma necessidade, pela nossa hipótese, a capacidade de “falar” surge e se incrementa no “escrever”[ii].

Porém, quando falamos, nós materializamos algo que vem de nosso interior. Por exemplo, a feitura de um pote de cerâmica é algo que alguém externaliza, mas cada um externaliza “o seu algo” de uma maneira diferente e, aqui, podemos postular duas determinantes: a externalização com base no que está dentro (de forma autoral) ou a externalização com base no que está fora (se adaptando)[iii]. Voltando para a linguagem, nos parece que ao falar, falamos de algo interior, algo que é realmente uma extensão material nossa, algo que é parte de nós e que parte de nós. E isso significa uma série de coisas a nosso a respeito, a respeito de cada falante: um suspiro, medo, alegria. Quando falamos, então, trazemos algo de nosso âmago que é sempre um compromisso conosco, mesmo que seja um blefe ou enganação, já que podemos, inquestionavelmente, ter o compromisso de enganar alguém, seja para nos livrarmos de uma situação indesejada ou para tirarmos alguma vantagem[iv].

Epitomando, dizer algo quer dizer materializar em som uma parte de nosso ser e isso é um compromisso que cada um tem consigo mesmo. Comunicamos algo cujo significado é um compromisso que temos conosco, uma parte de nós, embora haja restrição pessoal, isto é, não temos clareza do que acontecerá com esse significado ao encontrar outros caleidoscópios de significados (ie[v], outras pessoas). Desse modo, nos comunicamos apesar de outrem ou a despeito de outrem. Nos comunicamos, como pedra fundamental, independentemente do interlocutor.

Mas, não se pode negar que na maioria dos casos há o interlocutor e, aí, o que falamos começa a ganhar um significado intersubjetivo, respeitando a regra do compromisso pessoal, mas com certa adequação, seguindo as regras da linguagem e de cada ambiente e contexto. Mas, a linguagem é, antes de tudo, algo que parte de um sujeito e, sem ele, não existiria, de modo que qualquer análise linguística que tome frases ou expressões sem essa premissa é uma análise que se aproxima de um objetivismo abstrato[vi]. Analisar a linguagem dessa última forma é teorizá-la, tomá-la matematicamente se valendo de um objetivo acadêmico que não leva em consideração os fatos do mundo da vida.

Cabe ressaltar também que, se falamos de um objeto, falamos de algo que é dado e pode ser observado por todos, então não é tanto uma expressão cujo significado dependa propriamente de nós, mas de uma especulação ou retórica consensuada. Entretanto, há casos em que nos é imposta a tarefa de convencer para que possamos nos comunicar minimamente e desempenhar nossas atividades diárias sem grandes surpresas. Logo, como entendemos, o significado sempre está ligado na verdade individual e depende de nosso poder de explicação e persuasão.  

Uma palavra ou frase depende da verdade do falante, autor ou proponente. Toda frase está associada a alguém e seu valor de verdade só pode ser definido por aquelas pessoas. Isso não implica cair em solipsismo pois, pela experiência, sabemos que nos entendemos e nos comunicamos de alguma maneira pois partilhamos das mesmas estruturas que compõem os membros da espécie. Mas, por mais que dependa do formulador, é possível que haja mais que um, pode haver um conjunto de formuladores em acordo sobre certos objetos (ou objetivos). Nesse ponto, a linguagem é feita de tateio e teste já que falamos algo que geralmente acreditamos e testamos a concordância em certos grupos para que ela vá se elaborando e se edificando[vii].



[i] Os termos justapostos enfatizam que se trata de uma descrição.

[ii] Sobre esses pontos, Leroy-Gourhan pode ter algo a nos ensinar. Ver https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/09/a-mao-que-liberta-lidera-mas-ate-quando.html.

[iii] Ou ambos, o que não vem ao caso.

[iv] Não podemos nos esquecer de caras e bocas que são exibidas na linguagem falada e que, em muitos casos, são cruciais para o que queremos dizer, assim como na escrita há a pragmática, um sentido que “paira” sobre o texto.

[v] Id est, isto é.

[vi] Precisamos investigar melhor esse termo de Bakhtin, mas é como algo objetivo sem conteúdo, diferente do vaso de cerâmica que se torna algo objetivo concreto. Parece que há, nele, um deslocamento da linguagem [objetiva] para o enunciado [subjetivo], mas que não é a tradução de um discurso mental interior (moderno, como em Locke ou Berkeley - sobre isso falaremos).

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Paraíso verde

A nossa relação com a natureza sempre foi duvidosa, seja ela com a nossa própria natureza humana ou com uma natureza extrínseca. Em realidade, é proeminentemente uma atitude de negação já que, conforme nos alerta Haddad, a subjugação de outrem está em nosso DNA e, clara e indistintamente, a subjugação da natureza, nossa necessidade de dominá-la.

Porém, a ciência produziu uma nova visão pela teoria de alguém que acaba de nos deixar: Lovelock (RIP 26/07/2022). Ele tentou mostrar que a natureza, em oposição à tradição iniciada por Bacon e pelo renascimento (século XIV), é um organismo vivo, é Gaia. A natureza não está ali objetificada para nossa exploração e expropriação, ao contrário, ela é um todo articulado e em equilíbrio único que tencionamos descontrolar em virtude de nossos anseios mais supérfluos.

O mesmo Haddad nos lembrou, em entrevista recente, do programa da ditadura militar de enfrentar o “inferno verde”. Sim, ambiente hostil. Era essa a visão na década de 70, a mais dileta expressão positivista. Por impenetrável, haveria de se travar contra a natureza uma guerra. Mas, uma guerra contra ela é uma guerra contra o planeta, contra nós.

Ora, tal não é a nossa surpresa, 50 anos depois, de testemunhar que algo mudou. A ecologia e a sustentabilidade são palavras de ordem, atualmente. Os orgânicos ganham espaço, a pegada de carbono envergonha e termos como ESG dominam o mundo corporativo. Seriam ressonâncias dos pedidos de Lovelock?

Sem dúvida, o buraco na camada de ozônio chamou a atenção, mas, também, as anotações sucessivas da constante elevação do aquecimento global comprovaram cientificamente que o homem lidera e potencializa a destruição do planeta, pela produção desenfreada de CO2 e outros gases de efeito estufa.

As palavras de Lovelock estão por aí ecoando na cabeça de acadêmicos, cientistas, voluntários e guerreiros que, não se alienando, tentam mudar a realidade. Mas, decerto, uma grande mudança para a sociedade é entender que, na atmosfera baixa, quem manda é a natureza e é ela um verdadeiro paraíso, paraíso verde.