Mostrando postagens com marcador utilidade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador utilidade. Mostrar todas as postagens

sábado, 13 de agosto de 2022

Comunicação com compromisso e restrição pessoal

O que nós queremos dizer quando dizemos algo? Ou melhor, o que quer dizer, “dizer algo”? Ora, assumamos a linguagem como uma capacidade-humana-que-se-desenvolveu-evolutivamente[i], etc., isto é, assumamos que em algum momento passamos a emitir sons e, em outro, passamos a desenhar símbolos em pedras ou coisas semelhantes. Pois bem, o resumo da ópera é que, assim como manuseamos o barro ou andamos, também falamos.

Nesse sentido, “falar” ou “dizer algo”, como admitimos aqui, pode ter surgido como capacidade-para-superar-alguma-necessidade, qual seja, a de gritarmos para espantar o perigo ou para solicitarmos ajuda [de outrem]. Não cabe aqui estabelecermos uma ordem de precedência, mas enfatizar esse papel utilitário e subjetivo porque, como capacidade, a linguagem nos é útil e, não menos importante, é de cada um, já que da espécie. De alguma necessidade, pela nossa hipótese, a capacidade de “falar” surge e se incrementa no “escrever”[ii].

Porém, quando falamos, nós materializamos algo que vem de nosso interior. Por exemplo, a feitura de um pote de cerâmica é algo que alguém externaliza, mas cada um externaliza “o seu algo” de uma maneira diferente e, aqui, podemos postular duas determinantes: a externalização com base no que está dentro (de forma autoral) ou a externalização com base no que está fora (se adaptando)[iii]. Voltando para a linguagem, nos parece que ao falar, falamos de algo interior, algo que é realmente uma extensão material nossa, algo que é parte de nós e que parte de nós. E isso significa uma série de coisas a nosso a respeito, a respeito de cada falante: um suspiro, medo, alegria. Quando falamos, então, trazemos algo de nosso âmago que é sempre um compromisso conosco, mesmo que seja um blefe ou enganação, já que podemos, inquestionavelmente, ter o compromisso de enganar alguém, seja para nos livrarmos de uma situação indesejada ou para tirarmos alguma vantagem[iv].

Epitomando, dizer algo quer dizer materializar em som uma parte de nosso ser e isso é um compromisso que cada um tem consigo mesmo. Comunicamos algo cujo significado é um compromisso que temos conosco, uma parte de nós, embora haja restrição pessoal, isto é, não temos clareza do que acontecerá com esse significado ao encontrar outros caleidoscópios de significados (ie[v], outras pessoas). Desse modo, nos comunicamos apesar de outrem ou a despeito de outrem. Nos comunicamos, como pedra fundamental, independentemente do interlocutor.

Mas, não se pode negar que na maioria dos casos há o interlocutor e, aí, o que falamos começa a ganhar um significado intersubjetivo, respeitando a regra do compromisso pessoal, mas com certa adequação, seguindo as regras da linguagem e de cada ambiente e contexto. Mas, a linguagem é, antes de tudo, algo que parte de um sujeito e, sem ele, não existiria, de modo que qualquer análise linguística que tome frases ou expressões sem essa premissa é uma análise que se aproxima de um objetivismo abstrato[vi]. Analisar a linguagem dessa última forma é teorizá-la, tomá-la matematicamente se valendo de um objetivo acadêmico que não leva em consideração os fatos do mundo da vida.

Cabe ressaltar também que, se falamos de um objeto, falamos de algo que é dado e pode ser observado por todos, então não é tanto uma expressão cujo significado dependa propriamente de nós, mas de uma especulação ou retórica consensuada. Entretanto, há casos em que nos é imposta a tarefa de convencer para que possamos nos comunicar minimamente e desempenhar nossas atividades diárias sem grandes surpresas. Logo, como entendemos, o significado sempre está ligado na verdade individual e depende de nosso poder de explicação e persuasão.  

Uma palavra ou frase depende da verdade do falante, autor ou proponente. Toda frase está associada a alguém e seu valor de verdade só pode ser definido por aquelas pessoas. Isso não implica cair em solipsismo pois, pela experiência, sabemos que nos entendemos e nos comunicamos de alguma maneira pois partilhamos das mesmas estruturas que compõem os membros da espécie. Mas, por mais que dependa do formulador, é possível que haja mais que um, pode haver um conjunto de formuladores em acordo sobre certos objetos (ou objetivos). Nesse ponto, a linguagem é feita de tateio e teste já que falamos algo que geralmente acreditamos e testamos a concordância em certos grupos para que ela vá se elaborando e se edificando[vii].



[i] Os termos justapostos enfatizam que se trata de uma descrição.

[ii] Sobre esses pontos, Leroy-Gourhan pode ter algo a nos ensinar. Ver https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/09/a-mao-que-liberta-lidera-mas-ate-quando.html.

[iii] Ou ambos, o que não vem ao caso.

[iv] Não podemos nos esquecer de caras e bocas que são exibidas na linguagem falada e que, em muitos casos, são cruciais para o que queremos dizer, assim como na escrita há a pragmática, um sentido que “paira” sobre o texto.

[v] Id est, isto é.

[vi] Precisamos investigar melhor esse termo de Bakhtin, mas é como algo objetivo sem conteúdo, diferente do vaso de cerâmica que se torna algo objetivo concreto. Parece que há, nele, um deslocamento da linguagem [objetiva] para o enunciado [subjetivo], mas que não é a tradução de um discurso mental interior (moderno, como em Locke ou Berkeley - sobre isso falaremos).

domingo, 27 de dezembro de 2015

Da noção de utilidade humana*


Uma investigação é um método filosófico e científico primordial para abordagem de um determinado assunto. Mas uma investigação sempre é feita por um humano. No capítulo 1 da Ética, Espinosa trata de Deus como causa necessária de todas as coisas. Na verdade, para Espinosa só há Deus, tudo emana dele, tudo está nele, necessariamente. Deus não pensa, Deus é, infinitamente. Não há contingência, só há o que não conhecemos (certas coisas são impossíveis para nós). Mas, como conceituamos as coisas oriundas de Deus?
O homem vê a natureza, o homem sente, vive. Para o homem há uma concepção e uma noção fundamental: a de utilidade. Tudo tem um fim, uma finalidade. E uma finalidade humana. Então, temos uma certa maneira de ver as coisas, proveniente de nossa imaginação. A natureza está aí para nos propiciar algo ou para nos trazer um problema, uma dificuldade. Classificamos as coisas entre boas ou ruins, belas ou feias, fáceis ou difíceis – essa classificação é a nossa noção de utilidade humana. O valor das coisas decorre do que colocamos nas coisas a partir de nossa noção de utilidade, pela nossa imaginação. Colocamos um próprio valor nas coisas e isso tudo é criação nossa.
Essa forma de “ver” o mundo se fundamenta na utilidade. Mas a utilidade é uma função que aparece em cada coisa, em cada fenômeno, seja natural ou artificial. Somos orientados por uma finalidade, vivemos e fazemos isso ou aquilo, adquirimos tal coisa, produzimos, destruímos, tudo baseado na noção de utilidade. Essa noção de utilidade caminha no sentido inverso, da finalidade para a coisa, do efeito para a causa. A água existe para tal coisa, a água não é simplesmente algo, independente de qualquer utilidade. O fato de nos orientarmos por essa noção de finalidade nos impõe tentativas de explicação que nunca serão convincentes. Mas somos assim e, sabendo disso, deveríamos nos precaver dessa caraterística nossa e obstruir qualquer tentativa de explicação. As coisas, então, seriam de Deus e não se modelariam há uma caraterística humana de finalidade. As coisas de Deus estão aí antes de nós, mas como sempre achamos que tudo gira em torno do nosso umbigo. A noção de utilidade inverte a ordem temporal e causal da realidade, do mundo, de nós. Deveríamos, então, ir em busca de outro princípio, outro fundamento, que não esse da utilidade, da finalidade, e tentar fundamentar nossa existência de outro ponto de vista, trazendo outras consequências. 
_____

* Lemos muito rapidamente o primeiro capítulo da Ética de Espinosa (3a edição, tradução e notas de Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013): suas definições, axiomas, proposições, demonstrações, corolários, escólios e o apêndice. Colocaremos bem brevemente nossa primeira impressão, considerando: 1) leituras rápidas e superficiais podem gerar análises superficiais e distorcidas; 2) superficial não é supérfluo; 3) nossa capacidade de concentração atual decaiu bastante - há muito barulho no mundo, há muitos objetos atraentes; 4) uma primeira impressão é sempre um recado puro, sem ruídos, não importando muito o resultado final; 5) sempre poderão ser realizadas novas leituras, uma resenha aqui, um comentador acolá e se chega a uma aproximação com a opinião geral, relativa à primeira impressão.