terça-feira, 7 de julho de 2026

Por que Simondon hoje

Procurar explicitar por que estudar Simondon e coloca a velha ontologia no centro do debate[i]

Teoria. Massumi inicia com uma recapitulação histórica visando responder à pergunta do porquê Simondon hoje (em 2009, ano da entrevista), já que 20 anos antes ele não despertava interesse. O período dos anos 60-90 abre brechas na especialização do conhecimento ocorrida no pós-guerra e culmina em um campo interdisciplinar e sincrético classificado de “Teoria”[ii]. Isso de maneira infame, já que o nome sugeria abstração, exatamente o oposto do que a "Teoria" pretendia: conectar-se às práticas culturais.

Ciência e Cultura. Paralelamente, as tecnologias digitais que remodelavam o mundo levantavam preocupações tanto do conhecimento científico quanto dos estudos sobre cultura e de imbricamento entre poder e conhecimento. Nesse contexto, no qual se insere o famoso caso Sokal[iii] e que parecia querer trazer de volta a velha divisão, a unificação das duas culturas já era tida como certa[iv].

Epistemologia e Ontologia. Isso posto, iniciava-se uma era tida como pós-humana por uns e refém de zombaria pelo tom milenarista por outros. Entretanto, conforme coloca nosso autor, era possível afirmar que a tecnologia passava a constituir a vida humana, haja vista a biotecnologia. “Como nos tornamos ou nos transformamos” passa a ser uma questão que põe a ontologia no centro, mas não de modo estático, já que o “vir-a-ser” traz o conceito de ontogênese. Ali, o debate da tecnologia é visto de maneira tanto epistemológica quanto ontológica, ligado a práticas de conhecimento.

Individuação. Então, Massumi enfatiza que Simondon já havia escrito isso décadas atrás. Seu conceito de individuação primava pelo devir sobre o ser e mesmo o conhecimento é um pensamento que também se individua, assim como a matéria e em continuidade com ela e com a vida. Para Simondon, a inovação tecnológica é um lugar privilegiado no qual o pensamento se materializa concretamente, algo que a “Teoria” dos anos 90 não tinha condições de abarcar: a questão da ontogênese.

Construtivismo. Nesse ponto, o entrevistado diz que os próprios movimentos que abriram brechas e permitiram chegar à ontogênese, tornaram-se um obstáculo para resolvê-la. De acordo com ele, naquele momento havia uma orientação construtivista que tinha como base filosófica o devir e se alinhava a Simondon. Mas, esse construtivismo dos anos 1990 caminhou para uma construção de perspectivas socioculturais e subjetivas, em oposição a se perguntar como as coisas se formavam. Ele se concentra no plano humano e seus fenômenos, como linguagem e discurso[v] e reduz a constituição do humano a esse mesmo plano. São ferramentas conceituais já pré-humanizadas e que não permitem ir além do humano.

O não-humano de Simondon. Já do ponto de vista simondoniano, tornar-se humano é um processo que passa pelo não-humano como um deslocamento de fase ou como uma mudança de estado, em termos físicos, como a água virando vapor. O não-humano aparece da ontogênese, atravessa este processo e está presente de modo imanente, não externo, mas o construtivismo não tem capacidade de enxergar que o devir humano o pressupõe.

Realismo ingênuo. Para piorar, na argumentação de Massumi, o construtivismo tem medo de se aproximar de um realismo ingênuo ao tentar abordar o não humano por ele se aproximar da matéria. Havia um pavor com a ideia de que existe algo lá fora, sem mediação discursiva porque gerações de teóricos aprenderam que a ontologia era o inimigo. E até a epistemologia ficou sob suspeita pois de alguma forma pressupõe alguma ontologia, já que, para dizer que conheço X assumo que X tem algum tipo de existência. A conclusão é a de que o caminho que Simondon indicava era estruturalmente incompatível com o paradigma da época.

A-significação (ou significado não dado). Continuando o ataque ao construtivismo, o professor assere que se essa vertente unisse epistemologia e ontologia no nível material, para além do discurso e da cultura, poderia cair em uma filosofia da natureza[vi]. E coexistir essa filosofia com uma teoria da informação, de acordo com a argumentação, seria absurdo já que transferiria do humano para a matéria física o processamento de informação, algo considerado do domínio linguístico e discursivo. Se um átomo mudando de estado é informação, aí não temos o significado no sentido humano e seria uma informação “pré-semântica”.

Inventivismo Integral. Ocorre que, para Simondon (na visão de Massumi), o significado não está em uma estrutura prévia, mas emerge de um processo de individuação, ele é inventado, nas palavras do filósofo alvo da análise. Cabe a ressalva do entrevistado que não se trata de invenção técnica, como inventar uma máquina, mas de algo que acontece antes do humano, a nível físico e biológico. É o que Massumi chama de “inventivismo integral”, um construtivismo universal para além do plano linguístico-discursivo, então integral por abranger todos os planos. Enfim, um inventivismo capaz de aceitar que a própria natureza é criativa.

Novas correntes de pensamento. Retomando o fio da meada, a partir da “simplificação grosseira” que fez do construtivismo ele entende há condições (em 2009) para que essa teoria se torne um inventivismo, uma vez que surgiram novas correntes de pensamento. Entre elas, ele cita Deleuze e Guattari, Bergson, Spinoza e Whitehead, nomes associados ao devir e imanência. A linguística, na visão de Massumi, dá lugar ao afeto e a invenção aparece em Isabelle Stengers, por exemplo.

Para além da tecnologia. Se há boas condições, contudo, ele se preocupa com a concentração de estudos na teoria do objeto técnico de Simondon em detrimento da individuação que passa pela individuação física, a vital e a psíquica, isto é, individuação coletiva. É por meio da alagmática, que Massumi caracteriza como sendo “a teoria geral da mudança qualitativa (...) que se dedica a compreender esses modos de individuação em sua relação entre si” que se pode compreender melhor a tecnologia. Isso porque até no livro sobre tecnologia há estudo do objeto estético, além do técnico. É nesse contexto que a tradução de mais obras de Simondon permitirá compreender a sua tecnologia dentro do sistema filosófico mais amplo.



[i] Resenha da resposta à primeira pergunta da entrevista de Parrhesia (ARNE DE BOEVER, ALEX MURRAY e JON ROFFE) com BRIAN MASSUMI - autor de várias obras, incluindo Parables for the Virtual e A Users' Guide to Capitalism and Schizophrensia, além de tradutor de A Thousand Plateaus, de Deleuze e Guattari. O Professor Massumi leciona no Instituto de Comunicação da Universidade de Montreal, onde é responsável pelo Laboratório de Empirismo Radical.

[ii] Trata-se, de 40 a 60, da balcanização do conhecimento no qual as disciplinas acadêmicas (sociologia, filosofia, literatura, antropologia), vão se especializando cada vez mais, criando paredes entre si e da formulação canônica das “duas culturas” por C. P. Snow, sobre o abismo entre ciências exatas e humanidades. De 60 a 90, movimentos intelectuais, como estruturalismo, pós-estruturalismo e teoria crítica, furam as paredes disciplinares. (https://claude.ai/chat/c029e7ce-cb85-4e05-9387-e5158a461c36)

[iii] O Caso Sokal (ou "Escândalo Sokal") foi um famoso trote acadêmico orquestrado em 1996 pelo físico Alan Sokal, da Universidade de Nova York. Ele enviou um artigo propositalmente absurdo à revista de estudos culturais Social Text para testar se a publicação aceitaria um texto repleto de nonsense apenas por soar bem e bajular a ideologia dos editores. (Wikipedia)

[iv] Referências a Estudos de Ciência e Cultura, campo que inclui autores como Bruno Latour, Donna Haraway e Ian Hacking, que estudam a ciência não como verdade objetiva pura, mas como uma atividade social e cultural situada, como os cientistas realmente trabalham, negociam, constroem fatos em laboratório etc. “Poder-conhecimento” (pouvoir-savoir) é um conceito-chave de Michel Foucault: a ideia de que conhecimento e poder não são separáveis - todo regime de saber (inclusive o científico) está entrelaçado com relações de poder que definem o que conta como verdade, quem tem autoridade para falar, etc. Estudos de Ciência e Cultura, "poder-conhecimento" à la Foucault.

[v] É sempre saudável lembrar de efevmo-me (https://bit.ly/efevmo-me-blog) e como ele se debruça no significado.

[vi] Nesse caso, a natureza teria racionalidade própria? Schelling acreditava que a natureza é tão real e tem a mesma relevância que o eu, e mais, afirmava que os objetos da natureza, a sua objetividade, é que dá à nossa consciência o substrato, a matéria que iremos reproduzir em nossa consciência. (...) A natureza é idêntica a nós mesmos enquanto princípio de inteligência, nós somos o produto mais acabado da natureza, mas temos a mesma origem. O homem é o fim último da natureza porque é somente nele que se manifesta o espírito. (http://www.filosofia.com.br/historia_show.php?id=104).