quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Tecnociência e utopia

Tratamos da primeira parte do artigo de Saturnino, que traz o percurso da noção de informação em sua relação com a ciência e a sociedade.

Tecnociência. Na introdução, Saturnino explora bastante a relação, senão simbiose, entre o homem e a máquina no desenvolvimento das tecnologias da informação. Nesse contexto, a tecnociência aparece como caminho para superação dos limites humanos. No campo da comunicação, o autor argumenta que “retóricas mecanicistas” se reiteram, ressurgem quando do intenso desenvolvimento das Novas Tecnologias da Comunicação e Informação (NTCIs), incidindo primordialmente entre as décadas de 70 a 90. Elas fazem um paralelo útil entre o que ocorre em um organismo vivo e numa máquina, de forma simplificada.

Internet. Um divisor de águas nessa trajetória, tratado por Saturnino, é a criação da internet que se torna terreno tecnológico para a execução de políticas econômicas, sociais e científicas. Grandes autores, como Lévy e Castells, emitem um discurso eloqüente sobre a tecnociência e, principalmente Negroponte, “chegou a considerar a era digital como uma força da natureza” (1995). Esse tipo de previsão [profética] de digitalização da sociedade aparece como prognoses prometeicas (expressão de Martins, 2011) do papel libertador que adviria do conhecimento científico.

Ciberespaço. Por seu turno, Castells vê a internet como tendo papel primordial dentro de um novo paradigma sociotécnico, por servir como uma base para as relações sociais que, complexas, se estruturam no seu caráter reticular. Conforme Saturnino, a internet, vista como cyberspace - utopia tecnológica, permitiria uma melhor administração dos fluxos informacionais sociais mediante suas teias.

Ser digital. Nesse sentido, promoveria uma inteligência coletiva, conforme Lévy, fazendo com que o individualismo, ao operar em rede, se tornasse uma forma de sociabilidade dominante. Saturnino aproxima essa perspectiva das ideias de McLuhan (não confundir com Luhmann) propondo que as experiências sociais, mediadas pela NTCI, trouxessem uma corporificação tecnológica pelo surgimento de um ser e um self digital. Temos, então, um “fantasminha tecnológico”.

Impactos sociais. Mas nem tudo são flores. O autor reconhece os impactos causados pelas inovações tecnológicas, haja vista que a ascensão de novos modelos empresariais e de ideologias que visam uma integração mundializada, determinaram uma nova existência cultural para o ser humano. Lembrando que toda essa transformação social é suportada por sistemas capazes de processar enormes volumes de dados e pela difusão de artefatos tecnológicos que domesticam a tecnologia, por serem cada vez mais amigáveis e acessíveis.

Neoliberalismo. Por outro lado, além das inovações da indústria, as pesquisas científicas no setor tecnológico também contribuíram para a centralidade da noção de informação, seja mediada por máquinas ou não. Saturnino cita que o conceito de informação, que ganha novos contornos a partir das formulações de Shannon, Weaver e Wiener (SWW), passa a ser visto como instrumento de poder. Tanto a ideia de informação quantificável, como a conceituação da cibernética, são condicionantes na formação de um novo projeto social e econômico que leva à busca de desregulamentação do mercado das telecomunicações nos EUA, no final do século XX (sic). Nesse período, com Clinton e Al Gore, há a cristalização desse alicerce para o desenvolvimento econômico mundial pela legitimação do consumo de informação e uso das novas tecnologias, embora permeado pela ideologia neoliberal.

Prosperidade. Segundo o panorama histórico traçado por Saturnino, esse universo imaterial ancorou grandes volumes de capitais suficientes para que a indústria eletrônica enfrentasse tanto a bolha da Internet, em 2001, quanto a crise financeira mundial de 2008. Cisco, Microsoft e Google, entre outras, acumularam rendimentos na casa dos bilhões de dólares. De posse dessa prosperidade, as empresas de tecnologia da informação se reconfiguram a partir do surgimento das redes sociais virtuais, com milhões de usuários ao redor do mundo.

Comunicação mercantilizada. Com esse panorama histórico de desenvolvimento social das NTCI e que proporcionou o êxito destas empresas, Saturnino buscará olhar para a Cibernética, oriunda de SWW, como marco histórico que legitima a comunicação como processo que integra a formação integral das sociedades. Para isso, ele vai mirar as principais teses sobre a informação e explorar traços utópicos presentes em Breton e Schiller, por exemplo. Sua análise mostrará que a comunicação passa a ser vista como paradigma dominante contemporâneo e que embasa fenômenos sociais influenciados pelas ideologias dominantes do pensamento ocidental. São processos que permitirão a digitalização da informação e sua regulamentação submetida à privatização e exploração comercial.

Esquecimento cibernético. De todo o modo, Saturnino se distancia tanto de certa tecnofobia como de um purismo humanista que desqualifica a tecnologia. Ele pretende analisar esse percurso desde a Cibernética até a Sociedade da Informação. Ora, para o autor, a primeira se silencia e se perde na segunda. Assim, esquece-se das Conferências Macy e da euforia científica que vigorou nos EUA, URSS e até no Chile de Allende, oriundas da Cibernética.

As Conferências Macy: Com o nome de The Macy Conferences, aconteceu, entre os anos 1946 e 1953, uma série de dez conferências interdisciplinares que levou à fundação do que hoje conhecemos como cibernética.

Cibernética autocrata. Esse esquecimento é caracterizado como uma perda de memória “convencional” nas ciências sociais e áreas afins. Mas, segundo ele, é ingenuidade negar a influência da cibernética no nosso modo de entender as formas de interação humana. E é lamentável confundir comunicação com os chamados media – meios de comunicação. De toda forma, Saturnino pretende nos lembrar de que as concepções de Wiener deixaram vestígios que serviram de base para uma cibernética autocrata e que se transforma em tirania informática que busca uma sociedade homeostática.

Conceito de Homeostase: A homeostase é qualquer processo de autorregulação pelo qual sistemas biológicos tendem a manter a estabilidade enquanto se ajustam a condições ideais para a sobrevivência. Se a homeostase for bem-sucedida, a vida continua; se não, o resultado é o desastre ou a morte. A estabilidade alcançada é, na verdade, um equilíbrio dinâmico, no qual ocorrem mudanças contínuas, mas prevalecem condições relativamente uniformes. A ideia geral desse processo de autorregulação foi explorada pelo fisiologista francês Claude Bernard em 1849, e o termo "homeostase" foi cunhado pelo neurologista e fisiologista americano Walter Bradford Cannon em 1926.

Roteiro de análise. Então, sua análise passará pelo projeto original da cibernética, pelos seus resíduos nas Ciências Sociais e pela análise da Sociedade da Informação, favorável aos interesses privados. Como pano de fundo transpassa o conceito de informação, que parte das premissas de Wiener e desemboca no campo das disputas políticas e econômicas.

Utopia. O pensamento ocidental, conforme comenta Saturnino, em algum momento visa rompimento com a tradição, como na “utopia” proposta por Thomas More, no século XVI. Em sua obra homônima, ele procurou, ante ao período em que vivia na Inglaterra, idealizar uma sociedade homeostática, conforme entende Saturnino. Entretanto, tal figura serviu, para uns, como alegoria da impossibilidade da realização do desejo do autor em forma de sátira, embora ela possa ter servido de base para a superação dos infortúnios políticos e sociais da época. Essa segunda visão é a que se difundiu, conforme Saturnino, elevando o otimismo científico que poderia superar doxa e dogma devolvendo autonomia aos seres humanos.

Ciência. A partir daí surge uma nova construção filosófica chamada “ciência”, a ciência moderna retomada pelos renascentistas que sobrepujaria, depois, os mistérios metafísicos dos séculos XVI e XVII. O cientista aparece como novo sacerdote possuidor da prova empírica que supera o pensamento teológico e pré-iluminista. Ele visa superar a contingência do mundo e suplantar a especulação filosófica.

Letramento. Ocorre que, ao passo que não mais especula, o homem também passa a querer dominar a natureza. Conforme elaboração cartesiana, há o progresso de técnicas úteis à vida que encontram lugar na obrigatoriedade escolar e surgimento da imprensa. Com esta última, difunde-se a utilização de livros, jornais e revistas, contribuindo para a possibilidade de redução da iliteracia.

Da ciência para a cibernética. Houve, nesse movimento, supervalorização da razão que se instrumentaliza já que ciência passa a ser usada como legitimação de argumentos políticos, conforme temos visto nas análises de Bruno Latour sobre a construção de sistemas sociotécnicos e as duas formas de representação (política e científica), aos moldes da religião. Porém, sem tutela religiosa, o conhecimento não se sustenta e se associa com uma mera repetição de verdades vazias. De acordo com Saturnino, há uma monolitização social do pensamento humano e o progresso científico leva à instrumentalização militar. O cenário ao fim da primeira guerra mundial é de combate ao otimismo científico e formulação de novas premissas. Aí emergem novos fenômenos, como a linguagem e a comunicação como forma de harmonização dos mundos social, biológico e maquínico. Algo típico do projeto cibernético original que veremos na continuidade da análise.

Referências

SATURNINO, R. A retórica da ilusão: Esboços da Cibernética no rastro da Sociedade da Informação. Redes.Com, v. 10, p. 327-359, 2014. Disponível em: https://repositorio.ulisboa.pt/entities/publication/50b78ab7-a214-4f29-b08c-a5c810597001. Acesso em: 14 out. 2026.