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domingo, 31 de agosto de 2025

Física e metafísica

Entre conceitos e a realidade

Todos nós cremos saber que a física é a ciência que trata das leis da natureza. Mas, espera aí, natureza? O que é isso? Ora, é a partir dessa questão que podemos falar da metafísica. A natureza é “apenas” um conceito físico ou é de fato uma “realidade” do mundo? Massa, gravidade, elétron e tantas outras quantidades, forças e partículas. São todos termos dos quais a física se utiliza para formular suas equações, mas se trata de abstrações ou de coisas? Diga-me, o que são elétrons? Alguém já viu algum deles por aí?

Podemos remeter a origem da metafísica a Aristóteles. Conta-se que Andrônico de Rodes, ao classificar as obras do estagirita, colocou a filosofia primeira depois das obras de física, Meta[i] Física, ou seja, "depois da Física"[ii]. Se o prefixo “meta” pode significar “além” da física, isto é, algo de outra esfera, quiçá não física, na verdade isso não passaria de uma convenção: o texto “depois” da física. Nos tratados aristotélicos, a física era a filosofia natural[iii], que se ocupava das ciências em geral: matemática, biologia, entre outras, mas a metafísica examinava a realidade última do mundo[iv].

A metafísica grega, então, tinha por propósito qualificar a physis[v] e havia diversas formulações, principalmente entre os chamados pré-socráticos. Para Parmênides, o ser era uno, imutável e Heráclito postulou que tudo estava em constante mudança[vi]. Já Platão acreditava numa realidade de essências da qual o nosso mundo sensível (aqui de baixo?) seria uma mera cópia[vii].

Durante a idade média, pode ser que a metafísica tenha se confundido com a religião e, no renascimento, houve tentativas de separar física e metafísica até que os positivistas do início do século passado resolveram que ela deveria ser abolida, que se perdia em discussões infindáveis e que atrapalhavam a ciência[viii]. Mas, dá para fazer física sem metafísica? É possível defender uma teoria, como a quântica, sem falar sobre a “realidade” das coisas?

Se parece que metafísica é um mito, uma boa porcentagem dos pesquisadores atualmente a endossam[ix]. Afinal, como podemos falar da consciência do observador[x]? É um tanto complicado, porém, em um sistema quântico, as partículas estão dispersas e não temos certeza de onde elas estão, até que a vejamos. Acontece que esse ver, não é o ver da consciência, pode ser um aparelho de medição, mas é nesse momento que elas assumem um estado. Interessante né? Mas tudo isso são conceitos, apenas?

Voltemos à questão inicial: natureza, o que é? Para um povo originário austral-andino a natureza é uma divindade, para os animais é seu habitat primordial, mas, para um engenheiro civil ela é fonte de matéria-prima. Na física quântica a matéria é ondulatória, mas até que estágio, ou, até que tamanho de objeto as leis quânticas se aplicam? São questões que estão para além da física.

Um sistema físico, da mecânica moderna é determinado. Mas o mundo é determinado ou há livre-arbítrio? São perguntas que devem estar entrelaçadas, são questões de “realidade” com as quais uma física responsável deveria se comprometer. Afinal, não há ciência neutra como quiseram nos fazer crer alguns, já que o juízo de valor está na base de qualquer ação humana.



[i] Esse prefixo pode ter vários significados: “atrás, depois”; “alterado, mudado”; “além, mais alto’; “no meio de, à busca de”. Deriva do Indo-Europeu ME-, “meio”. https://origemdapalavra.com.br/palavras/meta/.

[iv] “Uma metafísica é uma teoria que visa explicar a totalidade das coisas ou do que o mundo é feito, a chamada mobília do mundo”, https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2024/11/alma-feliz.html.

[v] “A pergunta grega clássica “o que é?” revela a physis como substrato por detrás da aparência e que é uma crença básica, anterior ao discurso. Para os gregos, há uma crença na certeza do mundo de onde vem o espanto e a pergunta pelo ser. É a metafisica de Aristóteles, a teoria grega da realidade radical, teoria ontológica que mostra a substância por detrás da aparência.”, https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/03/girando-em-torno-da-metafisica.html.

[vi] “Conforme explica Costa, há em Parmênides uma separação entre o conhecimento que vem do ser e o erro causado pelo não ser. Conhece-se o imutável e coloca-se em xeque o mundo da mudança heraclitiano, embora para Heráclito o fundamento último por trás dessa realidade é a razão (logos).”, https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2025/02/o-problema-de-parmenides.html.

[vii] Para Platão, o mundo suprassensível das ideias é o real ao passo que nosso mundo dos sentidos é uma cópia, o que nos levaria a buscar por esse conhecimento beirando um misticismo. Porém, Russell enfatiza que na verdade sua base é lógica e entende as ideias de Platão como universais, em oposição ao particular dado pelos sentidos, e compartilhado por eles, https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2019/06/russell-platonicoi.html.

[viii] “Como principal crítica, os positivistas consideravam as proposições metafisicas como desprovidas de significado, sem conteúdo cognitivo. A base do ataque era lógica e se fundava no critério de verificabilidade da significação, para o qual proposições devem ser [francamente] verificáveis [em princípio] para poderem ter significado, como o são as da matemática e lógica e não as da metafísica”, https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2020/10/o-programa-do-positivismo-logico-i.html.

[ix] Esse dado vem de “Workshop de Filosofia da Física | Osvaldo Pessoa e Vinicius Carvalho”, que motiva essa reflexão e que pretendemos investigar: https://youtu.be/XROQzuXdt5I.

[x] O observador na Física Quântica: o que é mito e o que é ciência, https://youtu.be/D1Hyw9AbLSE.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

O problema de Parmênides

Esse texto aborda de maneira geral o problema de Parmênides e uma possível solução lógica

A definição do ser parmenidiano[i]. Foi no seu poema sobre a natureza que Parmênides classificou a arché, isto é, o princípio da realidade, como sendo o ser, algo uno e imutável, algo que é, ao passo que o não ser representava a mudança, não passando de ilusão. Basicamente significa que uma coisa, um ser, não pode vir do não ser, porque o não ser nada é. Então o ser, que é, só poderia vir do próprio ser, que é. Assim, o ser não é gerado e não perece e pode ser considerado finito e redondo, simbolizando a esfera, como elemento da perfeição grega. E é um ser físico, não transcendente.

Conforme explica Costa, há em Parmênides uma separação entre o conhecimento que vem do ser e o erro causado pelo não ser. Conhece-se o imutável e coloca-se em xeque o mundo da mudança heraclitiano, embora para Heráclito o fundamento último por trás dessa realidade é a razão (logos).

Ocorre que o discurso parmenidiano é incoerente e gerou debates intermináveis, pois permite inúmeras interpretações. Haveria para os lógicos, por exemplo, princípios de identidade (o ser é) e da não contradição (o que é não pode não ser). Epistemologicamente falando, deveríamos então buscar a verdade, pelo caminho do ser. Por fim ele acena para um deus imutável e pela busca de leis únicas da natureza. De todo o modo, Parmênides introduz a substantivação do ser, que também será bastante utilizada na história filosófica. Mas Costa considera que o termo “ser” é usado de forma hipostasiada[ii], como esclarecido pela filosofia de Wittgenstein, por usa terapia de uso da linguagem.

Parmênides e a linguagem[iii]. De acordo com Desidério, é Parmênides que realiza as primeiras reflexões instrumentais sobre a linguagem, na história da filosofia. Façamos a distinção: podemos refletir sobre a linguagem, sua natureza, uso, e podemos usar a linguagem para fazer considerações filosóficas. Nesse sentido, Parmênides realiza uma virada na filosofia até então, quando os filósofos se aproximavam dos cientistas, e passa a tecer considerações linguística acerca da natureza última do mundo, ele realiza uma análise conceitual. Ocorre que, salienta Desidério, quando nos valemos de um exame conceitual para compreendermos o mundo podemos cair em meros jogos de palavras.

Não seria mera tautologia dizer que “o que é, é”? Ou que “coisas que não são, não são”? É ilusão dizer que algo não é e há confusão entre o verbo ser e a realidade. Se utilizando de recursos linguísticos apenas, a expressão o que é revela incoerências, mas esse tipo de método não reflete sobre a linguagem. Lembremos dos paradoxos que partem de situações banais e nos fazem cair em contradições. Então, faz-se necessário escrutinar a linguagem, como é o caso de dizer que, não que “uma coisa não é”, mas que “uma coisa não é outra coisa”, sem cair em incoerências[iv].

Tentativas de resolver o problema[v]. Como problematizado por Parmênides há contradição na mudança do ser ao não ser e tal realidade seria absurda. Porém, as soluções gregas não negam esse ser, mas passam por abordagem dualistas, seja a platônica ou a aristotélica. Para o primeiro, tal contradição é aparente: o mundo que conhecemos é o mundo sensível, das aparências, mas há um mundo inteligível, de essências, que é imutável. É pela transcendência, em um mundo habitado por ideias elevadas que podemos compreender a instabilidade.

Se Aristóteles herda essa visão dualista, sua solução não será transcendente porque ao pleitear um mundo das ideias teríamos o problema de o correlacionarmos com o mundo sensível. O estagirita entende que a duplicação não é solução, mas uma fuga da realidade sensível. Ora, se para cada coisa há um arquétipo no mundo ideal, a criação de um novo objeto significaria que apareceria, para ele, um novo modelo? Isso é contraditório, já que os modelos são eternos e imutáveis.

Não é o caso de explorarmos outras dificuldades na abordagem platônica, mas o fato é que o problema se coloca porque não há ciência sobre o que muda, o que é efêmero. É pela estabilidade que identificamos as coisas e as conhecemos. De posse disso, Aristóteles postula um dualismo não transcendente que se divide entre o sensível e o inteligível. Desse modo, não duplicamos a realidade, mas a encaramos em sua forma múltipla e a ordenamos para que o conhecimento seja possível.

Para Aristóteles, é pelo uso de instrumentos intelectuais que vamos além da sensibilidade e tornamos a realidade inteligível. Segundo o professor Franklin, essa é a forma de pensar contemporânea, que trata de coisas diferentes (sensível e inteligível) mas juntas, em uma relação imanente. Assim, podemos contrapor a realidade pelo pensar lógico que não salta para a transcendência. Por fim, ressalta Franklin, o mundo das ideias é uma concepção platônica, já que Sócrates procurava por definições, ele visava identificar as coisas sensíveis não individualmente, mas genericamente, onde é a morada do conhecimento[vi].



[i] Esses três primeiros parágrafos foram extraídos do dicionário de filosofia de Cláudio Costa. Ver https://www.youtube.com/watch?v=mHYcPxw84n8.

[ii] “Segundo a reflexão moderna e contemporânea a hipóstase é um equívoco cognitivo que se caracteriza pela atribuição de existência concreta e objetiva (existência substancial) a uma realidade fictícia, abstrata ou meramente restrita à incorporalidade do pensamento humano. A correção monetária brasileira é uma hipóstase da ideia de valor.” - https://letacio.com/2015/03/19/do-ponto-de-vista-filosofico-a-correcao-monetaria-e-uma-hipostase/.

[iii] Nessa seção argumentamos conforme curso remoto de Filosofia da Linguagem, ministrado pelo professor Desidério Murcho entre 15 de janeiro e 6 de fevereiro de 2024.

[iv] De acordo com Desidério, Platão teria feito essa análise nos diálogos Sofista e Parmênides.

[v] Essa última sessão baseia em uma aula de Franklin Leopoldo e Silva: https://youtu.be/glXXqTXol8Y.

[vi] Vimos isso no Teeteto que acabamos de ler e vamos anotar algo nesse espaço. 

terça-feira, 28 de novembro de 2023

Carnap e o princípio da tolerância

Fala do pragmatismo de Carnap[i]

Como a ciência conhece o mundo? Por qual método e fundamentos? Essas são questões levantadas pelo Círculo de Viena dada a preocupação em se fazer com que a Filosofia siga o caminho da Ciência, tornando-se uma filosofia científica. O pensamento científico tinha, naquela época (década de 20), como inimigos a metafísica e a teologia e como aliados o liberalismo, o empirismo, entre outros. Utilizando-se da análise lógica fundada por Frege e Russell seria possível mostrar que a grande parte dos enunciados metafísicos eram contrassensos.

Inspirados pelo Tratactus, os intelectuais do círculo pretendiam que a filosofia fizesse o esclarecimento lógico dos pensamentos, clarificando as proposições e buscando um dizer cristalino. Carnap relembra a luta histórica contra a metafísica já empunhada pelos céticos gregos e que se valeria da incipiente lógica moderna. Proposições que envolvem termos como Ideia, Absoluto, coisa em si, por exemplo, não faziam sentido, nada significavam, segundo ele. A filosofia científica seria moral e social, promovendo o progresso e retomando o ideal iluminista.

Eles publicam um manifesto que divide os enunciados da ciência empírica e os da metafísica que seriam um “sentimento perante a vida”, mas que deveriam ser expressos pela arte, já que a teoria deve descrever o mundo e ser verdadeira ou falsa. A linguagem conduz a erros metafísicos e o pensamento de gabinete não alcança o mundo. Intuições intelectuais não vão além delas mesmas, e a crítica do ex-neokantiano Carnap atinge os juízos sintéticos a priori kantianos[ii], como a aritmética: “7 + 5 = 12”[iii], criticada pelo logicismo que via essas proposições como analíticas. Também a geometria euclidiana estaria ligada à nossa intuição espacial que, com o aparecimento das geometrias não euclidianas do século XIX, elas mostrariam que não há relação com a percepção sensível, não passando de convenções, isto é, postulados coerentes e não necessários – não a priori. Por fim, o terceiro exemplo de Kant [sobre juízos sintéticos a priori] das três leis fundamentais de Newton é refutado pelo próprio avanço da ciência, como a relatividade e mecânica quântica, tornando-o falso em alguns casos. Verdades sintéticas (com conteúdo) a priori não são viáveis e todo o conhecimento sintético é a posteriori, baseado na empiria e as verdades a priori são analíticas.

Não obstante essa “limpeza de terreno”, para ser significativa uma proposição deve seguir critérios como o método de sua verificação e conhecer suas condições de verdade no âmbito da experiência, sua adequação com a realidade. Sistemas filosóficos se digladiam porque seus enunciados não são verificáveis, não é possível verificar seus “estados de coisas” que podem acontecer ou não. Se sabemos o sentido de um enunciado, podemos saber se ele é verdadeiro ou falso por experiências que nos apoiariam a decidir por um enunciado P a ser P ou não P. Significado e verificação são os critérios utilizados por Carnap, sabendo que a proposição P é verdadeira, isto é, quais suas condições de realização, conheceríamos o seu significado.

Outro ponto destacado por Plastino é que, para Carnap, a representação mental vai além do enunciado. A expressão “Vou sentar no banco da praça” pode causar uma representação mental de um banco cinza, sem encosto. Diferentemente da representação factual do enunciado, essa é uma representação acompanhante do objeto que não faz parte dos fatos acerca dele e que são teoricamente irrelevantes, embora de importância prática que pode se dar pela arte. Cientificamente, é a realidade empírica que importa, independentemente do ponto de vista filosófico, por exemplo, uma montanha ser real ou se a realidade é oriunda de nossa percepção. Ou seja, a metafísica confunde representações acompanhantes e factuais e seus enunciados não têm significado teórico (V ou F).

A disputa entre realistas e idealistas não deveria tentar explicitar como é o mundo, mas como deve ser utilizada a linguagem, se fisicalista (utilizada pela influência de Neurath) ou fenomenista (linguagem de vivências, utilizada no Aufbau), pois essa é uma questão prática. Plastino enfatiza que Carnap defende um modo formal de falar e não um modo material, isso é, ao invés de falar das coisas trata de como falar das coisas e questiona qual a linguagem mais coerente para falar do mundo (nível metalinguístico). Se usou a linguagem fenomenista das sensações, ele compreende que a linguagem fisicalista é mais adequada para a ciência já que pode ser compartilhada e atingir uma ciência unificada pelo uso da mesma linguagem.

Entretanto, os membros do Círculo de Viena entenderam que o critério de verificação não é o mais adequado e começa a sua flexibilização, dada a dificuldade de verificação de alguns enunciados (p.ex. “Toda esmeralda é verde.”). Ao contrário, é possível encontrar uma esmeralda não verde, mas isso depõe contra a universalidade da ciência. Uma alternativa é o critério de falseabilidade, e aqui cabe marcar uma distinção entre critério de sentido (empiristas) e de demarcação (Popper). Para este último, que entendia que a metafísica fazia sentido, o critério permitiria separar ciência e não ciência, embora ainda tendo dificuldades com questões existenciais, que não podem ser falsificadas, somente verificadas. Por fim, o critério da testeabilidade pelo qual os enunciados poderiam ser ou verificáveis ou falseados para poderem fazer sentido, que também apresenta dificuldades com enunciados universais e existenciais: Para cada substância (U), existe um ponto de fusão (E).

Plastino mostra, com isso, as dificuldades dos empiristas lógicos com os enunciados e, por isso, Carnap destaca a sua interpretação parcial. Ele também trata da relevância preditiva, quando hipóteses sobre termos teóricos permitem agregar novas proposições a um sistema. (por exemplo, o inobservável elétron, o que não é o caso para o termo absoluto). Acaba que, por exemplo em Wittgenstein, algumas proposições metafísicas passam para o campo metalinguístico, como a lei de causalidade (Todo efeito tem uma causa) que não é uma lei científica, mas a forma das leis científicas, já que elas o respeitam. Enfatiza-se que a metafísica não fala do mundo, mas do discurso sobre o mundo, análise gramatical que pode tomar desde a sintaxe (símbolos), passando pela semântica (significado) até a pragmática (uso pelo sujeito). No seu texto de 34, Carnap sustenta que somente a análise sintática é suficiente para o trabalho de análise filosófica do discurso científico, do ponto de vista formal, sendo tolerantes a que forma da linguagem utilizar, já que são convenções a serem julgadas pelos seus resultados, evitando-se posições dogmáticas.

Para ele, questões ontológicas podem dizer respeito a categorias sintáticas (coisa, fato, espaço) e outras a predicados específicos (cadeira, azul, hoje) muito diferente de questões como “Existem números?”, que abrangem a totalidade e se refere ao ambiente externo, fora do sistema linguístico já instituído. Já a questão ontológica “Existem água em Marte?” é uma questão teórica interna que pode ser respondida dentro de um sistema, com “Sim” ou “Não”. Sistema linguístico que pode ser fisicalista ou fenomenista, conforme já vimos, se é conveniente ou não para determinado propósito, se é simples, fecundo. 

Quine dirá que é a tolerância e o princípio experimental que devem ser usados para construir os sistemas linguísticos que serão usados pela ciência e avaliados de forma pragmática. Isto é, as regras de construção da linguagem devem ser tornadas claras e não há uma só linguagem logicamente correta, é o cientista que vai escolher entre uma e outra de maneira prática. Conforme James, o pragmatismo é uma atitude, não olha para princípios ou categorias, mas para as últimas coisas, os resultados. Encerrando, para Carnap, escolher o sistema é da ordem prática e, uma vez escolhido, dentro dele suas questões são teóricas.



[i] Fichamento UNIVESP https://www.youtube.com/playlist?list=PLxI8Can9yAHcC9hEv4oAnMT5GI1zGRW1_  Empirismo e Pragmatismo Contemporâneos - Carnap e o princípio da tolerância. Prof. Caetano Plastino.

[ii] Aqui cabe lembrar que o racionalismo kantiano não é feito de conhecimentos inatos, mas de uma estrutura espaço temporal que permite conhecer – conforme as aulas do professor de filosofia de hoje e sempre: Vitor Lima, do INEF: https://www.youtube.com/@istonaoefilosofia.

[iii] Não é mera tautologia já que fala do mundo, mas independentemente dele, já que é condição de possibilidade da própria experiência. 

sexta-feira, 17 de novembro de 2023

Teses quineanas

Visa passar pelas principais teses de Quine contra o modelo canônico[i]

O modelo padrão estabelecido é conhecido por tratar o conhecimento como crença verdadeira justificada. Quine o critica porque há dificuldade na justificação racional de crenças, o conceito de verdade é um problema e por suas posições fundacionalistas e normativistas. Como alternativa surge a proposta de uma epistemologia naturalizada[ii] que vê a ciência como um tipo de conhecimento que pode ser descrito em seu processo de constituição, que afasta a necessidade de ser justificada para ter “status” de conhecimento, por ser uma epistemologia que é vista como um capítulo das ciências naturais e, por isso, não normativa e, por fim, por se ater a uma explicação holística do conhecimento.

De acordo com Conserva e a literatura, o modelo padrão remonta a Platão (diálogos Mênon e Teeteto) através de teses como conhecimento proposicional e universalidade. Porém não obstante seu predomínio, o modelo padrão de conhecimento é motivo de muitas interpretações, embora haja a seguinte teoria firmada:

a)     Conhecimento é X.

b)    X deve ser algo informativo.

c)     As nossas intuições (crenças) são tomadas como ponto de partida: pensamos que uma crença X é um caso de conhecimento, que uma crença Y não é o caso de conhecimento.

d)    Desenvolvemos os esforços para justificar os casos de X como conhecimento e os casos de não X como não conhecimento.

Portanto, o que queremos dizer com conhecimento? Bem, o conhecimento se dá pela noção de significado, então procuramos estabelecer o significado dos conceitos como crença, verdade e justificação e saber como aplicá-los por meio de uma definição operativa que permite decidir sobre os casos. E isso é um critério normativo.

A reação quineana ao modelo padrão. Quine não se detém à análise do significado dos conceitos do modelo padrão, porém busca descrever como os indivíduos adquirem determinadas crenças principalmente as que falam sobre estados de coisas do mundo. Ao invés do conceito foca-se no fenômeno natural. Analisa-se o processo de constituição de crenças racionais e por qual razão é a Ciência o caminho mais confiável em uma crítica ao modelo padrão mais sólida que a de Gettier.

O problema relacionado com a justificação de crenças. Gettier já alertava que mesmo uma crença bem justificada pode não ser verdadeira. Isso porque se exemplifica conhecimento por sentenças declarativas representadas pela fórmula: P sabe que S. Porém, “sabe” depende das noções de crença e justificação tornando o argumento circular. O ponto de Gettier é a justificação e Quine concorda com ele porque uma crença verdadeira pode estar assentada em conjecturas e aí não seria conhecimento. Justificação e verdade se distinguem: pode haver crença verdadeira sem ser justificada ou crença justificada que não seja verdadeira.

Conserva ressalta que a crença pode decorrer mais de uma empatia, ligada a uma disposição psicológica, do que de justificação, de um assentimento intelectual que poderia alçar determinada realidade a um status do conhecimento. Gettier bem demonstrou que um indivíduo pode ter uma crença P falsa que foi bem justificada e o ludibriou, dado o caráter de disposição psicológica de tendencia a concordar com ela, não obstante esteja racionalmente fundamentada.

Mas Quine, que refuta o normativismo, não pretende analisar critérios de justificação. Sua epistemologia pretende descrever o processo de aquisição das crenças por meio de uma psicologia empírica baseada no behaviorismo. Para Quine, nossas intuições dependem de esquemas linguísticos que podem ser verificados por meio de uma teoria do aprendizado linguístico e da naturalização da epistemologia. A formação de crenças vai depender de um sistema linguístico e de evidências empíricas que, juntos, formarão uma rede dentro da qual sentenças podem ser consideradas verdadeiras ou falsas. Devemos levar em conta também a realidade em relação ao conhecimento geral e ao científico em particular, associado a uma referência e ontologia.

É através desses pressupostos que se pode criar uma representação racional da realidade tomando como exemplo as Ciências empíricas e o conjunto de crenças a ela associada. Essas crenças constituem uma teia com algumas mais resistentes e outras podendo ser rejeitadas e a rede se reajusta, por meio de uma teoria holística. Mas as alterações devem ser feitas com simplicidade e sem que a teia seja mutilada.

Cabe ao epistemólogo escolher um esquema conveniente superando até uma possível correspondência aos fatos. É por meio do pragmatismo que o fundacionalismo e o normativismo podem ser contornados. E a crítica de Quine vai abranger a Epistemologia, tido como Filosofia primeira e a Teoria do conhecimento que se pretende normativa. Evitando a necessidade de justificação recusa-se uma hierarquia epistemológica abrindo espaço para outro recorte teórico.

A consequência fundacionalistas na tradição filosófica e no empirismo lógico. De acordo com Conserva, o fundacionalismo epistemológico se inicia com Descartes, pois funda no sujeito o ponto indubitável de conhecimento, anterior ao empírico. Nessa visão, há uma hierarquia que se funda na Epistemologia que precede a Ciência e por ela formamos crenças racionalmente. Inclusive Rorty afirma que a filosofia analítica é oriunda desse projeto buscando terreno firme na análise linguística por meio de uma linguagem universal que permitisse explicitar toda a significação e ali fincando toda a teoria do conhecimento. Ocorre que Quine irá se opor ao empirismo lógico que resguarda as verdades analíticas e contestará a dualidade analítico-sintética chegando a analisar a epistemologia empiricamente.

A opção por descrever processos de conhecimento: saber como e saber que. Quine contesta termos como certeza e conhecimento como sendo vagos no campo científico e, por isso, não se utilizará de conceitos e definições, mas das noções pragmáticas “saber que” e “saber como”. Conceitos pertencem à esfera da semântica internalista e não permitem uma descrição comportamental – observacional e científica. Já a semântica extensionalista se afastará do vínculo entre conhecimento e entidades ou proposições. Quine se fiará na descrição empírica das crenças e, se afastando da linguagem pura pretendida pelo empirismo lógico, se voltará para a linguagem ordinária.

Ora, há um saber (o científico) e a Filosofia busca descobrir como a Ciência se desenvolve e é apreendida, mesmo que ainda suscetível a constante aperfeiçoamento. Já que o modelo fundacionalista cartesiano não deu conta de justificar logicamente a Ciência, Quine procurará descrever como ela é possível sendo instrumento de análise e objeto a ser analisado. Portanto, se filosofa pelo próprio método científico, que é o esquema conceitual vigente.

A recepção da condição de verdade no pensamento quineano. Conserva mostra que o modelo canônico tem por fim a obtenção da verdade por meio da justificação epistêmica. A verdade é obtida através de representação, dentro de uma perspectiva realista, mas sabemos que nossa representação é parcial e sempre superada por novos instrumentos. Porém, o modelo quineano não toma um mundo a ser conhecido, ao contrário, mundo, referência e ontologia são partes acessadas por nós por uma estrutura lógica e linguística. Compreensão de mundo e aprendizado da linguagem são dois lados da mesma moeda[iii].

Além do mais, o modelo padrão utiliza uma justificação apriorística, herança da epistemologia platônico-aristotélica fundada no discurso predicativo e proposicional, base da verdade. Para Quine, a construção do conhecimento vem do uso social da linguagem e não de uma relação representativa palavra-objeto. O conhecimento se constrói eventualmente revisando sentenças antes verdadeiras e como estamos cindidos da referência, a representação é colocada em xeque.

A relação entre sujeito e mundo (representação?) se dá pelo aprendizado da linguagem; cada linguagem tem a sua ontologia, sua teoria de mundo empírica que se afasta do modelo padrão de crença verdadeira justificada.



[i] Fichamento do primeiro capítulo do livro Quine: Linguagem e Epistemologia naturalizada, de José Nilton Conserva. Curitiba, Appris, 2019. Primeira Parte: conhecimento para além do modelo padrão: esboço das teses quineanas. As referências ao longo do fichamento não são citadas e devem ser procuradas no texto original.

[ii] Naturalizada porque se debruça sobre nosso processo natural de aprendizado.

[iii] Representação: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2023/07/representacao-e-correspondencia.html

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Um debate sobre privacidade e segurança a partir dos vazamentos de Snowden

Trata da promiscuidade e ambivalência no ecossistema tripartite do Big Data, que envolve instituições, empresas e academia[i]

Introdução. Na introdução do artigo, van Dijck recapitula o vazamento de Snowden, em 2013, que relata práticas de espionagem da Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos no Facebook, Google, Apple, etc., ocasião em que se mostrava ao mundo que seus agentes tinham acesso aos dados dos cidadãos de forma integral. Isso já se revelava pela máxima: “Confiamos em Deus, todos os outros, nós monitoramos” e, então, ficava claro que nossas informações pessoais têm seus metadados compartilhados pelas corporações de redes sociais com agências de inteligência ou comercializados com terceiros, o que significa exposição da privacidade em troca de serviços gratuitos.

Para van Dijck, a tolerância das pessoas com tal prática se daria devido à difusão da datificação como novo paradigma científico e social[ii]. Entretanto, van Dijck visa desconstruir as bases ideológicas dessa prática que vem se difundindo na academia e entre os adeptos da tecnologia como oportunidade de investigar o comportamento humano. Incomoda van Dijck a crença na quantificação objetiva que, apesar de exemplos convincentes do Big Data, também envolve a confiança nos agentes institucionais que manipulam tais (meta)dados.

Essas noções de crença e confiança são particularmente problemáticas para van Dijck pois os documentos de Snowden já mostravam que as pessoas têm fé nas regras que os agentes se guiam para executar a vigilância dos dados, quando na verdade a NSA costuma desobedecer a decisões judiciais e testar limites legais sobre a invasão de privacidade. Tudo isso mostra uma confusão nas premissas ideológicas do dataísmo[iii] colocando a credibilidade do ecossistema em xeque e a pergunta que van Dijck faz sobre qual atitude crítica tomar perante esse cenário.

Datificação e “mineração da vida” como um novo paradigma científico. Foi o advento da Web 2.0 e redes sociais como Facebook, Twitter, LinkedIn e Youtube, que fizeram da datificação um paradigma, na medida que permite codificação de comportamentos sociais que, quantificados em metadados, se tornam recursos valiosos. Ressalta van Dijck que o Big Data surge como “santo graal do conhecimento comportamental”, como se pode notar quando o Twitter, se passando por plataforma neutra, traz a espontaneidade dos “trends” como termômetros de emoções e reações sociais, ainda que baseados em hashtags e algoritmos. Para os cientistas da informação, a mídia social ecoa pegadas naturais que veem o Twitter como detector de sentimentos que promete ser mais confiável que entrevistas ou levantamentos tradicionais, embora se tenha em conta os vieses da representatividade dos dados lá coletados ou mesmo o favorecimento de usuários influentes.

Além disso, os entusiastas da datificação também ressaltam os padrões que são gerados nas plataformas que, através de likes do Facebook, permitem predizer comportamentos como orientação sexual e valores religiosos que ajudariam em analises psicológicas e recomendação de produtos, além de aperfeiçoar seus próprios serviços. Porém, importa registrar tudo para prever planos futuros, a chamada “mineração da vida” (life mining) que gera conhecimentos úteis para serviços de inteligência policial, isto é, vigilância, e também marketing. Contudo, parece-se ignorar comportamentos como manipulação por robôs e / ou as chamadas estratégias de monetização pelos algoritmos de recomendação que vão de encontro à dita neutralidade. É aí que van Dijck mostra que a datificação se apoia em pressupostos de normas sociais dominantes, por uma permuta de informações pessoais por serviços e abrindo mão da privacidade. Tudo isso serve de ativo que é processado fora de contexto para serem vendidos pelas plataformas e, chancelado pela ANS, deixa claro o papel ideológico em um inextricável nó entre sociabilidade, pesquisa e comércio.

Dataísmo: desvendando as bases ideológicas da datificação. Conforme van Dijck, a racionalidade da mineração de dados se assenta em duas pressuposições ontológicas e epistemológicas: a crença na objetividade da quantificação do comportamento humano e na sua predição em cima de (meta)dados. Sobre o primeiro ponto, as pilhas de (meta)dados são tudo, menos objetivas, já que por trás de “likes” e trending topics há algoritmos subjacentes que calculam valores sociais. Ora, os dados brutos então é que são minerados para se extrair algo e, como podem ser ruins, incompletos ou insuficientes, acabam sendo guiados por questões delimitadas. Ou seja, há questões de fundo que formam um quadro interpretativo que prefigura a análise dos dados e, daí, geram um padrão preditivo[iv].

Há de se perguntar sobre por que buscar determinados padrões nas bases de (meta)dados, com quais objetivos e interesses? Milhares de postagens de mães jovens no Facebook podem ser investigados sobre um prisma comportamental (hábitos alimentares), médico (depressão pós-parto) ou de consumo (produtos para bebê), por exemplo. Conforme van Dijck:

“Os métodos quantitativos requerem firme questionamento qualitativo para contestar a alegação de que os padrões de dados são fenômenos naturais. A pesquisa de Big Data sempre envolve um (sem trocadilho) prisma explícito.”

Ou seja, dados brutos minerados pelo Big Data poderiam tomar outras visões se por um enfoque das ciências humanas ou sociais: há perspectivas diferentes entre médicos e criminologistas. Mas é nessa retórica dos dados que a lógica dataísta pretende convencer, de que os dados estariam fora de estrutura predefinidas, sem objetivos prévios ou por mero interesse no comportamento humano. Isso posto, há que se explicitar tais prerrogativas se se deseja a confiança no paradigma da datificação.

Dataísmo e confiança nas instituições. Com o aumento de atividades online todo o ecossistema necessita da confiança dos usuários, mas sua integridade, segundo as plataformas, deveria estar a cargo das agências de governo que deveriam zelar pela privacidade. Se os autores de Big Data clamam por auditores de governança, chamados “algoritmistas”, a academia também pede transparência das agências.  Fica claro, então, a distinção de papel de cada ator na busca por confiança e credibilidade embora, conforme os arquivos de Snowden mostraram, muitas vezes instituição de coleta se misturem com agências reguladoras. Na verdade, tanto o meio corporativo, quanto o acadêmico e estatal desejam acesso aos dados e manutenção do paradigma da datificação, posto as promessas de predição do comportamento. Mas, mostra-se que academia e setor público usufruem dos dados coletados das plataformas, que se dizem mais eficientes e capazes de antecipar as tendências. Além disso, a forte intercâmbio de técnicos entre NSA e Vale do Silício, por exemplo, com desenvolvimento conjunto de tecnologia, embora um buscando inteligência e outro dinheiro, mas muitas vezes convergindo, os três setores, no uso de ferramentas.

Pois bem, a doção do dataísmo traz uma crença na proteção dos dados dos usuários, mas também confiança na independência entre plataformas, agências e pesquisadores. Porém, aí reside o conflito, já que o ecossistema está todo conectado, seja na infraestrutura como na lógica operacional. A credibilidade se coloca em risco devido ao monumental fluxo de dados (e-mails, vídeos, texto, som e metadados) que extrapola territórios e se digladia em zonas de acesso e restrições, levando ao questionamento dos usuários-cidadãos sobre as interrelações entre empresas e governo, levando a debates políticos e confrontos judiciais. É essa agregação problemática entre a confiança institucional e as premissas da datificação que van Dijck enfatiza, somando-se ainda o interesse relevante na data vigilância.

Data vigilância e a luta por credibilidade. Data vigilância significa monitoramento contínuo de dados com sérias consequências no contrato social entre empresas e governo, bem como envolvendo os cidadãos consumidores. Ora, a questão data vigilância como fator de risco na confiança do ecossistema se colocou depois do vazamento de Snowden, quando surpreendentemente as plataformas (Google, Facebook, Yahoo e Microsoft) processaram a NSA por colocar em risco a privacidade das pessoas em troca de sua proteção.

Mas é ambivalência que está na base da relação das plataformas com as agências. Depois do 11 de setembro e a Lei Patriótica, as empresas se submente ao governo diminuindo a confiança do público nas estratégias de data vigilância. Por outro lado, as empresas, ao mesmo tempo que pedem mais leis, acusam o governo de regulamentação excessiva. Ambivalência que se mostra em uma suposta relação de transparência entre empresas e usuários: se elas apelam pelo compartilhamento de dados, não devolvem transparência, além de constantemente atualizarem seus Termos de Uso sobre políticas de privacidade, que levam a acionamentos de grupo de defesa de consumidores. E a ambivalência também ocorre dentro do governo, já que as agências de inteligência têm interesses contraditórios com os órgãos reguladores, o que dificulta ainda mais a confiança no ecossistema e na relação privacidade-segurança.

Contudo, van Dijck aponta que a responsabilidade por manter a credibilidade do sistema vem da academia, mostrando que o paradigma de datificação não é neutro e evitando aceitação acrítica de suas premissas ideológicas e comerciais. Se já foi mostrado aqui os vieses e indagações, van Dijck sugere uma investigação do método cientifico que traga abordagens computacionais, etnográficas e estatísticas para verificabilidade das análises preditivas. São os acadêmicos que precisam passar em revista as questões epistemológicas e ontológicas, já que podem arbitrar, sobre fatos e opiniões, conforme a referência que van Dijck faz a Bruno Latour.

Por fim, van Dijck salienta que foram as ações inescrupulosas de Snowden que desencadearam o debate sobre data vigilância, mostrando a força de uma “agente bomba” que abalou o complexo de forças estatal-industrial-acadêmico, que mostraram as falhas estruturais do ecossistema, a incapacidade dos usuários frente a complexidade do sistema e ao novo paradigma de sociabilidade. Entretanto, a despeito da maioria dos estadunidenses ainda acreditam que os dados são usados para fins outros que a luta contra o terrorismo, a dataficação com paradigma neutro e data vigilância normalizada como prática de monitoramento social faz com que esses temas ainda devam ser esclarecidos perante à sociedade.


[i] Conforme Dijck, J. van. (2017). Confiamos nos dados? As implicações da datificação para o monitoramento social. MATRIZes, 11(1), 39-59. https://doi.org/10.11606/issn.1982-8160.v11i1p39-59. Abstrai-se na resenha todas as referências, para tal deve-se buscar o original.

[ii] O termo “datafication” foi cunhado por Mayer-Schoenberger e Cukier, em 2013, para se referirem à transformação da ação social em dados que podem ser quantificados e usados em tempo real ou para fazer predições sobre o comportamento humano. Já tratamos do tema em uma reflexão anterior a partir do Lab404, aqui: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/10/dataficacao-da-vida.html, porém como dataficação e não datificação.

[iii] No artigo o autor usa indistintamente datificação e dataísmo. O último, entendemos, estaria mais ligado a Yuval Harari.

[iv] Por exemplo, acompanhar o comportamento de determinados grupos em situações específicas para prever situações de compra que são repassadas aos anunciantes.

domingo, 14 de março de 2021

Girando em torno da metafísica

Milton Vargas mostra uma relação histórica imanente entre metafisica, como raiz da realidade, e técnica[i]

Metafísica. Se a metafísica, hoje, tem uma conotação pejorativa tratando de falsos problemas ou um jogo mental sem sentido diferente da ciência, no início do século XX ela pode ressurgir como base da realidade concreta. Isso indica que há uma conexão entre metafísica e vida humana, sobre a edificação do homem no mundo[ii] e ela traria a raiz da realidade, ou seja, a maneira de pensar e agir de uma época.

Nesse sentido, a metafisica é uma teoria da realidade radical e busca a certeza radical em que as demais se baseiam. A raiz aqui abordada é “mi-vida”, isto é, a realidade. Não a vida humana, mas minha vida que é céu, terra, os homens, as ciências e a metafisica. Eu e as coisas.

Para cada ciência há uma metafisica, em cada época. Milton Vargas identifica cinco momentos históricos: 1.) Grécia clássica; 2.) antiguidade medieval; 3.) renascimento; 4.) Europa barroca; 5.) mundo ocidental hoje e a metafisica responsável pelos prolegômenos científicos. Nesse histórico, 3 perguntas a norteiam: “o que é?”, “o que existe?” e “o que há?”.

O que é? A pergunta grega clássica “o que é?” revela a physis como substrato por detrás da aparência e que é uma crença básica, anterior ao discurso. Para os gregos, há uma crença na certeza do mundo de onde vem o espanto e a pergunta pelo ser. É a metafisica de Aristóteles, a teoria grega da realidade radical, teoria ontológica que mostra a substância por detrás da aparência.

 Então, aqui não cabem as perguntas “o que existe?” e “o que há?” pois há certeza da substância. Relacionando metafísica e ciências, a matemática grega (de Tales a Euclides) é o prolegômeno. São três etapas: parte-se da sensação, que é individual, seguindo-se ao raciocínio, que é universal, aportando-se na inteligência, quer dizer, no inteligível. A ciência leva à postulação de uma metafisica percorrendo o caminho que vai do sensível para a geometria e aritmética dos objetos matemáticos até a metafisica que é livre de mutabilidades: são as ideias platônicas e as substâncias aristotélicas.

Entretanto, na Idade Média, a certeza grega se desfaz e a crença passa da physis para Deus, como sustentáculo do mundo exterior. São Tomas invoca a mesma metafísica, mas com outra verdade: o ser que era sustância passa a ser Deus como realidade primeira e colocando a teologia no centro do pensamento.

O que existe? Porém, no renascimento, Deus perde força no conjunto das ultimidades e a metafísica moderna, ao duvidar da realidade do mundo, traz uma nova questão: “o que existe?”.  Aqui, a fonte da realidade radical é o pensamento, seja dos racionalistas, com o cogito e razão, seja dos empiristas, com a tábula rasa, na qual percepções e ideias ali são inscritas.

Milton Vargas mostra o paralelismo do desenvolvimento entre metafisica e ciência, tendo como prolegômeno a mecânica de Galileu que “primeiro concebe com a mente”. Essa realidade mental enxerga a natureza como máquina, em oposição aos gregos, para os quais a physis era um organismo animado.

E a metafísica atingirá o clímax com a Dinâmica de Leibniz que tem a força como elemento constitutivo da realidade. Daí surge o conceito das mônadas, que não têm extensão nem matéria e, também, a teologia racionalista [do melhor dos mundos possíveis].

Mas, depois disso, há uma ocultação do ser do pensamento que já não é mais realidade radical, pois o que tem a ver com a coisa tapa a coisa. O ser do pensamento cobre o ser psicológico subordinando a metafisica à psique humana, assim como a verdade formal oriunda da revolução logico-linguística traz uma aversão à metafisica a partir do positivismo e filosofias analíticas.

O que há? Por detrás desse ocultamento há um todo abrangente e um saber único. Perante as certezas particulares, urge uma nova metafisica que vem da pergunta “o que há?”. Se na Idade Moderna o pensamento estava associado à consciência que, através de sua clareza e distinção, consciencializava tudo em busca da verdade lógica depois, pela lógica e pela linguagem, formalizou a matemática até chegar ao computador eletrônico. Mas, Jung traz uma nova concepção do pensar inconsciente procedente de experiências ancestrais e cósmicas.

O pensamento aparece subordinado e vai do individual e transcendental para a totalidade abrangente. Tem algo na mente que não é, mas há e se estabelece um processo imanente na batalha entre o consciente e o inconsciente. Jung, em seu inconsciente, conceitualiza uma matriz dos fenômenos psíquicos mãe de tudo, uma Pan Mater. E é essa psicologia profunda que pode gerar uma nova metafisica.

A nova manifestação do ser aparece em Kierkegaard pela subjetividade que não reconcilia fé e conhecimento, em Nietzsche com o fim da transcendência e a ontologia do ser do Dasein, ser imanente de Heidegger.

Voltando ao início, a pergunta moderna “o que há?” vem respondida pelo mi-vida. A realidade radical vem do profundíssimo de nós e de uma tensão dialética que se da no plano de imanência, por um lado por uma tendência anti-noética e, por outro, por um voltar-se racional ao mundo. Tal nova formulação da teoria da realidade radical é imanente e vem das profundidades de uma alma ancestral e essa nova metafisica pode ser o modelo de ciência, da psicologia profunda para as realidades últimas.



[i] Conforme Crenças, ciências e metafísica, Capítulo 2 de Vargas, M. (1994). Para uma filosofia da tecnologia. São Paulo: Alfa Omega.

[ii] Milton Vargas traz nesse artigo concepções de Julián Marías e Ortega y Gasset que trataremos indiscriminadamente, pois o que nos importa é a conceituação.

quarta-feira, 3 de março de 2021

Ciência, técnica e realidade

Anotações da Palestra de Abertura do “I Simpósio Internacional de História da Ciência e Epistemologia”, realizada por Milton Vargas de 9 a 11 de outubro de 1991, em Piracicaba-SP[i].

Em um primeiro momento, Milton Vargas traz uma concepção da Ciência Moderna, transformadora da realidade, como uma fusão do que seria a teoria e a techne na Grécia do século VI ac. A ciência, enquanto atividade construtiva, associa saber, teoria e atividade, ou seja, há uma via teórica associada a uma via prática.

Se a teoria grega se fazia pela abstração, a partir de dados essenciais e pela utilização da matemática e da filosofia passando de uma contemplação para a atividade, a teoria atual é um sistema lógico composto por enunciados, hipóteses e leis gerais. Há um leque de teorias sobre a realidade, sobre algo imaginado (como a geometria não-euclidiana) ou teorias capazes de mudar a realidade (como a marxista) sob os olhares da filosofia, história e ciência.

A origem da ciência se liga à filosofia, pois essa última parte do espanto das coisas à nossa volta, sobre o que é o ente, em que ele consiste. Da árvore, a filosofia visa extrair a arboridade, isto é, sua quididade. O conceito de ousia vem dos gregos significando substância, essência ou entidade e a teoria é a busca por essa ousia. Então, ciência e filosofia tem o viés da episteme, que é ver teoricamente. Desde Aristóteles, analisando os princípios e as causas até Heidegger, que diz que, embora o quid procurado possa variar em cada filósofo e tempo, sempre há um diálogo. Milton Vargas postula o saber filosófico associado à busca da verdade absoluta, mas pelo diálogo e define a Filosofia da Ciência como a busca da quididade da ciência que tem como aspecto principal o espanto.

A técnica não é a techne. A técnica é tão antiga quanto o homem, pois não há homem sem instrumento, há um saber-fazer que nasce com o homem da pedra lascada. A techne só se inicia na Grécia a partir da sistematização da técnica e depois a ars[ii] romana, ambas suportando a arquitetura, medicina, etc.

No Renascimento, a burguesia, liderada pelos príncipes, retoma os tratados antigos, mas é só em 1600 que a tecnologia une a técnica com a experimentação científica. Vargas traz uma metáfora de Spengler: enquanto o cientista é como o boi que tudo vê “desinteressadamente”, o tecnólogo é como águia que da o tiro certo. E é predador? Então, a tecnologia, com o esclarecimento da teoria e a manipulação e controle da técnica se desenvolve em um mundo aberto ao saber, progressista.

Vargas traz a conceituação de realidade de Julián Marías[iii] como sendo composta pelo eu mais o que eu encontro no mundo, encontro do subjetivo com o objetivo. O real é composto por homens e objetos formando a natureza que, se inicialmente sobrenatural, passa a ser domesticada e instrumentalizada. Também há valores como o belo e feio, útil e inútil, e pela valoração temos a cultura. Temos ideias e objetos ideais (formas, números) e Ultimidades[iv]. Tudo isso é a realidade e a ciência se ocupa do que se dá no mundo: natureza, cultura e ideias.

Por fim, Vargas traz a visão de Jaspers de ciência moderna[v], que teria como características: o método, fazer as coisas metodicamente, uma certeza irresistível (sob certas condições) e validez universal, essa última ao lembrar que a episteme grega era válida somente no mundo sublunar.

Contudo, se a ciência buscou uma concepção geral do mundo, o conhecimento se desenvolveu e não abrangeu. De acordo com Jaspers, o mundo não é um objeto que podemos abarcar, pois só vemos fenômenos e não o fundo das coisas. Ao não atingirmos a totalidade, nos prendemos na busca por cada coisa, que é indefinida.



[i] Conforme Ciência, Técnica e Realidade, Capítulo 1 de Vargas, M. (1994). Para uma filosofia da tecnologia. São Paulo: Alfa Omega.

[ii] Conforme https://www.eba.ufmg.br/graduacao/materialdidatico/apl001/aula006web.html, acesso em 02/03/2021: “Arte - do latim ars; corresponde ao termo grego techne (técnica); significa: o que é ordenado ou toda espécie de atividade humana submetida a regras. Seu campo semântico se define em oposição ao acaso, ao espontâneo e ao natural. Arte é um conjunto de regras para dirigir uma atividade humana qualquer.”

[iii] Julián Marías Aguilera foi um filósofo espanhol, considerado o principal discípulo de José Ortega y Gasset, conforme Wikipedia.

[iv] Conceito de Marías abrange o reino dos mortos, fé, crenças, etc.

[v] O texto de Vargas oscila entre teoria, ciência, tecnologia, técnica, techne, etc., que muitas vezes se confundem.