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domingo, 31 de agosto de 2025

Física e metafísica

Entre conceitos e a realidade

Todos nós cremos saber que a física é a ciência que trata das leis da natureza. Mas, espera aí, natureza? O que é isso? Ora, é a partir dessa questão que podemos falar da metafísica. A natureza é “apenas” um conceito físico ou é de fato uma “realidade” do mundo? Massa, gravidade, elétron e tantas outras quantidades, forças e partículas. São todos termos dos quais a física se utiliza para formular suas equações, mas se trata de abstrações ou de coisas? Diga-me, o que são elétrons? Alguém já viu algum deles por aí?

Podemos remeter a origem da metafísica a Aristóteles. Conta-se que Andrônico de Rodes, ao classificar as obras do estagirita, colocou a filosofia primeira depois das obras de física, Meta[i] Física, ou seja, "depois da Física"[ii]. Se o prefixo “meta” pode significar “além” da física, isto é, algo de outra esfera, quiçá não física, na verdade isso não passaria de uma convenção: o texto “depois” da física. Nos tratados aristotélicos, a física era a filosofia natural[iii], que se ocupava das ciências em geral: matemática, biologia, entre outras, mas a metafísica examinava a realidade última do mundo[iv].

A metafísica grega, então, tinha por propósito qualificar a physis[v] e havia diversas formulações, principalmente entre os chamados pré-socráticos. Para Parmênides, o ser era uno, imutável e Heráclito postulou que tudo estava em constante mudança[vi]. Já Platão acreditava numa realidade de essências da qual o nosso mundo sensível (aqui de baixo?) seria uma mera cópia[vii].

Durante a idade média, pode ser que a metafísica tenha se confundido com a religião e, no renascimento, houve tentativas de separar física e metafísica até que os positivistas do início do século passado resolveram que ela deveria ser abolida, que se perdia em discussões infindáveis e que atrapalhavam a ciência[viii]. Mas, dá para fazer física sem metafísica? É possível defender uma teoria, como a quântica, sem falar sobre a “realidade” das coisas?

Se parece que metafísica é um mito, uma boa porcentagem dos pesquisadores atualmente a endossam[ix]. Afinal, como podemos falar da consciência do observador[x]? É um tanto complicado, porém, em um sistema quântico, as partículas estão dispersas e não temos certeza de onde elas estão, até que a vejamos. Acontece que esse ver, não é o ver da consciência, pode ser um aparelho de medição, mas é nesse momento que elas assumem um estado. Interessante né? Mas tudo isso são conceitos, apenas?

Voltemos à questão inicial: natureza, o que é? Para um povo originário austral-andino a natureza é uma divindade, para os animais é seu habitat primordial, mas, para um engenheiro civil ela é fonte de matéria-prima. Na física quântica a matéria é ondulatória, mas até que estágio, ou, até que tamanho de objeto as leis quânticas se aplicam? São questões que estão para além da física.

Um sistema físico, da mecânica moderna é determinado. Mas o mundo é determinado ou há livre-arbítrio? São perguntas que devem estar entrelaçadas, são questões de “realidade” com as quais uma física responsável deveria se comprometer. Afinal, não há ciência neutra como quiseram nos fazer crer alguns, já que o juízo de valor está na base de qualquer ação humana.



[i] Esse prefixo pode ter vários significados: “atrás, depois”; “alterado, mudado”; “além, mais alto’; “no meio de, à busca de”. Deriva do Indo-Europeu ME-, “meio”. https://origemdapalavra.com.br/palavras/meta/.

[iv] “Uma metafísica é uma teoria que visa explicar a totalidade das coisas ou do que o mundo é feito, a chamada mobília do mundo”, https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2024/11/alma-feliz.html.

[v] “A pergunta grega clássica “o que é?” revela a physis como substrato por detrás da aparência e que é uma crença básica, anterior ao discurso. Para os gregos, há uma crença na certeza do mundo de onde vem o espanto e a pergunta pelo ser. É a metafisica de Aristóteles, a teoria grega da realidade radical, teoria ontológica que mostra a substância por detrás da aparência.”, https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/03/girando-em-torno-da-metafisica.html.

[vi] “Conforme explica Costa, há em Parmênides uma separação entre o conhecimento que vem do ser e o erro causado pelo não ser. Conhece-se o imutável e coloca-se em xeque o mundo da mudança heraclitiano, embora para Heráclito o fundamento último por trás dessa realidade é a razão (logos).”, https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2025/02/o-problema-de-parmenides.html.

[vii] Para Platão, o mundo suprassensível das ideias é o real ao passo que nosso mundo dos sentidos é uma cópia, o que nos levaria a buscar por esse conhecimento beirando um misticismo. Porém, Russell enfatiza que na verdade sua base é lógica e entende as ideias de Platão como universais, em oposição ao particular dado pelos sentidos, e compartilhado por eles, https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2019/06/russell-platonicoi.html.

[viii] “Como principal crítica, os positivistas consideravam as proposições metafisicas como desprovidas de significado, sem conteúdo cognitivo. A base do ataque era lógica e se fundava no critério de verificabilidade da significação, para o qual proposições devem ser [francamente] verificáveis [em princípio] para poderem ter significado, como o são as da matemática e lógica e não as da metafísica”, https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2020/10/o-programa-do-positivismo-logico-i.html.

[ix] Esse dado vem de “Workshop de Filosofia da Física | Osvaldo Pessoa e Vinicius Carvalho”, que motiva essa reflexão e que pretendemos investigar: https://youtu.be/XROQzuXdt5I.

[x] O observador na Física Quântica: o que é mito e o que é ciência, https://youtu.be/D1Hyw9AbLSE.

terça-feira, 13 de abril de 2021

Causalidade, acaso e necessidade em Aristóteles

De uma causalidade que está sempre em causa e, nesse sentido, não é só um processo físico que acontece[i]

Vargas alerta que seu foco é no pensamento de Aristóteles e não na filosofia aristotélica, submetida a dois mil anos de interpretações. Há certas noções difíceis de serem admitidas, como a Doutrina das Quatro Causas do Livro II da Física. Sendo assim, ele sugere uma reinterpretação da noção de causa que deve ser entendida como julgamento, como quando um juiz julga uma causa (remetendo à aitia grega[ii]).

Aristóteles define os seres que são por natureza: animais, plantas, terra, fogo, água e ar. A natureza é um princípio e uma causa do movimento e repouso por essência. Nas coisas artificiais, feitas de material natural, a causalidade é por acidente já que essas coisas não têm em si mesmas o princípio e a causa da transformação (= movimento = kinesis)[iii].

A physis, que é a essência da natureza animada, no vulgar grego tratava da coisa que se move por “direito próprio” e regras de movimento “em causa” e há aí um sentido de ordenamento (daquela aitia).

Pois que a causalidade não somente provoca o movimento, como é a totalidade do processo físico seguido pela matéria e forma de cada ente que, não obstante seja movido, é orientado por um desejo próprio que busca ser bem sucedido, no sentido jurídico de dever ser bem sucedido.

Vargas ressalta que, para Aristóteles, o conhecimento se dá pelas causas, de todo o processo causal[iv];. Entretanto, o processo causal pode sofrer interferências, como o acaso e a sorte, que são causas acidentais e geram indeterminação no processo. E, independentemente das particularidades das causas, acaso e sorte, a questão que surge é se a natureza estaria sujeita a uma lei inexorável. Do que ele pontua que, dentro da mudança, algo permanece e revela-se uma dualidade.

Segundo Vargas, é da noção da natureza como animal que se dá a teoria das quatro causas; duas externas: eficiente e final e duas internas: material e formal. E, transformação e movimento (kinesis) estariam sujeitas a um julgamento causal (aitia) que poderia não ser obedecido e, ocasionalmente, não ter sua finalidade atingida.

Por fim, Vargas aborda a passagem da natureza de animal à máquina, na Idade Moderna, do que “sobraria” apenas a causa eficiente associada a seu motor e o acaso ao campo da probabilidade. A natureza transforma-se sem uma razão, mas regulada pela lógica matemática que reafirma aquele nexo inicial, mas que, depois, com a Mecânica Quântica traz de volta a indeterminação, reformulando a doutrina aristotélica da causalidade, acaso e necessidade.



[i] Conforme Causalidade, acaso e necessidade em Aristóteles, Capítulo 4 de Vargas, M. (1994). Para uma filosofia da tecnologia. São Paulo: Alfa Omega. II Fórum Interdisciplinar Caos, Acaso e Causalidade nas Ciências, Artes e Filosofia. Câmara de Estudos Avançados do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ. Rio de Janeiro, 1993.

[ii] Conforme http://www.dicpoetica.letras.ufrj.br/index.php/Aitia, em 14/04/2021: “Podemos distinguir no ente dois modos de o compreender perguntando por sua proveniência. Se o olhamos do ponto de vista da physis, e não há, no fundo, outro modo, podemos constatar que a própria physis age de uma maneira (e é isto a "causa", o agir, a aitia) dupla: no primeiro momento, todo sendo (ente) chega ao seu telos (realização) a partir de sua essência originária. Esta é a coisidade da coisa. O outro modo de agir da physis é aquele que produz um efeito sobre algo. Por exemplo, quando o Sol aquece a semente na Terra e a faz eclodir, quando o frio queima as folhas tenras da planta, quando o vento causa estragos nas casas. A causalidade como efeito de uma ação é apenas um modo derivado do causar originário, do causar enquanto essência do sendo (ente). Então a palavra grega aitia diz causa em sentido próprio e em sentido derivado. A palavra em grego, enquanto adjetivo aitios ou aition na função acusativo, diz como tal o ser devido a, o responsável por, ou seja, o culpável. A tradição retórico-sofística, porém, reduziu-a às relações causais pelas quais a toda causa corresponde um efeito. Para negar esta redução diz-se então que nem todo sendo depende de uma causa, isto é, não depende de uma relação causal dentro de um sistema de representação e de funcionalidade. Por exemplo, a obra de arte é sem funcionalidade, porque não está construída em cima de relações causais. Nesse sentido, o artista não é a causa da obra, porque não é devida a ele, mas à arte, ou seja, esta é a aitia da obra em sentido próprio. O artista só é a causa da obra em sentido derivado.”

[iii] Isso posto, naturais tem alma, artificiais são movidos por agente externo.

[iv] Já em sentido ontológico, como aparece no Livro V da Metafísica.

sábado, 27 de março de 2021

Em busca das práticas focais

Uma introdução ao pensamento de Albert Borgmann[i]

Heidegger. De acordo com Borges, a terminologia de Borgmann de paradigma do dispositivo é oriunda de sua filiação a Heidegger, que traz a Gestell (enquadramento) como essência do tecnológico, em um ponto de vista transcendentalista e metafísico. Heidegger busca, segundo Borges, pela causa última do fenômeno: meta como além do fenômeno, que é o natural, físico[ii]. Em The question concerning technology ele estuda a essência da tecnologia e como se relacionar com ela a partir de um relacionamento livre. Heidegger também recupera o conceito de aletheia para dizer que o artefato desvela uma intenção oculta, ou seja, ele não é somente meio, mas escolha. E, enquadramento na perspectiva tecnológica, isto é, a visão que se faz da técnica.

Borgmann. Para Borgmann, a tecnologia nos traz uma relação menos intensa com a realidade, de desengajamento. De acordo com seus estudos em tecnologia, há 3 visões: 1.) substantiva, segundo a qual a tecnologia molda a sociedade; 2.) instrumentalista, com o homem fazedor de artefatos e a tecnologia com objetos neutros; 3.) pluralista, abordando tendências e complexidades. E Borgmann tenta incorporar as virtudes de cada uma delas.

A noção de paradigma do dispositivo cumpre seu propósito ao fornecer commodities e nos afasta de questões essenciais que, para Borgmann, são as práticas focais. Por essa perspectiva, compramos produtos prontos e não entendemos seu processo de feitura, por isso devemos por a tecnologia e focar[iii]. Ao restaurar as práticas excluídas pelo paradigma da tecnologia usamos a tecnologia como um meio para chegarmos às práticas focais objetivadas como fim e, com isso, um relacionamento mais profundo com a realidade[iv].

Os problemas da hipermodernidade, a informação na virada do milênio e a cultura da tecnologia

Borges ressalta a abordagem do pós-modernismo tecnológico pelas influências de Baudrillard, Derrida e Lyotard e o conceito de hiper-realidade, também em sincronia com Arthur Kroker. Conforme Borgmann, sobre a hipermodernidade: “design de um universo tecnologicamente sofisticado e glamourosamente irreal, distinguindo por sua hiper-realidade, hiperatividade e hiper inteligência”, o que traz desesperança e melancolia, além de problemas relacionados a segurança, liberdade e desconexão com a realidade.

A solução, Borgmann aponta, seria um realismo pós-moderno associando realismo focal, vigor paciente e celebração comunitária. Como o universo cibernético tira o foco, ele não deve substituir as relações incorporadas. Nesse sentido, é preciso refutar o imediatismo, buscar valores comuns[v] e não tomar realidade, natureza e relacionamentos como commodities. Se a internet e a quantidade de informação que consumimos acentua o distanciamento com a realidade tentando usurpá-la, se torna necessária uma teoria e uma ética sobre ela. Todos esses dados e informações não constituem conhecimento. As coisas se transformam em commodities sem significado e o ciberespaço desfoca nossos sentidos.

Embora ressaltando esses pontos, Borgmann tem uma visão otimista em relação à tecnologia da informação, desde que equilibrada e sempre se engajando com a realidade, ao modo das considerações de Byung-Chul Han[vi].

Por fim, Borgmann traz comparações da tecnologia com o cristianismo, em termos de promessas. Reforçando, a tecnologia não substitui a presença incorporada que ocorre pelo engajamento comunitário, convívio social, festas e solidariedade. Na visão cristã, a natureza é uma graça recebida, por isso temos que cuidar dela e buscar o equilíbrio na Bioengenharia. Ele usa o cristianismo para pensar natureza humana na cultura tecnológica e indica que uso da cultura da palavra (conversar) e da mesa (cozinhar) pode ajudar a superar os mal-estares.



[i] Filosofia da Tecnologia. Seus autores e seus problemas. Organização de Jelson Oliveira e prefácio de Ivan Domingues, resultado da iniciativa do GT de Filosofia da Tecnologia da ANPOF. Caxias do Sul, RS: Educs, 2020. Conforme capítulo 3, Hipermodernidade, informações e cultura da tecnologia – Albert Borgmann, por Luiz Adriano Gonçalves Borges.

[ii] Não nos parece interessar esse tipo de metafísica no estudo da tecnologia, mas temos de verificar as consequências dessas visões.

[iii] A noção de foco já foi tratada aqui: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/02/filosofia-da-tecnologia-tres-enfoques.html. Além do dito lá, aqui é acrescentado que a noção de foco se transforma no Iluminismo, a partir de noções técnicas na geometria e ótica, como algo central, claro, articulado.

[iv] Borges ressalta a influência de Borgmann na relação ética e virtuosa com a tecnologia, como em Higgs, Light e Strong (2000) e Shannon Vallor (2016).

[v] As referências aqui são Alister MacIntyre, Charles Taylor, Michael Sandel e Michael Walzer.

quarta-feira, 17 de março de 2021

As circunstâncias da vida

Uma introdução ao pensamento de Ortega y Gasset a partir do convite de Cupani[i]

Cupani traz inicialmente o conceito de raciovitalismo de Ortega y Gasset, segundo o qual a razão, sem prejuízo de sua objetividade, responde às necessidades vitais. O homem tem necessidades biológicas, como viver, mas vive porque quer, isto é, pela sua subjetividade, por um ato de liberdade. E suas atividades são para satisfazer necessidades.

Na natureza, circunstâncias podem levar a que o reportório primitivo de satisfação seja suspenso por um segundo reportório de produção. Para obter o que não há, o homem projeta. Então, seus atos técnicos são reações contra as imposições da natureza, que ele visa reformar gerando uma sobre natureza.

Cupani segue acrescentando que, para Ortega y Gasset, satisfazer-se faz parte do reportório biológico dos atos dos animais, mas é pela técnica que se anulam as necessidades e quando elas deixam de ser um problema. Ao suprimir a necessidade, o homem reduz seu esforço e acaso adaptando o meio a si próprio.

Entretanto, ele produz o supérfluo, pois não quer somente viver, mas viver bem. Buscando um viver bem ilimitado, o bem estar se torna a necessidade das necessidades e não um suposto progresso que logo, é abandonado por circunstâncias, sejam elas possibilidades ou dificuldades.

Para Gasset, o homem busca uma pretensão de ser, um programa de vida que se molda nas circunstâncias da natureza e do mundo. Pois bem, como a vida não é dada, ela é um constante problema na qual o homem está na situação de técnico. Viver não é contemplação, mas produção [que pode exigir uma teoria].

E daí as várias técnicas usadas em cada época ou cultura, guiadas pelo nosso desejo de sermos algo. Conforme Cupani, um dos aspectos mais conhecidos da Meditação, de Ortega y Gasset, é a mudança da técnica que passa da 1.) técnica do acaso, para a 2.) técnica do artesão chegando até a 3.) técnica do técnico.

1.) Primórdios e povos primitivos: baseada em técnicas escassas. O ser humano não sabe que pode inventar e produz coisas por acaso, diversão, etc. Ele não se sente como homo faber.

2.) Grécia, Roma e Idade Média: aumenta repertório técnico, mas sua perda não é perda de sobrevivência, ou seja, não há crises técnicas. A técnica não é vista como pertencente ao animal, mas não passa de um dote. É a atividade dos artesãos, a techne grega que não visa uma invenção pois se volta para a tradição e apresenta lentas melhorias. Ressalta-se que o homem produz instrumentos, não máquinas

 3.) Século XX: técnica já se apresenta como algo não natural, mas uma peculiaridade do homem que vai além do animal. De ilimitada, chega a ser antitética pois para lá do que imagina nossa consciência. Chega-se ao império das máquinas, da manipulação passa-se à fabricação e o homem relegado a um papel secundário.

Se, antes, o técnico estava preso a uma finalidade proposta, aqui o engenheiro já tem consciência que pode inventar. Na ciência moderna a ciência física nasce da técnica, da análise racional que propicia uma nova experiência das coisas. Mas, em caso de perda, é mais difícil recuperar. E, por todo poder que pode alcançar, ela ameaça.

Contudo, se é o tempo da fé na técnica, também é o tempo que vida se torna vazia pois, de tão formal, perde o conteúdo. E, assim, a plenitude tecnológica pode levar ao vazio existencial.



[i] Conforme Cupani, Alberto. Filosofia da tecnologia: um convite. 3. ed. - Florianópolis: Editora da UFSC, 2016. Capítulo 2: Estudos Clássicos: Ortega y Gasset. Baseado na curta obra Meditação, segundo Cupani.

terça-feira, 16 de março de 2021

O homem maravilhado

Do maravilhar-se antigo ao contemporâneo[i]

Álvaro Vieira Pinto traz a concepção grega do pensar racional associado ao estado de espanto. É o maravilhar-se, seja no Teeteto, de Platão, com a Íris (filosofia) filha de Taumante (maravilha) ou na Metafísica, de Aristóteles, trazendo o filósofo como amante de mitos, o mito composto de maravilhas.

Entretanto, para Vieira, ao falar dos gregos não faz sentido falar em “origem da filosofia” pois, para ele, ela surge com a capacidade de pensar. O homem antigo, segundo ele, se definia pelo maravilhar-se pelos céus, ordem perfeita, imutável e inexplicável e que, portanto, procurava descobrir suas causas.

Sobre o maravilhar-se, Vieira faz uma digressão, trazendo uma série de traduções deturpadas da Antígona, de Sófocles, que mostram o homem como uma das maravilhas da natureza, corrompendo o sentido original. Segundo Vieira, Sófocles não faz menção à noção de maravilha e a tradução da passagem é: “há muitas coisas terríveis, mas nenhuma é mais terrível que o homem”. A má-fé teria se originado da tradução errada do termo “deinós” como maravilha, ao invés de terrível, no contexto correto da peça .

Porém, a atitude do homem antigo se contrapõe à do homem atual pois, se esse reedita o velho espanto, ele se maravilha diante de suas próprias obras. E Vieira Pinto caracteriza justamente esse novo estado de maravilha como sendo a concepção filosófica ingênua. A chamada “era tecnológica” não passa de um embasbacamento com a ciência moderna e há, segundo Vieira, um exercício de futurologia que não deixa acabar o encanto atual pois, se por um lado, há intenção justa, por outro, há a ideologia da propaganda das grandes nações metropolitanas.

Vieira Pinto analisa o espanto em seu fundamento histórico e social. No início, havia debilidade das forças produtivas e então o homem se impressiona com a natureza material. Acontece que o ambiente rústico se transforma em urbano alterando a função cosmogônica da natureza para o homem. Ao criar uma natureza artificial e ideológica, quem não tem acesso a tal conforto está na pobreza ou atraso. Os objetos de conforto, por exemplo, os meios de transporte, passam a serem vistos como naturais e uma situação como a falta luz já significa anormalidade.

Se o mundo dos objetos é fonte de reprodução indefinida, o espanto pelos objetos artificiais vira ideologia. Eles devem ser substituídos constantemente para não se banalizarem e o próprio maravilhar-se se naturaliza[ii]. Outrora[iii], o assombro era a regularidade da realidade e havia a tentativa de explicar essa ordem, mas a multiplicação de artefatos reduz nossa capacidade de maravilhamento. O espanto já não é mais com o Universo, mas com o próprio “fazer” humano que ocasiona que percamos de vista nossa noção biológica e nos tornemos os criadores do mundo.

Pois que há o pensamento ingênuo que se agarra ao absolutismo de uma época e o crítico como fenômeno histórico e social, mediante o qual se pode ver que sempre os possuidores de bem ideologizam o presente e, no nosso caso, os trabalhadores esperam pelo barateamento dos bens. O pensamento ingênuo faz com que, em seu maravilhamento, os grupos sociais dominantes vejam sua época como privilegiada, como término de um processo de conquistas. Assim, eles sacralizam o presente para evitar a mudança e domesticar o futuro. Evitando falar em transformações políticas e sociais, para eles importa as realizações técnicas sempre progredindo.



[i] VIEIRA PINTO, Álvaro. O Conceito de Tecnologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005. O homem maravilhado - p 29 e seguintes.

[ii] Vieira Pinto cita que apenas quatro meses após a ida a Lua as pessoas já estavam cansadas de reverem a cena.

[iii] Reforçando, quando do fraco desenvolvimento das forcas sociais produtivas.