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sábado, 31 de julho de 2021

A máquina como construção social

Mais do que um aparato técnico da evolução biológica humana, a máquina é resultado de um processo social[i]

Álvaro Vieira mostra que a reflexão filosófica sobre as máquinas, atualmente e a despeito dos autômatos, traz a questão se elas poderiam pensar. Porém, segundo ele, só contribui para essa investigação a concepção histórico-dialética bem como o sistema lógico de análise, eliminando a tomada de posição a partir do estado atual do universo das máquinas.

1. O fundamento da compreensão da máquina

Para Vieira, só se pode entender a máquina pela história natural de quem a cria, o homem, e ainda mais quando aumenta nossa dependência para com elas, tornando-se parte de uma análise existencial. É pelo conhecimento de nosso progresso no domínio das forças naturais que, por uma reflexão filosófica, chegaremos a nossa capacidade criadora, qual seja, o processo de hominização que desemboca na “era tecnológica”.

Vieira argumenta que o que importa na história natural do homem é a constituição do próprio ser humano que cria utensílios para conservar a vida. Daí o engano de julgar a máquina um objeto físico por si e crer em sua espontaneidade[ii]. É pela inversão desse ponto de vista que se tem a base da construção das máquinas e das peculiaridades do animal humano diferenciadas pelo nosso sistema nervoso. Pois o homem só se humaniza depois da cooperação social, que é um salto qualitativo na evolução, com destaque para o córtex cerebral.

É a passagem da evolução biológica para a social, cujo eixo é a cultura, que Vieira mostra ser o ponto pelo qual o homem se relacionará com a natureza dialeticamente por meio da organização social e leis sociais. A análise filosofia supera o mero darwinismo formal por uma teoria antropogênica que traz o trabalho como alicerce do pensamento racional e da reflexão da realidade.

E ele reitera que a evolução do sistema nervoso se dá em correlação dialética com a capacidade humana de produzir em cooperação social por uma bilateralidade objetiva. Da capacidade de projetar surge a máquina por um processo complexo e específico do homem.

É com o surgimento da era cibernética que começa-se a se ver uma capacidade da máquina de substituir esforço mental, não somente de labuta braçal, mas não se pode prescindir da reflexão sobre as máquinas simples, mecânicas, térmicas ou elétricas. Entretanto Vieira diz que o homem não fabrica a máquina como extensão de seu corpo, mas por observar os fenômenos naturais e projetar fazer o que a natureza faz. Imita, abstrai e reproduz os efeitos desejados buscados por uma finalidade. O faz por novas ideias que se manifestam no plano das representações psíquicas, funções inéditas do sistema nervoso que permitem enunciar e fabricar.

Por fim, a máquina mais simples, de tipo mecânico, ainda tem como primeiro motor o homem, mas, desde lá, não se destina a realização do trabalho para um indivíduo isolado. Se a máquina surge da necessidade de poupar esforço, isso só faz sentido em dimensões sociais. Por mais que somente um homem tenha a ideia, é a sociedade que o realiza e a máquina construída aumenta a rede de relações do homem com a natureza, qual seja, seu domínio.



[i] VIEIRA PINTO, Álvaro. O Conceito de Tecnologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005. Capítulo II – O Homem e a Máquina.

[ii] Isso constitui a ingenuidade já mencionada por Vieira.

domingo, 13 de junho de 2021

Sobre uma era tecnológica que sempre exisitiu

Conta um pouco de nossa história produtiva que, entre avanços e cautela, tem por base uma essência técnica[i]

Álvaro Vieira põe, de um lado, os animais como consumidores do que a natureza lhes oferece e, de outro, os homens que, produtores, têm no sistema nervoso superior a capacidade de projetar e se unir socialmente para produzir. Embora alguns ainda se pretendam consumidores à custa alheia, Vieira ressalta que a produção é a essência de nossa realidade e o que nos permite resolver a contradição com o meio.

Conforme Vieira, “descobrimos, com esta reflexão, que a razão de ser de todo projeto consiste na produção”. E da produção de objetos até a de ideias, ou seja, a cultura por onde a contradição é resolvida pela produção amparada na técnica:

“Ora, obedecer às qualidades das coisas e agir de acordo com as leis dos fenômenos objetivos, seguindo os processos mais hábeis possíveis em cada fase do conhecimento da realidade, é precisamente aquilo em que a técnica consiste”.

Então, sem mistério, é o homem, pela sua origem e pela sua história natural, animal técnico.

É técnica a base da “era tecnológica” que envolve a produção material e ideal (artística, etc.), uma era tecnológica sempre existiu pelas produções técnicas. Se igualam o polimento da pedra e a Revolução Industrial, etc. E a criação humana se expande pelo crescimento do trabalho intelectual que representa o mundo circundante pela abstração.

A técnica, ou tecnologia, é a produção natural humana que, pelo caráter social, intervém no mundo, dadas as condições da época. Quando a ela se agregam tempo e lugar, crenças e valores, tem-se a cultura e conceito de época. As técnicas são as prescrições que asseguram o empreendimento e que são transmitidas hereditariamente.

Segundo Vieira, quanto mais se avança a tecnologia, mais declina a tecnocracia entendida como dispêndio de tempo com afazeres, pois qualquer erro pode ser mortal. É aí, em sociedades primitivas, que invenções técnicas que podem enriquecer as práticas podem representar perigo; cada descoberta traz uma incerteza[ii].

É fundamental o pensamento dialético se debruçar sobre a contradição entre continuidade quantitativa e saltos qualitativos e sobre o permanece: a técnica, embora variada pois movida por fenômenos físicos, sociais ou psíquicos. Assim, não é atual uma luta entre humanismo e tecnologia como fazia, segundo Vieira, Toynbee[iii], pois são falsos dilemas de cada época, manifestados pela ingenuidade.

Obviamente, o progresso é crescente, mas sempre existiu e é sem fim, mas não é a tecnologia o motor da história, que deve ser analisada sem estigma e nem ser endeusada, como um modo de ser do homem a ser analisado pelas categorias lógicas do pensamento crítico.



[i] VIEIRA PINTO, Álvaro. O Conceito de Tecnologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005. O conceito de produção e de era tecnológica. P. 61 e seguintes.

[ii] Vide internet, redes sociais. Vieira cita energia atômica ou arco e flecha, equiparando nossas criações tecnológicas com as antigas embora, claro, com outra qualidade.

[iii] Conforme https://pt.wikipedia.org/wiki/Arnold_J._Toynbee, Arnold Joseph Toynbee (1889 - 1975) foi um historiador britânico, cuja obra-prima é Um Estudo de História, em que examina, em doze volumes, o processo de nascimento, crescimento e queda das civilizações sob uma perspectiva global. 

sábado, 3 de abril de 2021

A era tecnológica como ideologia

Sobre as artimanhas de um discurso enganador[i]

Da dominação. Segundo Vieira Pinto, a ideologia da era tecnológica é criada por meio de sofismas que convertem a obra técnica em valor moral, como se vivêssemos em uma época superior, das máquinas mais estupendas de todos os tempos. Porém, os benefícios são para as camadas superiores, que são santificadas.

É um jogo sofistico que consiste em pautar uma ruptura no processo histórico, mas isso é algo não original, pois ocorreu o mesmo pouco antes do fim do Império Romano, algo que parecia inconcebível. Se somos só nós que podemos dizer que vivemos na civilização tecnológica, o valor moral da técnica adjudica benemerência aos grupos dirigentes. Citando Vieira: “o laboratório de pesquisas, anexo à gigantesca fábrica, tem o mesmo significado ético da capelinha outrora obrigatoriamente erigida ao lado dos nossos engenhos rurais” (p. 42).

Há, também, uma falsa aplicação do conceito de totalidade movida pelo esplendor tecnológico de tomar a realidade em bloco para esconder assimetrias, sejam desigualdades nos setores da sociedade ou entre nações. A “era tecnológica” traz dois pilares: valor ético positivo e silenciar a consciência das massas e nações subdesenvolvidas “como se”[ii] todos tivéssemos privilégio de viver nessa era.

Entretanto, as criações significativas provêm dos grandes centros, o que não passa de uma lei biológica de seleção que exige concentração de recursos econômicos e intelectuais. Diante disso, os países subdesenvolvidos são um “séquito passivo em marcha lenta”, meros consumidores e/ou imitadores.

Vieira Pinto defende que a ideologia visa aumentar a espoliação. Os países ocidentais engendram o universo da técnica, mas fazem as nações pobres acreditarem que estão engrenadas na “era tecnológica”, esmo que por mãos alheias que as impedem de expandir.

Da retaliação. Isso posto, o papel dos filósofos nos países pobres é fundamental. Devem se colocar no papel de analfabetos que mais veem do que leem. É da apreensão do ser social de que fazem parte que aparece a consciência filosófica, como se fossem um analfabeto alfabetizado. Mas Vieira vê uma alienação cultural taxando os intelectuais subdesenvolvidos como tabelião de ideais, não passando de escreventes ao invés de escritores.

Visando não reduzir os problemas do progresso tecnológico aos aspectos técnicos desse domínio, a consciência virá da defesa de nossos recursos ora explorados. Além disso, de mostrar que a totalidade é feita de interesses antagônicos e de luta contra condição subalterna, contra errônea uniformização. Trata-se de uma totalidade de ordem objetiva: uma análise do processo histórico de categorias dialéticas. Se estamos em uma época extraordinária, ela não se da pelo seu caráter absoluto incomparável, mas no curso da história: há originalidade em toda criação de qualquer tempo e lugar, em um processo contínuo.

A filosofia deve dar conta da dualidade do presente que será negado no futuro, é o por vir e o desaparecer, entretanto observa-se na prática uma futurologia feita para preservar tais maravilhas tecnológicas e manter as estruturas, sem ver que o novo e inesperado surge.



[i] VIEIRA PINTO, Álvaro. O Conceito de Tecnologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005. A “era tecnológica” como ideologia - p 41 e seguintes.

[ii] Emprestei de Vaihinger.

terça-feira, 16 de março de 2021

O homem maravilhado

Do maravilhar-se antigo ao contemporâneo[i]

Álvaro Vieira Pinto traz a concepção grega do pensar racional associado ao estado de espanto. É o maravilhar-se, seja no Teeteto, de Platão, com a Íris (filosofia) filha de Taumante (maravilha) ou na Metafísica, de Aristóteles, trazendo o filósofo como amante de mitos, o mito composto de maravilhas.

Entretanto, para Vieira, ao falar dos gregos não faz sentido falar em “origem da filosofia” pois, para ele, ela surge com a capacidade de pensar. O homem antigo, segundo ele, se definia pelo maravilhar-se pelos céus, ordem perfeita, imutável e inexplicável e que, portanto, procurava descobrir suas causas.

Sobre o maravilhar-se, Vieira faz uma digressão, trazendo uma série de traduções deturpadas da Antígona, de Sófocles, que mostram o homem como uma das maravilhas da natureza, corrompendo o sentido original. Segundo Vieira, Sófocles não faz menção à noção de maravilha e a tradução da passagem é: “há muitas coisas terríveis, mas nenhuma é mais terrível que o homem”. A má-fé teria se originado da tradução errada do termo “deinós” como maravilha, ao invés de terrível, no contexto correto da peça .

Porém, a atitude do homem antigo se contrapõe à do homem atual pois, se esse reedita o velho espanto, ele se maravilha diante de suas próprias obras. E Vieira Pinto caracteriza justamente esse novo estado de maravilha como sendo a concepção filosófica ingênua. A chamada “era tecnológica” não passa de um embasbacamento com a ciência moderna e há, segundo Vieira, um exercício de futurologia que não deixa acabar o encanto atual pois, se por um lado, há intenção justa, por outro, há a ideologia da propaganda das grandes nações metropolitanas.

Vieira Pinto analisa o espanto em seu fundamento histórico e social. No início, havia debilidade das forças produtivas e então o homem se impressiona com a natureza material. Acontece que o ambiente rústico se transforma em urbano alterando a função cosmogônica da natureza para o homem. Ao criar uma natureza artificial e ideológica, quem não tem acesso a tal conforto está na pobreza ou atraso. Os objetos de conforto, por exemplo, os meios de transporte, passam a serem vistos como naturais e uma situação como a falta luz já significa anormalidade.

Se o mundo dos objetos é fonte de reprodução indefinida, o espanto pelos objetos artificiais vira ideologia. Eles devem ser substituídos constantemente para não se banalizarem e o próprio maravilhar-se se naturaliza[ii]. Outrora[iii], o assombro era a regularidade da realidade e havia a tentativa de explicar essa ordem, mas a multiplicação de artefatos reduz nossa capacidade de maravilhamento. O espanto já não é mais com o Universo, mas com o próprio “fazer” humano que ocasiona que percamos de vista nossa noção biológica e nos tornemos os criadores do mundo.

Pois que há o pensamento ingênuo que se agarra ao absolutismo de uma época e o crítico como fenômeno histórico e social, mediante o qual se pode ver que sempre os possuidores de bem ideologizam o presente e, no nosso caso, os trabalhadores esperam pelo barateamento dos bens. O pensamento ingênuo faz com que, em seu maravilhamento, os grupos sociais dominantes vejam sua época como privilegiada, como término de um processo de conquistas. Assim, eles sacralizam o presente para evitar a mudança e domesticar o futuro. Evitando falar em transformações políticas e sociais, para eles importa as realizações técnicas sempre progredindo.



[i] VIEIRA PINTO, Álvaro. O Conceito de Tecnologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005. O homem maravilhado - p 29 e seguintes.

[ii] Vieira Pinto cita que apenas quatro meses após a ida a Lua as pessoas já estavam cansadas de reverem a cena.

[iii] Reforçando, quando do fraco desenvolvimento das forcas sociais produtivas.