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domingo, 13 de junho de 2021

Sobre uma era tecnológica que sempre exisitiu

Conta um pouco de nossa história produtiva que, entre avanços e cautela, tem por base uma essência técnica[i]

Álvaro Vieira põe, de um lado, os animais como consumidores do que a natureza lhes oferece e, de outro, os homens que, produtores, têm no sistema nervoso superior a capacidade de projetar e se unir socialmente para produzir. Embora alguns ainda se pretendam consumidores à custa alheia, Vieira ressalta que a produção é a essência de nossa realidade e o que nos permite resolver a contradição com o meio.

Conforme Vieira, “descobrimos, com esta reflexão, que a razão de ser de todo projeto consiste na produção”. E da produção de objetos até a de ideias, ou seja, a cultura por onde a contradição é resolvida pela produção amparada na técnica:

“Ora, obedecer às qualidades das coisas e agir de acordo com as leis dos fenômenos objetivos, seguindo os processos mais hábeis possíveis em cada fase do conhecimento da realidade, é precisamente aquilo em que a técnica consiste”.

Então, sem mistério, é o homem, pela sua origem e pela sua história natural, animal técnico.

É técnica a base da “era tecnológica” que envolve a produção material e ideal (artística, etc.), uma era tecnológica sempre existiu pelas produções técnicas. Se igualam o polimento da pedra e a Revolução Industrial, etc. E a criação humana se expande pelo crescimento do trabalho intelectual que representa o mundo circundante pela abstração.

A técnica, ou tecnologia, é a produção natural humana que, pelo caráter social, intervém no mundo, dadas as condições da época. Quando a ela se agregam tempo e lugar, crenças e valores, tem-se a cultura e conceito de época. As técnicas são as prescrições que asseguram o empreendimento e que são transmitidas hereditariamente.

Segundo Vieira, quanto mais se avança a tecnologia, mais declina a tecnocracia entendida como dispêndio de tempo com afazeres, pois qualquer erro pode ser mortal. É aí, em sociedades primitivas, que invenções técnicas que podem enriquecer as práticas podem representar perigo; cada descoberta traz uma incerteza[ii].

É fundamental o pensamento dialético se debruçar sobre a contradição entre continuidade quantitativa e saltos qualitativos e sobre o permanece: a técnica, embora variada pois movida por fenômenos físicos, sociais ou psíquicos. Assim, não é atual uma luta entre humanismo e tecnologia como fazia, segundo Vieira, Toynbee[iii], pois são falsos dilemas de cada época, manifestados pela ingenuidade.

Obviamente, o progresso é crescente, mas sempre existiu e é sem fim, mas não é a tecnologia o motor da história, que deve ser analisada sem estigma e nem ser endeusada, como um modo de ser do homem a ser analisado pelas categorias lógicas do pensamento crítico.



[i] VIEIRA PINTO, Álvaro. O Conceito de Tecnologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005. O conceito de produção e de era tecnológica. P. 61 e seguintes.

[ii] Vide internet, redes sociais. Vieira cita energia atômica ou arco e flecha, equiparando nossas criações tecnológicas com as antigas embora, claro, com outra qualidade.

[iii] Conforme https://pt.wikipedia.org/wiki/Arnold_J._Toynbee, Arnold Joseph Toynbee (1889 - 1975) foi um historiador britânico, cuja obra-prima é Um Estudo de História, em que examina, em doze volumes, o processo de nascimento, crescimento e queda das civilizações sob uma perspectiva global. 

segunda-feira, 19 de abril de 2021

Para uma filosofia da tecnologia autêntica

Entre o deslumbre e o pensamento historicista [i]

A transformação dos produtos somada à mudança da realidade vigente com base na estrutura econômica e política da sociedade, visa resolver contradições. A tecnologia avança com o desenvolvimento das forças produtivas cifradas no trabalho humano, não se tratando a técnica um substantivo abstrato do qual se contam histórias otimistas ou terrorísticas. É o processo histórico de produção que mostra a relação do homem com a natureza.

O progresso técnico gera uma consciência ingênua que deve ser corrigida pela dialética do processo histórico, pois o novo da técnica de hoje, embora distinto, é algo comum em outras épocas pregressas. Maravilhemo-nos, mas sem o feitiço de miraculosas criações. Entender a tecnologia é o equilíbrio entre o deslumbre e o pensamento historicista.

No surgimento das máquinas, seu significado foi analisado pelos pensadores para opor ou um papel nefasto ou como uma benção dos céus. É a máquina que para eles aparece para análise intelectiva. Passar da reflexão da máquina para a da técnica só ocorre e nosso tempo, adquirindo maior grau de generalidade, embora ambas não se separem metafisicamente pois conectadas dialeticamente.

Então, a compreensão da tecnologia começa pelo exame da máquina como meio de superar as dificuldades da realidade física. E seu processo de criação pelo homem tem suas origens em nossa capacidade de projetá-las.



[i] VIEIRA PINTO, Álvaro. O Conceito de Tecnologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005. “O ponto de partida para a compreensão da técnica e da influência da mecanização do trabalho – p. 49 e seguintes. 

sábado, 3 de abril de 2021

A era tecnológica como ideologia

Sobre as artimanhas de um discurso enganador[i]

Da dominação. Segundo Vieira Pinto, a ideologia da era tecnológica é criada por meio de sofismas que convertem a obra técnica em valor moral, como se vivêssemos em uma época superior, das máquinas mais estupendas de todos os tempos. Porém, os benefícios são para as camadas superiores, que são santificadas.

É um jogo sofistico que consiste em pautar uma ruptura no processo histórico, mas isso é algo não original, pois ocorreu o mesmo pouco antes do fim do Império Romano, algo que parecia inconcebível. Se somos só nós que podemos dizer que vivemos na civilização tecnológica, o valor moral da técnica adjudica benemerência aos grupos dirigentes. Citando Vieira: “o laboratório de pesquisas, anexo à gigantesca fábrica, tem o mesmo significado ético da capelinha outrora obrigatoriamente erigida ao lado dos nossos engenhos rurais” (p. 42).

Há, também, uma falsa aplicação do conceito de totalidade movida pelo esplendor tecnológico de tomar a realidade em bloco para esconder assimetrias, sejam desigualdades nos setores da sociedade ou entre nações. A “era tecnológica” traz dois pilares: valor ético positivo e silenciar a consciência das massas e nações subdesenvolvidas “como se”[ii] todos tivéssemos privilégio de viver nessa era.

Entretanto, as criações significativas provêm dos grandes centros, o que não passa de uma lei biológica de seleção que exige concentração de recursos econômicos e intelectuais. Diante disso, os países subdesenvolvidos são um “séquito passivo em marcha lenta”, meros consumidores e/ou imitadores.

Vieira Pinto defende que a ideologia visa aumentar a espoliação. Os países ocidentais engendram o universo da técnica, mas fazem as nações pobres acreditarem que estão engrenadas na “era tecnológica”, esmo que por mãos alheias que as impedem de expandir.

Da retaliação. Isso posto, o papel dos filósofos nos países pobres é fundamental. Devem se colocar no papel de analfabetos que mais veem do que leem. É da apreensão do ser social de que fazem parte que aparece a consciência filosófica, como se fossem um analfabeto alfabetizado. Mas Vieira vê uma alienação cultural taxando os intelectuais subdesenvolvidos como tabelião de ideais, não passando de escreventes ao invés de escritores.

Visando não reduzir os problemas do progresso tecnológico aos aspectos técnicos desse domínio, a consciência virá da defesa de nossos recursos ora explorados. Além disso, de mostrar que a totalidade é feita de interesses antagônicos e de luta contra condição subalterna, contra errônea uniformização. Trata-se de uma totalidade de ordem objetiva: uma análise do processo histórico de categorias dialéticas. Se estamos em uma época extraordinária, ela não se da pelo seu caráter absoluto incomparável, mas no curso da história: há originalidade em toda criação de qualquer tempo e lugar, em um processo contínuo.

A filosofia deve dar conta da dualidade do presente que será negado no futuro, é o por vir e o desaparecer, entretanto observa-se na prática uma futurologia feita para preservar tais maravilhas tecnológicas e manter as estruturas, sem ver que o novo e inesperado surge.



[i] VIEIRA PINTO, Álvaro. O Conceito de Tecnologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005. A “era tecnológica” como ideologia - p 41 e seguintes.

[ii] Emprestei de Vaihinger.

terça-feira, 16 de março de 2021

O homem maravilhado

Do maravilhar-se antigo ao contemporâneo[i]

Álvaro Vieira Pinto traz a concepção grega do pensar racional associado ao estado de espanto. É o maravilhar-se, seja no Teeteto, de Platão, com a Íris (filosofia) filha de Taumante (maravilha) ou na Metafísica, de Aristóteles, trazendo o filósofo como amante de mitos, o mito composto de maravilhas.

Entretanto, para Vieira, ao falar dos gregos não faz sentido falar em “origem da filosofia” pois, para ele, ela surge com a capacidade de pensar. O homem antigo, segundo ele, se definia pelo maravilhar-se pelos céus, ordem perfeita, imutável e inexplicável e que, portanto, procurava descobrir suas causas.

Sobre o maravilhar-se, Vieira faz uma digressão, trazendo uma série de traduções deturpadas da Antígona, de Sófocles, que mostram o homem como uma das maravilhas da natureza, corrompendo o sentido original. Segundo Vieira, Sófocles não faz menção à noção de maravilha e a tradução da passagem é: “há muitas coisas terríveis, mas nenhuma é mais terrível que o homem”. A má-fé teria se originado da tradução errada do termo “deinós” como maravilha, ao invés de terrível, no contexto correto da peça .

Porém, a atitude do homem antigo se contrapõe à do homem atual pois, se esse reedita o velho espanto, ele se maravilha diante de suas próprias obras. E Vieira Pinto caracteriza justamente esse novo estado de maravilha como sendo a concepção filosófica ingênua. A chamada “era tecnológica” não passa de um embasbacamento com a ciência moderna e há, segundo Vieira, um exercício de futurologia que não deixa acabar o encanto atual pois, se por um lado, há intenção justa, por outro, há a ideologia da propaganda das grandes nações metropolitanas.

Vieira Pinto analisa o espanto em seu fundamento histórico e social. No início, havia debilidade das forças produtivas e então o homem se impressiona com a natureza material. Acontece que o ambiente rústico se transforma em urbano alterando a função cosmogônica da natureza para o homem. Ao criar uma natureza artificial e ideológica, quem não tem acesso a tal conforto está na pobreza ou atraso. Os objetos de conforto, por exemplo, os meios de transporte, passam a serem vistos como naturais e uma situação como a falta luz já significa anormalidade.

Se o mundo dos objetos é fonte de reprodução indefinida, o espanto pelos objetos artificiais vira ideologia. Eles devem ser substituídos constantemente para não se banalizarem e o próprio maravilhar-se se naturaliza[ii]. Outrora[iii], o assombro era a regularidade da realidade e havia a tentativa de explicar essa ordem, mas a multiplicação de artefatos reduz nossa capacidade de maravilhamento. O espanto já não é mais com o Universo, mas com o próprio “fazer” humano que ocasiona que percamos de vista nossa noção biológica e nos tornemos os criadores do mundo.

Pois que há o pensamento ingênuo que se agarra ao absolutismo de uma época e o crítico como fenômeno histórico e social, mediante o qual se pode ver que sempre os possuidores de bem ideologizam o presente e, no nosso caso, os trabalhadores esperam pelo barateamento dos bens. O pensamento ingênuo faz com que, em seu maravilhamento, os grupos sociais dominantes vejam sua época como privilegiada, como término de um processo de conquistas. Assim, eles sacralizam o presente para evitar a mudança e domesticar o futuro. Evitando falar em transformações políticas e sociais, para eles importa as realizações técnicas sempre progredindo.



[i] VIEIRA PINTO, Álvaro. O Conceito de Tecnologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005. O homem maravilhado - p 29 e seguintes.

[ii] Vieira Pinto cita que apenas quatro meses após a ida a Lua as pessoas já estavam cansadas de reverem a cena.

[iii] Reforçando, quando do fraco desenvolvimento das forcas sociais produtivas.

sexta-feira, 5 de março de 2021

Uma introdução ao pensamento de Álvaro Vieira Pinto

Visão geral e alguns conceitos de Álvaro Vieira Pinto[i]

Freitas ressalta que o que permeia os escritos de Vieira Pinto é a enunciação do conceito de trabalho no Brasil. Visto como ideólogo do desenvolvimento e trazendo o léxico cepalino, Vieira se pergunta sobre o que é trabalhar na periferia sob a dominação econômica e cultural do centro.

Nesse sentido, ele valoriza o uso da técnica e tecnologia para substituir o trabalho manual, porém mostra a situação assimétrica na divisão internacional do trabalho que teria deteriorado os termos da troca propostos por David Ricardo. A qualidade de vida está no centro, na periferia estão os exportadores que, donos de uma consciência ingênua, exportam o ser e importam o não ser.

A valorização da técnica aparece no trabalho de Vieira, como bem nos mostra Freitas, no conceito de amanualidade, isto é, quanto mais elaborada a capacidade de trabalhar, mais humanizado o trabalhador. Em Vieira, há uma antropologia que se desloca para a antropomorfia aproximando a forma-homem da forma-trabalho.

Na medida que aumenta a técnica, o trabalhador toma sua consciência e percebe que pode mudar a realidade que tende à imutabilidade nas mãos da consciência ingênua. Quanto mais elaborada a técnica, mais claramente a consciência se expressa. Para Vieira, não há incultura, mas graus de cultura[ii]. Então, se a ferramenta é precária, há o subdesenvolvimento intelectual. A visão de mundo nos é dada pelo trabalho e suas ferramentas.

Vieira Pinto tematizou o trabalho do ponto de vista de quem trabalha, mas para ele a luta de classes era uma contradição secundária. Pela sua ótica internacionalista, a relação entre desenvolvimento e subdesenvolvimento era aviltante e constituía a contradição primária. Vieira via a fase histórica no Brasil como simultânea e não coetânea, sob uma ótica da antropologia existencial do terceiro mundo: nela há vários estamentos sociais históricos coexistindo.

Conforme dito, então, a luta interna pelo desenvolvimento é representada por um pêndulo que oscila entre a consciência crítica [do trabalhador] que acelera e a consciência ingênua [do exportador] que atrasa. Esse ponto de vista fundado no ferramental, conforme entendemos de Freitas, tem um estatuto epistemológico na aquisição de consciência, tratando-se de um empirio-historicismo.

Freitas conceitua Vieira Pinto como um existencialista que também se utiliza de ferramentas analíticas marxianas. Ocorre que ele transforma a noção de consciência marxiana universal em uma existencialista individual[iii]. Na sua morfologia sujeito-trabalho, o homem está em situação, ou seja, ele percebe os limites do sistema social. E é o progresso nas formas de produção que eleva a consciência pelo aumento no nível de instrução e cultura, trazendo nova compreensão da realidade.

Sobre a visão tecnológica, para Vieira Pinto não há uma era tecnológica pois o homem sempre foi tecnológico. E a tecnologia deve servir ao rico e ao pobre. Entretanto, não é só o acesso, mas uma produção social que visa a amanualidade. Ela é acumulação social de conhecimento, conforme citação: “O avião não foi feito para voar, mas para o homem voar”.

Se o trabalho aliena? Segundo Vieira, não, se há apropriação de técnica elaborada pelo trabalhador. Ante o existencialismo heideggeriano, para quem a técnica é um malefício, Vieira traz a proposta do existencialismo da periferia com relação ao centro.



[i] VIEIRA PINTO, Álvaro. O Conceito de Tecnologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005. Notas sobre a introdução de Marcos Cezar de Freitas.

[ii] Assim era como Paulo Freire via o analfabetismo, ele que tinha Vieira Pinto como mestre. O método coloca a realidade no início, há um processo de absorção das imagens da realidade das pessoas, uma imagem concreta do meio.

[iii] Freitas também aborda sua oposição ao aspecto pragmatista e isso, em certo sentido, agrava meu sono dogmático visto que eu estava estudando a filosofia analítica. Trabalhar com TI e ler pragmatismo? Céus!