sexta-feira, 25 de setembro de 2026

A epistemologia do erro

Um passeio pela comunicação precária, primeiro capítulo da obra homônima de André Lemos

Neste primeiro capítulo, no qual trata da comunicação precária, André Lemos traça uma epistemologia do erro tomando como base um mundo errático, já em si mesmo, como ele diz.

O ponto de partida é o retrocesso que houve, desde o otimismo da “rede” dos anos 90 ao cenário atual de precariedade, composto pela plataformização, discursos de ódio e domínio das Big Tech. Não podemos fugir desse assunto, trata-se das ruínas do capitalismo e, pela tríade erros, falhas e perturbações (EFP), Lemos vai buscar rastrear a precariedade da cultura digital.

Para ele, a precariedade pode ser tomada como uma condição planetária, mais ampla do que o objeto técnico. Ela emerge do que ele classifica de “assembleias”, isto é, pela coletividade e que nos permite mapear problemas éticos e políticos da cultura digital. Nesse sentido, não fica preso em uma análise do que é meramente técnico, já que o objeto pode funcionar bem ou mal.

Partindo do diagnóstico de que a cultura digital cria uma visão de mundo, ela, a tecnologia, acaba por se tornar invisível e nos faz acreditar em um mundo como ordem. Ocorre que há miríade de problemas oriundos tanto do humano como do não humano e seu método propõe constatar, por meio de uma ontologia, que o mundo é precário e, a partir disso, o observar com esse viés, através de uma epistemologia. É uma postura onto-epistêmica que evita aceitar as benesses do digital ao reconhecer e identificar seus problemas.

Esse é o ponto que precisamos enfatizar: parte-se de uma “ontologia do precário”, como algo constitutivo do mundo, para, a partir da constatação de que o precário nos constitui, usarmos a epistemologia com a noção de que o conhecimento não deve partir do funcionamento normal, da estabilidade e da ordem para, por fim, usarmos a metodologia de observar erros, falhas e perturbações porque eles revelam relações que permanecem ocultas no funcionamento ordinário.

Contra as promessas da eficiência, Lemos propõe que EFP não são exceções já que o mundo é errático. A nossa vida é composta de pequenos erros e fracassos, ainda que o erro possa ser fruto de um desejo inconsciente, como um ato falho. E ele cita Beckett, como quem levou a questão ao extremo, tocando em temas como a incomunicabilidade e o absurdo da existência.

Por outro lado, ao contrário do escritor irlandês que via o erro como nossa condição, as startups do Vale do Silício negam o erro, usam o fracasso como motivador do sucesso, ao proporem “falhe logo!”, como ele exemplifica. Ali o precário é visto como acidental. Já o neomaterialismo procura corrigir essa falha epistemológica. Sim, o produto quebra e quando isso ocorre sentimos surpresa ou frustração.

Tratando da etimologia, o autor nos informa que erro remete a desvio ou engano, mas na sua base significa vagar. Como exemplo, ele cita Rousseau (século XVIII – Devaneios do Caminhante Solitário), sua errância e busca pelo autoconhecimento. Trata-se da metáfora do caminhar como ato filosófico. Seguindo adiante, na ciência moderna (século XIX), o erro também pode ser formalizado como desvio em relação a uma medida ou expectativa. Gauss desempenha papel fundamental na teoria dos erros, nesse campo. Aqui, porém, o desvio não apenas indica uma diferença em relação ao esperado, algo que precisa ser corrigido, mas passa a fazer parte da própria medição empírica.

A partir dos anos 1980, ele denomina a “virada imperfeita” como momento de estudo de objetos quebrados. Constata-se a imprecisão inerente à comunicação e à cultura digital em rede, evidenciada nos chamados “estudos da mídia maligna”. Ora, tudo quebra e os objetos aparecem como caixas pretas que guardam problemas invisíveis. Entretanto, se os defeitos revelam relações sociotécnicas em redes complexas que envolvem múltiplos atores, EFP recebem pouca atenção das teorias sociais. E complementa que uma epistemologia do erro é capaz de evidenciar o modo de funcionamento operacional de um sistema.

Voltando para a comunicação precária, então, a comunicação humana é errática e as mensagens que são trocadas inevitavelmente sofrem degradação. Por detrás das mediações sociotécnicas que parecem funcionar bem, há perturbações e incompreensões. Vejamos o caso das ciências da comunicação: analisa-se o erro do ponto de vista da engenharia (ruído no canal, entropia) e da filosofia (dialética, desentendimento). Já pela linguística há o problema da interpretação.

Nessa área, há bastante destaque para Niklas Luhmann, que aborda nossa dificuldade em compartilharmos ideias procurando mostrar que a nossa comunicação é improvável. Mas, para fazermos uma epistemologia do precário, não podemos excluí-lo, ao contrário, devemos partir disso. Na esteira de Luhmann, Nöth dirá que não há troca mútua de ideias porque as mentes dos envolvidos são sistemas fechados (tema que dialoga diretamente com as reflexões sobre o entendimento como ato privado). Para Nöth, a comunicação livre é um mito europeu, relacionado à ideia de conhecimento universal e afins.

Luhmann discorrerá sobre a comunicação e sua teoria propõe que ela constitui a sociedade como um sistema autopoiético, ou seja, como um sistema fechado de comunicação autorreferencial que se reproduz e organiza a si mesmo de forma contínua. E volta a ideia de que a percepção do outro é opaca. Citando: “O entendimento nunca é uma simples transferência de um enunciado para o receptor” (p. 25). Para Luhmann, a comunicação se dá sobre três pilares: informação, enunciação e compreensão. Mas a compreensão não significa necessariamente que o receptor apreenda a mensagem da forma pretendida pelo emissor.

Nota sobre Autopoiese em Niklas Luhmann: O conceito de autopoiese é oriundo da biologia (desenvolvido por Humberto Maturana e Francisco Varela) e foi adaptado por Luhmann para explicar a teoria dos sistemas sociais. Para aprofundar o entendimento desse conceito e seu papel na comunicação autorreferencial, recomenda-se a leitura do ensaio Niklas Luhmann: What is Autopoiesis?.

Inclusive, e isso nos toca já que tratamos das teses de Habermas no ensaio sobre o entendimento a serviço da comunicação na série EFEVMO-ME, Luhmann critica a Teoria da Ação Comunicativa (TAC) por entender que ela seria empiricamente falsa ao pressupor que uma busca pelo consenso é mais racional do que pelo dissenso.

Ainda no campo das teorias da comunicação, Lemos trata da cibernética – área associada a Simondon e a autores como Shannon e Wiener. No caso de Shannon, ele investiga o ruído presente nas trocas de mensagens, partindo da noção de entropia emprestada da física. Já em Wiener, o desvio pode alimentar um processo de feedback que permite a correção do sistema, dimensão que também exploramos na discussão sobre futuridade e os conceitos de Massumi. Pelo lado da cibercultura, vemos que a “internet cresceu quebrando” ao esbarrar nos limites dos protocolos e da infraestrutura.

Sobre sistemas algorítmicos, erros suscitam controvérsias fazendo com que os dados ofereçam explicações. Quando um sistema de Machine Learning erra, ele revela dimensões éticas e políticas escondidas. Então, de posse da metodologia do precário, os erros algorítmicos, para além de evidenciarem os limites das previsões produzidas a partir dos dados, podem adquirir uma função epistemológica: abrir caixas-pretas que escondem pressupostos. Se tudo funciona conforme o esperado, as mediações permanecem frequentemente invisíveis; o erro, ao contrário, pode torná-las perceptíveis.

A precariedade como questionamento aparece nas artes, na Glitch Art, um dos últimos tópicos abordados por Lemos nesse capítulo. É uma prática artística que explora, esteticamente, as fissuras da tecnologia, seja por EFP intencionais ou acidentais. É o fracasso como estética, que aparece na música associado a ritmos como techno, house e drum and bass. Isso se vê em exemplos da arte de vídeo e artes plásticas explorando interferências visuais, ruídos e objetos funcionais. Tomado como operador metodológico, o glitch questiona os valores da sociedade industrial e informacional.

Por fim, Lemos destaca como o erro aparece na teoria comunicativa para revelar problemas sociais como privacidade, soberania e desinformação. Olhar com cuidado para as mediações enfatiza a distância existente entre o remetente e o destinatário. O erro deve convocar a ação e, por meio de uma epistemologia do erro, podemos reconhecer que o mundo é errático e superarmos a visão antropocêntrica, que subestima a importância dos objetos técnicos.

Terminamos com o chamado de Haraway, citado na conclusão do capítulo: “ficar com o problema” e não querer fugir para um local seguro. A partir desse panorama, reconhecemos a dimensão coletiva do erro, e ele passa a ser não um acontecimento a ser corrigido, mas algo a ser investigado epistemológica e ontologicamente.



Referências

LEMOS, André. A comunicação precária. Lisboa/São Paulo: Edições 70, 2025.

PHILIPPOPOULOS-MIHALOPOULOS, Andreas. Niklas Luhmann: What is Autopoiesis? Critical Legal Thinking, 2022. Disponível em: <https://criticallegalthinking.com/2022/01/10/niklas-luhmann-what-is-autopoiesis/>. Acesso em: 2026.

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