Quando o entendimento emerge de práticas
intersubjetivas do mundo da vida[i]
1. Sobre Habermas[ii].
Jürgen Habermas pertenceu à segunda geração da Escola de Frankfurt e à tradição
da teoria crítica, sendo considerado um dos mais importantes filósofos e
teóricos sociais do pós-Segunda Guerra Mundial. Segundo a SEP, seu trabalho
abrange três grandes projetos: teoria social, ética do discurso e teoria
deliberativa do direito e da democracia. Sua proeminência decorre especialmente
do desenvolvimento da teoria da ação comunicativa, da noção de esfera pública e
da defesa de uma racionalidade comunicativa voltada ao entendimento
intersubjetivo, que renovaram a teoria crítica e influenciaram profundamente a
filosofia, a sociologia e a teoria política contemporâneas.
2. Habermas no blog[iii].
Aparece como sendo responsável pela transição da razão instrumental para a
razão comunicativa, focada no entendimento mútuo e na convergência racional no
espaço público. Sua proposta de pragmatismo formal substitui a de um sujeito
transcendental isolado por práticas linguísticas e sociais no mundo da vida,
onde a validade das normas e a verdade são estabelecidas por meio da
intersubjetividade e da argumentação entre interlocutores. Além disso, Habermas
defende um realismo pragmático, sustentando que, embora o mundo exista de forma
independente, os fatos e o conhecimento sobre ele são construídos e validados
linguisticamente através de processos de aprendizagem contínuos e falíveis.
3. Habermas na perspectiva da nossa série[iv].
Jürgen Habermas dialoga com os autores da série efevmo-me ao propor a transição
do paradigma da consciência individual para o da intersubjetividade,
substituindo tanto o cogito privado de Descartes e a razão transcendental
isolada de Kant por práticas linguísticas situadas no mundo da vida. Enquanto
Kant fundamenta a moral na razão prática universal do sujeito, Habermas a
socializa, defendendo que a validade das normas e a verdade dependem de
justificações racionais reconhecidas entre interlocutores no espaço público.
Em oposição ao materialismo de Marx, que
enfatiza a influência das condições materiais e econômicas na formação da
consciência, Habermas resgata o potencial emancipador da razão comunicativa
para salvar a democracia. Além disso, ele converge, em certa medida, com
Sellars ao entender que o entendimento não é um dado imediato ou passivo, mas
um ingresso no espaço das razões que exige assumir compromissos normativos e
práticos.
4. Nossa máxima sobre o ponto de vista de Habermas. Em
termos habermasianos, a nossa máxima “Eu falo e você me ouve, mas entende?” passa
pelo núcleo da teoria da ação comunicativa. Para ele, ouvir não é ainda
compreender, e compreender não é ainda entender-se (verständigung[v]). Vejamos.
5. Ouvir não é compreender, nem tampouco
alcançar entendimento mútuo. Para Habermas, a linguagem não é
primariamente transmissão de conteúdos mentais, mas coordenação intersubjetiva
da ação. Assim, quando eu digo “Eu falo e você me ouve”, isso descreve apenas
um fato empírico, um evento acústico-perceptivo que está longe da pergunta
decisiva “você entende?”. Em Habermas, há uma distinção entre entender o
significado linguístico (sinnverstehen[vi]) e aceitar a pretensão de
validade do que foi dito. Portanto, o verdadeiro entendimento não é
psicológico, mas normativo e intersubjetivo.
6. Entender é reconhecer pretensões de
validade. Os atos de fala, segundo Habermas, levantam
pretensões de validade. Quando falamos, nos comprometemos com inteligibilidade,
verdade, correção normativa e sinceridade[vii]. Nessas pretensões,
cabem as perguntas: “o meu enunciado é compreensível?”; “o conteúdo
proposicional é verdadeiro?”; “o que falo é apropriado segundo normas
compartilhadas?”; “o falante (eu, você) é autêntico?”.
Logo, a máxima poderia ser reformulada em
termos habermasianos assim: “Eu produzo um ato de fala; você o decodifica. Mas
você reconhece ou está disposto a reconhecer as pretensões de validade que eu
levanto?” Se a resposta for “não”, então não houve entendimento comunicativo,
mesmo que tenha havido compreensão linguística.
7. Entendimento não é acordo, mas
possibilidade de acordo. Cabe enfatizar que, para Habermas,
entender não significa concordar. O entendimento ocorre quando as pretensões de
validade são claramente levantadas, e podem ser aceitas ou criticadas
racionalmente. Isso significa que alguém pode entender perfeitamente o que eu
disse e rejeitar o que foi dito, sem falha comunicativa. Ela ocorrerá quando o
horizonte linguístico não for compartilhado ou quando uma das partes não se
reconhece como participante simétrico do discurso[viii].
8. Mundo da vida e horizontes de sentido.
A nossa pergunta também aponta para o mundo da vida (lebenswelt[ix]). Eu posso falar e você
me ouvir, mas você pode não compartilhar comigo as mesmas pressuposições
culturais, normas, ou formas de racionalidade. Nesse caso, o problema não é
cognitivo, mas hermenêutico-social: os horizontes de sentido não se sobrepõem
suficientemente. Desse modo, “não entender” pode significar que não se sabe o
que está em jogo no ato de fala, ou que não se reconhece porque aquilo importa
naquele contexto.
9. Diagnóstico habermasiano da nossa
máxima. Habermas diria que a nossa máxima revela uma ilusão
comunicativa moderna, ou seja, revela a ideia de que a comunicação bem-sucedida
é garantida pela simples emissão e recepção de sinais. Entretanto isso seria
típico de uma concepção instrumental da linguagem, que ignora sua dimensão
normativa e intersubjetiva. Em termos fortes, Habermas diria que você pode
falar, eu posso ouvir, e ainda assim não nos entendermos. Isso ocorreria porque
o entendimento não está no som, nem na mente, mas na possibilidade de
justificação recíproca.
10. Em forma de máxima habermasiana.
Nossa máxima sob o escrutínio de Habermas soaria como “Eu falo e você me ouve;
mas só nos entendemos se pudermos justificar racionalmente o que dizemos um ao
outro.”. O que pode ser resumido como: “Ouvir é um fato; entender é entrar em
um processo de justificação intersubjetiva.”
[i] Essa postagem é mais uma da série
EFEVMO-ME, feita com insights de IA, mas revisada por humano. É como se a IA
fosse o filósofo que a gente inquiri tentando obter uma resposta que nos
conforme, mas, ao contrário, cada vez mais abre o campo investigativo.
[iii] Com base no histórico do Blog,
entre outras: Habermas e a epistemologia após o giro linguístico-pragmático
(2026): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/03/habermas-e-epistemologia-apos-o-giro.html,
RIP Habermas (2026): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/03/rip-habermas.html,
O entendimento como questão transcendental (2026): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/01/o-entendimento-como-questao.html,
Hume anti cartesiano (2015): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2015/10/hume-anti-cartesiano.html.
[iv] Idem. Outros links: O entendimento
como ato privado do pensamento (2026): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/01/o-entendimento-como-ato-privado-do.html,
As condições materiais que tornam o entendimento possível (2026): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/01/as-condicoes-materiais-que-tornam-o.html,
O entendimento contra o dado (2026): https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/03/o-entendimento-contra-o-dado.html.
[v] Verständigung, conforme ChatGPT, significa,
exatamente, chegar a um entendimento – algo que nossa série investiga. Na
teoria da ação comunicativa, por um lado há uso da linguagem para influenciar
ou persuadir (ação estratégica) e, por outro, há uso da linguagem para alcançar
verständigung (ação comunicativa). É um pouco disso que essa nossa reflexão
apresenta. Ação estratégica: https://revistaseletronicas.pucrs.br/veritas/article/view/8691/9031,
para vermos.
[vi] Sinnverstehen é o
entendimento do significado, oriundo da tradição hermenêutica alemã (Weber).
Então, se verständigung é entendimento mútuo com o outro, sinnverstehen é entender
o que foi dito (o significado). Conforme exemplo do ChatGPT, se eu digo “Está
frio aqui”, você pode entender o significado da frase, mas não entender a
intenção (pedido para fechar a janela, por exemplo). Assim, sinnverstehen está
no campo da compreensão semântica, isto é, no nível linguístico e verständigung
já vai para um entendimento comunicativo intersubjetivo, qual seja, nível
pragmático e comunicativo. Idealmente precisaríamos nos aprofundar na relação
Weber-Habermas: https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/76186/103945.pdf?sequence=1&isAllowed=y.
[vii] Aqui (https://ambitojuridico.com.br/a-teoria-discursiva-de-juergen-habermas/)
as quatro pretensões são tratadas: “Nos atos de fala consensuais, ou seja,
aqueles que são estabelecidos visando um consenso, um acordo sobre dado
assunto, se pressupõe o reconhecimento mútuo de quatro pretensões de validade: Primeiramente,
eu, como falante, tenho que escolher uma expressão inteligível para que meu
ouvinte possa me entender. Então a primeira pretensão se refere à compreensão
entre o falante e o ouvinte ou ouvintes. A segunda pretensão é que o conteúdo
que eu comunico seja verdadeiro. A terceira pretensão é que a manifestação de
minhas intenções seja sincera, para que o ouvinte possa crer no que manifesto,
basicamente, possa confiar em mim. E a última estabelece que eu, falante, tenho
que escolher a manifestação correta, com relação às normas e valores vigentes
na sociedade, para que o ouvinte possa aceitar a minha manifestação, de modo
que eu e o ouvinte possamos coincidir entre si no que se refere à essência
normativa em questão.”
[viii] Para Habermas, a comunicação
orientada ao entendimento (verständigung) pressupõe que os participantes tenham
igual oportunidade de falar e não estejam sob coerção ou dominação, conforme vimos
em RIP Habermas (2026) (em oposição a Bourdieu).
[ix] Lebenswelt é o horizonte compartilhado de significados culturais, normas sociais e competências comunicativas que torna possível o entendimento intersubjetivo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário