Jürgen Habermas (18/06/1929 – 14/03/2026) foi um dos
mais importantes filósofos do século XX. Em uma live tributo em sua homenagem,
o professor Clóvis de Barros Filho aprofunda alguns de seus principais
conceitos[i]
De acordo com Clóvis de Barros, Habermas,
nascido no ano de 1929, é um pensador associado a Escola de Frankfurt e um dos
mais importantes do século XX. Participante da segunda geração do movimento,
que sucedeu a Horkheimer e Marcuse, pode ser considerado menos pessimista do
que eles, principalmente no que tange ao mundo da técnica.
Habermas
estaria mais associado a uma visão iluminista e encantada com as possibilidades
humanas, ressaltando a noção de espaço público.
Ocorre que os primeiros autores da Escola de Frankfurt traziam duas
noções de racionalidade, uma instrumental e ligada aos meios e às técnicas de
desenvolvimento. A razão instrumental lida com o que é preciso para atingirmos
aquilo que queremos alcançar, continua Clóvis de Barros, e ela estaria em seu
apogeu naquela época, mas as custas do empobrecimento da razão objetiva, essa
segunda foca nos fins ao passo que a primeira nos meios.
O professor Clóvis de Barros salienta,
entretanto, que o meio só é bom se permite atingir o fim desejado, então, de
que adianta aperfeiçoarmos as técnicas se isso não contribuirá para uma vida
boa ou sociedade mais justa? Ora, nesse cenário, os instrumentos acabam por
serem fins em si mesmos. Isso posto, o professor argumenta que Habermas traz a
originalidade da razão comunicativa ou comunicacional, que entende que há um
desenvolvimento da inteligência humana que busca alcançar uma comunicação mais
pujante[ii].
A razão comunicativa se volta para a
intersubjetividade e a coletiva e se pergunta pelas técnicas que seriam boas
para irmos mais além. A busca de soluções se orienta por meio de conversas e
Habermas enfatiza o espaço público como local onde se pode discutir questões
que interessam à pólis. Ali, não importa quem você é, mas a produção de um discurso
que seja racional, lógico e relevante, segundo Clóvis de Barros, permitindo convergência.
O professor, entretanto, abre um
contraponto ao trazer a visão de Bourdieu para quem é impossível separar o que
é dito de quem disse, no “mundo da vida”[iii]. Isso porque há um
capital social que é decisivo na aceitação do discurso e a legitimidade deste é
chancelada por aquele.
Mas, a proposta de Habermas dá voz para as
pessoas e tenta salvar um tipo de democracia que nasce de um espaço no qual a opinião
pública informa os agentes de estado sobre o que a sociedade está pensando. Como
a relação representante-representado não dá conta das demandas, esse espaço de
participação funciona como mediação, embora seja um espaço de argumentação no
qual um argumento pode ser pior do que outro e suplantado.
Não podemos nos esquecer, seguindo na argumentação
de Clóvis de Barros, que o surgimento dos meios de comunicação de massa abala
esse espaço já que lá o debate não visa os melhores argumentos. Ao contrário, na
televisão a lógica que impera é a do espetáculo e da persuasão já que é a audiência
que importa e ela aumenta com a hostilidade de confronto entre os outros.
Outro ponto que Clóvis ressalta é que, em outros
tempos, houve muito mais congruência de valores e concordância entre as pessoas.
Por exemplo, como o culto a um único e mesmo Deus. Lá, face a tamanha certeza
não havia espaço para divergências. Mas, de acordo com Habermas, as condições
macro para este tipo de ambiente deixaram de existir então passa a ser melhor
conseguir uma convivência saudável em um mundo que está repleto de crenças e convicções
estilhaçadas.
Já que há dificuldade de acordo no campo
dos valores, este deveria ser buscado, na visão de Habermas apresentada por
Clóvis, na esfera procedimental de regras. Sem nos esquecermos de que se nossas
crenças não são aceitas, também temos que saber lidar com as frustrações. É a adequação
aos mecanismos que torna a convivência plural possível – fazendo de Habermas,
grande pensador no campo da legitimidade das normas.
Para Habermas, conforme Clóvis, haveria dois
princípios: o do discurso, habilitando a todos possibilidades de se manifestar
abertamente, mas dentro de uma base de conhecimento que seja compartilhada e
acessível através do uso de certa racionalidade; e o da universalização, frisando
que há um “outro” – aquilo que é dito deve ser aceito por qualquer um.
Essa conceituação habermasiana é algo
muito próximo do imperativo categórico kantiano[iv], avalia Clóvis. Porém, em
Kant é fundamento de uma moral individual, mas em Habermas a moral é
intersubjetiva, porque é conversando com os outros que encontramos os
argumentos universais. É saindo da razão prática ensimesmada, através do diálogo
que os argumentos são aperfeiçoados. Se há uma complexidade de valores de
difícil coesão, os temas devem ser debatidos do espaço público em busca de acordo.
[i] Notas sobre https://www.youtube.com/live/-NezCcgzeGQ?si=-V8OfyjPpgY6AGaZ
essa homenagem.
[ii] A razão comunicativa se vale da
explicação e do diálogo quando persegue o entendimento e, aqui, vale os
parênteses de ressaltarmos que Habermas já seria o próximo autor de nossa série
justamente quando de sua passagem e dessa homenagem. Série EFEVMO-ME, que pode
ser acompanhada nos links https://bit.ly/efevmo-me-blog
e https://bit.ly/efevmo-me-yt. O mais
legal é que Clóvis fala da questão de alcançarmos o entendimento juntos e isso
é um ponto que pode nortear Habermas na série.
[iii] Lembremos: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2015/01/colocando-agua-no-capital-cultural.html.
O texto compara o capital cultural de Pierre Bourdieu aos três estados da água.
O capital cultural incorporado é como a água líquida (internalizado na pessoa),
o objetivado é como o vapor (bens culturais que dependem de quem os
compreende), e o institucionalizado é como o gelo (diplomas e certificados). A
ideia central é que o capital cultural herdado pelas classes sociais influencia
o desempenho escolar e ajuda a reproduzir desigualdades, já que a escola
valoriza e legitima esse capital prévio.
[iv] Sobre o imperativo categórico, entre outros textos há algo aqui: “Transição da Metafísica dos Costumes para a Crítica da Razão Prática Pura” - https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2016/04/transicao-da-metafisica-dos-costumes.html. Na Fundamentação da Metafísica dos Costumes, a transição para a Crítica da Razão Prática mostra que a liberdade é a base da moralidade: o ser racional pertence ao mundo sensível (causalidade natural) e ao mundo inteligível (autonomia da vontade). Assim, o imperativo categórico surge como uma lei moral sintética a priori, válida porque devemos nos pensar livres, embora não possamos explicar empiricamente como a liberdade é possível — esse é o limite da filosofia prática em Immanuel Kant.
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