terça-feira, 31 de março de 2026

Habermas e a epistemologia após o giro linguístico-pragmático

Aborda o pragmatismo formal de Habermas que traz a linguagem como horizonte do entendimento e substitui o sujeito transcendental por práticas linguísticas e sociais no mundo da vida [i]

* * * Ponto de partida: a virada linguística * * *

Linguagem como horizonte do entendimento. É pela organização gramatical da linguagem que nos comunicamos e somos guiados na nossa conduta no mundo da vida. A linguagem o articula e ele é horizonte de interpretações e alvo do entendimento. O saber interpretativo que ocorre nas atitudes proposicionais possui uma semântica lógica e estrutura a racionalidade comunicativa, mas está suscetível a revisão e aprendizado contínuo que renova um saber anterior à linguagem.

A virada pragmática da linguagem. Através do giro linguístico-pragmático a linguagem perde pretensão de conhecimento porque o saber linguístico sobre o mundo é contextual e se dá na ação racional de sujeitos falíveis. Araújo nos lembra que a semântica veritativa de Frege e Wittgenstein (o primeiro) é redirecionada pela semântica pragmática, na qual atos ilocucionários se orientam pela ação[ii]. E os atos de fala que ocorrem em um contexto normativo devem ser aceitos como válidos pelo destinatário. O uso comunicativo da linguagem é pautado por pretensões de validez que podem ser examinadas pelos participantes da situação discursiva.

Validade e compreensão comunicativa. Araújo argumenta que uma teoria pragmática do significado requer o conceito de validez que leve à compreensão, superando as condições de verdade da semântica veritativa. A compreensão do ato de fala depende da clarificação das razões que levarão ao sucesso tanto ilocucionário quanto perlocucionário. Ela reforça que, pela virada linguístico-pragmática, a linguagem visa o entendimento e isso se dá pela triangulação entre a “expressão linguística como exposição e como ato comunicativo, o mundo e o destinatário” (p. 119). Conforme citação, toda a filosofia analítica[iii], mesmo depois da virada linguística, ainda se mantem presa no primado da asserção e de sua função expositiva como caso paradigmático.

Verdade como entendimento intersubjetivo. Para Habermas, a comunicação não transmite apenas pensamentos (p”), mas fatos compartilháveis (“que p”), cuja verdade depende de justificações racionais intersubjetivamente reconhecidas, ligando o significado da linguagem às condições de seu uso bem-sucedido no entendimento entre interlocutores.

* * * A reconstrução pragmática do conhecimento * * *

O retorno do transcendental pragmático. Araújo destaca que Habermas pretendia, pelo pragmatismo formal (em 2004), se haver com os fatores epistêmicos, condições transcendentais do conhecimento, que ele deixara em segundo plano ao tratar da linguagem do ponto de vista sociológico. E faz isso pela TAC, já que é indispensável tratar das pretensões de validez[iv].

Da subjetividade ao mundo da vida. A investigação transcendental de Kant, fundada no sujeito autorreferente e em juízos a priori, é deslocada por Wittgenstein para as regras provenientes do uso da linguagem em suas práticas. Habermas, após o giro linguístico-pragmático, procura pelos traços invariantes dessas práticas e substitui o acesso “ao dado” como critério de certeza da faculdade subjetiva da sensibilidade pelo acesso mediado pela linguagem e intepretação da experiência. Assim, passa-se da representação por uma mente baseada em juízos para um sujeito atuante que produz conhecimento por tentativas e erros, pragmaticamente. A teoria do conhecimento passa a explicar processos de aprendizagem inseridos no mundo da vida, onde práticas sociais, linguagem e experiência estruturam as condições do conhecimento.

Ação e conhecimento nas práticas sociais. No mundo da vida, há ações linguísticas e não linguísticas guiadas por regras, ambas com conteúdo proposicional: as primeiras voltadas à comunicação e objetivos ilocucionários, e as segundas ao êxito na intervenção no mundo. Há também ações sociais, orientadas por regras normativas, e ações não-sociais, de cunho estratégico. Nesse contexto, Habermas faz convergir razão teórica e prática, influenciado pelo pragmatismo norte-americano, pelo aprendizado por experiências de Piaget e pelos jogos de linguagem do segundo Wittgenstein, situando o conhecimento nos esforços comunicativos realizados no mundo da vida constituído intersubjetivamente.

Aprendizagem na resistência do mundo. Há um mundo objetivo ao nosso dispor, que pode ser objetivado tanto pela ação instrumental, guiada pelo saber tecnológico, quanto pela ação comunicativa. Nessas intervenções práticas, tanto a ação quanto a pretensão de verdade dos enunciados podem falhar, exigindo argumentação e aprendizado a partir da resistência do mundo. Assim, em vez de um sujeito transcendental que constitui o mundo, há sujeitos que se referem a um mesmo mundo objetivo, compartilhado intersubjetivamente, tanto na ação prática quanto na comunicação.

* * * O transcendental pós-kantiano * * *

O transcendental na intersubjetividade. O pragmatismo de Habermas pretende superar a dicotomia entre empírico e transcendental, própria das filosofias da consciência, sem renunciar ao problema transcendental, como teriam feito Dewey e Wittgenstein. Essa dicotomia dá lugar ao paradigma da intersubjetividade, no qual se articulam a perspectiva dos participantes, inseridos numa rede de práticas do mundo da vida, e a perspectiva do observador em terceira pessoa. Em Kant, o transcendental diz respeito ao entendimento de um eu transcendental; para Habermas, ele está presente nas formas de vida culturais. Assim, as condições transcendentais estão no próprio mundo da vida, cuja objetividade resulta “das necessidades da experiência e do exercício linguístico com suas pretensões de validade” (p. 124). Dessa forma, a visão deflacionada do transcendental mitiga o ceticismo de saber com certeza se há correspondência entre mente que conhece e mundo conhecido, idealmente a priori.

Universalidade sem necessidade. Mas Habermas não é um contextualista radical, como Kuhn ou Rorty, pois defende que existem traços transcendentais presentes em todas as culturas, como estruturas linguísticas, forma proposicional, atos ilocucionários e regras epistêmicas. Esses traços são universais, mas não necessários, pois pertencem ao mundo e decorrem de práticas aprendidas.

Contra o representacionismo. Habermas critica o modelo representacionista (mente como espelho de objetos) ao entender que o conhecimento é ação inteligente e que a função expositiva da linguagem ocorre em contextos de justificação discursiva. Como os participantes aprendem e corrigem erros por meio da argumentação, os fatos são encadeados por estruturas transcendentais que resultam de processos de aprendizagem e formam as próprias formas de vida.

O pragmatismo kantiano de Habermas. Araújo nos mostra que Habermas adota um pragmatismo de estilo kantiano no qual a linguagem funciona como forma pura a priori transferindo o papel transcendental da subjetividade para as condições intersubjetivas da interpretação e do entendimento no mundo da vida.

* * * Consequências epistemológicas * * *

Naturalismo mitigado e evolução do saber. Para Habermas, há continuidade entre natureza e cultura, mas sem redução de uma à outra, o que o leva a propor um naturalismo mitigado e um realismo pragmático. Esse naturalismo leva em conta processos de aprendizagem progressivos que formam estruturas transcendentais de aprendizagem, baseadas em procedimentos pragmáticos universais. Nesse processo, o mundo é progressivamente objetivado ao longo da evolução cultural e antropológica, possibilitando o incremento do saber com valor cognitivo. Contudo, esse valor não se reduz à experiência direta nem a explicações naturalísticas, pois depende das práticas do mundo da vida e dos processos intersubjetivos de aprendizagem.

Realismo intersubjetivo. A epistemologia realista de Habermas busca superar a oposição entre realismo e nominalismo ao defender um mundo objetivo acessível intersubjetivamente. Esse mundo atende a dois requisitos: o epistêmico, mediado pela linguagem no horizonte do mundo da vida, e o ontológico, no qual a realidade independente da linguagem limita a prática. Assim, os fatos não estão dados no mundo, mas se constituem por meio de enunciados cuja validade é estabelecida linguisticamente. Essa validade é distinta da existência dos objetos extralinguísticos, o que leva Habermas a rejeitar tanto o realismo conceptual quanto a metafísica neopositivista do dado[v].

Experiência como aprendizagem social. Contra o realismo que reduz a experiência à percepção sensorial, Habermas entende a experiência como ação de indivíduos socializados, orientada à solução de problemas e aos processos de aprendizagem.

Falibilismo e referência compartilhada. A teoria da figuração e a semântica veritativa não explicam o falibilismo, pois ignoram a relação entre experiência e construção do conhecimento. Para Habermas, o mundo pode frustrar expectativas e o saber é permanentemente revisado nas práticas do mundo da vida. Assim, ele propõe uma divisão de trabalho entre realismo e nominalismo: há objetos independentes da linguagem, mas sua referência surge pragmaticamente na prática linguística compartilhada, formando sistemas comuns de referência, como mostrou Putnam.

Mundo independente e verdade discursiva. Habermas sustenta que o mundo é independente das descrições, embora o acesso a ele ocorra por meio de paradigmas e práticas comunicativas que orientam a aprendizagem. A referência semântica surge dessas práticas, mas não basta para fundamentar a verdade, que depende de condições epistêmicas e de processos discursivos baseados em razões.



[i] Notas resumo de Habermas e a questão epistemológica, terceiro tópico de “A natureza do conhecimento após a virada linguístico-pragmática” em  https://periodicos.pucpr.br/aurora/article/view/1483/1414. De autoria de Inês Lacerda Araújo. O terceiro tópico tem três itens, mas aqui tratamos apenas do segundo, os outros dois virão a seguir.

[ii] Lembrar de nossa resenha da primeira parte do artigo: A queda: quando o sujeito se torna interlocutor: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/01/a-queda-quando-o-sujeito-se-torna.html

[iii] Tsc tsc: até o pobre Davidson que tem uma teoria da triangulação e Sellars-Brandom estão aí inclusos, isso é coisa para verificarmos. Excluiu o segundo Wittgenstein e seus nada ortodoxos discípulos, como Georg Henrik von Wright)

[iv] Passa pelas obras "Conhecimento e Interesse" e "Verdade e Justificação".

[v] Habermas está discutindo duas posições, vamos a elas. Para o realismo, o mundo já estaria estruturado em fatos, que seriam descritos por proposições. Assim, os fatos já existiriam prontos no mundo, por exemplo, “A cadeira é vermelha”, quer dizer que o fato “cadeira vermelha” já estaria no mundo, pronto para ser descrito. Por outro lado, para o nominalismo, existem objetos extralinguísticos (cadeira, mesa, árvore) que limitam o que podemos dizer. Desse modo, os fatos só surgem quando fazemos enunciados porque os objetos existem fora da linguagem, mas os fatos dependem dela. Então, existe uma cadeira (objeto extralinguístico que existe independentemente) mas fatos como “A cadeira é vermelha” ou “A cadeira está quebrada”, só surgem quando fazemos enunciados, linguisticamente. Nesse contexto, dirá Habermas, o mundo resiste (realismo) mas o conhecimento é linguisticamente mediado (virada linguística). São 3 passos, primeiro podemos entender que há realidade independente, isto é, objetos existem sem linguagem; segundo: os fatos são construídos linguisticamente, eles não existem sem linguagem; terceiro, a validade depende da argumentação quando a verdade depende de validação intersubjetiva. Em uma frase, conforme o ChatGPT: “Para Habermas, o mundo existe independentemente da linguagem, mas os fatos e o conhecimento sobre ele só surgem através de enunciados linguisticamente validados”. 

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