terça-feira, 17 de março de 2026

O entendimento contra o dado

Quando entender passa por assumir compromissos

1. Sobre Sellars[i]. Wilfrid Sellars foi um dos mais importantes filósofos do movimento da filosofia analítica do século XX, integrando e reformulando tradições como o realismo crítico[ii], a epistemologia naturalista e a crítica ao fundacionalismo dentro desse quadro analítico[iii], em oposição ao “mito do dado” e à ideia de conhecimento imediato[iv]. Sellars tornou-se proeminente por sua crítica sistemática à noção de dados epistemológicos não inferenciais[v], pela distinção entre a imagem manifesta e a imagem científica do mundo[vi] e por articular uma forma inovadora de semântica funcional/inferencialista[vii], influenciando debates em epistemologia, filosofia da mente e da linguagem no pós-guerra.

Breves notas[viii]. Cabe ressaltar que há vários tipos de dados: dado epistêmico, categorial, etc. Há várias camadas que um iniciante em Sellars ainda não consegue explorar. Um ponto importante sobre o espaço das razões e o Inferencialismo, no caso uma teoria coerentista, é não ficar preso nos pressupostos conceituais, como sair de lá? Por fim, curiosidade: haveria sellarsianos de esquerda e de direita, conforme as imagens do mundo, normativa e social ou científica e copiando os hegelianos de direita e de esquerda.

2. Sellars no blog[ix]. Podemos agregar sobre sua crítica ao empirismo e o "Mito do Dado" que as experiências sensoriais, por si só, não constituem conhecimento, pois percepções podem ocorrer causalmente, mas só contam como conhecimento quando inseridas em uma prática conceitual e inferencial. Ele desenvolveu uma teoria inferencial do significado, na qual o ato de inferir é tratado como um ato social regido por regras de prática comunitária, opondo-se à ideia de que frases são apenas entidades abstratas e inertes.

3. Sellars na perspectiva da nossa série[x]. Ele se opõe ao empirismo ao criticar projetos fundacionalistas como o do Aufbau de Carnap, que buscava reconstruir o conhecimento a partir de experiências elementares. Embora compartilhe com Quine o holismo e a crítica aos dogmas tradicionais, Sellars se distingue pelo seu nominalismo psicológico, que versa que já há papel da linguagem mesmo nos níveis primeiros do conhecimento.

4. Nossa máxima sobre o ponto de vista de Sellars[xi]. A nossa máxima “Eu falo e você me ouve, mas entende?” cai muito bem dentro do projeto filosófico de Wilfrid Sellars, sobretudo na crítica ao Mito do Dado e na sua concepção inferencialista do significado e do entendimento. Vejamos.

5. Ouvir não seria entender: contra o “dado” linguístico. Podemos entender que, para Sellars, não existiria algo como um entendimento imediato, dado simplesmente pela audição de sons ou pela recepção passiva de estímulos linguísticos. Ouvir sons não seria compreender um enunciado. A nossa máxima poderia ser reformulada assim: “O fato de você receber um estímulo linguístico não implica que você esteja já no espaço do entendimento”.

Isso seria uma extensão direta da crítica ao Mito do Dado, já que não haveria conteúdos epistemicamente ou semanticamente autoritativos que se imporiam por si mesmos; nem percepção, nem linguagem “entrariam” prontas na mente.

6. Entender seria estar no “espaço das razões”. O ponto central de Sellars parece ser que entender uma fala é estar apto a justificar, inferir, corrigir e responder normativamente a ela. Assim, quando eu digo “eu falo e você me ouve”, você pode estar apenas no espaço das causas, onde sons causam estados auditivos, mas não necessariamente no espaço das razões, onde fazemos perguntas como: “O que segue disso?”, “O que conta a favor?” e “O que seria um erro aqui?”. Logo, o “mas entende?” marca exatamente a passagem problemática entre esses dois espaços.

7. O significado não seria algo que se recebe, mas algo que se exerce[xii]. Para Sellars, compreender uma expressão não seria ter uma imagem mental, nem seria associar um som a um objeto, mas seria dominar um papel funcional-inferencial dentro de uma prática linguística. Entender “p” seria, em parte, saber que outras proposições seguem de “p”; que evidências contariam a favor ou contra “p”; em que circunstâncias “p” deveria ou não ser afirmado. Assim, nossa máxima expressaria uma tese sellarsiana: A comunicação falha não por déficit acústico, mas por déficit de inserção inferencial.

8. Linguagem como prática normativa, não como transmissão. Ao contrário de um modelo “telegráfico” da linguagem (mensagem → receptor → significado), Sellars sustentaria que quando eu falo eu assumo compromissos; quando você ouve e entende, você reconhece e pode avaliar esses compromissos[xiii]. Portanto, quando eu pergunto “mas entende?”, a questão real é saber se você reconhece quais compromissos eu assumi ao dizer isso e quais compromissos isso impõe a você. Se não, houve som, mas não houve entendimento.

9. Uma formulação sellarsiana da nossa máxima. Em linguagem sellarsiana, ela poderia ser reescrita assim: “Eu produzo um evento sonoro linguisticamente articulado; você o recebe causalmente - mas você ingressou no espaço normativo das razões que lhe dá significado?” Ou, mais curto: “A audição é causal; o entendimento é inferencial.”

10. Conexão com nossa sequência até agora. No arco que vimos traçando, Sellars ocupa um lugar decisivo, já que, contra Carnap, as regras não são meramente formais e contra Quine, o normativo não se reduz ao comportamento. A máxima é, nesse sentido, uma frase anti-mitológica: ela recusa a ideia de que compreender seja algo dado, imediato ou automático. Em suma, para Sellars, nossa máxima exprime uma verdade central da filosofia da linguagem:  entre falar e entender há uma diferença normativa fundamental, não apenas um canal de transmissão de informação.



[ii] Para o realista, o mundo existe independentemente da nossa mente, porém nosso conhecimento sobre ele é mediado. Podemos consultar os idealistas: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2024/01/breves-ideias-sobre-locke-berkeley.html.

[iii] A epistemologia naturalista é uma reação ao fundacionalismo clássico e ganha força com Quine, que propôs naturalizar a epistemologia, transformando-a em parte da psicologia empírica. Assim, o estudo do conhecimento se dá em continuidade com as ciências empíricas, especialmente a psicologia e as ciências cognitivas e não deve ser feito a partir de fundamentos puramente a priori ou “transcendentais”. Então, ao invés de perguntamos “Quais são as condições filosóficas últimas que justificam o conhecimento?”, a epistemologia naturalista pergunta “Como, de fato, os seres humanos formam crenças e quais mecanismos tornam essas crenças confiáveis?”

[iv] Não há “dados puros” dados à consciência. Ou, o “Mito do Dado” é a crença de que existiriam conteúdos imediatamente dados à mente que já teriam autoridade epistemológica por si mesmos, como “Vejo vermelho, logo tenho conhecimento direto de vermelho”. Na empiria clássica, haveria um nível básico de conhecimento não inferencial que serviria de fundamento para todo o resto. Há sensação no espaço das causas, mas para que algo conte como conhecimento, é necessário que esteja inserido no espaço das razões.

[v] Não há um estágio epistemicamente autônomo de “crença não inferencial” que fundamente o resto. Mesmo crenças perceptivas “básicas” (como “isso é vermelho”) só contam como crenças porque já pertencem a uma prática linguística normativa. Elas podem ser não inferidas, mas não são pré-conceituais nem independentes do domínio inferencial

[vi] A imagem manifesta do mundo, isto é, tal como aparece na experiência comum pode ser integrada (ou reinterpretada) à luz da imagem científica do mundo, descrito pelas ciências.

[vii] Em vez de dizer que as palavras são etiquetas coladas nas coisas, Sellars diz que a linguagem é um sistema de regras. Ter um conceito ou saber um significado é como saber "conduzir-se" dentro do espaço das razões: é saber quais conclusões você pode tirar de uma frase e quais frases justificam o que você está dizendo. Portanto, o significado é o papel funcional que uma expressão ocupa dentro de uma vasta rede de inferências e usos sociais

[viii] EP. 70 - Hegel, Sellars, Filosofia Analítica e História da Filosofia: https://www.youtube.com/watch?v=mgY0X8ywoOo, Neste episódio, conversamos com J.-P. Caron (UFRJ) sobre a relação de Hegel com a filosofia analítica, sua influência sobre Wilfrid Sellars e a chamada Escola de Pittsburgh e uma forma global de se enxergar a filosofia. Caron trata também dos pressupostos metodológicos dominantes, aspectos descritivos e normativos do fazer filosófico e seus desdobramentos políticos. Por fim, ele discute a relação entre passado e presente: como utilizar frutiferamente o pensamento de grandes filósofos de outras épocas para compreendermos aspectos contemporâneos sem distorcer aquilo que falaram.

[x] Idem.

[xi] Conforme temos dito, para a série EFEVMO-ME temos usado o ChatGPT para gerar o conteúdo de resposta do filósofo para a nossa máxima e fazemos uma revisão. São dois objetivos: o primeiro é escrutinar a máxima do ponto de vista do filósofo e o segundo é fazer uma aproximação conceitual do filósofo, de maneira geral. Mostrando postagens com marcador efevmo-me: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/search/label/efevmo-me. No Canal: https://youtube.com/playlist?list=PLnDky5U6KdTn7T-fRc3YWlosgMpPVzH9k&si=I2HECee5weE_WO13 - FEVMO-ME, por Luís Quissak, Playlist, Público, 6 vídeos, 44 visualizações “Eu falo e você me ouve, mas entende?”.

[xii] Aqui é pura semântica e depois podemos explorar dot-quotation.

[xiii] Aqui pode ser que já estejamos transicionando para Robert Brandom: https://www.youtube.com/@BobBrandomPitt.

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