segunda-feira, 31 de março de 2025

Eliminativismo

Reflexões sobre o materialismo eliminativo[i]

Para o materialismo eliminativista, o que nós chamamos de mente simplesmente não existe, nem tampouco estados mentais. Tributário do fisicalismo, que ainda admitia a existência da mente, ele se pretende mais radical e se choca com o entendimento do senso comum, notoriamente vinculado ao cartesianismo[ii], de que há uma mente e que ela é acessível em primeira pessoa, isto é, sou eu que sei o que tem na minha mente (ou só eu que sei).

De acordo com as nossas fontes, foi Sellars quem, em 1956, introduziu a ideia de que o conceito de mente é uma estrutura teórica herdada culturalmente e usada no senso comum[iii]. Já em 63, Feyerabend tratou a folk psychology como falsa porque os estados mentais não seriam físicos e assim não teriam lugar no mundo físico[iv].

Então, pelo eliminativismo, o que o senso comum pensa sobre a mente está errado. Entretanto, ele se declara no caminho da ciência, que vai descartando “mitos”, conceitos que vão sendo eliminados, por um lado, ou por uma mudança de termos, como de “vermes” para “agentes infecciosos”, conforme Vitor Lima. Há uma mudança para termos mais precisos. Resumindo, cambaleia entre “não existem estados mentais” ou “estados mentais são estados cerebrais”. Vitor cita texto de Lycan de que a segunda tese seria um tipo de materialismo redutivista[v]

Mas é o casal Churchland, os principais defensores do materialismo eliminativo e do abandono da psicologia popular e seus conceitos, que tendem a serem extintos pela neurociência. A psicologia popular é um tipo de teoria das teorias e generaliza o modo como agimos, por exemplo, baseado em “crenças” ou conjunto de explicações sobre como as coisas funcionam, calcado em suposições não evidentes (postulados). Postulam-se crenças e dores como existentes, com aspectos causais (que influenciam nas ações) e com intencionalidade (como tendo conteúdo). Isso oriundo da cultura, uma construção teórica. Outra característica do materialismo eliminativo é que concorda com o dualista ao dizer que a mente não pode ser reduzida ao cérebro, mas simplesmente porque ela não existe. 

Vitor traz a visão de Steven Savitt sobre mudanças de teoria, que podem ser ontologicamente conservadoras ou ontologicamente radicais. As primeiras não descartam os conceitos anteriores, mas os reclassificam. Já para as segundas, caso do materialismo eliminativo, há descarte de conceitos, como uma crença que não possui referência real. Ocorre uma eliminação radical de conceitos como dor, desejo e crença em prol de uma nomenclatura mais precisa para esses fenômenos.

Mas há também algo de conservador em variantes do eliminativismo, como a “dissolução gentil” de conceitos, no exemplo citado por Vitor, ao chamar um vegetal de legume, no senso comum, se confundindo com o fisicalismo redutivista. Para Paul Griffiths, uma humilhação é uma construção social, dependendo de cada local e assim por diante[vi]. Entretanto, ao buscar uma nomenclatura exata ficamos à mercê de qual o nível da precisão. 

Trazendo mais para perto os problemas da psicologia popular ou da “teoria-teoria”, Churchland ressalta a dificuldade de se explicar fenômenos mentais complexos como sonhos, doenças mentais e aprendizados. Nesse sentido, as teorias são muito amplas e de difícil poder explicativo porque não se aprofundam exatamente no cérebro, em termos de conceitos científicos.

Lembremos que na física popular antiga havia a ideia de que um objeto cai porque ele tem por finalidade tender ao chão. Já a biologia popular também foi muito aceita no sentido de dizer, durante milênios, que doenças eram causadas por maus espíritos.  Ou seja, não é porque uma teoria é amplamente aceita que ela é verdadeira. Muito da teoria popular da mente é oriunda de Descartes e a via da introspecção, pela qual acreditamos piamente no que está dentro de nós, como se fosse um acesso privilegiado. É como se houvesse algo “lá dentro”, mas é o mito cartesiano[vii].

Pelo uso da psicologia popular, podemos até usar expressões como “Eu desejo uma fatia de melancia” ou “Eu sinto meu pé ardendo”, mas disso não se deduz que haja algo como um desejo ou uma crença dentro de nós. A eficiência da psicologia popular se dá porque uma crença tem um formato linguístico com substantivo, verbo e predicado. Esse é um postulado da psicologia popular e, além disso, crenças têm um conteúdo semântico, para além da sintaxe, elas significam alguma coisa. Se parece que faz sentido falar da mente dessa forma, com um discurso linguístico, o eliminativista vai dizer que o funcionamento do cérebro é muito diferente disso. Parece que o órgão mesmo não processa informação dessa forma.

Filosofia da mente e filosofia da linguagem. E Vitor traça uma importante correlação entre filosofia da mente e filosofia da linguagem: se o problema da filosofia da mente é entender como cérebro e a mente se relacionam, sendo duas coisas separadas, o problema da filosofia da linguagem é determinar como uma palavra se relaciona com uma coisa no mundo, como se dá a atribuição do significado. Podemos notar que, mesmo a teoria da referência, que é a principal teoria da linguagem, enfrenta muitos problemas, como explicar que há palavras com significado, mas que não se referenciam a nada[viii]. Isto é, parece que a linguagem funciona desse jeito, porém não há explicação satisfatória, ou exaustiva. E, da mesma forma que é intuitivo que a palavra significa a coisa, também o é que a mente se relaciona com o cérebro, mas “mente”, “desejo”, “comunicação”, “significado” - isso tudo não é explicado por uma estrutura linguística, provavelmente, diriam os eliminativistas.

Teoria dos sistemas dinâmicos. Alternativamente, podemos pensar na teoria dos sistemas dinâmicos, de acordo com Vitor, para tematizar sistemas que possam explicar o funcionamento da mente sem se referir a algo consciente, intencional ou que delibere. Um sistema é uma composição de elementos que seguem uma ordem interna, que é própria a ele. Sendo dinâmico, significa que ele não precisa ter uma vida interior. Por exemplo, o sistema climático no qual diversos elementos interagem: atmosfera, clima, entre outros. Neles, há sistemas de equações que visam explicar seu funcionamento. No caso da mente, há o agente cognitivo, um corpo e um ambiente. Então, haverá uma teoria científica capaz de explicar como esse sistema funciona.

Modelo conexionista. Outra abordagem tratada por Vitor, é explicar modelos que processam informação sem a necessidade de recorrer a uma estrutura linguística. Aqui a abordagem é distribuída, há aprendizado por meio dos ajustes das conexões e a interação em rede faz emergir um padrão complexo. Como exemplo, o sistema imunológico, que também é dinâmico, mas composto por uma rede de células que reagem a agentes invasores, sem um comando central. Esse esquema é utilizado para os modelos de linguagem (LLM), por exemplo. O cérebro, nesse caso, é uma grande rede em que cada neurônio processa suas informações sem uma mente centralizadora.

Com explicações como essa, noções como liberdade e livre-arbítrio caem por terra. Segundo Vitor, lembrando Nietzsche, são ilusões que tem como base a gramática da linguagem.

Qualia. Tratado como o terror do fisicalismo, as qualidades subjetivas da experiência não conseguem ser explicadas por ele. Dennett dirá que a dor, tida como algo infalível e ruim, pode ser relatada, sob efeito de algumas drogas, como algo que pode ser suportado. É o fenômeno chamado de dissociação reativa, que não é bem subjetivo, mas é uma reação química. Vitor cita o artigo “Quining Qualia” (1988), que questiona as características de infalibilidade e natureza privada. Dennett traz o exemplo da ilusão de Muller-Lyer para mostrar que, não somente nossa percepção do mundo externo pode ser enganosa, mas também a introspecção, quando nos faz acreditar que experimentamos qualias da forma como imaginamos. Ora, mesmo o “olhar para dentro” é imbuído de teorias e vieses, dependentes de nossa cultura.

Alguns problemas do Eliminativismo. Auto refutação: se crenças não existem, precisamos acreditar nessa afirmação anterior, o que não deixa de ser uma crença, embora os eliminativistas possam dizer que a ciência poderá abrir caminho para afirmações independentes da crença. Por outro lado, não se pode negar o sucesso da psicologia popular para explicar e prever comportamentos - esse seria o argumento da melhor explicação, mas que o eliminativista diria que uma teoria pode ser bem-sucedida mesmo estando errada (como, por exemplo, a teoria do flogisto, antiga teoria da combustão). Por fim, Stephen Stich, a despeito dos conceitos de crenças e desejos não se referirem a nada no cérebro, vai questionar exatamente o que quer dizer essa falha da referência. Mas, é a crença que não existe ou é o nosso conceito de crença que requer melhor definição? Talvez, ambas as questões mereçam reflexão.

Vitor conclui: se radical, o materialismo eliminativo, quando trata a mente quando algo distante do senso comum, não é somente uma negação, mas uma outra forma de “dizer” o que é uma mente.



[i] Este texto se baseia nas aulas de Victor Lima no Youtube (@istonaoefilosofia, só disponíveis por uma semana). O professor usa como base o artigo “Materialismo Eliminativo” da Enciclopédia de Filosofia de Stanford. Acesso em 23/03/2025: https://plato.stanford.edu/entries/materialism-eliminative/ (William Ramsey).

[ii] A mente firmemente é o que resiste ao edifício demolido pela dúvida hiperbólica.

[iii] Para ler: https://www.ditext.com/sellars/epm.html. EMPIRICISM AND THE PHILOSOPHY OF MIND by Wilfrid Sellars. This paper was first presented as the University of London Special Lectures on Philosophy for 1955-56, delivered on March 1, 8, and 15, 1956, under the title "The Myth of the Given: Three Lectures on Empiricism and the Philosophy of Mind.". Vale a pena rever o mito do dado, também.

[iv] Mental events and the brain: https://philpapers.org/rec/FEYCME. Feyerabend, Paul K. (1963). Comment: Mental events and the brain. Journal of Philosophy 60 (11):295-296.

[v] Para ver: Lycan, William G. & Pappas, George S. (1972). What is eliminative materialism? Australasian Journal of Philosophy 50 (2):149-59.

[vi] Para ver: https://press.uchicago.edu/ucp/books/book/chicago/W/bo3623449.html. What Emotions Really Are - The Problem of Psychological Categories. Paul E. Griffiths.

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