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segunda-feira, 31 de março de 2025

Eliminativismo

Reflexões sobre o materialismo eliminativo[i]

Para o materialismo eliminativista, o que nós chamamos de mente simplesmente não existe, nem tampouco estados mentais. Tributário do fisicalismo, que ainda admitia a existência da mente, ele se pretende mais radical e se choca com o entendimento do senso comum, notoriamente vinculado ao cartesianismo[ii], de que há uma mente e que ela é acessível em primeira pessoa, isto é, sou eu que sei o que tem na minha mente (ou só eu que sei).

De acordo com as nossas fontes, foi Sellars quem, em 1956, introduziu a ideia de que o conceito de mente é uma estrutura teórica herdada culturalmente e usada no senso comum[iii]. Já em 63, Feyerabend tratou a folk psychology como falsa porque os estados mentais não seriam físicos e assim não teriam lugar no mundo físico[iv].

Então, pelo eliminativismo, o que o senso comum pensa sobre a mente está errado. Entretanto, ele se declara no caminho da ciência, que vai descartando “mitos”, conceitos que vão sendo eliminados, por um lado, ou por uma mudança de termos, como de “vermes” para “agentes infecciosos”, conforme Vitor Lima. Há uma mudança para termos mais precisos. Resumindo, cambaleia entre “não existem estados mentais” ou “estados mentais são estados cerebrais”. Vitor cita texto de Lycan de que a segunda tese seria um tipo de materialismo redutivista[v]. 

Mas é o casal Churchland, os principais defensores do materialismo eliminativo e do abandono da psicologia popular e seus conceitos, que tendem a serem extintos pela neurociência. A psicologia popular é um tipo de teoria das teorias e generaliza o modo como agimos, por exemplo, baseado em “crenças” ou conjunto de explicações sobre como as coisas funcionam, calcado em suposições não evidentes (postulados). Postulam-se crenças e dores como existentes, com aspectos causais (que influenciam nas ações) e com intencionalidade (como tendo conteúdo). Isso oriundo da cultura, uma construção teórica. Outra característica do materialismo eliminativo é que concorda com o dualista ao dizer que a mente não pode ser reduzida ao cérebro, mas simplesmente porque ela não existe. 

Vitor traz a visão de Steven Savitt sobre mudanças de teoria, que podem ser ontologicamente conservadoras ou ontologicamente radicais. As primeiras não descartam os conceitos anteriores, mas os reclassificam. Já para as segundas, caso do materialismo eliminativo, há descarte de conceitos, como uma crença que não possui referência real. Ocorre uma eliminação radical de conceitos como dor, desejo e crença em prol de uma nomenclatura mais precisa para esses fenômenos.

Mas há também algo de conservador em variantes do eliminativismo, como a “dissolução gentil” de conceitos, no exemplo citado por Vitor, ao chamar um vegetal de legume, no senso comum, se confundindo com o fisicalismo redutivista. Para Paul Griffiths, uma humilhação é uma construção social, dependendo de cada local e assim por diante[vi]. Entretanto, ao buscar uma nomenclatura exata ficamos à mercê de qual o nível da precisão. 

Trazendo mais para perto os problemas da psicologia popular ou da “teoria-teoria”, Churchland ressalta a dificuldade de se explicar fenômenos mentais complexos como sonhos, doenças mentais e aprendizados. Nesse sentido, as teorias são muito amplas e de difícil poder explicativo porque não se aprofundam exatamente no cérebro, em termos de conceitos científicos.

Lembremos que na física popular antiga havia a ideia de que um objeto cai porque ele tem por finalidade tender ao chão. Já a biologia popular também foi muito aceita no sentido de dizer, durante milênios, que doenças eram causadas por maus espíritos.  Ou seja, não é porque uma teoria é amplamente aceita que ela é verdadeira. Muito da teoria popular da mente é oriunda de Descartes e a via da introspecção, pela qual acreditamos piamente no que está dentro de nós, como se fosse um acesso privilegiado. É como se houvesse algo “lá dentro”, mas é o mito cartesiano[vii].

Pelo uso da psicologia popular, podemos até usar expressões como “Eu desejo uma fatia de melancia” ou “Eu sinto meu pé ardendo”, mas disso não se deduz que haja algo como um desejo ou uma crença dentro de nós. A eficiência da psicologia popular se dá porque uma crença tem um formato linguístico com substantivo, verbo e predicado. Esse é um postulado da psicologia popular e, além disso, crenças têm um conteúdo semântico, para além da sintaxe, elas significam alguma coisa. Se parece que faz sentido falar da mente dessa forma, com um discurso linguístico, o eliminativista vai dizer que o funcionamento do cérebro é muito diferente disso. Parece que o órgão mesmo não processa informação dessa forma.

Filosofia da mente e filosofia da linguagem. E Vitor traça uma importante correlação entre filosofia da mente e filosofia da linguagem: se o problema da filosofia da mente é entender como cérebro e a mente se relacionam, sendo duas coisas separadas, o problema da filosofia da linguagem é determinar como uma palavra se relaciona com uma coisa no mundo, como se dá a atribuição do significado. Podemos notar que, mesmo a teoria da referência, que é a principal teoria da linguagem, enfrenta muitos problemas, como explicar que há palavras com significado, mas que não se referenciam a nada[viii]. Isto é, parece que a linguagem funciona desse jeito, porém não há explicação satisfatória, ou exaustiva. E, da mesma forma que é intuitivo que a palavra significa a coisa, também o é que a mente se relaciona com o cérebro, mas “mente”, “desejo”, “comunicação”, “significado” - isso tudo não é explicado por uma estrutura linguística, provavelmente, diriam os eliminativistas.

Teoria dos sistemas dinâmicos. Alternativamente, podemos pensar na teoria dos sistemas dinâmicos, de acordo com Vitor, para tematizar sistemas que possam explicar o funcionamento da mente sem se referir a algo consciente, intencional ou que delibere. Um sistema é uma composição de elementos que seguem uma ordem interna, que é própria a ele. Sendo dinâmico, significa que ele não precisa ter uma vida interior. Por exemplo, o sistema climático no qual diversos elementos interagem: atmosfera, clima, entre outros. Neles, há sistemas de equações que visam explicar seu funcionamento. No caso da mente, há o agente cognitivo, um corpo e um ambiente. Então, haverá uma teoria científica capaz de explicar como esse sistema funciona.

Modelo conexionista. Outra abordagem tratada por Vitor, é explicar modelos que processam informação sem a necessidade de recorrer a uma estrutura linguística. Aqui a abordagem é distribuída, há aprendizado por meio dos ajustes das conexões e a interação em rede faz emergir um padrão complexo. Como exemplo, o sistema imunológico, que também é dinâmico, mas composto por uma rede de células que reagem a agentes invasores, sem um comando central. Esse esquema é utilizado para os modelos de linguagem (LLM), por exemplo. O cérebro, nesse caso, é uma grande rede em que cada neurônio processa suas informações sem uma mente centralizadora.

Com explicações como essa, noções como liberdade e livre-arbítrio caem por terra. Segundo Vitor, lembrando Nietzsche, são ilusões que tem como base a gramática da linguagem.

Qualia. Tratado como o terror do fisicalismo, as qualidades subjetivas da experiência não conseguem ser explicadas por ele. Dennett dirá que a dor, tida como algo infalível e ruim, pode ser relatada, sob efeito de algumas drogas, como algo que pode ser suportado. É o fenômeno chamado de dissociação reativa, que não é bem subjetivo, mas é uma reação química. Vitor cita o artigo “Quining Qualia” (1988), que questiona as características de infalibilidade e natureza privada. Dennett traz o exemplo da ilusão de Muller-Lyer para mostrar que, não somente nossa percepção do mundo externo pode ser enganosa, mas também a introspecção, quando nos faz acreditar que experimentamos qualias da forma como imaginamos. Ora, mesmo o “olhar para dentro” é imbuído de teorias e vieses, dependentes de nossa cultura.

Alguns problemas do Eliminativismo. Auto refutação: se crenças não existem, precisamos acreditar nessa afirmação anterior, o que não deixa de ser uma crença, embora os eliminativistas possam dizer que a ciência poderá abrir caminho para afirmações independentes da crença. Por outro lado, não se pode negar o sucesso da psicologia popular para explicar e prever comportamentos - esse seria o argumento da melhor explicação, mas que o eliminativista diria que uma teoria pode ser bem-sucedida mesmo estando errada (como, por exemplo, a teoria do flogisto, antiga teoria da combustão). Por fim, Stephen Stich, a despeito dos conceitos de crenças e desejos não se referirem a nada no cérebro, vai questionar exatamente o que quer dizer essa falha da referência. Mas, é a crença que não existe ou é o nosso conceito de crença que requer melhor definição? Talvez, ambas as questões mereçam reflexão.

Vitor conclui: se radical, o materialismo eliminativo, quando trata a mente quando algo distante do senso comum, não é somente uma negação, mas uma outra forma de “dizer” o que é uma mente.



[i] Este texto se baseia nas aulas de Victor Lima no Youtube (@istonaoefilosofia, só disponíveis por uma semana). O professor usa como base o artigo “Materialismo Eliminativo” da Enciclopédia de Filosofia de Stanford. Acesso em 23/03/2025: https://plato.stanford.edu/entries/materialism-eliminative/ (William Ramsey).

[ii] A mente firmemente é o que resiste ao edifício demolido pela dúvida hiperbólica.

[iii] Para ler: https://www.ditext.com/sellars/epm.html. EMPIRICISM AND THE PHILOSOPHY OF MIND by Wilfrid Sellars. This paper was first presented as the University of London Special Lectures on Philosophy for 1955-56, delivered on March 1, 8, and 15, 1956, under the title "The Myth of the Given: Three Lectures on Empiricism and the Philosophy of Mind.". Vale a pena rever o mito do dado, também.

[iv] Mental events and the brain: https://philpapers.org/rec/FEYCME. Feyerabend, Paul K. (1963). Comment: Mental events and the brain. Journal of Philosophy 60 (11):295-296.

[v] Para ver: Lycan, William G. & Pappas, George S. (1972). What is eliminative materialism? Australasian Journal of Philosophy 50 (2):149-59.

[vi] Para ver: https://press.uchicago.edu/ucp/books/book/chicago/W/bo3623449.html. What Emotions Really Are - The Problem of Psychological Categories. Paul E. Griffiths.

terça-feira, 12 de março de 2024

O problema fundamental da gramática

Verifica se falamos de coisas ou de fatos[i]

Hacking retoma argumentação de Russell de que a forma gramatical S-P pode ser parafraseada pela forma lógica pela qual “existe pelo menos um S, há no máximo um e todo S é P”. Hacking esclarece que, para um argumento dedutivo válido, a conclusão decorre das premissas em virtude de sua forma, caracterizada desde Aristóteles como “todo A é B, todo B é C, portanto todo A é C”.

Não obstante isto, o fato de uma sentença poder ocorrer tanto em premissas quanto em conclusões leva a uma crítica de Strawson que rejeita essa forma lógica, já que enunciados poderiam ocorrer em diferentes classes gerais de inferência. Hacking não acata essa objeção ao dizer que o intuito de Russell vai mais além pois ele não pretende tratar somente de inferências. Haveria uma forma lógica para uma sentença que é subjacente a todas as formas lógicas propostas por Strawson e que permite que ela tenha significado.

Russell estava interessado, em sua concepção, em condições sob as quais determinada sentença é verdadeira. Em associação com o primeiro Wittgenstein, essa concepção assere que as verdades correspondem aos fatos, isto é, a estrutura dos fatos poderia ser investigada pela forma lógica de sentenças verdadeiras a eles correspondentes e, com isso, abrir um campo de metafísica especulativa.

Contudo, o próprio Wittgenstein parece aderir, de acordo com Hacking, a um idealismo linguístico que restringe o conhecimento dos fatos com o qual temos familiaridade aos limites de linguagem, não à realidade dos fatos, de um mundo “lá”, independente de linguagem. Atualizamos Berkeley que dizia que não há mundo senão o percebido, em Wittgenstein, como o dito que ser é ser falado a respeito.

Hacking, então, remete ao século XVII novamente para ressaltar a importância da gramática e como a linguagem pode falar de coisas, já que a primeira é articulada e as segundas são totalidades. O malmequer, por exemplo, é uma coisa única, mas as palavras ocorrem em sequência[ii]. Isso fica claro pela teoria da referência quando sentenças da forma S é P (sujeito-predicado) se referem a coisas com propriedades e são verdadeiras se tem aquelas propriedades. O problema é que o objeto é um todo não articulado e não coisa de um lado e propriedade de outro.

Isso posto, Hacking postula: “O problema da gramática geral é explicar como a linguagem articulada realiza a representação de uma parte não articulada do mundo.” Ou seja, como as palavras se juntam na cópula que representa o objeto? Hacking argumenta que, como não foi possível fazer com que a cópula funcionasse da mesma maneira, surgiram diferentes gramáticas para as diferentes famílias de linguagens. E é Wittgenstein que traz o Tractatus para nos socorrer propondo que o mundo é feito de fatos e não de coisas e eles são articulados como as sentenças que os representam, os objetos se encaixam. Fica para trás o mundo das coisas e então “a proposição analisada não é sujeito e predicado, mas uma concatenação de nomes” (p. 93). Embora Hacking entenda que Russell ainda tenha mantido um mundo de coisas, o “isto”.

Se a forma lógica russelliana seria uma tentativa de responder ao problema da gramática, Hacking sugere que ela pode ser uma forma gramatical profunda, o que teria um paralelo com a proposta de Chomsky de uma gramática constituída de uma estrutura superficial projetada por regras de uma estrutura profunda a ela subjacente. Da proposta de Russell pode ser extraída uma lógica de primeira ordem das sentenças do inglês, como proporá Davidson. Mas esse caminho é rechaçado pelos seguidores de Chomsky que se mantem à estrutura sujeito-predicado, oriunda da gramática antiga. E essa é uma disputa em aberto, de acordo com Hacking.



[i] Fichamento do oitavo capítulo de Por que a linguagem interessa à filosofia? São Paulo: Editora Unesp, 1999. Ian Hacking. O capítulo se chama A articulação de Ludwig Wittgenstein.

[ii] A parte a teoria das ideias e se uma ideia é uma totalidade ou articulada. 

terça-feira, 26 de setembro de 2023

Filosofia da linguagem tripartite

A abordagem da filosofia da linguagem tripartite é aquela tradicionalíssima, conforme esquema a seguir. Há uma comunicação entre falantes e ouvintes e, em grande parte dos casos, eles se compreendem. Ora, obviamente, isso não significa que concordam entre si. Além disso, até que ponto eles se compreendem é coisa duvidosa: eles podem compreender frases, mas não se compreenderem de um ponto de vista subjetivo.

Esse esquema de compreensão se basearia ou pelo significado ou pela referência ou por ambos. Isso tudo é coisa que estamos investigando, mas em linhas gerais teríamos um mundo referido e significados por aí.

Esquema triparte da filosofia da linguagem

sexta-feira, 30 de junho de 2023

Quem é o homem no canto da sala bebendo martini?

Trata da distinção de Donnellan e porque Kripke não a considera[i]

Tentemos ser breves sobre esse ponto: dois homens estão em uma festa e falam de um terceiro que, no canto da sala, bebe algo. Os dois, quando falam dele, dizem: “o homem no canto da sala bebendo martini, etc...”, e, assim, a ele se referem. Entretanto, o homem não bebe, de fato, martini, ele bebe soda e, mais do que isso, ninguém na sala bebe martini pois não há martini na festa.

Ora, do ponto de vista de Donnellan, esse é um tipo de uso descritivo referencial, isto é, uma expressão que permite referir um objeto, mesmo que a expressão esteja errada do ponto de vista atributivo, já que se atribuiu ao homem que ele bebia martini o que, mesmo possibilitando a sua identificação, não era de fato o que ocorria. Mas é o uso descritivo atributivo que também permite identificar, aí sim, de forma correta, quer dizer, univocamente.

É o que ocorre quando, em uma investigação criminal, se busca o assassino e, ao encontrar uma pegada na lama, o policial diz: “o homem com essa pegada número 43...” e, desse modo, atribui a pegada ao assassino, embora ele não esteja presente e não tenho sido descoberto ainda, impossibilitando a referência.

*  *  *  *  *

Na teoria das descrições definidas[ii], Russell enfatiza o contributo semântico que elas carregam já que, para ele, teriam significado para lá de seus referentes, não obstante os quatro quebra cabeças que ele expõe sirvam para mostrar que as descrições definidas não se conectam ao mundo por nomeação direta. Mas, Strawson entende que frases são usadas em situações conversacionais concretas em objeção à abordagem russelliana de tomar frases em abstrato, como objetos em si.

Para Strawson, as frases são usadas pelas pessoas para se referirem e em determinados contextos – só as expressões não referem. Nesse viés, ele não toma as frases como proposições que possuiriam uma forma lógica e um valor de verdade. Porém, por mais que não sejam as expressões, mas as pessoas que refiram, há um sentido secundário em que expressões referem: quando há um objeto que as satisfazem univocamente: o referente semântico da descrição. Pois bem, se Russell quer insistir que as descrições não são expressões referenciais, há esse sentido secundário no qual uma descrição pode ter um referente. E é disso que trata a distinção de Donnellan.

Donnellan pegará nesse ponto que a análise de Russell não capta: o uso de descrições definidas como nomes, para se referir. Então, se para Russell, um uso referencial como <<O Sacro Império Romano>>, com as iniciais maiúsculas, não passa de um título e não de uma descrição, Donnellan mostra que há casos de descrições usadas para darem atenção a um indivíduo particular.

Tomemos a expressão “O homicida do Ferreira é louco”. Podemos notar que se trata de um uso atributivo, já que pretende dizer que quem cometeu o terrível crime de matar o Ferreira é louco (atribui o predicado louco ao homicida). Mas, alguém (o Pedro) poderia estar a ver o julgamento, sem conhecer nada do réu, e fazer a afirmação: “O homicida do Ferreira é louco”, pois ele vê que os olhos do homem estão revirando e, dessa forma, Pedro se refere ao réu independentemente dos atributos (ele poderia estar apontando para o assassino). Conforme Lycan, o que Pedro afirma é verdadeiro se e somente se o réu for louco, independentemente de ter ou não cometido o homicídio. A isso Donnellan chama uso referencial.

Se Russell escreve como se todas as descrições fossem usadas atributivamente, Strawson relegou o uso atributivo ao enfocar o contexto de referência. Esse duplo aspecto leva à conclusão de que há ambiguidade quanto às descrições definidas. No uso referencial, o público escolhe do que se está a falar e esse uso não ocorre essencialmente, mas para chamar a atenção acerca daquela pessoa. Então, <<O F é g>>, para Donnellan, se nada é F, de nada se disse que é g (uso atributivo, isso não se aplica para o uso referencial, já que não se referencia nada).

Por outro lado, na festa há uma mulher com um acompanhante sobre o qual se diz “O marido dela lhe dá muita atenção”[iii]. Ocorre que o acompanhante é referido mesmo a mulher não sendo casada e esse é o conceito de referente semântico: aquele que satisfaz a descrição (portanto nenhum, já que ela não é casada) e que diverge do referente real[iv]. Conclui-se que, para Donnellan, não importa se não houver homicida do Ferreira, o que se disse é verdadeiro se e somente se Joaquim é louco.

*  *  *  *  *

A respeito de Kripke, Ruffino mostra que ele[v] não considera descrições definidas na análise dos nomes próprios, mas apenas seu nome ordinário[vi]. Ruffino reforça que duas condições para que uma descrição definida funcione bem são a existência e a unicidade, o que foi questionado por Donnellan, para quem isso nem sempre ocorre, embora Kripke não tenho levado isso a sério. Em seu ensaio (1966), Donnellan diz que, às vezes, fazemos referência a um objeto embora a condição de existência não seja satisfeita (aqui ele cita o exemplo do título desse texto).

Ruffino enfatiza que o falante refere, o locutor entende e a conversa continua. É possível ser bem-sucedido em se referir e se comunicar mesmo usando uma descrição errada[vii]. Tudo funciona bem na comunicação mesmo com a descrição defectiva. Esse é o uso referencial de uma descrição definida quando, pelo exemplo de Ruffino, você está em um saguão esperando uma palestra começar e passa um rapaz de terno e gravata, do que você diz: “O palestrante chegou” e seu colega entende que a pessoa chegou, mas você estava errado, ele não é o palestrante.

Nesse caso mencionado, o conteúdo da descrição ou falha ou é irrelevante. Já no uso atributivo da descrição definida o conteúdo descritivo é essencial. Se ora funciona um uso e ora outro, é o caso de que a teoria de Frege-Russell falha, mas Kripke não considera esses casos e explica que esse ponto é uma questão de pragmática, pois é uma questão prática, já a semântica é uma questão mais restrita, que requer características precisas. Essa circunscrição da semântica com relação à pragmática ainda será nosso tema.



[i] Enalta-se o didatismo de Ruffino a respeito do argumento mas, ainda assim, nosso texto só toca a superfície do problema. Conforme https://www.youtube.com/embed/wRhexp8nqR4, acesso em 25/06/2023.

[ii] Aqui argumenta-se conforme nosso entendimento de Lycan, embora muita coisa fique de fora. Filosofia da linguagem: uma introdução contemporânea. LYCAN, William. Tradução Desiderio Murcho. Portugal: Edições 70, 2022.

[iii] Conforme Lycan, esse exemplo é de Leonard Linsky.

[iv] Seria uma referência fraca ou pseudo referência?

[v] Em Name and Necessity.

[vi] Considera como nome "Emmanuel Macron", mas não considera da mesma forma “O atual presidente da França”, como em O F é g. Ora, como Ruffino também mostrará, para Frege-Russell é a descrição que liga o nome ao objeto

[vii] Isso enseja a ideia de que pessoas conversam e se entendem independentemente de estarem usando descrições corretas. Seria terraplanismo?

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Filosofia da linguagem - introdução e referência

Começando um novo passeio pela filosofia da linguagem[i]

Bem, nesse blog já há algumas introduções à filosofia da linguagem que pretendemos continuá-las, mas nunca é tarde parece recomeçar. E é partir das aulas de Sagid que pretendemos fazer um panorama, começando por uma limpeza de terreno e pela conceituação de referência. De acordo com ele, os dois conceitos fundamentais da filosofia da linguagem são: referência e significado – sobre os quais temos falado ultimamente nesse espaço.

Isso posto, Sagid distingue a filosofia da linguagem da filosofia linguística, esta última pretendendo resolver problemas filosóficos pela linguagem, seja na busca por uma linguagem ideal, logicamente perfeita e sem defeitos, seja pela linguagem comum e, nesse caso, pelos seus usos e contextos.

Já a filosofia da linguagem visa resolver problemas de linguagem e ela procede por teses, apontando argumentos, soluções favoráveis e contrárias. E, como temos visto, três são seus principais problemas[ii]: qual o mecanismo que faz com que o mero proferimento de um som, por exemplo, “Belo Horizonte”, nos permita selecionar um lugar no universo (referência)? Por que determinadas frases têm significado e outras não? Como alguém consegue compreender o que dizemos? Essas questões de largada, salienta Sagid, mostram que é fácil usar a linguagem, mas difícil explica-la.

Problema da Referência

Começando pela referência, podemos perceber que algumas expressões linguísticas pretensamente[iii] se conectam a realidade. Um nome seleciona um indivíduo, a expressão “isto” seleciona um objeto, quando falamos “cavalo” podemos nos referir ao grupo dos cavalos e “todavia” não seleciona nada[iv]. Daí que o problema da referência pode ser analisado de duas formas diferentes, o primeiro verifica qual item da realidade uma expressão pretensamente seleciona; o segundo como uma expressão pretensamente seleciona aquele item.

Sagid denomina o primeiro o problema descritivo da referência, tipicamente metafísico, que investiga do que a realidade é composta. Por exemplo, a expressão “O Saci Pererê é arteiro” seleciona um item da realidade ou um item ficcional? Expressões linguísticas que selecionam referentes que são personagens da ficção são tratadas pelo paradoxo das existenciais negativas singulares e sobre elas não há consenso. O problema descritivo é caracterizado por Sagid como de fronteira, isto é, não é propriamente linguístico e sobre eles há desacordo metafísico. Mesmo os termos gerais, que veremos a seguir, corresponderiam exatamente a quê? Ao pensarmos em “cavalo”, nos vemos as voltas com um determinado tipo de cavalo, com o conjunto de todos os cavalos possíveis ou apenas com a propriedade de um animal ser um cavalo?

O segundo é o problema fundacional da referência, isto é, aquele que trata do mecanismo que garante a seleção dos itens, mais especificamente, consoante Sagid: “em virtude de quais fatos há correspondência entre sons, tinta no papel e um indivíduo do mundo?”. Desse problema surgem as teorias da referência que trazem cada qual um mecanismo que pode bem funcionar ou não e que o escrutínio informará.

Termos singulares e termos gerais

Sagid argumenta que o método de proceder da filosofia da linguagem é o de quebrar o problema em partes, no que podemos caracterizar como um método analítico. Então, o problema fundacional da referência pode ser dividido em um problema da referência singular, que verifica o que faz com que um termo singular se refira ao objeto ao qual se refere e um problema da referência dos termos gerais, que verifica o que faz com que um termo geral se refira aos objetos aos quais se refere. Isso porque, aparentemente, há diferença entre o mecanismo referencial para termos gerais e termos singulares.

Tomemos os exemplos de Sagid de expressões linguísticas que pretensamente se referem a itens da realidade:

1.     Aristóteles é sábio.

2.     Isto é uma cadeira.

3.     Aqui é Ouro Preto.

Podemos dividi-las em expressões subfrásicas: “Aristóteles”, “isto”, “aqui” e “Ouro Preto” como sendo termos singulares; “sábio” e “cadeira” como sendo termos gerais[v]. Ora, os termos singulares seguem a condição de no máximo um que, embora não sendo uma definição exata de termo singular, já que pode eventualmente acontecer a um termo geral, ainda assim nos permite certa caracterização. A condição de no máximo um permite caracterizar que uma expressão se refere a algo e que se refere a no máximo uma coisa. Ela trabalha com condições de verdade, quais sejam, condições que devem ser satisfeitas para uma afirmação ser verdadeira[vi]. Por exemplo, “Aristóteles” costumeiramente é tido como termo singular, mas pode vir a ser usado como termo geral em “Há mais de um Aristóteles na sala”.

Uma forma de tratar o problema, proposta por Strawson, é não fazer a distinção entre tipos de termos, mas entre tipos de uso dos termos, isto é, quando determinada expressão é usada como um termo singular, etc., entretanto haveríamos que sempre qualificar sua utilização.

De todo modo, Sagid de claro que procedemos à imagem de um funil, que ele exemplifica trazendo classes de termos singulares como os indexicais, que mudam em cada contexto. Dentre eles, há os indexicais puros, nos quais há um referente para cada contexto como em “eu” (o referente é a pessoa que usou a palavra) ou “aqui” (o referente é o lugar que a pessoa está) e há os verdadeiros demonstrativos que, diferentemente dos indexicais puros que estão associados a um significado linguístico, dependem de outros fatores, como uma intenção direcionadora. O significado de “Isto é uma caneta” depende de que se aponte ou direcione para algo. Tal qual “ele”, “aquele”: não se atém somente a uma regra de uso. Ou seja, o funil divide as classes em diferentes mecanismos referenciais cada qual com uma explicação. No caso dos termos singulares podemos ter indexicais puros, verdadeiros demonstrativos ou nomes próprios, que Sagid terá como foco para estudar as diversas teorias da referência, já que é tema dominante no debate.

Cabe ressaltar, por fim, que esse é o método da ciência, isto é, embora queiramos compreender o todo, a ciência parte do particular ao geral, assim como para entender a linguagem geral temos que entender os diversos mecanismos subjacentes.



[i] Recortes feitos das aulas 01, 02 e 03 do professor Sagid Salles disponíveis no Youtube. Curso IF - Filosofia da Linguagem: https://www.youtube.com/playlist?list=PLb6DzdXIOv4EtJpTp1G9kThcOi_DATFyS.

[iii] Pode haver determinado grau de ceticismo que torne a referência impossível e, no limite, até a nossa própria existência e, aí, Sagid menciona Peter Unger para investigação posterior. Quine também aborda o tema de fronteira com a epistemologia (por exemplo, tradução radical).

[iv] Aqui vale a distinção de uso e menção das expressões linguísticas que Sagid ressalta. Podemos usar um nome para falar de uma pessoa, por exemplo, “O Aristóteles é filósofo” ou podemos pela expressão mencionar como em “Aristóteles” tem 11 letras.

[v] Poderíamos também incluir nos termos que se referem à realidade expressões como “Alguém foi reprovado” ou “Todos foram reprovados”, mas se tratam de quantificadores, termos que contam a frequência de ocorrência de termos gerais ou singulares.

[vi] Parece-nos uma abordagem bastante lógica.

sábado, 16 de julho de 2022

Do nome à descrição definida dele

É um exercício de filosofia da linguagem ainda bem incipiente e incompleto[i]

Se eu digo “Gilberto Gil é o baiano com mais balanço”, o que isso significa e a quem me refiro? Do ponto de vista intuitivo, a frase acima significa que me refiro a Gil, isto é, o significado de Gil é o próprio Gil, qual seja, a referência. Agora, se eu digo “Gilberto Moreira é o baiano com mais balanço”, o que isso significa e a quem me refiro?

Da mesma forma, intuitivamente, essa segunda frase assere a Gilberto Moreira a descrição de ser o baiano com mais balanço. Ora, se o significado é a referência, temos um problema aqui: temos dois nomes referindo à mesma pessoa, como que sendo dois significados diferentes para a mesma referência. Além do mais, certamente alguém pode não saber que Gilberto Moreira é Gilberto Gil e pensar se tratar de outra pessoa.

Essas questões iniciais trazem algumas dificuldades em se tratar do significado de um nome como sendo a própria referência, pois parece que impede flexões. Então, o que podemos fazer é separar o significado da referência, de modo que haja uma referência (Gil) e muitos significados (Gilberto Gil, Gil Moreira, o baiano com mais balanço, o primogênito de José Gil Moreira, etc.). Ora, temos aí duas teorias da referência: uma direta (o significado é a referência) e outra indireta (o significado é uma descrição da referência[ii]).

Ora, agora parece que temos uma maleabilidade maior em descrever as referências de acordo com as descrições que queiramos e nos afastando de um significado fixado. Isso aproxima o nome que identifica o objeto das descrições [definidas] que identificam o objeto. Ainda assim, vejamos, há uma âncora lá: a referência. Mas ela pode não haver como em “Saci-pererê é o menino mais travesso”, considerando que o saci-pererê não existe.

Isso leva a um terceiro e último aspecto que gostaríamos de comentar. O fato de “falar de” seja por um nome (fixo) ou uma descrição levanta dificuldades de comunicação quando falta ou sobra significado ou referência, o que nos leva a suprimir a descrição definida por uma análise lógica. Assim, o que quereria dizer a frase “O primogênito de José Gil Moreira é o baiano com mais balanço”? Que existe um primogênito de José Gil Moreira, que há no máximo um primogênito de José Gil Moreira e que, quem quer que seja o primogênito de José Gil Moreira, ele é o baiano com mais balanço.

Tem-se que a descrição definida se despe em uma asserção de existência (o primogênito existe), de univocidade (só há um primogênito do José Gil) e da predicação (ele é o baiano com mais balanço). Essa análise já permitiria também refutar o saci-pererê[iii]. A camada aparente da linguagem fica, assim, subsumida à sua base lógica real e evitamos problemas de interpretação e comunicação.

Bem, esperamos não ter errado muito, esperamos que argumentação tenha um pouco de clareza e que possa ter coberto em linhas gerais os pontos principais, embora nesse momento eu não esteja tão certo que isso tenha sido feito a contento.



[i] Nossa intenção com esse primeiro exercício de filosofia da linguagem, descompromissado, é nos aproximarmos da escrita técnica e tentar passar brevemente pelos primórdios das teorias, circunscrevendo-nos entre Russell e Frege e só.

[ii] Conforme Frege, o sentido, ou seja, um modo de apresentar o objeto (a referência).

[iii] Já que não existe, apesar de Meinong ter proposto que ele tem um ser, que faz parte da realidade dos inexistentes. 

sábado, 21 de maio de 2022

Valor Cognitivo (by Frege)

Coloca o problema da diferença de valor cognitivo entre nomes diferentes para o mesmo objeto[i]

De acordo com Frege[ii], há uma diferença cognitiva oriunda da troca de um nome por outro nome que se refere (significa) o mesmo objeto. E Ruffino explica que o teste de verificação é se perguntar se alguém racional pode acreditar em uma dessas sentenças e não na outra, como é o caso ilustrativo de Lois Lane que sabe que o "Super-Homem é super-herói", mas não sabe que "Clark Kent é super-herói". Mas não é caso evidente de uma troca entre 2, ii ou II, que seria reconhecido por todos.

Da perspectiva epistêmica de Lois Lane, que não é contraditória, trocar o nome Super-Homem por CK, em uma sentença, produz diferença cognitiva. Dito isso, como explicar a diferença cognitiva entre as sentenças, dado que se referem ao mesmo objeto e somente há uma troca de nomes, coisa que é corriqueira na vida de qualquer um de nós? Tal fato ilustra que há atitudes epistêmicas diferentes, isto é, acreditamos em uma expressão, mas não na outra.

Essa questão, informa Ruffino, passa a ser conhecida como o problema de Frege: “diferenças cognitivas em enunciados que resultam apenas da troca de um nome por outro nome que tem a mesma referência”. É assim que começa SSR[iii], particularizado na identidade entre objetos do tipo “a = b”. O caso de Super-Homem e super-herói, embora não sendo de identidade de objetos, mas de predicação, é um aonde ocorre essa diferença de valor cognitivo. A solução de SSR é que, além da referência, o nome carrega uma forma de apresentação que tem papel fundamental nas crenças. LL olha CK segundo um sentido e LL olha para SH segundo um outro sentido. Ou seja, o nome tem dois tipos de significado.

Voltando à questão da identidade, que em si é uma questão e que já vimos, Frege se pergunta entre o que é a relação de identidade, se entre nomes (uma expressão linguística) ou entre objetos, as coisas significadas. Há um plano ontológico da linguagem (símbolos) e outro do mundo (do que se fala)[iv]. O enunciado de identidade maximiza o problema de Frege, já que se “a = b”, ‘b’ pode ser uma informação inteiramente nova. Há o enunciado trivial que diz que a estrela da manhã é a estrela da manhã, mas há uma descoberta astronômica que diz que a estrela da manhã é a estrela da tarde. E os enunciados de identidade são inúmeros, como pi sendo a razão entre a circunferência e o diâmetro de um círculo, ou calor é a energia transmitida entre corpos. Assim como a polícia está sempre tentando achar a identidade de um assassino. E nós seguindo nos passos de Frege.


[i] Um resumo, quase transcrição de https://www.youtube.com/watch?v=7VLtDA_yxLI, “Filosofia da Linguagem - Ep. 3: O valor cognitivo das identidades”.

[iii] Sobre Sentido e Referência.

[iv] Conforme exemplo de Ruffino, ‘neve’ tem quatro letras e “neve é gelada”, mas a palavra ‘neve’ não é gelada.