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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Descritivismo

Aborda o descritivismo clássico, a teoria dos agregados e como o descritivismo resolve três dos enigmas deixados sem resposta pelo referencialismo[i]

Introdução. Conforme vimos no último fichamento, o enigma de Frege, que dá origem à teoria da referência indireta, introduz o sentido do nome próprio, mas não o explica. O que Sagid vai nos mostrar é que, pressupondo a teoria das descrições definidas de Russell, a teoria descritivista dos nomes próprios irá clarificar esse conceito fregeano, além de propor explicações tanto para o significado quanto para a referência.

Descritivismo clássico. O descritivismo é uma família de teorias da referência que explicam o significado e/ou a referência dos nomes em termos do significado e/ou referência das descrições definidas daqueles nomes. Primeiro, o descritivismo explica o significado dos nomes em termos do significado das descrições e, depois, explica a referência dos nomes em termos do significado das descrições.

O descritivismo clássico é, então, uma versão de teoria da referência indireta oriunda de Frege e Russell. Nela, um falante associa uma descrição definida a um nome próprio e é o significado dessa descrição que é o significado daquele nome próprio. E, também, o significado dessa descrição seleciona um objeto que é o referente daquele nome próprio.

Teoria das descrições definidas de Russell. Conforme continua Sagid, uma descrição definida é uma expressão da forma “o F” ou “a F”, isto é, são expressões antecedidas pelos artigos “o”, “a”, por exemplo: “a rainha da Inglaterra”, “a pessoa mais alta do planeta”. O uso das descrições definidas faz com que uma afirmação como 1.) deva ser interpretada por uma afirmação como 2.), qual seja, alguém que diz 1.), na verdade está dizendo 2.), tomando 1.) por “N é G” e 2.) por “O F é G”.

Isso posto, quando digo 3.) “Aristóteles é um filósofo”, estou dizendo 4.) “O fundador da lógica formal é um filósofo”, já que, conforme enunciado, é a descrição que o falante associa ao nome próprio que fornece o significado do nome. Isso reduz o problema do significado dos nomes ao problema do significado das descrições, esse último sendo tratado pela teoria russelliana.

Ocorre que o significado de uma descrição definida não é tomado isoladamente, mas por um método de análise contextual que interpreta o significado de expressões no contexto completo das frases em que elas ocorrem. Para explicar o significado de expressões subfrásicas, como NP ou DD[ii], podemos nos valer do princípio da composicionalidade e verificar qual a contribuição delas na frase. Então, não se explica “o fundador da lógica formal”, mas “o fundador da lógica formal é sábio” – dentro de um contexto, sobre o que é dito.

Pela teoria das descrições definidas de Russell, 2.) “O F é G” é analisada como 2’.) “Existe um e apenas um F e quem quer que seja F é G”. 2.) é analisada por uma cláusula de existência, outra de unicidade e, por fim, a predicação. Dado 4.) “O fundador da lógica formal é um filósofo”, ela será analisada como 4’.) “Existe um e apenas um fundador da lógica formal, e ele é um filósofo.[iii] Ressalta Sagid que esse método de análise é usado para determinar o significado de uma descrição definida, pois permite determinar como ela contribui para a frase em que ocorre, pelo que é dito pela frase. O método também explica quem é o referente e como é determinado, pois é o único objeto que satisfaz a descrição, que possui a propriedade indicada pela descrição. Já se a descrição não aponta para nenhum objeto que a satisfaça, então não tem referente. Tenha zero ou muitos objetos, a descrição falha em se referir, é vazia. A tabela abaixo indica como a teoria resolve os problemas propostos por Sagid.

Problema

Descritivo

Fundacional

Referência

Qual referente da descrição definida?

Em virtude de quais fatos uma descrição definida se refere ao que se refere?

Resposta

O objeto que satisfaz a descrição definida.

Uma descrição definida se refere ao que se refere em virtude de o objeto ser o único a possuir a propriedade apontada por ela.

 

Teoria descritivista dos nomes. Do que foi dito, o significado do nome próprio é o significado da descrição definida que o falante associa a ele. A respeito do problema descritivista do significado dos nomes próprios, o significado do nome próprio é o significado da descrição associada a ele. Exemplificando, qual o significado de Aristóteles? É o significado da descrição “o fundador da lógica formal” que o falante associa a ele. Já o significado de “o fundador da lógica formal” é dado pela teoria de Russell. De “Aristóteles é um filósofo”, extraio “O fundador da lógica formal é um filósofo” e, com a contribuição de Russell: “Existe um e apenas um fundador da lógica formal e ele é um filósofo”.

Já sobre o problema fundacional, Aristóteles significa o que ele significa em virtude de ele ser associado à descrição que lhe é associada, que ele satisfaz. Em outras palavras, Aristóteles tem o significado que tem em virtude da descrição que ele está associado ter o significado que ela tem.

Se a teoria referencialista dos nomes próprios explica o significado dos nomes, ela não explica a referência. Já a teoria descritivista o faz, dizendo que o problema descritivo da referência pode ser enunciado como: o referente de determinado nome é o objeto que satisfaz a descrição definida associada ao nome. Já ao problema fundacional da referência, que se pergunta sobre quais fatos, o descritivismo diz que o nome próprio se refere ao que se refere em virtude deste objeto satisfazer a descrição associada a ele.

Isto é, o descritivismo explica o sentido e como ele determina o referente. Se o significado do nome é o significado da descrição definida associada, o sentido do nome é o sentido da descrição definida associada. Mas como ele determina o referente? A partir do momento em que o significado da descrição definida impõe certas condições no mundo que apenas um objeto satisfaz, ou seja, as cláusulas de existência, unicidade e predicação. Não obstante, o nome próprio pode ter sentido, mas não referente, na medida em que seu sentido é dado pela descrição, mas ninguém a satisfaz, que é quando o sentido aponta para nada[iv].

Teoria dos agregados. O descritivismo clássico, enquanto uma teoria da referência indireta, isto é, quando a referência é parcialmente determinada pelo significado do nome, se debruça sobre uma descrição definida particular que um falante associa ao nome. Ocorre que, pode ser que um falante associe muitas descrições a um nome, o que levanta a pergunta sobre por que apenas uma delas fixa o referente do nome, se alguma é a mais importante. Uma possível resposta é a de que vale a descrição que o falante tem em mente quando usa o nome, embora muitas vezes não pensemos em uma descrição ao usar um nome.

Por outro lado, diferentes falantes podem associar diferentes descrições a um mesmo nome, o que poderia ter a consequência de serem diferentes significados, embora consigamos entender a mesma coisa. Ora, Sagid traz casos de desacordo como “Aristóteles é inteligente” e “Aristóteles não é inteligente” que, se aparentemente são contraditórios, podem estar simultaneamente certos se o primeiro signifique que “O fundador da lógica formal é inteligente” e o segundo que “O autor da metafísica não é inteligente”. Ou seja, diferentes falantes, ao fixar a referência com diferentes descrições, podem estar atribuindo diferentes significados.

Posto isso, Searle irá rejeitar que o significado do nome é dado por uma descrição particular, mas por um agregado de descrições que permitam determinar o objeto. Se podem haver muitas, não são todas, senão bastaria que uma não fosse satisfeita para invalidar o significado. Não sendo todas, Searle postula um número suficiente, mas que também é vago, pois difícil de mensurar, mas que também não seja superado por um outro objeto que satisfaça tais descrições em número maior. Também, dirá Searle, não é necessário especificar quais descrições devem ser verdadeiras para que um indivíduo seja o referente de determinado nome próprio.

Aplicando a teoria dos agregados, temos que o significado de “Aristóteles é um filósofo” é dado por “O indivíduo acerca do qual um número suficiente, vago e não especificado das afirmações: ele é d1, ele é d2, ..., ele é dN, são verdadeiras é também um filósofo”. Resumindo, o significado do nome próprio vem da descrição completa daquele nome. O que pode significar: “O indivíduo acerca do qual um número suficiente, vago e não especificado das afirmações: ele é o fundador da lógica formal, ele é o autor da metafísica, ele é o discípulo mais inteligente de Platão e etc., são verdadeiras é também um filósofo”. E os problemas são resolvidos como abaixo:

Problema

Descritivo

Fundacional

Significado

O significado do nome próprio é o significado da descrição complexa que o determina.

O nome próprio tem o significado que tem em virtude de a descrição complexa ter o significado que tem.

Referência

O referente de um nome próprio é o indivíduo cujo significado é o referente da descrição complexa associada a ele.

O nome próprio se refere a que se refere em virtude da descrição complexa associada a ele se referir ao que se refere.

 

Dessa maneira, a teoria dos agregados evita o problema do descritivismo clássico, já que não há uma descrição especial para o nome, mas o que importa é o agregado. Acontece que podemos extrapolar o caso e falantes diferentes pode ter um agregado que seja diferente e produza diferentes significados. Nesse caso, lança-se mão do agregado da comunidade linguística em oposição ao agregado de cada falante[v].

Conclui-se que, a referência direta vai pleitear que seja lá como for que o referente do nome é determinado, ele não é determinado pelo significado, ao passo que, pela referência indireta, o referente é parcialmente determinado pelo significado do nome, e é essa teoria que vai resolver os enigmas apresentados.

Solução do descritivismo para nomes vazios. Como sabemos, para o referencialismo, o significado de um nome próprio é o próprio referente, o objeto e, se ele falha, se o referente é vazio, o nome não tem significado. Já para o descritivismo, mesmo que o nome próprio a nada se refira, ainda tem significado, visto que é dado pelo significado da descrição. Dado que 5.) “Papai Noel é legal”, o significado do nome “Papai Noel” é dado pelo significado da descrição definida “o bom velhinho”, o que resulta em 6.) “O bom velhinho é legal” e, aplicando a teoria de Russell tem-se que 6’.) “Existe um e no máximo um bom velhinho e ele é legal”. Porém, se é o caso que Papai Noel não existe, a afirmação é falsa e, portanto, dotada de significado.[vi]

Ainda assim, se temos a impressão que Papai Noel é legal, é justamente porque o descritivismo trata esse proferimento como falso porque Papai não existe e não porque ele não seja legal. Nesse caso, ainda poderíamos recorrer ao faz de conta para dizer que Papai Noel é legal “lá”, muito embora tal proferimento seja literalmente falso. Para o descritivista, seria possível usar “Papai Noel” em certos contextos[vii].

Solução do descritivismo para existenciais negativas. O proferimento 7.) “Papai Noel não existe”, conforme já vimos pela nota anterior, se é verdadeiro, tem significado e, consequentemente, cada parte tem significado. Isso leva ao paradoxo de que o significado de “Papai Noel” é seu referente, que é o próprio Papai Noel e, nesse caso, existe. Agora, se tomarmos a frase pela descrição “O bom velhinho não existe”, teremos 7’.) “É falso que existe um e apenas um bom velhinho” que é verdadeira sem termos que recorrer a nenhuma ontologia, como a de Meinong.

Isso posto, o descritivista não usa o faz de conta para o problema de Vulcano, já que oriundo de fato real e científico. Aqui, de 8.) “Vulcano não existe” se extrai 8’.) “É falso que existe um e apenas um planeta causando anomalias na órbita de Mercúrio” – afirmação literalmente verdadeira e que evita que cientistas tratem do faz de conta.

Solução do descritivismo para o enigma de Frege. Simplificando o exemplo de Sagid, temos as frases 9.) “Anitta é Anitta” e 10.) “Anitta é Larissa” que, pela teoria referencialista, associam o significado do nome ao objeto referido. Visto que, pelo princípio da composicionalidade, tem a mesma estrutura, mas apresentam nomes diferentes que são correferenciais, esses nomes deveriam ter o mesmo significado, o que parece implausível em razão de possuírem uma diferença de conteúdo informativo.

Seja a descrição de Anitta “a cantora de funk mais famosa” e a de Larissa “a cantora preferida do Sagid”, as frases ficariam 9’.) “A cantora de funk mais famosa é a cantora de funk mais famosa” e 10’.) “A cantora de funk mais famosa é a cantora preferida do Sagid”. 9’.) apresenta o mesmo objeto do mesmo modo e 10’.) são duas formas diferentes de apresentar o objeto por duas descrições, portanto de caráter informativo. Então o descritivismo explica o sentido fregeano, já que o sentido do nome é o sentido da descrição definida.

Solução do descritivismo para o princípio da substitutividade. Por fim, temos que o princípio da substitutividade falha para o referencialismo, já que ele deveria admitir como universalmente válido que a substituição de um nome próprio por outro nome próprio correferencial não altera o valor de verdade da proposição. Entretanto, se em 9.) e 10.) a substituição se aplica e são verdadeiras, há contextos que são referencialmente opacos como os contextos de crença como em 11.) “Maria acredita que Anitta é Anitta” e 12.) “Maria acredita que Anitta é Larissa”. Em situações como essa, a substituição altera o valor de verdade das proposições e o princípio falha, pois Maria certamente sabe de 11.) mas pode não saber de 12.). Entretanto, derivando para o descritivismo, 11’.) “Maria acredita que a cantora de funk mais famosa é a cantora de funk mais famosa” e 12’.) “Maria acredita que a cantora de funk mais famosa é a cantora preferida do Sagid”, tem o mesmo valor de verdade, já que tem o mesmo referente.



[i] Recortes feitos das aulas 11, 12 e 13 do professor Sagid Salles disponíveis no Youtube. Curso IF - Filosofia da Linguagem: https://www.youtube.com/playlist?list=PLb6DzdXIOv4EtJpTp1G9kThcOi_DATFyS.

[ii] Nomes próprios ou descrições definidas.

[iii] Sagid cita brevemente o uso atributivo de Keith Donnellan, mas não o aprofunda. Sobre ele falaremos.

[iv] Além disso, Sagid ressalta que, para Searle, o descritivismo aporta 2 fatos alegados sobre o nome próprio: ensinar um nome é introduzir o nome com uma descrição, e aprender a usar o nome é ser introduzido ao nome junto com a descrição. Ao ouvir coisas sobre “Maria”, como “Maria X” ou “Maria Y”, podemos nos perguntar, “Quem é Maria?”. A resposta “É a moça mais inteligente da sala” nos ensina quem é Maria e como usar seu nome.

[v] Sagid cita a solução de Claudio Costa que seria de descrições enciclopédicas.

[vii] Ver https://criticanarede.com/logicaficcional.html: O estatuto lógico do discurso ficcional - John R. Searle. Tradução de Vítor Guerreiro.

sábado, 16 de julho de 2022

Do nome à descrição definida dele

É um exercício de filosofia da linguagem ainda bem incipiente e incompleto[i]

Se eu digo “Gilberto Gil é o baiano com mais balanço”, o que isso significa e a quem me refiro? Do ponto de vista intuitivo, a frase acima significa que me refiro a Gil, isto é, o significado de Gil é o próprio Gil, qual seja, a referência. Agora, se eu digo “Gilberto Moreira é o baiano com mais balanço”, o que isso significa e a quem me refiro?

Da mesma forma, intuitivamente, essa segunda frase assere a Gilberto Moreira a descrição de ser o baiano com mais balanço. Ora, se o significado é a referência, temos um problema aqui: temos dois nomes referindo à mesma pessoa, como que sendo dois significados diferentes para a mesma referência. Além do mais, certamente alguém pode não saber que Gilberto Moreira é Gilberto Gil e pensar se tratar de outra pessoa.

Essas questões iniciais trazem algumas dificuldades em se tratar do significado de um nome como sendo a própria referência, pois parece que impede flexões. Então, o que podemos fazer é separar o significado da referência, de modo que haja uma referência (Gil) e muitos significados (Gilberto Gil, Gil Moreira, o baiano com mais balanço, o primogênito de José Gil Moreira, etc.). Ora, temos aí duas teorias da referência: uma direta (o significado é a referência) e outra indireta (o significado é uma descrição da referência[ii]).

Ora, agora parece que temos uma maleabilidade maior em descrever as referências de acordo com as descrições que queiramos e nos afastando de um significado fixado. Isso aproxima o nome que identifica o objeto das descrições [definidas] que identificam o objeto. Ainda assim, vejamos, há uma âncora lá: a referência. Mas ela pode não haver como em “Saci-pererê é o menino mais travesso”, considerando que o saci-pererê não existe.

Isso leva a um terceiro e último aspecto que gostaríamos de comentar. O fato de “falar de” seja por um nome (fixo) ou uma descrição levanta dificuldades de comunicação quando falta ou sobra significado ou referência, o que nos leva a suprimir a descrição definida por uma análise lógica. Assim, o que quereria dizer a frase “O primogênito de José Gil Moreira é o baiano com mais balanço”? Que existe um primogênito de José Gil Moreira, que há no máximo um primogênito de José Gil Moreira e que, quem quer que seja o primogênito de José Gil Moreira, ele é o baiano com mais balanço.

Tem-se que a descrição definida se despe em uma asserção de existência (o primogênito existe), de univocidade (só há um primogênito do José Gil) e da predicação (ele é o baiano com mais balanço). Essa análise já permitiria também refutar o saci-pererê[iii]. A camada aparente da linguagem fica, assim, subsumida à sua base lógica real e evitamos problemas de interpretação e comunicação.

Bem, esperamos não ter errado muito, esperamos que argumentação tenha um pouco de clareza e que possa ter coberto em linhas gerais os pontos principais, embora nesse momento eu não esteja tão certo que isso tenha sido feito a contento.



[i] Nossa intenção com esse primeiro exercício de filosofia da linguagem, descompromissado, é nos aproximarmos da escrita técnica e tentar passar brevemente pelos primórdios das teorias, circunscrevendo-nos entre Russell e Frege e só.

[ii] Conforme Frege, o sentido, ou seja, um modo de apresentar o objeto (a referência).

[iii] Já que não existe, apesar de Meinong ter proposto que ele tem um ser, que faz parte da realidade dos inexistentes. 

domingo, 18 de outubro de 2020

O programa do positivismo lógico [i]

Ayer é o iminente filósofo britânico condensador das ideias do positivismo lógico, oriundas do Tractatus e do Círculo de Viena. Seu livro, Language, Truth and Logic (1936) já se inicia com a tarefa reconhecida dos positivas de eliminação da metafisica com a frase “As disputas tradicionais dos filósofos são, em sua maior parte, tão injustificadas quanto infrutíferas”.

Como principal crítica, os positivos consideravam as proposições metafisicas como desprovidas de significado, sem conteúdo cognitivo. A base do ataque era lógica e se fundava no critério de verificabilidade da significação, para o qual proposições devem ser [francamente] verificáveis [em princípio] para poderem ter significado, como o são as da matemática e lógica e não as da metafísica.

Schwartz lista sete princípios do programa do positivismo lógico:

1.      A eliminação da metafisica, da ética, da estética e da teologia pelo critério de verificabilidade da significação.

2.      A causa da perplexidade da metafisica é a gramática superficial da língua; sua cura é a análise lógica.

3.      A lógica e a matemática não consistem em nada além de tautologias. Estas são verdades formais que não têm conteúdo referencial.

4.      Todas as proposições que são necessárias ou a priori são sintéticas. Todas as proposições que são contingentes ou a posteriori são tautologias.

a.      Analiticamente verdadeiro = tautológico = a priori = necessário.

b.      Sintético = a posteriori = contingente.

5.      Toda a ciência consiste num único sistema unificado com um único conjunto de leis naturais e fatos. Não há métodos ou sistemas separados nas ciências psicológicas ou sociais.

6.      A máxima suprema no filosofar científico é esta: Sempre que possível, entidades inferidas devem ser substituídas por construções lógicas.

7.      Enunciados éticos não têm conteúdo cognitvo, mas exprimem atitudes e emoções.

A metafísica tão requisitada se daria por uma ilusão de linguagem a ser resolvida pela análise lógica e mesmo números poderiam ser entidades metafísicas suspeitas, até que Wittgenstein postula esse discurso como tautologias formais sem qualquer peso ontológico ou referencial.

É o caso da substantivação de adjetivos, por exemplo, a rapidez. No discurso da linguagem a rapidez deveria se referir a algo, mas a que? Daí que rapidez se torna um universal sujeito a controvérsias mesmo por Russell, até que Wittgenstein os elimina na lógica simbólica. Discursos metafísicos intermináveis sobre a existência são eliminados com a lógica simbólica: “Zebras existem” passa a ser xZx: Existe um x tal que x é uma zebra.

Sobre o sexto princípio, trata-se do reducionismo de Russell, como no caso do discurso físico sobre objetos se transformarem em discurso sobre “dados dos sentidos”, mesmo que essa redução ainda fosse um ideal de difícil aplicação. Essa tradução é o fenomenalismo que foi abordado por Carnap como um discurso remetendo ao dado, reconstruído o conhecimento com base na experiência imediata (empirismo positivista).

O Fenomenalismo foi reduzido por Ayer a conteúdos sensoriais, dizer algo sobre “mesa” é dizer sobre um símbolo e em última instância sobre um conteúdo sensorial. O conteúdo sensorial é, então, uma construção lógica, uma proposição linguística e não parte da coisa material. Essa linguagem fenomenalista seria a linguagem da ciência unificada.[ii]

Uma contraposição ao fenomenalismo dentro do próprio Círculo de Viena veio do fisicalismo de Neurath que, com uma posição marxista, tratava da linguagem comum de objetos físicos. O fisicalismo substituía os conteúdos sensoriais por processos neurofisiológicos e comportamento.

Por fim, do sétimo se extrai o emotivismo e a proposta de que a ética não é normativa e não resulta em juízos de valor verificáveis, apenas justificáveis, e que por trás do discurso ético ainda poderia haver um ideal utilitarista ou de felicidade.




[i]
 Uma breve história da filosofia analítica de Russell a Rawls. Schwartz, Stephen P. São Paulo: Edições Loyola, 2017, p. 75 e ss.

[ii] Esses temas estão fortemente presentes no projeto husserliano, mas lá é voltado a vivências subjetivas e não a conteúdos sensoriais. Tema a ser melhor explorado: o fenomenalismo de Carnap e a fenomenologia de Husserl.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Wittgenstein e a teoria da figuração

Das divergências do último e do primeiro Wittgenstein acerca da linguagem.

É comum um pensador ter rupturas ou divergências no cômputo geral de sua obra. Esse é o caso de Wittgenstein que, de acordo com Cavassane[i], tem uma abordagem diametralmente oposta a respeito da linguagem entre o Tractatus e as Investigações Filosóficas. Ao fim do Tractatus, redigido sob a influência de Russell e que aborda a natureza da proposição e da linguagem, Wittgenstein acreditou ter solucionado os problemas de filosofia [então suscitados por Russell]. Porém, após algum tempo afastado da filosofia, ele percebe que estava orientado a uma perspectiva da tradição filosófica pela via de Russell e que ali os problemas não estavam postos de maneira correta, portanto, decide criticar seu velho modo de pensar [e a tradição], agora nas Investigações.

O Tractatus Logico-Philosophicus. De acordo com Cavassane, a teoria da figuração é a que receberá a crítica mais contundente, posteriormente. Nela, Wittgenstein busca responder “Como é possível falar sobre o mundo?”. A teoria da figuração é uma teoria do significado linguístico, e Wittgenstein postula que é possível porque linguagem e mundo compartilham uma mesma estrutura lógica [a priori].

Ou seja, a linguagem afigura os fatos compartilhando a forma lógica, que é a forma do pensamento. Porém as frases da linguagem ordinária podem conter erros e, da análise lógica de uma frase, pode se extrair o pensamento nela contido. Daí surge a tese do indizível: somente podemos expressar fatos do mundo (sejam possíveis ou reais), conteúdos objetivos. Isso não vale para o subjetivo (ética, religião) nem formal (lógica, matemática), considerados místicos por Wittgenstein que crava: “Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar”.

A crítica ao Tractatus nas Investigações Filosóficas. Segundo Cavassane, Wittgenstein abrirá mão de dois pontos principais de sua teoria da figuração: o referencialismo para o qual uma palavra possui significado se ela corresponde a um objeto e o perfeccionismo lógico, trazendo a crença de que a linguagem representa o mundo fielmente e nisso consiste a verdade. Wittgenstein vai criticar o referencialismo argumentando que não é possível reduzir todas as palavras a nomes. Sobre o perfeccionismo lógico, o uso no Tractatus se se dá por palavras simples se referindo a objetos e isso traz a univocidade do significado que garante certa imutabilidade e evitando a perda de referência. Porém, Wittgenstein vai rever essa posição nas Investigações considerando a exatidão absoluta do significado um ideal inalcançável, já que dependente do contexto. E é essa impossibilidade de exatidão que implode a lógica como estrutura do pensamento, do mundo e da linguagem, colocando abaixo a teoria da figuração do Tractatus Logico-Philosophicus.

Wittgenstein localiza a correspondência entre objetos e palavras em Platão, que no Teeteto cita que nos referimos a elementos primitivos por seus nomes e que ela forçaria o isomorfismo. Ainda, a correspondência se da a partir dos substantivos, parte pequena das palavras. Mais além, a ideia do objeto simples parece ser criada a priori para se encontrar por conseguinte a proposição e sua análise.

Considerações finais. Ao se perguntar sobre como é possível falar sobre o mundo, Wittgenstein responde com a teoria da figuração, onde as palavras afiguram objetos e há um isomorfismo lógico entre frases e fatos. Porém, posteriormente, Wittgenstein percebe o viés orientativo da teoria da figuração baseado na tradição e que sua resolução não contribuiu para a verdadeira compreensão dos fenômenos da linguagem, então ele faz a crítica do pensamento inicial. Agora, não há uma exatidão entre mundo e linguagem e isso implode a possibilidade de mapeamento lógico. Deste modo, o que constitui a ruptura entre o primeiro e o segundo Wittgenstein é uma mudança de método: “O método puramente apriorístico do Tractatus é submetido a crítica e agora recomenda (em certo sentido) o método a posteriori de investigar os fenômenos reais da linguagem.”. Se afastando de Platão e da tradição, o segundo Wittgenstein se afasta de conceito e se aproxima do uso cotidiano.



[i] O que se segue é conforme A crítica de Wittgenstein ao seu Tractatus nas Investigações Filosóficas, acessado em 07/09/2020 no link: http://www2.marilia.unesp.br/revistas/index.php/ric/article/view/337. Artigo de Ricardo Peraça Cavassane.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Sobre mesa[i]

Nesse primeiro capítulo Russell aborda um objeto simples, uma mesa, para enfatizar o problema do conhecimento, por um lado e, por outro, o papel da Filosofia. Desde este início já podemos notar o uso do método cartesiano e a refutação ao idealismo.
Ao se perguntar se há algum conhecimento no mundo do qual não se pode duvidar, Russell entra no campo da teoria do conhecimento argumentando que só uma filosofia crítica e não dogmática pode responder, depois de muita investigação. Retomando Descartes, mas sem [ainda] o citar, Russell analisa a mesa para mostrar que o conhecimento oriundo da experiência é duvidoso e controverso já que nossos sentidos não são sempre precisos e que há diferentes pontos de vista que variam em cada um de nós, com relação à mesa.
O questionamento do conhecimento pelos sentidos levanta a questão central da aparência versus realidade. Tomamos por real uma mesa a partir de suas características aparentes, ou seja, do que inferimos do que vemos. E existe muito de nós no que vemos: a forma da mesa criada por nós não vem somente da mesa, mas do que nossa sensação obtém. A isso Russell nomeia “dados-dos-sentidos”, contrapondo-os ao objeto físico.
A mesa que vemos e temos, então, são dados-dos-sentidos, mas há de fato uma mesa real? Há um objeto físico despido de dados-dos-sentidos e livre de nossa sensação? Essas questões podem ser extrapoladas para uma questão mais ampla: há, de todo, matéria? Tal questão do problema do conhecimento foi respondida, como Russell retoma, pelos idealistas. Para eles só há mesa para uma mente, ou seja, há uma mesa lá porque estamos cientes dela. Porém, ao fecharmos os olhos, a mesa desaparece? Com certeza não, porque Deus está ciente, de acordo com o bispo Berkeley.
Desse modo adentramos no terreno da dicotomia mente e matéria. Há uma mesa dura, marrom, que eu posso tocá-la e o faço pela garantia da mente de Deus. A filosofia de Berkeley supõe que a mesa real é feita de mente e põe em dúvida a existência da matéria. E, não podemos considerar essa ideia absurda, pois foi acompanhada por muitos filósofos.
Russell considera tal argumento falacioso e retoma a dúvida: há objeto físico, matéria? De que natureza? Para Russell há razões para supor que há uma mesa real e a investigação continuará, mas, por agora, já mostrou o papel da filosofia: tornar uma simples mesa um problema cheio de possibilidades.



[i] Há uma primeira resenha desse primeiro capítulo de Russell disponível no link que se segue: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2019/04/o-mundo-nao-existei.html. Já a atual é feita com base na tradução de Desidério Murcho, Edições 70. Abril de 2008. RUSSELL, B. “Os Problemas da Filosofia”.

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Cidadãos do Universo*

Nesse último capítulo, Russel verificará qual o valor da filosofia e por que estudá-la. Ele inicia com a constatação de que, se há utilidade no estudo das ciências físicas, isso não ocorre no caso da filosofia já que seu valor diz respeito não somente ao estudo de coisas materiais, mas para os benefícios que traz para a mente.
Para Russell, a filosofia é um tipo de conhecimento que dá unidade ao todo das ciências examinando criticamente as bases de nossas convicções, preconceitos e crenças. Porém, diferentemente dos resultados obtidos pelas outras ciências, a filosofia não costuma apresentar resultados positivos, até porque quando um conhecimento, antes filosófico, se estabelece, ele passa para outra ciência, como no caso da astronomia, filosofia natural ou psicologia. Ficam, então, com a filosofia, questões sem resposta definitiva.
Por outro lado, Russell ressalta que a filosofia investiga questões especulativas não demonstráveis e controversas, mas de grande importância, como a natureza e finalidade do universo, mente e consciência, questões morais, etc. Embora filósofos sustentassem respostas e demonstrações para crenças religiosas, o estudo promovido por Russell nessas investigações demonstrou que não há provas filosóficas contundentes em tal conhecimento e não está aí o valor da filosofia.
Russell define o valor da filosofia na incerteza. O homem que desconhece a filosofia fica preso em seus preconceitos e nas verdades do seu tempo, acreditando que o mundo é definido e fechado. Então, o estudo filosófico levanta dúvidas nas questões mais banais nos lançando nas mais variadas possibilidades de como as coisas podem ou poderiam ser. Principalmente, a filosofia faz com que nos libertemos de nosso mundo de interesses privados e vontades instintivas em direção a um mundo maior e mais livre, escapando de nossa prisão cotidiana.
Para Russell, a contemplação filosófica (que nos permite escapar..) traz um alargamento do ser, do eu, para além do maniqueísmo e se baseando puramente em um conhecimento livre de amarras. Daí que não devemos nos prender em filosofias que tratam do universo para o homem, definindo-o como a medida das coisas e do conhecimento uma criação de e para nossa mente. Russell apregoa que é preciso romper nosso círculo doméstico de preconceitos em busca do não eu pois um intelecto livre se deixa levar pela verdadeira contemplação filosófica que busca um conhecimento abstrato e universal, superando a barreira do corpo, do eu, do aqui, agora.
Russell conclui ressaltando que uma mente que se eleva à contemplação filosófica é livre e imparcial e tal comportamento reflete em nossas ações e sentimentos como um propósito do todo. A mente que deseja a verdade, segundo ele, é a ação que deseja justiça e o sentimento do amor universal e não uma que parte de nosso julgamento e utilidade. Só assim nos tornamos cidadãos do universo. Finalizando o livro, vem sua citação:
Thus, to sum up our discussion of the value of philosophy; Philosophy is to be studied, not for the sake of any definite answers to its questions since no definite answers can, as a rule, be known to be true, but rather for the sake of the questions themselves; because these questions enlarge our conception of what is possible, enrich our intellectual imagination and diminish the dogmatic assurance which closes the mind against speculation; but above all because, through the greatness of the universe which philosophy contemplates, the mind also is rendered great, and becomes capable of that union with the universe which constitutes its highest good.



Bertrand Russell, Problems of Philosophy. THE VALUE OF PHILOSOPHY. Acessado em 15/8/2019: http://www.ditext.com/russell/rus15.html. Ver o seguinte fichamento e os anteriores:.https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2019/09/criticismo-filosofico-i.html.

domingo, 15 de setembro de 2019

Criticismo Filosófico [i]

A Ideia Absoluta de Hegel. Russell diz que é prática comum na filosofia o uso de um raciocínio metafísico a priori para tratar de dogmas da religião, universo, matéria, etc., que, porém, não sobreviveria a um escrutínio crítico. Para ele, o representante desse pensamento é Hegel, que estabelece que o todo é composto por partes fragmentárias incapazes de existirem sem o resto do mundo.  Nesse sentido, o filósofo, a partir de qualquer amostra de realidade pode ver o todo, como se cada pedaço fosse enganchado com o próximo e assim por diante. Russell diz que, de acordo com Hegel, essa incompletude aparece tanto no mundo das coisas quanto no dos pensamentos, composto por ideias enganchadas que, através da contradição, uma ideia se transforma em antítese para daí virar síntese que, ainda incompleta, inicia um novo ciclo e, sucessivamente, avança até a "Ideia Absoluta".[ii] Essa ideia absoluta descreve a realidade absoluta que seria o que Deus vê: uma unidade espiritual imutável, perfeita e eterna.
Os problemas com a Ideia Absoluta. Russell argumenta que, apesar de parecerem sublimes, ao serem investigados os argumentos são confusos. Hegel diz que o que é incompleto não subsiste por si só e depende de relações com outras coisas que fazem parte de sua natureza. Por natureza de uma coisa, Russell entende que seja “all the truths about the thing”. Se parece claro que a verdade que liga uma coisa à outra não subsiste se a outra coisa não subsiste, essa verdade não é parte da coisa, mas, segundo Hegel, é parte da natureza da coisa. Russell, então, enfatiza a confusão da natureza entre conhecimento de coisas e conhecimento de verdades. Se assumirmos que a natureza da coisa consiste nas verdades da coisa, deveríamos conhecer todas as relações da coisa com todo o universo, porém isso não é possível e ainda assim conhecemos a coisa, mesmo quando sua natureza não é completa. Conhecemos uma coisa por familiaridade até mesmo sem conhecer nenhuma proposição da coisa. Ou seja, conhecer uma coisa não requer conhecimento da natureza da coisa, conforme acima, embora esse conhecimento esteja envolvido no conhecimento de qualquer proposição da coisa[iii]. Russell diz que o fato de uma coisa ter relações não quer dizer que elas sejam logicamente necessárias já que não podemos deduzir suas relações, somente o faríamos depois de conhecê-las. Ou seja, não podemos provar que o universo forma um todo como queria Hegel, e o que se seguiria disso: a irrealidade do espaço, tempo, matéria, etc. O resultado é a inviabilidade de uma análise sistêmica e a filosofia segue a análise indutiva e científica.
Argumentação Metafísica. Segundo Russell, o trabalho metafísico se assentou em provar que as características do mundo eram autocontraditórias e por isso não reais. Porém, os modernos vão no sentido de mostrar que essas contradições eram ilusórias e que muito pouco pode ser provado a priori de considerações do que deve ser. Por exemplo, espaço e tempo parecem ser infinitos em extensão, por mais que tentemos não achamos um fim. Por menor que seja um espaço ou tempo sempre podemos dividi-los novamente e assim sucessivamente até o infinito. Porém, contra esses fatos aparentes, filósofos argumentaram que não haveriam coleções infinitas de coisas. Daí surge uma contradição entre a aparente natureza do espaço e do tempo e a suposta impossibilidade de coleções infinitas. Quando Kant enfatizou essa contradição deduzida da impossibilidade do tempo e do espaço declarados por ele subjetivos, os filósofos trataram tempo espaço como sendo aparentes e não fazendo parte do mundo real, como ele é.
Contribuição da Lógica. Porém o trabalho de matemáticos, principalmente Cantor, mostrou que a impossibilidade de coleções infinitas era um erro, invalidando uma das grandes construções metafísicas. Conforme Russell: "They are not in fact self-contradictory, but only contradictory of certain rather obstinate mental prejudices". Os matemáticos não só mostraram que o espaço como se supõe ser é possível, como também que outras formas de espaço são possíveis como a lógica pode mostrar. Por exemplo, alguns axiomas de Euclides que influenciaram filósofos retiraram sua aparente necessidade de nossa familiaridade com o espaço atual conhecido e não com alguma fundação lógica a priori. Imaginando mundos em que esses axiomas fossem falsos, os matemáticos criaram espaços diferentes do nosso e mesmo colocando em dúvida se nosso espaço é estritamente euclidiano. Até então a experiência descrevia uma possibilidade de espaço que a lógica mostrou impossível, agora a lógica mostra muitos espaços possíveis que a experiência apenas parcialmente decide entre eles. Russell abre o mundo para enormes possibilidades onde pouco é conhecido: "Thus, while our knowledge of what is has become less than it was formerly supposed to be, our knowledge of what may be is enormously increased". A lógica, então, torna-se a grande libertadora da imaginação apresentando inúmeras alternativas para a experiência decidir, quando possível, entre os mundos oferecidos.
Criticismo Filosófico. O conhecimento, não fica limitado à experiência atual, mas ao que podemos aprender da experiência, conforme o conhecimento por descrição, que não se prende a uma experiência direta. Nesse tipo de conhecimento, porém, precisamos de uma "conexão de universais" que nos permite inferir um objeto de um dado. É a conexão de universais que nos permite extrair dados-dos-sentidos de objetos físicos, ou seja, dá munição para a experiência, assim como da lei da causalidade para lei da gravitação. A lei de gravitação, segundo Russell, é uma combinação da experiência com um princípio a priori como o princípio de indução.[iv] O conhecimento filosófico é um tipo de conhecimento científico, a diferença é o criticismo que procura inconsistências nos conhecimentos científicos e da vida diária. Embora a investigação de Russell tenha refutado, criticamente, um sistema metafísico como não estando a altura da ciência, ao contrário, a crítica filosófica corrobora em muito o conhecimento empreendido pela humanidade. Porém, Russell impõe um certo limite na crítica já que um ceticismo absoluto (blank doubt) impede qualquer tipo de conhecimento tornando-se destrutivo. A essência da crítica, para Russell, é a dúvida metodológica cartesiana, analisando cada aspecto do conhecimento, como feito nessa investigação com os dados-dos-sentidos que pareciam indubitáveis e levaram a rejeitar uma semelhança direta com o objeto físico. A filosofia não rejeitaria um conhecimento impassível de objeção. O criticismo filosófico analisa cada parte aparente de conhecimento em seu mérito e retém o que se mostra ser de fato um conhecimento, admitido o erro proveniente da falibilidade humana. Ocorre que a filosofia reduz a chance desse erro tornando-o às vezes irrisório, mais do que isso não é prudente esperar.




[i] Bertrand Russell, Problems of Philosophy. THE LIMITS OF PHILOSOPHICAL KNOWLEDGE. Acessado em 18/7/2019: http://www.ditext.com/russell/rus14.html. Ver o seguinte fichamento e os anteriores: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2019/08/conhecimento-erro-e-opiniao-provavel.html.
[ii] Ideia absoluta que “has no incompleteness, no opposite, and no need of further development”.
[iii] Hence, (1) acquaintance with a thing does not logically involve a knowledge of its relations, and (2) a knowledge of some of its relations does not involve a knowledge of all of its relations nor a knowledge of its 'nature' in the above sense.
[iv] Thus our intuitive knowledge, which is the source of all our other knowledge of truths, is of two sorts: pure empirical knowledge, which tells us of the existence and some of the properties of particular things with which we are acquainted, and pure a priori knowledge, which gives us connexions between universals, and enables us to draw inferences from the particular facts given in empirical knowledge. Our derivative knowledge always depends upon some pure a priori knowledge and usually also depends upon some pure empirical knowledge.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Do conhecimento à opinião há erro*

Russell tratará de verificar se conseguimos distinguir entre crenças verdadeiras e falsas, iniciando com o que significa conhecer. Se parece que o conhecimento é o resultado de uma crença verdadeira, pode às vezes acontecer de uma crença verdadeira ser deduzida de uma crença falsa e isso não resulta em conhecimento. Ou de um processo falacioso de raciocínio,  até mesmo com premissas e conclusão verdadeiras.
Segundo Russell, o conhecimento é algo deduzido de premissas conhecidas, ou seja, um conhecimento derivativo de premissas conhecidas intuitivamente, desde que assumida uma conexão lógica válida. Há, até mesmo, conhecimento que pode ser uma inferência de uma notícia de jornal obtido pelos dados-dos-sentidos da leitura da notícia que não é, de fato, uma inferência lógica, mas inferência psicológica. Russell diz que não há uma definição precisa de conhecimento pois este pode ser estender até a provável opinião. Se o conhecimento derivativo depende do indutivo, o último não tem um critério certo de conhecimento ou erro[i].
Russell, então, compara o conhecimento de verdades, que corresponde ao complexo dito no capítulo anterior, com o conhecimento por familiaridade e situa o último como dependente da percepção e não suscetível ao julgamento que pode acarretar em erro. Então ele distingue os dois tipos de autoevidência que se seguem.
Conhecimento autoevidente de um fato particular fica privado a uma pessoa: dados-dos-sentidos, um sentimento, já fatos relacionados a universais não têm essa privacidade e podem ser conhecidos por muitas mentes por familiaridade. Assim, uma garantia absolutamente de autoevidência é quando conhecemos por familiaridade os termos e a relação envolvidos em um complexo, neste caso o julgamento de que os termos estão relacionados deve ser verdadeiro.
Entretanto, passar da percepção de um fato complexo ao seu julgamento não é um processo infalível porque pode terminar em não correspondência devido a algum erro. Já o segundo caso de autoevidência apresenta graus, não por conta dos dados-dos-sentidos, mas pelos julgamentos duvidosos sobre eles[ii]. Já nos conhecimentos derivados, as últimas premissas devem ter alto grau de autoevidência, como quando em matemática partimos de axiomas e devemos demonstrar os resultados.
Encerrando, Russell argumenta que se no que acreditamos é verdade, tem-se conhecimento, seja intuitivo ou inferido, caso contrário se falso é erro e, não sendo ambos, é uma opinião provável. Na base, há o conhecimento intuitivo em proporção aos graus de autoevidência. A opinião provável pode se valer do critério da coerência que é usado nas ciências e filosofia, mas que por si só não se transforma em conhecimento indubitável.



* Bertrand Russell, Problems of Philosophy. KNOWLEDGE, ERROR, AND PROBABLE OPINION. Acessado em 12/7/2019: http://www.ditext.com/russell/rus13.html. Ver o seguinte fichamento e os anteriores: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2019/07/a-unidade-complexa-de-russell.html.
[i] Conforme Russell: “all our knowledge of truths is infected with some degree of doubt, and a theory which ignored this fact would be plainly wrong”.
[ii] Graus como ocorrem na afinação de um instrumento, ele cita.