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quinta-feira, 30 de julho de 2026

Precariedade

Começamos a nos aventurar pela “Comunicação Precária”, livro do professor André Lemos do Laboratório 404[i]. O número 404 remete ao famoso e comum erro do protocolo de internet que ocorre quando uma aplicação não faz o que supostamente deveria fazer, mas acaba não fazendo nada e devolve uma página de erro.

Acontece que é exatamente extrapolando essa condição, que o professor propõe que a tecnologia (ou cultura digital) é errática, primordialmente. Mas não só ela, o mundo é precário e errático e nossa própria condição humana e os objetos. Nesse sentido, temos uma ontologia do erro, mas também uma epistemologia, isto é, admitindo que a tecnologia é precária e aceitando essa condição, podemos estudá-la sobre essa ótica.

Lembremos que Quine propõe esse tipo de abordagem para uma teoria, um pouco ao contrário, mas no mesmo limite de análise:

“Já o naturalismo nega que haja uma filosofia primeira que não seja experimental e fora da ciência, pois é essa última que diz o que é que existe (ontologia) e como sabemos o que existe (epistemologia), de como conhecemos o que existe”[ii]

Lembremos também que epistemologia e ontologia se imbricam em Simondon, já que para, ele “a inovação tecnológica é um lugar privilegiado no qual o pensamento se materializa concretamente”[iii], ou seja, pela tecnologia pensamento e matéria se imbricam no processo de individuação. Podemos dizer que a ideia deixa de ser mental e se torna ferramenta.

Lemos passará por Simondon, Heidegger, Latour e tantos outros, aguardemos as cenas dos próximos capítulos. Não obstante, Lemos cita Haraway: fazer com o erro. Isso significa que o objetivo da tecnologia é se fazer invisível, isto é, fugir do erro tentando trazer uma situação de normalidade quando, na realidade, é o oposto. Os objetos estão sempre falhando e, por consequência, nos irritando e nós, sempre esperando uma nova tecnologia promissora que resolverá todos os nossos problemas.

Ainda estamos no início, mas já passeamos por alguma genealogia do erro e da precariedade, e já vimos que o erro permeia a história da filosofia, desde o mito de Prometeu, que nos reconheceu limitados, até os nossos dias, com exemplos concretos que o professor traz. E é pela análise de problemas da cultura digital que emergem causas políticas, econômicas e sociais. Quer dizer, quando há um erro e um impacto social, o modo como cada país ou sociedade lida com essa situação mostra, de fato, o que é aquele lugar, desmascara-o.

Por fim, e ainda não terminamos o primeiro capítulo, Lemos trata nele da comunicação precária. Ora, o entendimento é precário, ele mostra, e isso nos remete a efevmo-me[iv]. Lemos é especialista em comunicação e sabe, e enfatiza, o caráter precário do entendimento dentro desse sistema. A despeito do não entendimento, vivemos. Mas esse serão temas para explorar, não sem uma breve citação à página 25: “O entendimento nunca é uma simples transferência de um enunciado para o receptor. A precariedade da comunicação refere-se à sua própria maneira de ser. A incapacidade de entendimento não impede que isso aconteça”.

A incapacidade de entendimento não impede que continuemos a explorar essa magnifica obra, tão sintomática de nossos tempos.



[i] LEMOS, André. A comunicação precária: erros, falhas e perturbações na cultura digital. Rio de Janeiro: Edições 70 / Alta Books, 2026.

[iv] Estante: https://bit.ly/efevmo-me-blog. EFEVMO-ME é o acrônimo que dá nome a nossa série de reflexões filosóficas (aqui e no YT) baseada na máxima: “Eu falo e você me ouve, mas entende?”. O termo é formado pelas iniciais dessa pergunta central, que guia uma investigação sobre o abismo existente entre a recepção física de sons e a compreensão real do sentido na comunicação humana. Como pontos principais já abordados no projeto, falemos de:

1.      Origem e Motivação: A questão surgiu de nossas inquietações práticas, motivadas por problemas comunicacionais ocorridos na última década em âmbitos pessoais e profissionais, além da observação da polarização política e dos efeitos da virtualidade nas relações humanas.

2.      Objetivo Filosófico: A série busca isolar conceitualmente o entendimento como um problema filosófico, evitando reduzi-lo a simples ignorância ou má-fé. O projeto investiga se o entendimento é um ato individual, um processo socialmente mediado ou um conjunto de regras linguísticas.

3.      Método de Investigação: Cada entrada da série submete a máxima ao escrutínio de um filósofo diferente (como Kant, Marx, Descartes, Aristóteles, Carnap, Quine, Habermas e Sellars, até o momento) para analisar como seus sistemas de pensamento respondem ao problema do entendimento.

4.      Uso de Inteligência Artificial: A construção utiliza ferramentas de IA (como ChatGPT e Gemini) para gerar as respostas iniciais sob a ótica dos filósofos, mas depois realizamos uma revisão e estruturação baseada em nosso conteúdo de mais de uma década de publicações aqui. 

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Só sei que nada sei

Esse texto traz notas sobre o diálogo Teeteto[i]

Podemos perceber, no diálogo do Teeteto, a aplicação do método maiêutico de Sócrates que visa a parturição de um conhecimento novo por Teeteto, jovem, mas promissor aprendiz. A questão principal de Sócrates é exatamente tentar delinear o que é o conhecimento e ele luta contra a concepção estabelecida por Protágoras de que conhecimento é percepção, conforme 1.) “Penso, portanto, que aquele que conhece qualquer coisa, percebe o que conhece; e, como aparece no momento, o conhecimento não passa de percepção” (Teeteto falando, p. 70) e 2.) “... a que Protágoras costumava apresentar ... o ser humano é a medida de todas as coisas” (Sócrates falando, p. 70).

Em boa parte do diálogo de Platão, Sócrates vai lidar com essa concepção vigente e chegará mesmo a fazer Teeteto parir essa opinião, de que percepção é conhecimento, mas logo irá subtrair esse primogênito por se mostrar equivocado(p. 86). Há alguns pontos, que podemos destacar, contrários a essa tese e começamos por verificar que ela se baseia na percepção que é diferente em cada pessoa e, também, sobre coisas individuais, e cada indivíduo irá ter uma a sua visão. Ocorre que, o que aparece está em constante mudança tornando difícil o conhecimento, isso estaria no campo do fenômeno e não do ser. Sócrates localiza esse debate na tradição, com Protágoras, Heráclito e Empédocles defendendo que as coisas estão em fluxo constante contra Parmênides, para quem a realidade é uma e imóvel, com a célebre citação de que o ser é e o não-ser não é[ii].

A argumentação é longa e passa por pontos como a análise do movimento e se ele é a causa do ser pois tudo o que existe está em movimento, que pode ser um movimento local ou dos astros, mas também, nesse sentido, nada aparece como ele, pois muda. Sócrates também considera o ponto de vista do nosso interior, isto é, há a percepção do eu e o objeto percebido no mundo, mas volta a reforçar que as coisas que aparecem não são, por conta do fluxo do vir a ser, reforçando a diferenciação entre percepção e conhecimento.

Um ponto interessante na argumentação é que, para Sócrates, ao basear o conhecimento na percepção individual, Protágoras faz com que cada um seja dono de sua verdade e com isso agrada a sua plateia. Mas a verdade para um pode ser falsa para outro, o que deixaria a questão aberta para disputas. Ao questionar a percepção, Sócrates também traz o problema do conhecimento pelos sentidos e argumenta que por eles não se chega na apreensão do ser e da verdade, mas pelo raciocínio, que seria uma atividade da alma que pode atingir as coisas que são.

Há, então, a hipótese de o conhecimento ser um tipo de opinião verdadeira, investiga-se como se forma uma opinião e suas possibilidades de erro bem como a divisão entre conhecer (epistemologia) e ser (ontologia) e se distinguirá entre uma opinião falsa e uma opinião do que não é. Aqui podemos lembrar que muitas vezes a causa do erro é uma opinião sobre algo que não conhecemos, ou imaginamos que conhecemos ou de algo a que associamos um pensamento errático a uma percepção.

A argumentação é longa e complexa e não teríamos condições de fazer um aprofundamento, trata-se de uma primeira aproximação dos principais pontos que nos chamaram a atenção. Mas, parece que a indicação de Sócrates de conhecimento passa pela capacidade de definir algo por uma característica que o torne distinto dos demais, conforme p. 166:

“conclusivamente, aquele que possui a opinião correta sobre qualquer coisa e acrescenta a isso uma compreensão da diferença que a distingue das outras coisas terá adquirido conhecimento dessa coisa, da qual detinha anteriormente somente opinião.”

Embora, ao final, Sócrates afirme que “A conclusão é que nem a percepção, Teeteto, nem a opinião verdadeira, nem a explicação racional associada à opinião verdadeira poderiam ser conhecimento” (p. 169). Porém, Teeteto continua grávido e pode seguir estimulado a continuar tal tipo de diálogo, mas “munido da sabedoria de não pensar que sabes aquilo que não sabes” (p. 169).



[i] Notas sobre o diálogo Teeteto (ou do Conhecimento). PLATÃO. Diálogos I – Teeteto, Sofista, Protágoras. Tradução de Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2007.

[ii] Sobre Parmênides, nota de rodapé 77 e https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2025/02/o-problema-de-parmenides.html. 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

O discurso mental de Thomas Hobbes

Mostra que há um discurso privado, mental, anterior ao discurso público no uso da linguagem pelos modernos[i]

Hacking se refere a Mill (1844) como ponto de partida no tratamento da linguagem, porém por “razões menores”, como a prevenção de erros ou destacando a importância das proposições. É um marco, posto que antes dele havia o predomínio das ideias que não estavam diretamente ligadas ao significado, conceito associado à análise da linguagem atualmente. Então, a linguagem, na modernidade, era importante, mas em outros termos.

Para Hobbes (1651), a fala era uma transferência do discurso mental ao verbal, cada discurso seguindo um fluxo separado. Mas, o fluxo do pensamento seria pré-linguístico, isto é, depois era verbalizado para que pudesse ser comunicado. Se, para Hobbes, era tarefa da linguagem comunicar pensamentos, Berkeley também enfatizava seu papel em despertar emoções e dissuadir ações, como que para despertar nossos pensamentos nos outros.

Portanto, no século XVII, havia uma preocupação em livrar o pensamento da linguagem que, pública, levaria ao erro. De um lado o discurso verbal que era usado para comunicação e, de outro, o pensamento verdadeiro, haja vista a proposição de Descartes de escrutinar as ideias. Hacking acredita que não havia uma teoria do significado naquele tempo, mas uma teoria da linguagem autodidata baseada no mental[ii]. E também não acredita na divisão das teorias do significado, como a proposta por Alston, entre ideacional, referencial e comportamental.

Na teoria ideacional, o significado de uma palavra é a ideia em nossa mente que ela representa, isto é, quando proferimos uma frase nos referimos à ideia de algo, como um evento (um churrasco), etc. Na teoria referencial, o significado é o próprio evento e, no caso da comportamental, se verifica o que as pessoas fazem ao ouvir palavras. Hacking investiga com base nessas definições: Locke (40 anos depois de Hobbes), seria ideacionista? Para ele, as palavras são marcas sensíveis das ideias, são signos das ideias.

Para Hobbes, as palavras também são marcas ou signos e os nomes não são das coisas, mas há dificuldade de atribuir uma teoria do significado, pois, a definição de signo é outra. Aqui “significa” tem o sentido de “precede”, como uma nuvem carregada precede a chuva – é como que inferir o pensamento a partir do que é dito, não que ‘signifique”. Na verdade, segundo Hacking, Hobbes tanto poderia ser ideacionista como referencialista, pois uma palavra é dita depois de uma ideia e uma palavra produz (significa) no ouvinte um pensamento, mas ela realmente significa o que se refere[iii].

Hacking está enfatizando uma dificuldade de categorizar um discurso moderno sobre a linguagem, uma teoria do significado. Ele chega a aproximar Hobbes de Grice, uma teoria comportamental que seria a atual teoria intencional de Grice, quando o falante pretende que o ouvinte infira o significado do que é dito. Insere-se no campo da comunicação e intenção de comunicar. Portanto, ou Hobbes passou pelas três caracterizações em seus textos, ou ele não possuía uma teoria do significado, isto é, tinha outras preocupações, como uma teoria do pensamento.

Pensamento que é associado ao discurso mental, às ideias, ao passo que agora tratamos a linguagem de um jeito novo. E as palavras, que são signos das ideias, ideias estas que, no século XVII, queriam dizer algo que Hacking tentará explicar nos outros capítulos do livro. Por fim, ele ressalta que embora Hobbes seja reconhecido por sua teoria política, ele dá ênfase à natureza humana e à comunicação, já que o animal político é animal faltante. Analogamente, tanto indivíduos constituem um estado, quanto o discurso mental é constituído antes do discurso público.



[i] HACKING, I. Por que a linguagem interessa à filosofia? São Paulo: Editora Unesp, 1999. 2. O discurso mental de Thomas Hobbes – p 23.

[ii] Aqui cabe relembrar que no idealismo de Berkeley não existia matéria, todos os existentes eram mentais.

[iii] Omitimos as citações a Hobbes, se é o caso referir ao original. 

segunda-feira, 25 de maio de 2020

O MITO DE DESCARTES[i]

Crítica de uma teoria dita oficial acerca da mente e seu lugar na natureza.

A Doutrina Oficial. Oriunda de Descartes, versa que somos um corpo que morre após a morte e uma mente que tende a subsistir. Os corpos são visíveis e sujeitos às leis mecânicas; as mentes são privadas. Segundo a doutrina oficial, pela consciência e introspecção temos conhecimento indubitável de boa parte dos episódios de nossa vida privada. Porém, a antítese exterior / interior é uma metáfora, haja visto a dificuldade de estímulos longínquos causarem respostas mentais[ii]. As transições efetivas entre os episódios da vida pública e privada não podem ser efetivadas nem por introspecção nem por experimentos e, assim, flutuam entre psicologia e fisiologia. Na base dessa representação, há uma existência física composta de matéria e uma existência mental temporal que ocorre na consciência. Os objetos materiais se relacionam mecanicamente no espaço, ao passo que a mente é seu próprio lugar, como um Robinson Crusoé fantasma. Pela doutrina oficial, ter-se-ia conhecimento indubitável do que se passa na mente, embora Freud tenha mostrado que existem estados mentais escondidos de nós[iii]. Além desses dados imediatos da consciência, haveria uma espécie de percepção interior que possibilitaria a observação da vida interior sem os enganos da percepção exterior. Já sobre outras mentes é possível tirar apenas inferências problemáticas, restando uma solidão absoluta para a alma e sendo o encontro um privilégio apenas corporal.

Corolário da Doutrina. Sabemos fazer comentários sobre mentes e comportamento alheios, mesmo que eventualmente incorretos e por isso filósofos construíram teorias sobre a natureza e o lugar das mentes. Mesmo sem ter certeza de qualquer laivo de verdade.

O Absurdo da Doutrina Oficial. Ryle classifica a teoria oficial como o dogma do “Fantasma na Máquina”. Ela é um erro em princípio, um category-mistake, um mito do filósofo. Erro de categoria demonstrando inabilidade no uso de conceitos, exemplo: em um jogo de críquete, o “espírito de equipe” é diferente de arremessar ou bater na bola, mas não é uma terceira coisa e sim o entusiasmo através do qual cada tarefa é realizada. Já o erro de categoria teórico não é um erro de conceito, mas situar o conceito em um tipo lógico a que ele não pertence. É daí que deriva a representação ryleana de uma pessoa como um fantasma escondido em uma máquina. Daí surgem duas unidades complexas distintas: o corpo humano e a mente humana.

A Origem do Erro de Categoria. Descartes sancionou a teoria de Galileu sobre a mecânica de todos os corpos, porém, afetado pela religião e moralidade, não concordou que a mente estaria aí inclusa, como o fez Hobbes[iv]. Então, haveria um conjunto de leis para descrever o funcionamento não espacial das mentes e outro para a mecânica dos corpos. As mentes seriam “coisas” diferente dos corpos e os processos mentes causas e efeitos não mecânicos, ou seja, uma hipótese para-mecânica. A dificuldade lógica era explicar a interação, por exemplo, de um processo mental (um desejo) causar movimentos espaciais (movimentos da língua). Aderindo à gramática da mecânica, o que se referia à mente era a negação do corpo, um vocabulário invertido: não existe no espaço, não é visto publicamente etc. O corpo humano era um motor governado por um motor interno invisível, inaudível, com leis desconhecidas, uma máquina fantasma! Ademais, surge o problema do livre-arbítrio. Como o mundo físico é determinista, a mente, como categoria semelhante se guiaria por um sistema determinista governado por leis não-mecânicas, ou seja, sujeitas ao destino prefixado. Eis o erro: se sabemos a diferença entre uma expressão racional e uma não racional, não pode dizer dos outros pois não conhecemos as causas imateriais das expressões. Nem a diferença entre um homem e um robô. De acordo com a teoria, não sabemos como o comportamento externo está relacionado com as capacidades e processos mentais, nem comparar nossas ações com as dos outros. A hipótese causal não contribui para a aplicação dos conceitos mentais. Ao invés de buscar por critérios de comportamento, Descartes salientou que não era um problema de mecânica, mas de uma contrapartida da mecânica. O dogma do Fantasma da Máquina assume que corpos e mentes pertencem à mesma categoria, permitindo proposições entre eles. Como no [absurdo] exemplo de Dickens: “Ela chegou em casa num mar de lágrimas e numa liteira[v].”, não faz sentido conjugar processos mentais com processos físicos, pois não se trata da mesma espécie de coisa.

Consequências do Erro. Mostrar que mente e matéria não são do mesmo tipo lógico, assim como “ela chegou em casa num mar de lágrimas” e “ela chegou em casa numa liteira” também não o são, significa acabar com a crença da oposição entre mente e matéria. Significa também que não é legítimo reduzir estados mentais a estados físicos e que Idealismo e Materialismo são respostas a uma pergunta inadequada. Nem que a existência de corpos e mentes indicam espécies diferentes de existência.

Nota Histórica. Por fim, duas notas:

1.      O mito não se deve exclusivamente a Descartes – ele estava de fato reelaborando doutrinas teológicas já predominantes como a Predestinação se transformando em Determinação.

2.      A utilização de mitos pode contribuir positivamente, como a substituição do mito para-político (analogia da mente com leis, obediência, rebeldia, etc.) pelo para-mecânico.



[i] O MITO DE DESCARTES. Adaptação de Osvaldo Pessoa Jr. São Paulo, 2011. Disponível em http://opessoa.fflch.usp.br/sites/opessoa.fflch.usp.br/files/Ryle-Mito-Descartes-2.pdf, acessado em 20 de maio de 2020.

[ii] “(...) encontramos teóricos especulando sobre o modo segundo o qual os estímulos, cujas fontes físicas se encontram a metros ou quilômetros de distância da pele da pessoa, podem dar origem a respostas mentais dentro de seu crânio (...)”

[iii] O inconsciente etc.

[iv] Lembrar Hobbes, conforme https://pt.wikipedia.org/wiki/Thomas_Hobbes, acesso em 25 de maio de 2020. “Em seus livros "Os elementos da lei" e "Leviatã", Hobbes torna evidente o uso da física e suas leis mecânicas como base para explicar fenômenos psíquicos e físicos, chegando até mesmo a comparar o homem com uma máquina, além de fazer analogia à mecânica do homem e à mecânica do relógio: "O que é o coração, senão uma mola; os nervos, senão outras tantas cordas; e as juntas senão outras tantas rodas; imprimindo movimento ao corpo inteiro, tal como foi projetado pelo Artífice?" Porém é apenas em seu livro "De Corpore" que Thomas Hobbes demonstra-nos de forma total e estruturada o conhecimento mecânico da natureza, conhecimento este que se mostra consolidado apenas em "Tractatus opticus".”

[v] Uma liteira é uma cadeira portátil, aberta ou fechada, suportada por duas varas laterais. Vide a imagem https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/3/3d/Museu_Nacional_dos_Coches_%285%29_-_Mar_2010.jpg/220px-Museu_Nacional_dos_Coches_%285%29_-_Mar_2010.jpg, acessada em 25 de maio de 2020.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Do conhecimento à opinião há erro*

Russell tratará de verificar se conseguimos distinguir entre crenças verdadeiras e falsas, iniciando com o que significa conhecer. Se parece que o conhecimento é o resultado de uma crença verdadeira, pode às vezes acontecer de uma crença verdadeira ser deduzida de uma crença falsa e isso não resulta em conhecimento. Ou de um processo falacioso de raciocínio,  até mesmo com premissas e conclusão verdadeiras.
Segundo Russell, o conhecimento é algo deduzido de premissas conhecidas, ou seja, um conhecimento derivativo de premissas conhecidas intuitivamente, desde que assumida uma conexão lógica válida. Há, até mesmo, conhecimento que pode ser uma inferência de uma notícia de jornal obtido pelos dados-dos-sentidos da leitura da notícia que não é, de fato, uma inferência lógica, mas inferência psicológica. Russell diz que não há uma definição precisa de conhecimento pois este pode ser estender até a provável opinião. Se o conhecimento derivativo depende do indutivo, o último não tem um critério certo de conhecimento ou erro[i].
Russell, então, compara o conhecimento de verdades, que corresponde ao complexo dito no capítulo anterior, com o conhecimento por familiaridade e situa o último como dependente da percepção e não suscetível ao julgamento que pode acarretar em erro. Então ele distingue os dois tipos de autoevidência que se seguem.
Conhecimento autoevidente de um fato particular fica privado a uma pessoa: dados-dos-sentidos, um sentimento, já fatos relacionados a universais não têm essa privacidade e podem ser conhecidos por muitas mentes por familiaridade. Assim, uma garantia absolutamente de autoevidência é quando conhecemos por familiaridade os termos e a relação envolvidos em um complexo, neste caso o julgamento de que os termos estão relacionados deve ser verdadeiro.
Entretanto, passar da percepção de um fato complexo ao seu julgamento não é um processo infalível porque pode terminar em não correspondência devido a algum erro. Já o segundo caso de autoevidência apresenta graus, não por conta dos dados-dos-sentidos, mas pelos julgamentos duvidosos sobre eles[ii]. Já nos conhecimentos derivados, as últimas premissas devem ter alto grau de autoevidência, como quando em matemática partimos de axiomas e devemos demonstrar os resultados.
Encerrando, Russell argumenta que se no que acreditamos é verdade, tem-se conhecimento, seja intuitivo ou inferido, caso contrário se falso é erro e, não sendo ambos, é uma opinião provável. Na base, há o conhecimento intuitivo em proporção aos graus de autoevidência. A opinião provável pode se valer do critério da coerência que é usado nas ciências e filosofia, mas que por si só não se transforma em conhecimento indubitável.



* Bertrand Russell, Problems of Philosophy. KNOWLEDGE, ERROR, AND PROBABLE OPINION. Acessado em 12/7/2019: http://www.ditext.com/russell/rus13.html. Ver o seguinte fichamento e os anteriores: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2019/07/a-unidade-complexa-de-russell.html.
[i] Conforme Russell: “all our knowledge of truths is infected with some degree of doubt, and a theory which ignored this fact would be plainly wrong”.
[ii] Graus como ocorrem na afinação de um instrumento, ele cita.

terça-feira, 16 de julho de 2019

A unidade complexa de Russell*

Russell inicia comparando o conhecimento de coisas, que se referem a algo, com o conhecimento de verdades que está sujeito ao erro. Ou seja, as coisas conhecidas existem, não há como negar, porém o conhecimento de verdades envolve um dualismo, já que uns podem acreditar em algo errado na mesma intensidade em que outros podem acreditar em algo certo. Para analisar essa questão ele estuda primeiro o significado da verdade e da falsidade.[i] Então, Russell enumera três pontos na busca da natureza da verdade: 1) uma teoria da verdade deve admitir seu oposto, a falsidade; 2) para haver verdade e falsidade é preciso mais do que somente matéria no mundo, é preciso crenças e afirmações das quais se obtêm verdade e falsidade; 3) apesar da ligação da verdade ou falsidade com a crença, elas não são qualidades intrínsecas da crença, mas a respeito de algo que a crença se refere.
Russell comenta a visão de muitos filósofos de que a verdade é algo que corresponde à ligação da crença com o fato, corroborando a ligação com algo externo e nomeando como a teoria da coerência[ii], quando a falsidade é a falta de coerência com o conjunto de nossas crenças. Porém, Russell salienta que não há apenas um conjunto coerente de crenças usando como exemplo a ciência, onde há mais de uma hipótese para um conjunto de fatos de determinado assunto, assim como em Filosofia, que também pode haver mais de uma hipótese capaz de suplantar todos os fatos, por isso a coerência falha como definição da verdade. Além do mais, a coerência pressupõe as leis da lógica, p.ex., a lei da contradição que, se falsa, "nada será mais incoerente com qualquer outra coisa". Dito isto, ele conclui que a coerência seria mais um teste da verdade e não se confundindo com a própria verdade.
Russell então retorna à correspondência com os fatos como sendo a natureza da verdade, ressaltando que não significa uma relação da mente com um objeto, senão não haveria seu oposto, a falsidade. Aprofundando essa correspondência, ele mostra que, às vezes, a crença não se refere a nenhum objeto em outras a inúmeros, nas palavras do filósofo, tratando da crença ou do julgamento:
What is called belief or judgement is nothing but this relation of believing or judging, which relates a mind to several things other than itself. An act of belief or of judgement is the occurrence between certain terms at some particular time, of the relation of believing or judging.
Segundo Russell o ato de julgar envolve um sujeito, a mente, e objetos que são os termos que são julgados. Eles são os constituintes do ato de julgar e tem um sentido ou direção, ou seja, há uma ordem entre eles. Para ele, qualquer relação entre sujeito e objetos os une em um todo complexo, e o inverso, onde há um objeto complexo há relação unindo seus constituintes. Mesmo dentro dos objetos pode haver outras relações dependendo da relação primeira que é a crença ou julgamento. Já acreditar falsamente invalida as relações dos objetos.
Russell encontra então a definição de verdade: quando a crença corresponde a uma unidade complexa formada pelos termos, a relação e a mente.[iii] Assim, verdade e falsidade são propriedades extrínsecas das crenças e no limite não envolvem a mente, somente os objetos das crenças, como ele diz: “Hence we account simultaneously for the two facts that beliefs (a) depend on minds for their existence, (b) do not depend on minds for their truth”. A verdade é a correspondência entre a crença e esse fato composto pela unidade complexa e a falsidade aparece quando não há tal fato. Porém, verdade e falsidade não são criadas pela mente, mas a mente cria crenças feitas verdade por um fato.



* Bertrand Russell, Problems of Philosophy. TRUTH AND FALSEHOOD. Acessado em 9/7/2019: http://www.ditext.com/russell/rus12.html. Ver o seguinte fichamento e os anteriores: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2019/07/graus-de-autoevidencia.html.
[i] Importante ressaltar que o enfoque de Russell aqui é na busca do que é verdade e falsidade e não de quais crenças são verdadeiras ou falsas.
[ii] Em algum momento deveríamos confrontar a teoria do conhecimento de Russell com Descartes, já que ele põe em dúvida o conhecimento oriundo dos sentidos (sujeito ao erro). Já Russell aqui parece fazer o oposto.
[iii] Esse complexo parece uma coisa que precisará ser mais bem investigado ontologicamente.