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domingo, 3 de março de 2024

Hacking - estratégia e apogeu das ideias

Resume a abordagem da Hacking para o interesse que deveríamos ter na filosofia da linguagem e como ele vê o apogeu das ideias, dentro dessa ótica[i]

Recapitulemos o que vimos até aqui. Hacking divide sua obra em três fases: apogeu das ideias, apogeu dos significados e apogeu das sentenças. Destacaremos abaixo sua abordagem para a filosofia da linguagem e o apogeu das ideias.

A estratégia de Ian Hacking para a filosofia da linguagem[ii]. No primeiro capítulo Hacking explicita sua estratégia de abordagem considerando que a filosofia da linguagem associada ao significado é um ramo específico, recente e então ele se debruça em casos de uso ao longo da história nos quais a filosofia da linguagem se aplica e conversa com as demais áreas da filosofia, como ética, percepção e a natureza da mente humana.

O discurso mental de Thomas Hobbes[iii]. Nos capítulos de dois a cinco ele trata do apogeu das ideias, começando por Hobbes, que considerava a fala como uma transferência do discurso mental para o verbal. Para ele, a linguagem tinha a tarefa de comunicar pensamentos e nós, erroneamente, tentamos enquadrar Hobbes e os modernos na divisão das teorias do significado proposta por Alston entre ideacional, referencial e comportamental. Hacking aproxima a teoria comportamental de Hobbes a atual teoria intencional de Grice. Nessa abordagem, o falante pretende que o ouvinte infira o significado do que é dito, inserindo-se no campo da comunicação e intenção de comunicar. Mais do que uma teoria do significado, Hobbes tinha uma teoria do pensamento, associado ao discurso mental e às ideias. passando pela ênfase que a elas davam os modernos, muito por conta de um discurso mental, livre de erros.

As ideias de Port Royal[iv]. Aqui Hacking tenta elucidar um conceito tão amplo e tão simples: a ideia. Se por um lado, para Locke e Hobbes uma ideia poderia ser uma imagem mental, um objeto da percepção ou mesmo uma emoção, a Lógica, obra de Port Royal, define a ideia como tipo elementar, influenciada pelo cartesianismo que definia a ideia como polo que nos permitiria conhecer o mundo exterior. Ora, conhecemos ideias e só com elas estamos comprometidos, elas medeiam entre o ego e o mundo. Para Descartes, temos uma visão de cada ideia e as escrutinamos para saber aquelas que são claras e as confusas. Embora fale-se da visão, não se trata de imagens, já que podem ser conceitos. Por fim ele define a teoria das ideias dos modernos como essa classe de objetos que medeiam entre o ego e o mundo, ideias que nos são acessíveis pela visão, mesmo não sendo imagens e que palavras significam ideias, como uma relação causal. Ora, nessa visão, o discurso mental encadeado de ideias é que importava à filosofia.

As abstrações do Bispo Berkeley[v]. Hacking opõe Berkeley a Locke que, ao compactuar com a filosofia atomista de Boyle, abria caminho para a matéria e o ateísmo. Então, o idealismo de Berkeley postula que a matéria é inerte e vai ao extremo de dizer que tudo o que existe é mental. Mas Hacking dá atenção à relação que sua filosofia idealista tem com a linguagem, no que tange a possiblidade da concepção de ideias abstratas. Se, Berkeley concorda com a teoria das ideias dos modernos ele rejeita o raciocínio dos geômetras que se utiliza de ideias abstratas em demonstrações, por exemplo, no caso de triângulos, de uma ideia universal de triângulo. Hacking cita que para Hobbes não havia uma ideia universal, por exemplo, de chuva, mas alguma ideia de chuva, das que caem por aí. Mas, para Berkeley, cada qual que escrutine suas ideias não acha por objeto uma ideia abstrata, não as vemos. Então, mesmo raciocinando em demonstrações geométricas, usamos uma ideia particular. Ora, é possível “falar”, no discurso público, de uma ideia abstrata, mas quando vamos para o discurso mental não há nada que corresponda a elas. Como, por exemplo, a filosofia corpuscular de Boyle que não passaria de perversão da linguagem, já que não há matéria pois ser é ser percebido.

Teoria do significado de ninguém[vi]. Esse capítulo fecha o apogeu das ideias e já aborda mais diretamente o significado, que tem Frege como ponto de partida. Conforme capítulos anteriores, não há uma teoria do significado nos modernos, porém eles investigam a função comunicativa da linguagem, que tem base física e biológica e se refere à tradução de ideias em palavras pelo falante e de palavras em ideias pelos ouvintes. E é exatamente por admitir a existência de leis físicas que podemos garantir que essa dupla tradução é possível, já que temos os mesmos mecanismos. Podemos até discordar, mas entendemos a mensagem. Podemos até discordar, mas a fonte de erro é nossa ideia que formamos erradamente. Mas é suficiente que haja “aceitação comum”, que não tem a ver com significação, mas com a possibilidade do uso público. A aceitação comum vai se tornar, em Frege, o sentido (sinn) que é compartilhado e fruto do estoque de conhecimentos transmitidos na historia. Nessa transição, o discurso publico passa a ter relevância e a ideia passa a ser mera coisa privada associada ao significado.


segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

O discurso mental de Thomas Hobbes

Mostra que há um discurso privado, mental, anterior ao discurso público no uso da linguagem pelos modernos[i]

Hacking se refere a Mill (1844) como ponto de partida no tratamento da linguagem, porém por “razões menores”, como a prevenção de erros ou destacando a importância das proposições. É um marco, posto que antes dele havia o predomínio das ideias que não estavam diretamente ligadas ao significado, conceito associado à análise da linguagem atualmente. Então, a linguagem, na modernidade, era importante, mas em outros termos.

Para Hobbes (1651), a fala era uma transferência do discurso mental ao verbal, cada discurso seguindo um fluxo separado. Mas, o fluxo do pensamento seria pré-linguístico, isto é, depois era verbalizado para que pudesse ser comunicado. Se, para Hobbes, era tarefa da linguagem comunicar pensamentos, Berkeley também enfatizava seu papel em despertar emoções e dissuadir ações, como que para despertar nossos pensamentos nos outros.

Portanto, no século XVII, havia uma preocupação em livrar o pensamento da linguagem que, pública, levaria ao erro. De um lado o discurso verbal que era usado para comunicação e, de outro, o pensamento verdadeiro, haja vista a proposição de Descartes de escrutinar as ideias. Hacking acredita que não havia uma teoria do significado naquele tempo, mas uma teoria da linguagem autodidata baseada no mental[ii]. E também não acredita na divisão das teorias do significado, como a proposta por Alston, entre ideacional, referencial e comportamental.

Na teoria ideacional, o significado de uma palavra é a ideia em nossa mente que ela representa, isto é, quando proferimos uma frase nos referimos à ideia de algo, como um evento (um churrasco), etc. Na teoria referencial, o significado é o próprio evento e, no caso da comportamental, se verifica o que as pessoas fazem ao ouvir palavras. Hacking investiga com base nessas definições: Locke (40 anos depois de Hobbes), seria ideacionista? Para ele, as palavras são marcas sensíveis das ideias, são signos das ideias.

Para Hobbes, as palavras também são marcas ou signos e os nomes não são das coisas, mas há dificuldade de atribuir uma teoria do significado, pois, a definição de signo é outra. Aqui “significa” tem o sentido de “precede”, como uma nuvem carregada precede a chuva – é como que inferir o pensamento a partir do que é dito, não que ‘signifique”. Na verdade, segundo Hacking, Hobbes tanto poderia ser ideacionista como referencialista, pois uma palavra é dita depois de uma ideia e uma palavra produz (significa) no ouvinte um pensamento, mas ela realmente significa o que se refere[iii].

Hacking está enfatizando uma dificuldade de categorizar um discurso moderno sobre a linguagem, uma teoria do significado. Ele chega a aproximar Hobbes de Grice, uma teoria comportamental que seria a atual teoria intencional de Grice, quando o falante pretende que o ouvinte infira o significado do que é dito. Insere-se no campo da comunicação e intenção de comunicar. Portanto, ou Hobbes passou pelas três caracterizações em seus textos, ou ele não possuía uma teoria do significado, isto é, tinha outras preocupações, como uma teoria do pensamento.

Pensamento que é associado ao discurso mental, às ideias, ao passo que agora tratamos a linguagem de um jeito novo. E as palavras, que são signos das ideias, ideias estas que, no século XVII, queriam dizer algo que Hacking tentará explicar nos outros capítulos do livro. Por fim, ele ressalta que embora Hobbes seja reconhecido por sua teoria política, ele dá ênfase à natureza humana e à comunicação, já que o animal político é animal faltante. Analogamente, tanto indivíduos constituem um estado, quanto o discurso mental é constituído antes do discurso público.



[i] HACKING, I. Por que a linguagem interessa à filosofia? São Paulo: Editora Unesp, 1999. 2. O discurso mental de Thomas Hobbes – p 23.

[ii] Aqui cabe relembrar que no idealismo de Berkeley não existia matéria, todos os existentes eram mentais.

[iii] Omitimos as citações a Hobbes, se é o caso referir ao original. 

segunda-feira, 25 de maio de 2020

O MITO DE DESCARTES[i]

Crítica de uma teoria dita oficial acerca da mente e seu lugar na natureza.

A Doutrina Oficial. Oriunda de Descartes, versa que somos um corpo que morre após a morte e uma mente que tende a subsistir. Os corpos são visíveis e sujeitos às leis mecânicas; as mentes são privadas. Segundo a doutrina oficial, pela consciência e introspecção temos conhecimento indubitável de boa parte dos episódios de nossa vida privada. Porém, a antítese exterior / interior é uma metáfora, haja visto a dificuldade de estímulos longínquos causarem respostas mentais[ii]. As transições efetivas entre os episódios da vida pública e privada não podem ser efetivadas nem por introspecção nem por experimentos e, assim, flutuam entre psicologia e fisiologia. Na base dessa representação, há uma existência física composta de matéria e uma existência mental temporal que ocorre na consciência. Os objetos materiais se relacionam mecanicamente no espaço, ao passo que a mente é seu próprio lugar, como um Robinson Crusoé fantasma. Pela doutrina oficial, ter-se-ia conhecimento indubitável do que se passa na mente, embora Freud tenha mostrado que existem estados mentais escondidos de nós[iii]. Além desses dados imediatos da consciência, haveria uma espécie de percepção interior que possibilitaria a observação da vida interior sem os enganos da percepção exterior. Já sobre outras mentes é possível tirar apenas inferências problemáticas, restando uma solidão absoluta para a alma e sendo o encontro um privilégio apenas corporal.

Corolário da Doutrina. Sabemos fazer comentários sobre mentes e comportamento alheios, mesmo que eventualmente incorretos e por isso filósofos construíram teorias sobre a natureza e o lugar das mentes. Mesmo sem ter certeza de qualquer laivo de verdade.

O Absurdo da Doutrina Oficial. Ryle classifica a teoria oficial como o dogma do “Fantasma na Máquina”. Ela é um erro em princípio, um category-mistake, um mito do filósofo. Erro de categoria demonstrando inabilidade no uso de conceitos, exemplo: em um jogo de críquete, o “espírito de equipe” é diferente de arremessar ou bater na bola, mas não é uma terceira coisa e sim o entusiasmo através do qual cada tarefa é realizada. Já o erro de categoria teórico não é um erro de conceito, mas situar o conceito em um tipo lógico a que ele não pertence. É daí que deriva a representação ryleana de uma pessoa como um fantasma escondido em uma máquina. Daí surgem duas unidades complexas distintas: o corpo humano e a mente humana.

A Origem do Erro de Categoria. Descartes sancionou a teoria de Galileu sobre a mecânica de todos os corpos, porém, afetado pela religião e moralidade, não concordou que a mente estaria aí inclusa, como o fez Hobbes[iv]. Então, haveria um conjunto de leis para descrever o funcionamento não espacial das mentes e outro para a mecânica dos corpos. As mentes seriam “coisas” diferente dos corpos e os processos mentes causas e efeitos não mecânicos, ou seja, uma hipótese para-mecânica. A dificuldade lógica era explicar a interação, por exemplo, de um processo mental (um desejo) causar movimentos espaciais (movimentos da língua). Aderindo à gramática da mecânica, o que se referia à mente era a negação do corpo, um vocabulário invertido: não existe no espaço, não é visto publicamente etc. O corpo humano era um motor governado por um motor interno invisível, inaudível, com leis desconhecidas, uma máquina fantasma! Ademais, surge o problema do livre-arbítrio. Como o mundo físico é determinista, a mente, como categoria semelhante se guiaria por um sistema determinista governado por leis não-mecânicas, ou seja, sujeitas ao destino prefixado. Eis o erro: se sabemos a diferença entre uma expressão racional e uma não racional, não pode dizer dos outros pois não conhecemos as causas imateriais das expressões. Nem a diferença entre um homem e um robô. De acordo com a teoria, não sabemos como o comportamento externo está relacionado com as capacidades e processos mentais, nem comparar nossas ações com as dos outros. A hipótese causal não contribui para a aplicação dos conceitos mentais. Ao invés de buscar por critérios de comportamento, Descartes salientou que não era um problema de mecânica, mas de uma contrapartida da mecânica. O dogma do Fantasma da Máquina assume que corpos e mentes pertencem à mesma categoria, permitindo proposições entre eles. Como no [absurdo] exemplo de Dickens: “Ela chegou em casa num mar de lágrimas e numa liteira[v].”, não faz sentido conjugar processos mentais com processos físicos, pois não se trata da mesma espécie de coisa.

Consequências do Erro. Mostrar que mente e matéria não são do mesmo tipo lógico, assim como “ela chegou em casa num mar de lágrimas” e “ela chegou em casa numa liteira” também não o são, significa acabar com a crença da oposição entre mente e matéria. Significa também que não é legítimo reduzir estados mentais a estados físicos e que Idealismo e Materialismo são respostas a uma pergunta inadequada. Nem que a existência de corpos e mentes indicam espécies diferentes de existência.

Nota Histórica. Por fim, duas notas:

1.      O mito não se deve exclusivamente a Descartes – ele estava de fato reelaborando doutrinas teológicas já predominantes como a Predestinação se transformando em Determinação.

2.      A utilização de mitos pode contribuir positivamente, como a substituição do mito para-político (analogia da mente com leis, obediência, rebeldia, etc.) pelo para-mecânico.



[i] O MITO DE DESCARTES. Adaptação de Osvaldo Pessoa Jr. São Paulo, 2011. Disponível em http://opessoa.fflch.usp.br/sites/opessoa.fflch.usp.br/files/Ryle-Mito-Descartes-2.pdf, acessado em 20 de maio de 2020.

[ii] “(...) encontramos teóricos especulando sobre o modo segundo o qual os estímulos, cujas fontes físicas se encontram a metros ou quilômetros de distância da pele da pessoa, podem dar origem a respostas mentais dentro de seu crânio (...)”

[iii] O inconsciente etc.

[iv] Lembrar Hobbes, conforme https://pt.wikipedia.org/wiki/Thomas_Hobbes, acesso em 25 de maio de 2020. “Em seus livros "Os elementos da lei" e "Leviatã", Hobbes torna evidente o uso da física e suas leis mecânicas como base para explicar fenômenos psíquicos e físicos, chegando até mesmo a comparar o homem com uma máquina, além de fazer analogia à mecânica do homem e à mecânica do relógio: "O que é o coração, senão uma mola; os nervos, senão outras tantas cordas; e as juntas senão outras tantas rodas; imprimindo movimento ao corpo inteiro, tal como foi projetado pelo Artífice?" Porém é apenas em seu livro "De Corpore" que Thomas Hobbes demonstra-nos de forma total e estruturada o conhecimento mecânico da natureza, conhecimento este que se mostra consolidado apenas em "Tractatus opticus".”

[v] Uma liteira é uma cadeira portátil, aberta ou fechada, suportada por duas varas laterais. Vide a imagem https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/3/3d/Museu_Nacional_dos_Coches_%285%29_-_Mar_2010.jpg/220px-Museu_Nacional_dos_Coches_%285%29_-_Mar_2010.jpg, acessada em 25 de maio de 2020.