Quando o que funciona desaparece, sua existência deixa
de ser percebida
No livro Comunicação Precária[i], André Lemos trata, em alguns
momentos, da tecnologia invisível. Essa seria uma de suas finalidades: desaparecer enquanto funciona e, ao mesmo tempo, esconder seu ecossistema fundacional
e o fato de que se baseia no erro.
Falamos um pouco da precariedade[ii] e falaremos da epistemologia
do erro, em outra ocasião, mas o que queremos anotar nesse texto é o conceito
de invisibilidade, que amplamente nos permeia.
Por exemplo, eu escrever este texto e você
entender, quer dizer que compartilhamos um significado oculto, por mais que
você entenda aproximadamente o que eu disse[iii], talvez numa proporção
de uns 80-20, razoável.
Porém, há inúmeras situações de diálogo,
no dia a dia, nas quais se supõe um entendimento que não ocorre. Parece que
nossas ideias são cristalinas e que sua verbalização é coerente, mas o público
não entende, por diversos fatores. Então, o “problema” aparece.
É o que acontece quando a internet não
funciona. Nós a usamos desenfreadamente, sem perceber, assim como acontece com
a água que sai da torneira, mas só nos damos conta das “assembleias” que a
fazem funcionar quando ela não funciona, quando deixa de ser invisível.
Há algo semelhante no mundo corporativo,
deveras. Uma pessoa invisível é aquela que faz o seu trabalho rotineiramente,
disciplinadamente e, então, aquilo que por ela passa, funciona. Porém, só se dá
conta de sua importância quando da privação de sua presença.
Um tanto quanto diferente disso, são as reuniões
invisíveis, que ocorrem sem que determinada pessoa esteja presente, muitas
vezes, o mensageiro. De que adianta uma reunião ocorrer e consumir tempo, se
ela não for “comunicada”?
Interessante que isso remete a “esse est percipi”: se uma árvore caiu na
floresta e ninguém observou, ela fez barulho?[iv] O ser é ser percebido e
podemos fazer uma adaptação provocativa: o não ser é ser invisível. E estamos
tomados por não seres, pelo vazio.
Por fim, agora que a IA Generativa produz
muito, muito texto, muito documento, ela materializa pensamentos, mas de forma
muito prolixa. Recebemos muitos documentos produzidos por IA que, por sua vez, se tornam invisíveis e são deixados de lado.
Haveria uma salvação, para documentos
produzidos por IA: serem consumidos por IA. Assim, deixaremos as IAs dialogarem
em seu mundo invisível enquanto nós, aqui fora, vamos tentando nos fazer perceber.
[i] LEMOS,
André. A comunicação precária: erros, falhas e perturbações na cultura digital.
Rio de Janeiro: Edições 70 / Alta Books, 2026.
[ii] https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/07/precariedade.html,
Precariedade.
[iii] EFEVMO-ME: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/02/o-entendimento-entre-sintaxe-semantica.html.
[iv] https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2024/01/breves-ideias-sobre-locke-berkeley.html,
Breves ideias sobre Locke, Berkeley, árvores e Deus. Também aqui: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2019/05/ideias-de-deus.html.
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