quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Invisibilidade

Quando o que funciona desaparece, sua existência deixa de ser percebida

No livro Comunicação Precária[i], André Lemos trata, em alguns momentos, da tecnologia invisível. Essa seria uma de suas finalidades: desaparecer enquanto funciona e, ao mesmo tempo, esconder seu ecossistema fundacional e o fato de que se baseia no erro.

Falamos um pouco da precariedade[ii] e falaremos da epistemologia do erro, em outra ocasião, mas o que queremos anotar nesse texto é o conceito de invisibilidade, que amplamente nos permeia.

Por exemplo, eu escrever este texto e você entender, quer dizer que compartilhamos um significado oculto, por mais que você entenda aproximadamente o que eu disse[iii], talvez numa proporção de uns 80-20, razoável.

Porém, há inúmeras situações de diálogo, no dia a dia, nas quais se supõe um entendimento que não ocorre. Parece que nossas ideias são cristalinas e que sua verbalização é coerente, mas o público não entende, por diversos fatores. Então, o “problema” aparece.

É o que acontece quando a internet não funciona. Nós a usamos desenfreadamente, sem perceber, assim como acontece com a água que sai da torneira, mas só nos damos conta das “assembleias” que a fazem funcionar quando ela não funciona, quando deixa de ser invisível.

Há algo semelhante no mundo corporativo, deveras. Uma pessoa invisível é aquela que faz o seu trabalho rotineiramente, disciplinadamente e, então, aquilo que por ela passa, funciona. Porém, só se dá conta de sua importância quando da privação de sua presença.

Um tanto quanto diferente disso, são as reuniões invisíveis, que ocorrem sem que determinada pessoa esteja presente, muitas vezes, o mensageiro. De que adianta uma reunião ocorrer e consumir tempo, se ela não for “comunicada”?

Interessante que isso remete a “esse est percipi”: se uma árvore caiu na floresta e ninguém observou, ela fez barulho?[iv] O ser é ser percebido e podemos fazer uma adaptação provocativa: o não ser é ser invisível. E estamos tomados por não seres, pelo vazio.

Por fim, agora que a IA Generativa produz muito, muito texto, muito documento, ela materializa pensamentos, mas de forma muito prolixa. Recebemos muitos documentos produzidos por IA que, por sua vez, se tornam invisíveis e são deixados de lado.

Haveria uma salvação, para documentos produzidos por IA: serem consumidos por IA. Assim, deixaremos as IAs dialogarem em seu mundo invisível enquanto nós, aqui fora, vamos tentando nos fazer perceber.



[i] LEMOS, André. A comunicação precária: erros, falhas e perturbações na cultura digital. Rio de Janeiro: Edições 70 / Alta Books, 2026.

Nenhum comentário:

Postar um comentário