Quando a nossa máxima se torna um pseudoproblema
1. Sobre Carnap. De
acordo com nossa base de conhecimento do blog[i], Rudolf Carnap foi uma
figura central do Círculo de Viena e do positivismo lógico, cujo projeto visava
a eliminação da metafísica ao considerar que seus enunciados carecem de sentido
por não serem empiricamente verificáveis. Em sua obra Aufbau, propôs uma
reconstrução racional do conhecimento através de um sistema lógico-linguístico
de conceitos, inicialmente baseado no fenomenalismo das experiências imediatas,
mas que evoluiu para o fisicalismo em busca de uma ciência unificada.
Ele é notável pela formulação do Princípio
da Tolerância Linguística, sustentando que a escolha de uma linguagem é uma
decisão pragmática e convencional ("em lógica não há moral"),
distinguindo entre questões teóricas internas ao sistema e decisões ontológicas
externas. Suas teses influenciaram a transição do critério de verificabilidade
para o de confirmação, consolidando a filosofia como uma atividade de análise
lógica do discurso científico.
2. Carnap na perspectiva da nossa série. Enquanto
Carnap e o positivismo lógico buscam a eliminação da metafísica, como discurso
cognitivo significativo, ao restringir o conhecimento ao que é empiricamente
verificável ou logicamente tautológico, Descartes fundamenta o saber no
dualismo e na certeza indubitável do cogito, tratando a mente como uma
substância pensante privada e inacessível, o que Carnap rejeitaria como um
contrassenso linguístico sem conteúdo cognitivo verificável.
Kant compartilha com Carnap a visão de que
o sujeito estrutura a experiência, mas o filósofo do Círculo de Viena reinterpreta
os juízos sintéticos a priori kantianos, argumentando que a matemática é
puramente analítica e que a escolha de sistemas conceituais é uma convenção
regida pelo Princípio da Tolerância Linguística.
Por fim, em oposição a Marx, outro autor
da série e que define a consciência como um produto das condições materiais de
existência e da luta de classes, Carnap foca na unificação da ciência por meio
de uma linguagem fisicalista comum, transformando a filosofia em uma atividade
de análise lógica do discurso científico, em vez de uma ferramenta de
transformação política e social.
3. Nossa máxima sobre o ponto de vista de
Carnap. Vista a partir de Carnap, a sua máxima — “Eu falo e
você me ouve, mas entende?” — expõe uma tensão central entre sintaxe, semântica
e pragmática, e especialmente entre compreensão formal e interpretação empírica[ii]. Vejamos.
4. Primeiro Movimento - Entender não é um
fato psicológico, mas um fato linguístico (dentro de um sistema).
Para Carnap, sobretudo a partir de Meaning and Necessity e dos textos
sobre linguagens formais, “entender” não é primariamente um estado mental
privado, mas um fato linguístico reconstruível: compreender uma
expressão é dominar as regras de uso e interpretação que a definem dentro de um
sistema.
Assim, frente à nossa máxima, Carnap diria
algo como: “Se você fala numa linguagem bem definida, e eu conheço suas regras
sintáticas e semânticas, então não há um problema filosófico restante de
‘entender’.” Isso significa que ou a linguagem é formalmente determinada, ou o
problema do entendimento não é filosófico, mas empírico ou psicológico. A nossa
pergunta só parece profunda porque estamos falando da linguagem natural, que é
imprecisa, aberta e contextualmente instável.
5. Segundo Movimento - O “mas entende?”
surge da indeterminação semântica da linguagem natural.
Há em Carnap uma distinção clara entre as linguagens formalizadas, nas quais a
compreensão é nítida e linguagem natural, cuja compreensão é vaga e dependente
de contexto. Na nossa máxima, o “mas entende?” aponta para o fato de que ouvir
não garante nem a associação sonora, nem a reação comportamental correta, nem
mesmo o acordo prático.
Carnap diria que isso ocorre porque os
termos não têm critérios de aplicação totalmente fixados. Por isso, podemos
supor que ele defenderia que o problema não é metafísico, nem cético, mas um
problema de engenharia linguística, de explication. A pergunta correta,
em Carnap, não é “você entende?”, mas: “Quais são as regras de interpretação
que estamos adotando aqui?”
6. Terceiro Movimento - A nossa máxima
como diagnóstico do mau uso da filosofia. Há um ponto mais
crítico: Carnap poderia dizer que nossa máxima é filosoficamente enganadora. Isso
porque ela sugere que há um “entender” profundo, não redutível a critérios
públicos, talvez inacessível à verificação intersubjetiva. É o que ele
classificaria como um típico pseudoproblema filosófico.
Nessa situação ele poderia reagir argumentando
que se não conseguimos especificar condições públicas sob as quais dizemos que
alguém entendeu, então a pergunta “mas entende?” não teria conteúdo cognitivo
claro. Nesse sentido, nossa máxima funcionaria como um sintoma da insuficiência
da linguagem ordinária, não como um problema que exigiria metafísica,
hermenêutica profunda ou teoria da mente robusta.
7. Formulação carnapiana.
Fica claro que, aos olhos de Carnap: entender é dominar um sistema de regras
linguísticas e nossa máxima, se perde um pouco de dramatização, ganha em
diagnóstico técnico. Então, se traduzíssemos a máxima para uma linguagem
carnapiana, ela ficaria algo como: “Um emissor pode produzir uma expressão
bem-formada que é percebida por um receptor, sem que haja concordância quanto
às regras semânticas adotadas”. E isso, para Carnap, não é um mistério, mas um
convite à explicitação formal.
* * *
* *
8. Experimento filosófico.
Por fim, tomados pela filosofia de Carnap, podemos tentar canonizar a nossa
máxima como um experimento filosófico, propondo um Teste de Entendimento sem
Garantias. A formulação atende a seguinte situação: “Um falante (A) profere um
enunciado (E) numa língua compartilhada.” “Um ouvinte (B) percebe perfeitamente
o som de (E) e reage de modo compatível com as convenções linguísticas usuais.”
Nesse cenário, cabe a pergunta: “É possível afirmar, apenas a partir disso, que
(B) entendeu (E)?”[iii]
O experimento impõe condições
deliberadamente fortes como 1.) audição perfeita: não há ruído, erro perceptivo ou déficit sensorial. 2.) competência linguística
aparente: (B) domina a gramática e o vocabulário da língua de (A). 3.) Resposta adequada (B) responde de maneira socialmente apropriada ao enunciado.
Mesmo sob essas condições, o experimento
suspende a tese forte do entendimento — segundo a qual percepção correta e
resposta adequada garantiriam compreensão —, fazendo da máxima um contraexemplo
conceitual que distingue sucesso pragmático e acordo semântico[iv].
9. Entendimento invisível[v].
Daí surge como resultado um paradoxo do entendimento invisível, isto é, o
entendimento é exigido para explicar a comunicação, mas não é diretamente
observável, nem conclusivamente inferível do comportamento. A encruzilhada se
dá porque, por um lado, se o entendimento é interno, não temos acesso; e por
outro, se é externo, parece dissolver-se em critérios insuficientes. É um pouco
do que nossa série e nossos amigos filósofos estão tentando ajudar a clarificar.
Como formulação final do Experimento do
Entendimento sem Garantia podemos ter:
Demonstra-se que, mesmo sob condições ideais de
percepção, competência linguística e adequação pragmática, não há critério
conclusivo para afirmar que um enunciado foi compreendido.
O experimento visa testar se o
entendimento é um fato comportamental, semântico, intencional ou normativo — ou
se ele emerge apenas da articulação reflexiva entre esses níveis.
O que a máxima procura fazer é isolar
conceitualmente o entendimento como problema filosófico, sem apelar para a
ignorância, má-fé ou supor erro empírico.
[i] Com base no histórico do Blog: https://bit.ly/notebook-blog. Entre outros, “O programa do positivismo lógico”: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2020/10/o-programa-do-positivismo-logico-i.html, “A disseminação da atitude científica pelo Círculo de Viena”: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/02/a-disseminacao-da-atitude-cientifica.html, “Aufbau”: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/02/aufbau.html, “Carnap e o princípio da tolerância”: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2023/11/carnap-e-o-principio-da-tolerancia.html.
[ii] Lembrando que por método e falta
de tempo, temos usa o orientando (ou o estagiário) fazer o levantamento na base
de conhecimento mundial - o estagiário Gemini e/ou ChatGPT.
[iii] Nota-se que é diferente de
perguntar se (B) entendeu o que (A) disse.
[iv] Quando o ato comunicativo funciona
no plano da ação, isto é, a conversa avança sem conflito imediato, houve sucesso
pragmático. Porém, isso não quer dizer que houve acordo semântico, que os
interlocutores associaram o mesmo sentido relevante, que as palavras
significaram a mesma coisa para falante e ouvinte. Não basta usar as mesmas
palavras, os mesmos critérios também devem ser partilhados.
[v] A expressão “paradoxo do
entendimento invisível” não é canônica na literatura filosófica. Ela é
empregada aqui como uma reconstrução conceitual que sintetiza tensões clássicas
presentes no argumento da linguagem privada (Wittgenstein), na crítica carnapiana
aos pseudoproblemas e na tese quineana da indeterminação do significado.
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