sábado, 21 de fevereiro de 2026

Carnap, 1945

Passa pela lógica indutiva proposta por Carnap[i]

Contextualização. Com base exclusivamente nos seguintes artigos Rudolf Carnap (Stanford Encyclopedia of Philosophy) e Rudolf Carnap > C. Inductive Logic (Stanford Encyclopedia of Philosophy), o movimento que Rudolf Carnap realiza em 1945 visa a fundamentação e o desenvolvimento sistemático de uma nova lógica indutiva, centrada na distinção entre dois conceitos de probabilidade[ii].

Em 1945, Carnap publica o artigo "The Two Concepts of Probability", onde propõe que a controvérsia histórica sobre o tema resultava da falha em distinguir dois "explicanda" (conceitos a serem explicados) diferentes sob o mesmo nome. Há probabilidade$_1$, uma probabilidade epistêmica ou lógica que se refere ao grau de confirmação de uma hipótese com base em evidências. Este é um conceito analítico e relativo a um "framework" linguístico[iii]. Há, por outro lado, probabilidade$_2$, uma probabilidade estatística que se refere à frequência relativa de um evento em uma série de longo prazo, sendo um conceito puramente empírico.

Sobre evidências. A probabilidade estatística é empírica, mas a probabilidade lógica, ao tratar de evidências, também não se refere ao “mundo”? Embora as sentenças de evidência descrevam eventos e resultados de observações do mundo, a questão da confirmação exige apenas que sejamos capazes de entender o seu significado e as relações lógicas que elas possuem com uma hipótese $h$. Para decidir o grau de confirmação de uma hipótese com base em uma evidência, não é necessário saber se a evidência é factual ou materialmente verdadeira no momento da análise. A análise de confirmação é estritamente lógica e semântica, focada em como o conteúdo da sentença de evidência apoia o conteúdo da hipótese.

Motivações. A partir desse ano, Carnap também publica "On Inductive Logic", resumindo seu novo sistema que visava fornecer uma explicação quantitativa exata para a metodologia da ciência. Por que ele fez esse movimento? De acordo com os artigos, as motivações de Carnap foram as que se seguem.

Necessidade de Explicação (Explication). Carnap via a filosofia como uma "engenharia conceitual" destinada a substituir ferramentas linguísticas primitivas e vagas por conceitos novos e precisos. Ele acreditava que a probabilidade lógica deveria fornecer uma explicação exata para o conceito de confirmação, que é básico na ciência.

Superação da Crise da Verificação. Carnap reconhecia, desde seus primeiros escritos, que as leis científicas universais não podem ser estritamente verificadas, mas apenas confirmadas ou desconfirmadas passo a passo. A lógica indutiva serviria para medir esse crescimento gradual da confiança em uma lei.

Conciliação de Escolas de Pensamento. Ele desejava encerrar a disputa "fútil" entre a concepção lógica de probabilidade (Keynes, Jeffreys) e a concepção frequentista (von Mises, Reichenbach), demonstrando que ambas as teorias tratam de conceitos importantes que se complementam em vez de se excluírem.

Criação de Frameworks Abrangentes. Carnap queria expandir a ideia de "frameworks" linguísticos para que estes incluíssem não apenas regras dedutivas, mas também regras de lógica indutiva que fossem constitutivas do sistema e permitissem a confirmação de sentenças sintéticas (os juízos sintéticos kantianos).

Reconsideração Pessoal. Em 1941, ele reconsiderou o problema da probabilidade após uma leitura mais cuidadosa de Keynes, abandonando a visão de que a confirmação seria apenas comparativa ("mais fortemente confirmada", "menos confirmada"...) e passando a buscar um sistema métrico quantitativo, menos vago, assim como a ciência introduziu o conceito métrico de temperatura para substituir o conceito comparativo de "mais quente".

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Os Dois Conceitos de Probabilidade. O artigo "The Two Concepts of Probability", escrito por Rudolf Carnap em 1945, é dividido em seis capítulos (ou seções) principais. Abaixo está um resumo de cada um deles.

I. O Problema da Probabilidade. Carnap define o objetivo como uma explicação (explication), que consiste em substituir um conceito vago da linguagem comum (o explicandum) por um conceito novo e mais exato (o explicatum). O problema central é encontrar uma explicação adequada para o termo "probabilidade".

II. Os Conceitos Lógicos de Confirmação. O autor explora o lado lógico da confirmação de hipóteses $h$ com base em evidências $e$. Ele distingue três tipos de conceitos de confirmação: positivo ($h$ é confirmado por $e$), comparativo ($h$ é mais confirmado por $e$ do que $h’$ por $e’$) e métrico (o grau numérico de confirmação).

III. Os Dois Conceitos de Probabilidade. Este é o ponto central da obra, onde Carnap argumenta que a maioria das disputas históricas sobre o tema ocorre porque os autores estão tratando de dois conceitos diferentes sob o mesmo nome. Ele os define como 1.) Probabilidade$_1$: O grau de confirmação (conceito lógico) e 2.)  Probabilidade$_2$: A frequência relativa a longo prazo (conceito estatístico/empírico).

IV. A Natureza Lógica dos Dois Conceitos de Probabilidade. Carnap detalha as diferenças entre ambos. A Probabilidade$_1$ é um conceito semântico e analítico, cujas sentenças são verdadeiras ou falsas apenas pela análise lógica, sem depender de fatos. Já a Probabilidade$_2$ é um conceito factual e empírico, que diz algo sobre o mundo físico e deve ser testado por observações estatísticas.

V. O Empirismo e o Conceito Lógico de Probabilidade. O autor defende que o uso da Probabilidade$_1$ não viola os princípios do empirismo. Ele critica a visão de Reichenbach, que tentava identificar os dois conceitos como um só, reforçando que, embora relacionados, eles permanecem fundamentalmente distintos: um é uma estimativa lógica e o outro é uma frequência física.

VI. Probabilidade e Verdade. Carnap discute a confusão comum entre "verdade" e "confirmado". Ele argumenta que, embora nunca possamos verificar definitivamente uma lei física (alcançar a verdade absoluta), podemos determinar seu grau de confirmação. Assim, a lógica indutiva não substitui a lógica clássica de dois valores (verdadeiro/falso), mas adiciona uma escala contínua de confirmação para as sentenças.

Lógica dedutiva versus lógica indutiva. A diferença entre a lógica indutiva e a dedutiva, segundo os textos de 2025[iv], reside na natureza da relação entre as premissas e a conclusão, bem como no grau de certeza que cada uma oferece. A lógica dedutiva é focada na validade lógica e na demonstração de conclusões que são consequências necessárias de suas premissas. Por exemplo, no silogismo científico, se as premissas são necessariamente verdadeiras, a conclusão também deve sê-lo, não havendo possibilidade de erro se a forma lógica for respeitada. Por basear-se em uma estrutura formal fechada, as provas dedutivas são consideradas estáticas.

Por outro lado, a lógica indutiva é descrita como um tipo de raciocínio não dedutivo que não se fundamenta na validade absoluta, mas em graus de probabilidade e na plausibilidade, onde o apoio das premissas torna a conclusão meramente provável. Ao contrário da dedução, os raciocínios indutivos são dinâmicos, pois estão sujeitos a revisões constantes e à busca por novos dados para corrigir crenças anteriores.

Apesar das diferenças[v], ambas as lógicas compartilham uma natureza lógica e semântica. Resolver problemas em qualquer uma delas não exige conhecimento de fatos empíricos, mas apenas a análise do significado das sentenças envolvidas. Em resumo, enquanto a lógica clássica lida com uma relação de "tudo ou nada" (ou a conclusão segue com necessidade ou não), a lógica indutiva quantifica o quanto uma evidência apoia uma hipótese.

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Sobre a Lógica Indutiva. O artigo intitulado "On Inductive Logic", escrito por Rudolf Carnap em 1945, apresenta um resumo informal do sistema de lógica indutiva desenvolvido pelo autor. O objetivo central é fornecer uma explicação quantitativa exata para o conceito de "grau de confirmação", permitindo que a ciência avalie objetivamente o quanto uma evidência apoia uma hipótese.

O artigo é dividido em 16 seções (parágrafos ou capítulos curtos), numeradas de §1 a §16. Abaixo está o resumo de cada uma das seções.

§1. Lógica Indutiva. Carnap distingue entre Probabilidade$_1$ (conceito lógico de grau de confirmação) e Probabilidade$_2$ (conceito empírico de frequência relativa). A lógica indutiva é definida como a teoria do grau de confirmação, atuando como uma "implicação lógica parcial". Citando, logo na página 1:

In a certain sense we might regard deductive logic as the theory of L-implication (logical implication, entailment). And inductive logic may be construed as the theory of degree of confirmation, which is, so to speak, partial L-implication. "e L-implies h" says that h is implicitly given with e, in other words, that the whole logical content of h is contained in e. On the other hand, "c(h, e) = 3/4" says that h is not entirely given with e but that the assumption of h is supported to the degree 3/4 by the observational evidence expressed in e.

§2. Alguns Conceitos Semânticos. Apresenta as bases da lógica de predicados e introduz os conceitos de descrições de estado, que descrevem estados possíveis do universo e amplitude, as descrições de estado nas quais uma sentença é verdadeira.

§3. Funções-c Regulares. Define funções matemáticas ($m$e $c$) para atribuir valores numéricos ao grau de confirmação. Sendo que $m$ é métrica e $c$ grau de confirmação. Em resumo, $m$ é uma medida de volume lógico de uma sentença, enquanto $c$ é a medida da relação de suporte entre duas sentenças, calculada pela razão entre suas amplitudes

§4. O Conceito Comparativo de Confirmação. Introduz uma maneira de comparar se uma hipótese é "mais ou igualmente confirmada" que outra sem a necessidade imediata de valores numéricos.

§5. Funções-c Simétricas. Estabelece o princípio de que a lógica indutiva não deve discriminar entre indivíduos particulares, tratando todos de forma igual.

§6. O Grau de Confirmação $c$. Carnap seleciona uma função específica, chamada $c*$, como a base de seu sistema, fundamentada na atribuição de valores iguais para descrições de estrutura[vi].

§7. Linguagens Apenas com Predicados de Um Lugar. Explica que a teoria foca inicialmente em propriedades simples (como cores) para facilitar a análise matemática antes de expandir para relações complexas.

§8. Inferências Indutivas. Define que "inferência" na lógica indutiva significa determinar o valor exato do grau de confirmação de uma hipótese com base em evidências.

§9. A Inferência Direta. Trata da inferência de uma população inteira para uma amostra.

§10. A Inferência Preditiva. Trata da inferência de uma amostra observada para outra amostra não observada, sendo considerada por Carnap a inferência mais importante[vii].

§11. A Inferência por Analogia. Examina como a similaridade entre indivíduos aumenta a probabilidade de compartilharem outras propriedades.

§12. A Inferência Inversa. Trata da inferência de uma amostra para a população total[viii].

§13. A Inferência Universal. Trata da inferência de uma amostra para uma lei universal (ex: "todos os cisnes são brancos"). Carnap nota que, em um universo infinito, o grau de confirmação de uma lei universal tende a zero[ix].

§14. A Confirmação de Instância de uma Lei. Argumenta que cientistas não precisam que a lei seja universalmente verdadeira para sempre, mas sim que a próxima instância da lei seja confirmada (confirmação de instância qualificada), o que justifica a confiança nas leis científicas.

§15. A Variedade de Instâncias. Explica que a confirmação de uma lei é mais forte quando as evidências vêm de casos variados (ex: testar metais diferentes para a lei da expansão pelo calor) do que quando vêm de muitos casos idênticos.

§16. O Problema da Justificação da Indução. Discute a "reconstrução racional" do pensamento indutivo e defende que o sucesso de um sistema indutivo deve ser medido por sua eficácia em longo prazo em um mundo previsível.



[i] Resumo com o uso de IA e a partir dos arquivos: “The Two Concepts of Probability (1945)”: https://drive.google.com/file/d/1a4rUDve9Zsq--DWSruiMyRkRlxSf-NhC/view?usp=drive_link, “ON INDUCTIVE LOGIC (1945)”: https://drive.google.com/file/d/1NXXEexgt0DypUfdfVFE9A6ZjofEtnSgJ/view?usp=drive_link e “MEANING AND NECESSITY (1947)”: https://drive.google.com/file/d/1JM9xXXoyvmgG52DVIRTpCUI1bLmwakDj/view?usp=drive_link. Os arquivos foram encontrados na grande rede.

[ii] Resumido por IA.

[iii] Um framework serve para substituir linguagens naturais vagas e ambíguas por sistemas precisos que permitem ao cientista ou filósofo criar um "espaço conceitual" onde as afirmações podem ser verificadas ou confirmadas de forma objetiva, eliminando pseudo-problemas metafísicos que surgem da confusão linguística.

[iv] Aspectos de Lógica Elementar - parte 1 (https://bit.ly/4b2Mzdi), Aspectos de Lógica Elementar - parte 2  (https://bit.ly/40iQtbU), Lógica Aristotélica (https://bit.ly/4cDx38W), Introdução à lógica elementar (https://bit.ly/4c7QDdl).

[v] De acordo com as fontes sobre Carnap já citadas.

[vi] Our inductive logic is the theory of this particular function $c*$ as our concept of degree of confirmation.

[vii] The kinds of inference discussed in the subsequent sections may be construed as special cases of the predictive inference. p. 86.

[viii] This inference is of much greater importance for practical statistical work than the direct inference, because we usually have statistical information only for some samples and not for the whole population. p. 88.

[ix] The role of universal sentences in the inductive procedures of science has generally been overestimated. p. 88.

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