quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Quando o entendimento se sujeita a múltiplas interpretações

A medida do entendimento é a medida do uso público da linguagem

1. Sobre Quine. Willard Van Orman Quine foi um filósofo americano associado principalmente ao naturalismo dentro da tradição da filosofia analítica, e ficou especialmente conhecido por criticar o positivismo lógico ao rejeitar a distinção entre verdades analíticas e sintéticas, argumento central em seu ensaio Dois Dogmas do Empirismo.

Ele defendeu que não existe uma separação rígida entre filosofia e ciência, propondo que a filosofia deve ser conduzida com os mesmos padrões empíricos e metodológicos da ciência, o que o tornou uma figura proeminente por transformar profundamente debates sobre significado, epistemologia e a relação entre linguagem e conhecimento no século XX[i].

2. Quine no blog. No nosso blog, pudemos ver que Quine propôs o holismo epistemológico, a ideia de que nossas crenças formam uma "teia" que enfrenta o tribunal da experiência como um corpo coletivo, o que implica que qualquer enunciado é passível de revisão (falibilismo). Entre outras coisas, ele caracterizou a linguagem como uma ‘arte social’ construída intersubjetivamente, em sentido descritivo e naturalizado, não normativo. Suas teses incluem a indeterminação da tradução (ilustrada pelo experimento "Gavagai") e a máxima ontológica de que "ser é ser o valor de uma variável ligada"[ii], sugerindo que a referência é inescrutável e dependente do sistema conceitual adotado[iii].

3. Quine na perspectiva da nossa série. Quine se opõe radicalmente ao fundacionalismo de Descartes e ao apriorismo de Kant ao rejeitar a ideia de uma mente como espelho privado ou detentora de categorias fixas, propondo que o conhecimento é uma "teia de crenças" holística e uma arte social construída intersubjetivamente. Enquanto Carnap buscava uma distinção rígida entre verdades analíticas e sintéticas para purificar a ciência, Quine denuncia essa clivagem como um "dogma metafísico" sem critérios claros, argumentando que todo o conhecimento, inclusive a lógica e a matemática, é passível de revisão no "tribunal da experiência"[iv].

4. Nossa máxima sobre o ponto de vista de Quine. A partir de Quine, a nossa máxima - “Eu falo e você me ouve, mas entende?” - indicaria que não há um fato adicional, oculto, que determine se houve entendimento para além do uso público da linguagem. Vejamos.

5. Entender não é acessar um “significado interno”. Para Quine, não existe algo como um significado mental privado que garanta o entendimento. Ele rejeita a ideia de que, além do som emitido e da reação do ouvinte, exista um “conteúdo” compartilhado acessível por introspecção. Então, para a nossa pergunta “Eu falo e você me ouve, mas entende?”, Quine diria que não há um critério independente do comportamento e das disposições para agir. Se você reage de maneira adequada, isto é, se você responde, age, corrige, continua o jogo linguístico, então isso é tudo o que há para o entendimento. Não existe um “entender de verdade” escondido atrás disso.

6. A indeterminação da tradução. Nossa máxima vai ecoar essa tese famosa. Mesmo que eu fale perfeitamente, você ouça atentamente e responda coerentemente, ainda assim, diria Quine, há múltiplas teorias de significado igualmente compatíveis com todos os fatos observáveis. Isso quer dizer que não há um único fato que fixe o que exatamente foi entendido; há apenas redes de crenças, hábitos inferenciais ancorados em padrões de estímulo e assentimento. Portanto, nossa pergunta “mas entende?” não tem uma resposta metafísica profunda. Ela só pode ser respondida pragmaticamente[v].

7. “Entender” é estar suficientemente alinhado no jogo linguístico. Para Quine, entender alguém é compartilhar padrões de assentimento e rejeição diante de estímulos semelhantes, dentro de uma linguagem pública. Não é que temos a mesma imagem mental; nem que acessamos o mesmo “sentido” abstrato e nem que correspondemos a uma entidade semântica fixa. É algo mais fraco, mas funcional: coordenação, previsibilidade, continuidade da prática. Se o diálogo funciona, o entendimento está dado e não há mais nada a ser procurado.

8. A nossa máxima como um diagnóstico quineano. A nossa frase pode ser lida, quineanamente, assim: “Mesmo quando todas as condições externas do entendimento estão satisfeitas, ainda sentimos a tentação de perguntar por algo a mais”. Ele diria que essa tentação é um resíduo de uma má metafísica do significado, a ideia de que há um “sentido” intermediário entre fala e mundo[vi]. Então, ele tentaria dissolver a pergunta, não a responder.

Do ponto de vista naturalista quineano, podemos supor que sobre o entendimento, seria possível explicações como uma aquisição linguística, baseada na psicologia ou biologia, padrões de estímulo e assentimento e coordenação intersubjetiva observável. Porém não algo como “o entendimento ocorre porque o ouvinte acessou o significado correto”.

Supondo que provocássemos Quine com nossa máxima, ele provavelmente retrucaria dizendo que “Se eu respondo apropriadamente ao que você diz, o que mais você quer dizer com “entender”?” E, para ele, não há uma resposta que não recaia em mito semântico.

Podemos concluir que, depois de Quine, a pergunta “mas entende?” já não busca um fato oculto; ela se torna um gesto crítico que interroga se a descrição naturalista do funcionamento da linguagem é suficiente para capturar aquilo que, nas nossas práticas, chamamos de entendimento.



[ii] Chamamos B de escopo da ocorrência inicial do quantificador x em xB. Se uma ocorrência de uma variável não é livre em uma fórmula A, então ela é ligada; todas as ocorrências de x em B são ligadas na fórmula quantificada xB. De fato, frequentemente escreveremos que elas estão dentro do escopo do quantificador inicial. https://plato.stanford.edu/entries/quantification/. Também: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2023/11/o-empirismo-sem-dogmas-de-quine.html#comment-form.

[iv] Idem.

[v] Cabe referir conforme “Ancorando teorias do significado contra teorias do significado centradas na verdade: uma defesa de Dummett contra o Programa de Davidson” (https://www.academia.edu/125312640) que parece que correlações estímulo–resposta não parecem suficientes para explicar a competência linguística produtiva. É que aprender uma linguagem parece aprender também algo normativo e sistemático, isto é, aprender significado, mesmo que não como entidade mental.

[vi] Como o terceiro reino de Frege (quando falando de sinn, não bedeutung).

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