Quando a certeza do entendimento depende do sujeito
De acordo com nossa base de conhecimento
do blog[i], Descartes pode ser
considerado um dos fundadores da filosofia moderna e do racionalismo. Seu
projeto baseou-se na dúvida metódica e na busca por um conhecimento certo,
seguro e inabalável. Como resposta, ele estabeleceu o cogito (penso, logo
existo) como ponto arquimediano indubitável, definindo a essência humana como
uma "coisa pensante" em oposição à "coisa extensa". A res
cogitans possui atributos de intelecto, vontade, sensação e emoção[ii], em oposição à res
extensa, que é o corpo material sujeito a leis mecânicas.
Essa é uma formulação dualista substancial
que, no entanto, foi criticada por muitos que o seguiram, como Ryle, por
exemplo, que cunha o "mito do fantasma na máquina", isto é, a partir da tese cartesiana e de sua tradição surge o problema de se explicar como uma mente
imaterial e privada interage com um corpo físico, uma lacuna que Descartes
tentou preencher por meio da glândula pineal. No blog, há contraste com o
empirismo de Hume, que nega ideias inatas e a existência de um "eu"
observável fora das percepções – isso veremos futuramente.
Contrastando-o com os autores que abriram
a série, Kant e Marx, enquanto Descartes fundamenta a filosofia no sujeito
individual por meio do cogito e no dualismo, Kant avança para uma síntese onde
o sujeito transcendental organiza a realidade através de categorias a priori do
entendimento, distinguindo o fenômeno da coisa-em-si incognoscível. Em oposição
a esse foco na consciência pura, Marx inverte a lógica idealista ao sustentar
que a consciência é um produto da vida social e das condições materiais de existência,
sendo determinada pela base econômica (infraestrutura). Assim, enquanto o
racionalismo de Descartes e o criticismo de Kant buscam a verdade e a moral nos
limites da razão, embora em Kant busque validade universal e normativa, o
materialismo de Marx foca na transformação da realidade material através do
trabalho e na superação das contradições sociais e da luta de classes.
Passando, então, para a nossa máxima “Eu
falo e você me ouve, mas entende?”, sob o ponto de vista cartesiano, uma
possível chave de interpretação é a assimetria entre certeza interior e acesso
ao entendimento alheio, como vamos ver.
Certeza do cogito vs. opacidade do outro.
Para Descartes, a única coisa absolutamente certa é o que se apresenta clara e
distintamente à minha mente. Eu tenho certeza de que penso, de que entendo o
que digo — mas não tenho acesso direto ao seu entendimento. Assim, a nossa
máxima expressa algo profundamente cartesiano, que é o fato de que eu falar e
você ouvir não garante, em absoluto, que você entenda. O entendimento é um ato
mental, interno, inacessível de modo imediato a terceiros.
Linguagem como sinal externo, não como
garantia de sentido. Em textos como o Discurso do Método,
Descartes observa que máquinas ou animais podem emitir sinais, mas isso não
significa que entendam o que dizem. A linguagem, para ele, é um indício de
racionalidade, não uma prova conclusiva do entendimento efetivo em cada caso. Segue-se
que poderíamos dizer que ouvir palavras é um fato físico e entender o sentido é
um ato do intelecto. Daí que nada na audição garante o segundo passo.
O problema das outras mentes.
Nossa máxima também toca no chamado problema das outras mentes: como posso
saber que você realmente entende, e não apenas reage mecanicamente a estímulos?
Descartes responderia a isso apenas de forma indireta: confiamos na semelhança
estrutural entre nós e os outros seres humanos; e, em última instância, na
veracidade divina, que não nos faria viver sistematicamente enganados. Mas essa
confiança nunca tem o mesmo grau de certeza que o cogito[iii].
Entendimento não é transferência, é
reconstrução. Para Descartes, o sentido não passa da
minha mente para a sua como um objeto. O que passa são sons ou sinais gráficos;
o seu entendimento ocorre quando você reconstrói internamente ideias claras e
distintas correspondentes. Nossa máxima poderia ser reformulada cartesianamente
assim: “Eu emito sinais; você só entende se sua razão produzir, por si mesma,
as ideias adequadas[iv]”.
Podemos inferir que Descartes diria que nossa
máxima é verdadeira, prudente e filosoficamente inevitável porque eu falar não
garante sua compreensão e você ouvir não quer dizer que você entendeu pois entender
é um ato privado do pensamento. Em suma, para Descartes, podemos assumir que a
comunicação é sempre epistemicamente frágil, porque o entendimento reside onde
nenhum outro sujeito pode olhar: na interioridade do pensamento.
[i] Com base no histórico do Blog: https://bit.ly/notebook-blog.
[ii] Modos conscientes da mente.
[iii] Como já comentamos ao longo da
série, no presente momento temporal não pretendemos rebater o filósofo, como no
caso apontar um solipsismo (metodológico, por exemplo, oriundo da dúvida
hiperbólica) que se esvai na certeza da existência de Deus.
[iv] Ideia adequada, aqui, não é o
conceito forte de Espinosa, apenas uma referência a uma ideia suficientemente
clara e distinta, um critério subjetivo e não algo imanente.
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