Esse
texto trata do terceiro recorte que estamos fazendo da entrevista de Brian
Massumi para o jornal Parrhesia, na qual abordam o ensaio “Mentalidade Técnica”
de Gilbert Simondon
A respeito do último ponto sobre a nossa
análise da “futuridade”[i], os entrevistadores
questionam Massumi (Brian Massumi - BM) sobre uma possível tensão entre o
postulado de Simondon sobre a decomponibilidade do objeto técnico e o holismo
que o contradiria. A resposta de BM passará por separar dois tipos de
decomponibilidade, uma decomponibilidade dos materiais e outra do efeito.
Vejamos.
Apesar de reconhecer a crítica de Simondon
ao holismo, para BM o ponto central é que a decomponibilidade dos elementos (água
e óleo), e a emergência de um efeito unitário (modo de funcionamento) não são
teses concorrentes. Ele cita Deleuze (o todo coexiste com as partes, em outro
nível) e Whitehead (a unificação não elimina a multiplicidade original) para
esclarecer que o holismo é um efeito, a descrição de um resultado e
passa longe de uma tese metafísica. Ou seja, o efeito não é uma continuidade
ontológica das partes. Ele cita o efeito óptico usado por Deleuze como
modelo, no qual o efeito-todo é algo que aparece a partir de elementos, sem
substituí-los, é algo que excede os elementos e não se reduz a eles. Como uma ilusão
de ótica, algo que salta como todo visual a partir de uma diversidade que
algumas filosofias pretendem anular. Importa mais, para Simondon, criticar certa
prioridade ontológica indevida atribuída ao efeito emergente.
O que marca a originalidade do pensamento
de Simondon, conforme prossegue o entrevistado, é o esforço de tratar
descontinuidade e continuidade juntos, a exemplo do empirismo radical de
William James, ele complementa[ii]. Há o duplo movimento composto
pelos elementos decomponíveis e seu efeito contínuo, unitário.
É exatamente nesse ponto que passamos para
o vocabulário da física quântica tomado pelo tecnólogo francês como modelo
conceitual desse movimento duplo. O que ocorre é um salto quântico que
em si não é decomponível, visto que não tem gradação interna, mas que, por
outro lado, leva a coleção de partículas diversas e decomponíveis de uma
configuração particular a uma configuração alterada.
O evento é um evento-todo[iii], podemos dizer,
classificado por BM como um evento de tudo ou nada interposto nessa
transição que não é gradual. Trata-se, segundo ele, de uma mudança qualitativa nas
propriedades do sistema. E BM é taxativo: “Para Simondon, toda transição, toda
mudança, todo vir, é quântica”. O modelo não é só sobre física ou objetos
técnicos, é o esquema geral de toda individuação em Simondon.
Resumindo, se o holismo pode parecer
contraditório, em um primeiro momento, pudemos ver que a decomponibilidade e o efeito
unitário não competem entre si porque operam em níveis diferentes, lembrando da
analogia com o efeito ótico. Uma ilusão de ótica é uma unidade emergente,
indecomponível enquanto salto perceptivo, mas não apaga os elementos gráficos
que a sustentam. Nesse sentido, o alvo do ataque simondoniano são as filosofias
que apagam a diversidade das condições e dão ao todo prioridade ontológica,
classificado por ele como holismo em sentido pejorativo. Então vem a generalização
filosófica, o duplo movimento que pensa continuidade e descontinuidade
juntas e que se caracteriza como salto quântico, um evento que se interpõe
entre duas diversidades marcando mudança de nível sem se tornar propriamente
uma substância e nem apagar as diversidades que liga.
Figura 1: Imagem gerada pelo Gemini, de
descontinuidade e continuidade, parece fazer sentido
Nesse ponto, Massumi retoma o papel do esquema
cognitivo, que vimos na resenha anterior (Futuridade)
e acreditamos que fecha um arco na entrevista, antes de passar ao próximo
ponto. Inclusive, a sua distinção com o esquema de concretização fica
até mais explícita. Como ele explica, o esquema cognitivo é aquele que está na
mente do projetista e que é uma forma abstrata. Só que ele preexiste e passa
por etapas que organizam os elementos que estão decompostos até que há o salto
quântico, origem absoluta não decomponível que ocorre no evento da
invenção que emerge. Acrescentamos, conforme estamos analisando os trechos com
a ajuda da Claude, que o projetista é condicionado pelo passado, pelo
conhecimento acumulado e pelos esquemas herdados.
Então a inversão temporal ocorre
(Futuridade, de novo). Não é mais o passado que empurra o processo, é o efeito
ainda por vir que passa a comandar. Transita-se, abruptamente, para o
sistema autossustentável, caraterístico da invenção e supera-se a fase do
planejamento, das partes decompostas para a auto solidariedade, o efeito
holístico. BM fala em “elevação”, já que há uma nova dimensão de existência onde
as condições passadas ganham um novo estatuto, por serem retroativamente
reorganizadas pelo efeito que ainda estava por vir.
Então, o que estava disperso, mas que
tinha potencialidades, se encaixa. Acrescentamos, que o novo regime de
funcionamento já nasce orientado a seu uso futuro, nascimento
constituinte do uso que não será um acréscimo posterior.
BM trata, então, do esquema da
concretização, que já tocamos na última análise, como que pudesse ser
confundido com o esquema cognitivo, que ficou no passado. O esquema de
concretização, seguimos, não é um esquema mental prévio, mas o encaixe, a
passagem na qual emerge a solidariedade operativo como salto.
BM sublinha que Simondon trata literalmente,
no ensaio Mentalidade Técnica, da multifuncionalidade do óleo concretamente,
de como o óleo funciona. E é justamente a capacidade do óleo, de se acoplar
operacionalmente à água que constitui o esquema que se concretiza na relação
entre eles.
Caminhando para o fechamento dessa
questão, ele volta a rejeitar o hilemorfismo: o esquema de concretização não
imita o que o projetista pensou. Precisamente pelo salto que dá ao objeto
técnico autonomia, uma nova dimensão de existência a partir do encaixe em
solidariedade operacional.
Então, Massumi retoma o holismo para dizer
que ele é o efeito desse esquema de concretização, desse acoplamento,
que marca a origem absoluta do objeto técnico e é um efeito da matéria mesma,
não de fora. Não é hilemorfismo porque é imanente ao processo material de
vir-a-ser e que reenergiza a matéria, nas palavras de BM.
[ii] Nota de rodapé - sugestão de
texto: William James, no empirismo radical (esp. Essays in Radical
Empiricism, 1912; A Pluralistic Universe, 1909), recusa tanto o
racionalismo idealista — que dissolve as partes num Todo contínuo e totalizante
— quanto o empirismo associacionista clássico, que reduz a experiência a átomos
sensoriais desconectados, exigindo uma síntese externa para uni-los. Para
James, a experiência bruta já contém, de forma imediata, tanto a distinção
entre os termos quanto as relações (transições, continuidades) entre eles:
sente-se o "e" e o "mas" tão diretamente quanto se sente
uma cor. Daí seu "pluralismo": um universo feito de partes
genuinamente diversas, ligadas por conexões reais, mas nunca totalizado num
sistema único e fechado. É esse duplo compromisso — preservar a diversidade das
partes e a realidade das transições entre elas, sem hipostasiar um Todo
superior — que aproxima James do modo simondoniano de pensar continuidade e
descontinuidade juntas. (https://claude.ai/share/b2c60446-d93e-4483-82bb-7498ffcb52ac)
[iii] Com a ajuda da IA nesse termo e na decomposição analítica da argumentação de Brian Massumi.
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