sábado, 22 de agosto de 2026

O salto quântico é uma ilusão de ótica

Esse texto trata do terceiro recorte que estamos fazendo da entrevista de Brian Massumi para o jornal Parrhesia, na qual abordam o ensaio “Mentalidade Técnica” de Gilbert Simondon

A respeito do último ponto sobre a nossa análise da “futuridade”[i], os entrevistadores questionam Massumi (Brian Massumi - BM) sobre uma possível tensão entre o postulado de Simondon sobre a decomponibilidade do objeto técnico e o holismo que o contradiria. A resposta de BM passará por separar dois tipos de decomponibilidade, uma decomponibilidade dos materiais e outra do efeito. Vejamos.

Apesar de reconhecer a crítica de Simondon ao holismo, para BM o ponto central é que a decomponibilidade dos elementos (água e óleo), e a emergência de um efeito unitário (modo de funcionamento) não são teses concorrentes. Ele cita Deleuze (o todo coexiste com as partes, em outro nível) e Whitehead (a unificação não elimina a multiplicidade original) para esclarecer que o holismo é um efeito, a descrição de um resultado e passa longe de uma tese metafísica. Ou seja, o efeito não é uma continuidade ontológica das partes. Ele cita o efeito óptico usado por Deleuze como modelo, no qual o efeito-todo é algo que aparece a partir de elementos, sem substituí-los, é algo que excede os elementos e não se reduz a eles. Como uma ilusão de ótica, algo que salta como todo visual a partir de uma diversidade que algumas filosofias pretendem anular. Importa mais, para Simondon, criticar certa prioridade ontológica indevida atribuída ao efeito emergente.

O que marca a originalidade do pensamento de Simondon, conforme prossegue o entrevistado, é o esforço de tratar descontinuidade e continuidade juntos, a exemplo do empirismo radical de William James, ele complementa[ii]. Há o duplo movimento composto pelos elementos decomponíveis e seu efeito contínuo, unitário.

É exatamente nesse ponto que passamos para o vocabulário da física quântica tomado pelo tecnólogo francês como modelo conceitual desse movimento duplo. O que ocorre é um salto quântico que em si não é decomponível, visto que não tem gradação interna, mas que, por outro lado, leva a coleção de partículas diversas e decomponíveis de uma configuração particular a uma configuração alterada.

O evento é um evento-todo[iii], podemos dizer, classificado por BM como um evento de tudo ou nada interposto nessa transição que não é gradual. Trata-se, segundo ele, de uma mudança qualitativa nas propriedades do sistema. E BM é taxativo: “Para Simondon, toda transição, toda mudança, todo vir, é quântica”. O modelo não é só sobre física ou objetos técnicos, é o esquema geral de toda individuação em Simondon.

Resumindo, se o holismo pode parecer contraditório, em um primeiro momento, pudemos ver que a decomponibilidade e o efeito unitário não competem entre si porque operam em níveis diferentes, lembrando da analogia com o efeito ótico. Uma ilusão de ótica é uma unidade emergente, indecomponível enquanto salto perceptivo, mas não apaga os elementos gráficos que a sustentam. Nesse sentido, o alvo do ataque simondoniano são as filosofias que apagam a diversidade das condições e dão ao todo prioridade ontológica, classificado por ele como holismo em sentido pejorativo. Então vem a generalização filosófica, o duplo movimento que pensa continuidade e descontinuidade juntas e que se caracteriza como salto quântico, um evento que se interpõe entre duas diversidades marcando mudança de nível sem se tornar propriamente uma substância e nem apagar as diversidades que liga.

Figura 1: Imagem gerada pelo Gemini, de descontinuidade e continuidade, parece fazer sentido

Nesse ponto, Massumi retoma o papel do esquema cognitivo, que vimos na resenha anterior (Futuridade) e acreditamos que fecha um arco na entrevista, antes de passar ao próximo ponto. Inclusive, a sua distinção com o esquema de concretização fica até mais explícita. Como ele explica, o esquema cognitivo é aquele que está na mente do projetista e que é uma forma abstrata. Só que ele preexiste e passa por etapas que organizam os elementos que estão decompostos até que há o salto quântico, origem absoluta não decomponível que ocorre no evento da invenção que emerge. Acrescentamos, conforme estamos analisando os trechos com a ajuda da Claude, que o projetista é condicionado pelo passado, pelo conhecimento acumulado e pelos esquemas herdados.

Então a inversão temporal ocorre (Futuridade, de novo). Não é mais o passado que empurra o processo, é o efeito ainda por vir que passa a comandar. Transita-se, abruptamente, para o sistema autossustentável, caraterístico da invenção e supera-se a fase do planejamento, das partes decompostas para a auto solidariedade, o efeito holístico. BM fala em “elevação”, já que há uma nova dimensão de existência onde as condições passadas ganham um novo estatuto, por serem retroativamente reorganizadas pelo efeito que ainda estava por vir.

Então, o que estava disperso, mas que tinha potencialidades, se encaixa. Acrescentamos, que o novo regime de funcionamento já nasce orientado a seu uso futuro, nascimento constituinte do uso que não será um acréscimo posterior.

BM trata, então, do esquema da concretização, que já tocamos na última análise, como que pudesse ser confundido com o esquema cognitivo, que ficou no passado. O esquema de concretização, seguimos, não é um esquema mental prévio, mas o encaixe, a passagem na qual emerge a solidariedade operativo como salto.

BM sublinha que Simondon trata literalmente, no ensaio Mentalidade Técnica, da multifuncionalidade do óleo concretamente, de como o óleo funciona. E é justamente a capacidade do óleo, de se acoplar operacionalmente à água que constitui o esquema que se concretiza na relação entre eles.

Caminhando para o fechamento dessa questão, ele volta a rejeitar o hilemorfismo: o esquema de concretização não imita o que o projetista pensou. Precisamente pelo salto que dá ao objeto técnico autonomia, uma nova dimensão de existência a partir do encaixe em solidariedade operacional.

Então, Massumi retoma o holismo para dizer que ele é o efeito desse esquema de concretização, desse acoplamento, que marca a origem absoluta do objeto técnico e é um efeito da matéria mesma, não de fora. Não é hilemorfismo porque é imanente ao processo material de vir-a-ser e que reenergiza a matéria, nas palavras de BM.



[ii] Nota de rodapé - sugestão de texto: William James, no empirismo radical (esp. Essays in Radical Empiricism, 1912; A Pluralistic Universe, 1909), recusa tanto o racionalismo idealista — que dissolve as partes num Todo contínuo e totalizante — quanto o empirismo associacionista clássico, que reduz a experiência a átomos sensoriais desconectados, exigindo uma síntese externa para uni-los. Para James, a experiência bruta já contém, de forma imediata, tanto a distinção entre os termos quanto as relações (transições, continuidades) entre eles: sente-se o "e" e o "mas" tão diretamente quanto se sente uma cor. Daí seu "pluralismo": um universo feito de partes genuinamente diversas, ligadas por conexões reais, mas nunca totalizado num sistema único e fechado. É esse duplo compromisso — preservar a diversidade das partes e a realidade das transições entre elas, sem hipostasiar um Todo superior — que aproxima James do modo simondoniano de pensar continuidade e descontinuidade juntas. (https://claude.ai/share/b2c60446-d93e-4483-82bb-7498ffcb52ac)

[iii] Com a ajuda da IA nesse termo e na decomposição analítica da argumentação de Brian Massumi. 

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