sexta-feira, 31 de julho de 2026

Futuridade

Procura mostrar que a invenção técnica não é hilomórfica, mas antecipa um potencial futuro

Imbricamento entre pensamento e matéria. Vimos na introdução[i] que “a inovação tecnológica é um lugar privilegiado no qual o pensamento se materializa concretamente”, ou seja, pela tecnologia pensamento e matéria se imbricam no processo de individuação. Podemos dizer que a ideia deixa de ser mental e se torna ferramenta.

Rede Técnica. Em um segundo movimento, a entrevista passa a abordar o ensaio Mentalidade Técnica[ii], e BM (Brian Massumi) mostra que ele antecipa preocupações que só se tornaram óbvias depois da internet quando ela difundiu a evolução da rede técnica. A rede reforça essa ideia de concretização, de individuação técnica já que nega que o objeto técnico é estático avançando de uma condição industrial fechada para uma condição pós-industrial “aberta”.

Eficiência. Não obstante, BM alerta para que não tomemos o ensaio anacronicamente, sem o contextualizar com o restante da obra simondoniana. Ali, a terminologia usada fala de normas, de aproveitamento da natureza e da influência do consumismo no design técnico através de razões não técnicas. O ponto principal é que pode parecer que há, nessa proposta, favorecimento da eficiência pelo esquema cognitivo.

Controle tecnocrático. Ocorre que essa abordagem vem depois da distinção apresentada entre o modelo cartesiano, hierárquico e que prima pela estabilidade e o modelo cibernético, horizontal e que se regula por retroalimentação fazendo com que seja continuamente auto adaptável. Como Simondon é propenso para o lado cibernético, cno que Massumi chama de idealismo realista[iii], pode parecer que a “mentalidade técnica” se orienta pelo controle tecnocrático, o que seria um erro.

Normatividade. Embora ainda não tenha explicitado, BM reconhece a proximidade de Simondon com a cibernética ao mesmo tempo que diverge dela porque sua ética não é normativa e tecnocrática. Teremos um pouco mais a dizer sobre isso no parágrafo final, mas isso não é algo tratado por Massumi [ainda].

Esquema cognitivo. Adentrando na discussão, BM faz a ressalva que compreender o ensaio fora do contexto da obra simondoniana é tarefa árdua. Ele aborda o exemplo de Mentalidade sobre a turbina de Guimbal[iv], um caso real de invenção técnica no qual a tentativa de resolver um problema técnico de superaquecimento trouxe consigo a redução do tamanho do artefato. Como Simondon usa o termo esquema de concretização como dando origem a invenção e, ao longo do ensaio, ele também se refere ao esquema cognitivo, pode parecer que os termos são sinônimos. O resultado é que essa identificação poderia nos levar a entender o esquema cognitivo como um modelo mental que existe antes do objeto, na cabeça do inventor, e que é replicado no objeto material.

Repetição com semelhança. Se supusermos esse entendimento, a gênese do objeto técnico fica restrita ao pensamento humano, estritamente cognitiva como solução preconcebida que depois somente molda a matéria a sua forma. Assim, o processo técnico ocorre em um fluxo temporal que visa transportar uma ideia já pronta para sua versão física, isto é, do abstrato ao material[v]. BM destaca a repetição que ocorre, no futuro, da forma abstrata do pensamento na matéria, como mera semelhança. Ou seja, o processo de individuação não acrescentaria nada de material, o processo técnico perderia papel constitutivo, e o objeto técnico somente se conforma ao modelo formal[vi].

Hilomorfismo. Voltando à confusão entre concretização e cognição, BM esclarece que não é essa a visão de Simondon. Se a concretização fosse a materialização do esquema mental, ela seria um hilomorfismo, algo que reduziria a matéria a forma e ideia central contra qual nosso filósofo luta em sua obra. Destaquemos que a definição do hilomorfismo feita por BM fixa três elementos: (1) a forma já está pronta antes, (2) a matéria é inerte, (3) a relação entre as duas é de imposição, não de conformação.

Abandono do modelo mental. Se há um modelo mental abstrato, e de fato há conforme reconhece Massumi, ele por si só não resolve a questão, não é nele que Simondon irá focar no esquema de concretização.  

Futuridade. O caso da turbina de Guimbal mostra uma ação do futuro sobre o presente em oposição ao que seria esperado com causalidade do modelo hilomórfico-cognitivo, do passado para o futuro. Pelo exemplo, a invenção entra em funcionamento por uma causalidade circular.

Momento da invenção. Concretamente, poderia se supor que cada elemento natural, água e óleo, tem funções específicas, mas na realidade há potenciais multifuncionais[vii] ainda não organizados que se acoplam, no momento da invenção, formando um sistema único. Não se trata de uma mente decidindo por meio de um modelo cognitivo já que o sistema se forma somente a partir do encaixe.

Autonomia. Repentinamente, há mudança de plano, uma descontinuidade que origina um novo regime de funcionamento emergente que não é a soma das partes. Algo que BM classifica como salto quântico, haja vista não ser um mero acréscimo gradual, mas uma mudança qualitativa. A partir desse momento, o sistema passa a se manter sozinho mediante as trocas de energia dos materiais e sem que haja necessidade de operação ou reparo externo.

Continuidade. Cabe frisar que, inicialmente, óleo e água estavam separados por vários fatores, como temperatura e pressão, e cada um se limitava a seu campo energético. Em termos simondonianos: antes do acoplamento havia uma disparidade[viii] entre os campos energéticos dos elementos que se transforma em continuidade a partir do encontro. Ocorre que as diferenças de fatores persistem depois da emergência “mas há também algo mais, que saltou para a existência”, como explica BM.

Identificação e separação. Não há causa nova aí, mas um novo plano de operação que resulta do feedback recorrente entre óleo e água, contínuo e autossustentável[ix]. Destaca-se, sobretudo, que a continuidade ocorre na diferença, ela a atravessa e é feita exatamente da relação entre campos díspares. Mas ela é continuidade e, sendo assim, tem autonomia operativa própria como regime novo. Identificação e separação acontecem juntas, no mesmo movimento.

Relação recíproca. Contudo, se essa autonomia pode ser vista como uma nova qualidade, ela é mais um efeito da disparidade [que não some] do que uma causa linear pressuposta pelo modelo hilomórfico[x]. A causa do novo regime é a relação dinâmica e circular entre as multifuncionalidades de cada campo e não a disparidade em si, como dado estático e unidirecional.

Paradoxo. Massumi aprofunda a análise ao argumentar que, antes do acoplamento, os potenciais dos elementos não estavam ativos, ou seja, não era um dado em vigor naquele momento. Mais do que isso, eles simplesmente não existiam em nenhum lugar. É somente quando ocorre a relação que surge o potencial e é esse evento que o constitui, do que BM conclui: “Se o potencial não existia efetivamente no passado, só há um lugar de onde ele poderia ter vindo: do futuro.”

Origem absoluta. É no instante do acoplamento que surgem os potenciais multifuncionais do petróleo e da água e é isso que caracteriza a invenção. No exemplo da turbina, o ativamento energético da relação traz para o presente, como um salto, algo que só pode ser descrito em termo futuros. Então, o objeto técnico não é produzido pela causalidade hilomórfica, supostamente linear, mas por uma ação do futuro sobre o presente fora da cadeia causal histórica, precisamente uma origem absoluta. É o efeito que condiciona retroativamente seu próprio potencial, sua condição de possiblidade, por meio do ato de emergir e maneira autocondicionada.

Uma mente coadjuvante. Com esse esclarecimento, BM volta ao termo “mentalidade” para considerar que, se há um modelo abstrato na mente do projetista, não é ele que determina a invenção já que o sucesso ou fracasso do objeto técnico está primariamente ligado à eficácia do efeito em um evento de tudo ou nada. O designer aparece como coadjuvante uma vez que a passagem de limiar pertence aos próprios campos e potenciais dos elementos. O designer segue a linearidade de passos, mas como forma de preparo das condições, evoluindo do passado da concepção abstrata em sua mente.

Solidariedade operativa. Ocorre que, ele reafirma, em determinado momento há um salto que atravessa o limiar e que não é mera continuação da série linear, mas, citemos: “a potencialização dos elementos atualmente presentes como função de seu futuro”. É o que BM cunha de solidariedade operativa: o resultado do acoplamento ainda que a disparidade de campos persista (ou, apesar dela).

Holismo. Por fim, a despeito dessa solidariedade, Massumi vai negar que ela seja uma acumulação gradual ou a soma de partes fragmentadas, já que essas duas possibilidades pressupõem que algo que ele descarta, qual seja, que o todo se reduz à soma das partes. Isso porque, ele diz taxativamente que a solidariedade não pode ser decomposta de volta em seus elementos constituintes sem que haja perda e afirma que ela é holística. Simondon, nega, de acordo com ele, que os elementos formem uma unidade estrutural (ao modelo cartesiano) em detrimento do acréscimo de uma dimensão nova de existência sobre a disparidade, a citada solidariedade operativa, o regime de funcionamento emergente[xi].

Então, caracterizado como secundário, o esquema cognitivo não produz o salto, uma vez que é o esquema de concretização que leva a esse evento holístico e indecomponível de solidariedade operativa, que não é resultado da execução de um plano. E, podemos acrescentar, a “mentalidade técnica” de Simondon não é normativa, tecnocrática porque não se define por imposição de forma (hilomorfismo) nem por controle regulador externo. Ela define-se pela capacidade de reconhecer e favorecer emergências holísticas que os próprios materiais, em relação, produzem.

Se a proximidade com a cibernética é real, já que ambas valorizam feedback e autorregulação sobre hierarquia fixa, a “regulação” simondoniana diverge dela porque não é normatividade imposta, é efeito autônomo de uma relação, origem absoluta sem causa determinante prévia.



[i] Conforme “Por que Simondon hoje” https://bit.ly/4yhk4Ck.

[ii] https://www.researchgate.net/publication/326700191_Mentalidade_Tecnica - O ensaio "A Mentalidade Técnica" (La mentalité technique, 1958) do filósofo francês Gilbert Simondon é um manifesto pela superação da alienação entre cultura e tecnologia. A obra argumenta que a técnica constitui uma modalidade de conhecimento original e autônoma, essencial para a compreensão do mundo contemporâneo. (Visão geral criada por IA).

[iii] O idealismo realista de Simondon é citado por Massumi nesse momento, mas ele não explica, ainda. Contudo e baseado em elucidações com o Claude, parece que ele se refere ao que foi dito na introdução, o imbricamento entre pensamento e matéria. Uma leitura possível seria, conforme a pesquisa que fizemos: o modelo cibernético agrada a Simondon porque nele a “ideia” (o regime de funcionamento, o novo plano de operação) não é imposta de fora sobre a matéria - ela emerge do próprio encontro real entre os elementos (óleo, água), e mesmo assim tem uma espécie de autonomia e consistência formal própria uma vez que surge (o “regime” é real, tem eficácia própria, não é redutível às partes).

[iv] Jean Marie Claude GUIMBAL (1920-2013) - https://annales.org/site/archives/x/guimbal.html. O texto é simultaneamente um testemunho autobiográfico, uma crítica institucional da pesquisa científica e uma defesa da invenção técnica como um processo longo, imprevisível e profundamente criativo:

[v] Algo tratado aqui https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/05/para-uma-educacao-tecnica.html, “Para uma educação técnica, que compreenda a evolução do objeto”.

[vi] Interessante notar a terminologia aristotélica de forma e matéria, como a que se dá na relação entre potência e ato. (Com ajuda da IA).

[vii] Água = (1) fonte de energia, (2) meio de dissipação de calor. Óleo = (1) condutor de calor até a carcaça, (2) isolante, (3) lubrificante, (4) barreira contra infiltração de água (via diferença de pressão).

[viii] Parece que disparidade tem ressonância com o conceito de campos incompatíveis que só se resolvem numa operação de individuação.

[ix] O exemplo da turbina Guimbal mostra que não há uma hierarquia predefinida entre óleo e água mas um circuito de feedback do qual emerge o regime de funcionamento novo (a autossustentação da turbina). Ou seja: a auto-regulação vem primeiro, funcionalmente; qualquer ordem/hierarquia que se possa depois enxergar no sistema é efeito desse processo, não sua causa. É nesse sentido específico e limitado que cibernética e Simondon "se parecem": ambos rejeitam a ideia de que o sistema precisa de uma hierarquia fixa e externa para funcionar bem, e ambos colocam o feedback recorrente como o que realmente sustenta e produz qualquer ordem funcional. (Com ajuda da IA).

[x] Podemos dizer que ser efeito de algo não implica que esse algo seja sua causa eficiente, de novo no sentido aristotélico.

[xi] Vale ressaltar que algo pode ser holístico e ainda assim se decompor, se as partes se mantiverem com a perda da propriedade do todo. No caso em questão, da turbina, o processo é irreversível porque se as partes se agregam solidariamente, que é a propriedade holística de autossustentação e autonomia operativa, mais do que a soma das partes.

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