Procura
mostrar que a invenção técnica não é hilomórfica, mas antecipa um potencial
futuro
Imbricamento entre pensamento e matéria.
Vimos na introdução[i]
que “a inovação tecnológica é um lugar privilegiado no qual o pensamento se
materializa concretamente”, ou seja, pela tecnologia pensamento e matéria se
imbricam no processo de individuação. Podemos dizer que a ideia deixa de ser
mental e se torna ferramenta.
Rede Técnica.
Em um segundo movimento, a entrevista passa a abordar o ensaio Mentalidade
Técnica[ii], e BM (Brian Massumi)
mostra que ele antecipa preocupações que só se tornaram óbvias depois da
internet quando ela difundiu a evolução da rede técnica. A rede reforça essa
ideia de concretização, de individuação técnica já que nega que o objeto
técnico é estático avançando de uma condição industrial fechada para uma
condição pós-industrial “aberta”.
Eficiência.
Não obstante, BM alerta para que não tomemos o ensaio anacronicamente, sem o
contextualizar com o restante da obra simondoniana. Ali, a terminologia usada
fala de normas, de aproveitamento da natureza e da influência do consumismo no
design técnico através de razões não técnicas. O ponto principal é que pode
parecer que há, nessa proposta, favorecimento da eficiência pelo esquema
cognitivo.
Controle tecnocrático.
Ocorre que essa abordagem vem depois da distinção apresentada entre o modelo
cartesiano, hierárquico e que prima pela estabilidade e o modelo cibernético,
horizontal e que se regula por retroalimentação fazendo com que seja
continuamente auto adaptável. Como Simondon é propenso para o lado cibernético, cno que Massumi chama de idealismo realista[iii], pode parecer que a
“mentalidade técnica” se orienta pelo controle tecnocrático, o que seria um
erro.
Normatividade.
Embora ainda não tenha explicitado, BM reconhece a proximidade de Simondon com
a cibernética ao mesmo tempo que diverge dela porque sua ética não é normativa e
tecnocrática. Teremos um pouco mais a dizer sobre isso no parágrafo final, mas
isso não é algo tratado por Massumi [ainda].
Esquema cognitivo.
Adentrando na discussão, BM faz a ressalva que compreender o ensaio fora do
contexto da obra simondoniana é tarefa árdua. Ele aborda o exemplo de Mentalidade
sobre a turbina de Guimbal[iv], um caso real de invenção
técnica no qual a tentativa de resolver um problema técnico de superaquecimento
trouxe consigo a redução do tamanho do artefato. Como Simondon usa o termo
esquema de concretização como dando origem a invenção e, ao longo do ensaio,
ele também se refere ao esquema cognitivo, pode parecer que os termos são
sinônimos. O resultado é que essa identificação poderia nos levar a entender o esquema
cognitivo como um modelo mental que existe antes do objeto, na
cabeça do inventor, e que é replicado no objeto material.
Repetição com semelhança.
Se supusermos esse entendimento, a gênese do objeto técnico fica restrita ao
pensamento humano, estritamente cognitiva como solução preconcebida que depois
somente molda a matéria a sua forma. Assim, o processo técnico ocorre em um
fluxo temporal que visa transportar uma ideia já pronta para sua versão física,
isto é, do abstrato ao material[v]. BM destaca a repetição
que ocorre, no futuro, da forma abstrata do pensamento na matéria, como mera
semelhança. Ou seja, o processo de individuação não acrescentaria nada de
material, o processo técnico perderia papel constitutivo, e o objeto técnico
somente se conforma ao modelo formal[vi].
Hilomorfismo.
Voltando à confusão entre concretização e cognição, BM esclarece que não é essa
a visão de Simondon. Se a concretização fosse a materialização do esquema
mental, ela seria um hilomorfismo, algo que reduziria a matéria a forma e ideia
central contra qual nosso filósofo luta em sua obra. Destaquemos que a
definição do hilomorfismo feita por BM fixa três elementos: (1) a forma já está
pronta antes, (2) a matéria é inerte, (3) a relação entre as duas é de
imposição, não de conformação.
Abandono do modelo mental.
Se há um modelo mental abstrato, e de fato há conforme reconhece Massumi, ele
por si só não resolve a questão, não é nele que Simondon irá focar no esquema
de concretização.
Futuridade.
O caso da turbina de Guimbal mostra uma ação do futuro sobre o presente em
oposição ao que seria esperado com causalidade do modelo hilomórfico-cognitivo,
do passado para o futuro. Pelo exemplo, a invenção entra em funcionamento por
uma causalidade circular.
Momento da invenção.
Concretamente, poderia se supor que cada elemento natural, água e óleo, tem
funções específicas, mas na realidade há potenciais multifuncionais[vii] ainda não organizados que
se acoplam, no momento da invenção, formando um sistema único. Não se trata de uma
mente decidindo por meio de um modelo cognitivo já que o sistema se forma somente
a partir do encaixe.
Autonomia.
Repentinamente, há mudança de plano, uma descontinuidade que origina um novo
regime de funcionamento emergente que não é a soma das partes. Algo que BM
classifica como salto quântico, haja vista não ser um mero acréscimo gradual,
mas uma mudança qualitativa. A partir desse momento, o sistema passa a se
manter sozinho mediante as trocas de energia dos materiais e sem que haja necessidade
de operação ou reparo externo.
Continuidade.
Cabe frisar que, inicialmente, óleo e água estavam separados por vários
fatores, como temperatura e pressão, e cada um se limitava a seu campo
energético. Em termos simondonianos: antes do acoplamento havia uma disparidade[viii] entre os campos energéticos
dos elementos que se transforma em continuidade a partir do encontro. Ocorre
que as diferenças de fatores persistem depois da emergência “mas há também algo
mais, que saltou para a existência”, como explica BM.
Identificação e separação.
Não há causa nova aí, mas um novo plano de operação que resulta do feedback
recorrente entre óleo e água, contínuo e autossustentável[ix]. Destaca-se, sobretudo, que
a continuidade ocorre na diferença, ela a atravessa e é feita exatamente da
relação entre campos díspares. Mas ela é continuidade e, sendo assim, tem
autonomia operativa própria como regime novo. Identificação e separação
acontecem juntas, no mesmo movimento.
Relação recíproca.
Contudo, se essa autonomia pode ser vista como uma nova qualidade, ela é mais
um efeito da disparidade [que não some] do que uma causa linear
pressuposta pelo modelo hilomórfico[x]. A causa do novo regime é
a relação dinâmica e circular entre as multifuncionalidades de cada
campo e não a disparidade em si, como dado estático e unidirecional.
Paradoxo. Massumi aprofunda
a análise ao argumentar que, antes do acoplamento, os potenciais dos elementos
não estavam ativos, ou seja, não era um dado em vigor naquele momento. Mais do
que isso, eles simplesmente não existiam em nenhum lugar. É somente quando
ocorre a relação que surge o potencial e é esse evento que o constitui, do que
BM conclui: “Se o potencial não existia efetivamente no passado, só há um lugar
de onde ele poderia ter vindo: do futuro.”
Origem absoluta.
É no instante do acoplamento que surgem os potenciais multifuncionais do
petróleo e da água e é isso que caracteriza a invenção. No exemplo da turbina,
o ativamento energético da relação traz para o presente, como um salto, algo
que só pode ser descrito em termo futuros. Então, o objeto técnico não é
produzido pela causalidade hilomórfica, supostamente linear, mas por uma ação
do futuro sobre o presente fora da cadeia causal histórica, precisamente uma
origem absoluta. É o efeito que condiciona retroativamente seu próprio
potencial, sua condição de possiblidade, por meio do ato de emergir e maneira
autocondicionada.
Uma mente coadjuvante.
Com esse esclarecimento, BM volta ao termo “mentalidade” para considerar que, se
há um modelo abstrato na mente do projetista, não é ele que determina a
invenção já que o sucesso ou fracasso do objeto técnico está primariamente
ligado à eficácia do efeito em um evento de tudo ou nada. O designer aparece
como coadjuvante uma vez que a passagem de limiar pertence aos próprios campos
e potenciais dos elementos. O designer segue a linearidade de passos, mas como
forma de preparo das condições, evoluindo do passado da concepção abstrata em
sua mente.
Solidariedade operativa.
Ocorre que, ele reafirma, em determinado momento há um salto que atravessa o
limiar e que não é mera continuação da série linear, mas, citemos: “a
potencialização dos elementos atualmente presentes como função de seu futuro”. É
o que BM cunha de solidariedade operativa: o resultado do acoplamento
ainda que a disparidade de campos persista (ou, apesar dela).
Holismo. Por fim, a
despeito dessa solidariedade, Massumi vai negar que ela seja uma acumulação
gradual ou a soma de partes fragmentadas, já que essas duas possibilidades
pressupõem que algo que ele descarta, qual seja, que o todo se reduz à soma das
partes. Isso porque, ele diz taxativamente que a solidariedade não pode ser
decomposta de volta em seus elementos constituintes sem que haja perda e afirma
que ela é holística. Simondon, nega, de acordo com ele, que os elementos formem
uma unidade estrutural (ao modelo cartesiano) em detrimento do acréscimo de uma
dimensão nova de existência sobre a disparidade, a citada solidariedade
operativa, o regime de funcionamento emergente[xi].
Então, caracterizado como secundário, o
esquema cognitivo não produz o salto, uma vez que é o esquema de concretização
que leva a esse evento holístico e indecomponível de solidariedade operativa,
que não é resultado da execução de um plano. E, podemos acrescentar, a “mentalidade
técnica” de Simondon não é normativa, tecnocrática porque não se define por
imposição de forma (hilomorfismo) nem por controle regulador externo. Ela
define-se pela capacidade de reconhecer e favorecer emergências holísticas que
os próprios materiais, em relação, produzem.
Se a proximidade com a cibernética é real,
já que ambas valorizam feedback e autorregulação sobre hierarquia fixa, a “regulação”
simondoniana diverge dela porque não é normatividade imposta, é efeito autônomo
de uma relação, origem absoluta sem causa determinante prévia.
[i] Conforme “Por que Simondon hoje” https://bit.ly/4yhk4Ck.
[ii] https://www.researchgate.net/publication/326700191_Mentalidade_Tecnica - O ensaio "A Mentalidade
Técnica" (La mentalité technique, 1958) do filósofo francês Gilbert
Simondon é um manifesto pela superação da alienação entre cultura e tecnologia.
A obra argumenta que a técnica constitui uma modalidade de conhecimento
original e autônoma, essencial para a compreensão do mundo contemporâneo. (Visão
geral criada por IA).
[iii] O idealismo realista de Simondon é citado por Massumi nesse momento, mas ele não explica, ainda. Contudo e baseado em elucidações com o Claude, parece que ele se refere ao que foi dito na
introdução, o imbricamento entre pensamento e matéria. Uma leitura possível
seria, conforme a pesquisa que fizemos: o modelo cibernético agrada a Simondon porque nele a “ideia” (o regime
de funcionamento, o novo plano de operação) não é imposta de fora sobre a
matéria - ela emerge do próprio encontro real entre os elementos (óleo, água),
e mesmo assim tem uma espécie de autonomia e consistência formal própria uma
vez que surge (o “regime” é real, tem eficácia própria, não é redutível às
partes).
[iv] Jean Marie Claude GUIMBAL (1920-2013) - https://annales.org/site/archives/x/guimbal.html. O texto é simultaneamente um testemunho
autobiográfico, uma crítica institucional da pesquisa científica e uma defesa
da invenção técnica como um processo longo, imprevisível e profundamente
criativo:
[v] Algo tratado aqui https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/05/para-uma-educacao-tecnica.html, “Para uma educação técnica, que
compreenda a evolução do objeto”.
[vi] Interessante notar a terminologia
aristotélica de forma e matéria, como a que se dá na relação entre potência e ato.
[vii] Água = (1) fonte de energia, (2) meio de dissipação de calor. Óleo = (1) condutor de calor até a carcaça, (2) isolante, (3) lubrificante, (4) barreira contra infiltração de água (via diferença de pressão).
[viii] Parece que disparidade tem
ressonância com o conceito de campos incompatíveis que só se resolvem numa
operação de individuação.
[ix] O exemplo da turbina Guimbal mostra que não há uma hierarquia predefinida entre óleo e água mas um circuito de feedback do qual emerge o regime de funcionamento novo (a autossustentação da turbina). Ou seja: a auto-regulação vem primeiro, funcionalmente; qualquer ordem/hierarquia que se possa depois enxergar no sistema é efeito desse processo, não sua causa. É nesse sentido específico e limitado que cibernética e Simondon "se parecem": ambos rejeitam a ideia de que o sistema precisa de uma hierarquia fixa e externa para funcionar bem, e ambos colocam o feedback recorrente como o que realmente sustenta e produz qualquer ordem funcional. (Com ajuda da IA).
[x] Podemos dizer que ser efeito de
algo não implica que esse algo seja sua causa eficiente, de novo no sentido
aristotélico.
[xi] Vale ressaltar que algo pode ser
holístico e ainda assim se decompor, se as partes se mantiverem com a perda da
propriedade do todo. No caso em questão, da turbina, o processo é irreversível
porque se as partes se agregam solidariamente, que é a propriedade holística de
autossustentação e autonomia operativa, mais do que a soma das partes.
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