Mostrando postagens com marcador autonomia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador autonomia. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Futuridade

Procura mostrar que a invenção técnica não é hilomórfica, mas antecipa um potencial futuro

Imbricamento entre pensamento e matéria. Vimos na introdução[i] que “a inovação tecnológica é um lugar privilegiado no qual o pensamento se materializa concretamente”, ou seja, pela tecnologia pensamento e matéria se imbricam no processo de individuação. Podemos dizer que a ideia deixa de ser mental e se torna ferramenta.

Rede Técnica. Em um segundo movimento, a entrevista passa a abordar o ensaio Mentalidade Técnica[ii], e BM (Brian Massumi) mostra que ele antecipa preocupações que só se tornaram óbvias depois da internet quando ela difundiu a evolução da rede técnica. A rede reforça essa ideia de concretização, de individuação técnica já que nega que o objeto técnico é estático avançando de uma condição industrial fechada para uma condição pós-industrial “aberta”.

Eficiência. Não obstante, BM alerta para que não tomemos o ensaio anacronicamente, sem o contextualizar com o restante da obra simondoniana. Ali, a terminologia usada fala de normas, de aproveitamento da natureza e da influência do consumismo no design técnico através de razões não técnicas. O ponto principal é que pode parecer que há, nessa proposta, favorecimento da eficiência pelo esquema cognitivo.

Controle tecnocrático. Ocorre que essa abordagem vem depois da distinção apresentada entre o modelo cartesiano, hierárquico e que prima pela estabilidade e o modelo cibernético, horizontal e que se regula por retroalimentação fazendo com que seja continuamente auto adaptável. Como Simondon é propenso para o lado cibernético, cno que Massumi chama de idealismo realista[iii], pode parecer que a “mentalidade técnica” se orienta pelo controle tecnocrático, o que seria um erro.

Normatividade. Embora ainda não tenha explicitado, BM reconhece a proximidade de Simondon com a cibernética ao mesmo tempo que diverge dela porque sua ética não é normativa e tecnocrática. Teremos um pouco mais a dizer sobre isso no parágrafo final, mas isso não é algo tratado por Massumi [ainda].

Esquema cognitivo. Adentrando na discussão, BM faz a ressalva que compreender o ensaio fora do contexto da obra simondoniana é tarefa árdua. Ele aborda o exemplo de Mentalidade sobre a turbina de Guimbal[iv], um caso real de invenção técnica no qual a tentativa de resolver um problema técnico de superaquecimento trouxe consigo a redução do tamanho do artefato. Como Simondon usa o termo esquema de concretização como dando origem a invenção e, ao longo do ensaio, ele também se refere ao esquema cognitivo, pode parecer que os termos são sinônimos. O resultado é que essa identificação poderia nos levar a entender o esquema cognitivo como um modelo mental que existe antes do objeto, na cabeça do inventor, e que é replicado no objeto material.

Repetição com semelhança. Se supusermos esse entendimento, a gênese do objeto técnico fica restrita ao pensamento humano, estritamente cognitiva como solução preconcebida que depois somente molda a matéria a sua forma. Assim, o processo técnico ocorre em um fluxo temporal que visa transportar uma ideia já pronta para sua versão física, isto é, do abstrato ao material[v]. BM destaca a repetição que ocorre, no futuro, da forma abstrata do pensamento na matéria, como mera semelhança. Ou seja, o processo de individuação não acrescentaria nada de material, o processo técnico perderia papel constitutivo, e o objeto técnico somente se conforma ao modelo formal[vi].

Hilomorfismo. Voltando à confusão entre concretização e cognição, BM esclarece que não é essa a visão de Simondon. Se a concretização fosse a materialização do esquema mental, ela seria um hilomorfismo, algo que reduziria a matéria a forma e ideia central contra qual nosso filósofo luta em sua obra. Destaquemos que a definição do hilomorfismo feita por BM fixa três elementos: (1) a forma já está pronta antes, (2) a matéria é inerte, (3) a relação entre as duas é de imposição, não de conformação.

Abandono do modelo mental. Se há um modelo mental abstrato, e de fato há conforme reconhece Massumi, ele por si só não resolve a questão, não é nele que Simondon irá focar no esquema de concretização.  

Futuridade. O caso da turbina de Guimbal mostra uma ação do futuro sobre o presente em oposição ao que seria esperado com causalidade do modelo hilomórfico-cognitivo, do passado para o futuro. Pelo exemplo, a invenção entra em funcionamento por uma causalidade circular.

Momento da invenção. Concretamente, poderia se supor que cada elemento natural, água e óleo, tem funções específicas, mas na realidade há potenciais multifuncionais[vii] ainda não organizados que se acoplam, no momento da invenção, formando um sistema único. Não se trata de uma mente decidindo por meio de um modelo cognitivo já que o sistema se forma somente a partir do encaixe.

Autonomia. Repentinamente, há mudança de plano, uma descontinuidade que origina um novo regime de funcionamento emergente que não é a soma das partes. Algo que BM classifica como salto quântico, haja vista não ser um mero acréscimo gradual, mas uma mudança qualitativa. A partir desse momento, o sistema passa a se manter sozinho mediante as trocas de energia dos materiais e sem que haja necessidade de operação ou reparo externo.

Continuidade. Cabe frisar que, inicialmente, óleo e água estavam separados por vários fatores, como temperatura e pressão, e cada um se limitava a seu campo energético. Em termos simondonianos: antes do acoplamento havia uma disparidade[viii] entre os campos energéticos dos elementos que se transforma em continuidade a partir do encontro. Ocorre que as diferenças de fatores persistem depois da emergência “mas há também algo mais, que saltou para a existência”, como explica BM.

Identificação e separação. Não há causa nova aí, mas um novo plano de operação que resulta do feedback recorrente entre óleo e água, contínuo e autossustentável[ix]. Destaca-se, sobretudo, que a continuidade ocorre na diferença, ela a atravessa e é feita exatamente da relação entre campos díspares. Mas ela é continuidade e, sendo assim, tem autonomia operativa própria como regime novo. Identificação e separação acontecem juntas, no mesmo movimento.

Relação recíproca. Contudo, se essa autonomia pode ser vista como uma nova qualidade, ela é mais um efeito da disparidade [que não some] do que uma causa linear pressuposta pelo modelo hilomórfico[x]. A causa do novo regime é a relação dinâmica e circular entre as multifuncionalidades de cada campo e não a disparidade em si, como dado estático e unidirecional.

Paradoxo. Massumi aprofunda a análise ao argumentar que, antes do acoplamento, os potenciais dos elementos não estavam ativos, ou seja, não era um dado em vigor naquele momento. Mais do que isso, eles simplesmente não existiam em nenhum lugar. É somente quando ocorre a relação que surge o potencial e é esse evento que o constitui, do que BM conclui: “Se o potencial não existia efetivamente no passado, só há um lugar de onde ele poderia ter vindo: do futuro.”

Origem absoluta. É no instante do acoplamento que surgem os potenciais multifuncionais do petróleo e da água e é isso que caracteriza a invenção. No exemplo da turbina, o ativamento energético da relação traz para o presente, como um salto, algo que só pode ser descrito em termo futuros. Então, o objeto técnico não é produzido pela causalidade hilomórfica, supostamente linear, mas por uma ação do futuro sobre o presente fora da cadeia causal histórica, precisamente uma origem absoluta. É o efeito que condiciona retroativamente seu próprio potencial, sua condição de possiblidade, por meio do ato de emergir e maneira autocondicionada.

Uma mente coadjuvante. Com esse esclarecimento, BM volta ao termo “mentalidade” para considerar que, se há um modelo abstrato na mente do projetista, não é ele que determina a invenção já que o sucesso ou fracasso do objeto técnico está primariamente ligado à eficácia do efeito em um evento de tudo ou nada. O designer aparece como coadjuvante uma vez que a passagem de limiar pertence aos próprios campos e potenciais dos elementos. O designer segue a linearidade de passos, mas como forma de preparo das condições, evoluindo do passado da concepção abstrata em sua mente.

Solidariedade operativa. Ocorre que, ele reafirma, em determinado momento há um salto que atravessa o limiar e que não é mera continuação da série linear, mas, citemos: “a potencialização dos elementos atualmente presentes como função de seu futuro”. É o que BM cunha de solidariedade operativa: o resultado do acoplamento ainda que a disparidade de campos persista (ou, apesar dela).

Holismo. Por fim, a despeito dessa solidariedade, Massumi vai negar que ela seja uma acumulação gradual ou a soma de partes fragmentadas, já que essas duas possibilidades pressupõem que algo que ele descarta, qual seja, que o todo se reduz à soma das partes. Isso porque, ele diz taxativamente que a solidariedade não pode ser decomposta de volta em seus elementos constituintes sem que haja perda e afirma que ela é holística. Simondon, nega, de acordo com ele, que os elementos formem uma unidade estrutural (ao modelo cartesiano) em detrimento do acréscimo de uma dimensão nova de existência sobre a disparidade, a citada solidariedade operativa, o regime de funcionamento emergente[xi].

Então, caracterizado como secundário, o esquema cognitivo não produz o salto, uma vez que é o esquema de concretização que leva a esse evento holístico e indecomponível de solidariedade operativa, que não é resultado da execução de um plano. E, podemos acrescentar, a “mentalidade técnica” de Simondon não é normativa, tecnocrática porque não se define por imposição de forma (hilomorfismo) nem por controle regulador externo. Ela define-se pela capacidade de reconhecer e favorecer emergências holísticas que os próprios materiais, em relação, produzem.

Se a proximidade com a cibernética é real, já que ambas valorizam feedback e autorregulação sobre hierarquia fixa, a “regulação” simondoniana diverge dela porque não é normatividade imposta, é efeito autônomo de uma relação, origem absoluta sem causa determinante prévia.



[i] Conforme “Por que Simondon hoje” https://bit.ly/4yhk4Ck.

[ii] https://www.researchgate.net/publication/326700191_Mentalidade_Tecnica - O ensaio "A Mentalidade Técnica" (La mentalité technique, 1958) do filósofo francês Gilbert Simondon é um manifesto pela superação da alienação entre cultura e tecnologia. A obra argumenta que a técnica constitui uma modalidade de conhecimento original e autônoma, essencial para a compreensão do mundo contemporâneo. (Visão geral criada por IA).

[iii] O idealismo realista de Simondon é citado por Massumi nesse momento, mas ele não explica, ainda. Contudo e baseado em elucidações com o Claude, parece que ele se refere ao que foi dito na introdução, o imbricamento entre pensamento e matéria. Uma leitura possível seria, conforme a pesquisa que fizemos: o modelo cibernético agrada a Simondon porque nele a “ideia” (o regime de funcionamento, o novo plano de operação) não é imposta de fora sobre a matéria - ela emerge do próprio encontro real entre os elementos (óleo, água), e mesmo assim tem uma espécie de autonomia e consistência formal própria uma vez que surge (o “regime” é real, tem eficácia própria, não é redutível às partes).

[iv] Jean Marie Claude GUIMBAL (1920-2013) - https://annales.org/site/archives/x/guimbal.html. O texto é simultaneamente um testemunho autobiográfico, uma crítica institucional da pesquisa científica e uma defesa da invenção técnica como um processo longo, imprevisível e profundamente criativo:

[v] Algo tratado aqui https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/05/para-uma-educacao-tecnica.html, “Para uma educação técnica, que compreenda a evolução do objeto”.

[vi] Interessante notar a terminologia aristotélica de forma e matéria, como a que se dá na relação entre potência e ato. (Com ajuda da IA).

[vii] Água = (1) fonte de energia, (2) meio de dissipação de calor. Óleo = (1) condutor de calor até a carcaça, (2) isolante, (3) lubrificante, (4) barreira contra infiltração de água (via diferença de pressão).

[viii] Parece que disparidade tem ressonância com o conceito de campos incompatíveis que só se resolvem numa operação de individuação.

[ix] O exemplo da turbina Guimbal mostra que não há uma hierarquia predefinida entre óleo e água mas um circuito de feedback do qual emerge o regime de funcionamento novo (a autossustentação da turbina). Ou seja: a auto-regulação vem primeiro, funcionalmente; qualquer ordem/hierarquia que se possa depois enxergar no sistema é efeito desse processo, não sua causa. É nesse sentido específico e limitado que cibernética e Simondon "se parecem": ambos rejeitam a ideia de que o sistema precisa de uma hierarquia fixa e externa para funcionar bem, e ambos colocam o feedback recorrente como o que realmente sustenta e produz qualquer ordem funcional. (Com ajuda da IA).

[x] Podemos dizer que ser efeito de algo não implica que esse algo seja sua causa eficiente, de novo no sentido aristotélico.

[xi] Vale ressaltar que algo pode ser holístico e ainda assim se decompor, se as partes se mantiverem com a perda da propriedade do todo. No caso em questão, da turbina, o processo é irreversível porque se as partes se agregam solidariamente, que é a propriedade holística de autossustentação e autonomia operativa, mais do que a soma das partes.

terça-feira, 5 de abril de 2022

A pedra fundadora da sociologia da ciência

Visa conceituar o reportório usado por Merton ao inserir a ciência como objeto de investigação sociológica[i]

Shinn e Ragouet conceituam a abordagem de uma ciência funcionalista e estratificada como tendo uma perspectiva sociológica diferenciacionista. Isso porque, nessa visão, não basta, por exemplo, elencar os pais da ciência moderna ou as teorias científicas, suas ideias e fatos, já que tudo isso, por si só, não explica o desenvolvimento da ciência. Para o sociólogo da ciência, dentro da perspectiva funcionalista, é recorrendo ao processo de institucionalização da ciência, com suas normas e um sistema de retribuição, que se pode explicar a existência da ciência.

A sociologia da ciência nasce a partir da tese de doutorado de Robert Merton, em 1938, que analisa, de um ponto de vista sociológico, a revolução científica que ocorreu no final do século XVII, na Inglaterra. Naquele contexto, segundo Merton, a ciência surge como um subsistema social quase autônomo, baseado em valores e normas específicos que demarcam suas fronteiras. Há organismos como a Royal Society, fundada em 1662, que constituem uma comunidade científica dividida em papéis científicos que subordinam as descobertas e teorias científicas, fazendo com que os trabalhos de cientistas como Newton e Boyle sejam insuficientes para operar a transformação do modo de conhecimento da sociedade.

Ora, a Royal Society Londrina é um espaço que permite o estabelecimento de procedimentos, modelos de excelência e protocolos de avaliação que trazem a profissionalização científica e, com isso, sua autonomia. Porém, há dois fatores da época que impulsionam a ciência: por um lado, as transformações econômicas de uma nação que tem ambições imperialistas fazem com que a ciência responda a desafios tecnológicos; por outro, o puritanismo inglês que, embora não sendo uma condição social necessária, conjuga valores com a ciência, como: revelar a ordem da natureza que seria reflexo da ordem divina, se orientar por atitudes como rigor, esforço e aprendizado, pelo conhecimento, reflexão e crítica, além da noção de realização material. Tudo isso gera um ambiente ideológico que favorece o florescimento da ciência.

E são as instituições, academias de ciências que também aparecem em outros países que trazem um papel regulador dos critérios de certificação científica e validação, bem como um sistema de retribuição e premiação que instaura uma hierarquia dentro das comunidades científicas tornando a ciência sistema distinto e relativamente autônomo, que pode resistir à intrusões e pressões de atores políticos e econômicos.

Para Merton, a comunidade científica se divide em quatro papéis: a maior parte entre pesquisadores e professores (pesquisa e ensino), os mais seniores mais participantes da administração e o papel de sentinela que é compartilhado por todos e diz respeito à definição da orientação da pesquisa, avaliação dos resultados e controle dos atores. Em um artigo de 1942, Merton define as quatro normas que constituem o ethos da ciência: o universalismo, referente aos critérios impessoais que devem ser perseguidos pelos cientistas; o comunalismo, que visa o bem público e contrário à ideia de propriedade intelectual; o desinteresse, isto é, procura pela verdade, honestidade e intersubjetividade; e o ceticismo organizado que rejeita a autoridade e aberto a críticas.

São essas normas que fazem da ciência um sistema distinto assegurando-lhe estabilidade e regulação. Isto, segundo alguns diferenciacionistas, seriam normas da ciência pura em oposição à ciência aplicada guiada pela patente ou segredo industrial inserida em um sistema autoritário de relações e sob a forma de uma expertise técnica destinada a resolver problemas pontuais associados ao lucro empresarial. Porém, enfatizam os autores, nem sempre os pesquisadores se guiam por tais normas citando como exemplo o Projeto Apolo, nos anos 60, no qual os cientistas eram movidos pelo ganho pessoal e ambição, colocando em dúvida a existência do ethos científico. Então, elas tenderiam a serem normas mais ideais do que operatórias.



[i] Controvérsias sobre a ciência: por uma sociologia transversalista da atividade científica. Terry Shinn e Pascal Ragouet. Tradução de Pablo Rubén Mariconda e Sylvia Gemignani Garcia. São Paulo: Associação Filosófica Scientiae Studia: Editora 34, 2008. Páginas 14 a 23.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Curto panorama da Filosofia da Tecnologia

Panorama da Filosofia da Tecnologia: contemporânea e história[i]

Origem e evolução do conceito de tecnologia. Os autores resgatam a téchne aristotélica como o conhecimento necessário para a produção de artefatos (poiesis) úteis a partir da transformação da natureza pelo homem, em oposição à physis, onde a natureza é autônoma per se.

A téchne é o trabalho manual do artesão como fim em si mesmo, que depois passa a ser o trabalho do técnico como conhecimento transmitido pelo ensino caraterizado por ser repetitivo e como meio para atingir um fim desejado. Segundo os autores, a tecnologia surge com a revolução científica do XVII como conjunto organizado de conhecimento para produção de bens e serviços até chegar a ser instrumento necessário da nossa civilização contemporânea.

Discutem brevemente a neutralidade da ciência enquanto instrumental[ii], se isenta de valores e independente de um fim ou do que o homem faz dela, por outro lado as alterações que a tecnologia gera na sociedade, sejam elas boas ou ruins.

Racionalidade tecno científica e prática. Segue-se ligeiro debate do conhecimento do senso comum que acredita na realidade do mundo que vê, mas cuja resposta só é confiável pelo uso da razão e do já bem conhecido debate filosófico entre racionalistas (ex. Platão, conhecimento dos sentidos é doxa) e empiristas com a visão oposta.

Mas será mostrado que houve uma mudança de abordagem na história. A racionalidade prática, oriunda de Aristóteles, está relacionada à ética e ao agir humano pela virtude, gerando bem geral na polis. Entretanto, o advento da racionalidade tecnológica (tecno científica), voltada ao progresso e controle da natureza, estratificou a sociedade não permitindo o acesso de todos e se distanciou dos valores humanos e sociais trazendo degradação ambiental, entre outros.

Essa abordagem tecnológica contemporânea é criticada por Heidegger que, presenciando o uso das bombas nucleares prevê um futuro terrível no uso da tecnologia, criticando, por exemplo, o uso das hidrelétricas e inteligência artificial. Também há críticas à racionalidade instrumental pela Escola de Frankfurt. Então os autores vão discutir a questão tecnológica desde os pontos de vista do determinismo e da autonomia tecnológica.

Determinismo e autonomia tecnológica. Para o esquema determinista, a tecnologia condiciona nosso modo de vida. Proveniente de Marx, segundo os autores, a tecnologia seria o motor do progresso e transformação social, seja através das forças ou relações de produção. Já na perspectiva da autonomia, defendida por Ellul, o avanço tecnológico independe do ser humano e sua evolução, por mais que traga problemas, trará soluções.

Dentro desse debate, os autores trazem também a questão da neutralidade, com a visão de Weber de uma racionalidade instrumental destituída de valores e desinteressada e a posição contrária da Teoria Crítica de que não existem artefatos neutros, pois são criados pelo homem com uma finalidade. Mas eles defendem o ponto de vista de Monterroza Ríos que trata os objetos com uma dupla natureza: material (elementos que compõem os objetos) e intencional, quando o home imprime significado aos artefatos e usos em determinados contextos.

Movimentos anti tecnológicos. Se a sociedade contemporânea é tecnológica, há críticas a seu uso. Romantismo do XVIII, contra uso excessivo da razão e racionalidade iluminista baseada na matemática e cujo representante é Rousseau[iii] e seu bom selvagem que ser perverte ao ter contato com a civilização. Luddismo[iv], contra o desemprego advindo do uso de máquinas e que gerou a destruição delas e rejeição tecnológica. Movimento ecológico abordando impactos no ambiente, uso de recursos naturais em excesso, combustíveis fósseis, entre outros. Eles fecham com a questão de Heidegger sobre até quando estaremos no controle.

Considerações finais. Por fim, para os autores desde o domínio do fogo até a tecnociência, a humanidade evolui para uma sociedade melhor e com mais conforto. Seja na medicina, globalização ou internet. Entretanto, há que se conciliar tecnologia e valores, ciência e ética. Nesse ponto, a filosofia contribui na formação e na conscientização do uso prudente da tecnologia. Ao ver de fora a atividade cientifica e tecnológica ela permite crítica, reflexão e, pela sua natureza multidisciplinar, o diálogo com os outro domínios e na busca de respostas às questões mais angustiantes do nosso tempo.



[i] FILOSOFIA DA TECNOLOGIA: UMA NOVA ÁREA DE INTERESSE DE ESTUDO DA FILOSOFIA. Geraldo das Dôres de Armendane e Adenilson Felipe Sousa Silva, na Revista Complexitas. Conforme acessado pelo link a seguir: https://periodicos.ufpa.br/index.php/complexitas/article/view/3980, em 15/02/2021.

[ii] Racionalidade instrumental cunhada por Horkheimer afirma que a razão, cedida em sua autonomia, tornou-se instrumento, e o seu valor operacional e papel de domínio dos homens e da natureza tornou-se o único critério para avaliá-la. Weber relaciona o surgimento da modernidade ao predomínio de um tipo de ação racional que orienta o indivíduo aos fins.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Livre direito de manifestação

Sim, temos que falar disso pois, embora pareça óbvio, não é consenso, não é garantido. Estava eu aqui a refletir sobre a epígrafe: “livre direito” ou “direito livre” e me lembrei de Sílvio de Almeida tratando de junção semelhante entre direito = justiça e filosofia = verdade. Ou seja, ele enfatizaria que justiça e verdade antagonizam, mormente quando juntas.
Pois bem, escolhemos livre antes de direito por acreditar que mais vale a liberdade do que a justiça. Isso por que a justiça sempre falhará, mesmo que de olhos vendados. Porém, liberdade não tem referencial. Essas palavras: Justiça, Verdade, Liberdade, Homem, etc., elas não existem, de fato, já diriam certos céticos ou nominalistas. Contudo, não há como evitá-las no discurso, afinal e tão somente elas têm essa função.
Então, "livre direito de manifestação", aqui e agora, não se refere à política de uma maneira mais ampla. Nem mesmo juridicamente, de fato. "Livre direito de manifestação" é tão somente podermos dizer algo. E, sim, é muito difícil dizermos algo porque há todo um aparato estabelecido para nos intimidar, seja ele claro ou latente. Além disso, há o emprego!
Sendo seres sociais, temos que trabalhar, não há outro jeito; a mãe natureza nos dá em estado bruto e temos que produzir. Nesse sentido, as forças se canalizam na função do cumprimento e caímos na heteronomia. Palavra esquisita, não é? Heteronomia não passa do oposto de autonomia e, autonomia, é o direito à livre manifestação.
Veja: autonomia é. Heteronomia, seu oposto. E sim, agora que falamos de autonomia, falamos do direito à livre manifestação e, falamos porque formalizamos. Mas, antes de formalizar, o que entristece, decepciona, é não poder livremente exercer a autonomia [plenamente] por estarmos em um estado ou ciclo evolutivo e ancestral atual de impasse.
Descumprir as regras, quebrar os grilhões, gritar! Falar, pensar, ler, ouvir, refletir, escrever, desenhar, aroeirar, etc. Tudo isso nos é roubado diariamente, seja pela fonte pagadora (porque demanda, não porque censura, voila), seja pela norma coercitiva. Precisamos passar a limpo tudo isso para nos tornarmos homens ou continuarmos rastejando.

sábado, 8 de março de 2014

Consumo

O consumo é o principal ato individual que rege o sistema capitalista, no que tange a nossa "possibilidade de escolha". Consumir é adquirir bens e serviços; consumir é escolher dentre possibilidades e ante capacidades financeiras.

Mas essa escolha é negativa. Não escolhemos porque queremos ou oque queremos.
Escolhemos porque somos obrigados pelo sistema capitalista e pela sociedade: a nos vestirmos, a usarmos tecnologias, etc.
Escolhemos a partir de opções dadas e não imaginadas ou criadas por nós.

Escolhemos uma criação alheia, de outro. Existe uma manipulação por trás da mercadoria, do produto. Ao mesmo tempo o produto abstrai o criador e ganha forma e autonomia. O consumo é movido pela mercadoria que fascina e domina.

E acreditamos que o conforto trazido pelo consumo vale essa liberdade condicionada.