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domingo, 22 de junho de 2025

Origem capitalista

Esta reflexão passa por temas básicos do sistema capitalista[i]

Falemos brevemente da teoria da mais valia que procura mostrar que o lucro do patrão vem do trabalho do empregado e não de outro meio. Isso ocorre porque a única forma de produzir um novo valor é por meio do trabalho. No sistema capitalista o patrão é dono dos meios de produção: das máquinas, ferramentas e instalações e esse é um tipo de despesa que ele tem. Porém, máquinas, energia elétrica e matérias primas não se transformam em produtos “ex abrupto”, elas precisam da força de trabalho, constituindo-se essa uma segunda despesa do patrão. Ocorre que a base do sistema capitalista é o lucro, isto é, a acumulação de capital e ele não pode se originar de uma despesa que seja artificialmente elevada porque dessa forma ela seria repassada a outro capitalista, que compra o produto e que, depois, também precisaria gerar um novo lucro pela subida artificial de preços e assim sucessivamente. Ora, nesse processo, não se gera valor. O valor é gerado quando o patrão paga ao trabalhador menos do que ele poderia receber e abocanha esse valor que se caracteriza como lucro, que se serve para que ele possa investir na expansão de seu negócio ou especular.

É o valor do trabalho, a mais-valia que não é originada como se poderia pensar da compra e venda de mercadorias acima de seu valor e nem do simples investimento em meios de produção. A mais-valia é o valor excedente gerado pelo trabalho de um operário que não é a ele pago na forma de salário, isto é, ele vende sua força de trabalho por um valor inferior ao que ela vale. Há um capital constante, o das primeiras despesas, que sempre é repassado, mas há o capital variável, do trabalho humano que, este sim, cria valor. E o trabalhador não recebe pelo valor que ele cria, mas pelo valor necessário para reproduzir sua força de trabalho.

Acontece que essa não é uma situação “natural”, muito ao contrário, ela antagoniza patrões e empregados, já que cada qual tem um objetivo diferente. Mas ela se oculta na ideologia dominante, ou seja, na circulação de ideias que visam esconder que, por exemplo, uma pessoa é pobre não porque é explorada, mas porque é preguiçosa e não gosta de trabalhar, assim naturalizando-se a desigualdade e desencorajando a luta por melhores condições. A ideologia surge como norma que institui o ordenamento vigente como natural e faz com que se imponham os valores da classe dominante. O ordenamento vigente, como o capitalista, surge então como uma realidade que deve ser seguida e obedecida, quando na verdade é um constructo histórico e social.

Como não poderia deixar de ser diferente, a mídia é grande propagador da ideologia dominante, já que forjada no berço dos grandes capitalistas e utiliza a propaganda ideológica para mostrar uma realidade que se apresenta neutra, mas que é na maioria das vezes é tirada de seu contexto ou vista sob certos ângulos. Nesse sentido é uma arma filosófica questionar essas supostas “verdades” que visam encobrir a crítica.

Ponto fundamental é a alienação que ocorre porque o resultado do trabalho não fica de posse do trabalhador, mas é transferido ao patrão. O trabalhador mal tem condições de determinar o valor de salário, seu horário de trabalho e condições. Ele se integra e uma linha de produção como mais uma peça e mais se aliena porque não consegue enxergar o todo do processo e cumpre as tarefas pelas quais é delegado. Se é pelo trabalho que o homem passa a se desenvolver e transformar a natureza pelo seu pensar e agir, no capitalismo o trabalho se torna um instrumento de subserviência e exploração, se torna uma mercadoria.

Não podemos nos esquecer de que a ideologia também se perpetua na moral que rege a ordem vigente capitalista que condiciona valores e normas criando leis favorecem o interesse burguês na medida em que passa a falsa ideia de que todos são iguais quando na verdade e ela que acentua desigualdades. É uma moral hipócrita que serve ao individualismo burguês.

Mas é tomando pé dessa situação que podemos refletir e procurar agir dentro da liberdade que nos é possível dadas as condições sociais e históricas numa luta contra a dominação e alienação. Importante frisar que, se parece que o mundo é determinado, como é dito pela ciência, a consciência do homem é uma causa que permite mudar a essa determinação, é fonte de escolha. Entretanto, não é uma liberdade individual, ao contrário, ela visa a emancipação humana se desgarrando das condições econômicas que impinge perda de liberdade. Uma ação que vise o interesse coletivo e que promova melhorias efetivas no sistema de desequilíbrio.



[i] Com base no capítulo 3 (https://aprendamais.mec.gov.br/course/view.php?id=1945) de “Filosofia I - Turma 2025A” – Plataforma Aprender Mais, acessado em 19 de junho de 2025. Também com ajuda de pesquisas aleatórias na internet.

sexta-feira, 2 de maio de 2025

Introdução ao livre-arbítrio

Aborda aspectos desse conceito tão complexo e multifacetado[i]

A questão da liberdade. Vitor Lima introduz o tema problematizando a questão da liberdade[ii], se agimos espontaneamente ou envoltos pela cultura e sociedade e que levanta reflexões existenciais, metafísicas e éticas. O livre-arbítrio, inicialmente, estaria ligado ao controle de nossas ações e se relacionando com a filosofia da mente, dependendo de cada teoria. Assim, a causalidade das ações pode ser livre (mente com natureza imaterial) ou determinada (mente física regulada por leis, possivelmente sem escolha). O desafio é explicar a liberdade dentro de um mundo físico, tema tratado no idealismo alemão, conforme lembra Lima, pelo escape da mente do mundo material rumo ao ideal, seja um “eu” ou o absoluto.

Liberdade e filosofia da mente. Entrando na filosofia da mente, para o dualismo a mente, sendo imaterial, não está sujeita a leis físicas, abrindo espaço para a vontade livre, mas trazendo problemas na explicação de como a mente se relaciona com o corpo, sendo coisas diferentes. Já o fisicalismo, postulando uma mente física, precisa responder se há liberdade. Se parece que as teorias físicalistas, mais populares atualmente, tem maior proximidade com a ciência, conforme ressalta Lima, ainda há falta de explicação. Outra teoria importante, o funcionalismo pode pleitear processos que sejam ou não determinísticos, independentemente do suporte material. Nessa visão de mente como software e dentro de um sistema arquitetural e com regras, há dificuldade em encontrar a liberdade. Por fim, o eliminativismo interpreta o livre-arbítrio como um conceito que pode ser redefinido, tratando-o como ilusão porque não usa os termos da psicologia popular.

Temas centrais. Entrando em questões centrais do livre-arbítrio, Lima contrasta liberdade de ação com autodeterminação, o valor de uma ação moral e sua responsabilização e implicações sobre qual a natureza da realidade e o sistema ético que a ela está atrelado.

Determinismo. Mas é o determinismo[iii] ponto de partida para Vitor Lima, conceituado como mundo regido por leis naturais e nada além disso, do ponto de vista metafísico, isto é, mesmo que algo nos pareça “surpreendente”, como que com uma causa outra qualquer, isso seria porque não conhecemos (do ponto de vista epistemológico) todas as variáveis que atuam sobre o mundo físico, se mantido esse enfoque determinista.

Determinismo e correlações. Vitor associa o determinismo ao princípio de razão suficiente[iv] (PRS) proposto por Leibniz, isto é, tudo o que existe tem uma razão suficiente que o causa, como uma explicação para as coisas serem como são, embora não restrito ao mundo físico, porque Deus entra na causa das razões como causa primeira, à maneira de Aristóteles ou Tomás. Então, o determinismo não busca a cadeia de causas, como o PRS. Vitor também distingue o determinismo do fatalismo, quando as coisas acontecem independentemente de uma ação, associado a algo sobrenatural: “aconteceu porque tinha que acontecer”. Por fim, o determinismo não se confunde com a previsibilidade, Vitor traz o exemplo do demônio de Laplace – uma entidade que tudo sabe e conhece todas as leis – ela poderia prever o futuro? Vitor ressalta que o determinismo independe se podemos ou não prever o futuro (e vice-versa), mesmo uma inteligência infinita teria dificuldade de lidar com a complexidade do caos.

Inserindo livre-arbítrio pela visão antiga-helenística. Voltando ao livre-arbítrio, Lima pontua que este é tema em debate e remete sua origem seja a Agostinho (origem na intenção) ou ao Epiteto (origem externa). Em Platão, há conceituação da razão como guia de instintos e desejos, trazendo harmonia interna e implicando liberdade. Em Aristóteles parece que há um conceito de vontade que parte de um processo de deliberação interna, mesmo que baseado em fatores externos, mas garantido autonomia. Aristóteles não se vale de princípios universais, como é o caso platônico, o estagirita presta atenção nas situações particulares, mas ambos alçam a razão ao patamar elevado na condução das ações. Os estoicos e epicuristas acreditam que tudo é corpóreo e sujeito a leis naturais, portanto deterministas. Vitor pontua que os estoicos eram compatibilistas por aceitarem o livre-arbítrio no sentido de que nossas ações dependem de nós. Os epicuristas entendiam que a natureza da realidade podia ter desvios, fugindo de um determinismo rígido.

O livre-arbítrio na filosofia medieval. Então Vitor traz Agostinho que, neoplatônico, tem sua visão teológica e cristã e, nessa abordagem, busca incluir a liberdade humana (livre-arbítrio) dentro de um mundo criado por um Deus onisciente. E é por aí que o mal tem espaço para agir, a partir de uma vontade má que, lá na frente, buscará a salvação divina. Filosoficamente falando, em Agostinho a vontade é autodeterminante e racional, não determinada por fatores externos e nem por outras faculdades internas, como pontua Vitor. Embora os desejos nos desestabilizem, a verdadeira liberdade deve buscar o Bem – ideia platônica reguladora de uma realidade ordenada, agora transformada em Deus (transubstanciada?). Então, a liberdade é, contra intuitivamente, obedecer a Deus e não se manter indeterminada[v].

Modernos e contemporâneos. Resumidamente, a questão moral permeia o livre-arbítrio porque sem ele não teríamos responsabilidades pelos nossos atos, ainda que ela remeta a Deus como norma de ação. Por outro lado, a descrição do mundo é primariamente fisicalista, cientificista e dificulta a explicação do livre-arbítrio, quando podemos lembrar do PRS como pilar da metafísica moderna. Mas o livre-arbítrio se situa entre agir de outra forma ou autodeterminadamente, conciliando com a responsabilidade moral. Já Espinosa é uma voz destoante nesse debate porque traz uma visão necessitarista – as coisas acontecem assim porque deveriam acontecer, retirando margem de liberdade e sendo um cético radical do livre-arbítrio. Como o Deus de Espinosa[vi] é a natureza, ele não delibera, não pune e nem recompensa. Porém, é exatamente por não esperarmos uma recompensa que a ação moral deve ser virtuosa em si mesma. Não devemos desejar nada além do que deve ser, mas orientar o que queremos para o que irá acontecer, ou seja, desejar o que já aconteceria, aceitando a realidade. Nas palavras de Vitor Lima: “liberdade não é livre-arbítrio, mas harmonização entre aquilo que acontece e aquilo que você quer que aconteça”, não lutar contra a “verdade das coisas”.[vii]



[i] Conforme a aula do canal INEF no YT: https://youtu.be/DxQS_1Bi8o8, usa como fontes SEP: Determinismo causal https://plato.stanford.edu/entries/determinism-causal/ e livre-arbítrio https://plato.stanford.edu/entries/freewill/.

[ii] Lembremos, foi o primeiro tópico explorado nesse espaço, quando especulávamos de modo bem iniciante sobre temas aleatórios: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2013/11/liberdade-liberdade-liberdade.html.

[iii] Interessante, no nosso Espaço, Liberdade aparece muito e determinismo muito pouco. Aqui on passant: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2024/11/revisitando-o-mito-cartesiano.html, mas associado livre-arbítrio e ao mito. De toda forma vamos precisar olhar o Prigogine – ele fala de caos e ali pode abordar o assunto, a ver. Claro, essa oposição é tema clássico, lembremos a terceira antinomia, por aqui bastante abordada.

[v] Vitor passa lateralmente por Aquino que concilia a visão aristotélica com a cristã e também mantem a primazia da razão sobre a vontade.

[vi] Conforme https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2017/02/deus-ou-seja-natureza1.html e o resumo da IA: O texto discute a filosofia de Espinosa, focando em sua caracterização de Deus e sua visão revolucionária.  Espinosa contesta a visão tradicional de Deus, argumentando que Deus, ou seja, a Natureza, é a única substância, eterna e livre, que causa a si mesma e a todas as coisas no universo.  Ele rejeita a ideia de um Deus pessoal, com intelecto e vontade, que cria o mundo por escolha, e em vez disso, propõe uma "ontologia do necessário", onde tudo é determinado pela natureza divina.  Essa despersonalização de Deus tem implicações políticas, libertando o campo político da imagem de governantes com poderes divinos.

[vii] Ao final da aula, três breves assuntos foram tratados, registremos: 1.) dignidade do herói, oriundo da tragédia, mas que enfatiza o caráter do herói a seguir princípios para além dos atos de coragem; 2.) amor fati, que se refere a amar o próprio destino, tema tratado pelo estoicismo e Nietzsche, lidar com as dificuldades da vida; 3.) por fim lembrar que a conceituação determinista de universa está mais associada a uma visão de mundo clássica, hoje há espaço para a probabilidade, por meio da física do século XX.

domingo, 19 de setembro de 2021

Pedagogia do Oprimido - Prefácio #pf100

 Traz ideias principais de Paulo Freire a partir do prefácio de Ernani Maria Fiori[1]

Paulo Freire traz a dialética da liberdade, aquela que liberta oprimido e opressor, mas originária do oprimido, já que é na consciência dele que reside a verdade do opressor. Para Freire, a alfabetização ocorre pelo processo histórico, pelo biografar-se ou existenciar-se. A pedagogia, então, se aproxima da antropologia, pois que mostra a ambiguidade da condição humana e que deve ser vencida pela superação libertadora da consciência humana.

Porém, as técnicas de alfabetização de Paulo Freire não visam um método eficiente, ao contrário, há humanismo na base para que possa haver conscientização. E são as palavras que permitem o engajamento e colocam o alfabetizando em situação existencial pelo qual ocorre um processo de descodificação, ou seja, do vivido para o objetivo, da subjetividade para a objetividade. Ao objetivar seu mundo, o alfabetizando se vê em seu círculo de cultura e pode, junto com seus companheiros, procurar pela reciprocidade das consciências em um processo facilitado pelo professor que deve criar as condições para que ele ocorra. Da codificação das situações existenciais à descodificação tem-se um fundo onde se perpassa o contexto.

É a palavra que objetiva o espírito, mas que também escreve o mundo de cada um em um processo nada abstrato de aprendizado em que se testemunha a história indo além da alfabetização. É essa a missão do homem que se assume responsavelmente pela palavra: o homem se faz homem. Ele toma a forma humana, pois quando vive não se vê, mas ao observar como vive pode enfrentar a sua situação. Ao se distanciar das coisas, as fazem presentes. É o conhecido processo de hominização em que o homem não se naturaliza, mas humaniza o mundo.

A consciência que se faz intencional é prenhe de objetos que se tornam problemas que devem ser superados quando se reflete sobre eles. E é por meio dessa dialética entre o mundo objetificado e a consciência subjetiva que aparece a práxis, pela retomada reflexiva de seu próprio processo histórico. Importante notar como Freire trata da fenomenologia de consciências que primordialmente se comunicam, pois são comunicantes e não mônadas isoladas que negam o próprio homem.

São consciências que se lançam no mundo intersubjetivamente para, com ele, formarem uma história que será de uma prática que, se humana e humanizadora, é prática de liberdade. Tal práxis é de colaboração quando, junto com os outros, é possível transformar o mundo. A consciência livre leva do processo de hominização para a humanização, para a superação das contradições de nossas finitudes e, como método pedagógico não é de ensino, mas de aprendizagem. Conforme Ernani: “a pedagogia aceita a sugestão da antropologia: impõe-se pensar e viver a educação como prática de liberdade”.

O processo de alfabetização não é de cópia e repetição, mas cada um cria sua palavra e a cultura letrada conscientiza a cultura, a palavra instaura o mundo do homem. E ela ocorre, conforme já dito, como diálogo, levando à construção de um mundo comum. Os alfabetizandos partem de poucas palavras que tem poder criador pois geram o seu mundo e, mais do que isso, pela ação, o transforma.

Por fim, não se pode negar que o método de Paulo Freire é de conscientização e politização e não pretende afastar a educação da política. Isso porque, quando as contradições se conscientizem, elas se tornam insuportáveis e não se pode acomodar: é preciso ir adiante, se libertar. Ainda que dentro de um regime de dominação de consciências que deve ser apreendido pelo oprimido em sua pedagogia.


[i] Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire - 78 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021. São recortes e fragmentos para marcar pontos principais da argumentação e servir de guia.

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Em busca do método mais eficaz

Mostra as características que fazem com que a técnica seja a procura do meio mais eficiente de realizar coisas, independentemente de nossos valores[i]

Para Ellul, segundo Mocellin, tecnologia é a técnica moderna que, não sendo a técnica antiga, está presente em todos os aspectos da vida ameaçando a liberdade. Sua visão é pessimista pois vê a tecnologia como determinística[ii], obedecendo aos valores e regras dela e não os nossos.

O que é o fenômeno técnico?

Na visão de Ellul, a técnica é mais que o maquinário ou a produção e une teoria e prática numa atividade totalizante embora a máquina, satisfazendo nossas necessidades, criou um ambiente sem vida. Ela torna o meio antinatural e aproxima o humano do inumano. Aí, aparece como global, pois que atingindo todos os domínios, não um problema qualquer. Nesse último caso, é uma “operação técnica”, mas a primeira, universal, é o “fenômeno técnico”, além dos contextos culturais.

Se a “operação técnica” busca resolver um problema específico, pela eficácia, através de um aprimoramento operacional (desde a antiga à ciência), ela se amplia no “fenômeno técnico” que busca o eficaz em tudo. Ele começa com a razão que visa um objetivo determinado, mas que, ao se conscientizar, vai além do mundo natural na busca dos meios mais eficazes.

Quais são as características da técnica moderna?

Dada a diferença entre técnica moderna e técnica antiga, a primeira deixando de ser um meio para ser uma realidade em si, Ellul elenca três características para diferenciá-las, seguidas das características próprias da técnica moderna.

Limite dos domínios: se circunscrita a relações pessoais e com menos consumo nas sociedades primitivas, ao pensar na comodidade da sociedade atual para evitar esforços, passa a domínios ilimitados.

Variabilidade de uso: inicialmente a variabilidade de uso não era um problema como atualmente ocorre para se uniformizar cada usuário.

Propagação da técnica: fechado em grupos com pouca comunicação, como que subjetiva, atinge alcance global e objetivo na modernidade, com o foco da moralidade para a eficácia.

Características do progresso tecnológico.

Racionalidade: existência do processo racional com ênfase no esquema lógico.

Artificialidade: traz a técnica como modificação do natural, destruindo-o.

Automatismo: não há escolha, sempre prevalecerá o melhor método, aquele mais eficaz e racional, sem subjetividade ou acaso, ou seja, ipso facto. Sem a liberdade de escolha, estamos condenados à escravidão técnica.

Auto crescimento: como que o desenvolvimento técnico cresce sozinho, é ilimitado e irreversível. Apaixonado pela técnica, o homem trabalha também pelo seu aperfeiçoamento, mas com um papel cada vez menor.

Unicidade: todas as técnicas possuem as mesmas características e não se distingue a técnica do uso. Ou seja, ontologicamente seu ser é determinado pelo uso, como já postulou Aristóteles que o ser é determinado para que serve. Dada a unicidade, a técnica não pode ser valorada por ser boa ou má, já que obedece a motivos técnicos, e o seu ser é produzir, alheio a nós.

Universalismo: tanto geográfico, pois abarca todos os lugares, quanto qualitativo, pois qualquer um pode usar.

*  *  *  *  *

Essa expansão da técnica se dá por fatores técnicos, causas históricas ou exportação de técnicos que podem atuar em qualquer lugar, porém aí desaparecem os valores das civilizações antigas pela ascendência da axiologia da técnica. Com isso, o homem sai de cena e entra a autonomia do fenômeno técnico: “a procura do mais eficiente meio de realizar coisas torna-se a consideração suprema; e essa procura é o que chamo de técnica” (conforme citação de Ellul que Mocellin nos traz).

Sendo autônoma, a técnica segue leis próprias, sendo a lei principal a da eficácia independente do julgamento ou moralidade humanos, somente por critérios técnicos. Um procedimento não é bom ou mau, mas depende do resultado ser eficaz. Dessa forma, o regente da modernidade é o determinismo técnico que nos priva da liberdade e subordina nossas escolhas e vontades.



[i] Filosofia da Tecnologia. Seus autores e seus problemas. Organização de Jelson Oliveira e prefácio de Ivan Domingues, resultado da iniciativa do GT de Filosofia da Tecnologia da ANPOF. Caxias do Sul, RS: Educs, 2020. Conforme capítulo 7, Jacques Ellul – A construção do conceito de técnica moderna, por Vanessa Delazeri Mocellin.

[ii] Um dos tipos da filosofia da tecnologia e que será bem caracterizado por Ellul.

domingo, 31 de janeiro de 2021

A solução da terceira antinomia na Crítica da razão pura[i]

Tese: A causalidade segundo as leis da natureza não é a única de onde podem ser derivados os fenômenos do mundo no seu conjunto. Há ainda uma causalidade pela liberdade que é necessário admitir para os explicar (B472).

Antítese: Não há liberdade, mas tudo no mundo ocorre unicamente em virtude das leis da natureza (B474).

A antinomia é cosmológica, isto é, se refere ao mundo enquanto fazendo parte do sensível, algo imanente. Não há problema com uma ideia psicológica (alma) ou teológica (Deus) visto que já são essas ideias próprias transcendentes e não se referem a um dado da natureza sensível. O problema da ideia de mundo é que ela envolve uma totalidade que, quando investigada, não se da na experiência[ii]. Como podemos pensar na totalidade de um mundo em sua séria infinita (ou indefinida) de eventos?[iii]

Segundo Kant, nem tese e nem antítese, já que o problema da antinomia é o realismo transcendental que acredita que as coisas são subsistentes por si mesmas. A solução crítica se da pelo idealismo transcendental que trata de fenômenos que são representações sem existência fundamentada em si. Ou seja, o erro é considerar fenômenos como coisas em si e a liberdade transcendental[iv] é resultado dessa falácia.

Então, a antinomia ocorre por essa busca da razão por condições incondicionadas dos fenômenos da experiência, quando ela vai além cria ideias transcendentais. Sobre as antinomias cosmológicas:

· As teses são dogmáticas, com elas podemos nos pensar livres e ela pressupõem um ser originário, postulado também pelo entendimento comum.

· As antíteses são empiristas, eliminam a força da moral e da religião e pautam o regresso infinito, se limitando à experiência, pois é uma posição dogmática com relação às ideias.

O idealismo transcendental tenta resolver a antinomia tratando o sensível pela sua causalidade natural e o inteligível pela causalidade por liberdade. No erro da antinomia que, fora da crítica, supõe apenas um âmbito (fenômeno é coisa em si) há uma tendência para a antítese. Porém, para o idealismo transcendental, o fenômeno não existe fora do pensamento. Como a liberdade é uma ideia transcendental pura não extraída da experiência, não conseguimos efetivá-la, ela não acontece porque tudo na experiência tem causa.

O idealismo transcendental põe um sujeito do mundo dos sentidos com caráter sensível (fenômeno) e caráter inteligível (não sujeito ao fenômeno). Esse sujeito pertence a dois mundos: determinado e livre, esse último saindo do campo especulativo, onde não há conhecimento. Há o sentido “ter que” da natureza e o “dever” que traz a liberdade (ação possível), possibilidade de não seguir imperativos da razão (não de estímulos naturais como em Hobbes ou Spinoza)[v].

A solução crítica compatibiliza "a possibilidade" da liberdade e causalidade por natureza (tese e antítese) e abre caminho para a filosofia prática (e ir além do empirismo[vi]) pois só existirá liberdade prática se existir liberdade transcendental. Pinzani ainda traz na argumentação que essa noção é o cerne do pensamento kantiano, pois ele vinculara toda a sua filosofia ao interesse da razão pela liberdade. Mas que o próprio Kant adverte na CRP:

“Além disso, nem sequer pretendemos demonstrar a possibilidade da liberdade; nem tal se conseguiria, porquanto não se pode conhecer em geral nem a possibilidade de qualquer princípio real, nem de qualquer causalidade, mediante simples conceitos a priori: a liberdade é aqui tratada apenas como ideia transcendental mercê da qual a razão pensa iniciar absolutamente, pelo incondicionado do ponto de vista sensível, a série das condições no fenômeno.”

Então, não há como provar positivamente a liberdade transcendental, porém sem uma ideia ao menos teórica dela, o homem não pode se responsabilizar por suas ações. Mas Kant consegue criar uma ponte entre os usos da razão, vista como um sistema único.



[i] Conforme 3 em https://www.academia.edu/8116094/SOBRE_A_TERCEIRA_ANTINOMIA, Alessandro Pinzani, acessado em 28/01/2021. Já falamos disso em Um caminho para a liberdade em Kant (https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2016/06/um-caminho-para-liberdade-em-kant.html).

[ii] Marquemos o ponto que na antinomia não aparecem nem fenômeno e nem coisa em si.

[iii] Ajuda a esclarecer os termos: http://www.periodicos.ufc.br/argumentos/article/download/39788/95769/, em 31/01/2021.

[iv] Transcendental 1: análise da razão a priori, sem objeto. Transcendental 2: distinção crítica que separa o que conhecemos como fenômeno e o que pensamos como coisas em si.

[v] Na nota 83, Pinzani aponta para problemas advindos quando se pensa em uma estrutura racional humana, problemas da filosofia da consciência. Em A queda: quando o sujeito se torna interlocutor (https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/01/a-queda-quando-o-sujeito-se-torna.html) falamos do aspecto linguístico, mas ele cita ainda questões neurológicas que podem interferir na estrutura racional de produção de moral. Conforme nota 83: “O raciocínio kantiano pelo qual “se devo praticar a ação X, então sou livre de praticá-la ou não” e pelo qual, portanto, o indivíduo é sempre plenamente responsável de suas ações, não sobrevive ao ataque conjunto das éticas intersubjetivas e das neurociências.”

[vi] Olha o dogma aí gente! O mundo é dado de maneira X (empírica) mas, para Kant, essa empiria é muita cética, acaba com o dogma. Daí criar a coisa em si para resguardar o inteligível. Mas é pelo menos louvável a atitude de esclarecer esses pontos.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Livre direito de manifestação

Sim, temos que falar disso pois, embora pareça óbvio, não é consenso, não é garantido. Estava eu aqui a refletir sobre a epígrafe: “livre direito” ou “direito livre” e me lembrei de Sílvio de Almeida tratando de junção semelhante entre direito = justiça e filosofia = verdade. Ou seja, ele enfatizaria que justiça e verdade antagonizam, mormente quando juntas.
Pois bem, escolhemos livre antes de direito por acreditar que mais vale a liberdade do que a justiça. Isso por que a justiça sempre falhará, mesmo que de olhos vendados. Porém, liberdade não tem referencial. Essas palavras: Justiça, Verdade, Liberdade, Homem, etc., elas não existem, de fato, já diriam certos céticos ou nominalistas. Contudo, não há como evitá-las no discurso, afinal e tão somente elas têm essa função.
Então, "livre direito de manifestação", aqui e agora, não se refere à política de uma maneira mais ampla. Nem mesmo juridicamente, de fato. "Livre direito de manifestação" é tão somente podermos dizer algo. E, sim, é muito difícil dizermos algo porque há todo um aparato estabelecido para nos intimidar, seja ele claro ou latente. Além disso, há o emprego!
Sendo seres sociais, temos que trabalhar, não há outro jeito; a mãe natureza nos dá em estado bruto e temos que produzir. Nesse sentido, as forças se canalizam na função do cumprimento e caímos na heteronomia. Palavra esquisita, não é? Heteronomia não passa do oposto de autonomia e, autonomia, é o direito à livre manifestação.
Veja: autonomia é. Heteronomia, seu oposto. E sim, agora que falamos de autonomia, falamos do direito à livre manifestação e, falamos porque formalizamos. Mas, antes de formalizar, o que entristece, decepciona, é não poder livremente exercer a autonomia [plenamente] por estarmos em um estado ou ciclo evolutivo e ancestral atual de impasse.
Descumprir as regras, quebrar os grilhões, gritar! Falar, pensar, ler, ouvir, refletir, escrever, desenhar, aroeirar, etc. Tudo isso nos é roubado diariamente, seja pela fonte pagadora (porque demanda, não porque censura, voila), seja pela norma coercitiva. Precisamos passar a limpo tudo isso para nos tornarmos homens ou continuarmos rastejando.

sábado, 8 de março de 2014

Consumo

O consumo é o principal ato individual que rege o sistema capitalista, no que tange a nossa "possibilidade de escolha". Consumir é adquirir bens e serviços; consumir é escolher dentre possibilidades e ante capacidades financeiras.

Mas essa escolha é negativa. Não escolhemos porque queremos ou oque queremos.
Escolhemos porque somos obrigados pelo sistema capitalista e pela sociedade: a nos vestirmos, a usarmos tecnologias, etc.
Escolhemos a partir de opções dadas e não imaginadas ou criadas por nós.

Escolhemos uma criação alheia, de outro. Existe uma manipulação por trás da mercadoria, do produto. Ao mesmo tempo o produto abstrai o criador e ganha forma e autonomia. O consumo é movido pela mercadoria que fascina e domina.

E acreditamos que o conforto trazido pelo consumo vale essa liberdade condicionada.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Liberdade


Liberdade, liberdade. Existe?

Um ser livre, um pensamento livre. Existe? Existe alguma coisa capaz de ser livre? Não existe. Mas, se existe, não sabemos.

Porque a liberdade DEVE ser independente de relações. Portanto, se existe a liberdade, ela é desconhecida, porque existe sozinha.

Uma coisa só é livre se não tem causa. Não essa causa da natureza, de causa e efeito, natureza mecânica. Uma coisa só é livre se é espontânea e NADA é espontâneo. Tudo vem a reboque. Está tudo determinado.

Não significa que não se pode agir, que não se pode pensar. Pode-se pensar e, pensando, decidir. Mas não há liberdade. 

Não se trata de resguardar a luta, de abolir a consequência. A luta existe e transforma. Evolui-se.

Mas NADA é livre. Nada do que conhecemos, nada do que há no mundo sensível, nada do que há por dentro dos seres, nenhuma estrutura é livre.

Qualquer ação cujo gatilho não se conhece ou não se reconhece é uma ação que se origina. Mas a origem exige alguma participação. E só existe liberdade com participação.