Um passeio pela proposta cibernética
Para Saturnino, há uma visão utópica e de otimismo científico que marca o projeto da Cibernética, pela via da comunicação. Uma vez que a informação se torna objeto quantificável, conforme definição de Shannon, ela pode ser analisada pelos cientistas do ponto de vista matemático, estabelecendo um aparato filosófico consistente. É nessa perspectiva que Wiener aparece como “pai da Cibernética moderna”, criando um método de medição da informação em experimentos eletrônicos. Seu livro Cybernetics or control and communication in the animal and the machine, publicado em 1948, funda, assim, uma nova ciência, seguindo a argumentação de Saturnino.
Conforme https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2026/10/tecnociencia-e-utopia.html.
O autor afirma que, apesar da noção de informação constituir o núcleo central da Cibernética, seu conceito é multivariado e, por isso, transdisciplinar, tendo diferentes usos. Em Ellul, ele comenta, vemos o paralelismo da teleologia da informação com o debate filosófico, no que tange à sua pluralidade. Devido a isso, pode haver apropriação política para um constructo conforme seu significado. Para Weaver, deveríamos considerar os problemas técnicos oriundos de sua quantificação, a questão semântica (significado e verdade) e impacto no comportamento humano. Do ponto de vista qualitativo, a análise envolve os campos pragmático (social, discurso), matemático (técnico, operacional) e semântico (cognitivo).
Em “Em busca do método mais eficaz” (2021), com base em Mocellin sobre Jacques Ellul, distingue-se a “operação técnica”, voltada à solução de problemas específicos, do “fenômeno técnico”, que busca o meio mais eficaz em todos os domínios da vida. Esse fenômeno é caracterizado por racionalidade, artificialidade, automatismo, autocrescimento, unicidade e universalismo. Por seguir leis próprias, a técnica moderna é autônoma e determinista: a eficácia prevalece sobre valores e escolhas humanas, o que ameaça a liberdade. Disponível em: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/07/em-busca-do-metodo-mais-eficaz.html.
Voltando ao pai Wiener, continua Saturnino, a noção de informação se refere a nossa troca com o mundo, de ajuste às contingências do meio ambiente. Ele traz o exemplo do termostato, que regula a temperatura ambiente por meio da troca de informação com o exterior. Seu sistema de autocontrole é baseado nas regras da Cibernética e é um princípio que serve como ponto de partida para o equilíbrio técnico e social. Do ponto de vista epistêmico, houve a troca de watts por bits, mostrando novo arcabouço do pensamento científico.
Para Wiener, toda relação no mundo, seja natural ou artificial, se dá mediante a permuta de informação, pela via da comunicação. Sob essa perspectiva, a sociedade seria, a reboque, homeostática. Na base, formulações de Leibniz sobre linguagem universal e automatização do raciocínio.
Contextualizando sua matemática, ela foi aplicada na II Guerra Mundial, no estudo do lançamento e trajetórias de projeteis pelas artilharias antiaéreas (1948). Elas usavam dispositivos eletromecânicos que se baseavam no feedback como mecanismo de retroalimentação do sistema, compensando desvios e corrigindo futuros erros. Isso era feito pelo comparativo entre comando e desempenho, permitindo padronizar o comportamento da máquina evitando ações que não correspondessem ao esperado.
Na fisiologia, Wiener observou, em testes com humanos, que a perda de coordenação motora de pacientes com ataxia era influenciada pela insuficiência de informações de feedback para o sistema nervoso. Haveria um sistema sensorial humano semelhante ao que operava nos dispositivos de controle, por depender de mensagens que caminhavam pelos músculos e órgãos dos sentidos.
https://www.rededorsaoluiz.com.br/doencas/ataxia. A ataxia é definida como sendo uma dificuldade ou mesmo incapacidade de se manter a coordenação motora como normalmente. São, essencialmente, dos movimentos voluntários que se perdem o controle, ou seja, aqueles movimentos que o paciente deseja fazer, como levantar ou mesmo erguer um garfo para se alimentar.
Recuperando o sonho iluminista de harmonizar máquinas, animais e humanos, ele procurou estabelecer uma dinâmica entre funcionamento das máquinas e organização social, traçando analogia entre o sistema nervoso e dispositivos de controle. De acordo com Saturnino, suas experiências matemáticas abrem caminho para o desenvolvimento da automação e “inteligência artificial”. Une engenharia elétrica e estudo de linguagem em uma teoria englobante de troca de mensagens.
Junto com Rosenblueth, participa das Conferências Macy, encontros interdisciplinares envolvendo antropologia, biologia, filosofia, entre outros, e nomes como Bateson, Mead, von Neumann, Shannon, de 46 a 53.
A teoria que ele propôs priorizava, detalhando um pouco mais, o estudo das mensagens como forma de controlar as máquinas e a sociedade. Mas Saturnino enfatiza que tal controle não seria de domínio, mas de regulação, de comando de processos comunicacionais, sejam naturais ou artificiais. Assim, criando um método de para resolução de problemas de comunicação.
Historicamente, nos lembra Saturnino, o termo “Cibernética” tinha aparecido já em Platão com a palavra “kybernetikos” associada ao controle das embarcações por pilotos e em Ampére (~1800), tratando de governabilidade, seguindo sentido platônico. Já Maxwell, anos depois, associou o termo aos estudos de mecanismos de repetição. Não obstante, Wiener o utilizará se referindo a “piloto” – controle de comunicação e seguindo descrição de Claude Bernard, na medicina, do isolamento e estabilidade entre meio interior e exterior. Esse princípio foi chamado de homeostase, por Cannon (agora já no século XX), tratado como propriedade tanto de seres vivos como de máquinas. Citando Martins, Saturnino procura mostrar que Bernard já propunha a construção de máquinas mais orgânicas com comportamento orientado a fins e com a capacidade de aprender e corrigir erros.
De posse de condição humana de regular a informação, a Cibernética então proporá que máquinas fossem criadas com tal mecanismo autônomo. Se em 48 Wiener procurou formular cientificamente a cibernética, uma segunda obra, conforme comenta Saturnino, irá divulgar a cibernética agora por meio da organização social. The Human use of Human Beings: Cybernetics and Society procura traduzir “sua teoria matemática em um valor social facilmente apreendido por diferentes tipos de pessoas”.
Aparece, então, uma segunda cibernética com Heinz von Foerster consolidando o conceito como programa para diversas áreas de pesquisa, impulsionadas também pelas contribuições de Shannon e Weaver. E, na biologia, com Maturana e Varela.
Saturnino enfatiza que o estratagema do projeto de Wiener era fazer com que todos os processos sociais se dessem por meio do paradigma da comunicação, que ela pudesse harmonizar as trocas interacionais nas sociedades. Assim, constituía-se em um valor que mediasse as relações tanto naturais como artificiais. Na obra de 50, surge essa premissa como razão ordenadora da sociedade e a utopia que permitiu, posteriormente, sustentar a tese da “homeostase social através do controle do seu processo”. Era um projeto ambicioso.
Ele acredita que o processo de partilha de mensagens, em si dinâmico, aleatório e complexo, se dava de maneira similar em máquinas, animais e humanos. O estudo das mensagens e facilidades de transmissão, pela matemática, poderia garantir uma homogeneização da entropia.
Há mudança paradigmática na proposta de Wiener de passagem de uma noção inicial de troca de informação para a comunicação. Para ele, uma sociedade tem uma natureza comunicacional (o ser-informação) que pode ser identificada pelos modelos de comunicação que ela utiliza (o ser -intérprete). Isso vale para sistemas mecânicos, biológicos e elétricos, tratando do que é comum entre eles. A comunicação passa de uma simples troca de mensagens entre emissor e receptor para uma proposição epistemológica que funda nas noções de informação e comunicação, estabelecendo uma nova metodologia científica.
Entretanto, deveria haver um compromisso social para guiar os avanços tecnológicos oriundos das descobertas cibernéticas. Para Wiener, somos seres livres e, como homens de bem, deveríamos usar a comunicação como meio para liberdade de expressão e troca livre de informação.
Não obstante aparente otimismo, ele temia que a humanidade pudesse ser seduzida pela inteligência das máquinas, como preludio para o fim da humanidade. A partir dessa constatação, no fim da vida alertou o público e a comunidade científica sobre os perigos das tentações científicas. Se a cibernética propiciava o avanço da genética, deveria ter uma responsabilidade moral ante a capacidade destrutiva da tecnologia.
E, de fato, constata Saturnino, que a Cibernética foi fonte de inspiração tanto para a indústria bélica como para teorias sociais. Sua influência foi fortemente notada nas conferências Macy e no conceito de sociedade de comunicação. Dado seu caráter “anárquico” constituiu tanto uma visão mecanicista do mundo como concepção orgânica da vida.
Finalizando, para Saturnino, o maior triunfo da proposta de Wiener terá sido o de tratar a comunicação como ideologia que permitisse suportar o fracasso das promessas tecnológicas predecessoras as guerras mundiais. Seria uma ideia comum que permitiria agregar conceitos díspares por meio de valores que proclamassem a diversidade e unidade do mundo.
Referências
SATURNINO, R. A retórica da ilusão: Esboços da Cibernética no rastro da Sociedade da Informação. Redes.Com, 10. 327-359. 2014. Disponível em: https://repositorio.ulisboa.pt/entities/publication/50b78ab7-a214-4f29-b08c-a5c810597001. Abstract: “O artigo destaca a importância de alguns fenômenos sociais que antecederam a entrada da informação no campo da disputa política e econômica. O objetivo é registrar como este processo preparou o terreno para a sua posterior digitalização e, consequentemente, para sua mercantilização, tornando-se num atraente campo de regulação submetido por lógicas de privatização e exploração comercial. O texto foi baseado no projeto da chamada Primeira Cibernética e os seus posteriores resíduos teóricos encontrados no rastro da produção científica das Ciências Sociais.”
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