Mostrando postagens com marcador práxis. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador práxis. Mostrar todas as postagens

sábado, 24 de janeiro de 2026

As condições materiais que tornam o entendimento possível

Quando o entendimento depende de práticas transformadoras da realidade

No primeiro texto da série[i], nossa máxima foi escrutinada por Kant, filósofo que pertenceu ao iluminismo alemão e funda um movimento que busca determinar os limites e as condições de possibilidade do conhecimento, em um contexto de conflito entre racionalismo e empirismo. Kant reformula a metafísica ao deslocar o foco do objeto para as condições do conhecer (a chamada “revolução copernicana”), e torna inevitável a necessidade de se posicionar em relação ao seu projeto crítico.

Diante dessa proposta, agora queremos ouvir Marx, mas não sem antes o opor a Kant porque Marx passa o foco do indivíduo para a luta contra as estruturas de classe, bem como por uma mudança de uma razão estática para uma história dinâmica. Por um lado, Kant está na tradição do liberalismo moderno, fundamentando a moral e o conhecimento na primazia da razão transcendental de um sujeito cujas condições de possibilidade são universais e não historicizadas. Por outro lado, Marx opõe-se ao idealismo e à análise paralisada de Kant ao introduzir o materialismo dialético, substituindo a visão de verdades fundamentais e direitos naturais pela compreensão de que a história é movida por contradições econômico-sociais concretas que precisam ser superadas[ii].

Segundo a perspectiva marxista, a nossa forma de pensar e enxergar o mundo não nasce conosco, mas é moldada pelas condições materiais e sociais em que vivemos. No centro dessa teoria está o materialismo histórico, que explica como a infraestrutura (a economia e o trabalho) sustenta a superestrutura (as leis, a religião e a cultura), moldando de forma não imediata a consciência humana em um reflexo das relações de produção. No sistema capitalista, esse processo gera uma consciência reificada (conforme postulou Lukács[iii]) e alienada, onde o indivíduo perde a visão do todo e passa a ser tratado como mercadoria, enquanto instituições sociais reforçam a ideologia da classe dominante para naturalizar as desigualdades.

Contudo, como a própria inteligência humana é fruto da transformação da natureza pelo trabalho, a filosofia e a educação crítica surgem como ferramentas essenciais para que o sujeito desperte dessa passividade, compreenda as estruturas que o cercam e busque a sua verdadeira emancipação social[iv].

Feita a contextualização, nossa máxima “Eu falo e você me ouve, mas entende?”, lida a partir de Marx, aponta menos para um problema meramente linguístico ou psicológico (como em Kant) e mais para um problema material e social da compreensão. Se em Kant a questão era transcendental, vejamos à luz do pensamento marxiano.

A compreensão não é um ato puramente individual. Para Marx, a consciência não precede a vida social; ela é produzida por ela. Em A Ideologia Alemã, ele insiste que: “Não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência.” Assim, o fato de você ouvir o que eu digo não garante compreensão, porque compreender envolve partilhar formas sociais de vida, práticas, necessidades e posições materiais semelhantes. Se eu e você ocupamos lugares diferentes nas relações de produção, a linguagem pode circular sem que o sentido efetivo se estabilize – haveria comunicação não significativa. A nossa máxima, então, revela que ouvir não basta quando há horizontes sociais distintos.

Linguagem como prática social, não como meio neutro. Sabemos que Marx não tem uma teoria sistemática da linguagem, mas lida a partir dele, a linguagem poderia ser considerada não um canal transparente de transmissão de ideias; mas uma forma de prática social. As palavras carregam marcas históricas, ideológicas e de classe. Isso implica que o mesmo enunciado pode significar coisas diferentes para sujeitos situados diferentemente; a linguagem pode reproduzir relações de dominação, inclusive no nível do “entendimento”. Assim, quando eu pergunto “mas entende?”, Marx responderia algo como: entende a partir de qual posição social? De qual interesse material?

Ideologia e falsa compreensão. Um ponto decisivo, para Marx, é que muitas vezes o problema não é falta de compreensão, mas compreensão ideologicamente mediada. Você pode entender o que foi dito de maneira invertida; você pode entender segundo categorias que naturalizam relações sociais históricas; você entender de forma a reafirmar o status quo. Nesse sentido, a nossa máxima pode ser lida como um diagnóstico crítico: eu falo, você ouve, mas o entendimento é bloqueado ou distorcido pela ideologia dominante. Assim, “não entender” não é ignorância simples, mas efeito socialmente produzido.

Entender é poder agir. Para Marx, compreensão genuína se manifesta na práxis. Não é apenas captar um conteúdo mental, mas ser capaz de se orientar e agir no mundo a partir dele. Lembremos das 11 Teses sobre Feuerbach, nas quais Marx critica o materialismo anterior por ser contemplativo e abstrato e defende um novo materialismo prático e revolucionário, cujo objetivo não é somente interpretar o mundo, mas transformá-lo.[v] Se quisermos, podemos parafrasear a famosa tese 11 postulando que não basta interpretar corretamente o que foi dito; o entendimento real aparece quando isso se traduz em prática.

Há uma transposição da tese do plano ontológico-político para o plano da linguagem e da compreensão, mas o ponto marxiano permanece o mesmo: o critério do entendimento não é apenas interpretativo, mas prático, como uma capacidade de agir de outro modo. Logo, você pode ouvir, repetir e até concordar verbalmente, porém ainda assim não entender, se nada muda no modo como você age ou se relaciona com as condições materiais envolvidas.

Resumindo, nossa máxima em tom marxiano, seria algo como “Eu falo dentro de determinadas condições sociais; você ouve dentro de outras. O que está em questão não é a audição, mas se partilhamos as condições materiais que tornam o entendimento possível.” Ou, ainda mais forte: “A comunicação falha não por deficiência cognitiva, mas por contradições sociais.”

Haverá oportunidade de contrastar essa leitura de Marx com Habermas e outros, nos próximos episódios da série.

[v] Sobre as 11 teses consultamos o DeepSeek: https://www.youtube.com/shorts/0-rbMMrD-JE. Conteúdo: Teses sobre Feuerbach

sábado, 13 de julho de 2024

Qual é a regra?

Pretende mostrar uma abordagem de como se constrói uma regra[i]

Gostaríamos de tratar da questão das regras sob um enfoque wittgensteiniano[ii], na medida em que toma uma regra como algo indeterminado. Ora, regra é “aquilo que regula, dirige, rege”[iii]. Nesse sentido, regra é uma metadefinição, pois uma regra precisa ser explicitada. Uma regra é uma generalização e, nesse sentido, praticamente impossível de atender todos os casos e sujeita a interpretação, inicialmente.

Dizer que fulano entende uma regra é dizer que fulano aplica a regra satisfatoriamente até aquele momento, mas não que ele vai sempre aplicar a regra de acordo com o que cicrano poderia tolerar. É que fulano pode ter entendido uma regra (regra específica um: RE1) de um modo RF que, nos casos aplicados até o momento, converge com o que entende cicrano, pelo modo RC. Mas nada impede que haja alguma aplicação de RE1 por uma regra RF que seja incongruente com RC.

Fica a questão de saber se RE1 pode ser igual a RF ou RC ou se RE1 é uma utopia. E isso só se dá na prática. Porque não se pode saber o que queria fulano na aplicação número 127 da regra, isto é, RF127 pode não coadunar com uma interpretação RCx de cicrano. Mas, até a aplicação RF126, RF era igual a RE1 e igual a RC (x – 1), não se podendo determinar ao certo esse x, o que inviabilizaria totalmente qualquer comunicação baseada em regras interpretadas por fulano ou cicrano. Se esse é o caso, essa possibilidade deve ser rejeitada.

Antes de mais nada, por que isso ocorre? Sem dúvida, porque cada palavra ou sentença que compõe a regra pode ter mais de um significado. Se o significado não está atrelado a algo mostrável, que se possa dizer: “o significado dessa regra é aquilo”, tem-se esse problema. Uma palavra não tem ligação lógica com seu significado[iv].

Isso posto, a única garantia é a linguagem comum, partilhada, e não um suposto entendimento de regras, ainda mais regras ancoradas em um pensamento interno, em uma linguagem privada. Pois por ela, nem mesmo o próprio sujeito teria um critério que determinasse o uso da regra, já que uma identidade interna seria duvidosa. Como ter certeza de que a dor de barriga que sinto agora é exatamente igual à que senti semana passada? Cai por terra o papel normativo de uma regra e condena-se o uso de qualquer linguagem, mas ainda assim continuamos nos comunicando[v].

Estamos no campo do suposto paradoxo do cético, mas ele não abandona a prática porque sabe que a linguagem é algo que funciona. Antes de haver fatos que legitimem as intenções há condições para uso da linguagem, ou seja, mantém-se o problema cético e soluciona-se a questão de outra forma[vi]. Se não há condição de verdade para a regra (ceticismo), não há um referencial interno (estado psicológico, comportamento), há o referencial da comunidade. A via de normatividade da regra passa para o uso público da linguagem, quando a regra é usada reiterada vezes em um acordo, no jogo de linguagem e agindo em acordo com a regra. Assim o julgamento de aderência sai do privado para o público, vai para um padrão de uso[vii].

Mas o fato de eu não saber se a dor que sinto é a mesma faz com que possivelmente eu não tenha nenhum tipo de parâmetro de como proceder. Mas temos porque sabemos que uma dor em determinada região até uma escala presumivelmente suportável irá passar ou tomamos o remédio “X” que já tomamos outra vez para sua cura. A causa específica fica por conta do médico. Ainda assim, não há critério garantidor, a não ser experiências passadas que se valem da memória.

Aqui surge um ponto que Nara traz da análise de Kripke que é fundamental: concluímos que uma regra privada não tem critério porque ele seria um critério de si mesmo e, nesse caso, sempre aderente, mas não poderia ocorrer o mesmo com uma regra pública? A questão cética volta porque não haveria critérios finitos para estabelecimento da regra e ela poderia ser interpretada de diversas formas. O problema é que queremos justificar o uso de uma regra pelo próprio uso da regra. Mas é exatamente porque uma regra não é algo separado e sim dependente do uso que se faz necessário recorrer ao acordo público.

Fica a questão de se uma regra deve ter um referencial, do ponto de vista cético, ou se basta que seja algo do uso prático, contingente.

Entretanto, o ponto de vista de Wittgenstein não é o de aderir a teses fundantes, mas mostrar que a linguagem é um jogo e que requer treino para o entendimento. Não se comprova algo de maneira irredutível, mas dependemos de testes recorrentes e situações que tendam para um uso comum e esse uso é a regra, dentro de cada contexto. Mesmo a palavra regra pode ter um uso diferente nos vários jogos de linguagem, cabendo explicitação do seu significado em cada um deles. Regra, então, não é um conceito, já que não pode ter um limite estabelecido, mas uma função normativa naquele jogo em que ela se caracteriza, conforme Nara. E que permite justificar o uso de determinadas palavras em um jogo, recorrendo a frequência de uso e generalização. E essa justificação é contingente, porém, uma vez estabelecida a regra, não haverá margem para interpretação.



[i] Seguimos na primeira leitura de: FIGUEIREDO, N. M. Estudo sobre regras e linguagem privada. A divergência de interpretações sobre a noção de regra nas Investigações Filosóficas. 2009. Dissertação FFLCH/USP.

[ii] Kripkenstein.

[iii] Oxford Languages

[iv] Nara, pg. 49.

[v] Idem, pg. 51

[vi] Conforme Nara, sobre Kripke, não que ele faça uma exegese, mas comentários.

[vii] Interessante a colocação de Nara de quando Wittgenstein nega a linguagem privada ele nega o uso de seguir uma regra privadamente. 

domingo, 19 de setembro de 2021

Pedagogia do Oprimido - Prefácio #pf100

 Traz ideias principais de Paulo Freire a partir do prefácio de Ernani Maria Fiori[1]

Paulo Freire traz a dialética da liberdade, aquela que liberta oprimido e opressor, mas originária do oprimido, já que é na consciência dele que reside a verdade do opressor. Para Freire, a alfabetização ocorre pelo processo histórico, pelo biografar-se ou existenciar-se. A pedagogia, então, se aproxima da antropologia, pois que mostra a ambiguidade da condição humana e que deve ser vencida pela superação libertadora da consciência humana.

Porém, as técnicas de alfabetização de Paulo Freire não visam um método eficiente, ao contrário, há humanismo na base para que possa haver conscientização. E são as palavras que permitem o engajamento e colocam o alfabetizando em situação existencial pelo qual ocorre um processo de descodificação, ou seja, do vivido para o objetivo, da subjetividade para a objetividade. Ao objetivar seu mundo, o alfabetizando se vê em seu círculo de cultura e pode, junto com seus companheiros, procurar pela reciprocidade das consciências em um processo facilitado pelo professor que deve criar as condições para que ele ocorra. Da codificação das situações existenciais à descodificação tem-se um fundo onde se perpassa o contexto.

É a palavra que objetiva o espírito, mas que também escreve o mundo de cada um em um processo nada abstrato de aprendizado em que se testemunha a história indo além da alfabetização. É essa a missão do homem que se assume responsavelmente pela palavra: o homem se faz homem. Ele toma a forma humana, pois quando vive não se vê, mas ao observar como vive pode enfrentar a sua situação. Ao se distanciar das coisas, as fazem presentes. É o conhecido processo de hominização em que o homem não se naturaliza, mas humaniza o mundo.

A consciência que se faz intencional é prenhe de objetos que se tornam problemas que devem ser superados quando se reflete sobre eles. E é por meio dessa dialética entre o mundo objetificado e a consciência subjetiva que aparece a práxis, pela retomada reflexiva de seu próprio processo histórico. Importante notar como Freire trata da fenomenologia de consciências que primordialmente se comunicam, pois são comunicantes e não mônadas isoladas que negam o próprio homem.

São consciências que se lançam no mundo intersubjetivamente para, com ele, formarem uma história que será de uma prática que, se humana e humanizadora, é prática de liberdade. Tal práxis é de colaboração quando, junto com os outros, é possível transformar o mundo. A consciência livre leva do processo de hominização para a humanização, para a superação das contradições de nossas finitudes e, como método pedagógico não é de ensino, mas de aprendizagem. Conforme Ernani: “a pedagogia aceita a sugestão da antropologia: impõe-se pensar e viver a educação como prática de liberdade”.

O processo de alfabetização não é de cópia e repetição, mas cada um cria sua palavra e a cultura letrada conscientiza a cultura, a palavra instaura o mundo do homem. E ela ocorre, conforme já dito, como diálogo, levando à construção de um mundo comum. Os alfabetizandos partem de poucas palavras que tem poder criador pois geram o seu mundo e, mais do que isso, pela ação, o transforma.

Por fim, não se pode negar que o método de Paulo Freire é de conscientização e politização e não pretende afastar a educação da política. Isso porque, quando as contradições se conscientizem, elas se tornam insuportáveis e não se pode acomodar: é preciso ir adiante, se libertar. Ainda que dentro de um regime de dominação de consciências que deve ser apreendido pelo oprimido em sua pedagogia.


[i] Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire - 78 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021. São recortes e fragmentos para marcar pontos principais da argumentação e servir de guia.