terça-feira, 15 de setembro de 2026

Construindo sistemas sociotécnicos

Um primeiro passo para a definição de uma arquitetura híbrida

Trata-se de um embrião de pesquisa baseado em investigações ainda exploratórias sobre filosofia da técnica e da tecnologia colocando a relação entre o humano e o não humano no centro e que nos conduz na análise de objetos e mediações sociotécnicas.

Ainda em uma primeira leitura de Jamais Fomos Modernos (JFM), de Bruno Latour, fomos despertos para a questão da simetria. O ponto que nos toca é o exemplo da “disputa” entre Hobbes, que se atém à contenda política e Boyle, que circunscreve querelas científicas em torno do laboratório. Esse episódio caracteriza o que ele chama de Constituição Moderna e, por conseguinte, a necessidade de uma abordagem simétrica para descrevê-la.

Na base da argumentação de Latour nós encontramos dois modelos de representação: a científica, que privilegia o experimento visando excluir qualquer contaminação política e a política, disposta a rejeitar que um fato natural tenha qualquer fundamento de autoridade. Então, essa dupla exclusão produz, seguindo a cartilha da Constituição Moderna, por um lado, a natureza representada pela ciência e, por outro, a sociedade representada pela política.

Isto posto, precisamos ressaltar que esta é uma operação que separa humanos e não humanos por meio de um processo de purificação que separa natureza e sociedade. E, quando somos tocados por JFM, e pela aplicação dos seus conceitos na construção de sistemas sociotécnicos, a separação é o que a arquitetura que estamos formulando deveria justamente colocar em questão. Nós podemos denominá-la, provisoriamente, arquitetura híbrida, justamente porque a própria modernidade produz continuamente misturas entre natureza e sociedade, algo que a purificação procura negar.

No JFM, o episódio envolvendo Boyle e Hobbes é retomado por Latour a partir da leitura de Shapin e Schaffer. Porém, embora S&S adotem uma estratégia simétrica ao reconstruir a controvérsia entre Hobbes e Boyle, Latour desloca essa análise por meio da Constituição Moderna. Por outro lado, não se objeta, o senso comum parte da suposição de que a ciência tem acesso privileged ao real (sucesso) enquanto a política é mera convenção (fracasso). Ora, mas é justamente essa assimetria que Latour questiona, por meio da análise simétrica, ao não atribuir antecipadamente à ciência uma autoridade absoluta nem à sociedade um papel explicativo secundário.

Assim, de posse desse ponto de vista da simetria, podemos formular que a construção de uma arquitetura híbrida não deve somente identificar humanos e não humanos como partícipes do sistema, mas descrever como diferentes entidades assumem determinados papéis, produzem efeitos e estabelecem associações sociotécnicas. Sob essa ótica, cliente e fornecedor não são atores simples; eles são coletivos que precisam ser descritos antes de serem tratados como unidades arquiteturais. Não rotulamos de antemão o cliente como simplesmente “quem compra” e nem o fornecedor como aquele “quem vende ou entrega”. Além disso, há o contexto (leis, instituições, dinheiro, infraestrutura...) que participa da constituição do sistema. Como background, no sentido de Searle, fazendo uma analogia.

O sistema sociotécnico parte, portanto, de uma memória técnica já estabelecida (memória terciária), exteriorizada nas ferramentas, nos dispositivos, nas instituições jurídicas, financeiras, científicas e por aí vai. O cliente tem a sua rede de interesses no sistema, ele classifica o que para ele é relevante, não oportunisticamente, mas medindo a aquisição em termos financeiros, não se pode negar. Porém, ele tem um ecossistema próprio que pode apresentar diferentes graus de maturidade tecnológica.

Podemos chamar o ecossistema do cliente de cadeia de valor. O conceito, associado a Michael Porter, descreve as atividades de uma organização que contribuem para a criação de valor.

Há situações em que uma ferramenta tecnologicamente menos avançada, mas mais estável, atende melhor às necessidades do sistema. Há setores com diferentes níveis de maturidade tecnológica, diferentes capacidades de investimento e diferentes graus de familiaridade com determinada tecnologia. Há especialistas que conhecem profundamente o domínio de negócio e outros que dominam a tecnologia. Enfim, é preciso bater à porta antes de entrar: compreender o contexto no qual a arquitetura será construída.

Uma vez que temos esse contexto (que pode fazer parte da sociedade) e o coletivo que nomeamos cliente (que pode até ser o “usuário final”, e aí estamos falando de B2C e não de nosso foco em B2B, ou seja, de uma análise que envolve a complexidade organizacional de parte a parte), há o fabricante, fornecedor, consultor ou distribuidor de determinado produto, serviço ou solução. Eles também têm seu ecossistema com sua relevância, composto por diversas áreas que têm como foco a venda, mas entregam tecnologia, serviços técnicos.

Cabe notar que esse recorte tangencia o conceito de cadeia de suprimentos, mas nossa preocupação é outra. Já que não pretendemos entrar no campo da administração empresarial, da logística ou da engenharia de produção. Nossa análise é mais abstrata, com foco em TI e na busca de um padrão, de um modelo de referência que possa orientar a definição de arquiteturas híbridas para sistemas sociotécnicos.

Primeira representação do coletivo sociotécnico em uma arquitetura híbrida
Figura 1: Primeira representação do coletivo sociotécnico

A partir dessas considerações, uma arquitetura híbrida deveria partir de uma perspectiva de antropologia simétrica (que, no JFM, trata da mesma forma modernos e não-modernos, humanos e não-humanos). Essa arquitetura deve ser guiada por concepções capazes de tornar visíveis as mediações (conceito também explorado em tópicos como a precariedade, com base em André Lemos) e que questionem a posição do ser humano como centro privilegiado da explicação do sistema.

Para finalizar, entendemos que esse pode ser um primeiro pilar para o desenvolvimento de uma arquitetura híbrida para sistemas sociotécnicos. Sabemos que existem diferentes abordagens, frameworks e linguagens para arquiteturas empresariais, como TOGAF, Zachman e ArchiMate, além de abordagens e modelos de referência produzidos por organizações como o Gartner. Contudo, nosso direcionamento é específico e ainda exploratório, embora possa encontrar pontos de convergência com essas abordagens.

Referências

LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos: ensaio de antropologia simétrica. Tradução de Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1994.

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