Uma primeira passagem pela memória terciária[i]
Bluemink começa por asserir que, para
Stiegler, enquanto seres humanos somos definidos pela nossa própria
tecnicidade, já que ele considera que nossa consciência e essência são
técnicas. Assim, para lançar luz no nosso presente, ele busca entender nossa
origem humana por um processo de exteriorização em ferramentas e formas de
matéria inorgânica organizada.
Essa leitura, continua Bluemink, está
apoiada em Leroi-Gourhan e sua argumentação de que as ferramentas preservam
traços de nossa espécie como uma memória coletiva e impessoal que nos permite
conhecer o passado. Ela compõe um terceiro tipo de memória, que Stiegler
classifica como epifilogenética, sendo a primeira a memória individual
de nosso cérebro (epigenética) e a segunda a memória biológica evolutiva
(filogenética). Entretanto, se não vivenciamos esse passado, pois ele é
transmitido pela cultura, a epifilogênese constitui a memória que usamos para
projetar nosso futuro ampliando a concepção husserliana da memória ao introduzir a dimensão
técnica da retenção.
Chegamos então no ponto alto da argumentação de Bluemink, quando ele compara a abordagem de Stiegler com a de Husserl sobre a concepção da memória. É conhecido o exemplo que Husserl usa da melodia para mostrar que há um tipo de retenção primária, da percepção, que a consciência usa para constituir as notas enquanto as escutamos no fluxo temporal. Ocorre que, na visão de Husserl, quando nos recordamos da melodia posteriormente, fazemos uso de uma memória secundária, uma forma de imaginação, derivada da experiência. E é nesse ponto que Stiegler discorda já que ele afirma que a retenção secundária participa da constituição da experiência ao orientar aquilo que é retido na retenção primária.
Bluemink nos lembra que o ponto principal da
argumentação de Stiegler é que podemos reescutar a mesma melodia inúmeras vezes graças à retenção terciária,
que conserva tecnicamente o objeto temporal a partir de um
dispositivo de gravação, seja ele analógico ou digital. Qual seja, pela técnica que permite a repetição. A retenção primária, nesse
sentido, depende da secundária e terciária, ampliando os limites da fenomenologia husserliana e apontando para uma memória técnica externa que nos precede historicamente e nos entrega o mundo temporalmente.
Então o nosso autor acrescenta que, nas
sociedades modernas, nos deparamos com objetos temporais industriais,
produzidos em massa, por exemplo, pela indústria midiática e que atingem milhares
de consciências simultaneamente, estruturando formas coletivas de atenção, memória e desejo. É pelas retenções
terciárias que o capitalismo foi alçado a uma época hiper industrial e
consumista na qual os objetos estão na base de nossos desejos e nossa atenção.
É por meio do conceito de memória
terciária que Stiegler mostrará, em seguida, que a materialização da experiência,
por meio da técnica, “constitui uma espacialização do tempo da consciência para
além da consciência e, portanto, constitui um inconsciente, senão o próprio
inconsciente”. A sua crítica será política, no sentido de que há influência dos
suportes externos de consciência sobre a consciência humana individual tornando-se
um obstáculo ao processo de individuação da consciência.
Bluemink finaliza com o diagnóstico de Stiegler de que deveríamos nos coletivizarmos para projetarmos um futuro comum a partir da consciência das memórias terciárias de nosso passado comum[ii]. Ocorre que esse passado não foi de fato vivido por nenhum 'Nós' originário; é precisamente pelos processos de transindividuação que esse 'Nós' se constitui a partir de heranças técnicas compartilhadas. O processo de unificação teria atingido seu ápice nos séculos XX e XXI com as mídias técnicas e redes digitais que industrializaram os indivíduos. E o “Nós” é uma questão da economia política em seu todo. Isso mostra que Stiegler compreende a politização do ser humano por meio da técnica como adoção do Nós coletivo, colocando a memória terciária no centro da crítica da economia política.
[i] Notas sobre https://www.3ammagazine.com/3am/stieglers-memory-tertiary-retention-and-temporal-objects/
Stiegler’s Memory: Tertiary Retention and Temporal Objects. Matt Bluemink é um filósofo e
escritor londrino. Seus principais interesses são as conexões entre filosofia,
literatura, tecnologia e cultura. Ele é o fundador e editor
de bluelabyrinths.com.
[ii] Segundo Bluemink, a partir do capítulo “Eu e nós” de Técnica e Tempo 3, de Stiegler. As argumentações são de Técnica e Tempo 1, 2 e 3 assim como Por uma Nova Crítica da Economia Política.
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