quinta-feira, 18 de junho de 2026

Entre aceleração e ressonância

Trata dos desafios de uma vida moderna acelerada[i]

Modernização. Rosa começa dizendo que a modernização se resuma a acelerar a vida, por exemplo, no transporte sempre há mais pessoas se movimentando simultaneamente, e não só, também bens e matéria-prima, desde o transporte sobre trilhos até os aviões. E, agora, dados e informação.

Aceleração. Por outro lado, tendemos a temer que as coisas possam ficar rápidas demais e que não tenhamos condições de acompanhar[ii]. Então ele define o que é viver em uma nova sociedade, quer dizer, a partir de uma mudança sistemática de como estruturamos nossas vidas: precisamos acelerar para atingir estabilidade institucional, o que leva à aceleração social. Temos como meta um futuro no qual precisamos acelerar e inovar para permanecer onde estamos.

Dessincronização. O diagnóstico do autor é que isso leva a sérios problemas, já que não podemos acelerar o mundo todo porque há grupos sociais que não podem ou não querem acelerar gerando dessincronização entre grupos. Ele cita que a crise ecológica é uma crise de dessincronização e a política, já que é um processo lento demais para o mundo atual. Nossa psique teria dificuldades de acompanhar tal velocidade. Isso posto, que futuro nos espera?

Estabilização dinâmica. Entrando no detalhe, o sociólogo nos provoca se a modernidade ainda é um conceito útil[iii] haja vista sua multiplicidade, preferindo o termo moderno cujo modelo de estabilização e reprodução estrutural é dinâmico, qual seja, acelerar para manter, conforme sublinhado acima. Desde o século XVIII, a fórmula capitalista é que dinheiro só investido para ganhar mais dinheiro – o que ele classifica como algo que não é imoral ou injusto. Isso é verdade para empresas e economias nacionais; é necessário crescer para manter a estrutura institucional (empregos, impostos etc.). Ele cita o caso grego, cuja economia não cresceu em dez anos quebrando a previdência e uma grande crise orçamentária e até política (ele lembra o caso da vizinha Argentina, também). Se não há crescimento constante, há desestabilização institucional.

Tempo é dinheiro. Ocorre que o crescimento depende de aceleração e inovação para criar produtos e processos produtivos, afinal, “time is money”. Segundo ele, investimos tempo da mesma forma que investimos dinheiro. Ele lembra de Pierre Bourdieu e acrescenta que dinheiro também é um capital cultural, mas também precisamos ler, escrever e cuidar de nossa vida pessoal, do que se segue que tempo é capital social, por outro lado. Então, o que fazer nesta noite? Nessa reflexão, podemos lembrar que tempo é capital corporal e precisamos ir para a academia ou ao menos meditar para reduzir o estresse mental. De novo, é a lógica do aumento, no caso de nosso capital para termos recursos suficientes para mantermos nossas posições.

Promessa de crescimento. O poder político, continua Rosa, também se estabiliza dinamicamente por meios de eleições a cada quatro anos que só são vencidas quando se promete algum tipo de crescimento: mais riquezas, mais indústrias, mais universidades. Até na ciência, onde mais pesquisa significa mais conhecimento, o que ele classifica como algo incomum culturalmente, já que o conhecimento pode ser visto como um tipo de tesouro, como construir uma casa ou fabricar roupas. Ele lembra do conhecimento ancestral dos rituais que passa de gerações, comparando com o conhecimento da modernidade que se centra na ciência. O cientista deve prometer criar um conhecimento novo, provar que pode produzir uma novidade se houver dinheiro a ser investido.

Vida boa. Devemos sempre ultrapassar os limites, por mais que e u tenha corrido ano passado, esse ano devo correr mais! [para não perder a competição].[iv] E isso vale individual e coletivamente, conforme Rosa. Se o Brasil “precisa” estar entre as dez maiores economias do mundo, também precisamos ter um bom emprego e uma boa família, ainda que estressado. E ano que vem será pior. E não para melhorar, mas para permanecer. Internalizamos essa lógica por meio do triplo A: Availability, Attainability, Accessibility (Disponibilidade, Atingibilidade, Acessibilidade). Mas é o dinheiro que torna o mundo disponível (e acessível e alcançável...). Com ele podemos viajar, comprar coisas. E por que morar em São Paulo e não em Manaus? Queremos ir a museus, teatros, ter o mundo ao alcance, mas com dinheiro e esse é nosso conceito de vida boa. A jaula de ferro da modernidade, conceito de Weber, refere-se exatamente ao mote de crescer e inovar para permanecermos onde estamos[v].

Lógica do progresso. O problema, na visão dele, é que não é possível aumentar o tempo, o dia tem 24 horas. E ele traz um dado surpreendente: há cerca de 10 mil objetos em um lar de classe média contra 400 em 1900, mostrando a lógica do crescimento[vi]. Temos tanto a fazer e, como o tempo se torna um recurso muito escasso, há necessidade de acelerar transporte, comunicação... O mundo muda muito rápido e precisamos correr e realizar muitas tarefas simultaneamente. Essa lógica exige mais recursos e mais energia política, particularmente para que se eduque os jovens mais rapidamente exigindo mais energia física e política. No século XVIII, a lógica do progresso era vista como algo que traria uma vida boa superando escassez de tempo e pobreza por meio da tecnologia[vii]. Em nosso tempo, no século XXI, já não há mais essa esperança, ao contrário, não há esperança de um grande futuro e não se trabalha para uma vida melhor, mas para não termos vida pior.

Limites. Ocorre que nem tudo pode acelerar ao mesmo tempo. Vemos que essa pressão põe em perigo os povos indígenas e mesmo diferenciação entre classes porque é preciso agilidade e flexibilidade para seguir, conforme citação de Zygmunt Bauman[viii]. Rosa pontua quatro limites sistêmicos nessa dinâmica: primeiro, o limite ecológico, já que o meio ambiente não está preparado para esse ritmo, haja vista a poluição e o aquecimento global – há dessincronização entre a natureza e o nosso tempo. A democracia, conforme dito, também está em risco, já que precisa de tempo para diálogo e deliberação, as vozes precisam “ressoar” para acomodar as visões. Na economia, há dessincronização entre os mercados financeiros que operam por meio de algoritmos em frações de segundos enquanto a economia real consome tempo, por exemplo, para construir um carro, escrever um livro e para consumir essas coisas[ix].  

Ressonância. Por fim, precisamos repensar o que é uma vida boa já que a lógica de crescimento tem gerado doenças psíquicas como o burnout (esgotamento), isto é, por mais capital social, cultura e físico que se tenha, sentimo-nos desconectados e alienados – uma relação sem relação, segundo Rosa. Não há tempo para nos apropriarmos do mundo e entrar em um modo de ressonância onde se escuta e se responde.

O que faremos? Então, ele conclui que é necessário sair dessa lógica da estabilização dinâmica rumo a uma estabilização adaptativa, não estática. Precisamos, muitas vezes, acelerar e inovar para superar os problemas, porém visando mudar o status quo. Conforme seus exemplos, há lugares em que as pessoas passam fome e ali é necessário crescer, ou mesmo levar internet para regiões distantes. É preciso inovar em tecnologias verdes ou em algum medicamente novo para atender necessidades urgentes e não crescer e acelerar indistintamente. Não é exatamente um decrescimento, ele diz, mas sair da lógica de estabilização dinâmica por meio da ressonância, ouvindo e respondendo[x], como o projeto de Jena que ele cita e propõe mudanças práticas.



[i] Fichamento de https://youtu.be/Zsf_Wg1ll4A. Fomos sensibilizados por Michelle Prazeres. “'Tá exausto? Imagina no segundo semestre.” Vamos continuar querendo mais?… - Veja mais em https://www.uol.com.br/vivabem/colunas/michelle-prazeres/2026/06/07/ta-exausto-imagina-no-segundo-semestre-vamos-continuar-querendo-mais.htm?cmpid=copiaecola

[ii] Rosa se refere ao mundo fugidio de Anthony Giddens. Também Paul Virilio, “o mundo parece bater em nós como um acidente”. Anthony Giddens é um sociólogo britânico, renomado por sua Teoria da estruturação. Considerado por muitos como o mais importante filósofo social inglês contemporâneo, figura de proa do novo trabalhismo britânico e teórico pioneiro da Terceira via, tem mais de vinte livros publicados ao longo de duas décadas (Wikipédia). Paul Virilio foi um filósofo, urbanista francês, arquiteto, polemista, pesquisador e autor de vários livros sobre as tecnologias da comunicação (Wikipédia). Ver: https://www.youtube.com/watch?v=OAPn7pBP0L8.

[iii] Há muitas, conforme Shmuel Eisenstadt, sociólogo israelense, cuja pesquisa contribuiu consideravelmente para a compreensão de que a tendência moderna de uma interpretação eurocêntrica do programa cultural desenvolvido no Ocidente é um modelo de desenvolvimento natural visto em todas as sociedades ... o modelo europeu é apenas um: foi apenas o mais antigo. Começou a tendência. Mas as reações sociais, seja nos EUA, Canadá, Japão ou no Sudeste Asiático ocorreram com reagentes culturais completamente diferentes (Wikipédia).

[iv] Lembremos Michelle, nota [i].

[v] https://www.youtube.com/watch?v=0oUduAJ_5Wk – termo usado por Weber na Ética Protestante e Espírito do Capitalismo, alegoria da essência do sistema capitalista como sistema total (nos EUA associada a burocracia). Vida dura como a dureza do aço, pela lógica de ferro do sistema que subtrai a liberdade do indivíduo, escravidão sem mestre. Sistema impessoal. Weber é um pessimista e não vê saída dessa jaula, devemos nos conformar a ele – ao modo de Nietzsche, como heróis. Merleau-Ponty trata Georg Lukács no contexto de um marxismo weberiano – o conceito de retificação remodelado que inspira a Escola de Frankfurt no sentido da jaula de aço.

[vi] Assim como, de acordo com Kenneth J. Gergen, o número de pessoas que encontramos ou vemos em um dia é maior do que uma pessoa encontrava em toda a sua vida na Idade Média. Kenneth J. Gergen é um psicólogo social americano e professor emérito do Swarthmore College. Ele obteve seu Bacharelado em Artes pela Universidade de Yale e seu PhD pela Universidade de Duke. Wikipedia (inglês).

[vii] Podemos lembrar que Gilbert Simondon descreve o século XVIII como o nível elementar do desenvolvimento técnico, uma fase caracterizada por um profundo otimismo. Nesse período o progresso das técnicas e invenções ocorria de forma a não ameaçar os hábitos tradicionais da sociedade, permitindo uma convivência harmoniosa entre a cultura e o aparato técnico emergente. Essa era se distingue dos séculos XIX e XX, nos quais o surgimento das máquinas termodinâmicas e da informática passou a gerar angústia e alienação devido à falta de compreensão da relação entre o ser humano e o objeto técnico. (https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/05/para-uma-educacao-tecnica.html).

[viii] O conceito de "modernidade líquida" foi introduzido pelo sociólogo Zygmunt Bauman para descrever a condição contemporânea da sociedade globalizada. Esse conceito é uma metáfora para capturar a natureza fluida, volátil e dinâmica das relações sociais, instituições e identidades no mundo moderno. Bauman contrasta a "modernidade líquida" com a "modernidade sólida" do passado, onde as estruturas sociais, econômicas e políticas eram mais estáveis e previsíveis. (https://querobolsa.com.br/enem/sociologia/modernidade-liquida)

[ix] Consumimos um livro não quando compramos, mas quando o lemos, pontua sarcasticamente Rosa. Lembremos de “BIBLIOTECA” (https://www.youtube.com/watch?v=k9CbDcOT1e8).

[x] Eu falo e você me ouve, mas entende? (https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/search/label/efevmo-me).

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