Grande parte do tempo em que passamos
trabalhando, nós lidamos com documentos. Nós consumimos e produzimos
documentos. Eles são, nesse sentido, um meio de transmissão de informação, de conhecimento
e de necessidades. Ocorre que, ao mesmo, eles são limitadores de pensamentos humanos,
porque eles são ferramentas que não são capazes de abarcar todo o sentido que
deveria ser comunicado.
Quando produzimos documentos, nós temos
que nos adaptar a eles. Por exemplo, para usar o Word, ferramenta que utilizo
agora, é preciso escolher uma fonte, espaçamento, tamanho de letra. Por aí já
vemos que requer conhecimento técnico e que há uma forma de fazer e de
comunicar. Escrever uma frase ou palavra, em negrito ou itálico, é algo determinado
pelo aplicativo, que podemos ou não usar, mas que é determinado pelo meio, por
esse meio técnico.
O mais interessante, todavia, é o processo
de criação, de geração do documento. Ele parte de uma ideia, de uma concepção
nossa que pode ser abrupta ou solicitada por alguém, uma ordem, uma tarefa que
nos delegaram. Enfim, precisamos criar o documento e começamos.
Tomemos o caso de um manual de instruções:
para criá-lo, muitas vezes já precisamos consultar outros manuais e as
informações disponíveis em documentos e outros artefatos. Na base da empreitada,
já partimos de uma base técnica, de uma memória e ela nos norteia, já delimita
o “processo criativo”.
Mas, o mais interessante é que, na medida
em que começamos a colocar as informações no documento, parece que é ele que
nos guia, é ele que passa a comandar o processo. Em um primeiro momento, nós
materializamos uma ideia, a concepção inicial e, a partir daí, o documento
começa a nos devolver necessidades: melhorar uma formatação, adicionar uma
imagem, uma tabela, explicar determinado ponto.
A situação se inverte, e de forma restritiva:
é dentro das possibilidades da ferramenta. Não obstante, há esse retorno, um
feedback que recebemos daquela primeira impressão do documento e ela que passa
a nos conduzir em um processo cíclico, até que: eis o documento pronto!
Um ponto que precisa ficar registrado, no
processo criativo, é qual ferramenta usar em determinado momento. Se é necessário
usar uma tabela ou planilha, ficamos limitado a esse formato e precisamos
comunicar uma ideia em uma tabela. Mas, é melhor uma tabela ou um texto
corrido? Vemos que há uma interação entre humano e ferramenta em que um e outro, ambos se adaptam para atingir um objetivo que depende dos dois.
Agreguemos que, em tempos de inteligência artificial
(IA), muitas vezes é a máquina que está no comando, definitivamente. Frequentemente,
usando uma IA que “conversa”, nós jogamos uma ideia inicial e ela nos guia. Somos,
sobremaneira, determinados pelo não-humano nos processos atuais.
Isso posto, o que gostaríamos de enfatizar
é não só essa relação, não-humano => humano => não-humano e etecetera.
Mas, também, que ela acontece inserida em uma base técnica que foi construída desde
o surgimento do primeiro homem. Essa base técnica, muitas das vezes, não nos é
dada explicitamente, é um meio “invisível”, mas que existe de uma reciprocidade
entre o humano e o artificial que atravessa os tempos.
Então, uma mera atividade de criar um
documento, é uma atividade altamente tecnológica e que configura a relação
homem – artefato primordialmente como uma relação em que muitas vezes somos comandados
pelo artefato, ainda que ele tenha sido criado, também. Mas o humano está em
simbiose com o natural (as matérias-primas, como fonte) e criando coisas que se
cristalizam na memória técnica em nossa jornada humana na terra.
Pós-escrito. Esse texto livre passa por Stiegler e a memória terciária, passa por Latour e as redes entre humanos e não humanos, passa por Haraway e a simbiose com a máquinas, passa por Simondon, principalmente, pela reflexão sobre a gênese, passa por Wiener e o feedback, passa por Nicolelis e a artificialidade pautada na humanidade. Procura fazer um exercício de aproximação de uma base conceitual nascente.
PS2: alucinações: https://bit.ly/4g197Om.
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