Começamos a nos aventurar pela “Comunicação
Precária”, livro do professor André Lemos do Laboratório 404[i]. O número 404 remete ao famoso
e comum erro do protocolo de internet que ocorre quando uma aplicação não faz o
que supostamente deveria fazer, mas acaba não fazendo nada e devolve uma página
de erro.
Acontece que é exatamente extrapolando
essa condição, que o professor propõe que a tecnologia (ou cultura digital) é
errática, primordialmente. Mas não só ela, o mundo é precário e errático e
nossa própria condição humana e os objetos. Nesse sentido, temos uma ontologia
do erro, mas também uma epistemologia, isto é, admitindo que a tecnologia é
precária e aceitando essa condição, podemos estudá-la sobre essa ótica.
Lembremos que Quine propõe esse tipo de abordagem
para uma teoria, um pouco ao contrário, mas no mesmo limite de análise:
“Já o naturalismo
nega que haja uma filosofia primeira que não seja experimental e fora da
ciência, pois é essa última que diz o que é que existe (ontologia) e como
sabemos o que existe (epistemologia), de como conhecemos o que existe”[ii]
Lembremos também que epistemologia e ontologia
se imbricam em Simondon, já que para, ele “a inovação tecnológica é um lugar
privilegiado no qual o pensamento se materializa concretamente”[iii], ou seja, pela
tecnologia pensamento e matéria se imbricam no processo de individuação.
Podemos dizer que a ideia deixa de ser mental e se torna ferramenta.
Lemos passará por Simondon, Heidegger,
Latour e tantos outros, aguardemos as cenas dos próximos capítulos. Não
obstante, Lemos cita Haraway: fazer com o erro. Isso significa que o objetivo da
tecnologia é se fazer invisível, isto é, fugir do erro tentando trazer uma situação
de normalidade quando, na realidade, é o oposto. Os objetos estão sempre
falhando e, por consequência, nos irritando e nós, sempre esperando uma nova
tecnologia promissora que resolverá todos os nossos problemas.
Ainda estamos no início, mas já passeamos
por alguma genealogia do erro e da precariedade, e já vimos que o erro permeia
a história da filosofia, desde o mito de Prometeu, que nos reconheceu
limitados, até os nossos dias, com exemplos concretos que o professor traz. E é
pela análise de problemas da cultura digital que emergem causas políticas, econômicas
e sociais. Quer dizer, quando há um erro e um impacto social, o modo como cada país
ou sociedade lida com essa situação mostra, de fato, o que é aquele lugar, desmascara-o.
Por fim, e ainda não terminamos o primeiro
capítulo, Lemos trata nele da comunicação precária. Ora, o entendimento é
precário, ele mostra, e isso nos remete a efevmo-me[iv]. Lemos é especialista em
comunicação e sabe, e enfatiza, o caráter precário do entendimento dentro desse
sistema. A despeito do não entendimento, vivemos. Mas esse serão temas para explorar,
não sem uma breve citação à página 25: “O entendimento nunca é uma simples
transferência de um enunciado para o receptor. A precariedade da comunicação refere-se
à sua própria maneira de ser. A incapacidade de entendimento não impede que
isso aconteça”.
A incapacidade de entendimento não impede
que continuemos a explorar essa magnifica obra, tão sintomática de nossos
tempos.
[i] LEMOS, André. A
comunicação precária: erros, falhas e perturbações na cultura digital. Rio
de Janeiro: Edições 70 / Alta Books, 2026.
[ii] Em https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2023/11/o-empirismo-sem-dogmas-de-quine.html#comment-form.
[iv] Estante: https://bit.ly/efevmo-me-blog. EFEVMO-ME
é o acrônimo que dá nome a nossa série de reflexões filosóficas (aqui e no YT)
baseada na máxima: “Eu falo e você me ouve, mas entende?”. O termo é formado
pelas iniciais dessa pergunta central, que guia uma investigação sobre o abismo
existente entre a recepção física de sons e a compreensão real do sentido na
comunicação humana. Como pontos principais já abordados no projeto, falemos de:
1.
Origem
e Motivação: A
questão surgiu de nossas inquietações práticas, motivadas por problemas
comunicacionais ocorridos na última década em âmbitos pessoais e profissionais,
além da observação da polarização política e dos efeitos da virtualidade nas
relações humanas.
2.
Objetivo
Filosófico: A
série busca isolar conceitualmente o entendimento como um problema filosófico,
evitando reduzi-lo a simples ignorância ou má-fé. O projeto investiga se o
entendimento é um ato individual, um processo socialmente mediado ou um
conjunto de regras linguísticas.
3.
Método
de Investigação:
Cada entrada da série submete a máxima ao escrutínio de um filósofo diferente
(como Kant, Marx, Descartes, Aristóteles, Carnap, Quine, Habermas e Sellars,
até o momento) para analisar como seus sistemas de pensamento respondem ao
problema do entendimento.
4. Uso de Inteligência Artificial: A construção utiliza ferramentas de IA (como ChatGPT e Gemini) para gerar as respostas iniciais sob a ótica dos filósofos, mas depois realizamos uma revisão e estruturação baseada em nosso conteúdo de mais de uma década de publicações aqui.