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quinta-feira, 30 de julho de 2026

Precariedade

Começamos a nos aventurar pela “Comunicação Precária”, livro do professor André Lemos do Laboratório 404[i]. O número 404 remete ao famoso e comum erro do protocolo de internet que ocorre quando uma aplicação não faz o que supostamente deveria fazer, mas acaba não fazendo nada e devolve uma página de erro.

Acontece que é exatamente extrapolando essa condição, que o professor propõe que a tecnologia (ou cultura digital) é errática, primordialmente. Mas não só ela, o mundo é precário e errático e nossa própria condição humana e os objetos. Nesse sentido, temos uma ontologia do erro, mas também uma epistemologia, isto é, admitindo que a tecnologia é precária e aceitando essa condição, podemos estudá-la sobre essa ótica.

Lembremos que Quine propõe esse tipo de abordagem para uma teoria, um pouco ao contrário, mas no mesmo limite de análise:

“Já o naturalismo nega que haja uma filosofia primeira que não seja experimental e fora da ciência, pois é essa última que diz o que é que existe (ontologia) e como sabemos o que existe (epistemologia), de como conhecemos o que existe”[ii]

Lembremos também que epistemologia e ontologia se imbricam em Simondon, já que para, ele “a inovação tecnológica é um lugar privilegiado no qual o pensamento se materializa concretamente”[iii], ou seja, pela tecnologia pensamento e matéria se imbricam no processo de individuação. Podemos dizer que a ideia deixa de ser mental e se torna ferramenta.

Lemos passará por Simondon, Heidegger, Latour e tantos outros, aguardemos as cenas dos próximos capítulos. Não obstante, Lemos cita Haraway: fazer com o erro. Isso significa que o objetivo da tecnologia é se fazer invisível, isto é, fugir do erro tentando trazer uma situação de normalidade quando, na realidade, é o oposto. Os objetos estão sempre falhando e, por consequência, nos irritando e nós, sempre esperando uma nova tecnologia promissora que resolverá todos os nossos problemas.

Ainda estamos no início, mas já passeamos por alguma genealogia do erro e da precariedade, e já vimos que o erro permeia a história da filosofia, desde o mito de Prometeu, que nos reconheceu limitados, até os nossos dias, com exemplos concretos que o professor traz. E é pela análise de problemas da cultura digital que emergem causas políticas, econômicas e sociais. Quer dizer, quando há um erro e um impacto social, o modo como cada país ou sociedade lida com essa situação mostra, de fato, o que é aquele lugar, desmascara-o.

Por fim, e ainda não terminamos o primeiro capítulo, Lemos trata nele da comunicação precária. Ora, o entendimento é precário, ele mostra, e isso nos remete a efevmo-me[iv]. Lemos é especialista em comunicação e sabe, e enfatiza, o caráter precário do entendimento dentro desse sistema. A despeito do não entendimento, vivemos. Mas esse serão temas para explorar, não sem uma breve citação à página 25: “O entendimento nunca é uma simples transferência de um enunciado para o receptor. A precariedade da comunicação refere-se à sua própria maneira de ser. A incapacidade de entendimento não impede que isso aconteça”.

A incapacidade de entendimento não impede que continuemos a explorar essa magnifica obra, tão sintomática de nossos tempos.



[i] LEMOS, André. A comunicação precária: erros, falhas e perturbações na cultura digital. Rio de Janeiro: Edições 70 / Alta Books, 2026.

[iv] Estante: https://bit.ly/efevmo-me-blog. EFEVMO-ME é o acrônimo que dá nome a nossa série de reflexões filosóficas (aqui e no YT) baseada na máxima: “Eu falo e você me ouve, mas entende?”. O termo é formado pelas iniciais dessa pergunta central, que guia uma investigação sobre o abismo existente entre a recepção física de sons e a compreensão real do sentido na comunicação humana. Como pontos principais já abordados no projeto, falemos de:

1.      Origem e Motivação: A questão surgiu de nossas inquietações práticas, motivadas por problemas comunicacionais ocorridos na última década em âmbitos pessoais e profissionais, além da observação da polarização política e dos efeitos da virtualidade nas relações humanas.

2.      Objetivo Filosófico: A série busca isolar conceitualmente o entendimento como um problema filosófico, evitando reduzi-lo a simples ignorância ou má-fé. O projeto investiga se o entendimento é um ato individual, um processo socialmente mediado ou um conjunto de regras linguísticas.

3.      Método de Investigação: Cada entrada da série submete a máxima ao escrutínio de um filósofo diferente (como Kant, Marx, Descartes, Aristóteles, Carnap, Quine, Habermas e Sellars, até o momento) para analisar como seus sistemas de pensamento respondem ao problema do entendimento.

4.      Uso de Inteligência Artificial: A construção utiliza ferramentas de IA (como ChatGPT e Gemini) para gerar as respostas iniciais sob a ótica dos filósofos, mas depois realizamos uma revisão e estruturação baseada em nosso conteúdo de mais de uma década de publicações aqui.