Russell inicia com a
questão se existe algum conhecimento que seja certo o sufiiente que não possa ser
duvidado e faz uma investigação entre realidade e aparência que pode levar a
crer que o mundo físico não existe, ou seja, ele questiona tal conhecimento. A cena se passa em seu escritório, ele está sentado na poltrona da
escrivaninha próximo a janela de onde se vê o sol e as nuvens. A mesa que ele
observa é marrom, mas será que é realmente?
Há um pedaço da mesa mais escuro pela sombra, há outro pedaço branco pela
luminosidade e uma parte lascada mostrando uma cor mais clara. Se alguém
observa somente o pedaço iluminado pode achar que a mesa é clara, se alguém a
vê de noite terá outra impressão. Mas, qual a cor da mesa? A mesa real não é a
que vemos, mas uma que inferimos do nosso ponto de vista.
A mesa apresenta uma
superfície sólida e maciça a olho nu, mas pelo microscópio podemos notar
fissuras, porosidade. Esse microscópio está correto, há outro mais possante ou
nós estamos corretos? Afinal, qual a consistência da mesa? O mesmo vale para a
forma real da mesa que também varia dependendo do ângulo em que a vemos[ii]. Observamos
várias propriedades que Russell denomina dados-dos-sentidos e que se apresentam
à nossa sensação (cor, textura, som, etc.), mas qual mesa é a real? Há um objeto físico chamado mesa
ou tudo não passa de dados-dos-sentidos? Temos conhecimento, pela sensação, de
dados-dos-sentidos e, se não podemos concluir que o objeto físico não existe,
ao menos sabemos que ele está muito distante de nós.
Russell data essa
argumentação a Berkeley como o primeiro a dizer que os objetos dos nossos
sentidos não existem independentes de nós, porém ele não concorda com a conclusão:
que só existem ideias ou que os objetos só existem por causa de uma ideia, seja
a de Deus ou a de uma mente universal[iii].
Berkeley e os demais idealistas, Leibniz, etc., não negam a existência do
objeto físico, mas afirmam que ele é uma ideia de uma mente ou conjunto delas.
Russell, então, nos mostra que o que vemos e sentimos do objeto não é o objeto
físico em si, mas o que nos relaciona a ele, ou seja, sua aparência, o que nos leva a dúvida sobre como seria a realidade e
se há meios de conhecê-la. Uma simples mesa torna-se uma questão cheia de
possibilidades e, se existe dúvida, embora a Filosofia não possa responder a todas as questões, pelo menos ela aumenta o nosso interesse pelo mundo.
[i]
Bertrand Russell, Problems of Philosophy.
APPEARANCE AND REALITY. Acessado em 15/04/2019: http://www.ditext.com/russell/rus1.html.
[ii] Nas palavas de Russell: “But the 'real' shape is not what we see; it
is something inferred from what we see.”
[iii]
O que ele considera falácia: “Whatever can be thought of is an idea in the mind
of the person thinking of it; therefore nothing can be thought of except ideas
in minds; therefore anything else is inconceivable, and what is inconceivable
cannot exist.”
Ver: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2019/12/sobre-mesai.html
ResponderExcluirRussell e a dificuldade de conhecer a realidade, realidade mediada pelos dados-dos-sentidos
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