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sábado, 9 de março de 2024

O conhecimento por familiaridade de Bertrand Russell

Mostra como a epistemologia de Russell interfere em sua teoria da linguagem[i]

Hacking traz citação inicial de Russel sobre temas de linguagem (lógica do sujeito-predicado, significado dos nomes próprios representando entidades) para dizer que a metafísica se expressa por ela[ii]. Passando para a argumentação mais detalhada de Hacking, o autor argumenta que Russell rejeita a teoria das ideias dos modernos, mas postula que o conhecimento por familiaridade vem de objetos imediatos da experiência. Nesse sentido, o significado de um nome próprio é o próprio homem, aquele que nos referimos apontando. Hacking nos lembra que, tanto Frege quanto Russell, desconsideram a ideia associada ao significado, mas, se concordam que o nome refere, Russell rejeita os significados públicos (Sinn) que não sejam a própria referência.

Tomando exemplo de Hacking, o significado do “malmequer laranja ali adiante” é o próprio malmequer, já “laranja” denota[iii] um universal abstrato do qual temos familiaridade (acquaintance). Esses universais são representados pelas palavras do dicionário e se enquadram bem a predicados, porém não a sujeitos. Por exemplo, “a montanha dourada” seria para Russell um objeto mental independente. Esse objeto, assim como números ou os deuses homéricos devem ser de um certo tipo para que possamos usá-los em proposições. Reparemos que nem todos esses “seres” “existem”. Mas, em “On Denoting”, ele dirá que não há referência, nesses casos. E Hacking evoca as famosas paráfrases: “Não é o caso que alguma coisa seja uma montanha dourada” não se refere a algo e “a montanha dourada não existe” que parece ter o mesmo significado só aparentemente tem a forma sujeito-predicado, mas logicamente quer dizer “Não é o caso que alguma coisa seja uma montanha dourada”. Assim como o famoso “atual rei da França” que é uma descrição que pretende denotar um indivíduo como “o malmequer” de fato denota. São as descrições definidas do tipo “o F” que parecem um sujeito gramatical, mas se comprovam sujeitos lógicos passando pela análise “o F é G”.

Sobre Stalin, Russell usa esse nome próprio significativamente como bom referencialista, mas fundamentalmente por sua epistemologia, por tê-lo conhecido. Nós, que não o conhecemos, precisamos de uma descrição definida de Stalin para nos comunicarmos, já que não temos o objeto imediato. A descrição definida significa o nome próprio e cada pessoa pode ter uma. Aí “Stalin”, uma palavra, pode ter diferentes significados e é pela ambuiguidade que nos comunicamos. Conforme Russell, “Seria completa e inacreditavelmente inconveniente ter uma linguagem não ambígua” (p. 80). Hacking destaca que a epistemologia de Russell leva sua teoria referencial a ter significados essencialmente privados. Mas Hacking insiste que uma teoria do significado é sobre o que é público, aquilo que Frege chamou Sinn e que permite nossa comunicação. Já a teoria de Russell depende da ambiguidade. E o mais irônico é que o idealista Locke reconhecia a aceitação comum dos termos.

Ora, na visão russelliana, nos referimos apenas a objetos imediatos, porém eles ficam restritos a nós como nomes próprios, uma vez comunicados são descrições que podem conter erros. E tal visão soa como contrassenso, já que aproxima Russell de Berkeley, problematicamente no ponto em que Russell fundamenta o conhecimento na “consciência distinta”. Mais do que isso, ao falarmos de um giz, conforme exemplo que Hacking tira de Russell, não falamos do objeto físico, mas do dado sensorial: “um isto”. E, conforme Hacking: “a palavra isto pode ser usada como um nome próprio”. É um nome que se dá a algo que estamos familiarizados no momento, é um nome próprio que é ambíguo porque pode não significar a mesma coisa em diferentes momentos.

Se parece que um nome próprio é usado significativamente por representar uma entidade, nessa teoria da linguagem não existe tal entidade, mas construções lógicas a partir delas, todas as vezes que dizemos “isto”. E, se uma expressão significa o que denota, poucas expressões têm significado por dependerem de estarmos familiarizados com a referência. Aqui, não há sentido fregeano. Por outro lado, Strawson sustenta que a linguagem depende de dizermos as coisas sobre corpos existentes (em “Individuals”). De toda forma, Russell se livra da ontologia substância-atributo. O uso de quantificadores na teoria das descrições elimina os sujeitos das sentenças[iv]. Isso pode significar que tal metafísica é um artefato da linguagem, não da realidade. Mas, por mais que pudéssemos seguir pelo caminho da metafísica de Strawson, Hacking se fiará na “forma lógica” proposta por Russell como sustentáculo da forma gramatical.



[i] Fichamento do sétimo capítulo de Por que a linguagem interessa à filosofia? São Paulo: Editora Unesp, 1999. Ian Hacking. Esse capítulo é bem denso porque supõe conhecimentos já explorados nesse blog, como as teorias da linguagem de Frege e Russell assim como uma compreensão da teoria das ideias dos modernos.

[ii] Se na matemática Russell parece crer que os fundamentos se explicam pelas conclusões, em sua epistemologia, seguindo caminho semelhante, a natureza do conhecimento vem dos sentidos.

[iii] Diferente do que se pensou em grande medida de Aristóteles em diante, conforme Hacking.

[iv] Quine terá aprofundado isso em Palavra e Objeto, conforme Hacking. 

sexta-feira, 30 de junho de 2023

Quem é o homem no canto da sala bebendo martini?

Trata da distinção de Donnellan e porque Kripke não a considera[i]

Tentemos ser breves sobre esse ponto: dois homens estão em uma festa e falam de um terceiro que, no canto da sala, bebe algo. Os dois, quando falam dele, dizem: “o homem no canto da sala bebendo martini, etc...”, e, assim, a ele se referem. Entretanto, o homem não bebe, de fato, martini, ele bebe soda e, mais do que isso, ninguém na sala bebe martini pois não há martini na festa.

Ora, do ponto de vista de Donnellan, esse é um tipo de uso descritivo referencial, isto é, uma expressão que permite referir um objeto, mesmo que a expressão esteja errada do ponto de vista atributivo, já que se atribuiu ao homem que ele bebia martini o que, mesmo possibilitando a sua identificação, não era de fato o que ocorria. Mas é o uso descritivo atributivo que também permite identificar, aí sim, de forma correta, quer dizer, univocamente.

É o que ocorre quando, em uma investigação criminal, se busca o assassino e, ao encontrar uma pegada na lama, o policial diz: “o homem com essa pegada número 43...” e, desse modo, atribui a pegada ao assassino, embora ele não esteja presente e não tenho sido descoberto ainda, impossibilitando a referência.

*  *  *  *  *

Na teoria das descrições definidas[ii], Russell enfatiza o contributo semântico que elas carregam já que, para ele, teriam significado para lá de seus referentes, não obstante os quatro quebra cabeças que ele expõe sirvam para mostrar que as descrições definidas não se conectam ao mundo por nomeação direta. Mas, Strawson entende que frases são usadas em situações conversacionais concretas em objeção à abordagem russelliana de tomar frases em abstrato, como objetos em si.

Para Strawson, as frases são usadas pelas pessoas para se referirem e em determinados contextos – só as expressões não referem. Nesse viés, ele não toma as frases como proposições que possuiriam uma forma lógica e um valor de verdade. Porém, por mais que não sejam as expressões, mas as pessoas que refiram, há um sentido secundário em que expressões referem: quando há um objeto que as satisfazem univocamente: o referente semântico da descrição. Pois bem, se Russell quer insistir que as descrições não são expressões referenciais, há esse sentido secundário no qual uma descrição pode ter um referente. E é disso que trata a distinção de Donnellan.

Donnellan pegará nesse ponto que a análise de Russell não capta: o uso de descrições definidas como nomes, para se referir. Então, se para Russell, um uso referencial como <<O Sacro Império Romano>>, com as iniciais maiúsculas, não passa de um título e não de uma descrição, Donnellan mostra que há casos de descrições usadas para darem atenção a um indivíduo particular.

Tomemos a expressão “O homicida do Ferreira é louco”. Podemos notar que se trata de um uso atributivo, já que pretende dizer que quem cometeu o terrível crime de matar o Ferreira é louco (atribui o predicado louco ao homicida). Mas, alguém (o Pedro) poderia estar a ver o julgamento, sem conhecer nada do réu, e fazer a afirmação: “O homicida do Ferreira é louco”, pois ele vê que os olhos do homem estão revirando e, dessa forma, Pedro se refere ao réu independentemente dos atributos (ele poderia estar apontando para o assassino). Conforme Lycan, o que Pedro afirma é verdadeiro se e somente se o réu for louco, independentemente de ter ou não cometido o homicídio. A isso Donnellan chama uso referencial.

Se Russell escreve como se todas as descrições fossem usadas atributivamente, Strawson relegou o uso atributivo ao enfocar o contexto de referência. Esse duplo aspecto leva à conclusão de que há ambiguidade quanto às descrições definidas. No uso referencial, o público escolhe do que se está a falar e esse uso não ocorre essencialmente, mas para chamar a atenção acerca daquela pessoa. Então, <<O F é g>>, para Donnellan, se nada é F, de nada se disse que é g (uso atributivo, isso não se aplica para o uso referencial, já que não se referencia nada).

Por outro lado, na festa há uma mulher com um acompanhante sobre o qual se diz “O marido dela lhe dá muita atenção”[iii]. Ocorre que o acompanhante é referido mesmo a mulher não sendo casada e esse é o conceito de referente semântico: aquele que satisfaz a descrição (portanto nenhum, já que ela não é casada) e que diverge do referente real[iv]. Conclui-se que, para Donnellan, não importa se não houver homicida do Ferreira, o que se disse é verdadeiro se e somente se Joaquim é louco.

*  *  *  *  *

A respeito de Kripke, Ruffino mostra que ele[v] não considera descrições definidas na análise dos nomes próprios, mas apenas seu nome ordinário[vi]. Ruffino reforça que duas condições para que uma descrição definida funcione bem são a existência e a unicidade, o que foi questionado por Donnellan, para quem isso nem sempre ocorre, embora Kripke não tenho levado isso a sério. Em seu ensaio (1966), Donnellan diz que, às vezes, fazemos referência a um objeto embora a condição de existência não seja satisfeita (aqui ele cita o exemplo do título desse texto).

Ruffino enfatiza que o falante refere, o locutor entende e a conversa continua. É possível ser bem-sucedido em se referir e se comunicar mesmo usando uma descrição errada[vii]. Tudo funciona bem na comunicação mesmo com a descrição defectiva. Esse é o uso referencial de uma descrição definida quando, pelo exemplo de Ruffino, você está em um saguão esperando uma palestra começar e passa um rapaz de terno e gravata, do que você diz: “O palestrante chegou” e seu colega entende que a pessoa chegou, mas você estava errado, ele não é o palestrante.

Nesse caso mencionado, o conteúdo da descrição ou falha ou é irrelevante. Já no uso atributivo da descrição definida o conteúdo descritivo é essencial. Se ora funciona um uso e ora outro, é o caso de que a teoria de Frege-Russell falha, mas Kripke não considera esses casos e explica que esse ponto é uma questão de pragmática, pois é uma questão prática, já a semântica é uma questão mais restrita, que requer características precisas. Essa circunscrição da semântica com relação à pragmática ainda será nosso tema.



[i] Enalta-se o didatismo de Ruffino a respeito do argumento mas, ainda assim, nosso texto só toca a superfície do problema. Conforme https://www.youtube.com/embed/wRhexp8nqR4, acesso em 25/06/2023.

[ii] Aqui argumenta-se conforme nosso entendimento de Lycan, embora muita coisa fique de fora. Filosofia da linguagem: uma introdução contemporânea. LYCAN, William. Tradução Desiderio Murcho. Portugal: Edições 70, 2022.

[iii] Conforme Lycan, esse exemplo é de Leonard Linsky.

[iv] Seria uma referência fraca ou pseudo referência?

[v] Em Name and Necessity.

[vi] Considera como nome "Emmanuel Macron", mas não considera da mesma forma “O atual presidente da França”, como em O F é g. Ora, como Ruffino também mostrará, para Frege-Russell é a descrição que liga o nome ao objeto

[vii] Isso enseja a ideia de que pessoas conversam e se entendem independentemente de estarem usando descrições corretas. Seria terraplanismo?

segunda-feira, 19 de junho de 2023

O esse do concreto ao universal

Entre o objeto, a ostensão, o Sinn e o uso

É interessante notar a proximidade do indexical com o mundo. Sua primazia pode ser ressaltada com o demonstrativo “esse” que, acompanhado do gesto de ostensão, toca a realidade. Quando dizemos “essa pessoa” apontando para ela, não resta dúvidas: ela está lá. E isso comunica muito mais do que dizer “a pessoa que está lá” ou a pessoa X (descrição definida e nome próprio, respectivamente)[i].

Contudo, essa pretensão de certeza trava a linguagem porque fixa o sentido. Por um lado, “essa pessoa” é “essa pessoa”, pessoa concreta, embora essa coisa “essa pessoa” possa trazer significados diversos. Por outro lado, “essa pessoa” é uma formulação universal porque eu só poderia falar daquela pessoa usando o “essa” (demonstrativo) “pessoa” (objeto). Quando a linguagem toca a realidade ela vira uma passagem, não deixa “pegar um sentido”. Só que há vários, várias sintaxes.

* * * * *

Eu concluí um fluxo similar ao seguinte, das primeiras palavras de CC no Cognitivismo[ii]: “objeto” [uma pessoa] <= “indexical” [essa pessoa] (está pertinho) <= “descrição definida” [a moradora do apto 23] (comunica algo) <= “nome próprio” [Maria] (indistinto).

Já Wittgenstein, sobre demonstrativos: “O demonstrativo “este” nunca pode ficar sem portador. Poderíamos dizer: “Enquanto houver um este, a palavra ‘este’ tem significado, seja este simples ou composto”. – Isso, contudo, claramente não faz dessa palavra um nome. Ao contrário; pois um nome não é utilizado com um gesto ostensivo, mas apenas explicado por ele.”[iii]

E sobre nomes e descrições: “Nomear e descrever não estão, de fato, em um mesmo plano: O nomear é uma preparação para a descrição. O nomear ainda não é, de modo algum, um lance no jogo da linguagem, - assim como colocar uma peça de xadrez sobre o tabuleiro ainda não é um lance no xadrez. Pode-se dizer: Com a nomeação de uma coisa ainda não foi feito nada. Aliás, ela não tem um nome, a não ser no jogo. Eis também o que Frege queria dizer ao afirmar que uma palavra tem significado apenas no contexto da frase”[iv]

O mais interessante é que, pelas Investigações, minha pergunta de praxe: “Eu falo e você me escuta, mas entende?” teria uma resposta em aberto, variando entre sim e não, a depender do contexto e demais envoltórios.



[i] Se existir algo lá.

[ii] COSTA, C. Cognitivismo Semântico: Filosofia Da Linguagem Sob Nova Chave. Curitiba: Editora Appris, 2022.

[iii] Investigações Filosóficas. Ludwig Wittgenstein. São Paulo: Fósforo, 2022. Sessão 45, p. 54.

[iv] Idem. Sessão 49, p. 58. 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Descritivismo

Aborda o descritivismo clássico, a teoria dos agregados e como o descritivismo resolve três dos enigmas deixados sem resposta pelo referencialismo[i]

Introdução. Conforme vimos no último fichamento, o enigma de Frege, que dá origem à teoria da referência indireta, introduz o sentido do nome próprio, mas não o explica. O que Sagid vai nos mostrar é que, pressupondo a teoria das descrições definidas de Russell, a teoria descritivista dos nomes próprios irá clarificar esse conceito fregeano, além de propor explicações tanto para o significado quanto para a referência.

Descritivismo clássico. O descritivismo é uma família de teorias da referência que explicam o significado e/ou a referência dos nomes em termos do significado e/ou referência das descrições definidas daqueles nomes. Primeiro, o descritivismo explica o significado dos nomes em termos do significado das descrições e, depois, explica a referência dos nomes em termos do significado das descrições.

O descritivismo clássico é, então, uma versão de teoria da referência indireta oriunda de Frege e Russell. Nela, um falante associa uma descrição definida a um nome próprio e é o significado dessa descrição que é o significado daquele nome próprio. E, também, o significado dessa descrição seleciona um objeto que é o referente daquele nome próprio.

Teoria das descrições definidas de Russell. Conforme continua Sagid, uma descrição definida é uma expressão da forma “o F” ou “a F”, isto é, são expressões antecedidas pelos artigos “o”, “a”, por exemplo: “a rainha da Inglaterra”, “a pessoa mais alta do planeta”. O uso das descrições definidas faz com que uma afirmação como 1.) deva ser interpretada por uma afirmação como 2.), qual seja, alguém que diz 1.), na verdade está dizendo 2.), tomando 1.) por “N é G” e 2.) por “O F é G”.

Isso posto, quando digo 3.) “Aristóteles é um filósofo”, estou dizendo 4.) “O fundador da lógica formal é um filósofo”, já que, conforme enunciado, é a descrição que o falante associa ao nome próprio que fornece o significado do nome. Isso reduz o problema do significado dos nomes ao problema do significado das descrições, esse último sendo tratado pela teoria russelliana.

Ocorre que o significado de uma descrição definida não é tomado isoladamente, mas por um método de análise contextual que interpreta o significado de expressões no contexto completo das frases em que elas ocorrem. Para explicar o significado de expressões subfrásicas, como NP ou DD[ii], podemos nos valer do princípio da composicionalidade e verificar qual a contribuição delas na frase. Então, não se explica “o fundador da lógica formal”, mas “o fundador da lógica formal é sábio” – dentro de um contexto, sobre o que é dito.

Pela teoria das descrições definidas de Russell, 2.) “O F é G” é analisada como 2’.) “Existe um e apenas um F e quem quer que seja F é G”. 2.) é analisada por uma cláusula de existência, outra de unicidade e, por fim, a predicação. Dado 4.) “O fundador da lógica formal é um filósofo”, ela será analisada como 4’.) “Existe um e apenas um fundador da lógica formal, e ele é um filósofo.[iii] Ressalta Sagid que esse método de análise é usado para determinar o significado de uma descrição definida, pois permite determinar como ela contribui para a frase em que ocorre, pelo que é dito pela frase. O método também explica quem é o referente e como é determinado, pois é o único objeto que satisfaz a descrição, que possui a propriedade indicada pela descrição. Já se a descrição não aponta para nenhum objeto que a satisfaça, então não tem referente. Tenha zero ou muitos objetos, a descrição falha em se referir, é vazia. A tabela abaixo indica como a teoria resolve os problemas propostos por Sagid.

Problema

Descritivo

Fundacional

Referência

Qual referente da descrição definida?

Em virtude de quais fatos uma descrição definida se refere ao que se refere?

Resposta

O objeto que satisfaz a descrição definida.

Uma descrição definida se refere ao que se refere em virtude de o objeto ser o único a possuir a propriedade apontada por ela.

 

Teoria descritivista dos nomes. Do que foi dito, o significado do nome próprio é o significado da descrição definida que o falante associa a ele. A respeito do problema descritivista do significado dos nomes próprios, o significado do nome próprio é o significado da descrição associada a ele. Exemplificando, qual o significado de Aristóteles? É o significado da descrição “o fundador da lógica formal” que o falante associa a ele. Já o significado de “o fundador da lógica formal” é dado pela teoria de Russell. De “Aristóteles é um filósofo”, extraio “O fundador da lógica formal é um filósofo” e, com a contribuição de Russell: “Existe um e apenas um fundador da lógica formal e ele é um filósofo”.

Já sobre o problema fundacional, Aristóteles significa o que ele significa em virtude de ele ser associado à descrição que lhe é associada, que ele satisfaz. Em outras palavras, Aristóteles tem o significado que tem em virtude da descrição que ele está associado ter o significado que ela tem.

Se a teoria referencialista dos nomes próprios explica o significado dos nomes, ela não explica a referência. Já a teoria descritivista o faz, dizendo que o problema descritivo da referência pode ser enunciado como: o referente de determinado nome é o objeto que satisfaz a descrição definida associada ao nome. Já ao problema fundacional da referência, que se pergunta sobre quais fatos, o descritivismo diz que o nome próprio se refere ao que se refere em virtude deste objeto satisfazer a descrição associada a ele.

Isto é, o descritivismo explica o sentido e como ele determina o referente. Se o significado do nome é o significado da descrição definida associada, o sentido do nome é o sentido da descrição definida associada. Mas como ele determina o referente? A partir do momento em que o significado da descrição definida impõe certas condições no mundo que apenas um objeto satisfaz, ou seja, as cláusulas de existência, unicidade e predicação. Não obstante, o nome próprio pode ter sentido, mas não referente, na medida em que seu sentido é dado pela descrição, mas ninguém a satisfaz, que é quando o sentido aponta para nada[iv].

Teoria dos agregados. O descritivismo clássico, enquanto uma teoria da referência indireta, isto é, quando a referência é parcialmente determinada pelo significado do nome, se debruça sobre uma descrição definida particular que um falante associa ao nome. Ocorre que, pode ser que um falante associe muitas descrições a um nome, o que levanta a pergunta sobre por que apenas uma delas fixa o referente do nome, se alguma é a mais importante. Uma possível resposta é a de que vale a descrição que o falante tem em mente quando usa o nome, embora muitas vezes não pensemos em uma descrição ao usar um nome.

Por outro lado, diferentes falantes podem associar diferentes descrições a um mesmo nome, o que poderia ter a consequência de serem diferentes significados, embora consigamos entender a mesma coisa. Ora, Sagid traz casos de desacordo como “Aristóteles é inteligente” e “Aristóteles não é inteligente” que, se aparentemente são contraditórios, podem estar simultaneamente certos se o primeiro signifique que “O fundador da lógica formal é inteligente” e o segundo que “O autor da metafísica não é inteligente”. Ou seja, diferentes falantes, ao fixar a referência com diferentes descrições, podem estar atribuindo diferentes significados.

Posto isso, Searle irá rejeitar que o significado do nome é dado por uma descrição particular, mas por um agregado de descrições que permitam determinar o objeto. Se podem haver muitas, não são todas, senão bastaria que uma não fosse satisfeita para invalidar o significado. Não sendo todas, Searle postula um número suficiente, mas que também é vago, pois difícil de mensurar, mas que também não seja superado por um outro objeto que satisfaça tais descrições em número maior. Também, dirá Searle, não é necessário especificar quais descrições devem ser verdadeiras para que um indivíduo seja o referente de determinado nome próprio.

Aplicando a teoria dos agregados, temos que o significado de “Aristóteles é um filósofo” é dado por “O indivíduo acerca do qual um número suficiente, vago e não especificado das afirmações: ele é d1, ele é d2, ..., ele é dN, são verdadeiras é também um filósofo”. Resumindo, o significado do nome próprio vem da descrição completa daquele nome. O que pode significar: “O indivíduo acerca do qual um número suficiente, vago e não especificado das afirmações: ele é o fundador da lógica formal, ele é o autor da metafísica, ele é o discípulo mais inteligente de Platão e etc., são verdadeiras é também um filósofo”. E os problemas são resolvidos como abaixo:

Problema

Descritivo

Fundacional

Significado

O significado do nome próprio é o significado da descrição complexa que o determina.

O nome próprio tem o significado que tem em virtude de a descrição complexa ter o significado que tem.

Referência

O referente de um nome próprio é o indivíduo cujo significado é o referente da descrição complexa associada a ele.

O nome próprio se refere a que se refere em virtude da descrição complexa associada a ele se referir ao que se refere.

 

Dessa maneira, a teoria dos agregados evita o problema do descritivismo clássico, já que não há uma descrição especial para o nome, mas o que importa é o agregado. Acontece que podemos extrapolar o caso e falantes diferentes pode ter um agregado que seja diferente e produza diferentes significados. Nesse caso, lança-se mão do agregado da comunidade linguística em oposição ao agregado de cada falante[v].

Conclui-se que, a referência direta vai pleitear que seja lá como for que o referente do nome é determinado, ele não é determinado pelo significado, ao passo que, pela referência indireta, o referente é parcialmente determinado pelo significado do nome, e é essa teoria que vai resolver os enigmas apresentados.

Solução do descritivismo para nomes vazios. Como sabemos, para o referencialismo, o significado de um nome próprio é o próprio referente, o objeto e, se ele falha, se o referente é vazio, o nome não tem significado. Já para o descritivismo, mesmo que o nome próprio a nada se refira, ainda tem significado, visto que é dado pelo significado da descrição. Dado que 5.) “Papai Noel é legal”, o significado do nome “Papai Noel” é dado pelo significado da descrição definida “o bom velhinho”, o que resulta em 6.) “O bom velhinho é legal” e, aplicando a teoria de Russell tem-se que 6’.) “Existe um e no máximo um bom velhinho e ele é legal”. Porém, se é o caso que Papai Noel não existe, a afirmação é falsa e, portanto, dotada de significado.[vi]

Ainda assim, se temos a impressão que Papai Noel é legal, é justamente porque o descritivismo trata esse proferimento como falso porque Papai não existe e não porque ele não seja legal. Nesse caso, ainda poderíamos recorrer ao faz de conta para dizer que Papai Noel é legal “lá”, muito embora tal proferimento seja literalmente falso. Para o descritivista, seria possível usar “Papai Noel” em certos contextos[vii].

Solução do descritivismo para existenciais negativas. O proferimento 7.) “Papai Noel não existe”, conforme já vimos pela nota anterior, se é verdadeiro, tem significado e, consequentemente, cada parte tem significado. Isso leva ao paradoxo de que o significado de “Papai Noel” é seu referente, que é o próprio Papai Noel e, nesse caso, existe. Agora, se tomarmos a frase pela descrição “O bom velhinho não existe”, teremos 7’.) “É falso que existe um e apenas um bom velhinho” que é verdadeira sem termos que recorrer a nenhuma ontologia, como a de Meinong.

Isso posto, o descritivista não usa o faz de conta para o problema de Vulcano, já que oriundo de fato real e científico. Aqui, de 8.) “Vulcano não existe” se extrai 8’.) “É falso que existe um e apenas um planeta causando anomalias na órbita de Mercúrio” – afirmação literalmente verdadeira e que evita que cientistas tratem do faz de conta.

Solução do descritivismo para o enigma de Frege. Simplificando o exemplo de Sagid, temos as frases 9.) “Anitta é Anitta” e 10.) “Anitta é Larissa” que, pela teoria referencialista, associam o significado do nome ao objeto referido. Visto que, pelo princípio da composicionalidade, tem a mesma estrutura, mas apresentam nomes diferentes que são correferenciais, esses nomes deveriam ter o mesmo significado, o que parece implausível em razão de possuírem uma diferença de conteúdo informativo.

Seja a descrição de Anitta “a cantora de funk mais famosa” e a de Larissa “a cantora preferida do Sagid”, as frases ficariam 9’.) “A cantora de funk mais famosa é a cantora de funk mais famosa” e 10’.) “A cantora de funk mais famosa é a cantora preferida do Sagid”. 9’.) apresenta o mesmo objeto do mesmo modo e 10’.) são duas formas diferentes de apresentar o objeto por duas descrições, portanto de caráter informativo. Então o descritivismo explica o sentido fregeano, já que o sentido do nome é o sentido da descrição definida.

Solução do descritivismo para o princípio da substitutividade. Por fim, temos que o princípio da substitutividade falha para o referencialismo, já que ele deveria admitir como universalmente válido que a substituição de um nome próprio por outro nome próprio correferencial não altera o valor de verdade da proposição. Entretanto, se em 9.) e 10.) a substituição se aplica e são verdadeiras, há contextos que são referencialmente opacos como os contextos de crença como em 11.) “Maria acredita que Anitta é Anitta” e 12.) “Maria acredita que Anitta é Larissa”. Em situações como essa, a substituição altera o valor de verdade das proposições e o princípio falha, pois Maria certamente sabe de 11.) mas pode não saber de 12.). Entretanto, derivando para o descritivismo, 11’.) “Maria acredita que a cantora de funk mais famosa é a cantora de funk mais famosa” e 12’.) “Maria acredita que a cantora de funk mais famosa é a cantora preferida do Sagid”, tem o mesmo valor de verdade, já que tem o mesmo referente.



[i] Recortes feitos das aulas 11, 12 e 13 do professor Sagid Salles disponíveis no Youtube. Curso IF - Filosofia da Linguagem: https://www.youtube.com/playlist?list=PLb6DzdXIOv4EtJpTp1G9kThcOi_DATFyS.

[ii] Nomes próprios ou descrições definidas.

[iii] Sagid cita brevemente o uso atributivo de Keith Donnellan, mas não o aprofunda. Sobre ele falaremos.

[iv] Além disso, Sagid ressalta que, para Searle, o descritivismo aporta 2 fatos alegados sobre o nome próprio: ensinar um nome é introduzir o nome com uma descrição, e aprender a usar o nome é ser introduzido ao nome junto com a descrição. Ao ouvir coisas sobre “Maria”, como “Maria X” ou “Maria Y”, podemos nos perguntar, “Quem é Maria?”. A resposta “É a moça mais inteligente da sala” nos ensina quem é Maria e como usar seu nome.

[v] Sagid cita a solução de Claudio Costa que seria de descrições enciclopédicas.

[vii] Ver https://criticanarede.com/logicaficcional.html: O estatuto lógico do discurso ficcional - John R. Searle. Tradução de Vítor Guerreiro.

sábado, 30 de julho de 2022

Fontes iniciais da filosofia analítica

Funda a filosofia analítica em Russell, destacadamente, e Moore[i]

Nesse capítulo introdutório, Schwartz finca as bases da filosofia analítica em Russell e Moore, com destaque também para Frege e Wittgenstein, que têm como principais pontos a recuperação do clássico empirismo britânico (mas corrigindo-o), a invenção da lógica simbólica e a repulsa ao idealismo hegeliano. Além disso, Schwartz passa pela filosofia da linguagem, mas com uma abordagem muito lógica e distante da linguística. Enfim, é um passeio inicial nessa visão positivista que tanto influenciou a filosofia do século XX até os nossos dias.

Schwartz destaca o pioneirismo de Frege, mas que foi popularizado por Russell nos Principia mathematica (com Whitehead) e que expõe a nova lógica simbólica que influencia, por exemplo, Kurt Godel e posteriormente a computação e o estudo da linguagem. Então, a lógica matemática pode resolver a questão deixada em aberto pelos empiristas que é “Como é possível a matemática pura?”[ii]. Conforme Schwartz: “Russell não podia aceitar o “empirismo puro” – a ideia de que todo o conhecimento é derivado da experiência sensorial imediata...” (p. 11) e que levaria ao ceticismo, senão solipsismo. Bem, isso mostra a faceta racionalista de Russell, quando diz que o “empirismo tradicional é um erro e que há um conhecimento a priori e universal”, mas que o leva a ter de explicar a independência empírica, digamos assim. Para esse fim, Frege e Russell reconceitualizam a matemática pelo uso da lógica simbólica que trata a lógica matematicamente e a matemática como uma forma de lógica. Isso permite responder a questão deixada em aberta por Kant e não explicada pelos empiristas e que aponta para uma matemática analítica.

Ora, se Kant estabeleceu que “7 + 5 = 12” é sintético a priori, Frege procura mostrar que a aritmética pode ser deduzida da lógica pura. Mas os idealistas tinham a geometria como uma fortaleza, segundo Russell, pois com validade independente da experiência ou mesmo a questão relacionada à infinitude dos números primos não possível de prova via teste empírico. Há uma solidez matemática racionalista já que as proposições matemáticas, se independentes da experiência, são necessariamente verdadeiras e oriundas da razão pura. Entretanto, ao mesmo tempo, tal conceituação abre as portas metafísica, ontologia, etc., e para a falência do empirismo. É aí que o logicismo de Russell visa mostrar que a matemática pura é um prolongamento da lógica dedutiva e que não há proposições sintéticas a priori; toda a matemática poderia ser derivada da pura lógica, em um trabalho gradual. Poder-se-ia partir dos postulados de Peano, demonstrar que são puramente lógicos e, daí, com base analítica para a matemática. Mas, ao mesmo tempo, leva Wittgenstein a mostrar que a matemática é toda tautológica. Isso desmistifica não somente as verdades matemáticas como também o uso racionalista das verdades da religião ou da metafísica[iii].

Schwartz também enfatiza a importância da linguagem para o desenvolvimento da filosofia analítica. Sua análise se inicia com teoria das descrições definidas de Russell, que aparece na obra “Da denotação”, de 1905 e que se baseia em sua lógica simbólica. Como sabemos, uma descrição definida se destina a selecionar (denotar) um objeto, mas pode ocorrer de selecionar algo inexistente, mais de uma coisa, etc., e daí que Russell procura mostrar que as descrições definidas não denotam de forma isolada[iv], elas não denotam por si mesmas. Isso pode ser demonstrado se analisadas logicamente, o que revelará o que está por trás de uma descrição enganadora como “o presidente do Canadá é uma mulher” que se transforma em “há um e somente um presidente do Canadá e é uma mulher” (a predicação "uma mulher" é falsa, e não o caso de que haja um objeto inexistente). O uso da lógica simbólica faz com que a expressão não se refira a um indivíduo, mas seja uma expressão geral da forma: Ǝx{[Fx & ∀x (Fy ⊃ x = y)] & Mx} :: há ao menos uma coisa, no máximo uma coisa e a predicação.

Para além das descrições definidas, Russell desenvolveu uma metafísica com base na sua lógica simbólica, conhecida como atomismo lógico. Conforme Schwartz, “Russell sustentava que a linguagem, quando totalmente analisada, consiste em proposições atômicas e proposições moleculares constituídas delas pelas funções lógicas: não, ou, e, se ..., então ...”. Isto é, há átomos lógicos que podem ser descobertos pela análise filosófica, um tipo de realidade que não pertence a nenhuma outra coisa, mas que são metafisicamente necessários. Tanto mundo quanto linguagem tem uma estrutura comum que pode ser representada pela lógica simbólica, visão esta que influenciará Wittgenstein, mas será negada pela filosofia da linguagem comum.

Por outro lado, a contribuição de Moore é no sentido de uma filosofia do senso comum. Schwartz mostra que o positivismo foi uma reação contra a dialética hegeliana, que tratava da negação da negação e considerada por eles obscura. De acordo com Moore a metafísica hegeliana negava a realidade em prol do espírito absoluto, legando o senso comum a mera aparência. Então, Moore visa limpar essa crosta filosófica por um apelo à simplicidade do senso comum. Se Hegel (e Bradley, contemporâneo de Moore) procurou negar a realidade dos objetos do mundo, isso poderia ser configurado como ilusão filosófica. Porém, embora influenciando Wittgenstein e a filosofia de Oxford, a proposta de Moore do senso comum não teve força suficiente para superar os argumentos tanto de céticos quanto de idealistas.

Moore fundamentava a sua filosofia do senso comum nos dados dos sentidos, quer dizer, sensações oriundas dos sentidos e privadas de cada pessoa. De acordo com Moore, vemos algo, mesmo que não seja o próprio objeto e, segundo ele, para saber o que é um dado do sentido basta olharmos para a nossa mão. Contudo, Schwartz alerta para complexidade da teoria, já que o senso comum não conhece dados dos sentidos e sim os próprios objetos e tal conceito foi questionado mesmo por Austin e Wittgenstein. Já Russell tomou por base os dados dos sentidos para propor um tipo de conhecimento por familiaridade, mas para falar de um objeto usamos o conhecimento por descrição, que é indireto. Dados dos sentidos, então, fazem parte daqueles átomos metafísicos da proposta russelliana e que, de fato, nos afasta do senso comum.

Essas são, então, resumidamente, as impressões que mais nos chamaram a atenção na abordagem de Schwartz sobre os primórdios da filosofia analítica e que marca toda uma nova forma de fazer filosofia passando a limpo o idealismo alemão e fundando o positivismo lógico que propõe uma junção entre lógica e matemática, mas que não deixa de mostrar uma certa tendência de Russell por um tipo de platonismo negado pelos positivistas, quando postula certos entes metafísicos.



[i] Conforme Uma breve história da filosofia analítica de Russell a Rawls. Schwartz, Stephen P. São Paulo: Edições Loyola, 2017, capítulo 1: Russell e Moore.

[ii] Destaque para a citação inicial do capítulo.

[iii] Ficamos com o nem-nem: nem experiência e nem mística. O programa de Frege e Russell teve que enfrentar vários problemas, como o da autorreferência, mas mostrou que as noções da matemática clássica podem ser definidas pelas noções da lógica como “ou”, “se ..., então ...”, “todos...”, etc., e foi quase concluído com êxito.

[iv] Repetimos o foco de Schwartz na abordagem da filosofia da linguagem: uma que não nos ajuda em nossas competências linguísticas, mas que se vale da lógica como ciência do raciocínio e inferências e impacta em muitas áreas e domínios. A despeito das descrições definidas, ainda suscitam discussões filosóficas, mas é uma alternativa profícua ao postulado de Meinong (anti occaminiano). 

sábado, 16 de julho de 2022

Do nome à descrição definida dele

É um exercício de filosofia da linguagem ainda bem incipiente e incompleto[i]

Se eu digo “Gilberto Gil é o baiano com mais balanço”, o que isso significa e a quem me refiro? Do ponto de vista intuitivo, a frase acima significa que me refiro a Gil, isto é, o significado de Gil é o próprio Gil, qual seja, a referência. Agora, se eu digo “Gilberto Moreira é o baiano com mais balanço”, o que isso significa e a quem me refiro?

Da mesma forma, intuitivamente, essa segunda frase assere a Gilberto Moreira a descrição de ser o baiano com mais balanço. Ora, se o significado é a referência, temos um problema aqui: temos dois nomes referindo à mesma pessoa, como que sendo dois significados diferentes para a mesma referência. Além do mais, certamente alguém pode não saber que Gilberto Moreira é Gilberto Gil e pensar se tratar de outra pessoa.

Essas questões iniciais trazem algumas dificuldades em se tratar do significado de um nome como sendo a própria referência, pois parece que impede flexões. Então, o que podemos fazer é separar o significado da referência, de modo que haja uma referência (Gil) e muitos significados (Gilberto Gil, Gil Moreira, o baiano com mais balanço, o primogênito de José Gil Moreira, etc.). Ora, temos aí duas teorias da referência: uma direta (o significado é a referência) e outra indireta (o significado é uma descrição da referência[ii]).

Ora, agora parece que temos uma maleabilidade maior em descrever as referências de acordo com as descrições que queiramos e nos afastando de um significado fixado. Isso aproxima o nome que identifica o objeto das descrições [definidas] que identificam o objeto. Ainda assim, vejamos, há uma âncora lá: a referência. Mas ela pode não haver como em “Saci-pererê é o menino mais travesso”, considerando que o saci-pererê não existe.

Isso leva a um terceiro e último aspecto que gostaríamos de comentar. O fato de “falar de” seja por um nome (fixo) ou uma descrição levanta dificuldades de comunicação quando falta ou sobra significado ou referência, o que nos leva a suprimir a descrição definida por uma análise lógica. Assim, o que quereria dizer a frase “O primogênito de José Gil Moreira é o baiano com mais balanço”? Que existe um primogênito de José Gil Moreira, que há no máximo um primogênito de José Gil Moreira e que, quem quer que seja o primogênito de José Gil Moreira, ele é o baiano com mais balanço.

Tem-se que a descrição definida se despe em uma asserção de existência (o primogênito existe), de univocidade (só há um primogênito do José Gil) e da predicação (ele é o baiano com mais balanço). Essa análise já permitiria também refutar o saci-pererê[iii]. A camada aparente da linguagem fica, assim, subsumida à sua base lógica real e evitamos problemas de interpretação e comunicação.

Bem, esperamos não ter errado muito, esperamos que argumentação tenha um pouco de clareza e que possa ter coberto em linhas gerais os pontos principais, embora nesse momento eu não esteja tão certo que isso tenha sido feito a contento.



[i] Nossa intenção com esse primeiro exercício de filosofia da linguagem, descompromissado, é nos aproximarmos da escrita técnica e tentar passar brevemente pelos primórdios das teorias, circunscrevendo-nos entre Russell e Frege e só.

[ii] Conforme Frege, o sentido, ou seja, um modo de apresentar o objeto (a referência).

[iii] Já que não existe, apesar de Meinong ter proposto que ele tem um ser, que faz parte da realidade dos inexistentes.