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sexta-feira, 30 de junho de 2023

Quem é o homem no canto da sala bebendo martini?

Trata da distinção de Donnellan e porque Kripke não a considera[i]

Tentemos ser breves sobre esse ponto: dois homens estão em uma festa e falam de um terceiro que, no canto da sala, bebe algo. Os dois, quando falam dele, dizem: “o homem no canto da sala bebendo martini, etc...”, e, assim, a ele se referem. Entretanto, o homem não bebe, de fato, martini, ele bebe soda e, mais do que isso, ninguém na sala bebe martini pois não há martini na festa.

Ora, do ponto de vista de Donnellan, esse é um tipo de uso descritivo referencial, isto é, uma expressão que permite referir um objeto, mesmo que a expressão esteja errada do ponto de vista atributivo, já que se atribuiu ao homem que ele bebia martini o que, mesmo possibilitando a sua identificação, não era de fato o que ocorria. Mas é o uso descritivo atributivo que também permite identificar, aí sim, de forma correta, quer dizer, univocamente.

É o que ocorre quando, em uma investigação criminal, se busca o assassino e, ao encontrar uma pegada na lama, o policial diz: “o homem com essa pegada número 43...” e, desse modo, atribui a pegada ao assassino, embora ele não esteja presente e não tenho sido descoberto ainda, impossibilitando a referência.

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Na teoria das descrições definidas[ii], Russell enfatiza o contributo semântico que elas carregam já que, para ele, teriam significado para lá de seus referentes, não obstante os quatro quebra cabeças que ele expõe sirvam para mostrar que as descrições definidas não se conectam ao mundo por nomeação direta. Mas, Strawson entende que frases são usadas em situações conversacionais concretas em objeção à abordagem russelliana de tomar frases em abstrato, como objetos em si.

Para Strawson, as frases são usadas pelas pessoas para se referirem e em determinados contextos – só as expressões não referem. Nesse viés, ele não toma as frases como proposições que possuiriam uma forma lógica e um valor de verdade. Porém, por mais que não sejam as expressões, mas as pessoas que refiram, há um sentido secundário em que expressões referem: quando há um objeto que as satisfazem univocamente: o referente semântico da descrição. Pois bem, se Russell quer insistir que as descrições não são expressões referenciais, há esse sentido secundário no qual uma descrição pode ter um referente. E é disso que trata a distinção de Donnellan.

Donnellan pegará nesse ponto que a análise de Russell não capta: o uso de descrições definidas como nomes, para se referir. Então, se para Russell, um uso referencial como <<O Sacro Império Romano>>, com as iniciais maiúsculas, não passa de um título e não de uma descrição, Donnellan mostra que há casos de descrições usadas para darem atenção a um indivíduo particular.

Tomemos a expressão “O homicida do Ferreira é louco”. Podemos notar que se trata de um uso atributivo, já que pretende dizer que quem cometeu o terrível crime de matar o Ferreira é louco (atribui o predicado louco ao homicida). Mas, alguém (o Pedro) poderia estar a ver o julgamento, sem conhecer nada do réu, e fazer a afirmação: “O homicida do Ferreira é louco”, pois ele vê que os olhos do homem estão revirando e, dessa forma, Pedro se refere ao réu independentemente dos atributos (ele poderia estar apontando para o assassino). Conforme Lycan, o que Pedro afirma é verdadeiro se e somente se o réu for louco, independentemente de ter ou não cometido o homicídio. A isso Donnellan chama uso referencial.

Se Russell escreve como se todas as descrições fossem usadas atributivamente, Strawson relegou o uso atributivo ao enfocar o contexto de referência. Esse duplo aspecto leva à conclusão de que há ambiguidade quanto às descrições definidas. No uso referencial, o público escolhe do que se está a falar e esse uso não ocorre essencialmente, mas para chamar a atenção acerca daquela pessoa. Então, <<O F é g>>, para Donnellan, se nada é F, de nada se disse que é g (uso atributivo, isso não se aplica para o uso referencial, já que não se referencia nada).

Por outro lado, na festa há uma mulher com um acompanhante sobre o qual se diz “O marido dela lhe dá muita atenção”[iii]. Ocorre que o acompanhante é referido mesmo a mulher não sendo casada e esse é o conceito de referente semântico: aquele que satisfaz a descrição (portanto nenhum, já que ela não é casada) e que diverge do referente real[iv]. Conclui-se que, para Donnellan, não importa se não houver homicida do Ferreira, o que se disse é verdadeiro se e somente se Joaquim é louco.

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A respeito de Kripke, Ruffino mostra que ele[v] não considera descrições definidas na análise dos nomes próprios, mas apenas seu nome ordinário[vi]. Ruffino reforça que duas condições para que uma descrição definida funcione bem são a existência e a unicidade, o que foi questionado por Donnellan, para quem isso nem sempre ocorre, embora Kripke não tenho levado isso a sério. Em seu ensaio (1966), Donnellan diz que, às vezes, fazemos referência a um objeto embora a condição de existência não seja satisfeita (aqui ele cita o exemplo do título desse texto).

Ruffino enfatiza que o falante refere, o locutor entende e a conversa continua. É possível ser bem-sucedido em se referir e se comunicar mesmo usando uma descrição errada[vii]. Tudo funciona bem na comunicação mesmo com a descrição defectiva. Esse é o uso referencial de uma descrição definida quando, pelo exemplo de Ruffino, você está em um saguão esperando uma palestra começar e passa um rapaz de terno e gravata, do que você diz: “O palestrante chegou” e seu colega entende que a pessoa chegou, mas você estava errado, ele não é o palestrante.

Nesse caso mencionado, o conteúdo da descrição ou falha ou é irrelevante. Já no uso atributivo da descrição definida o conteúdo descritivo é essencial. Se ora funciona um uso e ora outro, é o caso de que a teoria de Frege-Russell falha, mas Kripke não considera esses casos e explica que esse ponto é uma questão de pragmática, pois é uma questão prática, já a semântica é uma questão mais restrita, que requer características precisas. Essa circunscrição da semântica com relação à pragmática ainda será nosso tema.



[i] Enalta-se o didatismo de Ruffino a respeito do argumento mas, ainda assim, nosso texto só toca a superfície do problema. Conforme https://www.youtube.com/embed/wRhexp8nqR4, acesso em 25/06/2023.

[ii] Aqui argumenta-se conforme nosso entendimento de Lycan, embora muita coisa fique de fora. Filosofia da linguagem: uma introdução contemporânea. LYCAN, William. Tradução Desiderio Murcho. Portugal: Edições 70, 2022.

[iii] Conforme Lycan, esse exemplo é de Leonard Linsky.

[iv] Seria uma referência fraca ou pseudo referência?

[v] Em Name and Necessity.

[vi] Considera como nome "Emmanuel Macron", mas não considera da mesma forma “O atual presidente da França”, como em O F é g. Ora, como Ruffino também mostrará, para Frege-Russell é a descrição que liga o nome ao objeto

[vii] Isso enseja a ideia de que pessoas conversam e se entendem independentemente de estarem usando descrições corretas. Seria terraplanismo?

terça-feira, 28 de março de 2023

Teoria Causal da Referência

Mostra uma nova versão de teoria da referência em resposta ao descritivismo[i]

Em seu bojo, a teoria causal da referência visa explicar o sucesso referencial de falantes ignorantes e foi exposta em forma de esboço por Kripke[ii] formulando que, segundo Sagid, um nome próprio é em algum momento introduzido no discurso e depois difundido de falante para falante. Em seus pontos principais, postula que falantes formam uma cadeia de usuários e o elo que conecta a cadeia é de natureza causal, embora nem todo elo nessa cadeia seja relevante. A existência do elo causal é condição suficiente para que o falante se refira ao objeto através do nome, mesmo sem conhecimento de fatos individuadores.

De acordo com Sagid, esse esquema permite acomodar o fato de que falantes ignorantes podem ser bem sucedidos referencialmente, sem conhecer qualquer propriedade do objeto. Entretanto, Sagid argumenta que Kripke não desenvolveu a ideia suficientemente para que se tornasse uma teoria, por exemplo, não definiu o que seria um elo causal apropriado, de tal sorte que a não delimitação torna a alegação irrefutável[iii].

Contudo, a teoria prosperou nas mãos de Michael Devitt[iv] que quebra o fenômeno da referência em duas partes: em um primeiro passo trata do fenômeno da fixação do referente, a partir da introdução do nome. É o elo causal do tipo C1 que verifica como a introdução é feita, delimitando o elo causal entre os falantes que introduzem o nome e o objeto nomeado. Já o segundo fenômeno é o da difusão social dos nomes próprios, no qual o sucesso dos usuários posteriores depende do sucesso dos usuários anteriores. É o elo causal do tipo C2 entre os membros da cadeia de uso que tomam a referência por empréstimo.

Considerando C1, a explicação de como um nome próprio pode ser introduzido para um objeto tem a forma mais comum do batismo por ostensão, isto é, um contato perceptivo, por exemplo, “Ele se chamará Aristóteles”. Esse elo causal oriundo do contato visual é condição suficiente para se atribuir um nome, a partir dele se ganha a habilidade de se usar um nome para atribuir. Embora suficiente, não é necessário, já que há outras formas como as descrições definidas que podem ocorrer no caso de se introduzir uma descrição definida antes do nome em casos simulares ao de uma investigação policial que busca o “autor dos crimes”, antes que se saiba a identidade.

Uma teoria causal mais recente (2015) foi pleiteada por Andrea Bianchi e é chamada de teoria da cópia / repetição procedendo pela relação de referência entre ocorrências de nomes e objetos. Uma ocorrência é considerada um “particular linguístico”, cada uso do NP, seja ele escrito no papel, proferido por alguém ou lido na capa de um livro. Ora, o que leva a ocorrência de um nome próprio se referir ao objeto que se refere?

Para a teoria da cópia, uma ocorrência de “Aristóteles” se refere a Aristóteles em virtude de (I) ter sido introduzida para Aristóteles ou (II) ser uma repetição / cópia de uma ocorrência que foi introduzida para Aristóteles. Nossas referências, produzidas por nós, se referem a Aristóteles em virtude de elas serem cópias de outras ocorrências, estas sim, introduzidas para Aristóteles. E o que garante que as nossas cópias se referem a Aristóteles é que o conceito de cópia é transitivo, isto é, se C é cópia de B e B é cópia de A, então C é cópia de A[v].

Esse conceito de cópia de Bianchi é, segundo Sagid, muito intuitivo e simples, já que cópia das ocorrências é tomada em sentido literal e que explica como alguém pode tomar de empréstimo a referência de outra pessoa. Literalmente cópia ou repetição: ouvimos um nome e repetimos. É um processo mecânico, mas que levanta a objeção de que se daria quiçá por uma foto copiadora ou um papagaio[vi], que é capaz de proferir a ocorrência que de fato se refere a Aristóteles. Mas o papagaio é de fato um usuário de NPA (Nome Próprio Aristóteles)? A depender de Bianchi, parece que sim, porém Sagid traz a diferenciação entre dois eventos: fazer uma referência e produzir uma ocorrência referencialmente [e meramente] bem sucedida.

Sagid então traz objeções de Jessica Pepp[vii], como o caso de um historiador que, ao escrever um livro sobre o filósofo Sócrates, copia a referência de uma notícia sobre o jogador Sócrates. Aí teríamos as ocorrências do livro se referindo ao jogador, se se toma o enfoque de Bianchi. Mas, para Pepp, o livro é sobre o filósofo e isso inviabilizaria a teoria da cópia, pois não explica esse tipo de cópia e se reforça a distinção entre fazer referência ou meramente se referir, já que, na visão de Bianchi, as afirmações do livro seriam falsas pois asseriam ao jogador coisas do filósofo, não explicando a referência por empréstimo.

Há também os usos cotidianos de NP que não parecem serem cópias, visto que não são somente produção de cópias, mas realmente fazem referência. Podemos “repetir um nome” esquisito[viii], mas isso não quer dizer “usar o nome”. Posto isso, Sagid retorna à teoria de Devitt que parece ser mais plausível na explicação de C2 e também abordará uma “formulação mista” de uma teoria histórica da referência proposta por Donnellan, como que um descritivismo causal.

Retomando brevemente, o descritivismo é uma teoria tanto do significado quanto da referência de NP, essa última tratando de fatos individuadores capazes de determinar propriedades de objetos, mas sendo contestada pelo argumento semântico de Kripke, através do qual um falante ignorante é capaz de se referir com sucesso. Essa objeção abre caminho para uma teoria da referência, antes circunscrita ao significado, cuja tentativa de Andrea Bianchi trouxe problemas suscitados por Jessica Pepp. É aí que Sagid retoma a teoria de Devitt para fixação e difusão do referente, no esquema objeto => C1 => sujeitos => C2 => falantes. C1: batismo por ostensão como condição suficiente para explicar como falantes podem introduzir nomes sem conhecimento de fato individuador. C2: fenômeno da difusão social que depende dos usuários anteriores.

Embora a explicação de C1 levante problemas, ainda pode ser considerada satisfatória, já para C2 é necessário explicar qual o tipo de elo causal entre o falante e quem introduziu o nome, isto é, qual o fundamento da cópia. Devitt simplifica e citemos, por meio de Sagid:

“Em uma situação de batismo (C1): um sujeito S percebe um objeto X e, devido a uma relação causal que lhe permite perceber X, ele pode atribuir um nome N a X. Ao fazer isto, S ganha a habilidade de usar N para se referir a X. Em uma situação de empréstimo (C2): ao ouvir (ler, etc.) S1 proferir N para se referir a X, um sujeito S2 pode, devido a uma relação com S1 (de ouvir, ler, etc. o proferimento de S1), adquirir a habilidade de usar N para se referir a X.”.

Nesse sentido, é suficiente a relação de habilidade de S2 com a habilidade de S1 em que o elo causal pode, por exemplo, ser ouvir.[ix] Como se trata de habilidades, evita-se o problema da cópia de ocorrências de Bianchi. Lembremos que, pela teoria de Bianchi, o uso de nomes como repetições suscitava a questão da referência por um papagaio, mas na linguagem temos “ações referenciais”, não repetição. Já para Devitt é uma habilidade.

Então, já que o elo não é necessário o nome pode ser introduzido por meio de uma descrição definida, como no caso de “o inventor do zíper” – e algo que unifica e permite a referência sem uma conexão causal. No caso de C2, a referência não depende dele e ele também não é necessário como um todo, mas para seu por empréstimo deve haver uma cadeia causal de difusão do nome[x].

Em vista disso, as teorias causais são históricas porque dependem do histórico de usos bem feitos. Porem, Donnellan apresenta uma teoria histórica, mas que não é causal pois, mostra Sagid, “o uso do NPA é aquele que entra na explicação histórica correta do NPA.” Sagid esclarece postulando um [fictício] observador universal da história que permite traçar uma linha de referencia dos usos que chegam no batismo e encontram A, isto e, a explicação histórica remete ao indivíduo particular encontrado pelo ouh, apesar de que essa teoria não deixa claro quais são os elos.

Crítico do descritivismo, Donnellan pleiteia uma tese positiva que traz o referente na origem e uma tese negativa sobre a referência, ao descartar qualquer fato individuador como elo da cadeia.  Apesar disso, há uma corrente descritivista que se apropria de Donnellan para inseri-lo em um descritivismo causal através do qual é o fato individuador que valida a tomada de empréstimo do nome, quando na cadeia de usos do nome próprio, como se fosse um descritivismo causal auto consciente.

Por fim, conclui Sagid, a teoria causal traz inovações como a separação entre a introdução e difusão dos nomes próprios, além de enfatizar que a referência é um fenômeno social, já que seu sucesso não depende somente de um falante, como pleiteou Donnellan com a noção de que a cadeia deve "correr bem" na comunidade linguística. Por outro lado, o aspecto social não é relegado pelo descritivismo, chegando mesmo a apontar para a cadeia de usos e invalida uma suposta critica de Kripke de que o descritivismo seria um fenômeno privado ao satisfazer determinada descrição.



[i] Recortes feitos das aulas 17 e 18 do professor Sagid Salles disponíveis no Youtube. Curso IF - Filosofia da Linguagem: https://www.youtube.com/playlist?list=PLb6DzdXIOv4EtJpTp1G9kThcOi_DATFyS.

[ii] Naming and Necessity (1972).

[iii] Lembrar toda a discussão de irrefutabilidade.  Ver discussão: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2020/11/quine-e-os-problemas-do-positivismo.html. Sagid traz o exemplo do dragão invisível caracterizado por Sagan, que postulava um dragão invisível que sempre possibilitava uma resposta a qualquer objeção.

[iv] Designation (1981).

[v] Sagid exemplifica que, mesmo se alguém fizer uma cópia de uma xérox que tirei da capa de um livro onde estava escrito Aristóteles, aí temos que todos nos referimos ao livro, e assim etc.

[vii] As referências de Sagid nas aulas remetem a seu livro Como os nomes nomeiam: um passeio filosófico sobre a referência. Sagid Salles – Pelotas: NEPFIL Online, 2020.

[viii] Gavagai? Sobre gavagai, falaremos: https://criticanarede.com/lin_quine.html.

[ix] Esse elo causal parece que justifica bem o uso de fontes em trabalhos acadêmicos, como que uma “transferência de responsabilidade” ou garantia.

[x] Ou, conforme cita Sagid, em uma difusão de informações associadas ao nome.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Argumentos contrários ao descritivismo

Argumentação de Kripke contra o descritivismo: um caminho para a volta do referencialismo em nova roupagem[i]

Se as teorias descritivistas de nomes (clássica, agregados), pelas quais o significado de um nome é o significado da descrição (particular, complexa) associada ao nome, são mais completas que o referencialismo, já que explicam também a referência (objeto que a descrição aponta), elas também trazem objeções de Kripke que são abordadas por Sagid, conforme sinapses abaixo. As duas primeiras colocam em dúvida a teoria descritivista do significado (a mais importante sendo a segunda, segundo Sagid) e, a última, a teoria descritivista da referência.

Argumento modal. Segundo esse argumento, nomes não são equivalentes a descrições pois se comportam de maneira diferente em contextos modais, que são aqueles que envolvem possibilidade e necessidade. Supondo o NP “Aristóteles” (A) e a DD “o fundador da lógica formal” (oflf) temos de 1.) "Se Aristóteles existe, então Aristóteles é Aristóteles", algo que não falha, a derivação X.) "Se Aristóteles existe, então Aristóteles é _______". Atribuindo a DD, postula-se 2.) "Se Aristóteles existe, então Aristóteles é oflf", algo que não é necessariamente verdadeiro, mas que, para o descritivismo clássico, teria o mesmo significado (1 e 2). Entretanto, Aristóteles poderia ter existido e não ter fundado a lógica formal.

Ora, se 1.) é necessariamente verdadeiro e 2.) é uma verdade contingente, então não podem ter o mesmo significado. 1.) e 2.) tem a mesma estrutura, diferindo pela última ocorrência de Aristóteles que, ao ser substituida pela descrição definida, acarreta a diferença de significado. Por isso, o nome próprio não é equivalente à descrição definida dele e, não só, mas por nenhuma descrição e o argumento se generaliza[ii].

Mundos possíveis. O argumento modal de Kripke se vale do conceito moderno de “mundo possível”[iii][iv], isto é, do modo como o universo é, por exemplo, o fato de que “este mundo é tal que eu sou computeiro” mas, o mundo poderia ser diferente e eu poderia ser um filósofo. Se há muitos modos, cada modo é um mundo possível, assim como esse mundo, agora, é um mundo possível[v]. Daí que é possível algo que é o caso em pelo menos um mundo possível e é necessário algo que é o caso em todos os mundos possíveis. Esse conceito pressupõe coisas do tipo “Gosto de filosofia em pelo menos um mundo possível”, mas “é necessário que 2 + 2 = 4”, algo que vale em todos os mundos possíveis.

Designador rígido. Retomemos 1.) "Se A existe, então A é A" e 2.) "Se A existe, então A é oflf". Pleiteia-se que 1.) é necessário, já que é verdadeiro em todos os mundos possíveis e 2.) não é necessário já que é verdadeiro em alguns mundos possíveis, isto é, contingentemente verdadeiro. Quer dizer, o valor de verdade de 1.) é constante de mundo para mundo, do que Kripke tira, segundo Sagid, que, como o referente do NP é constante, ele é um designador rígido, e como o referente da DD varia, ela é um designador flácido.

3.) “O flf é um homem” é verdade no nosso mundo, mas em outro poderia ser uma mulher. Como o referente da descrição definida se altera de mundo para mundo, então o valor de verdade de 3.) varia. Já 4.) “Aristóteles é um homem” marca o referente em todos os mundos, já que podemos verificar se Aristóteles é um homem, mas não precisamos procurar o referente. Embora Aristóteles pudesse ter tido outro nome, uma vez que A nesse mundo atual seria A em todos os mundos, já que A seleciona sempre o mesmo indivíduo. Ao falarmos de A, sempre falamos de Aristóteles.

Sagid define o designador rígido como “Um termo T é rígido se, e somente se, designa o mesmo indivíduo em todos os mundos possíveis onde ele existe”. Já o designador flácido é assim definido: “Um termo T é flácido se, e somente se, não é rígido.”. Então, o argumento modal versa que nomes próprios são designadores rígidos, mas as descrições definidas associadas a eles normalmente não são designadores rígidos. E os designadores rígidos não têm o mesmo significado que os designadores não rígidos. Portanto, nomes próprios e designações definidas se comportam de maneira diferente em contextos modais e, por isso, seus significados são diferentes. 

Argumento epistemológico. Assim como o argumento modal, o argumento epistemológico procura refutar a teoria descritivista do significado dos nomes próprios. Para o argumento epistemológico, nomes e descrições não são equivalentes, isto é, não tem o mesmo significado porque se comportam de maneira diferente em contextos epistêmicos, que são aqueles que envolvem crença e conhecimento.

Novamente, dados o NP A e a DD oflf temos, pelo descritivismo, que são equivalentes. Podemos generalizar 5.) “João sabe que A é A” em Y.) “João sabe que A é _______” e derivar 6.) “João sabe que A é oflf”. Pelo princípio da composicionalidade, como sabemos, o significado de uma frase é dado pela sua estrutura e o significado das partes. Ora, 5.) e 6.) tem a mesma estrutura, mas suas partes não parecem ter o mesmo significado já que 5.) é um conhecimento trivial (a priori e, portanto, verdadeiro) e 6.) poderia ser falso, o que faz com que o NP e a DD não tenham o mesmo significado.

Como no caso do argumento modal, aqui também podemos generalizar e, para qualquer descrição definida poder-se-ia dar o caso e, por conseguinte, o significado de A não ser dado por nenhuma descrição definida associada a ele.  O mesmo vale para o complexo de descrições pois também pode dar-se o caso de o ouvinte não saber das descrições relevantes, posto que é uma crença difícil de ser atribuída a alguém.

Há o truque de associar 5.) e 6.) formando 7.) “João sabe que o oflf é oflf”, isto é, substituindo todas as ocorrências do NP e aí seria também uma sentença trivial, como 5.). Assim sendo, 7.) não parece ter o mesmo significado de 6.), isto é, 7.) é V e 6.) é F. Também poderia ser argumentado que a objeção é válida, mas não quando é aquela descrição que fixa o nome. Porém se é o caso exatamente da descrição que associa o nome, então Russell diria que são equivalentes (NP ~ DD)[vi].

Mas, de fato, pode dar-se o caso de serem equivalentes. Porém, Sagid ressalta outro problema, o de falantes que podem significar coisas diferentes quando significam um nome, que é o caso de “A é legal” significando “O flf é legal” ou “O am é legal” (am abreviando o autor da metafísica), dependendo do falante, algo que a teoria dos agregados poderia tentar resolver com a descrição complexa da comunidade, mas que ainda assim poderia diferir da de um falante qualquer, como já vimos.[vii]

Argumento semântico[viii]. Já o argumento semântico, por seu turno, tocará na referência alegando que é verdade que o referente é dado pela descrição, mas não é verdade que o significado do nome é dado pelo significado da descrição. Dados o NP A e a DD oflf temos que o referente do NP é dado pelo referente da DD já que é ela que o fixa. Se a DD não tiver referente ou tiver mais que um referente, o NP falha em se referir, mas se houver um e apenas um objeto que possui a propriedade indicada, então esse indivíduo é o referente.

Fato individuador. Ora, se A tem referente é porque se sabe que ele é oflf, há uma crença verdadeira, isto é, se há referente, o usuário do NP sabe que há referente. Por conseguinte, segundo Strawson, tem-se conhecimento de um fato individuador acerca de A: o fato de ser oflf. Sabe-se que A é o único indivíduo a possuir a propriedade de ter sido oflf. Esse fato singulariza, diferencia A do resto dos indivíduos. E, continua Sagid, o conhecimento de um fato individuador é um conhecimento discriminatório, que permite identificar o indivíduo.

O sucesso em se referir provém do conhecimento de um fato individuador que é considerado uma condição de necessária, embora possam haver outros conhecimentos discriminatórios, conforme sugerido por Strawson, como a percepção. Entretanto, para o descritivismo, são as descrições definidas que permitem o conhecimento de fatos individuadores. O flf é algo só de A, mas ele primeiro seleciona o indivíduo e depois usa o nome. Primeiro a DD e depois o NP.

Falante ignorante. O argumento semântico pressupõe o falante ignorante, que não conhece um fato individuador acerca de algo e se enuncia como:

(P1) Se o descritivismo está correto, então não existem casos nos quais um falante ignorante acerca do referente de um nome consegue se referir a algo através do nome.

(P2) Todavia, existem casos nos quais falantes ignorantes têm sucesso em se referir a algo através de nomes.

(C) Logo, o descritivismo é falso.

Se P1 é o requisito epistêmico, P2 é verdadeiro?

A argumentação de Kripke vai no seguinte sentido, tematizado por Sagid e por nós apropriado, como todo o resto das postagens do curso do IF: Joãozinho vai a aula e escuta do professor “Newton foi mestre de Platão”. Chegando em casa, Joãozinho diz: “Pai, o Newton foi m de P” e aquele responde: “Não, não foi”.  Ora, o exemplo mostra que, mesmo dizendo uma falsidade sobre Newton, ele teve sucesso em se referir, mesmo sem conhecer um fato individuador. Agora vejamos o exemplo de Donnellan: os pais estão com uma criança em uma festa e ela dorme. Enquanto isso, os pais encontram Tom e ela abre o olho, diz “oi” e dorme novamente. No outro dia, a criança fala: “Tom é legal”. De novo, ela não conhece um fato individuador e até poderia ter mais de um Tom na festa, mas ela se referiu a Tom.

Entretanto, Sagid aponta para uma supervalorização do argumento, como que somente a pergunta “Quem é Aristóteles?” (que uma criança faz a despeito da conversa de seus pais) já serviria para argumentar que foi feita a referência, mesmo sem que nada se saiba sobre Aristóteles. Então, se a objeção é importante, deve ser usada sem exageros e indeterminações, como pensar que o argumento semântico fosse capaz de pleitear uma tese mais forte e mostrar que falantes completamente ignorantes são capazes de se referir. Ocorre que a pergunta “Quem foi Aristóteles?” pode mostrar que o falante pode não ser tão ignorante pois há o fato individuador que é o fato de que A é a pessoa sobre quem os pais estão falando. E o fato de ouvirmos a frase “Maria é legal” não sugere que conhecemos Maria e que se pode defender a tese forte, pois se nos perguntassem “Quem é Maria?”, diríamos “Não sei” e ficaria difícil, depois disso, afirmar que ela é legal, o que corrobora o insucesso referencial.

Dito isto, o quadro atual é:

1.)   teoria referencialista: o significado é a referência – levanta 3 enigmas que podem ser solucionados pela:

2.)   teoria descritivista (clássica ou agregados): significado do nome é significado da descrição e referência do nome é referência da descrição – levanta as 3 objeções que descrevemos que poderiam ser resolvidas pela:

3.)   teoria causal da referência, que é uma teoria da referência que se soma ao referencialismo, que é uma teoria referencialista do significado.



[i] Recortes feitos das aulas 14, 15 e 16 do professor Sagid Salles disponíveis no Youtube. Curso IF - Filosofia da Linguagem: https://www.youtube.com/playlist?list=PLb6DzdXIOv4EtJpTp1G9kThcOi_DATFyS.

[ii] O fato de Aristóteles poder ter morrido meses depois de nascer, o que o deixaria despido de descrições, não me soa convincente, senão que de muito mal gosto.

[iv] Ref. de Sagid: https://criticanarede.com/fil_essencialismo.html: Essencialismo Naturalizado: Aspectos da Metafísica da Modalidade

[v] Há uma extrapolação metafísico-realista do argumento que versa que cada mundo possível existe na realidade. Sobre isso, ver episódio “#12 - RICARDO SANTOS - SAUL KRIPKE: (O NOMEAR E A NECESSIDADE)”: https://www.youtube.com/watch?v=Mk5toR26ESE&ab_channel=FILOSOFIASer%26Pensar

[vi] Mas deveria ser conhecida por todos?

[vii] Sagid ainda aponta para um descritivismo da referência, de Frank Jackson, que podemos investigar posteriormente.

[viii] Atribuído a Kripke e Donnellan, de acordo com Sagid.