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quarta-feira, 4 de março de 2026

Carnap antes da semântica

Apresenta a evolução do fenomenalismo para a sintaxe lógica

Contexto histórico. De acordo com Emmendorfer[i], Ernest Mach, através de uma espécie de sensorialismo radical, influenciou a primeira fase de Carnap, a fenomenalista, expressa no Aufbau[ii] (1928). A proposta era que os objetos mais simples seriam qualidades sensíveis (“este vermelho” - Erlebnisse), constituindo uma base auto psicológica do sistema construcional. Carnap (e Neurath) também foram influenciados pelo convencionalismo de Poincaré e o holismo de Duhem. Os empiristas lógicos, reunidos no Círculo de Viena, davam muita importância à investigação lógica da linguagem, como sabemos. 

Emmendorfer pontua que, para os empiristas, o significado estaria ligado à experiência e só poderia ser confirmado ou infirmado pela verificação. É uma tese reducionista, segundo ela, que se vincula à tese extensionalista do Aufbau. No manifesto “A concepção científica do mundo”, distinguiam-se dois tipos de sentenças: as analíticas, cujas verdades são determinadas pelas regras da linguagem, e as sintéticas a posteriori, que se apoiam nos dados empíricos coletados por observação. Caberia à filosofia esclarecer o sentido das sentenças. 

O reducionismo de Carnap, ela continua, consistia em reduzir enunciados empíricos a mais elementares, os dados vivenciados e categorizados como proposições protocolares. Entretanto, de acordo com a visão de Neurath, proposições protocolares serviriam para descrever o mundo, não se confundindo com as próprias vivências. Conforme citação: “E a elaboração das proposições protocolares são convenções nas quais são tomados os dados empíricos e a partir disso é feita a redução” (p. 61). Visava-se uma linguagem ideal construída convencionalmente pela escolha ou descarte das proposições protocolares, elementares para formar a base das teorias[iii]. 

No artigo “A superação da metafísica por meio da análise lógica”, como observa com Emmendorfer, Carnap se utiliza de critérios para atribuir significado aos conceitos. Isso é feito através de proposições simples como “x é um mamífero”, na qual “x” pode ser substituído por “este cachorro” e validando contra as características da classe dos mamíferos. Pela análise, então, se chega na significatividade da palavra dada, decompondo e reduzindo proposições.

A fase fenomenalista de Carnap. Conforme acima, Emmendorfer destaca classificação de Stein que associa essa fase ao Aufbau. Na obra, há uma genealogia de conceitos, a partir dos quatro níveis tratados no texto da nota [ii]. Segundo Emmendorfer, o reducionismo tem um viés lógico, de um constituinte suficiente e outro dispensável e um viés epistemológico, de um núcleo e uma parte secundária.

Dado o exemplo que ela utiliza “Se eu franzir a testa, então estou pensando em algo”, pelo lado lógico, há um constituinte suficiente que é “pensar em algo” - por experiências anteriores sei que o constituinte secundário (franzir a testa) é um conhecimento por familiaridade, aspecto físico que me leva ao mental, o núcleo (pensar em algo). Por outro lado, o aspecto físico de “franzir a testa” é reduzido epistemologicamente ao “pensar em algo”, isto é, o conhecimento de “franzir a testa” está contido em “pensar em algo”, em termos de redução lógica.[iv] 

Carnap, buscava, nessa fase, uma reconstrução do mundo mediante uma base auto psicológica[v], mas depois passa a se preocupar com a forma da linguagem, a sintaxe, se utilizando de uma metalinguagem que analisa linguisticamente uma linguagem objeto. 

A fase sintática de Carnap. Já em 1934, influenciado pela metamatemática de Hilbert e Tarski, Carnap constrói uma teoria geral das formas linguísticas, por meio de uma sintaxe lógica. Há uma metalinguagem que possibilita transformar proposições de uma linguagem objeto através de regras da lógica simbólica. Aí já não se utilizam as vivências como base do significado das proposições, projeto do Aufbau, mas a linguagem simbólica, ainda que com a mesma ideia do esclarecimento das teorias científicas.

Na leitura de Emmendorfer, é uma passagem do reducionismo fenomenalista para uma análise lógico-sintática e independente da noção de significado com destaque para o princípio da tolerância, sobre o qual regras são formadas pela conveniência de cada teoria. Aí ainda há linguagem extensional, mas também se abre espaço para uma linguagem lógica. Nesse momento, então, o projeto de esclarecimento de controvérsias filosóficas é menos factual, lidando com os objetos e mais formal, por meio de signos.

Nessa época, a semântica ainda não é tematizada como teoria do significado; a análise permanece formal e sintática. A virada semântica só ocorrerá quando o problema da verdade e da referência entrar no centro da reflexão.



[i] Na página 54 de O significado em Frege e Carnap. Ela atribui as fases de Carnap a uma definição de Sofia Stein em sua tese de doutorado. Usaremos o capítulo 2 aqui.

[ii] Exploramos aqui: https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/02/aufbau.html. O artigo discute a obra Aufbau (A Estrutura Lógica do Mundo), de Rudolf Carnap, defendendo que o projeto deve ser compreendido como uma reconstrução racional de caráter lógico-linguístico, e não apenas como um sistema epistemológico ou empirismo ingênuo. O autor explica que Carnap propõe um sistema construcional onde conceitos de diferentes domínios (auto psicológico, físico, hetero-psicológico e cultural) são reduzidos a uma base comum por meio da lógica, utilizando um "solipsismo metodológico" que busca objetividade através de propriedades estruturais da experiência. Ao final, o texto contrapõe as críticas de Quine, argumentando que o fundacionismo de Carnap não é dogmático ou infalível, mas sim uma escolha metodológica e convencional baseada na clareza das regras lógicas e na tolerância linguística. (resumo Gemini em 01/03/2026). 

[iii] Não passaremos por Wittgenstein e o Tractatus pois este tema já foi explorado nesse espaço em outras oportunidades. 

[iv] Pensar em algo é derivado de franzir a testa já que franzir a testa aponta para pensar em algo, conforme Emmendorfer, embora saibamos que “franzir a testa” também possa ser um truque. 

[v] Os objetos auto psicológicos são os elementos mais básicos do sistema construcional, ponto de partida epistêmico e estrutural. Eles são os conteúdos imediatos da experiência própria do sujeito. São dados pré-objetivos, por exemplo, uma mancha visual marrom que vejo agora e não o objeto físico cadeira. Eles têm primazia epistêmica absoluta, para Carnap, porque são dados diretos, não dependem de hipóteses e permitem construção de outros objetos. Importa salientar que não são vistos por Carnap como ontologicamente mais reais, mas de um ponto de vista lógico. Então, a cadeira é uma construção lógica sobre padrões de experiência. Eles são autopsicológicos porque são objetos definidos exclusivamente em relação ao fluxo de experiência do próprio sujeito e daí para a linguagem pública, o mundo físico e a intersubjetividade. Conclui-se que, no Aufbau, o mundo físico não é o fundamento e a ordem não é mundo → experiência, mas experiência → mundo. (burilando ChatGPT...) 

terça-feira, 17 de setembro de 2024

Uma teoria da mente

Detalha um pouco mais uma teoria da mente cujo nível mais abstrato é o intencional

Nas ciências e na filosofia tem-se o hábito da análise por meio de teorias. Dessa forma, os problemas são nela enquadrados e elas se propõem frutíferas, até que sejam superadas. Sobre isso Kuhn muito falou[i]. Entretanto, a teoria que usamos em determinada situação é um óculo que ao mesmo tempo amplifica nossa visão e impede que vejamos ao largo. Mais ainda, uma teoria é uma base através do qual se constroem muitos edifícios e, quando passamos a habitar um deles, esquecemos de sua fundação. Mas não importa, desde que útil e conveniente.

Ilustremos: quando Dennett faz uma divisão em três níveis de explicação dos processos que descrevem organismos ou aparatos complexos, ele permite uma análise interessante, mas isso não significa que não haja outros pontos de vista relevantes. Mas, o caso aqui é a sua análise, é ela que vamos esquematizar com Teixeira[ii].

São eles: o físico, o do design ou planejamento e o intencional. Visam explicar comportamentos de organismos / dispositivos complexos. O primeiro é o da aplicação das leis da natureza cujo número de variáveis não é abarcado por método conhecido por ser muito grande. O segundo é da descrição da arquitetura e encaixe de peças que permitem o seu funcionamento. Por fim, o terceiro trata do sistema que atribui a ele racionalidade, predicados mentais.

Conforme já dito, o uso de termos psicológicos é uma estratégia eficiente já que permite predizer comportamentos, independentemente da base ontológica desses termos e ainda nos livra de explicações físicas ou do seu projeto de concepção. Assim, a predição do comportamento de um computador que joga xadrez pela perspectiva intencional assume que ele tem “desejo” de ganhar e que “conhece” as regras do jogo.

Entretanto, não se pode eliminar a psicologia popular como desejavam alguns materialistas e assume-se nossa ignorância perante a complexidade de alguns sistemas[iii]. Uma vez assumida uma perspectiva intencional para a previsão de comportamento, por mais que certos sistemas sejam acessíveis a uma descrição que chegue ao nível físico, ainda assim se mantem a versão mais abstrata dada sua capacidade de sistematização[iv].

De toda sorte, para Dennett seria impossível a redução do intencional ao físico (ou do intensional ao extensional). Mesmo que haja uma área no cérebro que cintile quando ocorre determinada crença, não há garantia de tradução inequívoca do vocabulário psicológico ao neurológico. Ora, por mais que se possa atribuir crenças ou intenções a um robô, isso não significa que haja um determinado substrato físico. Essa é a tese funcionalista que prosperou nos anos 70 incentivando a possibilidade da inteligência artificial independente de um substrato biológico.

Como em um jogo de xadrez que independe do material do qual são feitas as peças, há o jogo, as regras que não se reduzem ao substrato. Assim também a mente não se reduz ao cérebro embora “esteja” nele[v]. Além disso, o funcionalismo é não reducionista, conforme explica Teixeira, já que não se pode saber que música está sendo tocada somente observando o funcionamento das peças do rádio. Há, também, a tese da múltipla instanciação: dois rádios diferentes podem tocar a mesma música e dois rádios idênticos podem tocar músicas diferentes. Essa é uma analogia para a teoria da identidade cérebro mente chamada token-token e que será estudada adiante.



[i] “O expoente é Kuhn com o “paradigma”, quer dizer, as crenças e valores dos cientistas e o modelo de sua atividade ficam vigentes enquanto tratam dos problemas de determinada visão de mundo, até que entram em crise e uma revolução estabelece um novo paradigma. Nesse sentido, mais do que uma acomodação aos fatos do mundo, vale resolver os problemas.” – Citação de Introdução panorâmica à filosofia e sociologia da ciência do século XX – quinto parágrafo. https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/02/introducao-panoramica-filosofia-e.html.

[ii] Conforme páginas 43 a 50: A mente segundo Dennett, de, João de Fernandes Teixeira. São Paulo: Editora Perspectiva, 2008.

[iii] Seria o caso de que isso se contrapõe a uma visão de autonomia tecnológica? Conforme https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2021/08/democracia-tecnologica.html.

[iv] Nem se cai nas teses behavioristas de tratar aprendizado por reforço – comportamento determinado pelo ambiente.

[v] A mente pode estar corporificada: tese enativista. 

domingo, 18 de outubro de 2020

O programa do positivismo lógico [i]

Ayer é o iminente filósofo britânico condensador das ideias do positivismo lógico, oriundas do Tractatus e do Círculo de Viena. Seu livro, Language, Truth and Logic (1936) já se inicia com a tarefa reconhecida dos positivas de eliminação da metafisica com a frase “As disputas tradicionais dos filósofos são, em sua maior parte, tão injustificadas quanto infrutíferas”.

Como principal crítica, os positivos consideravam as proposições metafisicas como desprovidas de significado, sem conteúdo cognitivo. A base do ataque era lógica e se fundava no critério de verificabilidade da significação, para o qual proposições devem ser [francamente] verificáveis [em princípio] para poderem ter significado, como o são as da matemática e lógica e não as da metafísica.

Schwartz lista sete princípios do programa do positivismo lógico:

1.      A eliminação da metafisica, da ética, da estética e da teologia pelo critério de verificabilidade da significação.

2.      A causa da perplexidade da metafisica é a gramática superficial da língua; sua cura é a análise lógica.

3.      A lógica e a matemática não consistem em nada além de tautologias. Estas são verdades formais que não têm conteúdo referencial.

4.      Todas as proposições que são necessárias ou a priori são sintéticas. Todas as proposições que são contingentes ou a posteriori são tautologias.

a.      Analiticamente verdadeiro = tautológico = a priori = necessário.

b.      Sintético = a posteriori = contingente.

5.      Toda a ciência consiste num único sistema unificado com um único conjunto de leis naturais e fatos. Não há métodos ou sistemas separados nas ciências psicológicas ou sociais.

6.      A máxima suprema no filosofar científico é esta: Sempre que possível, entidades inferidas devem ser substituídas por construções lógicas.

7.      Enunciados éticos não têm conteúdo cognitvo, mas exprimem atitudes e emoções.

A metafísica tão requisitada se daria por uma ilusão de linguagem a ser resolvida pela análise lógica e mesmo números poderiam ser entidades metafísicas suspeitas, até que Wittgenstein postula esse discurso como tautologias formais sem qualquer peso ontológico ou referencial.

É o caso da substantivação de adjetivos, por exemplo, a rapidez. No discurso da linguagem a rapidez deveria se referir a algo, mas a que? Daí que rapidez se torna um universal sujeito a controvérsias mesmo por Russell, até que Wittgenstein os elimina na lógica simbólica. Discursos metafísicos intermináveis sobre a existência são eliminados com a lógica simbólica: “Zebras existem” passa a ser ∃xZx: Existe um x tal que x é uma zebra.

Sobre o sexto princípio, trata-se do reducionismo de Russell, como no caso do discurso físico sobre objetos se transformarem em discurso sobre “dados dos sentidos”, mesmo que essa redução ainda fosse um ideal de difícil aplicação. Essa tradução é o fenomenalismo que foi abordado por Carnap como um discurso remetendo ao dado, reconstruído o conhecimento com base na experiência imediata (empirismo positivista).

O Fenomenalismo foi reduzido por Ayer a conteúdos sensoriais, dizer algo sobre “mesa” é dizer sobre um símbolo e em última instância sobre um conteúdo sensorial. O conteúdo sensorial é, então, uma construção lógica, uma proposição linguística e não parte da coisa material. Essa linguagem fenomenalista seria a linguagem da ciência unificada.[ii]

Uma contraposição ao fenomenalismo dentro do próprio Círculo de Viena veio do fisicalismo de Neurath que, com uma posição marxista, tratava da linguagem comum de objetos físicos. O fisicalismo substituía os conteúdos sensoriais por processos neurofisiológicos e comportamento.

Por fim, do sétimo se extrai o emotivismo e a proposta de que a ética não é normativa e não resulta em juízos de valor verificáveis, apenas justificáveis, e que por trás do discurso ético ainda poderia haver um ideal utilitarista ou de felicidade.




[i]
 Uma breve história da filosofia analítica de Russell a Rawls. Schwartz, Stephen P. São Paulo: Edições Loyola, 2017, p. 75 e ss.

[ii] Esses temas estão fortemente presentes no projeto husserliano, mas lá é voltado a vivências subjetivas e não a conteúdos sensoriais. Tema a ser melhor explorado: o fenomenalismo de Carnap e a fenomenologia de Husserl.

sábado, 2 de maio de 2020

Psicologia Popular*

Trata-se de supor a existência de crenças e desejos, algo negado pela ciência materialista que não os define como entidades físicas e materiais e, portanto, relega-os uma existência mística ou metafísica.

A PP não é uma teoria [proposicional], mas baseia-se no background, ou seja, na nossa experiência. Entretanto, as teorias populares são verdadeiras em sua maioria, de outra forma a humanidade não teria sobrevivido. Se a física popular pode se enganar sobre a origem do universo, por exemplo, isso não é verdade para o movimento dos corpos em geral, pois sabemos o que ocorre com nosso corpo ao pularmos de um penhasco.
Dito isto, a PP não postula crenças e desejos que deveriam ser validados pelas ciências cognitivas. Crenças e desejos são experimentados conscientemente, por exemplo, minha vontade de tomar água agora. Além do mais, não é uma conditio sine qua non que crenças e desejos causem ações invariavelmente, visto que ainda não acertei na loteria.
Mas por que reduzir as entidades da PP a entidades básicas das CC? A redução de crenças e desejos à neurobiologia é irrelevante para a existência das crenças e desejos já que a existência dos fenômenos é anterior à teoria. Além do mais, a redutibilidade não garante legitimidade às entidades, embora tenha sido uma exigência incompreensível para a ontologia.
Por fim, parece difícil refutar possíveis proposições da PP, como:
1.      Em geral, crenças podem ser verdadeiras ou falsas.
2.      Às vezes as pessoas ficam com fome e, quando estão com fome, frequentemente querem comer algo.
3.      As dores são muitas vezes desagradáveis. Por esta razão, as pessoas frequentemente tentam evitá-las.
Tratam-se, na verdade, de princípios das crenças e desejos, ou seja, fazem parte de suas definições. Um exemplo clássico é o engano que o bom senso atribui a uma dor sentida no pé. Verificou-se que a dor se dá de fato no cérebro, mas isso não torna a dor inexistente. Isso não autoriza sua eliminação. Significa apenas que o senso comum é complementado pelo conhecimento científico adicional.



* Conforme: SEARLE, J. A redescoberta da mente. São Paulo: Martins Fontes, 2006. Apêndice p. 87: Há algum problema com a Psicologia Popular?

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Investigação da mente: evolução e intencionalidade[i]

Trata-se de mostrar a contribuição metodológica de Dennett pelo aspecto evolutivo, utilizando-se de Darwin, porém com as limitações do aspecto intencional. De toda forma, abre-se uma perspectiva explicativa para nos tirar da zona de conforto do dogmatismo de acreditarmos que somos seres superiores.

Introdução. Gildeon localiza o funcionalismo como uma teoria fiscalista não reducionista, ou seja, fisicalismo que, entretanto, aceita a irredutibilidade do mental ao físico, mas não como sendo um dualismo de substância e sim tratando os estados mentais como propriedades físicas[ii]. No funcionalismo os estados mentais executam funções que não são idênticas ao cérebro e, dessa forma, se alinha ao uso de inteligência artificial equiparando corpo e mente a hardware e software e abrindo caminho para a realização de estados mentais em robôs.
Gildeon classifica Daniel Dennett como um funcionalista materialista, pois considera a função uma mera abstração e também naturalista, pois trata o mental como produto da evolução e então aborda os primeiros capítulos da obra Tipos de Mentes[iii]. A partir de Wrigley[iv], Gildeon ressalta dois problemas materialistas que são tratados por Dennett: consciência e intencionalidade. Sobre a consciência, Dennett ressalta o papel fundamental da linguagem como elemento responsável por nossa ação, capacidade exclusiva humana e alcançada pela evolução. Sobre a intencionalidade, como evento físico no cérebro representando estados externos, Dennett aponta que isso também ocorre em animais mais primitivos que, ao representarem o ambiente em que estão inseridos, guiam suas ações de sobrevivência[v].
Outro ponto que Gildeon destaca é a rejeição de Dennett ao hard problem, elaborado por Chalmers[vi], já que para Dennett não há estado subjetivo independente e ele considera o “eu” uma ficção, como a gravidade na física, abrindo espaço para a análise da mente a partir da terceira pessoa, como ciência.

A perspectiva evolutiva. O primeiro alerta de Dennett, segundo Gildeon, é o de procurar abordagens que transponham as tradições superando os mistérios da mente por uma metodologia um pouco tateante no ir e vir da mente humana e de outros animais numa perspectiva evolutiva que não se da em linha reta. Em busca dessas diferenças, há questões de natureza ontológica “Que tipos de mentes existem?” e epistemológica “Como sabemos?”, porém evitando a tradição que parte da nossa capacidade de conhecer as realidades existentes (ressalta-se a oposição conhecer e ser).
Embora sabendo da dificuldade em se conhecer a mente, é preciso desassociá-la do incognoscível, afinal sabemos que temos uma mente e um cérebro, mas não os conhecemos do mesmo modo, já que a primeira conhecemos internamente, entretanto não caímos no solipsismo porque sabemos que os outros homens também têm a sua mente.  Para Dennett, conforme Gildeon, sabemos que temos uma mente principalmente pelo pronome “você” e pela linguagem que permite compartilhar nosso mundo subjetivo, embora seres sem linguagem ou fala também possam ter uma mente (ausência de fala não é ausência de mente).
Comparando a linguagem à impressora de um computador, Dennett argumenta que ele pode existir sem ela, ou mesmo realizar coisas sem pensar, inconscientemente. Ou seja, aquelas criaturas sem linguagem poderiam realizar as coisas automaticamente, como nós, reduzindo nossa fronteira para com eles. De modo a fugir de questões insolúveis, Dennett propõe o esforço investigativo frente à mera imaginação, baseado em hipóteses como saber se a linguagem é de fato periférica ou se há mesmo criaturas com uma mente. Dennett aponta para a investigação histórica de que evoluímos de seres com mentes mais simples ou sem mente, como caminho para obter respostas. E na atitude interpretativa da mente, no seu aspecto intencional.

A postura intencional. Dennett trata a postura intencional como um comportamento que governa as ações se baseando em crenças e desejos, aproximando-se da “psicologia popular”. Dennett visa a postura intencional a outros seres, no sentido de uma antropomorfização que conduza descoberta de diferenças para com os nossos ancestrais e demais espécies. Assim o fenômeno da mente leva a uma ancestralidade comum.
Citando o exemplo de um vírus que toma inúmeras ações automáticas e detalhadas para se reproduzir, Dennett busca mostrar, segundo Gildeon, que há uma predição das ações e movimentos dessa entidade, mesmo que não consciente de razões, porém como um agente de ação, não passivo.
Dennett estabelece uma hierarquia de estratégias de predição, primeiro uma postura física, baseada em leis que guiam o movimento dos corpos, depois a postura de planejamento, quando algo é planejado para funcionar de determinado modo, como o avião, por exemplo, mas que pode ter sido mal projetado e não funcionar corretamente. Por fim, a postura intencional que, além de planejada, ainda seguiria pela busca do próprio bem (no caso do vírus, buscando sobreviver).
Sobre a racionalidade e a busca do próprio bem se configura a função como respostas certas a evolução natural. Então, utiliza-se a postura intencional para se verificar qual poderia ser a escolha racional de agentes supostamente inteligentes para satisfazer suas necessidades. Aqui o alerta e limitação de não se imputar atributos enganosos às entidades investigadas.
Gildeon finaliza com a distinção do uso da intencionalidade nesse contexto, não como voluntariedade, mas no sentido de destinar-se a algo em um modelo chave e fechadura. Mesmo que “involuntária e automaticamente”. E, sobre a metodologia, Gildeon ser pergunta se essa metodologia harmoniosa "evolução intenção" se aplicaria além dos limites do funcionalismo.



[i] Conforme “Daniel Dennett: uma perspectiva evolutiva da mente”. De Gildeon Oliveira do Vale, acessado em http://www.periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/bauman/article/view/9507, 11/04/2020. Cadernos Zygmunt Bauman, Universidade Federal do Maranhão.
[ii] Referência a VIANA, Wellistony C. “Hans Jonas e a filosofia da mente”.
[iii] DENNETT, Daniel. Tipos de mentes – rumo a uma compreensão da consciência. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
[iv] WRIGLEY, Michael, O seu tataravô era um robô, FSP, 11 de julho de 1998. Em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1998/7/11/caderno_especial/10.html., acessado em 12 de abril de 2020.
[v] Importante ponto ressaltado por Wrigley é a diferença de abordagem da intencionalidade entre Searle, que considera haver mais de uma e Dennett considerando apenas uma.

domingo, 8 de março de 2020

Emergentismo

Pegamos um recorte pequeno de El-Hani & Queiroz[i], para definir a emergência como a criação de novas propriedades que são emergentes, ou seja, são de um nível superior e se relacionam a uma microestrutura de um sistema. Eles afirmam que uma teoria fisicalista emergente deve se comprometer com o naturalismo, em oposição a entidades sobrenaturais e o monismo[ii] físico: todas as entidades são constituídas de partes físicas[iii] e seguem leis físicas.
Conforme Pessoa[iv], “quando a matéria adquire um certo grau de complexidade, aparecem propriedades genuinamente novas, que não estão presentes em cada uma das partes separadas do todo”[v]. George Henry Lewes, ao tratar da emergência, cita o caso da água: “não sabemos como a Água emerge do Oxigênio e Hidrogênio. O fato da emergência nós conhecemos; e podemos estar seguros de que o que emerge é a expressão de suas condições”.
Cabe ainda citar, conforme Pessoa, o cientista inglês Conwy Lloyd Morgan, que usou a emergência no campo da teoria da evolução biológica tratando do desenvolvimento advindo de mudanças mecanicistas, que ocorrem continuamente na evolução, mas também de efeitos emergentes que surgem no nível da vida, fora do ornamento físico mecanicista. E Charlie Dunbar Broad como o filósofo que mais trabalhou a ideia de emergência na Filosofia da Mente, que permite conciliar materialismo com não reducionismo.
Já o neurocientista Roger Sperry concebeu que os fenômenos mentais não estariam no nível neuronal, mas em uma camada acima, holista, que culminaria com a tese da causação descendente, onde a consciência poderia controlar o cérebro[vi]. Nesse ponto, Pessoa lembra Jaegwon Kim, já que para ele o universo físico teria um “fechamento causal” e não haveria espaço para uma relação causal de natureza mental.



[i]  Conforme "Modos de irredutibilidade das propriedades emergentes", de Charbel Niño El-Hani & João Queiroz, 2005. URL: http://www.scielo.br/pdf/ss/v3n1/a01v3n1.pdf, acesso em 08/03/2020.
[ii] Conforme Wikipédia: “Em geral, é o nome dado às teorias filosóficas que defendem a unidade da realidade como um todo (em metafísica) ou a existência de um único tipo de substância ontológica, como a identidade entre mente e corpo (em filosofia da mente) por oposição ao dualismo ou ao pluralismo, à afirmação de realidades separadas.”. Endereço https://pt.wikipedia.org/wiki/Monismo, acessado em 08/03/2020.
[iii] Geralmente podemos dizer que o constituinte fundamental da matéria é o elétron, numa simplificação do Modelo Padrão, embora se sabendo que pode se chegar a infinitos níveis de descendência e que estamos sob ameaça da teoria das cordas.
[iv] Pessoa: http://opessoa.fflch.usp.br/sites/opessoa.fflch.usp.br/files/TCFC3-16-Cap03.pdf.
[v] Argumentação de Jaegwon Kim.