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quarta-feira, 29 de novembro de 2023

O empirismo sem dogmas de Quine

Fala do empirismo de Quine, crítico de Carnap[i]

Quine foi influenciado por Carnap e Russell que partilhavam da divisão entre ciências naturais - as que dependem de conhecimento empírico, e a matemática e lógica, compostas de verdades analíticas, sendo que os enunciados da primeira pudessem ser reduzidos aos enunciados da segunda. Porém, como já vimos nesse espaço, Quine questiona a divisão analítico-sintético por conta da noção de analiticidade que os distingue. Se as proposições analíticas dependem somente da compreensão de seu significado, as proposições sintéticas dependem de que se compreenda o significado (linguagem), mas também de como é o mundo.

Quine enfatiza que a distinção traria ganhos a Carnap, por mostrar que as verdades da matemática e da lógica não têm conteúdo empírico e que são necessárias, ao contrário do empirista Mill que pensava que a matemática dependia da experiência. Ocorre que, para chegarmos a uma verdade lógica por meio da analiticidade, ao procedermos com a substituição de termos sinônimos (solteiro = não casado, P = “nenhum solteiro é casado”) validados pela manutenção do significado, uma entidade intermediária, caímos em circularidade e o dogma se expõe, por não ter um critério claro.

Ele também faz a crítica ao verificacionismo reducionista, segundo dogma, que visa testar um único enunciado na experiência, já que deveria depender do todo – o holismo oriundo de Duhem[ii], enfrentando o mundo como um todo coerente. Segundo Quine, qualquer conhecimento é uma construção humana que toca na experiência em seu contorno, podendo haver um conflito que resultará em ajuste dos enunciados. São os enunciados de observação (check points), com os enunciados mais teóricos ao centro, distantes da experiência, como os da matemática e lógica, mas indistintamente, em conjunto, ainda submetidos ao seu tribunal. É o falibilismo, já que qualquer enunciado é passível de revisão[iii], mesmo os analíticos, a diferença é de grau[iv]. Além da adequação à experiência o sistema deve ter virtudes pragmáticas, como fazer boas previsões, ser fecundo, entre outras.

Quine também se atém ao fisicalismo, tomando o mundo com entidades físicas e as entidades abstratas da matemática que são indispensáveis à construção da ciência. Na experiência, o sujeito recebe estímulos sensoriais e dá assentimento ou rejeita proposições, tomando por base os objetos, mesmo os atômicos que são supostos para formulação de leis. Procedimento da ciência que é uma continuação do senso comum.

Já o naturalismo nega que haja uma filosofia primeira que não seja experimental e fora da ciência, pois é essa última que diz o que é que existe (ontologia) e como sabemos o que existe (epistemologia), de como conhecemos o que existe. O empirismo, de acordo com Quine, passa das ideias para as palavras (expressões linguísticas) - evitando o psicologismo; passa dos termos para as sentenças [que podem ser verificadas] como unidade de significado; e passa das sentenças para um sistema de sentenças (holismo e não reducionismo). 

Há o monismo metodológico avaliado por razões empíricas e pragmáticas em todas as sentenças, abandonando a distinção analítico-sintética; não existe um tipo de conhecimento superior ao científico que investiga a realidade, este sempre se sujeita ao tribunal da ciência como sua própria justificação. A própria epistemologia passa a fazer parte da ciência, sendo naturalizada, verificando nossas estimulações nervosas e sensoriais. Não há mais o imediatamente dado, mas tudo é investigado: sujeito, estímulos dos objetos, comportamento verbal, por uma teoria científica que visa solucionar como conhecemos o mundo.

Como somos capazes de alcançar a ciência, gerar teorias que vão muito além da estimulação sensorial? Pelo aprendizado vamos recebendo conhecimento que vem como um todo com pontos que não entendemos, mas vamos investigando por dentro para corrigi-lo, se for o caso. Mesmo a ontologia é interna a teoria, já que supomos as entidades com as quais trabalharemos, no exemplo que Plastino traz de uma semântica extensional que atribui valor a X (por exemplo, um cão que pode ser branco) e que esse X pode ser intercambiado por uma referência ou outra. É o compromisso ontológico do que deve existir: “ser é ser o valor de uma variável ligada”, que satisfaça as condições da teoria. Mas cada ciência trata de certos objetos e os agrupa e descreve, sejam planetas, seres ou números, a depender de cada uma. Já o filósofo busca uma abrangência maior, indo além da aceitação acrítica e visa tornar explícito o que era vago, porém a partir do interior dos sistemas conceituais da ciência ou do senso comum, embora em graus mais elevados e distantes da observação.

Para Quine, a tolerância proposta por Carnap não ficaria presa ao exterior, na escolha das formas linguísticas, mas também iria para dentro do sistema, verificando as questões internas, sua coerência, sendo então de ordem prática também e adequada empiricamente. Por fim, Plastino cita a subdeterminação das teorias pelos dados, já que mais de uma teoria pode descrever um mesmo conjunto de dados e se contradizendo, o mesmo ocorrendo para a tradução[v], onde uma linguagem pode ser traduzida de maneiras diferentes e por elas subdeterminadas, tornando-se indeterminada, até chegar à teoria da indeterminação da referência.

Sigamos, encerra Plastino, reformando o barco em alto mar, nós, ciência e filosofia. Podendo até mudar tudo, mas não tudo ao mesmo tempo e sem sair do barco (de Neurath).



[i] Fichamento UNIVESP https://www.youtube.com/playlist?list=PLxI8Can9yAHcC9hEv4oAnMT5GI1zGRW1_  Empirismo e Pragmatismo Contemporâneos - O empirismo sem dogmas de Quine. Prof. Caetano Plastino.

[ii] Assim como o significado de um termo depende do contexto, do todo ao qual está inserido.

[iii] Podemos ver o contraste entre uma visão de verdade verificacionista de enunciados individuais, supostamente dogmática, e a abrangência da postura holística.

[iv] Mesmo a lei do terceiro excluído teria sido superada pela mecânica quântica, conforme citação de Plastino.

[v] Vide https://www.reflexoesdofilosofo.blog.br/2023/09/gavagai.html. 

domingo, 8 de março de 2020

Emergentismo

Pegamos um recorte pequeno de El-Hani & Queiroz[i], para definir a emergência como a criação de novas propriedades que são emergentes, ou seja, são de um nível superior e se relacionam a uma microestrutura de um sistema. Eles afirmam que uma teoria fisicalista emergente deve se comprometer com o naturalismo, em oposição a entidades sobrenaturais e o monismo[ii] físico: todas as entidades são constituídas de partes físicas[iii] e seguem leis físicas.
Conforme Pessoa[iv], “quando a matéria adquire um certo grau de complexidade, aparecem propriedades genuinamente novas, que não estão presentes em cada uma das partes separadas do todo”[v]. George Henry Lewes, ao tratar da emergência, cita o caso da água: “não sabemos como a Água emerge do Oxigênio e Hidrogênio. O fato da emergência nós conhecemos; e podemos estar seguros de que o que emerge é a expressão de suas condições”.
Cabe ainda citar, conforme Pessoa, o cientista inglês Conwy Lloyd Morgan, que usou a emergência no campo da teoria da evolução biológica tratando do desenvolvimento advindo de mudanças mecanicistas, que ocorrem continuamente na evolução, mas também de efeitos emergentes que surgem no nível da vida, fora do ornamento físico mecanicista. E Charlie Dunbar Broad como o filósofo que mais trabalhou a ideia de emergência na Filosofia da Mente, que permite conciliar materialismo com não reducionismo.
Já o neurocientista Roger Sperry concebeu que os fenômenos mentais não estariam no nível neuronal, mas em uma camada acima, holista, que culminaria com a tese da causação descendente, onde a consciência poderia controlar o cérebro[vi]. Nesse ponto, Pessoa lembra Jaegwon Kim, já que para ele o universo físico teria um “fechamento causal” e não haveria espaço para uma relação causal de natureza mental.



[i]  Conforme "Modos de irredutibilidade das propriedades emergentes", de Charbel Niño El-Hani & João Queiroz, 2005. URL: http://www.scielo.br/pdf/ss/v3n1/a01v3n1.pdf, acesso em 08/03/2020.
[ii] Conforme Wikipédia: “Em geral, é o nome dado às teorias filosóficas que defendem a unidade da realidade como um todo (em metafísica) ou a existência de um único tipo de substância ontológica, como a identidade entre mente e corpo (em filosofia da mente) por oposição ao dualismo ou ao pluralismo, à afirmação de realidades separadas.”. Endereço https://pt.wikipedia.org/wiki/Monismo, acessado em 08/03/2020.
[iii] Geralmente podemos dizer que o constituinte fundamental da matéria é o elétron, numa simplificação do Modelo Padrão, embora se sabendo que pode se chegar a infinitos níveis de descendência e que estamos sob ameaça da teoria das cordas.
[iv] Pessoa: http://opessoa.fflch.usp.br/sites/opessoa.fflch.usp.br/files/TCFC3-16-Cap03.pdf.
[v] Argumentação de Jaegwon Kim.